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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os quarenta rebuçados da Restauração

(Rascunho)

O vento sopra cortante, tremem os corpos, batem os dentes com frio. Resguardamo-nos no pequeno vestiário da escola, gelado, desabrigado.
--- Lê a lição, pede-me o Fernando, que, mais uma vez, não terá feito os trabalhos de casa. E eu, que gosto de ler, começo: “Na madrugada do dia 1 de Dezembro, quarenta vultos rebuçados... “
Os olhos do Fernando brilham e rebrilham, tantos rebuçados juntos, estômago vazio, cabeça cheia de iguarias, ele que chega à escola com aguada de café de cevada e talvez sopas da côdea da véspera, resto do jantar ou sobra do almoço, a lavadura do caldo mais fácil de engolir…
Corrijo-o: --- Não são rebuçados desses.
Resplandece-lhe a face: --- São rebuçados “Noivos”? Tão bons!
Surpreendo-me: --- Já comeste desses? Sim, conta, um que lhe deram. Nunca provara nada tão bom na vida! Ah, se eu fosse rico, era só o que comia. Rebuçados “Noivos” de manhã à noite.
Recomeço a leitura. (Gosto de rebuçados, mas prefiro ler, sobretudo quando me ouvem…)
--- Quarenta vultos rebuçados…
E ele, augado: --- Não me fales mais em rebuçados.
Prossigo. O Fernando, tiritando de frio, não me presta atenção, o olhar fito num qualquer sonho distante, quente, farto e doce. Reparo que veio calçado:  botas de borracha enormes, rotas --- mas calçado. Por causa da visita do inspector na semana passada. Ralhou com a professora: --- Há meninos descalços! E para nós: --- Não podeis vir descalços para a escola, ouvistes?
Atrapalhada, a professora tenta desculpar-se: --- São muito pobres, os pais não podem...
O inspector, ar de santo: ---Então ajude-os, com o dinheiro da Caixa Escolar
--- Mas, Senhor Inspector, o dinheiro da Caixa nunca chega para as despesas, tinta permanente, papel, giz... É terra de gente pobre...
Que visse o que podia fazer. Descalços, não.
Eis que chega a professora: --- Bom dia, minha senhora.
--- Bom dia, meninos. Vamos entrar.
Seguimo-la, sempre deslumbrados com a sua beleza: bem jovem, alta, elegante, cabelo negro, a graça de um sinalzinho no queixo. Todos apaixonados por ela desde que cá chegou, em Outubro. Só é pena ser tão má, maltratar-nos tão cruelmente. Precisamente por isso, o Fernando, uma das suas principais vítimas, a alcunhou: Foguete 24; foguete, porque se assustou com o estoiro de um na festa; 24, porque é a sua conta normal de reguadas, uma dúzia em cada mão. Não há régua que lhe resista por muito tempo. Há semanas, partiu uma nas costas de um desses matulões que se arrasta pela escola à espera dos catorze anos, para então a poder abandonar, incapaz de fazer a quarta classe --- a professora nem o leva a exame. Pois na manhã seguinte, eis que se levanta e respeitosamente se lhe dirige: --- Minha senhora, está aqui esta régua que o meu pai fez e lhe manda. Manda também dizer que é de castanho, não parte às primeiras.
--- Vamos lá a experimentá-la. Dá cá a mão.
E segue-se tareia preventiva: --- Fica por por desconto das que hás-de apanhar esta manhã.
Começa o interrogatório, pretexto para o primeiro espancamento matinal:
--- Que dia é amanhã?
--- 1 de Dezembro, respondo prontamente, sempre sabichão.
--- Porque é que é feriado?
E eu, mão no ar: --- Porque é o dia da Restauração.
--- Tu, cala-te. Respondes quando te perguntar. Fernando: o que é que aconteceu?
E ele, sofrendo por antecipação as duas dúzias de reguadas, contorce-se já na carteira, esfrega as mãos enregeladas, por tique nervoso ou para para as aquecer, que pancada em mãos  frias dói muito mais:
--- Houve a Restauração...
--- Isso já sabemos. Pára de dançar e responde.
--- Quarenta..., soluça, --- Quarenta...
--- Muito bem. Que continue,  ordena severa, brandindo a régua na mão direita, com vigor semelhante ao das espadas com que aqueles revolucionários trespassaram Miguel de Vasconcelos.
O Fernando, cada vez mais atrapalhado, só gagueja: --- Quarenta...
--- Quarenta quê? Desembucha!
--- Quarenta rebuçados, já disse! --- chora o Fernando.
E a professora, no gozo: --- Quarenta rebuçados?
--- Sim, um pote cheio deles, como os que há na loja da Tia Joaquina....
Torce-se, grita, tenta fugir com a mão cheia de frieiras à tortura, acaba por levar as últimas no rabo, nas costas, na cabeça: --- Culpa tua, que não paras quieto!
A professora só se moderará anos mais tarde, já na Primavera Marcelista. Um desses calmeirões, louco de dor, exasperado com os espancamentos diários, virou-se a ela: --- Sua puta, se me bate mais, fodo-a!
--- Ai, tragam-me um copo de água, que vou desmaiar.
E o irmão da vítima teve o gosto de lhe atirar com a água à cara…
(Conta-se que um cidadão romano, octogenário, dizia preferir a morte a voltar à infância, tendo de passar novamente pela escola e pelas suas torturas…)

domingo, 28 de novembro de 2010

No jobs for the boys

Tanta ingenuidade é confrangedora:
Passo Coelho avisou hoje que "os espertalhões que sabem colocar-se, na hora certa", ao lado de quem "vai ganhar" que "não terão guarida, nem complacência" por parte do PSD.
Não terão guarida como, se sempre estiveram lá dentro, à espera da oportunidade que vai tardando? Camarada Passos, já és crescidinho, deixa-te destes dislates. Ouve o que te digo: os partidos, e nomeadamente as suas jotas, são lodo do mesmo charco. Se, um dia, longínqua miragem, vieres a ser primeiro ministro (e não menosprezes o actual, que é mestre na arte do ludíbrio e do engano, e só sai do governo com tira-nódoas -- e, além dele, tens à perna o teu amigo Cavaco), se vieres a ser primeiro-ministro, cala-te bem caladinho, deixa-te de declarações pomposas, chega-lhes pela calada, sem complacência, a roupa ao pêlo, aos "espertalhões", e terás o meu respeito, a minha admiração. Ficarás para a história como o primeiro governante a conseguir fazê-lo...
(Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Jacques Prévert, "Barbara" )

sábado, 27 de novembro de 2010

As enguias

Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Mei×ão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada... As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”
Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil...
Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados ao tango do Orçamento…

Publicado no Delito de Opinião, convite de Pedro Correia. Muito obrigado!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

25 de Novembro

Posts em vários blogs, como este e este, recordam-me da efeméride. Eu estive . Tinha 21 anos e vivi-o por dentro, com muito medo, completo desnorte -- afinal, de que lado estava eu? Como se furriel miliciano tivesse direito a tomar partido! Um dia, escreverei sobre a forma como vivi esse dia e, pior, os seguintes, a comandar soldados em barricadas, os oficiais, como sempre, resguardados no quartel, as carreiras protegidas qualquer que fosse o lado vencedor. 
Por hoje, fico-me por este fragmento inédito de uma das minhas narrativas:
"combate-se nas ruas, nas ruas onde todos nos manifestamos, pela libertação do camarada Saldanha Sanches, pelas 40 horas, pela unicidade sindical, contra os fascistas que o Otelo tarda em toirear no Campo Pequeno, em apoio do companheiro Vasco… E morre-se no 25 de Novembro no cerco à Polícia Militar, em que umas dezenas de comandos cercam 2500 PMs bem armados e entrincheirados no interior do quartel, bravos que, ainda na véspera, desfilavam briosos, camuflado, lenço vermelho ao pescoço, punho erguido, soldados, sempre, sempre ao lado do povo, rijo tiroteio e rendem-se ao inimigo figadal, sempre pronto a acertar velhas contas retornadas das colónias --- era a Polícia Militar, resguardada da guerra nas cidades, que prendia por bebedeiras e desacatos os comandos de licença, uns dias longe do mato e das matanças."
FOTO: sou o primeiro, à direita, ajoelhado.

Flores outonais

Só falta o aroma, suave, discreto --- embriagador para as abelhas, sempre azafamadas, sem tempo a perder, que o Sol é de pouca dura e as flores depressa murcham...

"Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
"

(Bocage)

FOTO: a nespereira do meu quintal, mesa posta para as abelhas. Clicar nela para ampliar.
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O vampirismo do romance

Sorve todo o tempo livre e não dá descanso no tempo ocupado. Enerva-me quando afazeres profissionais me obrigam a pô-lo momentaneamente de lado. Suga-me quando acordado, ensonado, até a dormir, em sonhos. Deita-se e levanta-se comigo, martela-me a cabeça frase a frase, palavra a palavra, sempre descontente, sempre exigente. Alimenta-se de tudo o que nas gavetas e nas pastas do computador lhe parece apetecível -- contos não publicados, histórias incompletas fadadas para outro destino, vasculha posts do blogue, na esperança frequentemente vã de encontrar pasto para a sua voracidade. E um dia, se terminado -- sei-o por experiência anterior -- deixa-me vazio, sem mais nada para contar, sem mais nada para escrever, enjoado só de o ver, incapaz de mais uma vez o reler sem vomitar. Nem então me dá sossego: vai à sua vida,  sim, exigindo embora que o apadrinhe, o proteja, o divulgue, o venda até, a mim que sou um desastre nos negócios...
Chamou-se Do lacrau e da sua picada, chamou-se Entre Cós e Alpedriz, veio outro cujo nome que não pode ainda ser divulgado, eis agora as Plêiades (título provisório), que exige ser terminado. Vampiros que, como na canção de José Afonso, comem tudo e não deixam nada.

Destaques do dia

(Os links não correspondem aos títulos dos posts)
Eduardo Pitta, sobre a regra e a excepção.
Pedro Correia, sobre a coerência de políticos respeitáveis.
João Gonçalves, sobre a emigração altamente qualificada.
Sérgio de Almeida Correia, sobre a nova revolução cubana.
De Rerum Natura, sobre a arte de dar peidos (que é mesmo o que a conversa da ministra do trabalho e dos dirigentes sindicais está a pedir).

No Delito de Opinião

Graças à amabilidade do Pedro Correia e da equipa do blogue, o meu texto, As enguias. Muito obrigado a todos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Hoje, quarta, é dia...

de feriado municipal no Entroncamento. Que vai servir para fazer um teste para quinta-feira (os professores não fazem nada, é só férias e dias livres).

Receita para a bancarrota, do grande Eça

"— Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz? E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta — cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
— Num galopezinho muito seguro e muito a direito — disse o Cohen, sorrindo. — Ah! sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável; é como quem faz uma soma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
— A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela — continuava o Cohen — que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...
Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, de Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.
Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! À bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança — o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas..."
Eça de Queirós, Os Maias (negrito meu)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mudem de rumo, mudem de rumo

Como canta José Afonso (nunca conseguirei chamar-lhe Zeca).

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Gaba-te, cesta...

Há anos, desde que me decidi a publicar, que luto para divulgar os meus escritos, imodestamente convencido de que terão algum valor. Com sucesso relativo, embora posts do pintor João Alfaro, mensagens animadoras dos escritores Rentes de Carvalho, Joaquim de Lisboa, José Cavalheiro, do editor Nelson de Matos (entretanto perdida por problema informático) me envaideçam e animem. Na semana passada, foi a vez do escritor Carlos Maduro me presentear com este post, que orgulhosamente reproduzo:
José Cipriano é um amigo que não conheço pessoalmente, mas que descobri aqui na net e de quem sou admirador. Começa pelo nome e acaba no título dos seus livros. Este que aprecio particularmente, Entre Cós e Alpedriz, está na Net e pode ser lido. O Amigo José Cipriano fez o favor de me enviar uma edição impressa e aí a leitura cresce muito mais, mas serve o PDF para abrir o apetite.
     O José é mais um dos finos escritores regionalistas, daqueles que gosto a sério, dominam a pena sem vaidades e pseudo-intelectualidades. Os toiros têm cornos e as vacas tetas. Fica aqui a sugestão duma escrita que não é depósito de agonias existenciais e de prosas poéticas sem nexo.
http://joseciprianocatarino.com/joomla/images/stories/entrecosealpedriz.pdf
 Muito obrigado e um abraço. Um destes dias, encontrar-nos-emos e não faltará assunto de conversa.

domingo, 14 de novembro de 2010

A razão a quem a tem

Numa arrogância de que frequentemente me arrependo, comecei por me rir do actual Papa e da sua voz senil. Mas, paulatinamente, fui mudando de opinião. O homem não é nada parvo. Estou completamente de acordo com estas afirmações do Papa. É exactamente o que venho dizendo e escrevendo, neste blogue e em caixas de comentários de outros que me merecem respeito:

"Perante o arrastar do "desequilíbrio entre riqueza e pobreza, o escândalo da fome, a emergência ecológica e o problema do desemprego", Bento XVI considerou decisivo um "relançamento estratégico da agricultura".

"Parece-me uma boa altura para que se volte a valorizar a agricultura, não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para o futuro",
sublinhou.
(...)O papa também criticou os países onde, "apesar da crise, se incentivam estilos de vida que convidam a um consumo insustentável, que resulta em danos para o ambiente e para os pobres".

"É preciso apontar um novo equilíbrio entre a agricultura, indústria e serviços, para que o desenvolvimento seja sustentável e a ninguém falte o pão nem o trabalho, o ar, a água e o resto dos recursos que sejam preservados como bens universais".

Alimentar a alma

Escorrem as notícias pelos dias, cinzentas, depressivas como eles, e nós, acabrunhados, envergonhamo-nos com o nosso primeiro ministro, de mão estendida à caridade, mendigando junto dos tiranos das sete partidas do Mundo, enquanto os seus ministros se preparam para o abandonar… Eu sei, Portugal afunda-se, sem que nenhum de nós possa agora fazer o que quer que seja para o evitar. Por isso, sejamos felizes, sem remorso nem receio. Há muitos, muitos anos, aquando de outra crise, não me chegava nunca o dinheiro até ao final do mês e recebi uma carta dos meus pais com uma pequena quantia: faziam anos de casados e queriam que nós (éramos três na altura) fôssemos jantar fora. Havia tanta necessidade, tanta privação, que hesitei: aqueles centos de escudos poderiam ser mais bem empregues em calçado, em roupa… Lembrei-me então de um poema árabe, algo como: “Se só dois pães te sobrarem / vende um / e compra flores / para alimentares a alma”. Fomos jantar ao melhor restaurante local e, bem comido, bem bebido, a alma alimentada, a crise já me não parecia tão assustadora. Desde então, defendo que a importância inegável do mundo material deve ser relativizada para que outros valores mais altos se alevantem.
Neste fim-de-semana comemorámos o São Martinho. Nos Montes, na minha adega, em família, e o tempo ajudou: vento forte, chuva, para que o lume fosse mais aconchegador. A água-pé está excelente: muito bem apaladada, leve, oito ou nove graus. Já envasilhada, pronta para distribuir pelos amigos, na esperança de que, saboreando-a, esqueçam, também eles, a desgraça que é o nosso governo e as humilhações que inflige a este pobre país -- até Timor se propõe comprar a nossa dívida! Que tal ajudar-nos pagando os custos da GNR, que lá zela pela segurança deles?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Coisas boas do Outono

Esta sonolência que me ataca logo após o jantar e me impede de trabalhar -- e refastelo-me na cama a reler a Ilustre Casa de Ramires. Tal e qual como escrevi há quase um ano. É seguramente cíclico. Por isso, boa noite.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tokui-gata

Jion.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As desgraças costumeiras e o peligo amalelo

Durante um mês, preveniram-nos: ou o orçamento é aprovado ou temos o fim do mundo. Agora que o foi, os juros chegaram aos 6,9 e ninguém pode garantir que parem por aí. Se tivesse sido chumbado, como o governo merecia (e nem me quero alongar a discorrer novamente sobre arrogância, promessas, incompetência), se o orçamento tivesse sido chumbado, estaríamos pior? Talvez. Mas seriam os credores a tremer, assustados com a possibilidade de falirmos e os deixarmos a arder. Dificilmente especulariam.
Volta-se o governo para o Império do Meio; não saberá que a China já era civilizada ainda os nossos antepassados resistiam heroicamente à civilização e que sabem mais eles a dormir (não por acaso, já lhes ouvi chamar "os judeus do oriente") do que nós acordados? Não passará pela cabeça dos governantes que os chineses só estão interessados em defender os interesses chineses? Quanto a nós, insignificantes bárbaros do Ocidente, vão-nos cozer em fogo lento, puxando pelos juros para terem os consequentes lucros especulativos, apropriar-se do que por cá houver de valor, impor-nos a sua visão estratégica (quero  agora ver o Dalai Lama em visita a Portugal), os seus produtos, e ai de nós se ousarmos refilar: não diz Manuela Ferreira Leite que quem paga é que manda?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Todo o terreno

 Ou quase. Post motivado por este, no Albergue Espanhol
Ora digam lá: os jeeps gabados lavram, fresam, gradam?
Arrancam árvores?
(Vídeo: o Jorge e o pai em acção. Foto: tractor atascado até ao motor.)

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Coisas boas do Outono

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Dia de Todos os Santos

Dou-me mal com o calendário e nunca sei a quantos ando. O que pouco me importa. Interessa-me o dia da semana, a agenda serve apenas para marcar os testes, embora os meus alunos sempre me alertem com antecedência, não vá acontecer eu esquecer-me de a consultar – o que, em 34 anos de profissão docente, nunca sucedeu. Por isso me esqueço dos aniversários, do meu inclusive: sei em que dia é, só não sei que esse dia É. E todos os anos sou surpreendido alta madrugada pelo toque da campainha a anunciar ranchos de miúdos ao “bolinho”. Despensa desprevenida, vazia de guloseimas. Para os primeiros, ainda se arranja qualquer coisa, mais simbólica do que apetitosa. Para os que vêm a seguir… Muitas vezes, envergonhado por nada ter para lhes dar, nem abro a porta.
Custa-me não ter com que os contentar (dinheiro não dou, seria incentivo à pedinchice e à mendicidade) porque quando tinha a idade deles também eu madrugava e ia em bando, sacola às costas, de porta em porta, ao “Pão por Deus”. Regressava orgulhoso com sacadas de pão duro, fraca gulodice em casa de padeiro, onde fome nunca entrou, embora a necessidade lá morasse.
Para o ano vou estar prevenido! Só que todos os anos me esqueço de que o Dia de Todos os Santos é dia de bolinho, era dia de Pão por Deus… E como poucas vezes sei em que dia do mês estou, como prevenir-me para esse dia?

domingo, 31 de outubro de 2010

Coisas boas do Outono

"Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes"
Camões, Os Lusíadas

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A vida a andar para trás

É o que afirma Jerónimo de Sousa. Seria bom se fosse verdade. Viver outra vez os bons momentos, emendar tanta asneira que tenho feito ao longo da vida, reencontrar os entes queridos já falecidos, dizer-lhes as palavras que calei por orgulho, por timidez, e que os teriam feito mais felizes, fazer no tempo certo aquilo que não ousei, olhar para as coisas com o olhar maravilhado da infância... Ah, camarada Jerónimo, se tivesse razão até votaria em si, até faria campanha por si!
Mas olhe que, para si, a vida a andar para trás seria também coisa boa: imagine-se novamente nesse tempo em que se acreditava que os amanhãs cantariam, a Internacional seria o género humano...
E que bênção para o povo português, que os tempos que se avizinham, pode crê-lo, vão ser bem piores do que aqueles que vivemos nos últimos 20 anos.

sábado, 30 de outubro de 2010

Pragas

Há uns anos, muitos as criaram por graça. Umas lograram fugir, outras foram soltas pelos proprietários quando delas se fartaram. E elas, as rolas mansas, cresceram e multiplicaram-se. Ainda não enchem toda a Terra, mas esforçam-se para o conseguir. Escapam aos caçadores por viverem junto às casas. Acordam-me alta madrugada com o seu arrulhar horrível, devastam os quintais, sujam os telhados.
Mas, com o agravar da crise, podem até vir a ser uma bênção e compensar os brócolos comidos acompanhando grelhadas  os que pouparam.
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Casamento orçamental

Eu não disse que a comédia acabava depressa? E em casamento, como pertence? Que as comadres casamenteiras seriam Cavaco Silva e a senhora Merckel (que pouco tem de senhora, feia de fugir)? Concedo: o papa ainda não abençoou a união. Por agora, bastará um cardeal português.
Pois podem fixar o que eu digo neste dia de invernia: é Sol de pouca dura. A tranquilidade dos mercados que esta "responsabilidade" tão badalada vai gerar desaparecerá muito em breve. E então será bem pior. Por isso preferia que se varressem já trastes e cacos...
(Circunda-te de rosas, ama, bebe  /     E cala. O mais é nada. )

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Presidenciais

Monsieur le Président
Que vas-tu faire?
-- Rien, rien, rien...
(Reconstruída de memória)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Crises

Vivi, embora fosse demasiado criança para com ela me preocupar, a crise dos mísseis em Cuba -- e o Mundo esteve prestes a acabar; o 25 de Abril; o 11 de Março na tropa; o 25 de Novembro -- ainda estava na tropa; a morte de Sá Carneiro em Camarate; aquela crise sem nome em que o chanceler alemão voou para a América tentar meter juízo na cabeça de um banana de um presidente com cara e conversa de vendedor de carros usados que não valia a pena começar uma guerra com a União Soviética por causa da invasão do Afeganistão; apanhei com os governos de Mário Sares, o FMI -- e não recebi então 1/3 do subsídio de Natal, com que esperava comprar roupa para a minha filha e uns sapatos para mim, que os buracos na sola eram incomodativos em dias de chuva...
Há hoje um arrufo de namorados entre PS e PSD? Quem quer apostar que em breve estarão agarradinhos a dançar o tango, sob o olhar embevecido de comadre casamenteira -- Cavaco, Merckel, o papa, se necessário for...
Que, por mim, preferia partir a loiça, e com uma vassoira, à antiga, varrer trastes e cacos.

domingo, 24 de outubro de 2010

A arte de fazer pão

Transmitida de avô a neto.

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sábado, 23 de outubro de 2010

Três rapazes

E uma sala virada do avesso.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Blogue em destaque

Informa-me o SAPO de que o meu blogue está em destaque. Muito me honra essa distinção, que me levará, paulatinamente, a transmudar a réplica em original. Muito obrigado!

(Clicar na imagem para ampliar).

domingo, 17 de outubro de 2010

Onde a terra se acaba


"onde a terra se acaba e o Mar começa
e onde Febo repousa no Oceano."
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Via não tem limites

Já perdi o conto às fornadas de novos alunos a quem iniciei na arte do Karaté. Muitos, muitos, treinaram com afinco até à conclusão do Secundário. Fica-me o consolo de terem partido muito mais fortes e confiantes do que quando chegaram até mim. E é com enorme prazer que os revejo, completamente mudados, dez, vinte, trinta anos depois, a lamentar que as exigências da vida lhes não permitam voltar aos nossos treinos, a recordar com saudade esse tempo em que transpirámos, sofremos e nos divertimos juntos. E é com prazer que os oiço falar dos seus sucessos e fracassos (a vida também é feita de derrotas). Outros, por vezes, fazem-me chegar a expressão pública da sua gratidão por terem descoberto comigo a Via do Karaté, agora que trilham os seus próprios caminhos, por rumos que raramente se cruzam com o meu.
Na foto (clicar para ampliar), o grupo de 2010, em constituição. Poucos ainda, desalinhados, torcidos, fraquinhos. Não importa. Aqueles que não desistirem estarão irreconhecíveis no final do ano lectivo. E daqui a meia dúzia de anos, quando também eles me deixarem, será talvez o momento de recomeçar novamente a partir do nada. Porque, dizem os antigos mestres, a Via não tem limites.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Do cavaquistão

NOTA PRÉVIA: este texto foi escrito em 1994, em pleno cavaquismo. Jamais pensei que os meus agoiros viessem a ser tão certeiros...

Destroçado pela derrota derramo minha amargura
Pelos caminhos deste país que já foi de vinho e mel
E a ela perdura, amarela e viscosa como fel,
Tingindo cada rosto, cada figura,
De lívida brancura

Já nada é como era dantes
e o cabelo que me vai faltando é apenas
breve indício do Inverno que se vem aproximando.
Mas o que me dói e não tem cura
neste entardecer azedo
é ver o país a adormecer cinzento
de indiferença e pasmo bafiento

Ninguém faz nada sem proveito.
Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)

Não, nem orgulho ferido nem sonhos perdidos
agora já só o meu olhar camponês me magoa
como o mato à minha terra onde já nada é como dantes...
Chove no Verão, o Inverno aquece
E o nevoeiro não tece mistérios bastantes
outros que a miséria deste Portugal que esmorece

Só sei que de lado nenhum sairá a luz que rompe as trevas
porque já nem a noite é de breu
nem os dias resplandecem

Finis Patriae

Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?

Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração

(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)

Lá, onde corre a fresca regueira
onde nasce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão

O sino dobra novamente a finados...


( "versos" finais de Entre Cós e Alpedriz; título roubado a Guerra Junqueiro)

sábado, 9 de outubro de 2010

Ui, que medo!

Informa o Ionline, sem esclarecer se é promessa, se é ameaça, que "[A] queda do governo está iminente. O chumbo do PSD ao Orçamento do Estado levará Sócrates a Belém para pedir ao Presidente que arranje outro primeiro-ministro".
Acorramos todos em massa a Fátima, a São Bento, aonde for preciso, suplicar ao nosso primeiro que reconsidere: como poderemos viver sem ele? Que será da pátria sem tão esclarecido timoneiro? E da Europa, ainda tão frágil, e do Mundo, sempre tão conturbado? E das universidades americanas, sem as suas doutas conferências? Ah, não pode ser, é invenção! Ninguém nos privará deste Afonso Henriques, deste João Segundo do século XXI!
Jamais permitiremos que tenha razão o Brecht: se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia, / não acharia em todo o Império uma vaga de porteiro.
(É que qualquer profissão exige experiência profissional, humildade, qualificações...)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Crime na capital

O conto Crime na Capital, vencedor da IIIª ed. do Prémio Literário Irene Lisboa  na modalidade conto, pode ser descarregado para leitura no meu site. Basta clicar no respectivo separador, menu de topo. Ao lado, e também disponíveis para leitura, a minha dissertação de mestrado e os romances Do lacrau e da sua picada e Entre Cós e Alpedriz. Trata-se de versões em pdf, rigorosamente idênticas aos exemplares impressos, o que explica as páginas iniciais em branco.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Colesterol

O Vergílio e eu, após sábado de trabalho duro a fazer o vinho. Merenda no regresso, na Tasca da Tia Maria aqui, junto a Porto de Mós): queijo curado, morcela e farinheira grelhadas, sopa de feijão a compor. Tinto da casa, traçado.

domingo, 3 de outubro de 2010

Outono de seu riso magoado*

Crescem as noites, arrefecem os dias, alongam-se as sombras, até há pouco exíguas, verticais, duras – eis que difusas se confundem com natureza, casas, objectos, pessoas, e a lucidez que sempre nos faltou não alcança destrinçar nessa penumbra a realidade fugidia.
Não é só o Portugal tristonho a definhar, não; é todo um mundo de aparências, de quimeras, créditos, promessas plásticas de juventude eterna, vidas de sonho decalcadas de revistas de cabeleireira... Sabemos hoje (sabê-lo-emos?), que a riqueza era virtual como o dinheiro, como o crédito bancário,  e vemos as prometidas vidas de sonho esvanecerem-se para todo o sempre como sombras que jamais conseguiremos alcançar, ora fugindo à nossa frente se as perseguimos, ora a  seguirem-nos trocistas se lhes viramos as costas. Para nosso desgosto e revolta, espera-nos,  sarcástica, a frugalidade austera dos nossos pais e avós...

(*  verso de Camilo Pessanha)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Na rádio

Entrevista à rádio "Vida", no seguimento da atribuição do Prémio Irene Lisboa (conto).
Amanhã, sexta-feira, às 17H00;  repetida na segunda-feira, às 12H00.
Pode ser ouvida AQUI.
Foto: recepção do Prémio Irene Lisboa.
(Deixem-me justificar a minha fraca eloquência, negrito meu:

"-- Você sabe falar -- comentou.
-- Nasceu comigo.
-- Daria um péssimo escritor -- prosseguiu. -- Nunca conheci um escritor que fosse um bom orador. "
Ray Bradbury, "Rumo a Quilimanjaro", in As Vozes de Marte, colecção Argonauta, Ed. Livros do Brasil, Lisboa)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Relatório da OCDE

Exasperado com tanta recomendação, o automobilista encosta bruscamente à berma, leva as mãos à cabeça e ousa perguntar à mulher: 
-- Afinal quem é que vai a guiar? Tu ou a tua mãe?
Assim estou eu: afinal quem é que vai a guiar este país (para o abismo, presumo) sob o olhar conformado do "governo"? A OCDE e o seu secretário abelhudo, o Banco Central Europeu, a UE, a senhora Merkel...?
E o homem do leme, que as más línguas insinuavam nunca ter dúvidas e raramente se enganar, está agora seguro do rumo a seguir nesta navegação à vista? Não terá sido no seu tempo que se apregoava haver gente a mais no campo, sendo urgente esvaziá-lo para termos percentagem de agricultores semelhante à dos membros da CEE? Que os campos, por força disto e das PACs, ficaram ao abandono, enquanto um ministro da Agricultura confessava impunemente que achava bem 10% dos agricultores receberem 90% dos fundos, porque era um daqueles que os recebiam? Não foi ele, que no seu estilo sibilino, protestou timidamente contra o esbanjamento dos fundos comunitários em "despesas sumptuárias"? Não foi no consulado  daquele que agora vê no mar uma saída para a crise (cá para mim, é onde os credores nos afundarão) que se abateu a frota pesqueira? (Et caetera, et caetera, correndo embora o risco, por falhas de memória, de confundir os trastes da caterva.)
Agora, após tantos desmandos desculpabilizados, consentidos, legitimados, porque a lei os não criminalizava (e quem faz as leis, quem é?), ficamos a saber que o "governo soberano da república" (tanta treta num único lugar-comum!) tem a liberdade de decidir se me baixa o salário ou me cobra mais impostos -- embora eu receie que, na dúvida, faça as duas coisas.
(Declaração de interesses: não me pronuncio ainda sobre as oposições, tantas vezes representadas por engraçadinhos e espirituosas, a fazer uns números de humor para as televisões.)
ADENDA: devo ser bruxo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Prémio Literário Irene Lisboa

O júri da IIIª edição do Prémio Literário Irene Lisboa, promovido e organizado pelo Município de Arruda dos Vinhos e pela Biblioteca Irene Lisboa, entendeu distinguir, por unanimidade e entre cerca de duzentos trabalhos a concurso, o meu conto Crime na Capital. Orgulhoso da distinção, quero expressar a minha simpatia e a minha solidariedade a todos os concorrentes, e o desejo sincero de que não esmoreçam, antes persistam, nesta labuta insana da escrita, em que alguns, desconhecedores talvez das agruras do ofício, vêem prazer, como se prazer pudesse existir em tanto tempo de vida gasto em correcções sucessivas, na procura da toada e do ritmo adequados, na busca da palavra exacta...
Muito me honra e alegra receber este prémio, com patrona da envergadura intelectual e artística de Irene Lisboa, mulher distinta, professora emérita, poetiza e prosadora notável. Confesso que o prémio recebido compensou, de alguma forma, os momentos de dúvida, de desânimo, que rejeições de editores, desinteresse de críticos, por vezes provocam – embora reconheça que essas contrariedades reforçam a determinação e aumentam a vontade de continuar em frente, neste trabalho de Sísifo, que se não escolhe, antes nos surge imposto, poucas vezes obtém reconhecimento e, menos ainda, glória.
Crime na Capital inspirou-se em factos reais, um dos quais, o despedimento do engenheiro Eleutério, pareceu por demais inverosímil às minhas primeiras leitoras, a quem sempre dou a ler os originais antes de os considerar terminados. De facto, a realidade é frequentemente mais incrível do que a ficção, nomeadamente a triste realidade dos despedimentos, que atingem números jamais alcançados no nosso país, e assumem formas até há pouco inimagináveis, como por mensagens SMS. Também a história do mestre de karaté que faz peritagens de seguros e é alvejado durante um encontro amoroso ocorreu, infelizmente. Poderia, portanto, citar Camilo Castelo Branco (Vingança) “Não tenho imaginação, tenho memória”, se não tivesse recorrido abundantemente à imaginação para articular os eventos, concentrando numa única narrativa histórias diferentes, ocorridas com pessoas diferentes, em diferentes espaços e tempos. E, acrescento,  a escrita deste conto surpreendeu-me, ao ver a história derivar  por caminhos imprevistos, qual montada que toma o freio nos dentes...
Agora que Crime na Capital me não pertence mais, filho emancipado que já não precisa de mim para singrar na vida, desejo-lhe ardentemente muitas leituras e agradeço-lhe o ter-me proporcionado este prémio, tal como agradeço ao Município de Arruda dos Vinhos e ao júri a sua atribuição.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Não percam

Isto, que encontrei no Delito de Opinião, um dos meus blogues favoritos. Genial. Se der para trocar a ministra original pela imitação, é para já. O miúdo, para além de manifestar talento para a representação, imita excepcionalmente bem a figura ridícula --- na conversa, nos trejeitos, nos tiques, nos sorrisos para as câmaras --- que a ministra faz de cada vez que aparece. Pior, não ficamos. Venha de lá a genialidade, sem atender à idade. Aposto que se ele continuar a série Uma Aventura, o nível vai subir. E bem precisa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ausências

De vez em quando este blogue pára por uns dias. Não é que a preguiça me ataque com maior intensidade; é que outros afazeres me solicitam, por vezes em simultâneo, e chego à noite tão exausto que nem o mail leio. E então não respondo aos comentários. Não é má educação. É cansaço. 
Foi o que sucedeu neste fim-de-semana, com a vindima.

É o que sucederá no próximo, com correrias para receber o prémio Irene Lisboa, ir aos Montes fazer o vinho, regressar ao Entroncamento para jantar com colegas recém-aposentadas, voltar aos Montes para fazer a água-pé, limpar a adega, lavar e arrumar prensa, tinas, selhas, almudes, canecos, escudelas, funis... E, caso não chova significativamente, regar as couves.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Pastoreando a perua

O Miguel, a arreliar a bicharada da capoeira.

Dois dentes

E muita simpatia. (Nisso não sai cá ao avô),
(Clicar na foto para ampliar)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Orgulho

   Exm.º Senhor


   Na sequência da sua participação no III Prémio Literário Irene Lisboa, temos o prazer de anunciar que lhe foi atribuído o Prémio Literário Irene Lisboa - conto "Crime na Capital".
   A cerimónia de entrega dos prémios terá lugar no próximo dia 23 de Setembro de 2010, pelas 21 horas, no Auditório Municipal de Arruda dos Vinhos.
   Para proceder ao levantamento do seu prémio terá de se fazer acompanhar pelo NIF e Bilhete de Identidade/Cartão de Cidadão.


   Sem outro assunto, enviamos os nossos melhores cumprimentos.

... e a ministra da educação

"E turmas mais pequenas?
O nosso país é, nos da OCDE, dos que têm menos alunos por turma e um professor para cada sete alunos.
Reduzir o número de alunos por turma não é uma prioridade?
Não é e não vamos fazê-lo, porque o que temos neste momento é bastante equilibrado."
(Entrevista aqui)
Senhora ministra, olhe que não, olhe que não! O meu 10º C tem 27 alunos, tantos quantos o meu 12º B. E hão-de chegar mais. Presumo -- é só presunção minha -- que terá chegado a esse número dividindo os alunos pelos professores. Mas não se esqueça dos "professores" que tem no ministério, nas direcções regionais, nos sindicatos, dos destacados, dos directores de centro de formação, dos bibliotecários, de tantos outros que são professores sem alunos...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Prémio Literário Irene Lisboa

Amigos, alegrem-se comigo: ganhei, na modalidade conto, conforme informação telefónica recebida há momentos.

sábado, 11 de setembro de 2010

Boas perspectivas

 

Álcool provável, a uma semana da vindima.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Desfaçatez

É o que me ocorre ao ler isto:
Sócrates diz que escola pública é factor decisivo para a igualdade de oportunidades (Sol/Lusa)

O primeiro-ministro fez hoje uma defesa veemente do investimento na escola pública como factor decisivo para a igualdade de oportunidades, num discurso em que referiu os valores constitucionais e o ideal republicano de educação para todos.
Então o governante que mais contribuiu para que os pais tirassem os filhos da escola pública  julga que a defende  injectando uns milhões nossos em  bens e obras que, nalguns casos, são puro desperdício? Mas, afinal, dele já nada me surpreende, depois que o ouvi defender o sistema nacional de saúde, esquecendo as maternidades, urgências e hospitais encerrados. Ou as escolas encerradas. Ou as promessas de criação de milhares de empregos. Ou o fim da crise (já não me recordo se foi ele se um seu ministro -- afinal, é tudo farinha do mesmo saco). Ou... têm sido tantas as promessas que as vou esquecendo. Mas de uma coisa não me esqueço: palavras leva-os o vento e quanto a obra, se exceptuarmos umas inaugurações e uns Magalhães, que fica?

Big Brother nas escolas*

Quando, a 7 de Julho deste ano, publiquei o post "A Escola Prisão" chegaram-me aos ouvidos interpretações e deturpações de "amigos" que o aproveitaram para, mais uma vez, intrigar, vendo nele uma crítica à direcção da minha escola e não, conforme lá está escarrapachado, ao sistema de ensino em que direcção e eu temos de viver. Nunca perceberão, porque tal exige largueza de espírito, que criticava e critico situações, políticas, acontecimentos, jamais pessoas -- e que fui e sou amigo de responsáveis por factos de que discordei publicamente. Trata-se, tão só, de não confundir o cu com as calças.
Apraz-me agora verificar que algumas das preocupações então manifestadas são partilhadas aqui por uma autoridade em educação, como é Ramiro Marques.
(* Título do post do Ramiro)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Portugal, fora da União Europeia!

"Os ministros das Finanças da UE puseram-se hoje de acordo sobre a possibilidade de vetarem os orçamentos nacionais, decidindo que os seus projectos de orçamento sejam examinados ao nível europeu na Primavera, antes de serem submetidos aos parlamentos nacionais." (Público)
Por um lado, perdem razão de ser as tricas em torno da aprovação do orçamento -- afinal, quem o aprova é a UE ou lá o que é. Por outro, como patriota (e não me venham repetir que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas) só me ocorre dizer: Portugal, fora da UE! Afinal que estamos lá a fazer? A mendigar empréstimos? Até quando?
Sim, tenho alternativa: pagar o que devemos, viver com o que temos e não de calotes. Afinal, mal ou pior, sobrevivemos desde 1143, pelo menos. Eu sei: os governantes jamais aceitarão esta minha proposta. Como jamais a aceitarão todos aqueles que se conformam com a subsidiodependência. Mas não se iludam: à velocidade a que o Mundo está a mudar, não me surpreenderei se a UE nos escorraçar. Sem dignidade.

domingo, 5 de setembro de 2010

A grande cabrada

Semanas atrás foi notícia a introdução nas nossas matas de 150 mil cabras (não se fazia referência a bodes, mas acredito que os visionários do projecto saibam distinguir elas de eles). As cabras limparão as florestas e -- garanto que o ouvi repetir -- cada uma será um bombeiro, o que me levou a pensar que não deviam ter esquecido os bodes, mais eficientes no uso da agulheta.
Sempre do contra, ocorreram-me numerosas objecções, a primeira das quais foi julgar que os mentores do projecto não percebem lá muito de cabras. Uma cabra é sempre uma cabra, filha de uma cabra, cheira como uma cabra e porta-se como uma cabra. Cada uma faz o que lhe apetece e não haverá maneira de a convencerem a comer os rebentos das silvas havendo plantas mais saborosas e tenrinhas em quintais, jardins, pomares, searas, milharais, vinhas. E tem 24 horas por dia para o fazer porque, ao contrário dos cabreiros (onde os irão desencantar?), a cabra não tem horário de trabalho. 
Mas, reconhecendo a minha incompetência na matéria, socorro-me de Mestre Trindade Coelho, sem esperança embora de que as suas palavras sirvam de alerta aos autores desta ideia caprina:

"Era no rebanho a que dava mais que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro."
Trindade Coelho, "Mãe, Os Meus Amores (trazido da Grande Oferta de Livros)

E era só uma, a Ruça. Acrescentem-se 149.999, e teremos uma pálida ideia do que aí virá.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A liberdade do pintor

Este parte, aquele parte,
E todos, todos se vão
(Rosalía de Castro)
O último a partir para reforma antecipada, descontente com a infernização da vida do professor iniciada por Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos e continuada pela actual equipa ministerial é o pintor João Alfaro, autor dos desenhos da capa dos meus romances já publicados. Sai mais um representante de uma geração que entrou para o ensino no pós-25 de Abril, desiludido, amargurado, incapaz de contemporizar com as concepções vigentes de escola. E é a escola que fica a perder com a saída de veteranos como ele, professores experientes que poderiam assegurar uma transição sem sobressaltos, fazer a ponte entre o passado recente e o futuro. É a escola que fica mais pobre, mais monótona, mais chata -- o que nada aflige os nossos governantes, para quem desalinhados como o João são pedras no sapato do eduquês que urge deitar fora.
Vai dedicar-se por inteiro à pintura. Talentoso, com extraordinária capacidade de trabalho, o João pode agora realizar-se plenamente como artista e alcandorar o seu trabalho em níveis de sucesso ainda mais elevados.
Boa sorte, um abraço, e vai-nos visitando, na escola e fora dela. 

(FOTO: o João no restaurante João do Grão, após a Grande Oferta de Livros, evento em que estivemos presentes)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Los valientes

Soterrados há 19 dias, a 700 metros de profundidade, 33 mineiros chilenos lutam pela vida. Imagino-os apertados, na escuridão, famintos, a respirar ar viciado, obrigados a defecar no próprio local, senão nas próprias calças, à espera de um qualquer sinal de que não foram dados como mortos e sepultados vivos nessas profundezas. Imagino-os agora, a esperança reavivada, a suportarem meses de sofrimento e de desilusões até que, finalmente, os mais resistentes venham a ver novamente a luz do dia, a abraçar as famílias, que sofrem talvez mais ainda do que eles. Estes mineiros são a prova de que os homens ainda se não acabaram no planeta -- embora sejam cada vez mais raros. Como eles, como os familiares, como o seu país, desejo ardentemente que saiam vivos da sepultura em que jazem; como tantos outros tentarei reter as lágrimas quando os vir aparecer à superfície.

Venha a bruxa

Nem previsões sabe fazer. É que se me oferece dizer deste governo que não acerta uma e ainda se vangloria disso:
«Nestes seis meses, o crescimento da economia que se verificou em Portugal foi o dobro do previsto pelo Governo no início do ano», afirmou o primeiro-ministro em Vale de Cambra. "
(NOTA: estar farto de Sócrates não implica qualquer ilusão a respeito de outros candidatos à governação, com ou sem coelhos na cartola. É que já o não posso ouvir, menos ainda ao SS, ao Valter Lemos,.. )

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

De volta ao karaté

Após paragem forçada de mais de um mês --  férias, canícula e lesões de final de época a tal obrigaram -- eis-me de regresso aos treinos. Com uma semana de atraso, culpa da infecção de garganta que me atirou para a cama.
Tanto para rever, tanto para corrigir! A Via é ilimitada, dizem os antigos mestres. Enquanto o corpo responder, melhor ou pior, há que persistir. E os resultados neste regresso não são satisfatórios, na força que falta, na técnica sempre imperfeita, como bem mostra esta primeira parte de Jion, a minha Tokui-Gata ('forma' favorita).

Ninguém

"Ó Ciclope, perguntaste como é o meu nome famoso. Vou dizer-to,
e tu dá-me o presente de hospitalidade que me prometeste.
Ninguém é como me chamo. Ninguém chamam-me
a minha mãe, o meu pai, e todos os meus companheiros."

Homero, Odisseia (trad. Frederico Lourenço)

(Negrito meu. Note-se que "ninguém" é muito mais sugestivo do que "alguém".)

sábado, 21 de agosto de 2010

Grande oferta de livros

Feita por José Mário Silva. Fotos aqui.
Num recanto lindo de Lisboa, bem participada, ambiente extremamente simpático, civismo irrepreensível. Mais que os livros trazidos, as recordações de um momento especialmente agradável.
Muito obrigado pela ideia e pela sua concretização.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Repatriar e deportar

O governo francês repatriou umas centenas de estrangeiros que considera indesejáveis, a viver em condições precárias, e até deu 300 euros a cada um, deixando claro que nada impedirá que esses romenos agora reenviados para a sua pátria voltem quando entenderem. Logo, logo, surgem acusações de práticas nazis, transformam-se as expulsões em deportações massivas e receia-se já o reacender das fornalhas dos campos de extermínio. Esta argumentação, intelectualmente desonesta por substituir factos por interpretações, não se pronuncia sequer sobre o direito que um país tem de acolher quem bem entender e reduz a Europa à situação da velha puta, sempre de porta aberta.
Sampaio, instalado como comissário para os refugiados, vem aparentemente defender o seu emprego. Aparentemente porque continuo sem perceber nada daquilo que o homem diz em Português:
O antigo Presidente da República de Portugal realçou ainda “a necessidade de as sociedades serem sociedades plurais, que já o são”, e de ser promovida a tolerância entre as pessoas.
Já era assim quando presidia à República. Falava, falava, e eu não percebia nada. Talvez Sarcozy ou os romenos o compreendam.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Viver não custa

O ex-primeiro ministro britânico Gordon Brown cobra 100.000 euros por discurso. Ó sr. primeiro ministro de Portugal, veja o que anda a perder. Deveria saber que nós não valorizamos aquilo que é grátis. Deixe essa chatice do governo, cesse de arengar para auditórios enjoados e vá discursar para quem o aprecia e lhe pagará ainda por cima. Essas coisas do salto tecnológico, das reformas na educação, na justiça, da criação de centenas de milhares de empregos serão verdadeiras minas de oiro. E se precisar de quem escreva os discrusos, lembre-se de mim, que lhe dei a ideia.

Grande oferta de livros

Ideia original e extremamente simpática de José Mario Silva, a braços com falta de espaço para os livros que já tem e, sobretudo, para aqueles que têm de entrar. Por isso, resolveu oferecer parte deles:
"a partir das dez da manhã montarei uma banquinha junto ao novíssimo e simpatiquíssimo quiosque do miradouro (...) Quem vier pode escolher à vontade e levar o que lhe apetecer, sem pagar um cêntimo. Entre os livros oferecidos não haverá novidades editoriais, como é evidente, mas também nada de refugo (pelo contrário).
Se quiserem, os leitores do Bibliotecário de Babel podem ainda aproveitar para conhecer pessoalmente o Bibliotecário de Babel, (...)  (é só um tipo normal que gosta de livros)."
Ler na íntegra AQUI.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Da limpeza das armas

O ministro da Administração Interna diz que "em tempo de guerra não se limpam armas". Ou o ministro não foi à tropa, ou já se esqueceu do pior pesadelo do soldado: que caia em emboscada, a arma encrave e tenha de a desmontar e voltar a montar debaixo de fogo. É sobretudo em tempo de guerra que se limpam as armas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Paninhos quentes

O país arde em cada Verão, os bombeiros combatem os fogos com abnegação incrível, perdendo alguns a vida, e a conversa é sempre a mesma: há incendiários, há desleixo, há falta de acessos, de limpeza... Quando é se passará das palavras aos actos? Por exemplo, muitos dos incendiários são reincidentes. Deve ser criado quadro legal que permita interná-los durante o Verão, com mordomias suficientes para não chocar a nossa esquerda; deve ser permitido expropriar os metros de terreno necessários para construir os acessos; a limpeza deve ser feita recorrendo aos subsidío-dependentes, porque trabalhar não envergonha ninguém e dar algo em troca do que se recebe contribuirá para aumentar a auto-estima e, eventualmente, para que possam sair dessa situação de dependência. E os juízes não devem desautorizar a GNR, libertando imediatamente os incendiários capturados, por vezes em flagrante delito.
Por último, deve acabar o espectáculo promovido pelas televisões, em péssimo Português, sabido que é que há quem faça qualquer coisa por uns instantes de celebridade.
Os fogos, ou como agora se diz, as "ignições"são inevitáveis. Mas pode-se reduzir a frequência, a dimensão, os estragos. Basta querer e deixar de tratar o problema com paninhos quentes.

ADENDA:
(1) De 29 incendiários detidos, 9 encontram-se em prisão preventiva (31%). Resta saber durante quanto tempo mais.
(2) Um deles, reincidente, estava a cumprir prisão. Em regime de dias livres. Passa pela cabeça de alguém, com o país devastado por incêndios, não obrigar a recolher até às próximas chuvadas pelo menos todos os presos por este crime? E não será óbvio para os juízes que o castigo deve estar relacionado com o crime? Queimou? Que se condene a limpar um determinado número de hectares. Reincidiu? Que seja bombeiro à força nos incêndios -- sempre na linha da frente.
(3) As mulheres da aldeia tentaram capturá-lo. Se o têm conseguido agarrar, em vez de "alegado incendiário" e "presumível criminoso" teríamos, de certeza, um criminoso bem chamuscado.
(4) O medo guarda(va) a vinha, que não o vinhateiro. Mas hoje, medo de quê, se os castigos são recompensas?

Pieguices

"Que em vivo ardor tremendo estou de frio". A febre deita-me abaixo, deixa-me incapaz de fazer o que quer que seja. Prostrado, amodorrado, o corpo bem mais dorido que depois de um estágio de karaté, dormito constantemente. Tudo isto por causa de uma infecção da garganta, que talvez me obrigue a ir ao médico. De positivo: só estou doente nas férias.

sábado, 14 de agosto de 2010

O Tex de férias

Dinossauros e carros

O Afonso e o Miguel em breves férias nos Montes. Num momento de paz, sempre raro entre irmãos

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pecado mortal

É dizer que os romances de Bolaño são chatos. É preferir os clássicos. É preferir o romance do século XIX.
Pois eu leio por prazer e recuso torturar-me. Ou gosto ou não.E digo como Sinatra:

Someone said, drink the water, but I will drink the wine.

Da faculdade da linguagem

O ser humano nasce com uma faculdade da linguagem que lhe permite, muito rapidamente, aprender a língua em que está imerso. A exposição a essa língua activa os princípios inatos da gramática universal, fixando, por exemplo, a ordem básica dos constituintes das frases.
E eu maravilho-me ao acompanhar a aprendizagem da língua pelos meus netos. Posso, por exemplo, afiançar que aos dois anos, idade do Miguel, a ordem básica do Português (sujeito - verbo - complemento) já está adquirida. Há pouco, ele e o Afonso, quatro anos e meio, discutiam porque nenhum queria dar ao Tiago, seis meses, um dos seus brinquedos. E o Miguel insistia, apontando para o pato que o Afonso recusava emprestar: "Não, bebé qué pá!" (Não, o bebé quer o pato!)

Paraísos terrestres

No tempo de Mário Soares, o paraíso ficava na Suécia; de há uns anos para cá, parece ter-se deslocalizado para a Finlândia, isto a fazer fé nos modelos que os nossos governantes nos tentam impor -- vejam-se, por exemplo, as recentes declarações da ministra da educação a propósito do fim dos chumbos.
Convencido que estou de que, apesar dos defeitos, Portugal é o melhor país para um português viver (eu sei, o amor cega), nunca me seduziram esses paraísos nórdicos, onde para comprar uma garrafa de vinho é preciso licença -- mas se pode ter um arsenal em casa, como os recentes massacres em liceus, feitos por miúdos finlandeses, evidenciam. Outros pormenores, ocasionalmente noticiados, aumentaram a minha desconfiança: a criação e o treino de Pit Bulls, as lutas de cães -- agora essa fantástica prova desportiva, o Mundial de Sauna,  em que os "atletas" se deixam cozer a 110 graus centígrados e que só foi notícia  cá porque um deles morreu. Convenhamos: querer substituir a lagosta não revela lá muito bom senso nem confirma um nível educacional superior ao nosso, apesar da vulgaridade tão criticada aos nossos "atletas" de aldeia, que se empanturram com febras grelhadas e sardinhas assadas em campeonatos bem renhidos e bem regados. Alarves? Sem dúvida. Parvos ao ponto de nos deixarmos cozer vivos? Ah, chamem os nórdicos, de alguma coisa lhes deve servir o seu ensino por cá tão invejado.

domingo, 1 de agosto de 2010

Eu chumbei

E foi o melhor que então me podia ter sucedido. Tive 9 a Desenho e 8 a Oficinas, o que, na época, implicava reprovação. Ninguém se comoveu com as boas notas que eu tinha a Português, a História, a Ciências, com as razoáveis a Matemática, etc. Ora este chumbo, que me humilhou de tal forma que nessas férias grandes nem saí à rua, ensinou-me duas coisas fundamentais: a primeira, que eu estava no curso errado (Formação de Serralheiros), uma vez que tinha reprovado nas disciplinas fundamentais; a segunda, bem mais importante, que alguma facilidade na aprendizagem, a que chamavam então inteligência, e sorte não chegavam; era preciso portar-me melhor, faltar menos às aulas chatas para andar de barco no rio, estudar com afinco. 
Mudei de curso, comecei a aplicar-me, vim a ser novamente bom aluno. Nunca mais deixei de estudar. Embora, confesso-o, só depois dos quarenta, já na conclusão do meu mestrado em Linguística, lhe tenha tomado o gosto.