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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

C de catástrofe

Enquanto os nossos deputados se divertem em jogos florais, disputando uns minutos de glória nos espaços noticiosos, a esgrimirem argumentos, a fabricarem ironias, a esfalfarem-se em jogos de palavras, tudo oco, descabido, aberrante, o país afunda-se inexoravelmente, a UE caminha num galopezinho muito seguro para o seu fim:
Tivéssemos nós deputados da nação dignos desse nome, governantes à altura da gravidade da situação (mas, reconheço, não os merecemos), e deixar-se-iam uns e outros de folclores e tretas para mercado ver --- estariam todos, neste momento, a trabalhar arduamente num Plano C para Portugal, que nada tem a ver já com direitos adquiridos, cortes, fim de feriados ou aumento do horário de trabalho, mas com a sobrevivência nacional e individual, ambas por um fio.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O pretérito do futuro

Na cidade não havia trigo pera vender, e, se o havia, era mui pouco e tão caro, que as pobres gentes não podiam chegar a elo; (...) e começaram de comer pão de bagaço de azeitona, e dos queijos das malvas e raízes das ervas e doutras desacostumadas cousas, pouco amigas da natureza; e tais hi havia que se mantinham em alféloa.
No lugar hu costumavam vender o trigo, andavam homens e moços esgaravatando a terra, e se achavam alguns grãos de trigo, metiam-nos na boca, sem tendo outro mantimento. Outros se fartavam de ervas e bebiam tanta água, que achavam mortos homens e cachopos jazer inchados nas praças e em outros lugares.
Das carnes isso mesmo havia em ela grande míngua.(...) E começaram a comer a carne das bestas; e não somente os pobres e minguados, mas grandes pessoas da cidade, lazerando não sabiam que fazer, e os gestos mudados com fame, bem mostravam seus encobertos padecimentos. (...)
Desfalecia o leite àquelas que tinham crianças a seus peitos per míngua de mantimento; e vendo lazerar seus filhos, a que acorrer não podiam, choravam amiúde sobre eles a morte, ante que a morte os privasse da vida. (...)
Toda a cidade era dada a nojo, cheia de mesquinhas querelas, sem nenhum prazer que hi houvesse: uns com gram míngua do que padeciam, outros havendo dó dos atribulados. E isto não sem razão, ca se é triste e mesquinho o coração cuidoso nas cousas contrairas que lhe avir podem, vede que fariam aqueles que as continuadamente tão presentes tinham! (...)
Como não quereis que maldissessem sa vida e desejassem morrer alguns homens e mulheres, que tanta diferença há de ouvir estas cousas àqueles que as então passaram, como há da vida à morte? (...).
Pera que é dizer mais de tais falecimentos? (...)
Oh, geração que depois veio, povo bem-aventurado que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais padecimentos! (...)
Fernão Lopes, Crónica de D. João I

sábado, 26 de novembro de 2011

Treino de instrutores e avançados

Hoje, nos Cardosos, Leiria, dirigido por Vilaça Pinto, sensei. O aspecto enevoado da foto tem uma explicação: a lente embaciada.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

25 de Novembro de 1975

Eu estive . Tinha 21 anos e vivi-o por dentro, com muito medo, completo desnorte -- afinal, de que lado estava eu? Como se furriel miliciano tivesse direito a tomar partido! Um dia, escreverei sobre a forma como vivi esse dia e, pior, os seguintes, a comandar soldados em barricadas, os oficiais confortavelmente  resguardados no quartel, as carreiras protegidas qualquer que fosse o lado vencedor. No rescaldo do golpe, eu fui saneado, eles ficaram, vitoriosos como sempre, apesar de ter ganho o outro lado.
FOTO: tirada pouco tempo antes. O primeiro mancebo de joelhos à direita -- era eu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Amanhã, 24/11, é dia de

Feriado Municipal no Entroncamento.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Da sabedoria

"Examinei, então, aquele homem a fundo. Não é preciso dizer o nome dele, mas era um dos nossos homens de Estado, o qual, no exame que fiz, me deu a impressão que vou contar-vos. Conversando com ele, pareceu-me efectivamente que aquele homem parecia ser sábio aos olhos de muita gente e sobretudo aos dele próprio, mas que o não era de modo nenhum. Procurei, então, provar-lhe que ele não tinha a sabedoria que julgava possuir. Com isto só consegui, dele e de vários assistentes, obter inimigos. Enquanto me ia embora, fui dizendo para comigo: «Afinal, sou mais sábio do que este homem. E possível que nem eu nem ele saibamos algo de belo ou de bom. Mas ele julga saber alguma coisa, quando não sabe nada; ao passo que eu, se não sei nada, também não creio que o saiba.« Depois desse tal fui procurar um outro, um daqueles que passavam por ser ainda mais sábios que o primeiro. A minha impressão foi a mesma e mais uma vez recolhi inimigos, da parte dele e de muita outra gente."
Platão, Diálogos, "Apologia de Sócrates"

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Serviço público

Uma equipa da RTP acompanhou durante uma semana o foragido americano que cá se escondeu da justiça do seu país. Ficaremos certamente a saber se mija de pé ou sentado, quantas vezes o faz por dia, se fala muito ao telemóvel, e qual  o seu prato favorito. Se tempo houver, também o que pensa da administração Obama, da crise na Europa e do nosso futebol. 
São tipos como este e as suas aventuras e desventuras que devem preencher o espaço televisivo, roubando protagonismo e notoriedade a Duarte Lima e aos gajos da Face Oculta.
Porque dantes só uma má notícia era notícia; hoje, para isso, é preciso também emergir do lixo.

Diz o roto para o nu

domingo, 20 de novembro de 2011

Outra cabaça ao vento

Já ouviram o discurso de Mariano Rajoy? Nem uma ideia, nem uma estratégia, Pobre España! Se mal estavas, pior ficas. Não faltará muito para que também tu sejas governada pela Troika ou pelos seus mandantes!
Enfim, como no futebol, o que conta é ganhar e festejar; amanhã, passada a euforia da vitória, dar-se-ão conta de que não há bebedeira que compense a ressaca matinal.

Uma cabaça ao vento*

Assunção Esteves, em entrevista ao Público expõe brilhantemente medidas simples de salvação da pátria, da Europa -- quiçá da humanidade::
“Um novo paradigma para o capitalismo passa por um regresso da política. Eu acredito que numa folha A4 se podia mudar a Europa toda”, 

“É uma questão de acertar em cheio. Esta crise já nos obrigou a ver as evidências, agora falta só a coragem de as passar ao papel.” Qual seria a primeira frase? “É preciso criar coerência nas políticas de acordo com os valores fundamentais que já existem. Isto é fazer ligar a decisão à proclamação. Nós proclamámos valores unos, mas não temos políticas unas.”
Assunção Esteves revela ainda que foi convidada pela Maçonaria e pela Opus Dei: “Não fui para nenhuma”. E fala da Europa, do Parlamento (que “é um lugar de ruído”, “não uma igreja”) e do futuro. 
Como se vê, não faltam à senhora ideias. Tantas e tão boas  que foi convidada pela Maçonaria e pela Opus Dei, logo pelas duas! Pena que não tivesse aceitado entrar -- para as duas! E consta que trabalha de graça, recebendo apenas de reforma 7 mil euros. Injusto, cruel, este desprezo de Portugal pelos seus maiores: também dela se pode dizer: "Este país te mata lentamente"!
* Título roubado de Ran, Os Senhores da Guerra, de A. Kurosawa. Quando o bobo canta: "Olhai o senhor / Uma cabaça ao vento / Vai por aqui... / Vai por ali..."

sábado, 19 de novembro de 2011

O fogo prende os heróis

Grande título que o Afonso deu a este desenho que fez  em co-autoria com o Miguel. Género abstracto, traço decidido, cromatismo interessante. Mais não posso dizer, que também de pintura nada percebo, excepto o "gosto" ou "não gosto".

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Confusos?

Bom, eu estou. E basta ler alguns dos títulos  do dia para ver que os especialistas também andam perdidos:

Ulrich critica troika e elogia Governo 

Carlos Tavares alerta para perigo de nova crise financeira 

Ainda os especialistas

O cidadão tem o direito de votar, mas não parece ter o de se pronunciar sobre a governação, uma vez que não é especialista nas suas diversas áreas. Se escreve, como eu faço neste blogue, reconhecendo humildemente que não sou autoridade na matéria, mas exercendo o meu direito de ter opinião e de a divulgar, eis que me tentam rebaixar, forçar ao silêncio, coisa de "planta batatas e cala-te." Como se os disparates fossem privilégio exclusivo daqueles que nos meteram no lodaçal em que nos encontramos, dos seus amigos, comparsas e apaniguados.
Desiludam-se: não peço a ninguém que me leia; não peço a ninguém licença para escrever, nem o faço para agradar a pessoas ou a partidos; apesar das minhas contradições, erros e, assumo-o, ignorância, escrevo seguindo os ditames da minha consciência, não em busca de favores, de promoção social, mas apenas porque quero. E imodestamente faço meus estes versos de Camões:
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado.
Não me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,

Os especialistas

Com uma fé irracional como o são todas as fés, a humanidade delegou nos entendidos o seu destino -- e o resultado está à vista: a Europa, o Mundo, enfrentam uma crise como não conhecemos outra em tempo de paz. O mais caricato é que num tempo de desorientação, em que verdadeiramente ninguém sabe o que fazer nem qual a solução, se chamam os fautores da desgraça para nos devolver a prosperidade de outrora, como na Grécia e na Itália, agora governadas por homens anteriormente ligados à Goldman Sachs; na vizinha Espanha, o presumível vencedor não parece saber o que fará eleições ganhas; Obama palra; a China acumula desaires da Líbia aos vizinhos do Sul, num desnorte confrangedor; o Japão, incapaz de se refazer da catástrofe nuclear, anda apagado... 
Há, porém, vozes dissonantes, que deveriam ser escutadas porque têm do seu lado a experiência, acumularam resultados positivos, aprenderam com os fracassos; mas na nossa arrogância, desprezamo-los porque são velhos, porque são da maldita esquerda, porque não são especialistas em Economia, em Gestão, não trabalharam nas financeiras responsáveis pela crise, não propõem como única saída cortes e a destruição do modo de vida ocidental, o qual, com a suas imperfeições e talvez inviabilidade económica, é seguramente bem melhor para os desvalidos, os enfermos, os pobres do que a alternativa que se esboça: saúde, educação, pão para quem puder pagar.
Dentre esses homens, uma raposa velha: Mário Soares, que hoje afirmou, entre outras coisas, isto:
“Os europeus vão ser obrigados a meter as agências de rating na ordem e a acabarem com a ladroagem dos paraísos fiscais”
Receio que tal vá demorar. Porque os especialistas que são chamados à governação, cá e lá fora, aprenderam pela mesma cartilha económica e onde Soares vê ladroagem eles vêem as virtudes e as potencialidades do sistema financeiro. E nós, iludidos pela crença nos especialistas nisto e naquilo, depositamos a nossa esperança, os nossos salários, o nosso futuro, precisamente em quem nos corta a esperança, os salários e, receio, o futuro.
Nota: não me interessam os disparates maniqueístas que opõem esquerda e direita. Em termos de partidos, a merda é a mesma. O que não significa que pretenda governação tecnocrática, à italiana ou à grega.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Trapalhadas, vulgo filha-de-putices

Como é que se dizia? "Roma não paga aos assassinos dos seus generais"? (Confesso que nunca percebi de quem eram os "seus generais", se dos assassinos, se dos romanos.) Bom, o que importa é que os governantes um dia deixarão de o ser e alguns, que não precisaram da política para fazer carreira, vão ter de viver com aquilo que entretanto fizeram e de conviver com aqueles que, justificada ou injustificadamente, tramaram. 
Raio, pareço o presidente da República com estas confusões sibilinas. Vamos lá, portanto, a ser mais claro.
Nada percebo de teatro, nem de gestão, nunca entrei no D. Maria e não faço a mínima ideia da qualidade do trabalho do Diogo Infante. Mas Francisco José Viegas, escritor que admiro, está a meter-se numa camisa de onze varas. Quase como Saramago, com os seus saneamentos -- mas Saramago, então, não era escritor, nem ninguém pensava que o viesse a ser. 
Compreendo que Francisco José Viegas não tenha dinheiro na sua secretaria de estado. Não compreendo é o que lá está a fazer. Qualquer contabilista, qualquer merceeiro, pode, nas actuais condições, ser secretário de estado da Cultura. Ou ministro da Educação. E pessoas decentes não precisam de se ver metidas nestas alhadas.

Bandidos e foragidos

Leio no Correio da Manhã que um recluso se evadiu. Passo do título à notícia, esperando fuga rocambolesca, digna do Papillon ou, pelo menos, envolvendo lima no bolo de aniversário. Desilusão. Já nem os foragidos são como os de antigamente. O bandido fugiu durante uma saída precária.  E eu a querê-lo a transpirar serrando grades pela calada da noite, ou cavando túnel sob os muros da prisão, ou lançando-se num mar infestado de tubarões em jangada de cocos... 
Enfim, bandidos a sério já só na literatura.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pensamento do dia

"Nunca tantos foram roubados por tão poucos".  Nada original, reconheço. Mas, infelizmente, verdadeiro.

Epígrafe para a arte de furtar

A coima

Surpreendeu-me e indignou-me carta da finanças a exigir-me 15 euros de coimas relativas a atrasos no pagamento do selo do carro, em 2008. Paguei então o selo pela internet, bem eu sei agora, três anos depois,  se foi dentro ou fora do prazo. O que sei é que paguei e o pagamento foi aceite, pelo que supunha o assunto encerrado -- até porque esse carro foi para abate em 2010, na sequência de um acidente aqui relatado. Leio hoje no Sapo que
O Fisco notificou 472 mil contribuintes por pagamentos do Imposto Único de Circulação (IUC), antigo selo do carro, feitos fora do prazo. Estes contribuintes terão agora de pagar a respetiva multa, no valor de 15 euros.
Fiz contas. Dá  7.080.000 euros. Cobrados num ápice, sem esforço nenhum. Alguém nas Finanças merece um prémio de produtividade. E de criatividade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Delícias de outrora

Aos meus netos, mais do que as tolices promovidas pelo Plano Nacional de Leitura, gosto de lhes "ler" os livros da escola primária do meu tempo. Esta página, do Livro da Primeira Classe, é das que mais apreciam: tem animais variados, acção, suscita interrogações (porque é que a velhota os enxota com a vassoura?), permite aos mais novos recordar as vozes dos animais (como é que faz o peru? e o pato?), ao Afonso a leitura das palavras que já conhece... E é ver como interrompem as brigas constantes para se sentarem os três (por enquanto!) à minha volta a tentar compreender uma realidade tão diferente da deles.