Ou quase. Post motivado por este, no Albergue Espanhol
Ora digam lá: os jeeps gabados lavram, fresam, gradam?
Arrancam árvores?
(Vídeo: o Jorge e o pai em acção. Foto: tractor atascado até ao motor.)
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Dia de Todos os Santos
Dou-me mal com o calendário e nunca sei a quantos ando. O que pouco me importa. Interessa-me o dia da semana, a agenda serve apenas para marcar os testes, embora os meus alunos sempre me alertem com antecedência, não vá acontecer eu esquecer-me de a consultar – o que, em 34 anos de profissão docente, nunca sucedeu. Por isso me esqueço dos aniversários, do meu inclusive: sei em que dia é, só não sei que esse dia É. E todos os anos sou surpreendido alta madrugada pelo toque da campainha a anunciar ranchos de miúdos ao “bolinho”. Despensa desprevenida, vazia de guloseimas. Para os primeiros, ainda se arranja qualquer coisa, mais simbólica do que apetitosa. Para os que vêm a seguir… Muitas vezes, envergonhado por nada ter para lhes dar, nem abro a porta.
Custa-me não ter com que os contentar (dinheiro não dou, seria incentivo à pedinchice e à mendicidade) porque quando tinha a idade deles também eu madrugava e ia em bando, sacola às costas, de porta em porta, ao “Pão por Deus”. Regressava orgulhoso com sacadas de pão duro, fraca gulodice em casa de padeiro, onde fome nunca entrou, embora a necessidade lá morasse.
Para o ano vou estar prevenido! Só que todos os anos me esqueço de que o Dia de Todos os Santos é dia de bolinho, era dia de Pão por Deus… E como poucas vezes sei em que dia do mês estou, como prevenir-me para esse dia?
Custa-me não ter com que os contentar (dinheiro não dou, seria incentivo à pedinchice e à mendicidade) porque quando tinha a idade deles também eu madrugava e ia em bando, sacola às costas, de porta em porta, ao “Pão por Deus”. Regressava orgulhoso com sacadas de pão duro, fraca gulodice em casa de padeiro, onde fome nunca entrou, embora a necessidade lá morasse.
Para o ano vou estar prevenido! Só que todos os anos me esqueço de que o Dia de Todos os Santos é dia de bolinho, era dia de Pão por Deus… E como poucas vezes sei em que dia do mês estou, como prevenir-me para esse dia?
domingo, 31 de outubro de 2010
A vida a andar para trás
É o que afirma Jerónimo de Sousa. Seria bom se fosse verdade. Viver outra vez os bons momentos, emendar tanta asneira que tenho feito ao longo da vida, reencontrar os entes queridos já falecidos, dizer-lhes as palavras que calei por orgulho, por timidez, e que os teriam feito mais felizes, fazer no tempo certo aquilo que não ousei, olhar para as coisas com o olhar maravilhado da infância... Ah, camarada Jerónimo, se tivesse razão até votaria em si, até faria campanha por si!
Mas olhe que, para si, a vida a andar para trás seria também coisa boa: imagine-se novamente nesse tempo em que se acreditava que os amanhãs cantariam, a Internacional seria o género humano...
E que bênção para o povo português, que os tempos que se avizinham, pode crê-lo, vão ser bem piores do que aqueles que vivemos nos últimos 20 anos.
sábado, 30 de outubro de 2010
Pragas
Mas, com o agravar da crise, podem até vir a ser uma bênção e compensar os brócolos comidos acompanhando grelhadas os que pouparam.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Casamento orçamental
Eu não disse que a comédia acabava depressa? E em casamento, como pertence? Que as comadres casamenteiras seriam Cavaco Silva e a senhora Merckel (que pouco tem de senhora, feia de fugir)? Concedo: o papa ainda não abençoou a união. Por agora, bastará um cardeal português.
Pois podem fixar o que eu digo neste dia de invernia: é Sol de pouca dura. A tranquilidade dos mercados que esta "responsabilidade" tão badalada vai gerar desaparecerá muito em breve. E então será bem pior. Por isso preferia que se varressem já trastes e cacos...
(Circunda-te de rosas, ama, bebe / E cala. O mais é nada. )
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Presidenciais
Monsieur le Président
Que vas-tu faire?
-- Rien, rien, rien...
(Reconstruída de memória)
Que vas-tu faire?
-- Rien, rien, rien...
(Reconstruída de memória)
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Crises
Vivi, embora fosse demasiado criança para com ela me preocupar, a crise dos mísseis em Cuba -- e o Mundo esteve prestes a acabar; o 25 de Abril; o 11 de Março na tropa; o 25 de Novembro -- ainda estava na tropa; a morte de Sá Carneiro em Camarate; aquela crise sem nome em que o chanceler alemão voou para a América tentar meter juízo na cabeça de um banana de um presidente com cara e conversa de vendedor de carros usados que não valia a pena começar uma guerra com a União Soviética por causa da invasão do Afeganistão; apanhei com os governos de Mário Sares, o FMI -- e não recebi então 1/3 do subsídio de Natal, com que esperava comprar roupa para a minha filha e uns sapatos para mim, que os buracos na sola eram incomodativos em dias de chuva...
Há hoje um arrufo de namorados entre PS e PSD? Quem quer apostar que em breve estarão agarradinhos a dançar o tango, sob o olhar embevecido de comadre casamenteira -- Cavaco, Merckel, o papa, se necessário for...
Que, por mim, preferia partir a loiça, e com uma vassoira, à antiga, varrer trastes e cacos.
domingo, 24 de outubro de 2010
sábado, 23 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Blogue em destaque
Informa-me o SAPO de que o meu blogue está em destaque. Muito me honra essa distinção, que me levará, paulatinamente, a transmudar a réplica em original. Muito obrigado!
(Clicar na imagem para ampliar).
(Clicar na imagem para ampliar).
domingo, 17 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
A Via não tem limites
Já perdi o conto às fornadas de novos alunos a quem iniciei na arte do Karaté. Muitos, muitos, treinaram com afinco até à conclusão do Secundário. Fica-me o consolo de terem partido muito mais fortes e confiantes do que quando chegaram até mim. E é com enorme prazer que os revejo, completamente mudados, dez, vinte, trinta anos depois, a lamentar que as exigências da vida lhes não permitam voltar aos nossos treinos, a recordar com saudade esse tempo em que transpirámos, sofremos e nos divertimos juntos. E é com prazer que os oiço falar dos seus sucessos e fracassos (a vida também é feita de derrotas). Outros, por vezes, fazem-me chegar a expressão pública da sua gratidão por terem descoberto comigo a Via do Karaté, agora que trilham os seus próprios caminhos, por rumos que raramente se cruzam com o meu.
Na foto (clicar para ampliar), o grupo de 2010, em constituição. Poucos ainda, desalinhados, torcidos, fraquinhos. Não importa. Aqueles que não desistirem estarão irreconhecíveis no final do ano lectivo. E daqui a meia dúzia de anos, quando também eles me deixarem, será talvez o momento de recomeçar novamente a partir do nada. Porque, dizem os antigos mestres, a Via não tem limites.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Do cavaquistão
NOTA PRÉVIA: este texto foi escrito em 1994, em pleno cavaquismo. Jamais pensei que os meus agoiros viessem a ser tão certeiros...
Destroçado pela derrota derramo minha amargura
Pelos caminhos deste país que já foi de vinho e mel
E a ela perdura, amarela e viscosa como fel,
Tingindo cada rosto, cada figura,
De lívida brancura
Já nada é como era dantes
e o cabelo que me vai faltando é apenas
breve indício do Inverno que se vem aproximando.
Mas o que me dói e não tem cura
neste entardecer azedo
é ver o país a adormecer cinzento
de indiferença e pasmo bafiento
Ninguém faz nada sem proveito.
Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)
Não, nem orgulho ferido nem sonhos perdidos
agora já só o meu olhar camponês me magoa
como o mato à minha terra onde já nada é como dantes...
Chove no Verão, o Inverno aquece
E o nevoeiro não tece mistérios bastantes
outros que a miséria deste Portugal que esmorece
Só sei que de lado nenhum sairá a luz que rompe as trevas
porque já nem a noite é de breu
nem os dias resplandecem
Finis Patriae
Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?
Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração
(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)
Lá, onde corre a fresca regueira
onde nasce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão
O sino dobra novamente a finados...
( "versos" finais de Entre Cós e Alpedriz; título roubado a Guerra Junqueiro)
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?
Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração
(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)
Lá, onde corre a fresca regueira
onde nasce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão
O sino dobra novamente a finados...
( "versos" finais de Entre Cós e Alpedriz; título roubado a Guerra Junqueiro)
sábado, 9 de outubro de 2010
Ui, que medo!
Informa o Ionline, sem esclarecer se é promessa, se é ameaça, que "[A] queda do governo está iminente. O chumbo do PSD ao Orçamento do Estado levará Sócrates a Belém para pedir ao Presidente que arranje outro primeiro-ministro".
Acorramos todos em massa a Fátima, a São Bento, aonde for preciso, suplicar ao nosso primeiro que reconsidere: como poderemos viver sem ele? Que será da pátria sem tão esclarecido timoneiro? E da Europa, ainda tão frágil, e do Mundo, sempre tão conturbado? E das universidades americanas, sem as suas doutas conferências? Ah, não pode ser, é invenção! Ninguém nos privará deste Afonso Henriques, deste João Segundo do século XXI!
Jamais permitiremos que tenha razão o Brecht: se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia, / não acharia em todo o Império uma vaga de porteiro.
(É que qualquer profissão exige experiência profissional, humildade, qualificações...)
(É que qualquer profissão exige experiência profissional, humildade, qualificações...)
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Crime na capital
O conto Crime na Capital, vencedor da IIIª ed. do Prémio Literário Irene Lisboa na modalidade conto, pode ser descarregado para leitura no meu site. Basta clicar no respectivo separador, menu de topo. Ao lado, e também disponíveis para leitura, a minha dissertação de mestrado e os romances Do lacrau e da sua picada e Entre Cós e Alpedriz. Trata-se de versões em pdf, rigorosamente idênticas aos exemplares impressos, o que explica as páginas iniciais em branco.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Colesterol
O Vergílio e eu, após sábado de trabalho duro a fazer o vinho. Merenda no regresso, na Tasca da Tia Maria aqui, junto a Porto de Mós): queijo curado, morcela e farinheira grelhadas, sopa de feijão a compor. Tinto da casa, traçado.
domingo, 3 de outubro de 2010
Outono de seu riso magoado*
Crescem as noites, arrefecem os dias, alongam-se as sombras, até há pouco exíguas, verticais, duras – eis que difusas se confundem com natureza, casas, objectos, pessoas, e a lucidez que sempre nos faltou não alcança destrinçar nessa penumbra a realidade fugidia.
Não é só o Portugal tristonho a definhar, não; é todo um mundo de aparências, de quimeras, créditos, promessas plásticas de juventude eterna, vidas de sonho decalcadas de revistas de cabeleireira... Sabemos hoje (sabê-lo-emos?), que a riqueza era virtual como o dinheiro, como o crédito bancário, e vemos as prometidas vidas de sonho esvanecerem-se para todo o sempre como sombras que jamais conseguiremos alcançar, ora fugindo à nossa frente se as perseguimos, ora a seguirem-nos trocistas se lhes viramos as costas. Para nosso desgosto e revolta, espera-nos, sarcástica, a frugalidade austera dos nossos pais e avós...
(* verso de Camilo Pessanha)
Não é só o Portugal tristonho a definhar, não; é todo um mundo de aparências, de quimeras, créditos, promessas plásticas de juventude eterna, vidas de sonho decalcadas de revistas de cabeleireira... Sabemos hoje (sabê-lo-emos?), que a riqueza era virtual como o dinheiro, como o crédito bancário, e vemos as prometidas vidas de sonho esvanecerem-se para todo o sempre como sombras que jamais conseguiremos alcançar, ora fugindo à nossa frente se as perseguimos, ora a seguirem-nos trocistas se lhes viramos as costas. Para nosso desgosto e revolta, espera-nos, sarcástica, a frugalidade austera dos nossos pais e avós...
(* verso de Camilo Pessanha)
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Na rádio
Entrevista à rádio "Vida", no seguimento da atribuição do Prémio Irene Lisboa (conto).
Amanhã, sexta-feira, às 17H00; repetida na segunda-feira, às 12H00.
Pode ser ouvida AQUI.
Foto: recepção do Prémio Irene Lisboa.
(Deixem-me justificar a minha fraca eloquência, negrito meu:
"-- Você sabe falar -- comentou.
-- Nasceu comigo.
-- Daria um péssimo escritor -- prosseguiu. -- Nunca conheci um escritor que fosse um bom orador. "
Ray Bradbury, "Rumo a Quilimanjaro", in As Vozes de Marte, colecção Argonauta, Ed. Livros do Brasil, Lisboa)
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Relatório da OCDE
Exasperado com tanta recomendação, o automobilista encosta bruscamente à berma, leva as mãos à cabeça e ousa perguntar à mulher:
-- Afinal quem é que vai a guiar? Tu ou a tua mãe?
Assim estou eu: afinal quem é que vai a guiar este país (para o abismo, presumo) sob o olhar conformado do "governo"? A OCDE e o seu secretário abelhudo, o Banco Central Europeu, a UE, a senhora Merkel...?
E o homem do leme, que as más línguas insinuavam nunca ter dúvidas e raramente se enganar, está agora seguro do rumo a seguir nesta navegação à vista? Não terá sido no seu tempo que se apregoava haver gente a mais no campo, sendo urgente esvaziá-lo para termos percentagem de agricultores semelhante à dos membros da CEE? Que os campos, por força disto e das PACs, ficaram ao abandono, enquanto um ministro da Agricultura confessava impunemente que achava bem 10% dos agricultores receberem 90% dos fundos, porque era um daqueles que os recebiam? Não foi ele, que no seu estilo sibilino, protestou timidamente contra o esbanjamento dos fundos comunitários em "despesas sumptuárias"? Não foi no consulado daquele que agora vê no mar uma saída para a crise (cá para mim, é onde os credores nos afundarão) que se abateu a frota pesqueira? (Et caetera, et caetera, correndo embora o risco, por falhas de memória, de confundir os trastes da caterva.)
Agora, após tantos desmandos desculpabilizados, consentidos, legitimados, porque a lei os não criminalizava (e quem faz as leis, quem é?), ficamos a saber que o "governo soberano da república" (tanta treta num único lugar-comum!) tem a liberdade de decidir se me baixa o salário ou me cobra mais impostos -- embora eu receie que, na dúvida, faça as duas coisas.
(Declaração de interesses: não me pronuncio ainda sobre as oposições, tantas vezes representadas por engraçadinhos e espirituosas, a fazer uns números de humor para as televisões.)
ADENDA: devo ser bruxo.
ADENDA: devo ser bruxo.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Prémio Literário Irene Lisboa
O júri da IIIª edição do Prémio Literário Irene Lisboa, promovido e organizado pelo Município de Arruda dos Vinhos e pela Biblioteca Irene Lisboa, entendeu distinguir, por unanimidade e entre cerca de duzentos trabalhos a concurso, o meu conto Crime na Capital. Orgulhoso da distinção, quero expressar a minha simpatia e a minha solidariedade a todos os concorrentes, e o desejo sincero de que não esmoreçam, antes persistam, nesta labuta insana da escrita, em que alguns, desconhecedores talvez das agruras do ofício, vêem prazer, como se prazer pudesse existir em tanto tempo de vida gasto em correcções sucessivas, na procura da toada e do ritmo adequados, na busca da palavra exacta...
Muito me honra e alegra receber este prémio, com patrona da envergadura intelectual e artística de Irene Lisboa, mulher distinta, professora emérita, poetiza e prosadora notável. Confesso que o prémio recebido compensou, de alguma forma, os momentos de dúvida, de desânimo, que rejeições de editores, desinteresse de críticos, por vezes provocam – embora reconheça que essas contrariedades reforçam a determinação e aumentam a vontade de continuar em frente, neste trabalho de Sísifo, que se não escolhe, antes nos surge imposto, poucas vezes obtém reconhecimento e, menos ainda, glória.
Crime na Capital inspirou-se em factos reais, um dos quais, o despedimento do engenheiro Eleutério, pareceu por demais inverosímil às minhas primeiras leitoras, a quem sempre dou a ler os originais antes de os considerar terminados. De facto, a realidade é frequentemente mais incrível do que a ficção, nomeadamente a triste realidade dos despedimentos, que atingem números jamais alcançados no nosso país, e assumem formas até há pouco inimagináveis, como por mensagens SMS. Também a história do mestre de karaté que faz peritagens de seguros e é alvejado durante um encontro amoroso ocorreu, infelizmente. Poderia, portanto, citar Camilo Castelo Branco (Vingança) “Não tenho imaginação, tenho memória”, se não tivesse recorrido abundantemente à imaginação para articular os eventos, concentrando numa única narrativa histórias diferentes, ocorridas com pessoas diferentes, em diferentes espaços e tempos. E, acrescento, a escrita deste conto surpreendeu-me, ao ver a história derivar por caminhos imprevistos, qual montada que toma o freio nos dentes...
Agora que Crime na Capital me não pertence mais, filho emancipado que já não precisa de mim para singrar na vida, desejo-lhe ardentemente muitas leituras e agradeço-lhe o ter-me proporcionado este prémio, tal como agradeço ao Município de Arruda dos Vinhos e ao júri a sua atribuição.
Muito me honra e alegra receber este prémio, com patrona da envergadura intelectual e artística de Irene Lisboa, mulher distinta, professora emérita, poetiza e prosadora notável. Confesso que o prémio recebido compensou, de alguma forma, os momentos de dúvida, de desânimo, que rejeições de editores, desinteresse de críticos, por vezes provocam – embora reconheça que essas contrariedades reforçam a determinação e aumentam a vontade de continuar em frente, neste trabalho de Sísifo, que se não escolhe, antes nos surge imposto, poucas vezes obtém reconhecimento e, menos ainda, glória.
Crime na Capital inspirou-se em factos reais, um dos quais, o despedimento do engenheiro Eleutério, pareceu por demais inverosímil às minhas primeiras leitoras, a quem sempre dou a ler os originais antes de os considerar terminados. De facto, a realidade é frequentemente mais incrível do que a ficção, nomeadamente a triste realidade dos despedimentos, que atingem números jamais alcançados no nosso país, e assumem formas até há pouco inimagináveis, como por mensagens SMS. Também a história do mestre de karaté que faz peritagens de seguros e é alvejado durante um encontro amoroso ocorreu, infelizmente. Poderia, portanto, citar Camilo Castelo Branco (Vingança) “Não tenho imaginação, tenho memória”, se não tivesse recorrido abundantemente à imaginação para articular os eventos, concentrando numa única narrativa histórias diferentes, ocorridas com pessoas diferentes, em diferentes espaços e tempos. E, acrescento, a escrita deste conto surpreendeu-me, ao ver a história derivar por caminhos imprevistos, qual montada que toma o freio nos dentes...
Agora que Crime na Capital me não pertence mais, filho emancipado que já não precisa de mim para singrar na vida, desejo-lhe ardentemente muitas leituras e agradeço-lhe o ter-me proporcionado este prémio, tal como agradeço ao Município de Arruda dos Vinhos e ao júri a sua atribuição.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Não percam
Isto, que encontrei no Delito de Opinião, um dos meus blogues favoritos. Genial. Se der para trocar a ministra original pela imitação, é para já. O miúdo, para além de manifestar talento para a representação, imita excepcionalmente bem a figura ridícula --- na conversa, nos trejeitos, nos tiques, nos sorrisos para as câmaras --- que a ministra faz de cada vez que aparece. Pior, não ficamos. Venha de lá a genialidade, sem atender à idade. Aposto que se ele continuar a série Uma Aventura, o nível vai subir. E bem precisa.
domingo, 19 de setembro de 2010
Ausências
De vez em quando este blogue pára por uns dias. Não é que a preguiça me ataque com maior intensidade; é que outros afazeres me solicitam, por vezes em simultâneo, e chego à noite tão exausto que nem o mail leio. E então não respondo aos comentários. Não é má educação. É cansaço. Foi o que sucedeu neste fim-de-semana, com a vindima.
É o que sucederá no próximo, com correrias para receber o prémio Irene Lisboa, ir aos Montes fazer o vinho, regressar ao Entroncamento para jantar com colegas recém-aposentadas, voltar aos Montes para fazer a água-pé, limpar a adega, lavar e arrumar prensa, tinas, selhas, almudes, canecos, escudelas, funis... E, caso não chova significativamente, regar as couves.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Orgulho
Exm.º Senhor
Na sequência da sua participação no III Prémio Literário Irene Lisboa, temos o prazer de anunciar que lhe foi atribuído o Prémio Literário Irene Lisboa - conto "Crime na Capital".
A cerimónia de entrega dos prémios terá lugar no próximo dia 23 de Setembro de 2010, pelas 21 horas, no Auditório Municipal de Arruda dos Vinhos.
Para proceder ao levantamento do seu prémio terá de se fazer acompanhar pelo NIF e Bilhete de Identidade/Cartão de Cidadão.
Sem outro assunto, enviamos os nossos melhores cumprimentos.
Na sequência da sua participação no III Prémio Literário Irene Lisboa, temos o prazer de anunciar que lhe foi atribuído o Prémio Literário Irene Lisboa - conto "Crime na Capital".
A cerimónia de entrega dos prémios terá lugar no próximo dia 23 de Setembro de 2010, pelas 21 horas, no Auditório Municipal de Arruda dos Vinhos.
Para proceder ao levantamento do seu prémio terá de se fazer acompanhar pelo NIF e Bilhete de Identidade/Cartão de Cidadão.
Sem outro assunto, enviamos os nossos melhores cumprimentos.
... e a ministra da educação
"E turmas mais pequenas?
O nosso país é, nos da OCDE, dos que têm menos alunos por turma e um professor para cada sete alunos.
Reduzir o número de alunos por turma não é uma prioridade?
Não é e não vamos fazê-lo, porque o que temos neste momento é bastante equilibrado."
(Entrevista aqui)
Senhora ministra, olhe que não, olhe que não! O meu 10º C tem 27 alunos, tantos quantos o meu 12º B. E hão-de chegar mais. Presumo -- é só presunção minha -- que terá chegado a esse número dividindo os alunos pelos professores. Mas não se esqueça dos "professores" que tem no ministério, nas direcções regionais, nos sindicatos, dos destacados, dos directores de centro de formação, dos bibliotecários, de tantos outros que são professores sem alunos...
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Prémio Literário Irene Lisboa
Amigos, alegrem-se comigo: ganhei, na modalidade conto, conforme informação telefónica recebida há momentos.
sábado, 11 de setembro de 2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Desfaçatez
É o que me ocorre ao ler isto:
Sócrates diz que escola pública é factor decisivo para a igualdade de oportunidades (Sol/Lusa)
O primeiro-ministro fez hoje uma defesa veemente do investimento na escola pública como factor decisivo para a igualdade de oportunidades, num discurso em que referiu os valores constitucionais e o ideal republicano de educação para todos.
Então o governante que mais contribuiu para que os pais tirassem os filhos da escola pública julga que a defende injectando uns milhões nossos em bens e obras que, nalguns casos, são puro desperdício? Mas, afinal, dele já nada me surpreende, depois que o ouvi defender o sistema nacional de saúde, esquecendo as maternidades, urgências e hospitais encerrados. Ou as escolas encerradas. Ou as promessas de criação de milhares de empregos. Ou o fim da crise (já não me recordo se foi ele se um seu ministro -- afinal, é tudo farinha do mesmo saco). Ou... têm sido tantas as promessas que as vou esquecendo. Mas de uma coisa não me esqueço: palavras leva-os o vento e quanto a obra, se exceptuarmos umas inaugurações e uns Magalhães, que fica?
Big Brother nas escolas*
Quando, a 7 de Julho deste ano, publiquei o post "A Escola Prisão" chegaram-me aos ouvidos interpretações e deturpações de "amigos" que o aproveitaram para, mais uma vez, intrigar, vendo nele uma crítica à direcção da minha escola e não, conforme lá está escarrapachado, ao sistema de ensino em que direcção e eu temos de viver. Nunca perceberão, porque tal exige largueza de espírito, que criticava e critico situações, políticas, acontecimentos, jamais pessoas -- e que fui e sou amigo de responsáveis por factos de que discordei publicamente. Trata-se, tão só, de não confundir o cu com as calças.
Apraz-me agora verificar que algumas das preocupações então manifestadas são partilhadas aqui por uma autoridade em educação, como é Ramiro Marques.
(* Título do post do Ramiro)
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Portugal, fora da União Europeia!
"Os ministros das Finanças da UE puseram-se hoje de acordo sobre a possibilidade de vetarem os orçamentos nacionais, decidindo que os seus projectos de orçamento sejam examinados ao nível europeu na Primavera, antes de serem submetidos aos parlamentos nacionais." (Público)
Por um lado, perdem razão de ser as tricas em torno da aprovação do orçamento -- afinal, quem o aprova é a UE ou lá o que é. Por outro, como patriota (e não me venham repetir que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas) só me ocorre dizer: Portugal, fora da UE! Afinal que estamos lá a fazer? A mendigar empréstimos? Até quando?
Sim, tenho alternativa: pagar o que devemos, viver com o que temos e não de calotes. Afinal, mal ou pior, sobrevivemos desde 1143, pelo menos. Eu sei: os governantes jamais aceitarão esta minha proposta. Como jamais a aceitarão todos aqueles que se conformam com a subsidiodependência. Mas não se iludam: à velocidade a que o Mundo está a mudar, não me surpreenderei se a UE nos escorraçar. Sem dignidade.
domingo, 5 de setembro de 2010
A grande cabrada
Semanas atrás foi notícia a introdução nas nossas matas de 150 mil cabras (não se fazia referência a bodes, mas acredito que os visionários do projecto saibam distinguir elas de eles). As cabras limparão as florestas e -- garanto que o ouvi repetir -- cada uma será um bombeiro, o que me levou a pensar que não deviam ter esquecido os bodes, mais eficientes no uso da agulheta.
Sempre do contra, ocorreram-me numerosas objecções, a primeira das quais foi julgar que os mentores do projecto não percebem lá muito de cabras. Uma cabra é sempre uma cabra, filha de uma cabra, cheira como uma cabra e porta-se como uma cabra. Cada uma faz o que lhe apetece e não haverá maneira de a convencerem a comer os rebentos das silvas havendo plantas mais saborosas e tenrinhas em quintais, jardins, pomares, searas, milharais, vinhas. E tem 24 horas por dia para o fazer porque, ao contrário dos cabreiros (onde os irão desencantar?), a cabra não tem horário de trabalho.
Mas, reconhecendo a minha incompetência na matéria, socorro-me de Mestre Trindade Coelho, sem esperança embora de que as suas palavras sirvam de alerta aos autores desta ideia caprina:
"Era no rebanho a que dava mais que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro."Trindade Coelho, "Mãe, Os Meus Amores (trazido da Grande Oferta de Livros)
E era só uma, a Ruça. Acrescentem-se 149.999, e teremos uma pálida ideia do que aí virá.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A liberdade do pintor
Este parte, aquele parte,
E todos, todos se vão
(Rosalía de Castro)
O último a partir para reforma antecipada, descontente com a infernização da vida do professor iniciada por Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos e continuada pela actual equipa ministerial é o pintor João Alfaro, autor dos desenhos da capa dos meus romances já publicados. Sai mais um representante de uma geração que entrou para o ensino no pós-25 de Abril, desiludido, amargurado, incapaz de contemporizar com as concepções vigentes de escola. E é a escola que fica a perder com a saída de veteranos como ele, professores experientes que poderiam assegurar uma transição sem sobressaltos, fazer a ponte entre o passado recente e o futuro. É a escola que fica mais pobre, mais monótona, mais chata -- o que nada aflige os nossos governantes, para quem desalinhados como o João são pedras no sapato do eduquês que urge deitar fora.
Vai dedicar-se por inteiro à pintura. Talentoso, com extraordinária capacidade de trabalho, o João pode agora realizar-se plenamente como artista e alcandorar o seu trabalho em níveis de sucesso ainda mais elevados.
Boa sorte, um abraço, e vai-nos visitando, na escola e fora dela.
(FOTO: o João no restaurante João do Grão, após a Grande Oferta de Livros, evento em que estivemos presentes)
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Los valientes
Soterrados há 19 dias, a 700 metros de profundidade, 33 mineiros chilenos lutam pela vida. Imagino-os apertados, na escuridão, famintos, a respirar ar viciado, obrigados a defecar no próprio local, senão nas próprias calças, à espera de um qualquer sinal de que não foram dados como mortos e sepultados vivos nessas profundezas. Imagino-os agora, a esperança reavivada, a suportarem meses de sofrimento e de desilusões até que, finalmente, os mais resistentes venham a ver novamente a luz do dia, a abraçar as famílias, que sofrem talvez mais ainda do que eles. Estes mineiros são a prova de que os homens ainda se não acabaram no planeta -- embora sejam cada vez mais raros. Como eles, como os familiares, como o seu país, desejo ardentemente que saiam vivos da sepultura em que jazem; como tantos outros tentarei reter as lágrimas quando os vir aparecer à superfície.
Venha a bruxa
Nem previsões sabe fazer. É que se me oferece dizer deste governo que não acerta uma e ainda se vangloria disso:
«Nestes seis meses, o crescimento da economia que se verificou em Portugal foi o dobro do previsto pelo Governo no início do ano», afirmou o primeiro-ministro em Vale de Cambra. "
(NOTA: estar farto de Sócrates não implica qualquer ilusão a respeito de outros candidatos à governação, com ou sem coelhos na cartola. É que já o não posso ouvir, menos ainda ao SS, ao Valter Lemos,.. )
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
De volta ao karaté
Após paragem forçada de mais de um mês -- férias, canícula e lesões de final de época a tal obrigaram -- eis-me de regresso aos treinos. Com uma semana de atraso, culpa da infecção de garganta que me atirou para a cama.
Tanto para rever, tanto para corrigir! A Via é ilimitada, dizem os antigos mestres. Enquanto o corpo responder, melhor ou pior, há que persistir. E os resultados neste regresso não são satisfatórios, na força que falta, na técnica sempre imperfeita, como bem mostra esta primeira parte de Jion, a minha Tokui-Gata ('forma' favorita).
Tanto para rever, tanto para corrigir! A Via é ilimitada, dizem os antigos mestres. Enquanto o corpo responder, melhor ou pior, há que persistir. E os resultados neste regresso não são satisfatórios, na força que falta, na técnica sempre imperfeita, como bem mostra esta primeira parte de Jion, a minha Tokui-Gata ('forma' favorita).
Ninguém
"Ó Ciclope, perguntaste como é o meu nome famoso. Vou dizer-to,e tu dá-me o presente de hospitalidade que me prometeste.Ninguém é como me chamo. Ninguém chamam-mea minha mãe, o meu pai, e todos os meus companheiros."
Homero, Odisseia (trad. Frederico Lourenço)
(Negrito meu. Note-se que "ninguém" é muito mais sugestivo do que "alguém".)
sábado, 21 de agosto de 2010
Grande oferta de livros
Feita por José Mário Silva. Fotos aqui.
Num recanto lindo de Lisboa, bem participada, ambiente extremamente simpático, civismo irrepreensível. Mais que os livros trazidos, as recordações de um momento especialmente agradável.
Muito obrigado pela ideia e pela sua concretização.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Repatriar e deportar
O governo francês repatriou umas centenas de estrangeiros que considera indesejáveis, a viver em condições precárias, e até deu 300 euros a cada um, deixando claro que nada impedirá que esses romenos agora reenviados para a sua pátria voltem quando entenderem. Logo, logo, surgem acusações de práticas nazis, transformam-se as expulsões em deportações massivas e receia-se já o reacender das fornalhas dos campos de extermínio. Esta argumentação, intelectualmente desonesta por substituir factos por interpretações, não se pronuncia sequer sobre o direito que um país tem de acolher quem bem entender e reduz a Europa à situação da velha puta, sempre de porta aberta.
Sampaio, instalado como comissário para os refugiados, vem aparentemente defender o seu emprego. Aparentemente porque continuo sem perceber nada daquilo que o homem diz em Português:
O antigo Presidente da República de Portugal realçou ainda “a necessidade de as sociedades serem sociedades plurais, que já o são”, e de ser promovida a tolerância entre as pessoas.
Já era assim quando presidia à República. Falava, falava, e eu não percebia nada. Talvez Sarcozy ou os romenos o compreendam.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Viver não custa
O ex-primeiro ministro britânico Gordon Brown cobra 100.000 euros por discurso. Ó sr. primeiro ministro de Portugal, veja o que anda a perder. Deveria saber que nós não valorizamos aquilo que é grátis. Deixe essa chatice do governo, cesse de arengar para auditórios enjoados e vá discursar para quem o aprecia e lhe pagará ainda por cima. Essas coisas do salto tecnológico, das reformas na educação, na justiça, da criação de centenas de milhares de empregos serão verdadeiras minas de oiro. E se precisar de quem escreva os discrusos, lembre-se de mim, que lhe dei a ideia.
Grande oferta de livros
Ideia original e extremamente simpática de José Mario Silva, a braços com falta de espaço para os livros que já tem e, sobretudo, para aqueles que têm de entrar. Por isso, resolveu oferecer parte deles:
"a partir das dez da manhã montarei uma banquinha junto ao novíssimo e simpatiquíssimo quiosque do miradouro (...) Quem vier pode escolher à vontade e levar o que lhe apetecer, sem pagar um cêntimo. Entre os livros oferecidos não haverá novidades editoriais, como é evidente, mas também nada de refugo (pelo contrário).Ler na íntegra AQUI.
Se quiserem, os leitores do Bibliotecário de Babel podem ainda aproveitar para conhecer pessoalmente o Bibliotecário de Babel, (...) (é só um tipo normal que gosta de livros)."
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Da limpeza das armas
O ministro da Administração Interna diz que "em tempo de guerra não se limpam armas". Ou o ministro não foi à tropa, ou já se esqueceu do pior pesadelo do soldado: que caia em emboscada, a arma encrave e tenha de a desmontar e voltar a montar debaixo de fogo. É sobretudo em tempo de guerra que se limpam as armas.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Paninhos quentes
O país arde em cada Verão, os bombeiros combatem os fogos com abnegação incrível, perdendo alguns a vida, e a conversa é sempre a mesma: há incendiários, há desleixo, há falta de acessos, de limpeza... Quando é se passará das palavras aos actos? Por exemplo, muitos dos incendiários são reincidentes. Deve ser criado quadro legal que permita interná-los durante o Verão, com mordomias suficientes para não chocar a nossa esquerda; deve ser permitido expropriar os metros de terreno necessários para construir os acessos; a limpeza deve ser feita recorrendo aos subsidío-dependentes, porque trabalhar não envergonha ninguém e dar algo em troca do que se recebe contribuirá para aumentar a auto-estima e, eventualmente, para que possam sair dessa situação de dependência. E os juízes não devem desautorizar a GNR, libertando imediatamente os incendiários capturados, por vezes em flagrante delito.
Por último, deve acabar o espectáculo promovido pelas televisões, em péssimo Português, sabido que é que há quem faça qualquer coisa por uns instantes de celebridade.
Os fogos, ou como agora se diz, as "ignições"são inevitáveis. Mas pode-se reduzir a frequência, a dimensão, os estragos. Basta querer e deixar de tratar o problema com paninhos quentes.
ADENDA:
(1) De 29 incendiários detidos, 9 encontram-se em prisão preventiva (31%). Resta saber durante quanto tempo mais.
(2) Um deles, reincidente, estava a cumprir prisão. Em regime de dias livres. Passa pela cabeça de alguém, com o país devastado por incêndios, não obrigar a recolher até às próximas chuvadas pelo menos todos os presos por este crime? E não será óbvio para os juízes que o castigo deve estar relacionado com o crime? Queimou? Que se condene a limpar um determinado número de hectares. Reincidiu? Que seja bombeiro à força nos incêndios -- sempre na linha da frente.
(3) As mulheres da aldeia tentaram capturá-lo. Se o têm conseguido agarrar, em vez de "alegado incendiário" e "presumível criminoso" teríamos, de certeza, um criminoso bem chamuscado.
(4) O medo guarda(va) a vinha, que não o vinhateiro. Mas hoje, medo de quê, se os castigos são recompensas?
ADENDA:
(1) De 29 incendiários detidos, 9 encontram-se em prisão preventiva (31%). Resta saber durante quanto tempo mais.
(2) Um deles, reincidente, estava a cumprir prisão. Em regime de dias livres. Passa pela cabeça de alguém, com o país devastado por incêndios, não obrigar a recolher até às próximas chuvadas pelo menos todos os presos por este crime? E não será óbvio para os juízes que o castigo deve estar relacionado com o crime? Queimou? Que se condene a limpar um determinado número de hectares. Reincidiu? Que seja bombeiro à força nos incêndios -- sempre na linha da frente.
(3) As mulheres da aldeia tentaram capturá-lo. Se o têm conseguido agarrar, em vez de "alegado incendiário" e "presumível criminoso" teríamos, de certeza, um criminoso bem chamuscado.
(4) O medo guarda(va) a vinha, que não o vinhateiro. Mas hoje, medo de quê, se os castigos são recompensas?
Pieguices
"Que em vivo ardor tremendo estou de frio". A febre deita-me abaixo, deixa-me incapaz de fazer o que quer que seja. Prostrado, amodorrado, o corpo bem mais dorido que depois de um estágio de karaté, dormito constantemente. Tudo isto por causa de uma infecção da garganta, que talvez me obrigue a ir ao médico. De positivo: só estou doente nas férias.
sábado, 14 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Pecado mortal
É dizer que os romances de Bolaño são chatos. É preferir os clássicos. É preferir o romance do século XIX.
Pois eu leio por prazer e recuso torturar-me. Ou gosto ou não.E digo como Sinatra:
Pois eu leio por prazer e recuso torturar-me. Ou gosto ou não.E digo como Sinatra:
Someone said, drink the water, but I will drink the wine.
Da faculdade da linguagem
O ser humano nasce com uma faculdade da linguagem que lhe permite, muito rapidamente, aprender a língua em que está imerso. A exposição a essa língua activa os princípios inatos da gramática universal, fixando, por exemplo, a ordem básica dos constituintes das frases.
E eu maravilho-me ao acompanhar a aprendizagem da língua pelos meus netos. Posso, por exemplo, afiançar que aos dois anos, idade do Miguel, a ordem básica do Português (sujeito - verbo - complemento) já está adquirida. Há pouco, ele e o Afonso, quatro anos e meio, discutiam porque nenhum queria dar ao Tiago, seis meses, um dos seus brinquedos. E o Miguel insistia, apontando para o pato que o Afonso recusava emprestar: "Não, bebé qué pá!" (Não, o bebé quer o pato!)
Paraísos terrestres
No tempo de Mário Soares, o paraíso ficava na Suécia; de há uns anos para cá, parece ter-se deslocalizado para a Finlândia, isto a fazer fé nos modelos que os nossos governantes nos tentam impor -- vejam-se, por exemplo, as recentes declarações da ministra da educação a propósito do fim dos chumbos.
Convencido que estou de que, apesar dos defeitos, Portugal é o melhor país para um português viver (eu sei, o amor cega), nunca me seduziram esses paraísos nórdicos, onde para comprar uma garrafa de vinho é preciso licença -- mas se pode ter um arsenal em casa, como os recentes massacres em liceus, feitos por miúdos finlandeses, evidenciam. Outros pormenores, ocasionalmente noticiados, aumentaram a minha desconfiança: a criação e o treino de Pit Bulls, as lutas de cães -- agora essa fantástica prova desportiva, o Mundial de Sauna, em que os "atletas" se deixam cozer a 110 graus centígrados e que só foi notícia cá porque um deles morreu. Convenhamos: querer substituir a lagosta não revela lá muito bom senso nem confirma um nível educacional superior ao nosso, apesar da vulgaridade tão criticada aos nossos "atletas" de aldeia, que se empanturram com febras grelhadas e sardinhas assadas em campeonatos bem renhidos e bem regados. Alarves? Sem dúvida. Parvos ao ponto de nos deixarmos cozer vivos? Ah, chamem os nórdicos, de alguma coisa lhes deve servir o seu ensino por cá tão invejado.
domingo, 1 de agosto de 2010
Eu chumbei
E foi o melhor que então me podia ter sucedido. Tive 9 a Desenho e 8 a Oficinas, o que, na época, implicava reprovação. Ninguém se comoveu com as boas notas que eu tinha a Português, a História, a Ciências, com as razoáveis a Matemática, etc. Ora este chumbo, que me humilhou de tal forma que nessas férias grandes nem saí à rua, ensinou-me duas coisas fundamentais: a primeira, que eu estava no curso errado (Formação de Serralheiros), uma vez que tinha reprovado nas disciplinas fundamentais; a segunda, bem mais importante, que alguma facilidade na aprendizagem, a que chamavam então inteligência, e sorte não chegavam; era preciso portar-me melhor, faltar menos às aulas chatas para andar de barco no rio, estudar com afinco.
Mudei de curso, comecei a aplicar-me, vim a ser novamente bom aluno. Nunca mais deixei de estudar. Embora, confesso-o, só depois dos quarenta, já na conclusão do meu mestrado em Linguística, lhe tenha tomado o gosto.
sábado, 31 de julho de 2010
Silly season
Cada vez mais silly, como comprova a recente entrevista da actual ministra da educação em que se propõe acabar com os chumbos -- os quais têm, até ao final do 3º Ciclo, uma expressão quase simbólica: é preciso um aluno esforçar-se muito para conseguir reprovar, mesmo com 8, 10 negativas.
Mas a ministra, descontente talvez com a pouca atenção que tem sido dada à sua pessoa desde que o PEC se tornou gente e Portugal passou a ser governado lá de longe, da Alemanha, em vez de ir a banhos, refrescar ideias, para esclarecer coisas importantes como o ponto da situação relativamente à TLEBS, ao Acordo Ortográfico, aos novos programas, aos mega-agrupamentos, preferiu avançar com a medida que, de uma vez por todas, resolverá os problemas do ensino. Simplesmente, acabando com ele.
Vale a pena ler isto, no De Rerum Natura, de onde extraí, com a devida vénia, a imagem à direita.
Ah, o senhor Albino, eterno pai (não haverá outros pais neste país?) apoia entusiasticamente a proposta.
Lá em cima está o tiro-liro-lito
Cá em baixo está o tiro-liro-ló
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina, a dançar do solidó.
(Amália)
quinta-feira, 29 de julho de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
Punhetas a grilos
Desde 2005 que, com maior ou menor regularidade, vou concorrendo aos raros prémios literários a que posso: uns são para menores de 35 anos, outros para moradores no concelho, nuns anos contemplam a poesia, noutros a prosa, a extensão dos trabalhos, mínima e máxima, nem sempre é compatível com o que tenho para oferecer...
E, salvo a menção honrosa que muito me honra, nunca o meu trabalho mereceu qualquer prémio. Fosse eu outro, mais susceptível, menos confiante, escrevesse à espera de glória, honrarias, dinheiro, e teria já desistido. Passaram anos desde que tive a pretensão de “assumir-me” publicamente como candidato a prosador; colecciono derrotas, acumulo desinteresse de editores, enfado de críticos – e, uma ou outra opinião simpática de escritores, muitas de leitores, que me reforçariam a vontade de continuar a escrever se ela dependesse da opinião de terceiros, o que não é o caso. (Como costumo dizer, escrever não é um prazer, há formas muito mais agradáveis de passar o tempo; é cruz a carregar.)
E, salvo a menção honrosa que muito me honra, nunca o meu trabalho mereceu qualquer prémio. Fosse eu outro, mais susceptível, menos confiante, escrevesse à espera de glória, honrarias, dinheiro, e teria já desistido. Passaram anos desde que tive a pretensão de “assumir-me” publicamente como candidato a prosador; colecciono derrotas, acumulo desinteresse de editores, enfado de críticos – e, uma ou outra opinião simpática de escritores, muitas de leitores, que me reforçariam a vontade de continuar a escrever se ela dependesse da opinião de terceiros, o que não é o caso. (Como costumo dizer, escrever não é um prazer, há formas muito mais agradáveis de passar o tempo; é cruz a carregar.)
Esta experiência em derrotas, para além do azedume, sempre útil por dispensar o vinagre no tempero das couves, levou-me formular a seguinte hipótese invejosa, certamente para satisfazer o meu ego:
(1) Santos de ao pé da porta fazem milagres. Por exemplo, na Galiza ganhou ao meu Lacrau, de que muito me orgulho, um galego com uma história sobre um filibusteiro francês que adorava matar espanhóis. Na Amadora, ganhou um estreante, colaborador de jornais locais. No Funchal ganhou uma funchalense, e pela segunda vez. No da FNAC o meu Entre Cós e Alpedriz perdeu para uma tal Bibi com dois élles no apellido – aparenta pertencer a família illustre de jovens pollíticos em carreira ascendente... O mais curioso é que, embora muito me tenha esforçado, nunca consegui ler nada dos felizes vencedores. Com esta excepção:
O Novíssimo Testamento. Graças à blogosfera, tive a possibilidade de encontrar aqui este excerto, certamente exemplar:
«Djédji nunca fez caca na vida, nem sequer nos cueiros, como todos os nenés, mamou, tomou biberão, sopa na colherzinha, sumo na caneca, comida no prato, mas nunca fez, simplesmente aliviava-se arrotando fatias de luz como lua nova, acocorava-se como uma rã e, por cada coaxar, expelia uma lua, várias luas, que depois se amontoavam no céu como se fossem bolas de sabão, e sempre que o fazia, sobretudo depois das refeições, Djédji punha os cães da vizinhança a uivar como lobos aluados, à parte isso, Djédji foi durante toda a vida um relógio vivo para a comunidade, arrotava sempre na hora e, com o tempo, bastava que os cães começassem a ganir para o capataz anunciar a suspensão da empreitada e a hora da merenda, o sacristão badalava os sinos, no quartel rendia-se a guarda, no chafariz jorrava água das torneiras.»Estou esclarecido: jamais ganharei o que quer que seja se não escrever histórias de caca. Ah, mas isto vai mudar: da próxima, concorro com estória em que o Padre Santo sodomiza a guarda suiça enquanto os cardeais literatos batem punhetas a grilos. Até o Nobel (atenção : NÓbéle!) me darão.
domingo, 18 de julho de 2010
Ni dan
Já em casa, exame feito, é tempo de repouso para, em Setembro, voltar à prática . Porque "o karaté é como uma panela ao lume: só ferve enquanto tiver fogo debaixo." E esse fogo, longe de esmorecer com a passagem dos anos, com caminhos escusos e becos, está cada vez mais vivo.
A todos, companheiros de estágio, examinadores, examinados, adversários, àqueles que em Paredes de Coura me presentaram com a sua amizade, àquele que tanto contribuiu para que eu lá estivesse, orientando-me, preparando-me, e grave sequela impediu de também estar presente, o meu muito obrigado.
(Fotos: aqui.)
(Fotos: aqui.)
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Exame de karaté
Para mim, a velhice não é um posto, como se dizia na tropa no meu tempo. E os anos não servem de desculpa para fazer ou não fazer. Por isso, domingo estarei em Paredes de Coura, submetendo-me a exame de graduação e serei, seguramente e de longe, o mais velho dos examinados.
Como sempre sucede, à medida que a hora da verdade se aproxima, aumenta minha consciência dos erros que ainda não consegui corrigir e o receio de falhar, apesar de ter treinado muito e duro -- mas nunca é o suficiente. Mas prefiro falhar tendo tentado, a falhar por não ter coragem de tentar.
(FOTO: final de Jion, tokui kata (a favorita); a antagónica é Empi.)
(FOTO: final de Jion, tokui kata (a favorita); a antagónica é Empi.)
quarta-feira, 14 de julho de 2010
A literatura do século XXI
Rentes de Carvalho, lapidar como sempre. Subscrevo todas as afirmações, só lamentando não as ter eu escrito. Por estas, as que ele menciona, por outras razões, cada vez me agarro mais aos clássicos. Nos últimos tempos, li ou reli A Brasileira de Prazins, Novelas do Minho, O Senhor do Paço de Ninães, O Mandarim, A Relíquia, Os Fidalgos da Casa Mourisca, O Pranto de Maria Parda, e ando a deliciar-me há uns bons tempos com o D. Quijote, em castelhano, no original. O Bolano está para aí numa das minhas estantes à espera de maré (li umas páginas, blá...), o nosso amigo Murakami dorme noutra à espera de quem tenha paciência para procurar o seu carneiro, como dorme, deitado para poupar espaço, o tão badalado As Benevolentes...
Também a poesia contemporânea me não seduz: sem ritmo, sem sentimento, opaca e densa como um buraco negro, afigura-se-me por vezes como um amontoado de tretas que relevam do puro ócio. E barroco por barroco, prefiro o original.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Karaté
Estágio e exames de graduação. Sábado e domingo, em Paredes de Coura. Direcção: Vilaça Pinto Sensei. Desta vez vou só. Os compagnons de route, por razões diversas, a que não é alheio o Tempo e o seu desgaste, desta vez não se fazem comigo à estrada. Enfim, a Via é solitária.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Ritual dos pequenos vampiros
Começo, também eu, por roubar: o título é de Cardoso Pires, mas infelizmente ajusta-se tão bem à realidade actual que não hesito em me apropriar dele. Começando pelo princípio: acaba o futebol e recomeçam as notícias sobre roubalheira, desmandos, despesismo, desgoverno. E a oposição afia já dentes gulosos, impaciente pelo poder que tarda. Ah, não nos iludamos, os pequenos vampiros não se tornarão vegetarianos: uns abancarão festivamente à mesa do poder, outros deixá-la-ão pesarosos, talvez para uns "cargos" internacionais ou outros remunerados a peso de ouro na gestão das empresas do 'sector estratégico do estado', ou de privadas agradecidas -- e há os outros, a quem restará um lugar de deputado para o folclore, o espectáculo, os artifícios de retórica, as piadas sem graça, as graçolas que a nós, que sustentamos esses (e essas) cómicos falhados, nos enjoam.
A Oeste, nada de novo (Erich Maria Remarque): vampiros, pequenos, grandes, e os seus rituais. E, sempre, o sangue fresco da manada.
domingo, 11 de julho de 2010
Na mouche
Certeiro, como sempre:
"Existe um domínio quase absoluto do Estado sobre a educação. Uma espécies de soviete supremo na 5 de Outubro que funciona com o apoio de vários sovietes locais e que propicia o desenvolvimento de uma nomenklatura que se infiltra e domina a educação em Portugal."
Nuno Crato, "Notícias Magazine", 11-07-2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Grande seca!
Diz o primeiro ministro que " todo o país ficou coberto por infraestruturas capazes de responder a qualquer período de seca." Será que ainda não se deu conta da seca que é ter de o ouvir diariamente e há tantos anos? Tanto tem para dizer e tanta disponibilidade para o fazer! Será que gosta de se ouvir a si próprio? E ainda não aprendeu que a natureza é imprevisível? Que o silêncio é de ouro?
A escola-prisão
Confrange-me ver como a escola, que sempre adorei, se está a transformar numa prisão para os jovens, obrigados a nela permanecer de manhã à noite, impedidos de sair por cartões electrónicos, vigiados por câmaras... Não é ficção científica negra, não. Antes fosse. É a realidade que espera os nossos jovens já no próximo ano lectivo: enclausurados todo o dia, emparedados em salas de aula em blocos de noventa minutos, com três direitos fundamentais: sentar, ouvir, estar calados. Para conviver, para namorar, ou o fazem na sala de aula, ou terão de rentabilizar os intervalos, escassos e exíguos, dividindo-os entre as necessidades fisiológicas, a alimentação e as relações humanas.
Não cometeram qualquer crime. Se o tivessem feito, teriam direito a liberdade condicional, regime aberto, pulseira electrónica. Mas estão condenados a prisão das 8H15 da manhã às 18H05 da tarde, obrigados a ver professores até ao vómito -- tudo isto em nome da segurança deles próprios!
Quem se admirará se a indisciplina se tornar explosiva?
terça-feira, 6 de julho de 2010
Canícula
42 graus à sombra. 30 agora, meia-noite. Recordo uma cantiga da minha avó:
Eu cá sou como o gaio
De dia fecho-me em casa
E à noite é que saio.
Eu cá sou como o gaio
De dia fecho-me em casa
E à noite é que saio.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Jornadas parlamentares do PS
A nós, falta-nos o emprego com a deslocalizacão de fábricas, sobretudo o pouco qualificado -- e aquele que existe é disputado com os imigrantes que importamos. Falta-nos o capital, que arribou a novos paraísos onde a mão-de-obra é barata, os direitos dos trabalhadores inexistentes, o meio ambiente para poluir livremente, a corrupção lei, o potencial de crescimento consumista explosivo.
Deveríamos perceber que o modo de vida actual é insustentável porque sempre se baseou na exploração de uns povos por outros e com a globalização o peso da ignorância como forma de perpetuar a escravização diminuiu. Eles, os chineses, os indianos, os filipinos, os sul americanos, os africanos, têm os olhos mais abertos. Sabem que "...os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos, mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande" (Vieira). E cansaram-se uns, começam a dar sinais de cansaço outros -- de ser pasto de tubarão.
Deveríamos voltar a produzir a parte possível daquilo que comemos (e não faltam campos ao abandono), queimar calorias no saudável trabalho físico e não apenas em ginásio, gastar cá dentro e naquilo que produzimos o nosso dinheiro... (Estas coisas penso eu, “que falo, humilde, baxo e rudo, / De vós não conhecido nem sonhado).
E mais não acrescento, que tenho as batatas para arrancar, o post vai já longo e faltam-me qualificações – essas qualificações que legitimam as remunerações escandalosas das cabeças geniais que arruinaram deliberadamente a agricultura, a indústria, a produção nacional e nos conduziram ao ponto em que nos encontramos: às sopas da mãe CEE.
Quanto ao discurso de Assis, parece choraminguice de carpideira no funeral do ideal socialista, construído como alternativa a esse espectro que ameaçou a Europa durante quase um século -- o comunismo. O brilhantismo das suas palavras só me faz recordar Piaf e Les mots d’amour:
Je dis des mots
Parce que des mots,
Il y en a tant
Qu'il y en a trop...
Parce que des mots,
Il y en a tant
Qu'il y en a trop...
(FOTOS: clicar para ampliar)
domingo, 4 de julho de 2010
Boa vizinhança
Levantei-me de madrugada para abrir as janelas e tentar refrescar a casa -- para acordar com ela empestada por fumo. Não, não é incêndio florestal. É só um vizinho que adora fazer queimadas ao domingo de manhã, rádio em altos berros, para que todo o quarteirão se embeveça com música pimba. Sim, ele sabe que é proibido queimar (a GNR já lho recordou), deve ser até o que mais gozo lhe dá.
Dá para parafrasear o Apocalypse Now, agora sem napalm: Adoro o cheiro a queimado pela manhã. Cheira-me a... a... vitória -- sobre a lei , o bom senso e a boa vizinhança.
Exame de consciência
Dantes escrevia sobre homens e mulheres comuns, que neste país sofrem o calor e o frio, a chuva, o nevoeiro, as trovoadas, desconfortos e privações, enquanto amam, trabalham, vivem. Mas descobri que os críticos preferiam neuróticos, tarados, desgraçados, famílias destroçadas e amarguradas que inexoravelmente condenam o protagonista a um final infeliz...
Então fiz longo exame de consciência e passei a escrever sobre homens e mulheres comuns, o desemprego, a mulher que persegue uma ilusão de amor, o calor, o frio, a chuva, o nevoeiro, as trovoadas. E, porque tudo se repete num ciclo quase imutável, dou por mim a dizer: já escrevi sobre isso. E acrescento imodestamente: até nem me saiu nada mal.
Então fiz longo exame de consciência e passei a escrever sobre homens e mulheres comuns, o desemprego, a mulher que persegue uma ilusão de amor, o calor, o frio, a chuva, o nevoeiro, as trovoadas. E, porque tudo se repete num ciclo quase imutável, dou por mim a dizer: já escrevi sobre isso. E acrescento imodestamente: até nem me saiu nada mal.
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