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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Partido Pelos Animais

O Tex, entusiasmado com a criação do novo partido, disponibiliza-se desde já a integrar as respectivas listas, desde que nelas não sejam incluídos gatos 
Pontos fortes: telegenia, fidelidade canina.  
Promessas eleitorais: se for eleito deputacão, será sempre a voz do dono, a quem promete desde já o respectivo salário -- na condição de ver o Proplan do dia condimentado com febras grelhadas, canja aos domingos.
Enfim, veremos se também ele, uma vez eleito,  esquece as promessas e se limita a dormitar no hemiciclo enquanto aguarda a merecida reforma.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Parabéns, Tiago

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Embirrança

Aprecio quem cultiva o amor-próprio, o auto-respeito; embirro com aqueles que se levam demasiado a sério, a quem a vaidade dá consciência excessiva da sua pessoa.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Retractação

A partir de hoje, 26 de Janeiro de 2011, não farei mais nenhum comentário nos blogues que admiro e visito diariamente -- nem em nenhum dos outros. Comentários que entenda fazer surgirão neste blogue, o meu blogue. Os que me conhecem sabem que sou homem de palavra. Motivos? Explicá-los-ei aqui, quando estiver de maré.

Turismo de ambulância

Faz a minha mãe. Ontem foi enviada para as urgências do Hospital de Leiria, onde deu entrada por volta das 13 horas. À meia-noite foi enviada para o Hospital da Universidade de Coimbra e chegou às 2 da manhã. De lá, previnem-me hoje, às 7 da manhã, enviam-na para o hospital de Alcobaça, onde ainda não deu entrada. Melhor que estas andanças, os diagnósticos sucessivos (tendinite, zona, artroses, agora entupimento das veias e artérias de uma perna) e, aparentemente, o tratamento: foi enviada das urgências de Leiria para a cirurgia vascular do Hospital da Universidade, mas como já a recambiaram... Ou muito me engano, ou logo à tarde, quando  eu chegar ao Hospital de Alcobaça, um médico dir-me-á: -- A sua mãe tem alta. E eu perguntarei, mais uma vez, mais uma vez em vão: -- Alta como, no estado em que está? E o médico, simpaticamente, responder-me-á que não é nada com ele porque já executou os procedimentos constantes da carta do hospital precedente...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Exame de condução (mota)

Santarém, 1985. Chove. Não havia então rádio e o examinador dava as instruções com toques de buzina: uma buzinadela, virar à esquerda, duas, virar à direita. De início, tudo corre bem, apesar de o capacete me não deixar ouvir as instruções apitadas. Entro no centro da cidade em hora de ponta. O sinal passa a verde,  ainda olho para trás, tentando avistar o carro do examinador. Irritados com a demora, buzinam-me condutores impacientes. Uma buzinadela? Viro à esquerda. Duas? Volto para a direita. Outra? Quantas? Uma? Duas? Esquerda ou direita? Se tento parar, mais buzinam. Voltas e mais voltas ao sabor das buzinas irritadas na confusão do trânsito. Onde estará o carro do examinador? Encontro-o estacionado, meia hora depois, quando regresso. Resultado do exame: aprovado, certamente por ter sobrevivido no caos da cidade em hora de ponta.
FOTO: 1972. Na Mondial do meu pai, conduz o meu primo Fernando.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Água da torneira

Os nossos antepassados chegaram à Índia, deram a volta ao Mundo a beber água podre e fedorenta. Muitos portugueses só depois do 25 de Abril conheceram a alegria  de ter água potável  em casa. Saímos do malsão terceiro mundo, pensava eu. Venho agora a saber que os aristocratas que nos representam no Parlamento têm tanta aversão à água da torneira como eu ao vinho de uva Morangueira. Coitadinhos, deve fazer-lhes azia. Valha-lhes São Isaltino!
Não é apenas uma questão de custos, é de atitude. Mal começam a alimentar-se do contribuinte, ei-los transmudados em primas-donas, num novo-riquismo que prospera às nossas custas. Que alguém lhes diga que a água é H2O. Que alguém lhes diga que, se a querem  engarrafada, a paguem. Ou que a  bebam directamente das torneiras, como eu faço. Que há coisas mais importantes do que finezas, mordomias, mariquices:
Não invejo quem tem 
carros, parelhas e montes
Só invejo quem bebe 
A água em todas as fontes.
FOTO: fonte dos Montes, terra que foi de "muito vinho, poucas fontes".

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O desenguiço

Há uns tempos que não escrevia nada. Melhor dizendo, que não concluía os contos que começava, e materiais incompletos, à espera de melhor destino, vão-se acumulando, sem que saiba que desenvolvimento lhes dar. Não me quero desculpar com as numerosas contrariedades, algumas das quais aqui relatei, outras, de natureza diversa, de que não falei nem quero falar, que me roubam tempo, paciência, sobretudo a persistência, sempre fundamental na escrita. Talvez por isso tenha colocado mais posts neste blogue, tenha comentado posts de blogues que muito admiro -- nos outros, se acaso por lá passo, não deixo marcas.
Pois hoje, para minha surpresa, veio ter comigo uma história e já deu um pequeno conto. Com uns meses de trabalho, ficará aprumado, pronto a seguir o seu próprio caminho. Desenguicei.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Emissões zero

Em Abu Dhabi. Cá para mim, nem os camelos se peidarão. Projecto a que se querem colar os maiores cagões da política e da economia nacional:
Esta tarde, no encontro que reuniu empresários e gestores portugueses e locais, o chefe do governo voltou a defender o aprofundamento das relações político-económicas entre os dois países, privilegiou o sector energético, e o que considerou ser a presença “das melhores empresas portuguesas”.
O que me surpreende, tendo em conta a merda que por cá fizeram e a que se preparam para vir a fazer. Mas, há que o reconhecer, é lá, nesse país das arábias, que propõem "emissões zero".

Povo

"Enquanto a rapariga procura o número, o António tem, de novo, a sensação incómoda de regresso ao seu meio natural. Por mais voltas que a vida dê, por mais que o afaste das suas origens, sente cada vez mais, à medida que os anos vão passando, que é com o povo do campo que se sente melhor — apesar da grosseria, da inveja, da ganância e da maledicência, que não raro vêm ao de cima após meia hora de conversa.
Era, talvez, o chamamento do sangue, mas o sangue não sabe o que diz e há muito tempo que se deixara de idealizações."
Do lacrau e da sua picada

domingo, 16 de janeiro de 2011

2011

Este 2011, número primo, não começou nada bem e só agora sei porquê. Afinal, se tivesse comprado o Borda d' Água  compreenderia melhor e aceitaria talvez com maior resignação os dissabores que me vêm atentando: logo na passagem de ano parti um dente já antes partido e fiquei com o parafuso de fora; arranjado na semana seguinte, quebrou novamente e continuo a comer de parafuso; comecei o ano com gripe, mas sem tempo para estar doente: a minha mãe adoeceu, febre, tosse, dores terríveis; no hospital de Alcobaça, diagnosticaram-lhe tendinite; no dia seguinte, o médico de família mandou-a para as urgências de Leiria. Diagnóstico: zona. Uma semana depois, novo regresso às urgências de Leiria. Diagnóstico: artroses. Bem tentei que os médicos me esclarecessem a disparidade de diagnósticos e, sobretudo, que vissem, ou procurassem ver, o que é que ela tem. Nada. Diz-me o ortopedista: "A sua mãe tem alta". E os diagnósticos anteriores? E como é que a levo para casa, se está numa maca? "Isso não é comigo." E não é com ninguém. Divido o tempo entre o trabalho e as deslocações aos Montes: em 7 dias, cinco vezes, uma hora  de viagem para cada lado, regresso sempre de noite, uma maravilha para quem tem olhos como os meus.. Ontem, na volta, o carro avariou e já está na oficina para reparação cara. Como não dar ouvidos aos agoiros de Célia Cadete, comentados no Delito de Opinião, segundo os quais "sendo o ano de Saturno, teremos doze meses de destruição, fome, carestia, inquietação, miséria, angústia e tristeza" e "as pessoas serão atingidas por febres e epidemias"?
Se o Sol descobrisse, talvez a minha mãe animasse. E melhorasse. Mas continua este tempo de um cão. Que me recorda o que escrevi quando os dias eram mais alegres:
Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Omo a lavar

Cordão humano em Cantanhede. Diz a advogada: "infelizmente faleceu uma pessoa". Prostituição? Assassínio? Sadismo? Não. Apenas "faleceu uma pessoa." Nem Omo lava mais branco. Mais tarde, como se nem notícia fosse, ouço dizer que Alberto João Jardim teve alta. Volta, Alberto, fazes cá falta: no continente "tá tudo grosso".

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vem aí o FMI?

Pois não chega cá primeiro do que eu.

Exames

Nas orais, a minha autoconfiança roçava a arrogância -- e só uma vez reprovei. Foi no Instituto Comercial, a Inglês. O professor, Amável de seu nome, apresentava-se e comportava-se como um gentleman, e eu atravessava a minha fase pré-revolucionária, hiippie no aspecto, malcriada nas atitudes. Que, mais tarde, me ajudaria a compreender e a lidar com alunos rebeldes. No dito exame, o professor, que para nosso gáudio exigia ser tratado por sir Amável, não tendo outros argumentos, pois então conversa não me faltava e, fosse em Português, em Inglês, ou em Francês, falava pelos cotovelos, chumbou-me à falsa fé:
-- You speak English as a Scotsman.

Baixa-mar

Os exames começavam no final da 4ª classe e era neles que eu brilhava. Sobretudo nas orais, porque aí havia espectadores e o meu pai podia sorrir orgulhoso do filho, dois reis de gente, apenas dez anos de idade, mas, reconheciam-no os assistentes, inteligente. O facto de ser pequenino e escanifrado ajudava: sobre o estrado, em frente do quadro negro, sem vergonha, respondia com confiança às questões dos examinadores, solenes, imponentes, atrás da secretária cujo tampo ficava ao nível dos meus olhos. Não era inteligência, era memória, era atenção. Assistia às orais dos Antónios, Adolfos, Carlos, a todas até ao jota, e mentalmente respondia às perguntas dos examinadores. Quando finalmente chegava a minha vez, tinha as respostas na ponta da língua:
-- Como se chamam as duas marés?
-- Preia-mar e baixa-mar.
E o presidente do júri, o professor Eurico, esquecido da solenidade da  prova, a mostrar a sua satisfação:
-- Baixa-mar pai a outro!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobre as "boas pessoas"

Outro post lapidar do escritor Rentes de Carvalho. Para ler e reflectir.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

País doente

"A mãe chega tarde, como de costume. Tem de fechar o salão, é assim a vida, patroa não tem horário. Chega exasperada com o excesso de trabalho, todo o dia em pé, ainda arranja varizes, a lavar cabeças, a cortar cabelo, a pintar, a pentear... Pior é participar com entusiasmo nas conversas, ouvir os desabafos, consolar uma após outra... Bem podia cobrar como psiquiatra, mas não, apenas recebe como cabeleireira. Vem portanto arrasada e deprimida das depressões que todo o dia desfilaram pelo salão, uma que já se divorciou e porquê, outra que está prestes a separar-se e porquê, outra cujo filho detesta a escola e porquê, outra cujos filhos andam sempre doentes e os médicos não se preocupam, se se queixam alguma coisa hão-de ter, outra tem a mãe acamada... um verdadeiro rosário de dores todo o santo dia, haverá alguém feliz neste país ou só as mulheres com problemas é que tratam do cabelo?"
Do lacrau e da sua picada

sábado, 8 de janeiro de 2011

Nunca o invejoso medrou

... nem quem dele se abeirou, reza conhecido rifão. Não, não estou a pensar na campanha eleitoral em curso: não encontro nela, menos ainda em qualquer dos candidatos, nada de interessante. Estou a falar de mim próprio e de mim mesmo, a propósito do excerto que se segue, expurgado do rascunho da minha última novela por protestos das primeiras leitoras.
A arte é isso, o engenho prova-se nessas dificuldades; sei-o, à custa de me enjoar com muitas obras primas desse engenho e arte...  (Camilo, Vingança)
 
Compreendo a desilusão do leitor: resistiu até aqui, mas já desespera... Onde estão esses capítulos intragáveis, de um só parágrafo, páginas e páginas preenchidas apenas com listagens de nomes próprios ou de igrejas, que tornam o romance no melhor dos soporíferos e comprovam que estamos perante escritor de primeira água, capaz de desprezar e maltratar o leitor? Onde as partidas pregadas, para avaliar a cultura de quem lê, como aquele esófago de Mark Twain, que debruçado sobre uma asa contemplava meditativamente o pôr-do-sol? Onde a metáfora para decifrar, a alegoria que dê um significado profundo à obra e envolva o leitor na produção de sentidos? Quando aparece esse pintor que ganha a vida fazendo retratos dos turistas junto ao Sacré Coeur e a sua namorada, jornalista sempre em viagem, ora na Quinta Avenida, ora nas gôndolas de Veneza, ora pelas montanhas do Afeganistão? Pois, não há...
Está visto, este contador de histórias não respeita as regras do ofício; pior, vê-se que lhe falta paciência para minudências, pormenores, irrelevâncias. E esquece-se de explicar, evita dissertar, não se atira à igreja num anticlericalismo violento, mordendo-a com a ferocidade do Pitt Bull! Não ridiculariza as suas personagens, não nos dá herói decente nem vilão detestável... Eu sei: ele está errado. Sem mistérios para decifrar, conspirações tenebrosas contra a Humanidade, crimes nefandos, como espera cativar o leitor? E os críticos, se não são devidamente torturados, como podem admirar primeiro, valorizar depois, a arte do narrador? E é preciso tomar partido, dividir a sociedade em bons e maus, encontrar culpados para os males do Mundo, evitar o farisaísmo, apontar corajosamente dedo acusador!
A simplicidade aborrece e irrita, cada qual dizendo que assim também era escritor. Onde já se viu (tirando talvez o Decameron, o Lazarilho de Tormes, as Histórias e Contos de Proveito e Exemplo, o Amor de Perdição, O Velho e o Mar, O Estrangeiro...) uma obra impor-se, apesar da simplicidade e da clareza? Se até o velho Homero tem um capítulo da sua Ilíada recheado com nomes e genealogias!
Que fique lavrado, portanto, e sirva para memória futura, o protesto deste narrador descontente, a quem o autor não consente a autodiegese — vê-se que pouco aprendeu em Teoria da Literatura, de que lhe serve ter estudado o Genette? —, que se tenha presente este descontentamento, autorizando-se desde já o leitor a pôr de lado este livreco e a deleitar-se com outros mais ousados, que por isso mesmo conhecem o sucesso merecido, como aquele que até transcreve, ipsis verbis, o menu real que está sobre uma das mesas do Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa.
Histórias de amor há-as a pontapés, basta ligar a televisão, de amor feliz temos algumas, como a do David Mourão-Ferreira — que interesse pode ter uma história límpida de pessoas límpidas, que nem sequer são ricas, poderosas ou vestem bem, nem, pelo contrário, são miseráveis desgraçados, esquecidos por Deus e desprezados pelos homens, nem santos para o cardeal português da Congregação para a Doutrina da Fé beatificar enquanto aguardamos impacientemente pela canonização, com ou sem milagres, sabido que rareiam nestes tempos de cepticismo e de análises clínicas — nem canalhas a pedir escarro de desprezo?
Queria-se uma narrativa polifónica, emaranhada, que obrigasse o leitor a trabalhar, alisando rugas e pregas do texto, corrigindo incoerências, adivinhando sentidos ocultos, descodificando imagens, tropeçando em hipálages; na sua falta, que o autor para tal não tem nem imaginação nem talento, exige-se, pelo menos, um oponente, um adjuvante, e essas coisas todas do modelo actancial de Greimas, presente durante décadas nos manuais escolares de Português, por onde as leitoras e os leitores estudaram!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Memória de elefante

Pastiche que circulou aquando da morte de Salazar:

Alma ruim e cruel, que enfim te partiste,
Tão tarde, diz o povo descontente,
Repousa lá no Inferno eternamente
Que nenhum português ficará triste.

Se lá no mundo infernal, onde subiste,
Memória deste povo se consente,
Não te esqueças da lusa gente
A quem tantos e tão maus tratos infligiste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa o alívio que nos ficou,
A alegria imensa de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos alongou,
Que bem cedo te faça acompanhar,
Da corja de bandidos que criaste.


Perdizes


"Um bando de perdizes corre à sua frente. Bem podiam, se quisessem, fugir para as bermas, mas sabem que burros, carroças e rapazes não são inimigos. Em vez de atalhar a corta-mato, trotam em frente, pelo mesmo caminho, cabeças bem erguidas, perdigão à frente, são mais de uma dúzia, grandes e gordas, quase como galinhas. Coitadas, domingo é dia de caça, como sobreviverão, tão pouco ariscas? Então levanta-se, bate as palmas e grita — Xô, Xô, mas o bando não lhe liga. Seguem assim durante uma lenta centena de metros, as perdizes à frente, a Joana e o rapaz atrás, até ao primeiro cruzamento, onde optam por direcções diversas."


Do lacrau e da sua picada

Pragas

Mosca da fruta. A pôr ovos numa laranja. Das minhas. Nem pesticidas nem armadilhas  ecológicas as detêm. Morrem umas, vêm outras.
(Clicar para ampliar.)

In illo tempore

A nossa burra, já bem velhinha, herdada da minha avó, que a comprou com meses e contava comovida que então lhe providenciou linda albarda pequenina para a ensinar. Meiga, dócil, inteligente, teve dentre  os seus defeitos de juventude, l'attirance d'ailleurs, que a levava durante a noite a rodar a maçaneta do portão e a evadir-se para a liberdade dos campos, em busca talvez de um amor impossível. Tanto sofreu às minhas mãos e às do meu primo, que a cavalgávamos como a cavalo e ela era apenas transporte de pobre.
Foto: Kodak Instamatic. A cavalo, a minha irmã e a minha prima. Ao fundo, a Tia Maria.

Entre Céu e Inferno

"Céu e Inferno são concepções sociais para uso da plebe ― e eu pertenço à classe-média."
Eça de Queirós, O Mandarim

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Duro inverno

D' O Livro da Primeira Classe. No campo, não havia então reformas, nem subsídios, nem rendimentos sociais de inserção, nem serviço nacional de saúde, nem medicamentos,  nem electricidade, nem saneamento básico. O aquecimento -- veja-se o que o adulto carrega às costas, talvez lenha  roubada, e a criança não ficava resguardada no casebre, antes acompanhava e ajudava o adulto na apanha dos cavacos.
Na cidade, imagem de baixo, a vida parecia então menos agreste, mais apetecível. Com as mudanças ocorridas nos últimos trinta e seis anos, não me surpreenderia se hoje o inverno fosse mais suportável no campo.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mensagem de ano novo deste escriba

Logo à noite multidões esquecerão a crise e tomadas de histeria colectiva deixar-se-ão embalar pela felicidade paga a peso de cartões de crédito e entoarão em uníssono a contagem decrescente que dantes precedia o lançamento dos foguetões: "Nove, oito, sete,...". E quando a voz que faz de dona do Tempo anunciar o zero, saltarão ruidosas rolhas de espumante rasca, beijar-se-ão bocas cheias de passas, os olhares convergirão para o céu, deslumbrados com os fogos de artifício em que o pouco dinheiro público que ainda resta é alegremente queimado.
Que festejaremos, afinal? Um ano a menos de vida, um ano mais perto da morte, ou, pior, da degradação da velhice? O começo de um ano sem qualquer indício de que o desemprego diminua, de que as contas públicas se endireitem (não o fazem por si sós), um ano novo de aumento brutal de impostos e de cortes significativos em salários como o meu? E isto sem acreditar que os sacrifícios contribuam minimamente para uma melhor situação futura, ou para a recuperação da nossa independência nacional? 
Sem qualquer esperança de que algum daqueles que desgraçaram este pobre país e o seu povo sempre sofredor possa vir a ser o Desejado, o Salvador, declaro que só resta a cada um de nós sobreviver e, sem remorsos, procurar ser feliz quando e como puder.
Sou suspeito. Para mim, 2010 não foi ingrato e deu-me muitas coisas boas, como o Tiago, o meu terceiro neto, uma menção honrosa e o Prémio Literário Irene Lisboa, um 2º dan, muito vinho que promete ser bom... E, sobretudo, saúde, alegria e boas leituras. É o que desejo para 2011 a toda a família, aos amigos, aos leitores deste blogue, a todos os portugueses, que tão acabrunhados andam et pour cause.
FOTO: 31 de Dezembro de 2009, Montes, na minha adega.

Verdades inconvenientes

Lembrados que estamos da euforia contagiosa do primeiro-ministro a propósito da sua interpretação dos dados do relatório PISA 2009, prontamente partilhada por dirigentes sindicais (os quais, se um dia foram professores, já se esqueceram, e percebem tanto de ensino como os nossos governantes), eis que o Ministério da Educação, através do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) divulga estudo demolidor sobre as "competências", como hoje se usa dizer, dos nossos alunos. Veja-se, por exemplo,este fragmento (negrito meu):
Secundário. Escrever textos explicativos em que é necessário descrever raciocínios e explicar as estratégias adoptadas para justificar as respostas é uma das grandes deficiências que os especialistas do Gave encontraram em todas as disciplinas avaliadas no secundário. A falta de rigor científico e a linguagem desadequada foram falhas detectadas por todas as equipas que monitorizaram e avaliaram o desempenho dos alunos. Sempre que foi preciso seleccionar a informação e construir um texto que traduzisse um conjunto de ideias próprias, os alunos revelaram "grandes dificuldades".
Nem outra coisa seria de esperar.  Porque "A falta de rigor científico e a linguagem desadequada" são mal nacional, partilhado por muitos professores, que de há anos para cá se especializaram em planos de recuperação, metas, relatórios que sempre exaltam o sucesso atingido com merdas que não lembram ao diabo, que se esfalfam para conseguir "evidências" do seu desempenho sempre excelente, e registam o seu brilhantismo em documentos que só o vazio de conteúdo e a escrita deplorável deslustram. E é duro ouvir e calar, de manhã à noite,  "tu fostes", "tu fizestes", "houveram professores", "quaisqueres alunos"...
Querem soluções? (Bem sei que não.) Substituir esta avaliação de desempenho por uma avaliação de conhecimentos científicos e da prática pedagógica, que dê peso máximo à avaliação de aulas assistidas. Desvalorizar --- ai, o que eu vou escrever! --- tudo aquilo que foi feito no âmbito das chamadas ciências da educação e, nomeadamente, nas Escolas Superiores de Educação. Avançar com as provas de ingresso na profissão. Avançar com provas para todos, a começar por mim. E, mais uma vez, o fim imediato desta avaliação de desempenho, parida pela ex-ministra da educação e pela sua equipa, que subverte e perverte o ensino.

Declaração de interesses: sou professor de Português desde 1976 e orgulho-me da minha profissão. O meu perfil está disponível AQUI, onde pode ser também descarregada a minha dissertação de mestrado. Podem bater-me à vontade. Façam favor.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Meio século de leituras

Sou pouco dado a comemorações, mas esta efeméride é por de mais importante para a esquecer: foi há cinquenta anos que aprendi a ler, tão depressa que nem sei como, e desde então nunca mais parei. Tinha seis anos, vivia em Chaqueda (ou Chiqueda?) há meses, não conhecia lá ninguém, e o meu pai pediu à professora que me deixasse entrar para a escola para não estar sozinho em casa. Antes do Natal, já a professora me punha a ler o jornal à frente dos outros alunos, alguns deles homens e mulheres feitos, eu relezico, meia leca de gente, mas impante desse poder que o saber ler me dava. E à noite, enquanto esperava assustado pelo regresso dos meus pais e a minha irmã, bebé de ano, dormia regaladamente o sono da inocência, eu lia no Diário Popular as anedotas do seu suplemento Ria Connosco (lembro-me de uma que não percebi e me intrigou durante muito tempo com uma sereia), as aventuras de Crispim (nunca mais ouvi falar dessa banda desenhada), o livro de leitura da primeira classe, tudo o que tivesse letras. Hoje, meio século passado sem que me tivesse dado conta, continuo a ler com a paixão inicial -- pois não sou daqueles que, nada lendo, estão sempre prontos a recriminar os jovens por não pegarem em livros...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Debate Cavaco - Alegre

Regresso exausto de três dias nos Montes (Ah! O campo não é um passatempo / Com bucolismos, rouxinóis, luar, escreveu Cesário Verde), a tempo de assistir ao debate entre os pesos pesados, Cavaco e Alegre. Cavaco atacou furiosamente desde o primeiro instante, como se fosse ele próprio o challenger e não o campeão em título; Alegre, calmamente, esquivou, conta-atacou com eficácia, anulou inteligentemente as iniciativas do adversário, chegou ao final do embate sem mostrar cansaço nem ansiedade, embora sem ter conseguido colocar o adversário em dificuldades, encostá-lo às cordas ou, até, beneficiar de qualquer contagem de protecção. Não vi a decisão da arbitragem, mas inclino-me para um nulo, que nem um assalto suplementar resolveria. Porque nulo é aquilo com que ambos esgrimem: Cavaco, com a experiência e a sapiência de quem nunca tem dúvidas e raramente se engana, Alegre, com uma estratégia digna de Tiririca: pior não fica --- e lembrei-me  de um missionário que ouvi esta manhã na Praça da Alegria, cujo nome não fixei: há esperança para Portugal desde que os portugueses comecem a trabalhar cá como o fazem lá fora, voltem a poupar como os seus pais o fizeram, e paguem a quem devem. Eis todo um programa político, que eu subscreveria de imediato e em que votaria com entusiasmo. Não ouvi um só destes verbos -- trabalhar, poupar, pagar dívidas -- a nenhum dos candidatos.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Há petróleo Entre Cós e Alpedriz

Ou, pelo menos, andam outra vez à cata dele:

Um bom Natal


Estas azevias! Uma perdição. Por causa delas, porque me dói a cabeça, por muitas razões que a preguiça me impede de explicitar, deixo aos mais sábios as doutas reflexões sobre o Natal. Eu vivo-o, na fé de Camões, é certo que a propósito de assunto bem diferente: "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo."

Trasfega

Ontem, 23.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

PISA 2009

Ouvi o primeiro ministro cantar de galo a propósito dos fantásticos resultados obtidos pelos nossos alunos no PISA 2009 e prontamente desconfiei. Há muito que não acredito numa única palavra dele, embora, reconheço, bem me tenha enganado nas eleições que lhe deram o primeiro mandato. Agora que os especialistas puderam estudar o relatório, outras opiniões, bem diferentes, emergem. Por exemplo, Santana Castilho, no artigo:  "Pisa: mentiras e perplexidades". Vale a pena ler. Porque, com papas e bolos se enganam os tolos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Presépio

Mais um ano. A alegria dos miúdos. Que se danem os beatos e a sua indignação: fazemos presépio laico -- mas respeitador. O Menino Jesus não se zangaria com a nossa falta de fé, antes, divertido, rebolaria pelo chão com os meus netos, brigaria para ser ele a colocar o Rei "Magro" e o seu camelo, ou o galo sobre o estábulo, depois, como eles, deitar-se-ia de bruços a adorar a obra feita.
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Poupar com inteligência

Sempre me espanta a ideia de que se comprar X se poupa Y. Noticiam  hoje as televisões que terão sido poupados uns 10 milhões de euros nos rendimentos sociais de inserção desde que critérios mais restritivos entraram em vigor. Esta concepção de poupança é tão absurda que só pode ter sido parida por assessores governamentais. Tal como Cristo, prefiro exprimir-me por parábolas. Tal como Ele, digo que quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que oiça. Eis a história, anedota dos anos 70, quando ainda dava para rir das nossas desgraças:
Um jovem entra esbaforido em casa:
-- Pai, vim a correr atrás de um eléctrico e poupei os dez tostões do bilhete!
--Grande bruto! Se tivesses vindo a correr atrás de um táxi, poupavas os 40 escudos da bandeirada!

Flexibilização dos despedimentos

As recentes alterações à legislação laboral (por parte de um governo que acusa o PSD de querer liberalizar os despedimentos), vistas por Luís Naves:
"A sociedade portuguesa está anestesiada e as notícias sobre a redução das indemnizações em despedimentos mostram-nos uma esquerda cínica e sem futuro. Este País não é para novos e no futuro nem será para velhos."
Lapidar.

A linguagem críptica dos críticos

O que eu me esforço para entender o que os críticos escrevem! Em vão. E não há dicionário que me valha:
"Sem prejuízo do domínio narrativo, diria que há desfasamento entre o interesse do plot (medíocre) e a prosa escalorada do autor:..."
Já consultei o da Porto Editora, o da Verbo, o Hoaiss, o da Priberam... Será gralha, ou Eduardo Pitta está a mangar connosco?

Os bons e os maus

Todos se lembram: os bonzinhos eram os muçulmanos do Kosovo, como antes tinham sido os da Bósnia, os croatas... Os maus eram os sérvios. Tão maus, tão maus, que a Nato, para proteger os bonzinhos, arrasou a Sérvia, forçou-a a aceitar o desmembramento do seu território. Graças à Nato, os bonzinhos dos muçulmanos do Kosovo proclamaram a independência dessa região sérvia, além do mais porque, depois dos massacres contra os sérvios, se tornaram nela maioritários.
Tenho o péssimo costume de olhar para o outro lado: se me dizem para olhar para cima, espreito para baixo; se querem que veja à direita, é na esquerda que atento. Por isso, tanto os media alardearam a maldade dos sérvios, que me levaram a desconfiar dos bonzinhos. E pormenores que escapavam à propaganda oficial iam-me convencendo de que não estaria totalmente errado. Os sérvios massacraram? Sem dúvida. Cometeram atrocidades terríveis contra populações indefesas? Sem dúvida. Mas, que eu saiba, nunca montaram uma rede de tráfico de órgãos extraídos de prisioneiros que eram engordados e mortos para o efeito. Liderada pelo actual primeiro ministro do Kosovo, ao que consta:
"Os prisioneiros sérvios até se sentiriam razoavelmente bem tratados: davam-lhes comida e deixavam-nos descansar. Mas depois, quando o negócio estava apalavrado, e as clínicas preparadas, eram levados para centros de detenção na Albânia, onde eram mortos com uma bala na cabeça e lhes eram extraídos órgãos, principalmente rins."
Como "a verdade imita o azeite no seu irritante costume de vir sempre à tona, tarde ou cedo" (Do lacrau e da sua picada), talvez um dia se venham a conhecer os porquês e os comos da guerra pela destruição da Jugoslávia, que antecipou outros conflitos justiceiros que tão bons resultados vieram a dar: Afeganistão e invasão do Iraque. Porque o primeiro está limpo de talibãs e pacificado, e o segundo, em paz e próspero, já não possui armas de destruição em massa.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Leitura indispensável

Rui Rocha, no Delito de Opinião, "A geração nem-nem". Acrescento que oiço frequentemente mãe preocupada. Daquelas que tentam persuadir os filhos a estudar. Que os querem convencer a trabalhar. Que pedem emprego para eles. Que os vêem despedir-se porque o patrão não lhes dá folga pelo ano novo e o jovem tem o direito de o passar com os seus amigos. Antes que me comecem também a zurzir com as desculpas tugas, já bem rotas, acrescento que comecei a trabalhar aos 19 anos, como servente de pedreiro, na Ciferro, na altura construindo o tribunal de Leiria. Depois fui operário de plásticos na Júlio Ferreira até ser chamado para a tropa. Saneado com o 25 de Novembro de 1975, entrei para o ensino em 1976. Nunca recebi subsídio de desemprego, e baixa, só quando parti um dedo, trabalhava ainda nos plásticos. Filhas, genros, sobrinhos e sobrinhas, respectivos cônjuges, tudo trabalha. Quase todos em Portugal, o Gonçalo no Dubai, o Jeroen e o Kaspar na Holanda.
O desemprego é terrível. Mas o carpinteiro da minha terra não consegue aprendizes -- e só quem nunca precisou de um carpinteiro ignora como são bem pagos. Preciso de pedreiro de confiança, onde encontrá-lo? Quando terá disponibilidade para me atender? As boas empregadas domésticas rejeitam patroas, têm até lista de espera. E desde que li, a propósito dos cogumelos venenosos, que vêm tailandeses apanhar fruta para o Oeste...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Falta o açúcar

E depois? Não lhe chamavam o "veneno branco"? Não era, ainda há dias, responsável por boa parte das doenças "da civilização" -- obesidade, cárie, diabetes...? Preocupante seria se nos faltasse o vinho, como a Maria Parda, que
vio as ruas de Lisboa com tão poucos ramos nas tavernas, e o vinho tão caro e ella não podia passar sem elle:

Ó rua da Mouraria, 
Quem vos fez matar a sêde 
Pela lei de Mafamede 
Com a triste d'agua fria? 
Ó bebedores irmãos, 
Que nos presta ser christãos, 
Pois nos Deos tirou o vinho? 

Gil Vicente, Pranto de Maria Parda

domingo, 12 de dezembro de 2010

Colegas de trabalho

"Eu tamém qué sentá aqui!", grita impaciente o Miguel. Não me falta companhia no trabalho deste domingo, igual ao de sábado e ao de sexta... Corrigir testes, que crescem no monte. E amanhã têm de ser entregues.
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Prova dos noves

Não haverá assessor que ensine ao senhor primeiro ministro, tão feliz com os resultados de PISA 2009, 

"Esta é a prova dos nove: os nossos alunos sabem mais", diz Sócrates sobre o relatório da OCDE 


que não é a "prova dos nove", mas sim a "prova dos noves"?

prova dos noves: verificação prática de contas que consiste na extracção dos noves; figurado processo para confirmar ou infirmar a veracidade de um facto;

Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora
Ou que lhe ofereça um raio de um dicionário? Precisa de falar tão mal como governa, e logo para se vangloriar de bons resultados na educação?
(Sobre o relatório, não me pronuncio enquanto o não ler; até lá, mantenho a esperança de não acabar a dizer " noves fora, nada.)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Azares

Com o país a ser afundado alegremente, vejo-me, por força deste salve-se-quem-puder, a sonhar com uma safa. Não podendo ser assessor -- excesso de habilitações, falta de cartão do partido e, sobretudo, de boa madrinha, de madrinha boa, ou até de madrinha-frasco a precisar de enchimento --, e já sem esperança de que o Euromilhões me contemple, agora orientado pela misericordiosa mão de Deus para os mais carenciados, restava-me a natureza para garantir pé-de-meia que componha a miragem da reforma, em constante fuga para a frente e, pior, à dieta por causa das bandas gástricas que o governo lhe vem aplicando.
Contava pois eu com a natureza. O aquecimento global iria tornar as minhas terras praias: veja-se a foto. Em primeiro plano, a minha lavoira; um pouco abaixo, um vale profundo, até aos pinheirais que escondem o mar. Com a anunciada subida das águas por força do aquecimento global, eis-me o feliz proprietário de praia, já a imaginar hotel, ressort... Pois vem este frio e lá se vai a minha ilusão por água abaixo, água como a que hoje escorre do céu, dessa que jamais voltaria a cair como nos bons velhos tempos, ecologista dixit. Ora com nova idade do gelo à vista, nenhuma esperança de valorizar a minha Salgueira. Bom, restava-me ainda o petróleo. No ano passado fizeram estudos nos Montes e, ao que me garantiram, há petróleo acessível e em quantidade. E eu, qual personagem de Dallas, via-me já de charuto, chevrolet, a gozar das mordomias dos barões do petróleo. Pois não é que querem explorar o meu petróleo lá do mar? Cá para mim, farão um furo oblíquo até às minhas jazidas!

sábado, 4 de dezembro de 2010

A piada do dia

José Sócrates, vendedor de Magalhães: “Mas quero assegurar que este plano tecnológico para a educação que fizemos nos últimos cinco anos melhorou a aprendizagem, aumentou o nível de satisfação dos alunos na sala de aula, mudou a relação entre aluno e professor, mudou a gestão da escola e contribuiu para um significativo aumento da informatização na nossa sociedade.".
Só gostava de conhecer os dados em que se apoia...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Arrogâncias governativas

Desta vez, da "Ministra da Saúde [que} defende a necessidade da Igreja “esclarecer a sua posição” sobre o preservativo". Como é que uma ministra com tantos esclarecimentos para dar -- e não os dá --, membro de um governo que nada esclarece e tudo confunde, se arroga o direito de exigir esclarecimentos à igreja, não sobre a sua obra social, em que acode aos desvalidos e às vítimas deste governo, mas sobre aquilo que pensa sobre o preservativo? Acreditará a ministra que alguém usa ou deixa de usar preservativo por a igreja ser contrária? Que a Sida, pesem embora os rios de dinheiros públicos malbaratados no seu "combate", existe e aumenta por causa do pensamento da igreja? Que o problema se resolve plastificando-o?

Declaração de interesses: mantenho uma distância em relação à igreja que muito me agrada; no entanto, admiro e respeito a sua obra, o que não sucede com o governo de que Ana Jorge é ministra.

Foto: igreja de Alpedriz, onde fui baptizado e crismado.

Os quarenta rebuçados da Restauração

(Rascunho)

O vento sopra cortante, tremem os corpos, batem os dentes com frio. Resguardamo-nos no pequeno vestiário da escola, gelado, desabrigado.
--- Lê a lição, pede-me o Fernando, que, mais uma vez, não terá feito os trabalhos de casa. E eu, que gosto de ler, começo: “Na madrugada do dia 1 de Dezembro, quarenta vultos rebuçados... “
Os olhos do Fernando brilham e rebrilham, tantos rebuçados juntos, estômago vazio, cabeça cheia de iguarias, ele que chega à escola com aguada de café de cevada e talvez sopas da côdea da véspera, resto do jantar ou sobra do almoço, a lavadura do caldo mais fácil de engolir…
Corrijo-o: --- Não são rebuçados desses.
Resplandece-lhe a face: --- São rebuçados “Noivos”? Tão bons!
Surpreendo-me: --- Já comeste desses? Sim, conta, um que lhe deram. Nunca provara nada tão bom na vida! Ah, se eu fosse rico, era só o que comia. Rebuçados “Noivos” de manhã à noite.
Recomeço a leitura. (Gosto de rebuçados, mas prefiro ler, sobretudo quando me ouvem…)
--- Quarenta vultos rebuçados…
E ele, augado: --- Não me fales mais em rebuçados.
Prossigo. O Fernando, tiritando de frio, não me presta atenção, o olhar fito num qualquer sonho distante, quente, farto e doce. Reparo que veio calçado:  botas de borracha enormes, rotas --- mas calçado. Por causa da visita do inspector na semana passada. Ralhou com a professora: --- Há meninos descalços! E para nós: --- Não podeis vir descalços para a escola, ouvistes?
Atrapalhada, a professora tenta desculpar-se: --- São muito pobres, os pais não podem...
O inspector, ar de santo: ---Então ajude-os, com o dinheiro da Caixa Escolar
--- Mas, Senhor Inspector, o dinheiro da Caixa nunca chega para as despesas, tinta permanente, papel, giz... É terra de gente pobre...
Que visse o que podia fazer. Descalços, não.
Eis que chega a professora: --- Bom dia, minha senhora.
--- Bom dia, meninos. Vamos entrar.
Seguimo-la, sempre deslumbrados com a sua beleza: bem jovem, alta, elegante, cabelo negro, a graça de um sinalzinho no queixo. Todos apaixonados por ela desde que cá chegou, em Outubro. Só é pena ser tão má, maltratar-nos tão cruelmente. Precisamente por isso, o Fernando, uma das suas principais vítimas, a alcunhou: Foguete 24; foguete, porque se assustou com o estoiro de um na festa; 24, porque é a sua conta normal de reguadas, uma dúzia em cada mão. Não há régua que lhe resista por muito tempo. Há semanas, partiu uma nas costas de um desses matulões que se arrasta pela escola à espera dos catorze anos, para então a poder abandonar, incapaz de fazer a quarta classe --- a professora nem o leva a exame. Pois na manhã seguinte, eis que se levanta e respeitosamente se lhe dirige: --- Minha senhora, está aqui esta régua que o meu pai fez e lhe manda. Manda também dizer que é de castanho, não parte às primeiras.
--- Vamos lá a experimentá-la. Dá cá a mão.
E segue-se tareia preventiva: --- Fica por por desconto das que hás-de apanhar esta manhã.
Começa o interrogatório, pretexto para o primeiro espancamento matinal:
--- Que dia é amanhã?
--- 1 de Dezembro, respondo prontamente, sempre sabichão.
--- Porque é que é feriado?
E eu, mão no ar: --- Porque é o dia da Restauração.
--- Tu, cala-te. Respondes quando te perguntar. Fernando: o que é que aconteceu?
E ele, sofrendo por antecipação as duas dúzias de reguadas, contorce-se já na carteira, esfrega as mãos enregeladas, por tique nervoso ou para para as aquecer, que pancada em mãos  frias dói muito mais:
--- Houve a Restauração...
--- Isso já sabemos. Pára de dançar e responde.
--- Quarenta..., soluça, --- Quarenta...
--- Muito bem. Que continue,  ordena severa, brandindo a régua na mão direita, com vigor semelhante ao das espadas com que aqueles revolucionários trespassaram Miguel de Vasconcelos.
O Fernando, cada vez mais atrapalhado, só gagueja: --- Quarenta...
--- Quarenta quê? Desembucha!
--- Quarenta rebuçados, já disse! --- chora o Fernando.
E a professora, no gozo: --- Quarenta rebuçados?
--- Sim, um pote cheio deles, como os que há na loja da Tia Joaquina....
Torce-se, grita, tenta fugir com a mão cheia de frieiras à tortura, acaba por levar as últimas no rabo, nas costas, na cabeça: --- Culpa tua, que não paras quieto!
A professora só se moderará anos mais tarde, já na Primavera Marcelista. Um desses calmeirões, louco de dor, exasperado com os espancamentos diários, virou-se a ela: --- Sua puta, se me bate mais, fodo-a!
--- Ai, tragam-me um copo de água, que vou desmaiar.
E o irmão da vítima teve o gosto de lhe atirar com a água à cara…
(Conta-se que um cidadão romano, octogenário, dizia preferir a morte a voltar à infância, tendo de passar novamente pela escola e pelas suas torturas…)

domingo, 28 de novembro de 2010

No jobs for the boys

Tanta ingenuidade é confrangedora:
Passo Coelho avisou hoje que "os espertalhões que sabem colocar-se, na hora certa", ao lado de quem "vai ganhar" que "não terão guarida, nem complacência" por parte do PSD.
Não terão guarida como, se sempre estiveram lá dentro, à espera da oportunidade que vai tardando? Camarada Passos, já és crescidinho, deixa-te destes dislates. Ouve o que te digo: os partidos, e nomeadamente as suas jotas, são lodo do mesmo charco. Se, um dia, longínqua miragem, vieres a ser primeiro ministro (e não menosprezes o actual, que é mestre na arte do ludíbrio e do engano, e só sai do governo com tira-nódoas -- e, além dele, tens à perna o teu amigo Cavaco), se vieres a ser primeiro-ministro, cala-te bem caladinho, deixa-te de declarações pomposas, chega-lhes pela calada, sem complacência, a roupa ao pêlo, aos "espertalhões", e terás o meu respeito, a minha admiração. Ficarás para a história como o primeiro governante a conseguir fazê-lo...
(Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Jacques Prévert, "Barbara" )

sábado, 27 de novembro de 2010

As enguias

Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Mei×ão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada... As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”
Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil...
Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados ao tango do Orçamento…

Publicado no Delito de Opinião, convite de Pedro Correia. Muito obrigado!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

25 de Novembro

Posts em vários blogs, como este e este, recordam-me da efeméride. Eu estive . Tinha 21 anos e vivi-o por dentro, com muito medo, completo desnorte -- afinal, de que lado estava eu? Como se furriel miliciano tivesse direito a tomar partido! Um dia, escreverei sobre a forma como vivi esse dia e, pior, os seguintes, a comandar soldados em barricadas, os oficiais, como sempre, resguardados no quartel, as carreiras protegidas qualquer que fosse o lado vencedor. 
Por hoje, fico-me por este fragmento inédito de uma das minhas narrativas:
"combate-se nas ruas, nas ruas onde todos nos manifestamos, pela libertação do camarada Saldanha Sanches, pelas 40 horas, pela unicidade sindical, contra os fascistas que o Otelo tarda em toirear no Campo Pequeno, em apoio do companheiro Vasco… E morre-se no 25 de Novembro no cerco à Polícia Militar, em que umas dezenas de comandos cercam 2500 PMs bem armados e entrincheirados no interior do quartel, bravos que, ainda na véspera, desfilavam briosos, camuflado, lenço vermelho ao pescoço, punho erguido, soldados, sempre, sempre ao lado do povo, rijo tiroteio e rendem-se ao inimigo figadal, sempre pronto a acertar velhas contas retornadas das colónias --- era a Polícia Militar, resguardada da guerra nas cidades, que prendia por bebedeiras e desacatos os comandos de licença, uns dias longe do mato e das matanças."
FOTO: sou o primeiro, à direita, ajoelhado.

Flores outonais

Só falta o aroma, suave, discreto --- embriagador para as abelhas, sempre azafamadas, sem tempo a perder, que o Sol é de pouca dura e as flores depressa murcham...

"Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
"

(Bocage)

FOTO: a nespereira do meu quintal, mesa posta para as abelhas. Clicar nela para ampliar.
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O vampirismo do romance

Sorve todo o tempo livre e não dá descanso no tempo ocupado. Enerva-me quando afazeres profissionais me obrigam a pô-lo momentaneamente de lado. Suga-me quando acordado, ensonado, até a dormir, em sonhos. Deita-se e levanta-se comigo, martela-me a cabeça frase a frase, palavra a palavra, sempre descontente, sempre exigente. Alimenta-se de tudo o que nas gavetas e nas pastas do computador lhe parece apetecível -- contos não publicados, histórias incompletas fadadas para outro destino, vasculha posts do blogue, na esperança frequentemente vã de encontrar pasto para a sua voracidade. E um dia, se terminado -- sei-o por experiência anterior -- deixa-me vazio, sem mais nada para contar, sem mais nada para escrever, enjoado só de o ver, incapaz de mais uma vez o reler sem vomitar. Nem então me dá sossego: vai à sua vida,  sim, exigindo embora que o apadrinhe, o proteja, o divulgue, o venda até, a mim que sou um desastre nos negócios...
Chamou-se Do lacrau e da sua picada, chamou-se Entre Cós e Alpedriz, veio outro cujo nome que não pode ainda ser divulgado, eis agora as Plêiades (título provisório), que exige ser terminado. Vampiros que, como na canção de José Afonso, comem tudo e não deixam nada.

Destaques do dia

(Os links não correspondem aos títulos dos posts)
Eduardo Pitta, sobre a regra e a excepção.
Pedro Correia, sobre a coerência de políticos respeitáveis.
João Gonçalves, sobre a emigração altamente qualificada.
Sérgio de Almeida Correia, sobre a nova revolução cubana.
De Rerum Natura, sobre a arte de dar peidos (que é mesmo o que a conversa da ministra do trabalho e dos dirigentes sindicais está a pedir).

No Delito de Opinião

Graças à amabilidade do Pedro Correia e da equipa do blogue, o meu texto, As enguias. Muito obrigado a todos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Hoje, quarta, é dia...

de feriado municipal no Entroncamento. Que vai servir para fazer um teste para quinta-feira (os professores não fazem nada, é só férias e dias livres).

Receita para a bancarrota, do grande Eça

"— Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz? E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta — cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
— Num galopezinho muito seguro e muito a direito — disse o Cohen, sorrindo. — Ah! sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável; é como quem faz uma soma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
— A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela — continuava o Cohen — que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...
Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, de Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.
Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! À bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança — o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas..."
Eça de Queirós, Os Maias (negrito meu)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mudem de rumo, mudem de rumo

Como canta José Afonso (nunca conseguirei chamar-lhe Zeca).

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Gaba-te, cesta...

Há anos, desde que me decidi a publicar, que luto para divulgar os meus escritos, imodestamente convencido de que terão algum valor. Com sucesso relativo, embora posts do pintor João Alfaro, mensagens animadoras dos escritores Rentes de Carvalho, Joaquim de Lisboa, José Cavalheiro, do editor Nelson de Matos (entretanto perdida por problema informático) me envaideçam e animem. Na semana passada, foi a vez do escritor Carlos Maduro me presentear com este post, que orgulhosamente reproduzo:
José Cipriano é um amigo que não conheço pessoalmente, mas que descobri aqui na net e de quem sou admirador. Começa pelo nome e acaba no título dos seus livros. Este que aprecio particularmente, Entre Cós e Alpedriz, está na Net e pode ser lido. O Amigo José Cipriano fez o favor de me enviar uma edição impressa e aí a leitura cresce muito mais, mas serve o PDF para abrir o apetite.
     O José é mais um dos finos escritores regionalistas, daqueles que gosto a sério, dominam a pena sem vaidades e pseudo-intelectualidades. Os toiros têm cornos e as vacas tetas. Fica aqui a sugestão duma escrita que não é depósito de agonias existenciais e de prosas poéticas sem nexo.
http://joseciprianocatarino.com/joomla/images/stories/entrecosealpedriz.pdf
 Muito obrigado e um abraço. Um destes dias, encontrar-nos-emos e não faltará assunto de conversa.

domingo, 14 de novembro de 2010

A razão a quem a tem

Numa arrogância de que frequentemente me arrependo, comecei por me rir do actual Papa e da sua voz senil. Mas, paulatinamente, fui mudando de opinião. O homem não é nada parvo. Estou completamente de acordo com estas afirmações do Papa. É exactamente o que venho dizendo e escrevendo, neste blogue e em caixas de comentários de outros que me merecem respeito:

"Perante o arrastar do "desequilíbrio entre riqueza e pobreza, o escândalo da fome, a emergência ecológica e o problema do desemprego", Bento XVI considerou decisivo um "relançamento estratégico da agricultura".

"Parece-me uma boa altura para que se volte a valorizar a agricultura, não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para o futuro",
sublinhou.
(...)O papa também criticou os países onde, "apesar da crise, se incentivam estilos de vida que convidam a um consumo insustentável, que resulta em danos para o ambiente e para os pobres".

"É preciso apontar um novo equilíbrio entre a agricultura, indústria e serviços, para que o desenvolvimento seja sustentável e a ninguém falte o pão nem o trabalho, o ar, a água e o resto dos recursos que sejam preservados como bens universais".

Alimentar a alma

Escorrem as notícias pelos dias, cinzentas, depressivas como eles, e nós, acabrunhados, envergonhamo-nos com o nosso primeiro ministro, de mão estendida à caridade, mendigando junto dos tiranos das sete partidas do Mundo, enquanto os seus ministros se preparam para o abandonar… Eu sei, Portugal afunda-se, sem que nenhum de nós possa agora fazer o que quer que seja para o evitar. Por isso, sejamos felizes, sem remorso nem receio. Há muitos, muitos anos, aquando de outra crise, não me chegava nunca o dinheiro até ao final do mês e recebi uma carta dos meus pais com uma pequena quantia: faziam anos de casados e queriam que nós (éramos três na altura) fôssemos jantar fora. Havia tanta necessidade, tanta privação, que hesitei: aqueles centos de escudos poderiam ser mais bem empregues em calçado, em roupa… Lembrei-me então de um poema árabe, algo como: “Se só dois pães te sobrarem / vende um / e compra flores / para alimentares a alma”. Fomos jantar ao melhor restaurante local e, bem comido, bem bebido, a alma alimentada, a crise já me não parecia tão assustadora. Desde então, defendo que a importância inegável do mundo material deve ser relativizada para que outros valores mais altos se alevantem.
Neste fim-de-semana comemorámos o São Martinho. Nos Montes, na minha adega, em família, e o tempo ajudou: vento forte, chuva, para que o lume fosse mais aconchegador. A água-pé está excelente: muito bem apaladada, leve, oito ou nove graus. Já envasilhada, pronta para distribuir pelos amigos, na esperança de que, saboreando-a, esqueçam, também eles, a desgraça que é o nosso governo e as humilhações que inflige a este pobre país -- até Timor se propõe comprar a nossa dívida! Que tal ajudar-nos pagando os custos da GNR, que lá zela pela segurança deles?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Coisas boas do Outono

Esta sonolência que me ataca logo após o jantar e me impede de trabalhar -- e refastelo-me na cama a reler a Ilustre Casa de Ramires. Tal e qual como escrevi há quase um ano. É seguramente cíclico. Por isso, boa noite.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tokui-gata

Jion.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As desgraças costumeiras e o peligo amalelo

Durante um mês, preveniram-nos: ou o orçamento é aprovado ou temos o fim do mundo. Agora que o foi, os juros chegaram aos 6,9 e ninguém pode garantir que parem por aí. Se tivesse sido chumbado, como o governo merecia (e nem me quero alongar a discorrer novamente sobre arrogância, promessas, incompetência), se o orçamento tivesse sido chumbado, estaríamos pior? Talvez. Mas seriam os credores a tremer, assustados com a possibilidade de falirmos e os deixarmos a arder. Dificilmente especulariam.
Volta-se o governo para o Império do Meio; não saberá que a China já era civilizada ainda os nossos antepassados resistiam heroicamente à civilização e que sabem mais eles a dormir (não por acaso, já lhes ouvi chamar "os judeus do oriente") do que nós acordados? Não passará pela cabeça dos governantes que os chineses só estão interessados em defender os interesses chineses? Quanto a nós, insignificantes bárbaros do Ocidente, vão-nos cozer em fogo lento, puxando pelos juros para terem os consequentes lucros especulativos, apropriar-se do que por cá houver de valor, impor-nos a sua visão estratégica (quero  agora ver o Dalai Lama em visita a Portugal), os seus produtos, e ai de nós se ousarmos refilar: não diz Manuela Ferreira Leite que quem paga é que manda?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Todo o terreno

 Ou quase. Post motivado por este, no Albergue Espanhol
Ora digam lá: os jeeps gabados lavram, fresam, gradam?
Arrancam árvores?
(Vídeo: o Jorge e o pai em acção. Foto: tractor atascado até ao motor.)

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Coisas boas do Outono

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Dia de Todos os Santos

Dou-me mal com o calendário e nunca sei a quantos ando. O que pouco me importa. Interessa-me o dia da semana, a agenda serve apenas para marcar os testes, embora os meus alunos sempre me alertem com antecedência, não vá acontecer eu esquecer-me de a consultar – o que, em 34 anos de profissão docente, nunca sucedeu. Por isso me esqueço dos aniversários, do meu inclusive: sei em que dia é, só não sei que esse dia É. E todos os anos sou surpreendido alta madrugada pelo toque da campainha a anunciar ranchos de miúdos ao “bolinho”. Despensa desprevenida, vazia de guloseimas. Para os primeiros, ainda se arranja qualquer coisa, mais simbólica do que apetitosa. Para os que vêm a seguir… Muitas vezes, envergonhado por nada ter para lhes dar, nem abro a porta.
Custa-me não ter com que os contentar (dinheiro não dou, seria incentivo à pedinchice e à mendicidade) porque quando tinha a idade deles também eu madrugava e ia em bando, sacola às costas, de porta em porta, ao “Pão por Deus”. Regressava orgulhoso com sacadas de pão duro, fraca gulodice em casa de padeiro, onde fome nunca entrou, embora a necessidade lá morasse.
Para o ano vou estar prevenido! Só que todos os anos me esqueço de que o Dia de Todos os Santos é dia de bolinho, era dia de Pão por Deus… E como poucas vezes sei em que dia do mês estou, como prevenir-me para esse dia?