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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sinal dos tempos

Até as andorinhas andam exaltadas, não sei se da crise, se da desgovernação, se do futebol. Ou se de tudo isto.
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Paradoxos

Deste país e deste povo: tantos "aos carimbos" (vai-se às empresas que se sabe não necessitarem de funcionários e pede-se que carimbem papel comprovativo de que não têm emprego para o candidato, que assim comprova no Centro de Emprego que está a procurar trabalho) e anúncios como este, hoje. Café Ice Cream, Entroncamento.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

La solitude

Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'une autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
J'attends des mutants. Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais...

la solitude...

Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis. Ils ont été coulés demain matin. Si vous n'avez pas, dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée, il est inutile de vous transmettre, il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour. Et...

la solitude...

Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues, soient aussi imperturbables que les feux d'arrêt ou de voie libre. Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau. Et pourtant...

la solitude...

Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur", les mots que vous employez n'étant plus " les mots" mais une sorte de conduit à travers lequel les analphabètes se font bonne conscience. Mais...

la solitude...

Le Code civil nous en parlerons plus tard. Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable. Je voudrais mesurer vos danaïdes démocraties.
Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit, le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité. La lucidité se tient dans mon froc.

Léo Ferré

Profecias

Antes de mais, e para que não haja equívocos, a minha solidariedade para com os árabes que lutam  contra a tirania e morrem nas ruas -- hoje, só numa cidade líbia, terão sido assassinados mais de 200.
Leva avante, e não temer...
Pela santa liberdade,
Triunfar ou padecer...
(1)
Por todo o lado, os povos do terceiro mundo, há demasiado tempo oprimidos, privados de esperança e, sobretudo, dos seus recursos naturais, vão levantar-se uns após outros. Más notícias para nós, na velha Europa, há séculos a viver melhor ou pior, quase sempre acima das nossa possibilidades -- à custa de quem? Más notícias para o nosso governo que ainda tem a esperança de escapar ao "auxílio" da União Europeia e do FMI, péssimas para todos aqueles que protestam contra os combustíveis caros, contra o desemprego, contra a carestia da vida: o  petróleo vai subir até valores impensáveis,  os preços de todos os bens, alimentos incluídos, vão disparar, e nem as energias renováveis ou as barragens nos vão valer. Se tivéssemos energia nuclear seria menos mau, mas foi mais divertido alinhar em campanhas "nuclear? Não, obrigado."
Também o já periclitante desequilíbrio de forças, que tem permitido a Israel fazer o que bem entende, tem os seus dias contados: os novos regimes não serão tão simpáticos, tão compreensivos, tão tolerantes como o foram os dos déspotas apeados ou  a apear, quanto mais não seja porque os seus povos não o permitirão, e com um Irão nuclear a política dos falcões judeus de extrema-direita terá de dar lugar a opções mais dialogantes, mais pacifistas. Goste-se ou não, é o que vai acontecer.
E nós, portugueses? Bom, para que não subsista a dúvida de saber quem se vai lixar, recorde-se  o anexim do mar e do mexilhão. Depois, há muita terra inculta. Para férias, em vez da República Dominicana, talvez uma praia portuguesa, pese embora o desconforto daqueles a quem revolta ouvir labreguices ao nosso povo (noutras línguas não lhes parecem tão mal). Haverá emprego para gente qualificada, i. e., que saiba e queira fazer alguma coisa de útil. A parcimónia impor-se-á, queiramos ou não. A mudança de rumo também, embora receie que só após violentas convulsões sociais.
(1) Versão  constante de A Brasileira de Prazins, Camilo Castelo Branco.

O problema nacional

Consiste a ironia em afirma algo querendo significar o contrário. Um exemplo bem actual é o post de Rentes de Carvalho "Em defesa do Dr. Armando Vara":
"Tivesse este país muitos homens como o Dr. Armando Vara não estaríamos como estamos."
Ou, lendo ao contrário, pobre país que tem, e sempre teve, tantos doutores da mula ruça, os quais logram convencer a plebe de que com a nossa (leia-se: deles) ancestral chico-esperteza conseguimos enganar o mundo inteiro e arredores e dar sempre a volta por cima. E quando as coisas começam a correr mal, a culpa é  dos outros, às armas, nobre povo, nação valente, imortal, mesmo que nos lixem nas taxas de juro, na economia, ah, havemos de os bater no futebol nem que tenhamos de naturalizar  à pressa os jogadores brasileiros, africanos, sul americanos, não importa -- a não ser que nos roubem as arbitragens.
Porque as qualidades que engrandecem outras nações, desprovidas da nossa esperteza, o honesto estudo com muita experiência misturado, são perda de tempo, são burrices desses povos que ainda se não converteram às novas oportunidades com muitos magalhães e quadros electrónicos misturadas.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Tai Chi Chuan e eu

Estrasburgo, 2000. Treino de Tai Chi
Maravilhou-me a elegância  do Tai Chi, logo da primeira vez vi executar, há uns bons 20 e tantos anos. Eu praticava um karaté de baixíssimo nível técnico, que privilegiava a força e a brutidade, apesar dos avisos em contrário que já então o sensei Vilaça Pinto fazia ouvir -- e nós, se escutávamos os seus conselhos (que remédio, era o mestre a falar), ignorávamo-los na prática, como se a nossa máxima fosse "quanto mais bruto melhor". 
O Tai Chi foi-nos apresentado como o remédio miraculoso que evitaria a doença, afastaria a velhice, adiaria a morte. Por isso o treinei afincadamente, o que seguramente me não fez mal nenhum. Mas, acredito-o hoje, muito me beneficiou ter continuado a  praticar em simultâneo o karaté, apesar do inconveniente óbvio de ter limitado os meus progressos tanto na suave arte chinesa como no mais rude e aparentemente mais tosco karaté. Vários dos companheiros de então foram levados pela doença e pela morte, apesar de treinarem  afincadamente o Tai Chi. Alguns sofreram graves enfermidades. Outros exibiam barrigas bem prósperas, que faziam rir os velhos karatekas. E num seminário com Yang Jwing- Ming, o mestre contou-nos que sofria do coração, problema congénito e familiar. Que, ao sabê-lo, protestou junto do médico: -- Mas eu faço 12 horas diárias de Tai Chi! E o médico: -- Pois, o Tai Chi é óptimo para combater o stress e baixar a tensão arterial. Mas para combater o colesterol precisa de fazer exercício violento.
Aproximava-me dos cinquenta. A escola em que treinava tinha abandonado o karaté em favor do Tai Chi. Entendi chegada a hora de agradecer tudo o que tinham feito por mim e mudar de rumo. E voltei a dedicar-me exclusivamente ao karaté. 
Aproximo-me dos sessenta. Muitos dos karatekas do meu tempo abandonaram a prática, uns por desinteresse, outros por razões de saúde, que os anos não perdoam. Enquanto puder, continuarei. Quando não treino durmo pior, sinto as pernas presas, surgem dores aqui e ali. E o Tai Chi? Primeiro pensava: quando não puder treinar karaté, volto-me então novamente para ele. Hoje duvido. Afinal, um passeio enérgico, uma kata executada de acordo com as nossas capacidades físicas trarão seguramente mais benefícios. Perdi há muito a fé na magia do Tai Chi, seja ele Yang ou Chen.

Hurt, Johnny Cash

Recomendada pelo Jeroen, meu sobrinho, talvez o mais português dos holandeses:
Olá zé,
se gostas "os velhos" talvez também gostas este canção: johny cash - hurt
http://www.youtube.com/watch?v=o22eIJDtKho

Jeroen.
Muito obrigado.

Esclarecimentos

O post anterior, “Geração à rasca: discordâncias” suscitou comentários discordantes, o que muito me agrada porque (i) confirma que o blogue tem leitores atentos e (ii) que esses leitores têm sentido crítico e não hesitam em o exercer. Mas receio não ter sido bem interpretado.
Ora mal vão as coisas quando um texto precisa de outro a esclarecer o seu significado: ou não estava bem escrito, ou não foi bem compreendido. Se não foi bem escrito – e nem a pressa pode servir de atenuante – deveria tê-lo sido; se não foi devidamente entendido, ou os leitores o não leram com a devida atenção, ou se concentraram em aspectos porventura menos relevantes, incomodados, talvez pela referência final aos Deolinda. Como só a primeira hipótese, a da deficiente redacção, é da minha responsabilidade, retomo as ideias do post:
  • Desagrada-me que se atribua aos privilégios da minha geração a responsabilidade pela situação da chamada geração “à rasca”, e apresento argumentos de natureza pessoal.
  • Discordo do recente lugar-comum segundo o qual essa geração é a mais qualificada ou a mais habilitada de sempre.
  • É uma desonestidade intelectual proceder a generalizações sobre o desemprego entre os licenciados como se as respectivas licenciaturas fossem iguais na duração, na natureza, no conhecimento obtido, na procura por parte dos empregadores.
  • Admito que a frase final choque e seja até vista como provocatória pelos fãs dos Deolinda. Questão de gosto – ou da minha falta dele.

Geração à rasca: discordâncias

Relativamente a algumas das ideias deste post e a outras correlativas que por aí circulam. 
1. Desagrada-me a conversa de que a geração "à rasca" se encontre em tal situação, não por a casa-de-banho dos pais estar ocupada com tantos moradores lá no apartamento, quando  alguns há muito deveriam ter batido a asa, mas por causa dos privilégios da geração anterior -- a minha. Que diabo, vivi o salazarismo (se querem saber como era, leiam Entre Cós e Alpedriz, que podem descarregar gratuitamente aqui), a crise energética associada ao marcelismo, a agitação e a instabilidade do 25 de Abril ao 25 de Novembro, sempre com a espada de Dâmocles da guerra colonial suspensa sobre a minha cabeça, passei privações que hoje levariam a pedidos de ajuda às organizações humanitárias, fiz a trabalhar e paguei do meu bolso a minha licenciatura, sofri o FMI, fiz um mestrado a sério (dissertação disponível aqui), a trabalhar e às minhas expensas, progredi na carreira passo a passo, vejo a reforma possível cortada cerce, em risco até, pois o dinheiro dos meus descontos é gasto em subsídios a quem nunca, ou pouco, trabalhou -- e somos nós, eu e os outros como eu, que pagámos os estudos dos nossos filhos, que os apoiámos quando necessário, como apoiamos hoje os nossos pais, os culpados? Que diabo, tenho 37 anos de descontos, fui servente de pedreiro, operário de plásticos, tropa à força, professor sem habilitação, com habilitação, estagiário, efectivo, agora já nem sei o quê... Ricardo Vicente, tenha dó!
2. Não é verdade que a geração "à rasca" seja, como se repete na televisão, a mais qualificada de sempre. Nem sequer a mais habilitada, o que é coisa muito diferente. Têm diplomas em barda graças a Bolonha, reconheço. O que não reconheço é valor a licenciaturas de de 2 ou 3 anos, mestrados de um, sem tese. Muitos, da faculdade conhecerão pouco mais do que as praxes e as semanas académicas. Muitos nem escrever sabem (coitados, são disléxicos). Muitos fizeram cursos da treta, sabendo que para nada serviriam.
3. Há anos, dizia então o bastonário da ordem dos advogados que a ordem recebia 700 novos pedidos de inscrição por mês, o que era incomportável num país com a dimensão do nosso. Acrescentem-se os licenciados em comunicação social, em letras, em cursos que não lembrariam ao diabo -- e venha alguém cantar que precisa de estudar para ser escrava, ou parva, como se auto-caracteriza.
4. Ontem, na SIC, o presidente do Técnico (creio que é esse o título) apontava uma taxa de empregabilidade de, salvo erro de memória, 98% nos primeiros 6 meses após conclusão da licenciatura. Se mais engenheiros formasse, mais empregaria. E punha a par exigência na formação com empregabilidade.
5. Há muitos anos que insisto com os meus alunos: precisam de se aplicar  a Português (a minha disciplina), Matemática, Física, Inglês. Resposta: não gostam, como se estudo tivesse de ser, pelo menos no seu início, fonte de prazer. E optam por Sociologia, Geografia, Espanhol, etc., disciplinas de interesse, sem dúvida, mas que lhes não permitem a entrada no Técnico, nem em nenhum outro curso de empregabilidade elevada. Com  pessimismo ancestral, respondem-me que todos os cursos servem para o desemprego. Vivam os Deolinda, música a condizer com a letra. Uma merda. O rei vai nu e é preciso dizê-lo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os velhos

Old folks, John Denver. Adaptação de Les Vieux, de Brel. Álbum Whose garden was this.

Os velhos

Les vieux, de Jacques Brel

Leitura do dia

Diário irregular, de Sérgio de Almeida Correia. No Delito de Opinião. E, também no DO, para mim o melhor blogue português, outro excelente post, que registo com atraso:  O estado agiota, por Pedro Correia.

Relativismo moral

Suponhamos que me proponho descrever o ataque e a tomada de um navio de passageiros ou de um avião. Por exemplo, o Achille Lauro, ocupado  por um comando palestiniano em 1985. Se adoptar o ponto de vista dos atacantes, falarei de revolucionários heróicos que lutam por uma causa que consideram justa. Se, pelo contrário, abraçar o ponto de vista oposto, falarei em pirataria cruel, que não hesita em assassinar e deitar borda fora um passageiro paraplégico. Aparentemente, ambos os pontos de vista são defensáveis, talvez até legítimos. Mas acontece que eu recuso o relativismo moral, embora não seja ingénuo ao ponto de condenar em absoluto o Mal, que tem o seu papel como força motriz da história: sem a maldade, viveríamos ainda felizes e inconscientes no Jardim do Éden e conversaríamos amenamente com o Senhor quando, ao fim da tarde, fizesse o seu passeio refrescante...
Preciso, portanto, de dar conta dos vários pontos de vista, das suas hipocrisias, incoerências, inconsequências e consequências. De mostrar que em nome da Razão e do Bem se cometem atrocidades. De alertar para os perigos das boas intenções (lá diz o povo, delas está o Inferno cheio) e, sobretudo, de não transformar terroristas em cavalheiros cultos, aventureiros, empenhados no progresso social.
Assim, regicídio, ditadura salazarista, nazismo, comunismo, assaltos a embarcações turísticas e a aviões civis, etc. (a lista seria infindável) surgirão como acontecimentos historicamente datados, contextualizados, mas não como actos dignos de admiração e de imitação.Tarefa difícil? Talvez, que será tentador tomar por bons os testemunhos dos intervenientes, sempre interessados em branquear as suas acções perante as gerações vindouras, os quais aparentam sobremaneira ser credíveis se simpáticos, cultos, com modos cavalheirescos e, a cereja em cima do bolo, quando falam fluentemente Francês.
E, porque se pode aprender muito com os mestres, nada como ler Camilo Castelo Branco, que tão bem resolve este tipo de narrações paradoxais. Por exemplo, Onde está a felicidade ou A Brasileira de Prazins.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Arrogância intelectual

Aprecio muito um trabalho bem escrito, fundamentado em investigação rigorosa. Mas não tenho paciência para com aqueles que, tendo trabalhado, tendo investigado, não aceitam críticas.  Essa atitude releva da arrogância intelectual e, infelizmente, é mal nacional, sobretudo na blogosfera.

Objecções de consciência

Já fui um número. Não gostei. Recuso voltar a sê-lo, até porque não vejo qualquer razão justificativa. Façam o favor de me tratar pelo nome: Zé para os amigos, Cipriano, nome artístico na profissão, José Catarino, aqui, na Net, até descobrir, graças aos avisos do Google, que é nome comum a muita gente pouco recomendável -- e, para evitar confusões, passei a assinar por inteiro, José Cipriano Catarino.
Um nome, e não um número, confunde os serviços administrativos, que parecem incapazes de fazer uma ordenação alfabética, mesmo com os computadores? Paciência.
Eis uma objecção de consciência, entre muitas que tenho, irrelevante para os outros, importante para mim, soldado instruendo 1093975. Há 36 anos, exactamente. No RI 7, em Leiria, incorporado à força aos 20 anos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Leiria

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Vila de Rei

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Vila de Rei

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Porto de Mós

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Porto de Mós

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Paredes de Coura

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Assentiz

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Carreiro da Areia

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Golegã

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Cós

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Brogueira

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Moitas Venda

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sobre a familiaridade

Um post de Rentes de Carvalho a explicar aos tolos que uma coisa é a igualdade de direitos e outra, bem diferente, "a familiaridade  tosca dos simplórios". Termina dizendo o óbvio aos néscios que desconhecem viver numa sociedade hierarquizada, talvez por não terem sido ainda confrontados com emprego e vida:
Oiça: você que nunca me viu, não conhece de parte nenhuma, se se quer dirigir a mim e ter resposta, faça-o com boas maneiras. Talvez não saiba, mas digo-lho eu: na vida real não há Facebook.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Gostei

Deste post de João Gonçalves, a dizer mal da minha patroa. Mas, mais uma vez, entendo que os comentários dos seus seguidores não estão à altura da grandeza que, por vezes, João Gonçalves revela. Ou então sou eu que só às vezes lhe dou o devido valor. De qualquer forma, um autor e um blogue que leio diariamente, quanto mais não seja para discordar. Ainda bem que há gente assim, com quem raramente concordamos, mas que lemos e admiramos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mudança da hora

Nunca consegui perceber as vantagens de mudar a hora: o que se ganha de manhã perde-se à noite, ou vice-versa, como na velha história da compra das calças e da camisa. Deve ser problema meu, porque, como em todas as restantes matérias, oiço sempre um coro aprovativo em relação a cada medida imbecil que os governos tomam, e um superior desprezo por este ignorante que preferiria que ficassem quietos. Pois é com alegria que constato não ser o único a quem a mudança de hora incomoda e irrita: o presidente russo decidiu abolir a hora de inverno porque
“Estamos habituados a mudar os ponteiros do relógio na Primavera e de novo no Outono, mas esse hábito interrompe o biorritmo das pessoas”, disse à agência russa ITAR-Tass. “As pessoas ficam irritadas, ou dormem demais ou acordam demasiado cedo. Isto para não falar das pobres vacas e de outros animais domésticos que nada sabem sobre a mudança da hora e não compreendem por que é que tratam deles a uma hora diferente”.
Absolutamente de acordo. Deixemos a hora em paz, até porque a mudança deixa o meu galo sem saber a que horas é que há-de cantar a meia-noite.

Tigres de papel

No meio de tanta má notícia, já insensibilizado para tanta desgraça quotidiana, cansado do Egipto, do presidente da república e do governo, eis uma que me dá ânimo e reforça a minha pouca fé na espécie humana, a qual, cada vez mais acobardada, vive com medo de tudo e, sobretudo, por medo de morrer: uma septuagenária inglesa atacou e pôs em fuga seis ladrões que assaltavam à marretada uma ourivesaria, enquanto os funcionários e os transeuntes assistiam aterrados ao golpe. 
Não há muito tempo, também no Algarve um casal de idosos resistiu e afugentou ladrões que lhes tinham entrado na residência. Também neste caso, a receita foi simples: a senhora carregou à cabeçada sobre um dos gatunos, o marido atirou-se ao outro -- e os assaltantes fugiram. 
Dois grandes males afectam a nossa sociedade: encolher-se e recear as consequências posteriores, sabido que as leis são feitas por deputados, os quais são maioritariamente advogados --- já viram onde quero chegar, não? E há também os jornalistas, que deveriam aprender de que lado estão: se do lado da sociedade que lhes compra os jornais, lhes educa os filhos, lhes dá a segurança social e a saúde, ou dos marginais. Mas como o não sabem, talvez por ingenuamente acreditarem que a informação é neutra, apesar de a distorcerem em busca do sensacionalismo, não me surpreenderia que se ouvissem já protestos televisivos contra a acção selvática da velhota, a agredir uns rapazinhos que, imitando Robin dos Bosques ou o nosso Zé do Telhado, faziam pela vida, roubando aos ricos para dar a uns pobres --- eles próprios, ou os seus fornecedores de droga.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A nova Lisístrata

Uma senadora belga propõe abstinência sexual para obrigar os políticos a entenderem-se. Talvez resulte, se a greve for por tempo indeterminado e levada às últimas consequências. Mas há que atribuir os créditos da ideia a Aristófanes, que nas sua Lisístrata propôs o mesmo há 2400 anos:
LISÍSTRATA: Não pomos a vista em cima dum homem desde que os Milésios nos traíram. Nunca mais vi a ponta duma gaita, nem verdadeira nem falsa, nada que me possa consolar. Estareis todas dispostas a ajudar-me, se eu descobrir maneira de pôr fim a esta guerra?
MÍRRINA: Se queremos! Eu até punha este vestido no prego e gastava o dinheiro todo em vinho.
(...)
LISÍSTRATA: Sereis capaz de renunciar?
CLEONICE: Daremos as nossas próprias vidas!
LISÍSTRATA: A coisa a que vamos renunciar é à piça. Virais-mas costas? Para onde quereis ir? Que caretas são essas? Abanais a cabeça? Não vos agrada a minha proposta? Apresentai outra.
MÍRRINA: Nem por sombras. Deixa que a guerra continue.
LISÍSTRATA: Mudaste assim de parecer? Ainda há pouco estavas disposta a cortar-te em duas postas como um peixe.
CLEONICE: Farei qualquer outra coisa que proponhas, menos isso. Se quiseres, caminharei sobre brasas; é preferível isso a fazer o que exiges de nós. Renunciar à piça é que nunca, Lisístrata!
NOTA: em Portugal, não vale a pena as mulheres pensarem em renunciar à dita cuja para forçar mudanças políticas: é que os nossos políticos não parecem  interessar-se pela coisa, pública ou privada. Não nos governa nenhum Mitterrand, nenhum Clinton, nem sequer  um Berlusconi...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Repetição e monotonia

Rentes de Carvalho, escritor emérito e bloguista praticante, reflecte sobre os efeitos nefastos da repetição na vida:
No casamento, como no trabalho, no sexo e na alimentação, na arte, nas conversas, nas andanças da amizade, do amor, nas milhentas outras que fazem a vida, a repetição é inimigo nr. 1. Engendra monotonia, é o princípio do fim.
Tendo em conta que lhe não falta o honesto estudo com muita experiência misturado, sinto-me algo intimidado em o tentar contraditar, um pouco como o miúdo da aldeia, que cá por dentro nunca deixei de ser, face aos homens da terra. E as suas afirmações parecem decorrer do senso comum. Mas quero crer que desta vez se equivocou: a repetição só engendrará monotonia se executada acefalamente, corpo para um lado, cabeça para outro. Se nos aplicarmos criticamente em cada repetição, procurando o aperfeiçoamento, não haverá monotonia, antes o desafio da auto-superação. Por isso, os atletas de nível elevado treinam repetitiva e incansavelmente -- lembremo-nos do grande Eusébio que, no final dos treinos, ficava sozinho no campo a rematar incansavelmente à baliza. Lembremo-nos da poesia, que não vive sem a repetição. Lembremo-nos do velho "bis repetita placent". Lembremo-nos, sobretudo, de que o nosso fim só começa quando o coração deixa de repetir os seus batimentos...

FOTO: numa das incontáveis repetições da minha tokui-gata, Jion, Novembro de 2010.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Perfeição

Espevitado pela notícia da conclusão do doutoramento do Carlos Maduro, apresento aqui uma "evidência", palavra que a avaliação de desempenho me tornou abominável, da maestria de Vieira
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.
Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo
Os negritos, meus, destacam complementos directos que parecem seleccionar os núcleos verbais...

Parabéns

A Carlos Maduro, pela conclusão do seu doutoramento, com tese subordinada ao tema «As Cartas de Vieira, um paradigma da retórica epistolar do barroco». Sobre Vieira, "Imperador da Língua Portuguesa", como lhe chamou Fernando Pessoa. Um abraço.

Auxiliar de escrita

Comprei (11 euros) este fabuloso auxiliar de escrita, que tão bem combina com o computador, essa  "máquina de apagar", como lhe chamava José Cardoso Pires. Uma destruidora de papel. Não lhe falta trabalho.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Partido Pelos Animais

O Tex, entusiasmado com a criação do novo partido, disponibiliza-se desde já a integrar as respectivas listas, desde que nelas não sejam incluídos gatos 
Pontos fortes: telegenia, fidelidade canina.  
Promessas eleitorais: se for eleito deputacão, será sempre a voz do dono, a quem promete desde já o respectivo salário -- na condição de ver o Proplan do dia condimentado com febras grelhadas, canja aos domingos.
Enfim, veremos se também ele, uma vez eleito,  esquece as promessas e se limita a dormitar no hemiciclo enquanto aguarda a merecida reforma.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Parabéns, Tiago

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Embirrança

Aprecio quem cultiva o amor-próprio, o auto-respeito; embirro com aqueles que se levam demasiado a sério, a quem a vaidade dá consciência excessiva da sua pessoa.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Retractação

A partir de hoje, 26 de Janeiro de 2011, não farei mais nenhum comentário nos blogues que admiro e visito diariamente -- nem em nenhum dos outros. Comentários que entenda fazer surgirão neste blogue, o meu blogue. Os que me conhecem sabem que sou homem de palavra. Motivos? Explicá-los-ei aqui, quando estiver de maré.

Turismo de ambulância

Faz a minha mãe. Ontem foi enviada para as urgências do Hospital de Leiria, onde deu entrada por volta das 13 horas. À meia-noite foi enviada para o Hospital da Universidade de Coimbra e chegou às 2 da manhã. De lá, previnem-me hoje, às 7 da manhã, enviam-na para o hospital de Alcobaça, onde ainda não deu entrada. Melhor que estas andanças, os diagnósticos sucessivos (tendinite, zona, artroses, agora entupimento das veias e artérias de uma perna) e, aparentemente, o tratamento: foi enviada das urgências de Leiria para a cirurgia vascular do Hospital da Universidade, mas como já a recambiaram... Ou muito me engano, ou logo à tarde, quando  eu chegar ao Hospital de Alcobaça, um médico dir-me-á: -- A sua mãe tem alta. E eu perguntarei, mais uma vez, mais uma vez em vão: -- Alta como, no estado em que está? E o médico, simpaticamente, responder-me-á que não é nada com ele porque já executou os procedimentos constantes da carta do hospital precedente...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Exame de condução (mota)

Santarém, 1985. Chove. Não havia então rádio e o examinador dava as instruções com toques de buzina: uma buzinadela, virar à esquerda, duas, virar à direita. De início, tudo corre bem, apesar de o capacete me não deixar ouvir as instruções apitadas. Entro no centro da cidade em hora de ponta. O sinal passa a verde,  ainda olho para trás, tentando avistar o carro do examinador. Irritados com a demora, buzinam-me condutores impacientes. Uma buzinadela? Viro à esquerda. Duas? Volto para a direita. Outra? Quantas? Uma? Duas? Esquerda ou direita? Se tento parar, mais buzinam. Voltas e mais voltas ao sabor das buzinas irritadas na confusão do trânsito. Onde estará o carro do examinador? Encontro-o estacionado, meia hora depois, quando regresso. Resultado do exame: aprovado, certamente por ter sobrevivido no caos da cidade em hora de ponta.
FOTO: 1972. Na Mondial do meu pai, conduz o meu primo Fernando.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Água da torneira

Os nossos antepassados chegaram à Índia, deram a volta ao Mundo a beber água podre e fedorenta. Muitos portugueses só depois do 25 de Abril conheceram a alegria  de ter água potável  em casa. Saímos do malsão terceiro mundo, pensava eu. Venho agora a saber que os aristocratas que nos representam no Parlamento têm tanta aversão à água da torneira como eu ao vinho de uva Morangueira. Coitadinhos, deve fazer-lhes azia. Valha-lhes São Isaltino!
Não é apenas uma questão de custos, é de atitude. Mal começam a alimentar-se do contribuinte, ei-los transmudados em primas-donas, num novo-riquismo que prospera às nossas custas. Que alguém lhes diga que a água é H2O. Que alguém lhes diga que, se a querem  engarrafada, a paguem. Ou que a  bebam directamente das torneiras, como eu faço. Que há coisas mais importantes do que finezas, mordomias, mariquices:
Não invejo quem tem 
carros, parelhas e montes
Só invejo quem bebe 
A água em todas as fontes.
FOTO: fonte dos Montes, terra que foi de "muito vinho, poucas fontes".

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O desenguiço

Há uns tempos que não escrevia nada. Melhor dizendo, que não concluía os contos que começava, e materiais incompletos, à espera de melhor destino, vão-se acumulando, sem que saiba que desenvolvimento lhes dar. Não me quero desculpar com as numerosas contrariedades, algumas das quais aqui relatei, outras, de natureza diversa, de que não falei nem quero falar, que me roubam tempo, paciência, sobretudo a persistência, sempre fundamental na escrita. Talvez por isso tenha colocado mais posts neste blogue, tenha comentado posts de blogues que muito admiro -- nos outros, se acaso por lá passo, não deixo marcas.
Pois hoje, para minha surpresa, veio ter comigo uma história e já deu um pequeno conto. Com uns meses de trabalho, ficará aprumado, pronto a seguir o seu próprio caminho. Desenguicei.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Emissões zero

Em Abu Dhabi. Cá para mim, nem os camelos se peidarão. Projecto a que se querem colar os maiores cagões da política e da economia nacional:
Esta tarde, no encontro que reuniu empresários e gestores portugueses e locais, o chefe do governo voltou a defender o aprofundamento das relações político-económicas entre os dois países, privilegiou o sector energético, e o que considerou ser a presença “das melhores empresas portuguesas”.
O que me surpreende, tendo em conta a merda que por cá fizeram e a que se preparam para vir a fazer. Mas, há que o reconhecer, é lá, nesse país das arábias, que propõem "emissões zero".

Povo

"Enquanto a rapariga procura o número, o António tem, de novo, a sensação incómoda de regresso ao seu meio natural. Por mais voltas que a vida dê, por mais que o afaste das suas origens, sente cada vez mais, à medida que os anos vão passando, que é com o povo do campo que se sente melhor — apesar da grosseria, da inveja, da ganância e da maledicência, que não raro vêm ao de cima após meia hora de conversa.
Era, talvez, o chamamento do sangue, mas o sangue não sabe o que diz e há muito tempo que se deixara de idealizações."
Do lacrau e da sua picada

domingo, 16 de janeiro de 2011

2011

Este 2011, número primo, não começou nada bem e só agora sei porquê. Afinal, se tivesse comprado o Borda d' Água  compreenderia melhor e aceitaria talvez com maior resignação os dissabores que me vêm atentando: logo na passagem de ano parti um dente já antes partido e fiquei com o parafuso de fora; arranjado na semana seguinte, quebrou novamente e continuo a comer de parafuso; comecei o ano com gripe, mas sem tempo para estar doente: a minha mãe adoeceu, febre, tosse, dores terríveis; no hospital de Alcobaça, diagnosticaram-lhe tendinite; no dia seguinte, o médico de família mandou-a para as urgências de Leiria. Diagnóstico: zona. Uma semana depois, novo regresso às urgências de Leiria. Diagnóstico: artroses. Bem tentei que os médicos me esclarecessem a disparidade de diagnósticos e, sobretudo, que vissem, ou procurassem ver, o que é que ela tem. Nada. Diz-me o ortopedista: "A sua mãe tem alta". E os diagnósticos anteriores? E como é que a levo para casa, se está numa maca? "Isso não é comigo." E não é com ninguém. Divido o tempo entre o trabalho e as deslocações aos Montes: em 7 dias, cinco vezes, uma hora  de viagem para cada lado, regresso sempre de noite, uma maravilha para quem tem olhos como os meus.. Ontem, na volta, o carro avariou e já está na oficina para reparação cara. Como não dar ouvidos aos agoiros de Célia Cadete, comentados no Delito de Opinião, segundo os quais "sendo o ano de Saturno, teremos doze meses de destruição, fome, carestia, inquietação, miséria, angústia e tristeza" e "as pessoas serão atingidas por febres e epidemias"?
Se o Sol descobrisse, talvez a minha mãe animasse. E melhorasse. Mas continua este tempo de um cão. Que me recorda o que escrevi quando os dias eram mais alegres:
Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Omo a lavar

Cordão humano em Cantanhede. Diz a advogada: "infelizmente faleceu uma pessoa". Prostituição? Assassínio? Sadismo? Não. Apenas "faleceu uma pessoa." Nem Omo lava mais branco. Mais tarde, como se nem notícia fosse, ouço dizer que Alberto João Jardim teve alta. Volta, Alberto, fazes cá falta: no continente "tá tudo grosso".

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vem aí o FMI?

Pois não chega cá primeiro do que eu.

Exames

Nas orais, a minha autoconfiança roçava a arrogância -- e só uma vez reprovei. Foi no Instituto Comercial, a Inglês. O professor, Amável de seu nome, apresentava-se e comportava-se como um gentleman, e eu atravessava a minha fase pré-revolucionária, hiippie no aspecto, malcriada nas atitudes. Que, mais tarde, me ajudaria a compreender e a lidar com alunos rebeldes. No dito exame, o professor, que para nosso gáudio exigia ser tratado por sir Amável, não tendo outros argumentos, pois então conversa não me faltava e, fosse em Português, em Inglês, ou em Francês, falava pelos cotovelos, chumbou-me à falsa fé:
-- You speak English as a Scotsman.

Baixa-mar

Os exames começavam no final da 4ª classe e era neles que eu brilhava. Sobretudo nas orais, porque aí havia espectadores e o meu pai podia sorrir orgulhoso do filho, dois reis de gente, apenas dez anos de idade, mas, reconheciam-no os assistentes, inteligente. O facto de ser pequenino e escanifrado ajudava: sobre o estrado, em frente do quadro negro, sem vergonha, respondia com confiança às questões dos examinadores, solenes, imponentes, atrás da secretária cujo tampo ficava ao nível dos meus olhos. Não era inteligência, era memória, era atenção. Assistia às orais dos Antónios, Adolfos, Carlos, a todas até ao jota, e mentalmente respondia às perguntas dos examinadores. Quando finalmente chegava a minha vez, tinha as respostas na ponta da língua:
-- Como se chamam as duas marés?
-- Preia-mar e baixa-mar.
E o presidente do júri, o professor Eurico, esquecido da solenidade da  prova, a mostrar a sua satisfação:
-- Baixa-mar pai a outro!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobre as "boas pessoas"

Outro post lapidar do escritor Rentes de Carvalho. Para ler e reflectir.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

País doente

"A mãe chega tarde, como de costume. Tem de fechar o salão, é assim a vida, patroa não tem horário. Chega exasperada com o excesso de trabalho, todo o dia em pé, ainda arranja varizes, a lavar cabeças, a cortar cabelo, a pintar, a pentear... Pior é participar com entusiasmo nas conversas, ouvir os desabafos, consolar uma após outra... Bem podia cobrar como psiquiatra, mas não, apenas recebe como cabeleireira. Vem portanto arrasada e deprimida das depressões que todo o dia desfilaram pelo salão, uma que já se divorciou e porquê, outra que está prestes a separar-se e porquê, outra cujo filho detesta a escola e porquê, outra cujos filhos andam sempre doentes e os médicos não se preocupam, se se queixam alguma coisa hão-de ter, outra tem a mãe acamada... um verdadeiro rosário de dores todo o santo dia, haverá alguém feliz neste país ou só as mulheres com problemas é que tratam do cabelo?"
Do lacrau e da sua picada

sábado, 8 de janeiro de 2011

Nunca o invejoso medrou

... nem quem dele se abeirou, reza conhecido rifão. Não, não estou a pensar na campanha eleitoral em curso: não encontro nela, menos ainda em qualquer dos candidatos, nada de interessante. Estou a falar de mim próprio e de mim mesmo, a propósito do excerto que se segue, expurgado do rascunho da minha última novela por protestos das primeiras leitoras.
A arte é isso, o engenho prova-se nessas dificuldades; sei-o, à custa de me enjoar com muitas obras primas desse engenho e arte...  (Camilo, Vingança)
 
Compreendo a desilusão do leitor: resistiu até aqui, mas já desespera... Onde estão esses capítulos intragáveis, de um só parágrafo, páginas e páginas preenchidas apenas com listagens de nomes próprios ou de igrejas, que tornam o romance no melhor dos soporíferos e comprovam que estamos perante escritor de primeira água, capaz de desprezar e maltratar o leitor? Onde as partidas pregadas, para avaliar a cultura de quem lê, como aquele esófago de Mark Twain, que debruçado sobre uma asa contemplava meditativamente o pôr-do-sol? Onde a metáfora para decifrar, a alegoria que dê um significado profundo à obra e envolva o leitor na produção de sentidos? Quando aparece esse pintor que ganha a vida fazendo retratos dos turistas junto ao Sacré Coeur e a sua namorada, jornalista sempre em viagem, ora na Quinta Avenida, ora nas gôndolas de Veneza, ora pelas montanhas do Afeganistão? Pois, não há...
Está visto, este contador de histórias não respeita as regras do ofício; pior, vê-se que lhe falta paciência para minudências, pormenores, irrelevâncias. E esquece-se de explicar, evita dissertar, não se atira à igreja num anticlericalismo violento, mordendo-a com a ferocidade do Pitt Bull! Não ridiculariza as suas personagens, não nos dá herói decente nem vilão detestável... Eu sei: ele está errado. Sem mistérios para decifrar, conspirações tenebrosas contra a Humanidade, crimes nefandos, como espera cativar o leitor? E os críticos, se não são devidamente torturados, como podem admirar primeiro, valorizar depois, a arte do narrador? E é preciso tomar partido, dividir a sociedade em bons e maus, encontrar culpados para os males do Mundo, evitar o farisaísmo, apontar corajosamente dedo acusador!
A simplicidade aborrece e irrita, cada qual dizendo que assim também era escritor. Onde já se viu (tirando talvez o Decameron, o Lazarilho de Tormes, as Histórias e Contos de Proveito e Exemplo, o Amor de Perdição, O Velho e o Mar, O Estrangeiro...) uma obra impor-se, apesar da simplicidade e da clareza? Se até o velho Homero tem um capítulo da sua Ilíada recheado com nomes e genealogias!
Que fique lavrado, portanto, e sirva para memória futura, o protesto deste narrador descontente, a quem o autor não consente a autodiegese — vê-se que pouco aprendeu em Teoria da Literatura, de que lhe serve ter estudado o Genette? —, que se tenha presente este descontentamento, autorizando-se desde já o leitor a pôr de lado este livreco e a deleitar-se com outros mais ousados, que por isso mesmo conhecem o sucesso merecido, como aquele que até transcreve, ipsis verbis, o menu real que está sobre uma das mesas do Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa.
Histórias de amor há-as a pontapés, basta ligar a televisão, de amor feliz temos algumas, como a do David Mourão-Ferreira — que interesse pode ter uma história límpida de pessoas límpidas, que nem sequer são ricas, poderosas ou vestem bem, nem, pelo contrário, são miseráveis desgraçados, esquecidos por Deus e desprezados pelos homens, nem santos para o cardeal português da Congregação para a Doutrina da Fé beatificar enquanto aguardamos impacientemente pela canonização, com ou sem milagres, sabido que rareiam nestes tempos de cepticismo e de análises clínicas — nem canalhas a pedir escarro de desprezo?
Queria-se uma narrativa polifónica, emaranhada, que obrigasse o leitor a trabalhar, alisando rugas e pregas do texto, corrigindo incoerências, adivinhando sentidos ocultos, descodificando imagens, tropeçando em hipálages; na sua falta, que o autor para tal não tem nem imaginação nem talento, exige-se, pelo menos, um oponente, um adjuvante, e essas coisas todas do modelo actancial de Greimas, presente durante décadas nos manuais escolares de Português, por onde as leitoras e os leitores estudaram!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Memória de elefante

Pastiche que circulou aquando da morte de Salazar:

Alma ruim e cruel, que enfim te partiste,
Tão tarde, diz o povo descontente,
Repousa lá no Inferno eternamente
Que nenhum português ficará triste.

Se lá no mundo infernal, onde subiste,
Memória deste povo se consente,
Não te esqueças da lusa gente
A quem tantos e tão maus tratos infligiste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa o alívio que nos ficou,
A alegria imensa de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos alongou,
Que bem cedo te faça acompanhar,
Da corja de bandidos que criaste.


Perdizes


"Um bando de perdizes corre à sua frente. Bem podiam, se quisessem, fugir para as bermas, mas sabem que burros, carroças e rapazes não são inimigos. Em vez de atalhar a corta-mato, trotam em frente, pelo mesmo caminho, cabeças bem erguidas, perdigão à frente, são mais de uma dúzia, grandes e gordas, quase como galinhas. Coitadas, domingo é dia de caça, como sobreviverão, tão pouco ariscas? Então levanta-se, bate as palmas e grita — Xô, Xô, mas o bando não lhe liga. Seguem assim durante uma lenta centena de metros, as perdizes à frente, a Joana e o rapaz atrás, até ao primeiro cruzamento, onde optam por direcções diversas."


Do lacrau e da sua picada

Pragas

Mosca da fruta. A pôr ovos numa laranja. Das minhas. Nem pesticidas nem armadilhas  ecológicas as detêm. Morrem umas, vêm outras.
(Clicar para ampliar.)

In illo tempore

A nossa burra, já bem velhinha, herdada da minha avó, que a comprou com meses e contava comovida que então lhe providenciou linda albarda pequenina para a ensinar. Meiga, dócil, inteligente, teve dentre  os seus defeitos de juventude, l'attirance d'ailleurs, que a levava durante a noite a rodar a maçaneta do portão e a evadir-se para a liberdade dos campos, em busca talvez de um amor impossível. Tanto sofreu às minhas mãos e às do meu primo, que a cavalgávamos como a cavalo e ela era apenas transporte de pobre.
Foto: Kodak Instamatic. A cavalo, a minha irmã e a minha prima. Ao fundo, a Tia Maria.

Entre Céu e Inferno

"Céu e Inferno são concepções sociais para uso da plebe ― e eu pertenço à classe-média."
Eça de Queirós, O Mandarim

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Duro inverno

D' O Livro da Primeira Classe. No campo, não havia então reformas, nem subsídios, nem rendimentos sociais de inserção, nem serviço nacional de saúde, nem medicamentos,  nem electricidade, nem saneamento básico. O aquecimento -- veja-se o que o adulto carrega às costas, talvez lenha  roubada, e a criança não ficava resguardada no casebre, antes acompanhava e ajudava o adulto na apanha dos cavacos.
Na cidade, imagem de baixo, a vida parecia então menos agreste, mais apetecível. Com as mudanças ocorridas nos últimos trinta e seis anos, não me surpreenderia se hoje o inverno fosse mais suportável no campo.
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