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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A árvore das patacas (2)

1976. Estava sozinho na sala de professores. Entra um tipo de gabardina apesar do calor, mais sebento do que o detective Columbo. A tresandar a cinzeiro.
-- É pá, já pagam? -- pergunta-me rudemente, à queima-roupa.
E eu, sem saber com quem falava: -- Ainda não. Creio que é só a 25.
-- Vou pôr uma bomba nesta merda. Olha, vou é prá Rússia, que lá há putas e vinho verde!
E desapareceu dali. Soube depois que estava de baixa por maluqueira. A receber o ordenado como se trabalhasse. Aprendi mais tarde que os malucos ganhavam o mesmo, progrediam por igual na carreira, só não precisavam de trabalhar. Na pior das hipóteses, colocavam-nos na biblioteca.

A árvore das patacas (1)

(Ao telefone)
-- Soube que a vossa empresa está a meter pessoal...
-- É verdade...
-- Quero marcar uma entrevista. Vocês pagam bem?
-- Bom, pagamos acima da média.
-- Mas olhe que só vou se me pagarem pelo menos três mil euros por mês!
-- Só três mil? Aqui pagamos melhor. Apareça amanhã às oito da manhã.
(-- É pá, esqueceste-te de que só abrimos às nove?
-- Claro que não. O gajo há-de levantar-se cedo uma vez na vida. E perder a manhã, a ver se aprende alguma coisa.)