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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Álcool provável

A colheita deste ano promete: álcool provável acima dos catorze. E é possível que ainda aumente até à vindima, agendada para 26 deste mês.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Luso-Poemas encerra


Primeiro foi Escrita Criativa, agora Luso-Poemas. Ignoro o motivo, mas não me surpreenderia que se devesse às constantes questiúnculas internas, conjugadas com a incapacidade de avaliar criticamente os materiais publicados. Explico-me: não faltam por aí poetas e poetisas inspirados, convencidos de que basta derramar sentimentos como derramam lágrimas para que surja poesia. E tão convencidos estão do valor actual das suas composições que qualquer crítica, por muito modalizada que seja, é recebida não com agradecimentos, mas com insultos. Na melhor das hipóteses responderão que é assim que gostam de escrever e ponto final (ou, como escreve Mia Couto, "pronto. Final").
Esta reacção arrogante à crítica foi especialmente evidente no Escrita Criativa, projecto que, no entanto, poderia ter contribuído positivamente para a divulgação de novos autores, se a parte ruidosa dos utilizadores do site tivesse conseguido perceber e aceitar que para escrever é preciso, (i) antes de mais, saber escrever, (ii) ler os outros, muito e constantemente, (iii) trabalhar incessantemente, sobrepondo à inspiração as virtudes terapêuticas da transpiração. Ambos os projectos foram também seriamente prejudicados por engraçadinhos que, sempre escondidos atrás de inúmeros nicknames, avacalharam os sites e provocaram a saída de autores sérios e empenhados no trabalho. Destes últimos, ficam as saudades da leitura quase diária dos seus textos, alguns deles muito promissores, e a certeza de que encontrarão outras formas de os continuar a divulgar.
Por fim, uma palavra de solidariedade para com os responsáveis por ambos os projectos, esperando que as desilusões e os prejuizos económicos sofridos os não levem a abandonar o sonho de criar um dia um portal aberto e democrático da literatura 'não oficial'. A ambos, o meu reconhecimento sincero.

Correcção: no dia seguinte Luso-Poemas voltou a funcionar, sem quaisquer explicações por parte do administrador. Aparentemente, o mau ambiente persiste, pelo que entendo não haver motivos para apagar ou para corrigir o presente texto. Também a EditonWeb, projecto em que depositei grandes esperanças parece ter fechado portas após muitos meses de coma profundo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Trabalho infantil

O meu ajudante mais novo: o Miguel.
Pé descalço como o avô.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O agoireiro


"O director-geral da Saúde (DGS) congratulou-se, esta segunda-feira, por Portugal não ter registado qualquer morte associada à gripe A, mas alertou que esta situação não vai manter-se, prevendo que a crise causada pela epidemia dure até dois anos. Contudo, o especialista em saúde pública alertou: «Não vamos continuar com uma letalidade de zero.»" (Extraído do Sapo)
Todos sabemos que vamos morrer um dia, não precisamos que o director-geral de Saúde (DGS, que sigla estranha!) o venha recordar. Afinal, é pago para nos manter vivos e de saúde, ou para agoirar a nossa morte?

Ternura e cultura


Sexta à noite, após o jantar, sentei-me sozinho no meu quintal a saborear o fresco. O Afonso, tendo dado pela minha falta, chegou e sentou-se a meu lado.
-- Avô, queres um JB? (Sim, já lhe ensinei essas duas letras).
-- Já não há, o avô já o bebeu todo.
-- Há no armário, respondeu, sempre convencido e confiante, e entrou em casa. Regressou desolado:
-- Já não há...

domingo, 13 de setembro de 2009

Vida de cão

Era um rafeiro chato: sempre que passeava pela rua, cheirava cuidadosamente cada parede, cada poste, cada automóvel estacionado, procurando marcas de outro cão que primeiro por lá tivesse passado; quando as detectava, prontamente urinava em cima, às vezes só pingos simbólicos, tendo já esgotado no percurso a reserva hídrica que acumulava penosamente ao longo de todo o dia – mas contava a intenção: a última palavra havia por força de ser a sua, mesmo que nada significasse.
Os outros, fechados nos quintais onde descansavam do passeio diário, talvez dormitando enquanto sonhavam deliciados com a cadela do fundo da rua, que, mais dia, menos dia, há-de entrar em cio, soerguiam uma orelha e, se mais vividos, soltavam rosnadela quase imperceptível: -- Lá anda aquele filho de uma cadela!; se jovens e impetuosos, corriam devastando relvados e flores, atiravam-se furiosos ao portão, impotentes para impedir o sacana de sobrepor as marcas do seu egoísmo, como se paredes, postes e carros não fossem suficientes para todos – ou se em cada mijadela alheia visse a evidência da sua mediocridade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Incêndio

"É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já de balde na mão enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.

Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, porque o clarão do incêndio parece vir de lá, todos correm feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear do Abel, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, --- Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do Abel e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada.

--- Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, --- Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio --- afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.

Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear do Abel, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por solidão e por carraças."

Inédito meu

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Incêndio

"O ano anterior, 1931, fora um ano de seca terrível, como só haverá outra parecida no próximo século. Secaram as ribeiras de todo o ano, secaram as próprias nascentes, obrigando as mulheres a passar as noites de Verão na fonte, aguardando a vez para, pingo a pingo, encherem cântaros, canecos e bilhas enquanto aproveitam para pôr as conversas em dia. E quando a estiagem infernal estava prestes a terminar, os Montes arderam.
Nesse dia, o Jaime acordara com uma ligeira dor de cabeça, que piorava à imagem do tempo, cada vez mais pesado, cada vez mais soturno; de uma moinha tornara-se num latejar cada vez mais forte, como se a cabeça fosse rebentar, doendo ao menor movimento, disposição a condizer: rabugem, irascibilidade, impaciência para consigo próprio e para com os outros. Para piorar, tivera de ir enxofrar a vinha das Mogueiras, onde, vira na véspera, o oídio já entrara, apodrecendo precocemente os cachos de uvas.
O enxofre saía da torpilha e envolvia-o, colando-se-lhe às mãos, à face, dando-lhe um ar de Satanás amarelento e sulfuroso, naquele trabalho de inferno, sob um sol também ele amarelado e diabólico, que o queimava por fora enquanto o enxofre ardia por dentro, abrasando pulmões, garganta, secando narinas e boca... Encharcada pelo suor, a roupa colava-se-lhe ao corpo, assando-lhe os sovacos, as virilhas... Nem os pés escapavam, roídos pelas duras botas, que nem o sebo amaciava já, e que o arrastavam veloz de cepa em cepa, sempre envolvido na nuvem sulfurosa que acabaria com o cinzeiro, se não acabasse com ele primeiro...
De tempos a tempos, levantava a cabeça para olhar o céu, receando que as pesadas nuvens desabassem sobre a terra sequiosa, o que, pensava, se aliviaria a pressão na sua cabeça, deitaria a perder o seu trabalho, lavando o enxofre que penosamente aplicava sobre parras e cachos de uvas. Tinha acabado de despegar quando o céu explodiu em fogo e vento; o dia fez-se subitamente noite e a noite se tornava dia rasgada pela luz arrepiante dos relâmpagos. Nos Montes, as mulheres que preparavam já a ceia, estremeceram apavoradas com o ribombar dos trovões e de imediato entoaram a ladainha da Santa Bárbara, esperando que lhes acudisse na desgraça iminente:
Santa Bárbara, bendita
que nos céus está escrita
a papel e água benta
levai para longe esta tormenta
para onde não haja garfo nem colher
nem vaca nem vitelo
nem homem nem mulher...
Grandes deviam ser os pecados do Homem, porque a tormenta, em vez de se afastar, aproximou-se e já não era só o firmamento que despejava fogo sobre a terra, era também a terra que crescia em labaredas ao encontro daquelas que desciam do céu: com um ruído assustador, levantara-se pouco antes um vento quente e seco, que rapidamente espalhou em todas as direcções as chamas que os raios haviam ateado. Então céu e terra uniram-se, tudo vermelho, tudo chamas, sem piedade pela vida de árvores, animais e pessoas. O sino tocou a rebate, o povo saiu à rua, carregando baldes, canecos, almudes e enxadas, sob o uivo fúnebre das mulheres, que carpiam já a desgraça pressentida, todos sabendo que o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar e em matar, precisa de destruir tudo por onde passa.
Foi uma guerra antecipadamente perdida. Os campos secos incendiaram-se como um fósforo e as labaredas, empurradas pelo vendaval terrível que se levantara, atacaram os currais, os palheiros, as adegas e até as casas da periferia; o povo desuniu-se e cada qual procurou salvar o seu e acudir aos seus, permitindo que as chamas entrassem pelos Montes adentro, pelo Pátio dos Vieiras, inflamando as casas como fogueiras de Santo António, uma após outra, até à Rua Principal.
Desesperado, que também a sua casa pegava fogo, o regedor correu para o posto público, na loja da Tia Joaquina, e telefonou para Alcobaça, suplicando ajuda. O presidente da Câmara, alarmado com os gritos que ouvia distintamente pelo telefone, chegou à rua e vendo o clarão que iluminava o céu, disse: — Acudamos depressa, senão os Montes morrem queimados!
Chegou quase uma hora depois, à frente dos bombeiros, e logo se atiraram todos ao combate desigual, trazendo alento ao povo já exausto; porém, dos Montes só restaria um brasido se não tivesse chegado ajuda vinda do Alto, como se Deus se tivesse apiedado ou então considerasse suficiente o castigo: desabou uma tromba de água, e o povo, cristão e ateu, caiu de joelhos, entoando Bendito seja o Senhor lá nas alturas! As chamas enfraqueceram e homens, mulheres e garotos, molhados que nem pintos, tremendo de frio e ardendo em calor, conseguiram até à madrugada circunscrever os incêndios, apartando-os uns dos outros.
O nascer do dia mostrou a devastação, cada qual avaliando os prejuízos, procurando ainda salvar relógio de sala, cadeira, ou galinha; então, ergueu-se em uníssono um coro de lamentações, como se as mulheres carpissem em simultâneo a morte de todos os homens da aldeia; não, elas choravam a perda dos parcos haveres, o sofrimento futuro, sem tecto, sem mobiliário, sem gado, sem ninguém que lhes acudisse, enquanto davam punhadas no próprio peito, arrancavam os cabelos, rasgavam os joelhos pelas pedras da rua: — Valei-me, Senhora de Fátima, que irá ser de mim e dos meus meninos? Depois, tendo carpido as perdas próprias e alheias, com a coragem do desespero, tocaram mais uma vez a burra para diante."

Entre Cós e Alpedriz

Leitura recomendada

No blogue artedosdias, de Julieta Monjinho, migas de leite.

Sexo e género

Está na moda, e é certamente politicamente correcto, falar em "igualdade de género", "violência de género". Não deixa, no entanto, de ser um tremendo disparate, ao confundir o cu com as calças.
Sexo é biológico; género é gramatical. A primeira categoria pode assumir três valores: macho, fêmea e, suponho, hermafrodita (que os biólogos me desculpem alguma incorrecção). O género, em Português, têm dois valores: masculino e feminino, embora noutras línguas exista o género neutro. "Livro" é, em Português, do género masculino e não tem sexo. Certo?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Nas curvas de Cós

"--- Ou volta connosco para Pombal, ou sai aqui e vai à boleia. Duvida: a esta hora, quem parará? Mas não tem outra solução e é isso que faz, com tanto azar que o deixam junto a um cemitério, raio de lugar, raio de hora, como chegará a casa, a uns bons trinta quilómetros? Meia hora depois, avista uns faróis, pede insistentemente boleia, o carro afrouxa, chiam os pneus com a brusquidão da travagem, ainda tenta explicar-se, mas interrompe-o voz apressada: --- Entre!

É médico e já devia estar há horas no hospital de Alcobaça, atrasou-o outro parto que correu mal, imagina rindo a fúria da parturiente que o aguarda gritando com dores, as imprecações da parteira, uma e outra supondo-o no conforto de cama de amante ou em farra bem bebida --- se é homem há que esperar o pior, dir-lhes-á a sabedoria feminina. Não está incomodado, insultos e pragas aliviam o sofrimento de uma e a aflição da outra, e talvez entretanto a criança nasça sem a sua ajuda, poupando-lhe o trabalho de a pôr cá fora. É também aflito que o João se retesa e segura ao que pode, enquanto o doutor, divertido, troça dos seus receios, estranhos em quem pede boleia à porta do cemitério à meia-noite: parara convencido de que fosse alma penada que quisesse fugir de lugar tão solitário... O João, desesperadamente agarrado à porta para evitar cair em cima do doutor nas curvas, para não ser projectado nas travagens nem bater com a nuca nas acelerações, que, embora o veículo tenha já cinto de segurança não sabe como o pôr nem se atreveria a fazê-lo, ofendendo o condutor, aproveita uma recta para se explicar: tinha ido visitar a namorada, adormecera na camioneta e perdera a ligação...

Depois, sério, vendo a cara inocente do rapaz, dá conselhos, os quais, como sempre sucede com todos nós, só serão tomados, se o forem, tarde de mais. Diz-lhe que o comportamento feminino é frequentemente imprevisível, porque homens e mulheres pensam e reagem de diferentes maneiras, dão diferente importância às coisas... O João ouve-o, embora a atenção se concentre na estrada, como ele próprio gostaria que o médico também fizesse, olhando para o caminho em vez de o olhar nos olhos quando fala, bom seria também que não tirasse as mãos do volante para gesticular... Vendo que o pendura está mais preocupado com a sua condução “agressiva”, como a caracteriza, do que com os conselhos que prodigaliza, lembra-lhe que ele próprio trava quando entender necessário, não precisa o João de o fazer, nem de se inclinar nas curvas, que não vão de mota... Agora as mulheres, insiste, talvez por as considerar especialidade sua, pela profissão e pela importância que lhes dá fora dela, as mulheres podem ser, e são frequentemente, um problema, porque os homens as não compreendem nem são ensinados a fazê-lo.

--- Por exemplo, há mulheres que no período mudam por completo de comportamento, tornando-se agressivas, más, embirrantes, entendendo que por elas passarem mal os companheiros se devem desfazer em atenções, quando muitas vezes eles nem sequer sabem do sofrimento que as aflige --- mas se gostassem realmente delas, deviam adivinhá-lo, sem que fosse preciso explicar-lhes, pensam elas.

--- Olhe, continua, conheci casos de casais com óptimo relacionamento que acabaram por se separar por causa desta incompreensão, elas ofendidas com a falta de solidariedade para com os tormentos delas, tão zangadas ficavam que acabada a menstruação os continuavam a privar da ração ou, se acaso entretanto faziam as pazes, entretanto começava novo período... Um círculo vicioso, está a ver, não é?

Mas o que o João via era a morte diante dos olhos: chiavam pneus, os faróis devassavam a noite, árvores e muros corriam loucamente direito ao carro e desviavam-se no último momento, o cheiro da borracha queimada penetrava novamente no interior do veículo... A dada altura, uma nuvem de centelhas chispou quando a parede de uma casa se não arredou, mas o médico nem sequer afrouxou:

--- Deixe lá, é só chapa riscada, o seguro paga a pintura. Onde é que você mora?

E insistiu em o deixar em casa, para terror do João, ao imaginar aquela condução louca pelas curvas de Cós acima. Tinha razão em se assustar, que o médico parecia querer antecipar o lema que o povo dos Montes defendeu nos anos noventa, sem conseguir convencer o Presidente da Câmara: Vamos fazer das curvas uma recta! Por várias vezes o carro teve pelo menos uma roda no precipício, chegou a entrar pelo atalho e após saltos violentos, apercebendo-se de que a o caminho não era por ali, acelerou em marcha-atrás, enquanto os cabelos do João se punham em pé ao ver a velocidade a que recuavam sem que fosse possível descortinar na escuridão os limites do abismo; na Curva da Segunda o automóvel derrapou tanto que quase fez inversão de marcha:

--- Isto sim, são curvas que dão luta! Hei-de cá voltar!

Subiam já em estrada melhor.

--- Olhe, tenho uns colegas com a mania dos ralis, vou desafiá-los para uma corridinha até cá acima."

Foto: as Curvas no Google Earth

Inédito meu. Ler mais

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

A Oeste nada de novo

Agoniado com a campanha eleitoral tristonha e enfadonha, enojado com as matreirices que, de parte a parte, os nossos políticos inventam, mais preocupados em denegrir as propostas adversárias do que em evidenciar o mérito das próprias, sobretudo sem paciência para a novela A Manuela & a TVI, recordo-me de Camões:

"Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a Pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e da rudeza

D'ua austera, a
pagada e vil tristeza."

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Kara Té

A (Arte da) Mão Vazia.
Está na hora de recomeçar, perdendo aqueles quilitos extra que férias, sorna, cama e boa mesa acumularam. No programa pessoal, Jion e kumité. Está também previsto o regresso ao ensino (sempre gratuito) da arte, interrompido nos dois últimos anos por condicionalismos que estão, espero, ultrapassados.

Setembro



"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios." Ler mais

Assim começa Do lacrau e da sua picada

(Imagem do pintor João Alfaro)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Gaba-te, cesta,

que vem aí a vindima.
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domingo, 30 de agosto de 2009

Fotos de Agosto

Aqui

Canícula

"Agora andava na apanha do tomate. Sol a pique, incendiando o céu, e elas, quase só mulheres, empapadas de suor, pó e aquela massa pegajosa de tomate, nas mãos, na cara, na roupa, vermelho por todo o lado, céu vermelho, em brasa, terra vermelha dos tomates rebentados, mais o maldito cheiro adocicado, — Provavelmente nunca mais conseguirei comer tomates. E sempre numa lufa-lufa diabólica, que a tanto obriga o pagamento à caixa, sempre naquela esturra...
Tentam pensar noutras coisas, mais agradáveis, mais frescas, mas parece que até os pensamentos fazem calor e inevitavelmente incendeiam-se como a planície, como o céu, como o Sol. Nem adianta tentar dizer larachas para ajudar a passar o tempo, abrindo a boca entra mais calor. (As chalaças ficam por conta do patrão, à sombra, claro. Este nem é dos piores, ainda faz alguma coisa, ajuda a carregar as caixas, vai descarregar o tractor, que remédio tem ele, a crise da agricultura não é só conversa para conseguir subsídios. É possível que sinta, apesar do incómodo, alguma excitação no meio de tanta mulher, mas nós só queremos acabar o dia, tomar banho e tentar viver, que isto não é vida, é trabalho, do que ainda vai aparecendo, graças a Deus.)"

Do lacrau e da sua picada

41 graus à sombra

Quase acabadas as férias, eis o Verão que finalmente chega, atrasado devido à precessão dos equinócios - pelo menos, foi esta a explicação que há tempos ouvi ao meteorologista Antímio de Azevedo.

Eis um excerto meu bem transpirado:

"Mal saiu do carro, a luz do Sol atingiu-o com a brutalidade de um murro, fazendo-o recuar à procura do refúgio de uma sombra onde repousar a vista; o ar quente envolveu-o como se estivesse à boca de um forno, sufocando-o, enquanto procurava alguém que lhe pudesse dar informações. Vivalma. Fora, apenas avistava casas velhas tremelicando sob o sol a pique de Agosto, luz de fogo, ar de fogo, um ou outro cão deitado numa nesga de sombra. Já tinha ouvido dizer que o interior do país se estava a desertificar, mas só visto, contado é inacreditável. Nem uma fonte, nem um chafariz, já não há mimos desses para os viandantes nas aldeias e vilas de Portugal.
Limpou o suor que lhe corria em bica pela testa, encharcando os óculos de sol, empapando a camisa e colando-a ao corpo e tentou raciocinar: em qualquer aldeia, há sempre uma rua principal e lá há sempre um café. A rua principal era certamente aquela em que se encontrava, atravessando a povoação numa curva larga e ascendente, desde a estação de comboios, deserta a esta hora, até ao casario, mais acima.
Acabou por descobrir um café, graças ao toldo. Precipitou-se para dentro despertando o dono da modorra da sesta e, esquecendo cuidados com álcool e condução, procurou matar a sede que o atormentava, refrescado por lufadas de ar que uma ventoinha enviava intermitentemente na sua direcção. À segunda imperial meteu conversa. Sobre o calor, evidentemente. A televisão tinha dado quarenta e três graus para Santarém, cidade junto ao rio e situada num alto. Para ali, a temperatura devia rondar a de Évora ou mesmo a de Beja, talvez até os 47 graus previstos para a Amareleja. Para todos os efeitos aquele Ribatejo era charneca alentejana. Apostava que não estavam menos de quarenta e dois ou quarenta e três graus à sombra. E com os incêndios, tudo piorava: o ar estava irrespirável, abafado. Se ao menos corresse uma brisa que evaporasse a transpiração... O dono do café concordava: era um calor de rachar pedras.
— Mas o que é que traz cá o meu amigo a esta hora, debaixo deste sol escaldante?"

Do lacrau e da sua picada

Alpedriz


"Pecar é o que certamente iremos fazer quando sairmos daqui: que ninguém pense que seguiremos certinhos rumo a casa; não, como dizia a minha avó, o que não lembra ao Diabo lembra às crianças, e lá reza o ditado que uma é um santinho, duas são dois diabinhos — para tantas juntas não conheço provérbio.
Desfilaremos em magote pelo centro de Alpedriz, parando provocadores no adro da Igreja, com a sua torre de banda desde o Terramoto, desafiaremos os cachopos que por lá se encontrarem e os mais valentes de nós mostrarão a sua bravura guerreando com eles, embrulhados em pó, lágrimas e raiva.
Então chegarão reforços indígenas, os duelos transformar-se-ão em batalha, das mãos e pés passar-se-á às pedradas e uma ou outra cabeça será partida — nada que o mercúrio não cure; nós, os dos Montes, em maior número, bateremos em retirada, que em casa sua cada um pode muito, e a guerra continuará pelas ladeiras acima, agora à distância, esquivando pedradas, devolvendo insultos, xingando e macaqueando...
Eis-nos, agora sim, de regresso aos Montes, triunfantes. Não se pense, contudo, que acabaram os disparates: ainda iremos bater as árvores de fruta e vinhas que ladeiam o caminho das Matas. Não é fome, é mais apetite, é mais vício, e pior do que o que roubamos é o que estragamos — uma dentada no Pêro de Agosto e atiramo-la à cara de outro que pagará na mesma moeda, que é como quem diz com outro pêro... Amanhã, o dono encontrará um terreiro de fruta estragada e rugirá, — Ah, se eu apanho esses ladrões! esquecendo que anos antes era ele que fazia o mesmo, é certo que com a fruta de outro dono...
Como uma praga, devastamos tudo por onde passamos, das maçãs às cenouras da tia Joaquina, que chorará desesperada ao ver a sua horta derrotada, o milho derrubado como se por lá tivesse passado texugo — tanto trabalho destruído num abrir e fechar de olhos, sem quê nem porquê! "
X. Retrato de Família, Entre Cós e Alpedriz
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sábado, 29 de agosto de 2009

Mar


"Em criança, o Chico era o ai-jesus do pai, que o levou a ver pela primeira vez o mar, teria o moço então cinco ou seis anos. Partiram numa madrugada de Julho, num desses domingos de calor estival em que se não pode fazer nada no campo, e lá foram, eles dois na bicicleta, a farneleira de duas divisões, uma para conduto, outra para sopa, presa no suporte, e as recomendações da mãe para que não deixasse o Sol da praia queimar o seu menino. O pai pedalou nas rectas, aproveitou as descidas para recuperar fôlego, empurrou a bicicleta à mão pelas ladeiras acima e, de repente, numa descida, o Afonso viu-o, maravilhado: um rio enorme, azul ao fundo, esverdeado junto à areia, desfazendo-se em espuma branca ao bater contra as rochas do lado do Sítio; ao longe, colava-se ao céu e na sua ingenuidade infantil convenceu-se de que o mar era o céu que descia, enrolado sobre si próprio, até à areia. Era, pensou, feito da mesma água das nuvens. Em breve se desenganou: a água, tão fresquinha e apetitosa, mesmo a pedir que uma boca sequiosa como a sua a bebesse, era salgadíssima!"

Entre Cós e Alpedriz

Mar

"Mar — vê-o nitidamente, tal como o avistou do Sítio quando levou o filho Francisco pela primeira vez à praia, teria o moço então uns seis anos. Ah, como lamentava agora o rigor com que tratara a criança, surra em cima de surra, ralhos sobre ralhos, proibições de fazer isto, de andar com este ou com aquele, e nem a desculpa de ter procedido como todos os outros pais, como o seu próprio pai procedera para consigo, lhe servia já de atenuante. (...) Logo, logo, o remorso cede lugar à imagem da água do mar espelhada nos olhos do moço enquanto caminhavam ambos pela beira-mar, os pés finalmente livres das botas que todo o ano os aprisionavam, o perfume da maresia enchendo-lhes o peito, o céu azul cortado pelo voo branco das gaivotas, as sardinhas prateadas palpitando nas redes, a alegria resplandecendo no rosto dos pescadores, como camponeses após abundante vindima — e lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavalinhos do carrossel na Feira de São Bernardo, sempre correndo, ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar! Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as crianças que tinham visto pouco antes a entrar..."

Entre Cós e Alpedriz

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Mundo fechado

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Como a água de dois rios que corre lado a lado sem se misturar, assim se relacionam os indígenas com os estranhos - os palecas - mesmo que, afiança-me quem sabe, aparente existir intimidade, amizade até, por vezes fruto de um convívio de décadas:
-- Não se diz "houverem", mas sim "houve".
-- Ah, stôra, agora temos de falar à moda dos palecas?
(Impossível reproduzir por escrito a musicalidade do falar da Nazaré)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Viagens na minha terra



Sítio, Nazaré
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Cata-vento


Porto de Mós
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"...servindo de eixo a cata-vento em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.

Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente... "

(Inédito meu)
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domingo, 23 de agosto de 2009

Aniversário

Da Ana. Parabéns.
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Palpites sábios

Segundo O Público, Ensino universal e grátis a partir dos três anos faria mais pelo país do que TGV, diz demógrafo.
Duas questões: um demógrafo é especialista em ensino? Ou em transportes?
Que diabo, quando é que estes especialistas, e os senhores jornalistas que os ouvem e amplificam os seus palpites doutorais, se apercebem, uns e outros, do ridículo que é pedir ao sapateiro (sem ofensa aos oficiais do ofício) que toque rabecão?
Um demógrafo deve ser ouvido sobre demografia; sobre transportes e ensino ouçam-se autoridades em cada uma dessas áreas.

sábado, 22 de agosto de 2009

Boas aberturas de bons romances -- Aprender a rezar na era da técnica


"O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e a mais bonita da casa.
-- Agora vais fazê-la, aqui, à minha frente.
A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era o facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem ter sequer o cuidado de sair. O pai queria ver."

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na era da técnica

Boas aberturas de bons romances -- Jerusalém


"Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze. Ernst atendeu."

Boas aberturas de bons romances -- Um deus passeando pela brisa da tarde


"Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?"

Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde

Boas aberturas de bons romances -- Jesusalém


"A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desamado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: Jesusalém. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final."

Mia Couto, Jesusalém

Boas aberturas de bons romances -- As aventuras de Tom Sawyer


(O meu exemplar sumiu, o que não é grave, uma vez que a tradução era deplorável. Vale-me, mais uma vez, a Internet.)

"TOM!"
No answer.
"TOM!"
No answer.
"What's gone with that boy, I wonder? You TOM!"
No answer.
The old lady pulled her spectacles down and looked over them about the room; then she put them up and looked out under them. She seldom or never looked THROUGH them for so small a thing as a boy; they were her state pair, the pride of her heart, and were built for "style," not service -- she could have seen through a pair of stove-lids just as well.

Mark Twain, The adventures of Tom Sawyer

Boas aberturas de bons romances -- O Principezinho

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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Boas aberturas de bons romances -- O Velho e o Mar


(Na tradução de Jorge de Sena)
"Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes."

Boas aberturas de bons romances -- L'étranger


"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J'ai reçu un télégramme de l'asile: "Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués." Cela ne veut rien dire. C'est peut-être hier."

Boas aberturas de bons romances -- Cem anos de solidão


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."

Gabriel García Marquez, Cem anos de solidão

(Esta abertura influenciou-me de tal forma que nos Agradecimentos, p. 240 de Entre Cós e Alpedriz, escrevi:
"Aos meus mestres na arte da escrita, três dos quais são homenageados nesta obra -- García Márquez, Agustina, Fernão Lopes.")

Pergunta de resposta difícil



O Afonso, três anos e meio, está na fase das perguntas. E não são só os constantes "porquê?"
Ontem, por exemplo, testemunhei o seguinte diálogo:
-- Avó, onde é que vais? (Ele fala muito bem, sintaxe correcta.)
-- Vou à casa de banho.
-- E vais fazer o quê?
-- Vou fazer xixi.
-- Não tens pilinha, como é que fazes xixi?

Boas aberturas de bons romances -- Moby Dick


"Call me Ishmael. Some years ago - never mind how long precisely - having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen, and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. "

Herman Melville, Moby Dick

Como escolher os livros

Pode-se seguir as indicações dos críticos ou comprar os premiados. Mas -- fala a experiência pessoal – 9 em cada 10 vezes, pelo menos, é um barrete que se enfia, um mono que se adquire e se larga logo nas primeiras páginas. Porquê? As explicações ficam para melhor ocasião. Melhor critério é seguir as sugestões de outros leitores: se leram o dito cujo, é porque, no mínimo, é legível; mas, como os gostos variam, origina também elevada percentagem de descontentamento.
Restam dois métodos, um infalível e outro quase infalível. O primeiro, que segui durante muitos anos, consiste em comprar o livro apenas depois de o ter lido, por exemplo requisitando-o em bibliotecas ou tomando-o emprestado. Em seu desfavor, o facto de, após leitura, comprarmos muito pouco – mas bom. Foi assim que comprei, por exemplo, Paroles, de Prévert, ou Romancero Gitano, de Lorca. Porém, hoje em dia as bibliotecas estão frequentemente a cargo de funcionários camarários que nunca leram nada, exceptuando, talvez, a TV Guia ou A Bola, o acervo (como eles dizem, mostrando que dominam o jargão) está desactualizado, e deixei de as frequentar, embora tenha saudades do tempo em que nelas entrava com mais prazer e devoção que os fiéis nas igrejas.
Resta, então, o último método, que aplico e recomendo: ler as primeiras linhas do livro. Se me despertam a atenção, leio outros excertos, mais ou menos aleatoriamente. Reconheço que este método, se aplicado à risca, pode-nos privar da leitura de bons livros, como Os Maias, com abertura desinteressante. Enfim, não há procedimento perfeito.
Não faltam boas aberturas de livros. Por preguiça, limitar-me-ei a 10 (uma para cada dedo de cada uma das minhas mãos), sem as hierarquizar, e apresentá-las-ei aqui nos próximos tempos. Depois – ah, a vaidade! – farei o mesmo com os meus romances e contos, incluindo as aberturas de cada capítulo.

De férias, nos Montes

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Para acabar com a guerra do Afeganistão

É só inverter a lei recentemente aprovada, segundo a qual um marido pode pôr a mulher a passar fome se o não satisfizer sexualmente. Como o actual presidente é um pau-mandado dos americanos, não deve ser difícil reformular o legislado. E representar Lisístrata por todo o lado.

Receita de Verão

E de todas as outras estações, mutatis mutantis.
PUNHETA DE BACALHAU.
(Nome ordinário. Lamento.)
Bacalhau cru desfiado. Azeite Gallo. Vinagre. Alho do meu. Pão dos Montes torrado. Vinho tinto do meu, colheita de 2007.
(O tinto combina na perfeição com o alho, o azeite e o pão torrado. O bacalhau é para dar a consistência.)
Figos Ping'o Mel do Henrique, pêssegos do Vergílio, pêra Rocha minha, dos Montes.
Um dedal de JB velho para cortar o colesterol e desentupir as artérias.
Um Roma, da Nespresso.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Leituras

Do Afonso e da (bis)avó Isabel.
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sábado, 8 de agosto de 2009

Búzio


Vozes ao longe
murmurando
como que chamando por mim...

Olho e não vejo vivalma
Areal deserto, tarde calma
Apenas a lonjura do mar
Branco das gaivotas cortando o ar
Ninguém a quem falar

Só o murmúrio distante
das vozes ao longe
sussurrando
como que chamando por mim

E num arrepio
sussurrante
se de medo, se de frio
como que trazido pela brisa
sibilante
o murmúrio das vozes
indistintas
sempre
chamando por mim...

(Entre Cós e Alpedriz)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Pinheiro de Santo António, Alpedriz

Dele, que, segundo a lenda, foi semeado por Santo António, se dizia que tinha sofrido numerosas tentativas assassinas envolvendo fogo, ácido, moto-serra. A tudo resistira, miraculosamente incólume. Só o Tempo o venceu: eis ao que está reduzido.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009