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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os especialistas

Com uma fé irracional como o são todas as fés, a humanidade delegou nos entendidos o seu destino -- e o resultado está à vista: a Europa, o Mundo, enfrentam uma crise como não conhecemos outra em tempo de paz. O mais caricato é que num tempo de desorientação, em que verdadeiramente ninguém sabe o que fazer nem qual a solução, se chamam os fautores da desgraça para nos devolver a prosperidade de outrora, como na Grécia e na Itália, agora governadas por homens anteriormente ligados à Goldman Sachs; na vizinha Espanha, o presumível vencedor não parece saber o que fará eleições ganhas; Obama palra; a China acumula desaires da Líbia aos vizinhos do Sul, num desnorte confrangedor; o Japão, incapaz de se refazer da catástrofe nuclear, anda apagado... 
Há, porém, vozes dissonantes, que deveriam ser escutadas porque têm do seu lado a experiência, acumularam resultados positivos, aprenderam com os fracassos; mas na nossa arrogância, desprezamo-los porque são velhos, porque são da maldita esquerda, porque não são especialistas em Economia, em Gestão, não trabalharam nas financeiras responsáveis pela crise, não propõem como única saída cortes e a destruição do modo de vida ocidental, o qual, com a suas imperfeições e talvez inviabilidade económica, é seguramente bem melhor para os desvalidos, os enfermos, os pobres do que a alternativa que se esboça: saúde, educação, pão para quem puder pagar.
Dentre esses homens, uma raposa velha: Mário Soares, que hoje afirmou, entre outras coisas, isto:
“Os europeus vão ser obrigados a meter as agências de rating na ordem e a acabarem com a ladroagem dos paraísos fiscais”
Receio que tal vá demorar. Porque os especialistas que são chamados à governação, cá e lá fora, aprenderam pela mesma cartilha económica e onde Soares vê ladroagem eles vêem as virtudes e as potencialidades do sistema financeiro. E nós, iludidos pela crença nos especialistas nisto e naquilo, depositamos a nossa esperança, os nossos salários, o nosso futuro, precisamente em quem nos corta a esperança, os salários e, receio, o futuro.
Nota: não me interessam os disparates maniqueístas que opõem esquerda e direita. Em termos de partidos, a merda é a mesma. O que não significa que pretenda governação tecnocrática, à italiana ou à grega.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Detesto ter razão

Em breve, a Alemanha, a França e demais ricos também estenderão a mão à caridade dos especuladores... Prevejo também greves, revoluções e conflitos étnicos e religiosos na China...
Mudem de rumo. Enquanto é tempo. Porque, já todos deveriam ter percebido, o problema não é a Grécia, Portugal ou a Irlanda. É a desordem financeira mundial -- nenhum país está, nem ficará, imune, do Brasil à Rússia, de Angola aos EUA. É preciso por freio duro na cobiça, já dizia Camões:
E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro
Verdadeiro valor não dão à gente:
Melhor é, merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.

sábado, 5 de novembro de 2011

Ténue sinal de esperança

Digo e repito: não há esperança no actual estado de coisas. Por isso me agradou ouvir ontem Sarkozy prometer combate sem tréguas aos paraísos fiscais. Não é ainda a solução; mas pode ser um bom princípio, isto se se passar das palavras aos actos.

sábado, 6 de agosto de 2011

A riqueza virtual

Bombardeado diariamente com imbecilidades noticiosas, vejo-me obrigado a, mais uma vez, meter a foice em seara alheia, falando da área económico-financeira, de que nada entendo, como a minha própria situação evidencia. Em defesa da minha pretensão, um argumento que julgo supremo: foram os entendidos, os génios das finanças, que conduziram o Mundo ao ponto em que se encontra. Portanto não saberão muito mais do que eu... Aqui vai.
Poucos animais se preocuparão com riquezas. Uma das excepções será o cão, pervertido por longo convívio com o homem. O meu, por exemplo, se acaso tem abundância de ossos, enterra o excedente; mas como esquece onde enterrou o seu tesouro, escava todo o jardim em busca da sua riqueza perdida...
O ser humano, complicado por natureza, tem desde há muito procurado algo que o superiorize em relação aos seus semelhantes: conchas, contas de vidro, quinquilharia, gado, artefactos em metais até há pouco perfeitamente inúteis, como ouro e prata. A riqueza resultava, não raro, da acumulação de objectos sem finalidade utilitária, frequentemente em associação com a arte. Havia, claro, riquezas sólidas, como a terra, casas, meios de produção, mas pelo reduzido peso que têm na economia actual, esqueço-as neste post.
Hoje, o que há é, antes de mais, especulação. Suponhamos que um pintor impressionista vendeu um quadro. Essa venda incluía materiais, mão-de-obra, talento artístico, criatividade, etc. De onde veio o valor actual, milhares ou mesmo milhões de vezes superior ao da primeira venda, se nenhum valor foi acrescentado à pintura original? A resposta é: especulação. Uma empresa colocou no mercado acções, as quais  valorizaram astronomicamente relativamente ao preço de venda inicial? Especulação. Uma moradia foi vendida e revendida em curto espaço de tempo sempre com grandes valorizações: especulação. E para a especulação poder funcionar é necessário emitir cada vez mais papel-moeda, já esquecida a correspondência que em tempos houve entre as notas e riquezas mais consistentes, como o ouro. De modo que chegámos a um momento da história em que a riqueza é antes de mais especulação, com fraca ou nenhuma relação com a actividade produtiva. Assim, quando uma empresa reduz a produção, despede pessoal, as suas acções sobem e, inversamente, quando anuncia lucros e aumentos de produção, caem. Absurdo? Sem dúvida. Por isso abundam as notícias como esta:
As bolsas mundiais já perderam mais de 3,1 biliões de euros desde que a crise da dívida soberana na zona euro se instensificou, desde o princípio da semana passada, de acordo com a contabilização feita pela agência Bloomberg.
Aparentemente, não há qualquer relação entre a produção de riqueza não especulativa e a queda bolsista. Se assim for, as quebras ocorrem sobretudo na área especulativa, afectando o valor virtual e não tanto o valor real das empresas cotadas, seguramente bem inferior.
Será já no próximo ano que se lembram de mim para o Nobel da Economia?
ADENDA: veja-se também esta notícia:
Homem mais rico do mundo perde 8 mil milhões de dólares em quatro dias