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quarta-feira, 4 de abril de 2012

O regresso dos duplos

Há tempos escrevi aqui sobre um dos meus filmes favoritos, A sombra do guerreiro, de A. Kurosawa, que tem como herói um duplo, e analisa de forma fascinante a relação entre a pessoa e a máscara: 

Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um  senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Ora leio no DN que  Madonna está a treinar cinco mulheres  para se fazerem passar por Madonna, que é, ela mesma, uma máscara. Não se poderá dar o caso de, às tantas, ser difícil distinguir a máscara original das clonadas, ou, até, de uma delas superar o original?

domingo, 1 de abril de 2012

A história desta semana

As bruxas já roubam clientes aos psicólogos. O fenómeno parece estender-se à classe média, instruída mas desencantada, amargurada, a necessitar de acreditar em algo, em ter a esperança, ténue que seja, de que a sua vida profissional, ou pessoal, ou familiar, vai melhorar em breve. Ora, como tempos atrás escrevi uma historieta em que uma mulher desesperada recorria à bruxa para que a livrasse do marido, lembrei-me de aproveitar o ressurgir da moda das bruxas e publicá-la AQUI. 6 pp.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Gabarolices

Tempos atrás recebi esta mensagem de uma ex-aluna:
Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "A vida é uma festa (1)": 

Como está o Sr Professor?
O meu nome é XXXXX e fui sua aluna no 11ºano na Escola Secundária do Entroncamento, há cerca de 16 anos.
Hoje tenho 33 anos, duas filhas e apesar de um curso de Economia, o português e a recordação do professor que me fez amar a literatura e a minha língua, acompanharam-me desde então.
A vida deu-me a oportunidade de me cruzar no seu caminho, que apesar de em apenas duas horas por semana, me ensinou a gostar dos Maias, das Viagens na Minha Terra e do efeito contemplativo que ainda hoje me ajuda a ver o mundo, a vida e as pessoas com outros olhos, com a alma e com o coração.
Ensinou-me a ler e sobretudo a gostar de o fazer. Com isto mudou a minha vida para sempre. Se isto é o papel do Educador, então cumpriu-o na perfeição.
Continuo a amar os Maias e todos os outros que entretanto tive oportunidade de ler e lamento que no nosso país a única literatura que vende é a light, com a Margarida Rebelo qualquer coisa a bater records de venda. Lamento sobretudo que as gerações futuras não tenham o bom-senso para perceber que abrir um livro é um acto de inteligência, de liberdade e de capacidade de sonhar.

Nota: As aulas de português eram para mim uma festa...

Muitas felicidades
XXXXXXX

terça-feira, 27 de março de 2012

Nos correios

Uma ida aos Correios é suplício. Às tantas, dou pela entrada de uma moça já pouco moça que foi minha aluna. Do 7º ano ao 12º. De pequenina, cabelos pela cintura, uma bonequinha que não falava, até uma mulherzinha que também não falava. As coisas correram bem entre nós, apesar do seu mutismo: sempre a passei, com boas notas, inteiramente merecidas -- ou não lhas teria dado. Pois a moça já pouco moça -- como os jovens envelhecem depressa! -- entra e sai, sai e entra, resvés comigo, e coisa estranha, não me conhece. Enfim, maneiras de ser, ou anda um professor a educar uma jovem seis anos para isto, ou, como diz o meu amigo João, a partir dos cinquenta somos invisíveis para as mulheres, sei lá. Eu não existo e é tudo.
Pelo canto do olho apercebo-me da entrada de outra ex-aluna, esta apenas do 10º ao 12º. Notas pouco brilhantes. Prevejo que também me não vai conhecer. E, de facto, durante longos minutos, parece que me não vê naqueles correios quase desertos, em que os funcionários arrastam o serviço. De repente, põe-se a meu lado e conversamos. Pergunto-lhe pela vida, falamos de outras alunas. Nem tudo está perdido. O civismo ainda existe.

domingo, 25 de março de 2012

Almoço no quintal

Essa mulher

Numa tal festa da Primavera, TVI, dois moços esganiçam-se em disputa: "Eu vi primeiro essa mulher". Como se se tratasse de nota de vinte euros achada na rua: é minha, que a vi primeiro. Que mulher? Não importa: avistou-a primeiro, é dele.
Nem sequer enxergam a triste figura, banhas apertadas nas t-shirts demasiado justas, cabelo à galã dos anos cinquenta, estilo mestre barbeiro Ti' Jaquim da Burra. Música, voz? Que é isso? Para que é que faz falta? Letra? Um primor. No Afeganistão deve ser um sucesso.
Dir-me-ão: há pior; há muito pior. Pois há.

A história da semana

Pirulito, Rimas e a Associação de Moradores. Uma história falhada, segundo a crítica devastadora do Afonso, o meu neto mais velho: "as histórias para crianças têm poucas letras e imagens muito grandes". Enfim, apeteceu-me escrevê-la, aqui está.

sábado, 24 de março de 2012

Sábado

Com a vaga esperança de que acabe por chover, lá vamos nós fazer mais uma sementeira: feijão Catarino. A história da semana não está esquecida; mas o ar do campo faz-me tombar com sono muito cedo, e a esta hora já só penso na cama, um livro antes de os olhos se fecharem por completo... Amanhã, com uma hora a menos, cá virei pôr a história, ainda nem sei bem qual.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Roncadores

Muito se ronca por aí, de um roncar tão antigo que já o Padre Vieira o repreendeu:
ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar? Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. 
Pois na sua insignificância, estas roncas da terra tomam-se por espadartes, por baleias até, e roncam, roncam, com tal arrogância, tão ruidosamente, que de pouco nos serve tapar os ouvidos, mudar de canal, desligar até a televisão: a todo o lado chega o seu ronco insuportável, roncando como se tivessem o rei na barriga, sentindo-se tão donos da verdade que só a sua voz escutam embevecidos, maravilhados, tomando por inteligência de espírito e por beleza de ideias aquilo que para nós são grunhidos alarves e ignorantes.
Diz o Padre Vieira que "duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder." Eu estou em crer que hoje se ronca sobretudo por poder, sem o qual o ronco que nos submerge como ruído de fundo se reduziria a desprezível chiadeira pífia; porque o roncar de saber, mais tolerável, parece-me, se acaso surge aqui ou ali, anda tão embrulhado em ideias feitas e chavões, tão falho de originalidade, de pensamentos próprios, que dificilmente se distingue da ignorância atroz e só casado com o poder logra fazer-se escutar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Judiarias

Quando se falava de judeus, a minha avó tinha resposta pronta:
-- Os judeus são muito ruins.
Eu estranhava: ela nunca tinha conhecido nenhum: -- Porquê?
-- Ora, mataram Nosso Senhor...
-- Mas, atalhava eu, Jesus também era judeu!
Zangava-se: -- Não sejas herege.

domingo, 18 de março de 2012

Fome de leitura

Uns têm, outros não. Por isso, entendo ser desperdício de dinheiro iniciativas como o Plano Nacional de Leitura. Para mim, o que importa é pôr os livros ao alcance de cada criança, de cada adulto. Se tiverem a paixão da leitura, devorá-los-ão, mesmo que ainda os não saibam ler, como faz o Afonso, aqui a explicar algo às bisavós. Ontem, 17 de Março.

Pelos defuntos

A velhota retira à sua pensão de miséria, já escassa para a farmácia, dez euros para pagar missa por alma do seu defunto; o padre acrescenta o nome do falecido à lista do dia pretendido, não mais de oito nomes, até as missas têm limites de repartição. E por esse acto tão simples, pôr um nome numa lista e pagar dez euros, o defunto beneficiará de mordomias no além, talvez menor tempo de espera no Purgatório, caso a justiça divina seja tão demorada como a portuguesa, ou alívio de pena, caso a justiça divina seja corruptível.
Cá se fizeram, cá se pagam, não ao divino, mas aos seus comissários.
XXI séculos depois de Cristo, como pode a Igreja colaborar nesta farsa, tão contrária aos ensinamentos do seu Mestre, explorando a crendice de pessoas frágeis, carenciadas, pobres entre as mais pobres, estrafegadas pelo custo de medicamentos, taxas moderadoras, custos do transporte para esses hospitais que deslocalizaram para as grandes cidades, aumentos nos transportes, electricidade -- talvez, até, a passarem  fome?

sábado, 17 de março de 2012

O conto desta semana

É uma das histórias de Do lacrau e da sua picada. Um jovem casal, vida provinciana, bovarismo, violência conjugal. Assim escrevia eu uma dúzia de anos atrás. Para os meus fiéis trinta leitores, A menina do shopping, que pode ser lida AQUI.

terça-feira, 13 de março de 2012

Pâmpano

Eis a minha vinha que desperta da dormência invernal e dos troncos nodosos despontam jovens pâmpanos, de onde sairão longas vides, parras, cachos de uvas -- o milagre da Primavera repete-se num ciclo indiferente a secas, crises, querelas políticas. Assim houvera eu de ser, capaz de renascer em cada Março encarnando a Esperança, como se antes nunca tivesse vivido, intactas e inteiras as ilusões da mocidade.

domingo, 11 de março de 2012

Com o João

Passada a gripe, que me deitou abaixo durante quase duas semanas, corro a ver o João; encontro-o muito maior, mais gordo, as peles já cheias. Dorminhoco como de costume.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O conto desta semana

Ferido d' Asa, disponível para leitura AQUI.

FOTO: Pedro Perdigão, quando nos conhecemos, ambos mais moços.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O conto desta semana

Amanhã publicarei história mais ligeira, já conhecida dos leitores deste blogue: Ferido d' Asa, inspirada em versos que Camões glosou: Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha. 
Creio que surgiu desta forma: num domingo de Novembro, estava eu a labutar no meu Casal, e por lá passaram, em momentos diferentes, dois caçadores. Eles porque não caçavam nada, eu para endireitar as costas, lá nos pusemos na conversa, discreteando sobre os males do Mundo, da pátria e da agricultura. E uns dias depois, sem que nela tivesse pensado ou me apetecesse escrevê-la, a história veio ter comigo. Coisa rápida, quase sem correcções. 5 pp.

FOTO: no Casal, em farda de trabalho.

terça-feira, 6 de março de 2012

O primeiro voo

Na época, voar não era trivial e poucos se podiam dar ao luxo de o fazer. No meu caso, o meu pai era operário da KLM, a companhia holandesa de aviação, pelo que tinha direito a grande desconto no preço do bilhete. 
A aventura começou bem antes: fui sozinho, já me não recordo como, para Lisboa, e na confusão do aeroporto, balcões, línguas, voos a chegar e a partir, perdi o avião. Soube depois que ainda o tinham atrasado 15 minutos à minha espera. O senhor do balcão, algo preocupado com um miudito de província, enfezadito, catorze anos, escreveu-me um bilhete para apresentar em Schiphol: "Please help mr. Catarino to..."
Passei a noite no café, mesmo ao lado da pista, a ver as descolagens e aterragens dos enormes jactos ali ao lado, por entre o cheiro asfixiante do petróleo queimado. E na manhã seguinte, lá fui a pé com os outros passageiros para o "meu"avião, o tal Super Caravelle, pouco mais do que a camioneta de carreira da minha terra, mas com asas. Falávamos todos uns com os outros como se fôssemos conhecidos, a disfarçar o aperto de estômago quando a subida era cortada por brusca descida, e nova subida, cada vez mais altos...
Estávamos indignados, que na véspera tinham roubado o título ao  Joaquim Agostinho, acusando-o de dopping. Não acreditávamos: ele nem sequer precisava disso, que venceu com mais de uma hora de avanço. Não. Agostinho era humilde, era batalhador, era esforçado, e os poderosos deste país, a começar por essa cambada da federação, invejavam-no, tinham-lhe raiva, desprezavam-no pelas suas origens campónias.
Pouco depois, o almoço. Olhei envergonhado para os talheres, tantos, para que serviriam? E não ousava começar a comer para que se não apercebessem da minha ignorância rústica, quando uma das senhoras riu alto: -- Bom, isto deve servir tudo para o mesmo. Vou usar este mais pequenino, que me dá mais jeito, A tensão desanuviou, cada qual comeu com os talheres com que bem entendeu, mesmo os meus companheiros da classe média lisboeta não estavam habituados a tanto requinte. Deixei-os em Bruxelas e segui já ao pôr-do-sol para Amsterdam, baixinho, sobre os polders onde ainda havia moinhos de vento como nas ilustrações do chocolate holandês, a beber café delicioso.
No aeroporto, não me consegui desembaraçar: o meu Inglês era pobre, o Francês melhor, até que o polícia me pergunta: "Combien de temps vous rendez-vous en Hollande?" Eu puxava pela cabeça, até tinha estudado o verbo rendre no final do 3º período, mas o que significava? E nada me ocorria nem o polícia parecia capaz de encontrar sinónimo. Valeu-me a chegada do meu pai, passaporte na mão.

Fobias

Aí por volta de 1976, ganhei medo de andar de avião. Nada de especial, apenas uma série de mal-entendidos, línguas desconhecidas, a minha imaginação delirante. Já antes tinha voado, a primeira vez num Super Caravelle, uma geringonça fantástica, creio que em 1968; depois disso, voei mais vezes, sempre com desconforto, receoso de explosivos, terroristas, incêndios provocados por fumador na casa de banho. Mas isto é que eu não esperava:

PSP prende fornecedor de droga de estrela da televisãoHoje40 comentáriosJorge Esteves estava sob escuta por crimes violentos, mas acabou por ser preso por fornecer droga a figuras da moda e televisão e também a pilotos da TAP.
(No DN. Negrito meu).

segunda-feira, 5 de março de 2012

Déjà vu

Vou deitando a mão a livros que, na estante, esperam há muito por leitura. Pouca é a paciência, poucos aqueles que sobrevivem ao teste da leitura do primeiro parágrafo.
Le grand cahier, de Agota Kristof (1991), passou no teste. Com uma escrita denotativa, seca, organizado em capítulos titulados de 2 ou 3 páginas, traz até mim o horror de dois irmãos cuja mãe, sem comida na Grande Cidade, deposita em casa da avó, na Pequena Cidade. Num tempo e espaço indefinidos, mas situados no séc. XX, algures na Europa Central, as crianças vão endurecer os corpos e os espíritos para que coisas como amar ou matar lhes não sejam penosas. Obra dura, cruel. Que me deixou com a sensação de que terá influenciado, no estilo e na temática, obras nacionais muito badaladas.

Impaciência

Em reclusão desde sexta-feira, com febre acima dos 39, ainda tentei preencher os momentos em que o Brufene me arranca da sonolência vendo televisão. Não dá: dias e dias a falarem do jogo de futebol que ainda não aconteceu ou já aconteceu; a tentativa constante e acintosa de degradar as relações entre as pessoas -- políticos, dirigentes, ninguém escapa -- com intrigas de comadres baseadas no disse-que-disse; reportagens que se arrastam à porta do local de um qualquer evento, crime, incêndio, etc., a debitar palavreado sem significado e em mau Português. E, pior, a conversa dos dirigentes da oposição que continuam a não querer ver a alhada em que estamos metidos e de que não estão inocentes. Das duas uma: ou isto estoira, e não adiantará dizer depois que tinham razão; ou sobrevivemos, e espera-os uma longa travessia do deserto.
Há um tempo para falar e um tempo para o silêncio. Neste 2012, já tão sofrido, bom seria que nos uníssemos. Não faltará tempo para punir políticas erradas. E Seguro que se deixe de fazer, também ele, o papel de intriguista. Mais do que azedar as relações entre ministros, cabe-lhe apresentar ideias exequíveis, uma política em que demarque o seu partido do governo. Como comadre calhandreira não chega a primeiro-ministro.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O conto desta semana

Já está disponível AQUI  a história desta semana: uma jovem professora primária é colocada numa aldeia da serra e em vão tenta mudar o destino que espera os seus alunos.

Tadinho de mim

A gripe deitou-me abaixo. Em vivo ardor tremendo estou de frio. Espero recuperar a tempo de participar no treino de Almeirim de instrutores e avançados, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto no próximo domingo. Ou, se não puder participar, pelo menos assistir e almoçar com a rapaziada. 
Cá pela família, isto está mau. Somos quatro engripados, quem está pior é o Afonso, com  febre acima dos quarenta, que não baixa com os medicamentos. Estas novas estirpes parecem muito mais agressivas.
Saúde para todos, especialmente para aqueles que também estão doentes.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O conto desta semana

Não é propriamente um conto, embora possa ser lido como tal; é um dos capítulos de uma novela inédita. Custou-me muito a escrever, de tal forma que depois, durante mais de um mês, não consegui escrever nada. Até começa pacífico, com a descrição de uma escola primária de aldeia serrana nos anos 60. Homenagem minha aos professores que mais contribuíram para a nossa formação: os primários. Depois... 4 pp. A ler amanhã.

Objecção de consciência

Sempre disse muito claramente que não iria aplicar o novo acordo ortográfico. Já nem tenho paciência para explicar as numerosas razões desta decisão, tomada em consciência, apesar do risco de vir a ser sancionado. E é inútil lembrarem-me de que antigamente farmácia se escrevia com ph, pois passo muito do meu tempo a ler textos antigos, alguns dos quais  remontam à alvorada da nossa literatura, em finais do séc. XII. 
Diferente foi a atitude de muitos dos meus colegas, uns por, em consciência, concordarem com as alterações propostas, outros, raros, porque sempre correm atrás das modas.
Hoje foi a vez  da Presidente da Associação de Professores de Português sair em defesa do novo acordo em declarações ao DN:

A Associação de Professores de Português (APP) "lamenta" as declarações do secretário de Estado da Cultura sobre possíveis alterações ao Acordo Ortográfico (AO), e considera que se anda "a brincar" com o Ensino.
Em declarações à Lusa, a presidente da APP, Edviges Ferreira, afirmou que "é de lamentar as declarações do secretário de Estado [da Cultura], e também que entre os governantes não haja acordo".
A responsável recordou que "saiu uma portaria do Ministério da Educação, segundo a qual os professores são obrigados a aplicar o novo Acordo Ortográfico a partir do ano letivo 2011/12, a decorrer".
"E agora com que cara vão dizer aos alunos que cada um escreve como entende", questionou a docente.
Edviges Ferreira considerou estarem "a brincar com os professores, alunos, pais, e toda uma comunidade".
Para a presidente da APP as declarações de Francisco José Viegas "destoam da contenção orçamental que nos é exigida", referindo os gastos já feitos com "os manuais escritos já impressos segundo as novas regras" e os que implica a reformulação das regras.
Declaração de interesses: em devido tempo, desvinculei-me da referida associação por entender que não defendia devidamente os interesses dos professores de Português. Este comunicado bem o comprova: afinal, um dos motivos para a rejeição de alterações reside nos custos dos manuais já impressos pelas editoras. Pena não ter denunciado o preço indecente dos manuais escolares, pena não ter avançado com propostas para reduzir o seu custo, purgando-os daquilo que pode ser cortado, o que melhoraria a respectiva operacionalidade. 
Talvez por detrás desta rejeição indignada esteja algo mais profundo e difícil de erradicar: o apego ao eduquês. Que, qual hidra, continua peçonhenta com todas as suas cabeças intactas, quase um ano após a tomada de posse do ministro Nuno Crato-- que, já deu para ver, não é nenhum Hércules.

Ai, estes eufemismos!

Ou a crença de que o termo empregue muda a realidade da coisa:
António Costa rejeita que a Câmara de Lisboa esteja a estudar o surgimento de um bordel na Mouraria, mas admite que foi apresentada uma proposta com vista à criação de “uma safe house” onde, entre outras coisas, as profissionais do sexo se poderiam dedicar a uma “prática segura” da sua actividade. (Ler aqui)
Para evitar a António Costa o recurso a estrangeirismos, sugiro, em alternativa a "bordel", que parece incomodá-lo: lupanar, alcouce, prostíbulo, casa de putas, casa de meninas; ou um dos termos arcaicos "mancebia", " putaria",  "Safe house" não lembra ao diabo, e escandalizaria os egrégios avós.

ADENDA: lembrei-me entretanto de que anos atrás um autarca espanhol, Jesús Gil, creio eu, ganhou umas eleições com a proposta de construir em Marbella um putódromo. Neologismo bem melhor do que safe house.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O espectro

Sinto, desde há dias, que o próximo romance me ronda, insidioso. Em breve tornar-se-á imperioso, não terei como o evitar, não encontrarei maneira de lhe fugir, e apenas o escrevê-lo me dará paz. Se é aquele que pressinto, não o quero. Vade retro Satana!
Médium que sou, não me cabe escolher os espectros que me visitam. Apenas dar-lhes voz, a contragosto embora. Ah, não poder escrever antes  sobre a Primavera e os verdes campos, as brancas ovelhinhas que neles pastam, as abelhas azafamadas de flor em flor, os pastores que dirimem os conflitos amorosos a trinados de flauta!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A terra a quem a trabalha

Desconfio de políticos bem intencionados. A ministra da agricultura, que resiste à seca com fé, preocupa-me. Não é que agora quer roubar à esquerda uma velha causa?

Rosa Soares, Ricardo Garcia
O Governo quer identificar todas as terras em Portugal às quais ninguém se apresenta como dono, reclamá-las para o Estado e distribuí-las para quem as queira cultivar.
Parece tão boa, a ideia. E todos sairemos a ganhar, não é? Mas não seria de fazer, antes de falar, um estudo da aptidão agrícola desses terrenos, do seu relevo, dimensão média, dispersão, viabilidade económica, etc.? E, já agora, outro estudo que mostre quantos portugueses estão dispostos a trabalhar a terra? Leio um pouco mais da notícia revolucionária:
A identificação destas terras será feita no âmbito da realização do cadastro das propriedades rurais, que o Governo quer realizar em quatro a cinco anos, com recurso aos dados que a administração central já tem na sua posse - como informações sobre impostos, subsídios agrícolas e registos públicos.
Ah, então é isso: uma versão da actualização do IMI, a incidir sobre os terrenos agrícolas! Desiluda-se a esquerda, desiluda-se quem abomina os campos incultos, as terras perdidas. Não é a reforma agrária que aí vem, é apenas o agravamento de um imposto. Ornado de boas intenções.
Por isso, faço minhas as palavras de ordem dos anarcas, em plena reforma agrária:
Mortos, fora dos cemitérios, que a terra é de quem a trabalha! 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

A Sereia. Está aqui.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

Amanhã publicarei A Sereia, um dos meus favoritos. 2pp., 748 palavras.

A árvore das patacas (2)

1976. Estava sozinho na sala de professores. Entra um tipo de gabardina apesar do calor, mais sebento do que o detective Columbo. A tresandar a cinzeiro.
-- É pá, já pagam? -- pergunta-me rudemente, à queima-roupa.
E eu, sem saber com quem falava: -- Ainda não. Creio que é só a 25.
-- Vou pôr uma bomba nesta merda. Olha, vou é prá Rússia, que lá há putas e vinho verde!
E desapareceu dali. Soube depois que estava de baixa por maluqueira. A receber o ordenado como se trabalhasse. Aprendi mais tarde que os malucos ganhavam o mesmo, progrediam por igual na carreira, só não precisavam de trabalhar. Na pior das hipóteses, colocavam-nos na biblioteca.

A árvore das patacas (1)

(Ao telefone)
-- Soube que a vossa empresa está a meter pessoal...
-- É verdade...
-- Quero marcar uma entrevista. Vocês pagam bem?
-- Bom, pagamos acima da média.
-- Mas olhe que só vou se me pagarem pelo menos três mil euros por mês!
-- Só três mil? Aqui pagamos melhor. Apareça amanhã às oito da manhã.
(-- É pá, esqueceste-te de que só abrimos às nove?
-- Claro que não. O gajo há-de levantar-se cedo uma vez na vida. E perder a manhã, a ver se aprende alguma coisa.)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Velho Défice, Empréstimo, o Rapaz, e o Burro Pibe

Com a despensa vazia, o Velho Défice resolveu ir aos Mercados. Albardou o Pibe, levou consigo o neto Empréstimo para aprender a comerciar. Contentes todos como a madrugada que se abria em luz, cantorias e promessas, por razões diferentes embora: Grandes negócios vamos fazer, e o Velho esfregava as mãos de contente. E o Neto Empréstimo, mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque, finge interesse nos negócios: como nos receberão nos Mercados?
Não vês tu este dia radioso, que nos augura negócio vantajoso?
Antes nada dissesse: logo o céu enegrece, vem o vento agreste, esfria o ar matinal, desaba forte temporal. Mau prenúncio.
E uma turista para outra, vinda dessas alemanhas, a pedalar rijo na bicicleta para não ganhar banhas: Coisa estranha esta é! O malandro do Velho folgado a cavalo, o pobre Moço a pé!
Acabrunhado, diz o Velho para o petiz apeado: Troquemos, monta tu o Pibe a cavalo antes que alguma alemoa nos pregue um estalo.
E um loiro, finlandês talvez: Coisa nunca antes vista, a cavalo o rapaz, a pé o pobre velho já incapaz.
Montemos então os dois o Pibe, a ver se essas agências não ralham mais, diz o Velho Défice. Que dirão de nós nos Mercados?, demanda ao Neto, sobrolho carregado.
Que fazeis, desalmados? Ah, não aparecer a Protecção dos Animais! Não vedes que assim o pobre Pibe esmagais?
Apeemo-nos, vamos à pata, que o Pibe siga seu caminho aliviado, até lhe solto a arreata.
Logo, logo, coro de protestos indignados: Coisa jamais vista, Défice e Empréstimo apeados para o Pibe se sentir aliviado!
E o Velho, sempre atento às vozes do Mundo: Levemos então nós o Pibe às costas.
Gargalhadas trocistas de uns deputados socialistas: O Velho Défice agora é avarento e carrega às costas o Jumento! E as moças do Bloco, para lhes não ficar atrás: Uma criança ajoujada sob o peso da montada! Para que quereis tal asno, a que Pibe chamais, se nele não montais, antes às costas o carregais como se fôsseis vós os animais?
E o Velho Défice, sem outras ideias, pergunta-me, como se a sábio se dirigisse: Diz-me tu, ó Zé, que muito estudaste, Que farei com esta montada, Pibe chamada, como contentarei as agências e calarei as vozes do Mundo, que faça o que fizer, me criticam a cada segundo?
E eu opino também: Devias saber, ó Velho, que quem quer ganhar eleições põe-nos o burro sobre o costado. Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado.
José Cipriano Catarino

O conto desta semana

Despedimento com justa causa. Um empresário retira o filho da escola por mau comportamento e, como castigo, emprega-o na sua fábrica. Mas o jovem apaixona-se, deslumbrado por imagem voluptuosa...
5 pp. Pode ser lido aqui.

O João

O João e o avô


O João dorme... Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
Ó mar! falla mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...

Ó Mae! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vae sem se sentir.

António Nobre (fragmentos)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Tetra-avô

Nasceu hoje o meu quarto neto; ei-lo na foto aqui ao lado. Mãe e bebé encontram-se bem.

Encontro com escritores

Encontro muito agradável e muito interessante na Livraria Arquivo, em Leiria. Do espaço ao interesse e às questões da assistência, às intervenções dos jovens escritores (João Tordo, Nuno Camarneiro, David Machado), da editora Maria do Rosário Pereira e à moderação de Álvaro Romão  -- tudo excelente. Um prazer muito instrutivo. Agradou-me sobremaneira a consciência que aqueles jovens escritores têm da importância da sua participação na sociedade, da utilidade social do seu trabalho, o seu sentido do devir. E mais não digo, que preciso já de fazer outro post: durante a viagem para o encontro soube que o meu quarto neto tinha nascido. 

Excelente

Esta crónica da Ivone. Ou a arte de transformar uma observação trivial num texto muito, muito bom. Eu, que não partilho o seu pessimismo nem acredito nas potencialidades criativas da tristeza, já o reli uma meia dúzia de vezes.

O conto desta semana

Há uns anos, o pintor João Alfaro, depois de ler o meu conto A Sereia (não publicado), desafiou-me: -- Devias escrever uma história sem sexo.
Escrevi então algumas, entre as quais a que publicarei amanhã: Despedimento com justa causa.  Passa-se lá para os lados do Cavaquistão, em finais do Cavaquismo. Talvez ajude a recordar como e porque é que chegámos à pré-bancarrota. E, sobretudo, que as causas persistem, confundindo-se com os seus efeitos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O título do lacrau

Há dias expliquei aqui o título de Entre Cós e Alpedriz. O lacrau, o meu primeiro romance, quer também ver explicitada a razão de ser do seu título:

Ao fundo, de costas para o Lis, atrás de uma mesa tosca, sem funil nem megafone, estava de pé um homem de boina, aspecto de cavador. Sobre a mesa, em duas caixas de sapatos, escorpiões agitavam caudas e tenazes em tentativas frenéticas para fugir do cativeiro. Sempre que algum o conseguia, caindo sobre a mesa, as mãos encortiçadas do curandeiro seguravam-no, pegando-o entre o polegar e o indicador. Então levantava-o à altura dos olhos, deixava o medo e a repugnância crescerem entre a assistência, e voltava a colocá-lo na caixa de onde se evadira.
As pessoas aproximaram-se, mas não demasiado, e observavam, curiosas e horrorizadas, os homens tecendo comentários sobre o que sucede à pessoa que tem a desdita de ser picada pelo ferrão de semelhante bicho, as mulheres apertando os filhos pequenos ao peito ou, se mais crescidos, agarrando-os firmemente pela mão para que a curiosidade juvenil os não fizesse aproximar demasiado, advertindo-os sobre os perigos deste inimigo da humanidade, eles e elas recordando o velho aforismo: Se o lacrau voasse e a víbora visse, não havia ninguém que no mundo existisse.
Quando a multidão se adensou, o curandeiro falou. Segurou um lacrau à altura dos olhos, para que todos o vissem bem, das tenazes que se agitavam convulsivamente ansiando por presa até ao ferrão que procurava em vão vítima, e disse:
— Este bicho é mau e nojento, mas bem pior é o que alguns de vocês têm dentro do próprio corpo, talvez sem ainda o saberem.
O silêncio arrepiou a multidão, espraiou-se como água agitada por pedrada até às últimas filas e retrocedeu outra vez até ao centro. Então o curandeiro falou de novo:
— Uma picada mata, uma picada cura. A picada do lacrau mata a pessoa... ou o escorpião que a devora. É preciso saber escolher. Lacrau macho para cancro fêmea, lacrau fêmea para cancro macho. Quem quer experimentar?
(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)

A epígrafe deste blogue

A frase que serve de epígrafe a este blogue ocorre neste excerto de Do lacrau e da sua picada:
Calmamente arranja-se para sair, está uma linda tarde de Inverno, dará uma volta a pé, quando regressar sentar-se-á num dos bancos do jardim em frente à sua casa, sorrirá vagamente porque é a primeira vez que o faz desde que ali mora, ela é mulher de centros comerciais e de bares, não de jardins públicos e ar puro.
Pela janela, o Luís avista-a, tem um impulso, correr até ela como fazia em criança, contém-se, com a idade vai ficando mais tímido. Atira-se novamente para cima da cama, não sabe o que pensar, mas julga que tem de pensar qualquer coisa, talvez seja sua obrigação ralhar com a mãe, persuadi-la. Contudo, ela falou de modo tão seguro que pressente não valer a pena insistir, embora algo lhe diga que é essa a sua obrigação, os filhos devem tomar conta dos pais, especialmente o Luís, que tem pais tão difíceis. Chora impotente, convencido de que se já fosse um homem saberia o que fazer, mal ele sabe que está enganado, os homens, mesmo muito velhos, morrem meninos.
O Sol desce rapidamente no horizonte e é escondido pelos prédios de andares que circundam o jardim; o frio instala-se. A Lúcia regressa a casa, está calma, como se tivesse encontrado algum sentido para a sua vida. Começa a cozinhar, sem mau humor, quase com prazer, embora algo distraída. Não nos enganemos, não é nem nunca será uma dona de casa prendada, cada qual é para o que nasce, apenas precisa de actividade física ou então sabe que tristezas não tiram o apetite a rapazes de catorze anos. Pelo canto do olho, vê chegar o filho, que começa a ajudá-la sem que lho tivesse pedido. Sorri-lhe. Ele fala:
— Mãe, acho que devia ralhar contigo, mas não sou capaz de o fazer. Conta-me tudo: quem é, porque é que te queres casar, o que vai ser de mim...
A mãe pega-lhe ao colo. Não é fácil, o Luís já é bem maior do que ela, faz-se a olhos vistos um latagão como o pai. Desta vez, ele não resiste. Deixa-a acariciar-lhe o cabelo, beijá-lo, Ah, é bom voltar a ser criança novamente, um dia o Luís descobrirá que um homem é só uma criança crescida, não precisa de se envergonhar por chorar no colo da mãe, que se explica no tom de voz meigo com que antigamente, quando fugiram de casa do pai, lhe contava histórias para o acalmar e adormecer: (...)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Álgido Inverno

Apropriado para o mês, este poema de Camilo Pessanha. Lembro-me de que me saiu num teste de Introdução aos Estudos Literários, na Faculdade de Letras de Lisboa, muitos anos atrás. Era professora da cadeira Margarida Vieira Mendes, que se viria a doutorar sobre o Padre António Vieira. A morte levou-a demasiado cedo. Recordo com saudade o muito que aprendi com ela.


Passou o Outono já, já torna o frio...
-- Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
-- O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
-- E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha, Paisagens de Inverno II, Clepsidra

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entre Cós e Alpedriz

Levei anos a escrever este romance e durante a maior parte desse tempo intitulei-o Joaquina Guiomar Afonso, inspirado numa cantiga de amor de Roi Queimado:
"Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!

Quando estava quase terminado, teve o mesmo título do último capítulo, De um Verão até ao outro. Só mesmo no fim lhe atribui o título definitivo, que tem o inconveniente de levar alguns leitores a chamarem-me escritor regionalista. 
Não que o epíteto me aborreça: o mesmo dizem, igualmente sem razão, do grande Aquilino; mas considero-o inapropriado: como o meu amigo Arnaldo Marques escreveu então, a matéria do romance
"... é historicamente o século XX português, abafado pela longa e pesada herança salazarenta, vivido numa aldeia do concelho de Alcobaça -- Montes, situada entre Cós e Alpedriz..."
O título final, extraído do dito local Entre Cós e Alpedriz qualquer burro é juiz,  revelou-se certeiro, como salientou na apresentação na Junta de Freguesia dos Montes o falecido dr. Sapinho, então Presidente da Câmara de Alcobaça,  e como confirmam as 5 (pequenas) tiragens que fiz da 1ª edição. E o sucesso não pára: segundo o Google, já há quem o use pelo Brasil. Não faço birras nem cenas sobre autoria e paternidade -- inspirar outros, ser porventura plagiado, envaidece-me. Mas, que diabo, vejam o Google Maps (clicar para ampliar)! Entre Cós e Alpedriz -- só os Montes, outrora terra de Muito vinho e poucas fontes.
NOTA: não é marketing. Tenho apenas meia dúzia de exemplares e pouca vontade de me pôr a fazer a 2ª edição, corrigida com os testemunhos de intervenientes.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

É. como anunciei, Os cornos do diabo, Prémio Irene Lisboa 2010. 15 pp. Para ler, clicar no link.

A Amásia

Sentido de humor ou distracção? É que baptizar "Amásia"  o futuro continente não lhe augura nada de bom. Porque o termo é, toda a gente o sabe, pejorativo. Notícia no Público Online:

Supercontinente Amásia deverá formar-se junto ao Pólo Norte

"A Terra terá um novo supercontinente dentro de 50 a 200 milhões de anos. Amásia resultará da junção da América e da Ásia, segundo geólogos da Universidade de Yale"
.

O conto desta semana

Amanhã disponibilizarei um conto já bem conhecido: Os cornos do diabo, vencedor do Prémio Irene Lisboa 2010 com o título Crime na Capital. Eis o excerto que motivou o título:
Choca-me ouvir criticar defuntos, quanto mais num caso destes, em que a própria viúva, em vez de se desfazer em lágrimas, se desfazia em insultos ao morto. Ah, mas que não pensasse eu — e olhou-me de maneira estranha, como camponês em feira que avalia gado cobiçado, mas ainda não comprado — que ia envelhecer a carpir a morte de semelhante patife. Ainda hoje, ele a entrar no Inferno, e ela a meter um qualquer na cama, nem que tivesse de telefonar para alguma agência. Sempre se portara bem, mas isto fora o cúmulo, ainda por cima notícia de jornal para toda a gente se rir dela, pobre coitada — falava como se o Jorge fosse o culpado da bala assassina — ah, havia de bater com os cornos no umbral das portas do Inferno. Afinal, diabo precisa de cornos, não é assim? — e novamente o olhar me perturbou, como se já me tivesse escolhido para a tarefa por demais obscena de cornear amigo recém-defunto.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um conto por semana

Vou publicar em cada sexta-feira um conto no SCRIBD e colocarei aqui o link para os interessados. É um esforço de organização, reunindo num único local textos que andam dispersos por numerosas pastas no computador e discos externos.  Para começar, "El chupacabras", conto velhote: um casal de investigadores na meia-idade acampa num planalto algures na América Latina. Consta que el chupacabras anda por perto... 2 páginas a espaço e meio, 976 palavras.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

De volta

aqui o escrevi: a escrita de um romance canibaliza-me, devora tudo o que tenho, obceca-me quase por inteiro, esvazia-me, esgota-me as ideias, faz-me duvidar seriamente das minhas capacidades e, sobretudo, da de voltar a escrever. Desta vez, a paragem foi mais longa do que o habitual: terminei o romance em finais de Dezembro e só hoje voltei à ficção, com um microconto que aqui publicarei logo que suficientemente aplainado. Já o romance concluído não verá tão cedo a luz do dia: primeiro, precisará de conhecer a derrota nos raros concursos e prémios literários a que posso concorrer.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Primícias

As primeiras batateiras nasceram. Coitadinhas, o frio dos próximos dias queimá-las-á irremediavelmente. Já as favas, também de fora da terra, resistirão. São rijas.

No meu outeiro

"No fim de Janeiro sobe ao teu outeiro; se vires verdejar, põe-te a chorar, se vires terrear, põe-te a cantar."

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Idade da reforma

O governo espanhol, segundo o Jornal de Negócios Online, prepara-se para aumentar novamente a idade da reforma:
Não entendo. A Espanha tem uma taxa de desemprego absurda, especialmente entre os mais jovens. Se a Espanha aumentar a idade da reforma, aumentará o desemprego, gastará o dinheiro da sua segurança social em subsídios a quem pouco ou nada descontou, e não terá com que que pagar as reformas a quem para elas descontou durante toda a vida.
Mudem de rumo... Lá e cá.

Tenho computador

Aparentemente, já consegui resolver os problemas que tive com o Windows. Que não deveriam ter acontecido se a Microsoft se preocupasse com os seus clientes e não tivesse, e isto desde as suas origens, uma queda para tautologias: "Um problema está a impedir a resolução do problema" é a melhor ajuda que o Windows pode dar, quase tão boa como a necessidade de, para enviar um mail a pedir ajuda, exigir a introdução da chave de activação e não a aceitar porque "está expirada". 
Como resolvi? À bruta. Em desespero de causa, formatei as partições e, nem sei como, o 7 aceitou a chave do produto que, até então, ora afirmava ser pirata, ora estar expirada.
Toda esta trabalheira comprova que os cumpridores, que têm e querem continuar a ter tudo legal, passam por problemas facilmente solúveis numa qualquer loja de informática, que teria instalado uma versão pirata, "crackada", e, como diriam então os seus  técnicos, "e prontos, já está".
E com tudo isto, já lá vão duas semanas de chatices. Agora, há que copiar para o disco centenas de gigabites de ficheiros, fotos, vídeos familiares, músicas...  E recomeçar a trabalhar com o computador.

domingo, 29 de janeiro de 2012

... da Microsoft

Persistem os problemas com o meu computador: agora é a Microsoft a dizer umas vezes que o meu Windows não é legal, outras que a sua validade expirou. Não tenho, não uso qualquer software ilegal. É, para mim, matéria sagrada. O pior é que não encontro do outro lado a quem enviar um simples mail de protesto e de explicação:
Tenho um Windows Vista OEM pré-instalado no disco rígido que avariou e um Windows 7 Upgrade que comprei numa das campanhas da Microsoft para professores. Em lado nenhum (ver foto aqui ao lado) se diz que tem prazo de validade, nem eu o teria adquirido nessas circunstâncias.
No novo disco, instalei o Windows Vista a partir de um disco de recuperação e sobre ele o 7. E agora as chatices, como se tivesse paciência e tempo para aturar a Microsoft. Como se, depois de ter pago os produtos, lhe devesse o que quer que seja

sábado, 28 de janeiro de 2012

A receita alemã

Parece que -- modalizo e enfatizo, porque, já aqui o escrevi vezes sem conta, entendo tanto de economia como os especialistas, ou seja, nada -- parece que o capitalismo alemão é mais conservador, menos centrado em grupos financeiros, do que o inglês e americano. As empresas que enriquecem a Alemanha são frequentemente empresas familiares, muitas delas centenárias, não cotadas na bolsa (logo não dependentes da especulação bolsista), as quais não visam o lucro imediato ou no muito curto prazo, e consideram os seus trabalhadores como uma das suas maiores riquezas; recrutam-nos nas escolas e universidades da região e procuram mantê-los durante toda a vida -- por cá, dizem-nos que tais empregos acabaram.
Especializaram-se na produção  de bens e não de serviços; têm elevada tecnologia, logo elevada produtividade; exportam a quase totalidade da produção e para países como a China; orgulham-se da sua função social e encaram o futuro com a confiança que lhes dá tanto o passado como a certeza de que são as melhores nos respectivos nichos de mercado...
Vale a pena estar atento. As receitas dos nossos governantes anteriores, que se traduziram no abandono da agricultura, da pesca, na destruição da indústria, conduziram-nos a um estado de coisas insustentável. Ou produzimos, ou falimos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Treino de instrutores e de avançados

Amanhã, em Leiria, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto.
FOTO: alguns dos participantes no treino de 29-9-2011.
ADENDA: não participei; a dor de cabeça dominical chegou um dia mais cedo.

Infelicidade e arte

Não concordo com o lugar-comum romântico segundo o qual os artistas e, nomeadamente, os melhores artistas, são criaturas amarguradas, ressabiadas, infelizes, e a tal devem a criatividade e o mérito. Por muito que tal possa consolar almas atormentadas, não faltam contra-exemplos: D. Dinis, um dos nossos melhores poetas, Fernão Lopes e Vieira, prosadores excelsos, Garrett, tão bom na prosa como na poesia, coisa raríssima, Herculano, Eça, Cesário, o próprio Pessoa, Saramago, Sophia... E se alargasse a lista à literatura estrangeira, às artes em geral, seria um nunca mais acabar de nomes de artistas notáveis que não consta terem sido especialmente infelizes. Quanto àqueles que se lamuriam, nem sempre a vida os tratou tão mal como dizem. 
Importa, portanto, não confundir o cu com as calças: ser infeliz não é condição suficiente, nem sequer necessária, para a criação artística. Porque, Pessoa o disse, o poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.
Aliás, sobre felicidade e infelicidade, nada como a (re)leitura de L'Étranger:  do repetido "Je n'étais pas malheureux"... até ao final "où j'avais été heureux" (citações de memória).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O projecto de lei da cópia privada

Os anos ensinaram-me a desconfiar de voluntarismo e de boas intenções. Muitas vezes, a necessidade de agir, de intervir para mudar o rumo de uma realidade inconveniente tem o resultado oposto: perpetuar essa realidade e de forma mais penosa. Por exemplo, o combate à fome em África. Que tem matado a fome a muita gente, sobretudo fora desse continente, porque nele a fome parece ter-se perpetuado para proveito de muitos que abnegadamente ajudam a combatê-la; por exemplo, com as invasões do Afeganistão, do Iraque, da Líbia. Métodos de intervenção mais ponderados, menos mediáticos, menos agressivos teriam seguramente conseguido melhores resultados e menores danos.
Pois é o que me parece estar subjacente ao projecto de lei de cópia privada, que visa penalizar os consumidores para proveito dos "artistas". Não sei se os deputados terão a lucidez e a coragem necessárias  para rejeitar projecto tão abstruso, proposto -- que surpresa! -- pela ex-ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas. Porque a cultura é uma vaca sagrada e dizer não ao projecto trará acusações piores do que a recusa de ajudar África: afinal, quem se atreve a tirar o pão da boca dos nossos artistas?
Só que -- e não me alongo sobre o carácter disparatado da lei -- os beneficiados podem ser outros:
"Porque a SPA, que pertence e preside à AGECOP (que é quem colecta e gere a taxa aplicada pela pl118 [a lei da cópia privada], tem um passivo de 5,8 milhões de euros e gastou 6,7 milhões em 2010 só com pessoal. Percebe-se então quem este projecto de lei pretende "ajudar". Não são os autores ou criadores, mas a própria SPA."
André Rosa, "A 5ª Coluna", in PC Guia nº 193, Fev. 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O besante

Extraordinário, extraordinariamente bem escrito, o conto A Terra fora do sítio, de Maria Gabriela Llansol, que ontem reli pela segunda vez. Pode ser descarregado gratuitamente aqui, na Biblioteca Digital Camões. Para aguçar o apetite:
Visto pela vigia, o mar, em plena ondulação, transformou-se em nosso guarda e, além dele, não havia horizonte. Foi o bastante para que Juan confessasse que sempre o intrigara a nossa herança errante e marítima e que, de um momento para o outro, pressentia que o próprio ermo marítimo nos ia reter para sempre. Parecia que fôramos atraídos a uma vaga imóvel, e Juan pediu-me que eu lhe transmitisse O besante, convencido de que se o trocássemos com o mar, seríamos soltos em terra firme.
Não encontrei palavras minhas para o dissuadir, e um pensamento arcaico respondeu por mim:
O mar e a terra não são humanos,
tratam todos os seres como se fossem funâmbulos.
O espaço entre a terra e o mar,
não se assemelha ao fole da forja?
Por dentro, está vazio,
mas nunca se esvazia.
Quanto mais o accionam, mais ele sopra.
Quanto mais se fala,
mais cerrado é o nosso labirinto.
Mais vale que o homem
repouse no interior do fole.
E concluí, para que me compreendesse:
-Não foi o mar, Juan,
mas o seu movimento,
que nos foi dado em herança.

Do ruído silencioso

Segundo a Exame Informática, um estudo realizado pelo Instituto Superior Técnico e pelo Instituto de Telecomunicações "concluiu que cada adolescente português envia, em média, 100 SMS por dia."
Suponho que tais mensagens sejam pobres de conteúdo e nelas, mais do que comunicar, partilhar informação ou discutir ideias, predominará a função fática da linguagem: manter o contacto. Suponho que serão motivadas pela necessidade de preencher o tédio, sobretudo nas aulas, que não poderão apreciar porque delas desinteressados, ocupados a "polegarizar" irrelevâncias e banalidades. Suponho que, mais do que afirmar teclo, logo existo, a quantidade absurda de mensagens SMS enviada pelos adolescentes será o ruído da estática civilizacional do séc. XXI.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sabugal

Almeida

Castelo Rodrigo

É gratificante ver que há memória e há quem a registe na pedra. Comoveu-me esta homenagem ao Professor Lindley Cintra, meu professor de Literatura Portuguesa III e de Linguística Românica.

Castelo Rodrigo

domingo, 22 de janeiro de 2012

Knockdown

Desde que o disco rígido do meu portátil avariou, já passa de uma semana, que estou no tapete, consciente, mas inoperacional. Primeiro, levei dias a descobrir qual o componente avariado, apesar de suspeitar desde o início do disco; depois a instalar software -- uma guerra, incompreensível, porque é todo ele legal --; por fim, mas não finalmente, a configurar programas, recuperar cópias, relembrar senhas, muitas bem antigas e há muito esquecidas. E sobre tudo isto, actualizações constantes do Windows e C.a, que quase me não permitem utilizar o computador.
Que me desculpem a ausência de respostas tanto os leitores deste blogue como os 'amigos' do facebook. Logo que possa, e paciência tenha, começo a pôr a correspondência em dia.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Viagens na minha terra

Trancoso, fim-de-semana passado. Ao fundo, o mar de nevoeiro persistente.

Viagens na minha terra

Penedono. Fim-de-semana passado.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Viagens na minha terra

Sernancelhe. Fim-de-semana passado. Avaria no disco rígido do computador pôs-me fora de circulação de então para cá.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Geração à rasca

É, seguramente, a minha. Explico-me sumariamente: sofremos a ditadura de Salazar e de Marcelo, a guerra colonial, vivemos o Verão Quente, aturámos o Companheiro Vasco, o PREC, sobrevivemos à primeira vinda do FMI, aguentámos o cavaquismo, o guterrismo, o socratismo... 
Alegremente os políticos ganharam eleições malbaratando o dinheiro dos nossos descontos -- e hoje a nossa reforma é encarada como uma traição, uma desonestidade que os mais jovens terão de pagar... E que fazem, entrementes, os jovens oficialmente enrascados? 
Uma árvore não faz a floresta. É desonesto generalizar casos pontuais. Mas casos pontuais é o que mais vejo à minha volta! Por exemplo. Uma colega aposentou-se em meados de Dezembro. Foi colocada substituta. Após o período de interrupção lectiva, vulgo férias, de Natal, renunciou ao lugar. Os alunos eram -- são -- difíceis. Mas quem lhe terá dito que professor é profissão de vida fácil? Entretanto, outros professores desempregados foram contactados para preenchimento desse horário. Todos recusaram.
Sou eu, e outros privilegiados como eu, quem assegura as substituições. E isto para além do nosso próprio horário, sem quaisquer compensações. Eles, novos, recusam porque é difícil; nós, velhotes, temos de o fazer na ingrata posição de não-professores dessas turmas, sem tarefas, sem autoridade, e para além do nosso próprio serviço lectivo e não lectivo.
Quem está à rasca, quem é?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Obra-prima

Gostei tanto destas frases de Eduardo Pitta que as roubei descaradamente:
O autor [García Marquez] criou um universo capaz de provocar a reverberação da terra, como ficou demonstrado nessa obra-prima absoluta que é Cem Anos de Solidão (1967)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Livros aos montes

No blogue Horas Extraordinárias, a sua autora reflecte hoje sobre motivações para a leitura e, sobretudo, sobre a utilidade e a viabilidade de procurar ensinar outros a gostarem de ler. 
No meu caso, para além de factores hereditários, a que voltarei noutra ocasião, suponho que a fome pela leitura terá sido reforçada por solidão e curiosidade. Para o gosto pelos livros, muito contribuíram duas mulheres que não esqueci na dedicatória do meu primeiro romance, Do lacrau e da sua picada: a minha professora primária Margarida Martins d'Aires Filipe e Margarida de Carvalho, minha professora de Português e responsável pela biblioteca na Escola Industrial e Comercial de Leiria. E a Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. 
Mas a minha formação como leitor ecléctico e devorador insaciável de livros  deve-se talvez a um montão deles que descobri, tinha treze ou catorze anos, em casa modesta em Leiria onde a minha mãe me hospedou. Velha, escura, tristonha. O que interessa é que, ao fundo de um corredor, amontoavam-se centenas de livros, sem qualquer ordem. Para um miúdo viciado na leitura, afastado da família, num meio completamente estranho, foi um maná dos céus. Devorava um ou dois por dia, misturando Júlio Dinis com Caryl Chessman, o condenado à morte que na cela se tornou escritor, Thor Heyerdahl e a sua Kon-Tiki, Júlio Verne, Dumas, Salgari, Defoe, histórias policiais, do faroeste... Aconchegado e alimentado como lagarta na maçã, os dias voavam, as saudades não doíam tanto... 
Naquele primeiro período, os resultados escolares não foram brilhantes...

Sinais de esperança

Ténues, talvez ainda não pelas melhores razões, mas significativos:
Estou em crer que assistiremos a progressiva deslocalização de fábricas e empresas do Oriente para o Ocidente. Por enquanto, os sinais são pouco claros, contraditórios. Mas a recente greve dos operários da LG chinesa, exigindo e conseguindo equivalência remuneratória aos seus camaradas de fábricas fora da China, parece-me sintomático: eles começam a abrir os olhos, cansados das penosas condições de trabalho e salários de miséria; nós, com o desemprego galopante, sobretudo entre os mais jovens, deixamos de poder importar os seus produtos -- algo está a mudar, muito terá de mudar, lá e cá. Por exemplo, ouvi não há muito a um empresário português do móvel contar que aumentou a produção, tem os salários em dia e distribui gratificações: passado o boom da importação chinesa de bens fabricados em massa a baixo custo, e com a crise europeia, deixou de ser interessante adquirir mobiliário em grande escala do Oriente, e surgiu um nicho no mercado que este empresário aproveitou inteligentemente, exportando a quase totalidade da sua produção.
Por enquanto, são casos pontuais. Fica-me a esperança de que se generalizem. Afinal, não há solução para a Europa se não mudar de rumo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pega de caras

Na cervejaria, apenas um cliente. Acabrunhado, meditativo, nem reagiu à entrada dos forcados. E o cabo, tonitruante: -- Uma rodada para todos, paga esse senhor aí.
-- Eu?
-- Sim, você. O que está a beber?
-- Leite...
Risada geral.  -- Pois agora vai beber cerveja connosco.
-- Desculpe, mas não posso beber álcool...
-- O quê? E pode beber essas coisas de maricas? Beba-me já essa cerveja, como um homem.
O homenzinho emborcou a caneca, pagou a rodada e saiu. Pouco depois voltou, ainda os forcados galhofavam da partida pregada ao menino copo de leite. E ele, sem rodeios: -- Uma rodada, paga este senhor. Mas só copos de leite.
Os forcados olharam para o cabo, os sorrisos algo amarelados, à espera de ordens. E elas prontamente chegaram: -- Bebam, mandou, o cano negro da pistola encostado à têmpora.
Despejados os copos, sem mais palavras, o homenzinho foi-se. Em jeito de desculpa, o cabo explicou-se: -- Vi-lhe a Morte nos olhos...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Tempo da poda

Como a cobra que sai do torpor invernal despertada pelo calor, não tanto para procurar alimento, antes para se aquecer ao Sol entre ervas secas, e vagamente se apercebe da proximidade de presas, assim também nos olhos do Jaime cintila um reflexo de vida: sabe, sente, que é o tempo da poda, e quase tem outra vez vontade de sorrir ao lembrar-se do provérbio Tempo da poda, tempo da foda, e das interpretações, uma apontando para a vida arrastada do camponês, outra para o renascer da seiva, nas plantas e nos corpos, natureza e humanos pulsando num mesmo frenesim reprodutivo. 
(...)
Não, não são reflexões que lhe perpassam por detrás dos olhos, são imagens como as dos filmes que uma vez por outra cinemas ambulantes passam no barracão da Tia Elisa, projectadas num lençol que faz as vezes de ecrã, e as imagens que lhe enchem a retina são da vinha coberta de vegetação verdejante — margaças floridas, com o seu odor inconfundível, roxas candeias que cresceram entre elas, serralhas em flor — e, esvoaçando livres por cima, longas vides que a tesoura de poda atarraca em cliques sucessivos, deixando talões de três olhos e varas de seis, gemendo seiva dos sarmentos cortados, são as nuvens fugidias que vindas do mar correm pelo céu sabe-se lá para onde — como a sua vida.
Entre Cós e Alpedriz
FOTO: poda, sábado passado. O Vergílio e o Pedro na labuta.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sociedades secretas e coscuvilhice

Embora algo alheado da informação nacional, dei-me conta de que esta semana as não-notícias incidiram em especial sobre a maçonaria e os seus supostos filiados. Compreendo o interesse dos media: se não há problenas, inventam-se: a saúde de Eusébio já só preocupará a família e os amigos, o ministro das finanças ainda não anunciou novos cortes, não chove, pelo que as pontes lá se vão aguentando... Há despedimentos, há miséria, mas convenhamos: o Natal já passou, se não vier vaga de frio a lembrar-nos de que há sem-abrigo, só lá para Dezembro terão direito às couves e bacalhau tranquilizadoras das nossas consciências. Há, por esse mundo fora, catástrofes naturais, cheias nuns países, vulcões noutros... Mas é longe, não nos interessa; como também não nos interessam os massacres da Nigéria ou da Síria, ou a capacidade nuclear do Irão...
Precisamos assim de não-notícias bem vivinhas. E a maçonaria parece vir a talho de foice, pois queremos saber tudo sobre toda a gente que, por qualquer razão, alcança alguma notoriedade -- se possível, os podres, na sua falta, o que melhor escondem.
Não basta que um cidadão revele rendimentos e fontes e interesses; em breve precisará também de revelar as inclinações sexuais, declarar qual o seu clube de futebol ( se não tiver, invente, que não é crível que não tenha nenhum), as confrarias a que pertence ou em cujos eventos participou, os clubes (automóvel, motas, campismo, pesca...), os grupos de sueca e, porque não? as amantes que teve, aquelas que sonha vir a ter. Porque, nenhuma dúvida, qualquer desses grupos de interesses pode condicionar a sua actuação: sem me alongar, pergunto: quantos políticos não foram instrumentalizados por amantes? Quantos negócios se não fizeram por entre  uns copos aparentemente inofensivos ou uma suecada?
Ah, responder-me-ão, mas a maçonaria é diferente. Todos ouvimos falar de lojas criminosas, como a P2 italiana; e se os maçons se escondem é porque algo têm para esconder, não é?
Tanta estupidez confrange-me, apesar de estar habituado. Ou os maçons violam a lei e devem ser punidos, ou aquilo que por lá fazem é com eles. Uma sociedade secreta é isso mesmo: secreta. Querer obrigá-la a revelar os seus segredos é pura infantilidade: exporá à luz o acessório, como rituais e indumentárias, esconderá melhor o essencial. Foi o que explicou Fernando Pessoa, quando, em pleno salazarismo, quiseram extinguir as sociedades secretas. O que só mostra como a estupidez nacional é recorrente. Ou endémica, não sei bem.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os ignaros

É sabido, é repetido até à exaustão: nós, que escrevemos em blogues, falamos do que não sabemos; move-nos sanha justiceira, inveja, incompreensão, ignorância sobretudo; o ricaço muda  a sede para a Holanda, como tantos outros fizeram já, por nossa culpa, que os perseguimos para que paguem impostos, que os acusamos de serem responsáveis pela situação nacional, que ousamos falar deles como sendo "ricos", quando, na verdade, são apenas trabalhadores a viverem do seu salário, quantas vezes bem modesto.
A mim, que me guio mais por sentimentos do que por razões, ensinado pelos anos de que cada qual tem a sua, pergunto: Onde é que enriqueceram? À custa de quem? Nessa Holanda, como emigrantes, ou cá, a importar bens para arruinar a nossa produção? Apenas com o suor do seu rosto, ou à custa de milhares de desgraçados e desgraçadas, que ouço muitas vezes dizerem que há horas deveriam ter saído e fechado a caixa do hipermercado? E os filhos à espera à porta da escola, a crescerem sem pais presentes, para que os patrões, fazendo contas, deslocalizem fortunas para onde os impostos sejam mais baixos ou as condições de financiamento melhores.
É assim que me fazem dar razão ao camarada Jerónimo: pátria, povo, servem como financiadores, mercados, consumidores. Que os grandes capitalistas nos lixem, já não é pouco; agora que tantos se dêem ao trabalho de defender o indefensável, a saber, que é compreensível que o capital por cá acumulado deserte, irra, é de mais. Cá para o pagante -- chega. Basta. E que ninguém se esqueça: foram os génios das finanças, os economistas, os financeiros que nos conduziram ao ponto em que estamos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ratos e homens

Não me refiro ao livro de Steinbeck, aqui ao lado. É àqueles empresários que enriqueceram em Portugal, mas antes que o barco dê sinais de naufragar se aprestam a mudar os capitais para as holandas e bolandas. Por mim, só vejo uma maneira de reagirmos, já que o governo os não impede de deslocalizarem o dinheiro por cá ganhado: boicotar os seus produtos.  Como toda a gente sabe, os capitalistas, especialmente os patriotas, guardam o patriotismo na carteira.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ai, a politesse...

Os autarcas, fiados no seu rifão "quem não berra não mama", primam pela rudeza da linguagem e dos modos:

Assembleia Municipal de Portimão exige suspensão imediata de cobranças na A22 (Lusa)

A Assembleia Municipal de Portimão exigiu a suspensão "imediata" da cobrança de portagens na Via Infante de Sagres/A22 (Algarve), no sentido de salvaguardar o turismo como a principal atividade económica da região. 
Será, talvez, a altura de mudarem de provérbio; sugiro "não é com vinagre que se apanham moscas".

domingo, 1 de janeiro de 2012

O léxico e as tradições

Anda o léxico adulterado, ao ponto de me julgar a viver em universo alternativo: os náufragos, os perdidos, são hoje em dia "resgatados" (quanto pagarão pelo resgate?) e já não salvos, ou encontrados; é "tradição" tudo aquilo que nos impingem como tal... Assim, o camarão, as doze passas, o champanhe, o fogo de artifício, tudo é tradição neste país e deste povo que julga ter sempre vivido na abastança. Para avivar memórias a quem ainda as tem, aqui vai um excerto de Entre Cós e Alpedriz sobre a passagem de ano:

Ao cair da tarde já ardiam no Jogo cepos enormes, oferecidos por ricaços e carregados em carros de bois por homens e rapazes. À medida que a noite ia arrefecendo, chegavam-se à fogueira, as costas resguardadas do frio e da humidade nocturna por capuzes feitos com sacos de serapilheira. De tempos a tempos afastavam-se do lume peregrinando de adega em adega, provando a água-pé de um e de outro ou mesmo o vinho novo ainda meio cru, que nos dias seguintes os obrigará a correr volta não volta para o campo com os intestinos desarranjados pela soltura. Não pensam agora nas consequências, antes em festejar o fim de um ano de sofrimento, em beber para esquecer já o próximo e o seu destino de servos grudados à terra do nascimento até à morte, receosos de que se confirme uma vez mais o dito atrás nunca vem o melhor.
Nas adegas, alumiados por ténues lamparinas de azeite que mal permitem que se vislumbrem entre si, discutem o tempo, a chuva que não cessa e apenas lhes permite, no máximo, ter dois dias de jorna por semana, quantas vezes dados como esmola pelos patrões de todo o ano, que entendem que o trabalho nas adegas, debaixo de telha, não tem o mesmo valor que o do campo, suportando as inclemências do Inverno. Habituaram-se há muito tempo a que os servos e as famílias os ajudem de graça nesses serviços, trasfegando o vinho, matando-lhes os porcos, chamuscando-os, desmanchando-os, as mulheres lavando as tripas, os filhos metendo uvas durante a vindima ou entrando nos cascos para os lavar, todos sempre solícitos, sempre prontos a trabalhar de graça em troca do favor que fazem dando-lhes serviço ao longo do ano que nem lhes passa pelas cabeças que possa haver diferente ponto de vista: para os servos, a esmola patronal é apenas ganância e exploração, mas calam-se, por saberem que se protestarem jamais conseguirão trabalho.
Falam das privações, com a comida a escassear em casa de cada um, comentam até mesmo a situação política nacional enquanto limpam com a costa da mão os beiços tintos da bebida e passam a outro o copo para que se sirva, espichando o roxo vinho, conforto e sustento dos cavadores de enxada nesta vida sofrida. Deixarão o copo no postigo do tonel e sairão para a rua uns atrás dos outros, por último sairá o dono da adega, que precisa de trancar a porta, talvez com um cadeado, talvez apenas com um arame — é o suficiente para que ninguém invada a sua propriedade e lhe furte os seus escassos bens: uns botins de borracha já rotos, uma descalçadeira, feita com uma tábua recortada em V para o ajudar a retirar as botas no final de cada dia de trabalho, talvez um velho fato de oleado herdado do pai, uma escudela, uma gadanha, um grande funil de chapa pintado com zarcão para que não enferruje, alguns garrafões com o bagaço da queima do folhelho, uma faca ferrugenta já sem bico, um bocado de sebo para empostigar tonéis ou ensebar o calçado, um mexedor de uvas e pouco mais.
Mais à frente, urinam contra as paredes, Quando mija um Português, mijam logo dois ou três. Depois, regressam à fogueira do Jogo e aquecem-se, sob o borranho interminável, até que um outro convide para provar a sua pinga; demoram apenas o tempo de lá chegarem, acenderem a lamparina, simples torcida mergulhada em azeite rançoso, e a conversa continua, interminável como a chuvinha que não cessa de cair, como a miséria que os não largará jamais.