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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Comissões de boas vindas

Agosto de 1981. Universidade de Montpellier. Nós, bolseiros, chegáramos dos quatro cantos do mundo. Os russos, então soviéticos, não falavam com ninguém - estavam proibidos, ou receavam o controleiro, o único que interagia com a universidade. Os polacos, por um mês fora da cortina de ferro, extravasavam a alegria e logo no primeiro domingo surpreenderam o padre ao encherem-lhe a igreja. O controleiro russo tenta conversar com eles. Viram-lhe as costas com desprezo: França é terreno neutro, on en a assez, ils nous emmerdent en Pologne. E havia os chineses, inchados com a sua revolução.  Todas as manhãs batiam à porta do professor responsável: se os norte-americanos já tinham chegado. E um dia chegaram. Ei-los que finalmente podem cumprir a missão para que se haviam preparado: punho erguido, cantam para o surpreendido gigante barbudo americano, calções, tronco nu, o hino Abaixo o imperialismo yankee!
Esperariam talvez poder reatar ali, no quente Sul de França, os conflitos do Sudoeste da Ásia. Mas o americano, sem parecer compreender a declaração de guerra, tomou a provocação por simpática recepção, agradeceu, e retirou-se para dentro do quarto. Suponho que no regresso à China terão sido recebidos como heróis, eles que, mais uma vez, e nos antípodas, provaram que o imperialismo americano é um tigre de papel.
Lembrei-me deste episódio hoje, ao ver no telejornal um grupo de sete manifestantes a protestar junto à casa de férias do presidente da republica. Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares, só o ridículo é o mesmo de sempre. 
FOTO: em Montpellier, com parte do grupo português. 

domingo, 17 de junho de 2012

Ainda o regresso aos campos

Um papa, esqueci o nome, contava que há três maneiras de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres, na agricultura. Acrescentava: -- O meu pai escolheu a mais trabalhosa.

Regresso aos campos


Durante décadas e décadas, os nosso economistas e governantes esforçaram-se para que os campos esvaziassem. Argumentavam então que a taxa de camponeses em Portugal era muito superior à dos países desenvolvidos da Europa; que com tanta gente a sobreviver na agricultura a produtividade era baixa, os proveitos reduzidos; que e mais que... Cépticos como eu viam cinismo em tão boa vontade, em tão grande preocupação com os sofrimentos dos camponeses, que não compravam os alimentos nos hipermercados e ainda valiam aos filhos, enchendo-lhe os porta-bagagens dos carros quando os visitavam. Era preciso que o campo deixasse de produzir e passasse a consumir; era preciso que os filhos dos agricultores se abastecessem nos hipermercados, como fazem as pessoas civilizadas por essa Europa fora, e não na casa paterna.
Depois, vieram os golpes de misericórdia: fecharam as maternidades, as urgências, as escolas, agora os tribunais, as juntas de freguesia, portajaram-se as antigas SCUT... 
E com os campos quase ao abandono, em ano de seca, ora severa, ora extrema, eis que os génios da economia e das finanças, que também são políticos a contragosto, vêm defender o regresso dos jovens ao campo. Prevejo que será um sucesso: as raparigas preferirão os rapazes que melhor lhes falarem do perfume da bosta, da vida idílica longe dos centros comerciais, das escolas, dos hospitais, a comerem o que a terra lhes der, se der, a amealharem os proveitos dos excedentes, vendidos a intermediários com profundo sentido de justiça.
E porque palavras leva-as o vento, termino com história contada dois dias atrás por agricultor septuagenário, que ganha a vida como pedreiro:
-- Zé, contou-me, fui vender a Leiria 300 quilos de batatas. Sabes a como é que mas pagaram? A 22 cêntimos o quilo.
Faço contas de cabeça: -- Sessenta e...
-- Sessenta e seis euros. Ora vê lá o que ganhei, depois de pagar o gasóleo do transporte, e as horas que perdi. Se acrescentar o trabalho da arranca... Para já não falar da plantação, das curas...
Portanto, senhor presidente da república, senhor primeiro-ministro, continuem a vossa campanha em prol do regresso aos campos: os jovens ouvir-vos-ão entusiasmados, e prontamente repovoarão os campos, e assim se salvará a pátria -- a não se que ponham a pensar em quantos quilos de batata precisarão de produzir, de arrancar, de vender para comprar um smart phone.
NOTA: com a ajuda do meu sócio destas aventuras agrícolas, já tenho as batatas armazenadas. Boa produção em ano ruim. Mas não se pense que o trabalho terminou: é preciso combater regularmente a traça, que pode destruir por completo a produção, como fez dois anos atrás, e a podridão. Trabalho porco, fedorento -- nem imaginam como uma batata podre cheira mal --, cansativo. Inútil, por vezes.