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domingo, 31 de julho de 2011

Citação

O mal que atinge um membro corta-se ou tolera-se;  quando atinge um organismo inteiro, o homem sabe que é então uma questão de vida ou de morte, ataca e defende-se. Mas uma criatura que perece por imprevidência, fraqueza, logro, não é o Homem -- e o povo sabe-o.

Agustina Bessa Luís, A Sibila

Povo manso

Tenho tanta dificuldade em compreender a projecção mediática que os noruegueses dão ao seu mais recente serial killer como a sua reacção mansa às chacinas que perpetrou. É que ainda não ouvi ninguém, dos dirigentes políticos e policiais aos homens e mulheres entrevistados na rua, a exigir apuramento das responsabilidades e castigo exemplar do assassino, a quem dão livre acesso aos media para livremente expor os seus dislates como se tivesse acabado de ganhar as eleições. Parecem um pacato rebanho de tímidas ovelhinhas conformadas a balir lugares-comuns politicamente correctos. Muito cristão, sem dúvida. Mas que ninguém se espante se o exemplo frutificar.

sábado, 30 de julho de 2011

Regresso

Sete meses depois, dos quais quase quatro internada em hospitais, a maior parte do tempo nos cuidados intensivos e intermédios, por três vezes à beira da morte, eis a minha mãe de volta. Hoje em minha casa, numa festinha de alegria pelo seu regresso do mundo das sombras.


Islamitas e islamistas

Incomodado com a constante referência do Público a "islamistas", fui conferir ao dicionário da Porto Editora. Como previa, só conhece "islamitas":
 adjectivo e substantivo 2 géneros
que ou pessoa que segue o islamismo;


(De islame+-ita)
Não haverá dicionários lá pelo jornal?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Jion

A minha tokui-gata (kata favorita). Gostei desta interpretação (Didier Lupo) e das respectivas aplicações (bunkai):

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Atadores e atacadores

Ainda os sapatos (não, não fui aos saldos). Ouve-se frequentemente dizer: vou atar os sapatos. E eu interrogo-me: um ao outro? Ou será apertar aqueles cordões chamados atacadores? Será que uma das acepções do verbo atacar (vou atacar os sapatos) está em vias de extinção? Que vamos passar a ter atadores em vez de atacadores?

Coisas difíceis

Comprar um par de sapatos (um sozinho não serve para nada). E devia ser fácil: 39, castanhos ou pretos, de atacar, confortáveis, discretos e a prometerem durar. A vendedora, já impaciente com a esquisitice, tenta impingir-me uns.
-- Pois, mas os atacadores fazem parte dos sapatos e quando se partirem fico descalço.
Olha-me assarapantada com tanta ignorância: -- Mas são uns sapatos de vela!
-- Minha senhora, não os levava nem que tivessem motor-fora-de-bordo!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Rua Garré, Madri e outras que tais

Irrita-me a moda -- sinal de velhice, isto de me irritar a moda -- de não pronunciar as consoantes em que terminam certas palavras, geralmente nomes próprios que têm, ou aparentam ter, origem estrangeira. Por exemplo, João Baptista da Silva Leitão, que considerou nome e apelidos impróprios para poeta e escritor (-- Já leste as Folhas Caídas? Sim, do Silva Leitão!) acrescentou-lhe Almeida Garrett. Com dois tês, para, dizia ele, lerem pelo menos um. Pois hoje basta uma reportagem sobre a rua que tem o seu nome para termos úlcera de estômago, à força de ouvir referir a Rua Garré.
Outras vezes são as notícias de Madri, o final botado fora -- mas, estranhamente, nunca ouvi Párri, mas sempre Paris... 
Eu, por mim, sem medo de que me julguem ignorante, persisto em pronunciar à portuguesa os nomes próprios estrangeiros, na linha do que defendia o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, a propósito dos estrangeirismos:  nós cá trataremos de os amansar.

domingo, 17 de julho de 2011

Leituras

Leio sobretudo  por duas razões: por prazer e para aprender. Sem isto, bem pode um autor  receber encarecidos encómios dos críticos -- e como eu confio neles, no seu bom gosto e, sobretudo, na isenção! -- , pode até ir posar nu para a auto-estrada, que eu, na melhor das hipóteses, folhearei a sua obra-prima, lendo-a em diagonal, apenas  para ter a certeza de que estou a ser meramente preconceituoso e não estupidamente preconceituoso.
De momento, estou a ler The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality [Kindle Edition]. Interessa-me muito mais o Espaço e o Tempo do que, por exemplo, as desventuras de um quarentão que quer ser pai. Enfim, há gostos para tudo e longe de mim pretender insinuar que querer compreender o Universo, o Espaço e o Tempo seja mais interessante do que uma paternidade serôdia.

sábado, 16 de julho de 2011

Alves dos Reis

Génio das finanças português. Atribui-se-lhe a pergunta: "Que é roubar um banco ao pé de fundar um banco?" Na sua genialidade decidiu produzir notas falsas exactamente iguais às autênticas. Com sucesso. Apenas -- um desses azares, comparáveis às "notações" da Moody's -- um caixa de um banco ficou perplexo ao encontrar duas notas iguaizinhas, com a mesma matrícula. Por culpa deste picuinhas, Alves dos Reis teve um fim triste, indigno do seu talento para as finanças.

ADENDA: o meu amigo Acácio duvida de que a trafulhice de Alves dos Reis tenha sido descoberta graças ao episódio das notas iguais. É muito provável que eu esteja enganado: reproduzi a anedota que ouvi em miúdo. Descoberto dessa ou de  outra forma, Alves dos Reis teve um fim de vida sofrido e, o ponto que me interessa, foi seguramente um génio incompreendido das finanças, antecipando em quase um século a política financeira dos Estados Unidos: emitir dólares sem cuidar da correspondência entre o papel e o respectivo valor em ouro ou em qualquer outra riqueza.
Já agora, Acácio: não terás na tua colecção uma das notas de Alves dos Reis?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Regresso

De dez dias de férias em Lagos. Reencontro com estatísticas, relatórios, mail atrasado e, em breve, a 2ª fase dos exames. Felizmente (para mim, que já não estou na praia), o tempo refrescou. Ah, e há também umas notícias com piada: o Obama a comparar os EUA com Portugal, dizendo de nós o que os nossos governantes ainda há dias diziam da Grécia: nós não somos...
Decididamente, o capitalismo atingiu o estádio supremo da estupidez. Ao ponto de o presidente americano não conseguir perceber que emitir dólares não é produzir riqueza. Nas últimas décadas, os génios das finanças não fizeram mais nem melhor do que Alves dos Reis ou a D. Branca. Conseguem entender?
Yes, we can.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nascido a 4 de Julho

O Miguel, que hoje fez três anos. Como diz o povo, são eles que nos fazem (sentir) velhos, tão depressa crescem.
Olho negro, nariz negro, grita IÁ, respondem os irmãos IÁ, influências do Panda Kung Fu. Talvez mais tarde se venham a interessar pelo karaté.

domingo, 3 de julho de 2011

Ufa!

Terminei há instantes pesada tarefa que por esta altura todos os anos me espera. Até que se fartem de mim e chamem gente mais jovem. Enfim, conteúdo funcional, nada a acrescentar. Salvo que me dói a mão e até tenho calo no dedo anelar direito de tantas vezes escrever o meu nome. Quase oitenta vezes seguidas, ao ponto de já nem ter a certeza de como me chamo. 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Strauss-Kahn revisitado

Por uma e outra vez, manifestei aqui dúvidas sobre a violação de uma empregada de hotel pelo então boss do FMI. E revoltei-me ao ver multidões em fúria, à porta do tribunal, a injuriá-lo, gajas histéricas a exigirem a sua cabeça porque se não é culpado desta, é-o certamente de outras, numa versão moderna da fábula do lobo e do cordeiro: Se não foste tu, foi o teu pai! -- afinal, cenas déjà vues aquando do processo Casa Pia. Os ricos, os poderosos, os influentes, que as multidões adulam, são sempre culpados e merecem expiar os pecados da turba que os lincharia alegremente. Sempre foi assim, de Cristo aos regicídios, talvez por isso o Santo Ofício queimasse uns pobres diabos para evitar que a populaça assasse os grandes diabos. Catarse.
Não me surpreende, portanto, que hoje os media noticiem fragilidades na acusação. Só me surpreende que tenha sido preciso tanto tempo -- o suficiente, porém, para que Strauss-Kahn fosse substituído no FMI -- para verem o óbvio. E às numerosas indignadas deste país e d'ailleurs, só posso sugerir que da próxima vez se lembrem da dúvida metódica para que não baste uma criatura gritar que foi abusada para crucificar alguém. Não é apenas a presunção da inocência; é a diferença entre a barbárie e a civilização.

Da entropia

A segunda lei da termodinâmica é uma formulação científica do pessimismo: num meio fechado, a entropia aumenta sempre. Toda a organização se consegue à custa do caos criado – e este cresce sempre. Prosperaram sociedades organizadas na Europa e na América do Norte, tão ricas que até dispensavam migalhas para ajudar as vítimas do caos necessariamente criado em África e na Ásia; tão ricas que depois das matérias primas passaram a importar também os operários -- até concluírem que era preferível deslocalizar a produção e os seus custos humanos e ambientais. E a entropia diminuiu no antes chamado Terceiro Mundo, aumentando consequentemente no Ocidente. O caos da Grécia, da Espanha, não é fenómeno passageiro e localizado: é um sinal dos tempos. Num meio fechado como é o planeta Terra, a entropia aumenta sempre.

ADENDA, só necessária porque (1) Portugal é o país da esperança, seja no regresso de D. Sebastião, seja na protecção da Senhora de Fátima e (2) Portugal é o país da retórica (enfim, de uma certa retórica, onde todos se convencem de que é tudo uma questão de palavras e de conversa fiada -- talvez por isso os políticos saíssem maioritariamente de Direito, isto antes de saírem das jotas):

Contrariamente às leis religiosas ou jurídicas, uma lei científica não conhece excepções, seja aqui seja em Andrómeda: ou está correcta ou não está. E todos os dados disponíveis, toneladas, terabites deles, evidenciam a correcta formulação das duas leis da termodinâmica.

Ajax

Quando o jovem Ajax partiu para a guerra de Tróia, o pai recomendou-lhe que se encomendasse à protecção da deusa Atena. Recusou: com a ajuda da deusa dos olhos garços até o mais fraco dos homens brilharia na guerra. Não, ele haveria de vencer sem a ajuda de Atena e, se preciso fosse, contra a própria deusa – que, vingativa, o enlouqueceu e o precipitou na desgraça. E Ajax empalou-se, lançando-se sobre a própria espada.
Ai, ai, Ajax!
Ai, ai, Ajax! Quase vinte e cinco séculos se esboroaram, tudo continua na mesma: ai de quem não suplica a protecção dos deuses e deusas, fingindo que não lhes vê os pés de barro!