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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Satisfações

Não gosto de dar explicações. Para aqueles que me conhecem bem, são escusadas; para quem me não conhece, inúteis. Mas, a título de excepção, aqui vai uma: este blogue começou por ser, é, e continuará a ser, forma privilegiada de comunicação com familiares dispersos pelo país e pelas sete partidas do mundo. Mesmo amigos que não lêem o Português por aqui passam diariamente e traduzem os textos com o Google, na esperança de ter novidades da terra e das pessoas que aprenderam a amar. Conceito estranho para muitos de nós, sempre a dizer mal da pátria e dos seus costumes, esse de que há estrangeiros que de Setembro a Julho sonham voltar para junto de nós, um Agosto em cada ano, movidos pela saudade que supúnhamos ser exclusivamente nossa. 
Por vezes, muito raramente, há também outros visitantes. Que chegam de navalha afiada, senhores da razão, do bom-gosto. À procura do inefável, do ainda não dito, talvez nem sequer sentido. E prontamente ajuízam sentenciam, insultam, penitenciar-me-iam até pudessem eles, a coberto do grandioso anonimato, ou escondidos atrás de nomes que cheiram a falso de tão mal amanhados -- e que o Google desconhece, coisa estranha para tais sumidades. Não me conseguem descoroçoar. Desejo-lhes boas leituras em melhores blogues, que felizmente não faltam: basta ver a minha lista de favoritos. 
E assim irei continuando, Carneiro de signo e de feitio, a escrever sobre a família, a agricultura, o karaté, os meus livros, coisas desinteressantes para doutos visitantes, importantes para mim e para aqueles que me importam...
FOTO: o João, meu neto mais novo, hoje. 

sábado, 5 de maio de 2012

A Europa e eu

A União Europeia faz-me lembrar  a fábula Le pot de terre et le pot de fer, de La Fontaine: a panela de ferro persuade a panela de barro a acompanhá-la numa viagem prometendo protegê-la, interpor-se entre ela e eventuais perigos. Não tinham dado cem passos com as suas três pernas quando chocam  e, antes que possa soltar sequer um ai, a panela de barro é desfeita em pedaços, legitimando a moralidade: associemo-nos apenas com os nossos iguais para não termos destino igual ao da pobre panela de barro.
Poucos concordarão comigo, acomodados ao que julgam ser os benefícios desta Europa Unida, pátria das pátrias, que trouxe a paz e a prosperidade -- a união faz a força, não é?
Não, não é. Tal como na fábula, a associação entre barro e ferro dá, necessariamente, cacada:
O Governo alemão vai permitir ao candidato à Presidência francesa François Hollande “salvar a face”, mas espera que ele mantenha os compromissos assumidos em nome da França, nomeadamente o tratado orçamental, disse o ministro das Finanças germânico. (No Público)
Não conheço o texto original, nem o conseguiria ler, que não sei alemão. Mas, se a tradução é minimamente fidedigna, cada palavra é uma pérola. Colonial. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Aviso à navegação

Aprecio a crítica, não tolero o insulto. Por isso, quem não sabe distinguir luta de ideias de ofensas pessoais escusa de aqui vir comentar -- não será publicado. Acrescento: este blogue é meu. Nele publico o que me apetece, como me apetece. Dou a cara, assumo a responsabilidade pelas minhas afirmações. É tudo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nome profético

A empresa pública criada pelo governo para recuperar calotes chama-se Parvalorem:

Há, portanto, razões de sobejo para dizer Parva-lorem em vez de par-valorem: parva é a figura que fará ao tentar recuperar os calotes; lorem, de lorem ipsum, texto que na linguagem jornalística serve para encher espaços...

domingo, 29 de abril de 2012

Contra a unanimidade

Para limpar os ouvidos da conversa encomiástica do professor Marcelo sobre a "doçura" do povo português, eis  o Cântico Negro, de José Régio, na versão vigorosa de Villaret. 

O comilão

Diz o povo: quem não presta para comer não presta para trabalhar. Não se subentenda, porém, que qualquer comilão é trabalhador aplicado e eficiente. Basta ver o caso do ex-primeiro ministro, cujo nome não menciono  para não conspurcar o blogue:

"Despesas com almoços e jantares chegaram a atingir 12.800 euros só num mês.
"Correio da Manhã" escreve que o gabinete do ex-primeiro ministro José Sócrates gastou durante os seis anos de Governo mais de 460 mil euros em almoços e jantares no País e no estrangeiro. E em três anos sucessivos gastou mesmo mais do que a verba orçamentada: em 2007, 2008 e 2009, a rubrica Representação dos Serviços recebeu uma dotação total de 225 656 euros, mas a despesa total, segundo a Secretaria-Geral da Presidência do Concelho de MInistros, atingiu 260 174 euros, um aumento de 15,3%.
As mais elevadas do gabinete do ex-primeiro ministro com almoços e jantares ocorreram, precisamente, de 2007 a 2009: em cada um desses anos, os encargos anuais com refeições oscilaram entre 80 mil euros e 90 835 euros.
Março, maio, agosto, novembro e dezembro são os meses que concentram despesas mensais mais avultadas com almoços e jantares. Por exemplo, 11 109 euros em dezembro de 2006, 10 742 euros em agosto de 2008 e 12 813 euros em novembro de 2009." (No DN)
Irra, bem nos comeu -- e come, e comerá -- por parvos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Rosas

Deliciadas com a chuva, abençoam o céu que, finalmente, a dá.

Ó vadio!

Muito aprende na escola quem quer aprender. O Afonso, seis anos, diz-me: -- Ó avô, cão vadio é um animal sem dono.
-- É, confirmo.
-- Mas quando o Tex foge, tu gritas: Ó vadio!

O negócio das rescisões amigáveis

Em empresas públicas que me abstenho de nomear é prática corrente proceder a rescisões amigáveis quando o trabalhador se aproxima da idade da reforma: leva a indemnização, fica com o subsídio de desemprego, receberá a reforma quando este último acabar. Tudo é calculado como se de bónus se tratasse. Agora que o governo quer proceder a rescisões amigáveis na Função Pública, receio que, mais uma vez, estas venham a ser negócios apetecíveis para aqueles que sabem viver e têm bons padrinhos: -- Sr. X, está na altura certa para rescindir...
A ver vamos, que não falta gente com olho neste país. E, como sempre, trama-se, em nome da moralidade, aquele que cumpre ou a quem faltam os tais bons padrinhos.

Resgates

Tudo se resgata hoje em dia: a Grécia, pescadores desaparecidos, o cadáver da avó afogada ontem em Matosinhos. Sugiro aos senhores jornalistas, antes de voltarem a resgatar o que quer que seja, que olhem para o dicionário (Porto Editora):

Resgatar 
verbo transitivo
1. obter o resgate de;
2. livrar do cativeiro;
3. libertar de (castigo ou situação de inferioridade); remir;
4. reaver (um penhor); desempenhar;
5. cumprir;
6. expiar;
verbo reflexo
libertar-se; remir-se;
(De resgate+-ar)

Impotência

O governo pode cortar-me o vencimento, o subsídio de férias e o de Natal, pode cortar a quem trabalha o que bem entende para tranquilizar os mercados. O governo não pode tocar nas parcerias público-privadas, nem em nenhum dos outros contratos escandalosos assinados pelo anterior governo, ou assustaria os mercados. É bom que o governo se não esqueça de que os mercados não votam nas nossas eleições e boys e grandes empresas poucos votos têm. Isto de ser prepotente com os mais fracos e subserviente com os poderosos pode sair-lhe caro.
ADENDA: o governo justifica a sua impotência com a blindagem dos contratos.  Até podia aceitar -- se por igual respeitasse a blindagem dos contratos de quem trabalha.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

E o 25 de Abril?

Onde estava eu? A viver na Marinha Grande, na clandestinidade; a trabalhar por turnos como operário de plásticos na Júlio Ferreira e Filhos, em Leiria, pelo que o golpe de estado me apanhou a dormir: tinha despegado às oito da manhã. Não havia então telemóveis, nem internet, eu não tinha televisão nem rádio. A revolução começaria dias depois, perto do 1º de Maio e mudaria este país, tornando-o irreconhecível. Democratizar, descolonizar, desenvolver, tudo isso se fez e só por ignorância ou má fé se pode negar que se vive hoje incomparavelmente melhor do que então. Porém, ninguém me viu, nem verá, de cravo na lapela, o emblema adoptado pelos vira-casacas.

O burro do espanhol

Será que os helvéticos desconhecem a história do burro do espanhol, o tal que morreu precisamente quando já estava desabituado de comer? É o que parece, a fazer fé nesta notícia do Público:
"A justiça suíça confirmou hoje que uma mulher desta nacionalidade morreu em Janeiro de 2011 depois de ter iniciado, semanas antes, um regime conhecido por “dieta do sol”, que requeria que ela parasse de comer e de beber, vivendo apenas dos raios solares."
Imagem: do pintor João Alfaro

Constatação

É triste um homem ter de morrer para se ouvir dizer tanto bem dele.

25 de Abril

O melhor neste dia, para além da chuva, que finalmente caiu, terá sido o discurso de Assunção Esteves, douta presidente da AR. Não tivera eu coração empedernido e teria certamente chorado ao ouvi-la (sic):
"A crise económica que atravessa a Europa é, porém, na verdade,  também..."
Em verdade, em verdade vos digo: não é o acordo ortográfico que está a assassinar a língua portuguesa.

sábado, 21 de abril de 2012

La chanson de Jacky

Même si un jour à Knokke-le-Zoute
Je deviens comme je le redoute
Chanteur pour femmes finissantes
Même si j’leur chante "Mi Corazon"
Avec la voix bandonéante
D’un Argentin de Carcassonne
Même si on m’appelle Antonio
Que je brûle mes derniers feux
En échange de quelques cadeaux
Madame, je fais ce que je peux
Même si j’me saoule à l’hydromel
Pour mieux parler d’virilité
A des mémères décorées
Comme des arbres de Noël
Je sais qu’dans ma soûlographie
Chaque nuit pour des éléphants roses
Je chanterai ma chanson morose
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{Refrain:}
Etre une heure, une heure seulement
Etre une heure, une heure quelquefois
Etre une heure, rien qu’une heure durant
Beau, beau, beau et con à la fois

Même si un jour à Macao
J’deviens gouverneur de tripot
Cerclé de femmes languissantes
Même si lassé d’être chanteur
J’y sois dev’nu maître chanteur
Et qu’ce soit les autres qui chantent
Même si on m’appelle le beau Serge
Que je vende des bateaux d’opium
Du whisky de Clermont-Ferrand
De vrais pédés, de fausses vierges
Que j’aie une banque à chaque doigt
Et un doigt dans chaque pays
Et que chaque pays soit à moi
Je sais quand même que chaque nuit
Tout seul au fond de ma fum’rie
Pour un public de vieux Chinois
Je r’chanterai ma chanson à moi
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{au Refrain}

Même si un jour au Paradis
J’devienne comme j’en serais surpris
Chanteur pour femmes à ailes blanches
Que je leur chante "Alléluia!"
En regrettant le temps d’en bas
Où c’est pas tous les jours dimanche
Même si on m’appelle Dieu le Père
Celui qui est dans l’annuaire
Entre "Dieulefit" et "Dieu vous garde"
Même si je m’laisse pousser la barbe
Même si toujours trop bonne pomme
Je m’crève le cœur et l’pur esprit
A vouloir consoler les hommes
Je sais quand même que chaque nuit
J’entendrai dans mon paradis
Les anges, les Saints et Lucifer
Me chanter la chanson d’naguère
Celle du temps où j’m’appelais Jacky.

{au Refrain}

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Felicidade

Tristezas não pagam dívidas, pensará o João, indiferente ao calote nacional que terá inevitavelmente de pagar. É isto que nos faz falta, um sorriso aberto e a mão levantada, fechada embora, não se perca o pouco que ainda nos resta. E o avô, de ordinário sorumbático, responde com outro sorriso à felicidade do João.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os meus leitores

Estatísticas do Scribd. Clicar na imagem para ampliar.

domingo, 15 de abril de 2012

A história da semana

É o conto "Jogo de azar", AQUI. "Ao meu pai, mouro de trabalho, padeiro e muitas coisas mais. Com saudade" -- escrevi na dedicatória. 2 pp, rigorosamente verdadeiras, o que não melhora nem piora a história. Catarse, digo eu.

sábado, 14 de abril de 2012

A história da semana

Leitoras que muito prezo  queixam-se da dificuldade em acompanhar a 'publicação' semanal dos textos; e a mim tem-me faltado tempo para rever, retocar os que ainda guardam oportunidade de saírem, não da gaveta, mas da pasta do computador. Assim, após a desta semana, passarei a disponibilizar menos histórias por mês.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A voz do mestre

Muitos procuram desesperadamente um guia espiritual, mestre, guru, salvador,  e nessa busca quase socrática chegam-se ao suposto mestre, colam-se-lhe, bebem-lhe as palavras, imitam-lhe o comportamento, copiam-lhe os tiques, citam-lhe as frases -- até que um dia descobrem desiludidos que seguiam  não a um santo mas apenas a um homem, com as suas fraquezas, os seus vícios, o seu lado insuportável. E novamente depositarão as esperanças noutro, não querendo ver, ou não o conseguindo fazer, que é em si mesmos que devem procurar o seu mestre, esforçar-se arduamente para o polir para o aproximar da quimera que perseguem e, se acaso o conseguirem, ter a coragem de assumir perante eventuais discípulos as fraquezas da sua condição humana, desiludindo-os.
É este o drama que a consciência nos impõe, o de sermos capazes de lucidamente nos aceitarmos como homens, ignorantes e mortais, talhados para o fracasso, lutando embora para o ludibriar. O mais do que isto é a poesia de Fernando Pessoa, em que a voz do mestre sempre soa:
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter
Felizes, nós? Ali, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez,

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar;
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

C' est trop facile

É demasiado fácil criticar os vícios deste país e das suas gentes, indignar-me com as trapalhadas dos políticos, zurzir na porcaria da televisão. Demasiado fácil e sempre apreciado. Queirosiano, dirá quem gosta do estilo. Eu cansei-me. De ler o tal estilo queirosiano, de escrever batendo no pobre ceguinho que é este país, que somos nós, que sou eu. País que assassina a sua língua à revelia do acordo ortográfico, que fala demasiado alto, que se está cagando para os direitos dos outros, ao sossego. ao silêncio, à privacidade. Que desconhece o significado de discrição e de tudo faz uma peixarada. País que é o meu, país cujos 'intelectuais' encontram fonte de inspiração precisamente  nos nossos vícios, defeitos, fealdade, mau gosto. À semelhança de Eça. Tal como, a fazer fé em reportagem televisiva, Lobo Antunes, que terá feito sucesso nos EUA com crónicas sobre as mulheres portuguesas de bigode. 
"Chama-lhes putas, filha" -- ensinava a mãe. "Chama-lhes putas, antes que te chamem a ti!"
Assim andamos nós. Porque, como canta o grande Brel, é demasiado fácil / é demasiado fácil / fingir:
C'est trop facile,
C'est trop facile,
De faire semblant.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Abril

Abril é o meu mês, sete o dia, e ambos me contaminaram ao nascer, fazendo-me incerto como Abril, ora de águas mil, ora primaveril, individualista como o sete, número ímpar, primo, que só por si mesmo ou pela unidade se deixa dividir. Como se não bastasse, Carneiro obstinado e persistente, sempre a cair em barrancos, sempre sem emenda. Enfim, eu.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O regresso dos duplos

Há tempos escrevi aqui sobre um dos meus filmes favoritos, A sombra do guerreiro, de A. Kurosawa, que tem como herói um duplo, e analisa de forma fascinante a relação entre a pessoa e a máscara: 

Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um  senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Ora leio no DN que  Madonna está a treinar cinco mulheres  para se fazerem passar por Madonna, que é, ela mesma, uma máscara. Não se poderá dar o caso de, às tantas, ser difícil distinguir a máscara original das clonadas, ou, até, de uma delas superar o original?

domingo, 1 de abril de 2012

A história desta semana

As bruxas já roubam clientes aos psicólogos. O fenómeno parece estender-se à classe média, instruída mas desencantada, amargurada, a necessitar de acreditar em algo, em ter a esperança, ténue que seja, de que a sua vida profissional, ou pessoal, ou familiar, vai melhorar em breve. Ora, como tempos atrás escrevi uma historieta em que uma mulher desesperada recorria à bruxa para que a livrasse do marido, lembrei-me de aproveitar o ressurgir da moda das bruxas e publicá-la AQUI. 6 pp.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Gabarolices

Tempos atrás recebi esta mensagem de uma ex-aluna:
Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "A vida é uma festa (1)": 

Como está o Sr Professor?
O meu nome é XXXXX e fui sua aluna no 11ºano na Escola Secundária do Entroncamento, há cerca de 16 anos.
Hoje tenho 33 anos, duas filhas e apesar de um curso de Economia, o português e a recordação do professor que me fez amar a literatura e a minha língua, acompanharam-me desde então.
A vida deu-me a oportunidade de me cruzar no seu caminho, que apesar de em apenas duas horas por semana, me ensinou a gostar dos Maias, das Viagens na Minha Terra e do efeito contemplativo que ainda hoje me ajuda a ver o mundo, a vida e as pessoas com outros olhos, com a alma e com o coração.
Ensinou-me a ler e sobretudo a gostar de o fazer. Com isto mudou a minha vida para sempre. Se isto é o papel do Educador, então cumpriu-o na perfeição.
Continuo a amar os Maias e todos os outros que entretanto tive oportunidade de ler e lamento que no nosso país a única literatura que vende é a light, com a Margarida Rebelo qualquer coisa a bater records de venda. Lamento sobretudo que as gerações futuras não tenham o bom-senso para perceber que abrir um livro é um acto de inteligência, de liberdade e de capacidade de sonhar.

Nota: As aulas de português eram para mim uma festa...

Muitas felicidades
XXXXXXX

terça-feira, 27 de março de 2012

Nos correios

Uma ida aos Correios é suplício. Às tantas, dou pela entrada de uma moça já pouco moça que foi minha aluna. Do 7º ano ao 12º. De pequenina, cabelos pela cintura, uma bonequinha que não falava, até uma mulherzinha que também não falava. As coisas correram bem entre nós, apesar do seu mutismo: sempre a passei, com boas notas, inteiramente merecidas -- ou não lhas teria dado. Pois a moça já pouco moça -- como os jovens envelhecem depressa! -- entra e sai, sai e entra, resvés comigo, e coisa estranha, não me conhece. Enfim, maneiras de ser, ou anda um professor a educar uma jovem seis anos para isto, ou, como diz o meu amigo João, a partir dos cinquenta somos invisíveis para as mulheres, sei lá. Eu não existo e é tudo.
Pelo canto do olho apercebo-me da entrada de outra ex-aluna, esta apenas do 10º ao 12º. Notas pouco brilhantes. Prevejo que também me não vai conhecer. E, de facto, durante longos minutos, parece que me não vê naqueles correios quase desertos, em que os funcionários arrastam o serviço. De repente, põe-se a meu lado e conversamos. Pergunto-lhe pela vida, falamos de outras alunas. Nem tudo está perdido. O civismo ainda existe.

domingo, 25 de março de 2012

Almoço no quintal

Essa mulher

Numa tal festa da Primavera, TVI, dois moços esganiçam-se em disputa: "Eu vi primeiro essa mulher". Como se se tratasse de nota de vinte euros achada na rua: é minha, que a vi primeiro. Que mulher? Não importa: avistou-a primeiro, é dele.
Nem sequer enxergam a triste figura, banhas apertadas nas t-shirts demasiado justas, cabelo à galã dos anos cinquenta, estilo mestre barbeiro Ti' Jaquim da Burra. Música, voz? Que é isso? Para que é que faz falta? Letra? Um primor. No Afeganistão deve ser um sucesso.
Dir-me-ão: há pior; há muito pior. Pois há.

A história da semana

Pirulito, Rimas e a Associação de Moradores. Uma história falhada, segundo a crítica devastadora do Afonso, o meu neto mais velho: "as histórias para crianças têm poucas letras e imagens muito grandes". Enfim, apeteceu-me escrevê-la, aqui está.

sábado, 24 de março de 2012

Sábado

Com a vaga esperança de que acabe por chover, lá vamos nós fazer mais uma sementeira: feijão Catarino. A história da semana não está esquecida; mas o ar do campo faz-me tombar com sono muito cedo, e a esta hora já só penso na cama, um livro antes de os olhos se fecharem por completo... Amanhã, com uma hora a menos, cá virei pôr a história, ainda nem sei bem qual.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Roncadores

Muito se ronca por aí, de um roncar tão antigo que já o Padre Vieira o repreendeu:
ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar? Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. 
Pois na sua insignificância, estas roncas da terra tomam-se por espadartes, por baleias até, e roncam, roncam, com tal arrogância, tão ruidosamente, que de pouco nos serve tapar os ouvidos, mudar de canal, desligar até a televisão: a todo o lado chega o seu ronco insuportável, roncando como se tivessem o rei na barriga, sentindo-se tão donos da verdade que só a sua voz escutam embevecidos, maravilhados, tomando por inteligência de espírito e por beleza de ideias aquilo que para nós são grunhidos alarves e ignorantes.
Diz o Padre Vieira que "duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder." Eu estou em crer que hoje se ronca sobretudo por poder, sem o qual o ronco que nos submerge como ruído de fundo se reduziria a desprezível chiadeira pífia; porque o roncar de saber, mais tolerável, parece-me, se acaso surge aqui ou ali, anda tão embrulhado em ideias feitas e chavões, tão falho de originalidade, de pensamentos próprios, que dificilmente se distingue da ignorância atroz e só casado com o poder logra fazer-se escutar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Judiarias

Quando se falava de judeus, a minha avó tinha resposta pronta:
-- Os judeus são muito ruins.
Eu estranhava: ela nunca tinha conhecido nenhum: -- Porquê?
-- Ora, mataram Nosso Senhor...
-- Mas, atalhava eu, Jesus também era judeu!
Zangava-se: -- Não sejas herege.

domingo, 18 de março de 2012

Fome de leitura

Uns têm, outros não. Por isso, entendo ser desperdício de dinheiro iniciativas como o Plano Nacional de Leitura. Para mim, o que importa é pôr os livros ao alcance de cada criança, de cada adulto. Se tiverem a paixão da leitura, devorá-los-ão, mesmo que ainda os não saibam ler, como faz o Afonso, aqui a explicar algo às bisavós. Ontem, 17 de Março.

Pelos defuntos

A velhota retira à sua pensão de miséria, já escassa para a farmácia, dez euros para pagar missa por alma do seu defunto; o padre acrescenta o nome do falecido à lista do dia pretendido, não mais de oito nomes, até as missas têm limites de repartição. E por esse acto tão simples, pôr um nome numa lista e pagar dez euros, o defunto beneficiará de mordomias no além, talvez menor tempo de espera no Purgatório, caso a justiça divina seja tão demorada como a portuguesa, ou alívio de pena, caso a justiça divina seja corruptível.
Cá se fizeram, cá se pagam, não ao divino, mas aos seus comissários.
XXI séculos depois de Cristo, como pode a Igreja colaborar nesta farsa, tão contrária aos ensinamentos do seu Mestre, explorando a crendice de pessoas frágeis, carenciadas, pobres entre as mais pobres, estrafegadas pelo custo de medicamentos, taxas moderadoras, custos do transporte para esses hospitais que deslocalizaram para as grandes cidades, aumentos nos transportes, electricidade -- talvez, até, a passarem  fome?

sábado, 17 de março de 2012

O conto desta semana

É uma das histórias de Do lacrau e da sua picada. Um jovem casal, vida provinciana, bovarismo, violência conjugal. Assim escrevia eu uma dúzia de anos atrás. Para os meus fiéis trinta leitores, A menina do shopping, que pode ser lida AQUI.

terça-feira, 13 de março de 2012

Pâmpano

Eis a minha vinha que desperta da dormência invernal e dos troncos nodosos despontam jovens pâmpanos, de onde sairão longas vides, parras, cachos de uvas -- o milagre da Primavera repete-se num ciclo indiferente a secas, crises, querelas políticas. Assim houvera eu de ser, capaz de renascer em cada Março encarnando a Esperança, como se antes nunca tivesse vivido, intactas e inteiras as ilusões da mocidade.

domingo, 11 de março de 2012

Com o João

Passada a gripe, que me deitou abaixo durante quase duas semanas, corro a ver o João; encontro-o muito maior, mais gordo, as peles já cheias. Dorminhoco como de costume.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O conto desta semana

Ferido d' Asa, disponível para leitura AQUI.

FOTO: Pedro Perdigão, quando nos conhecemos, ambos mais moços.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O conto desta semana

Amanhã publicarei história mais ligeira, já conhecida dos leitores deste blogue: Ferido d' Asa, inspirada em versos que Camões glosou: Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha. 
Creio que surgiu desta forma: num domingo de Novembro, estava eu a labutar no meu Casal, e por lá passaram, em momentos diferentes, dois caçadores. Eles porque não caçavam nada, eu para endireitar as costas, lá nos pusemos na conversa, discreteando sobre os males do Mundo, da pátria e da agricultura. E uns dias depois, sem que nela tivesse pensado ou me apetecesse escrevê-la, a história veio ter comigo. Coisa rápida, quase sem correcções. 5 pp.

FOTO: no Casal, em farda de trabalho.

terça-feira, 6 de março de 2012

O primeiro voo

Na época, voar não era trivial e poucos se podiam dar ao luxo de o fazer. No meu caso, o meu pai era operário da KLM, a companhia holandesa de aviação, pelo que tinha direito a grande desconto no preço do bilhete. 
A aventura começou bem antes: fui sozinho, já me não recordo como, para Lisboa, e na confusão do aeroporto, balcões, línguas, voos a chegar e a partir, perdi o avião. Soube depois que ainda o tinham atrasado 15 minutos à minha espera. O senhor do balcão, algo preocupado com um miudito de província, enfezadito, catorze anos, escreveu-me um bilhete para apresentar em Schiphol: "Please help mr. Catarino to..."
Passei a noite no café, mesmo ao lado da pista, a ver as descolagens e aterragens dos enormes jactos ali ao lado, por entre o cheiro asfixiante do petróleo queimado. E na manhã seguinte, lá fui a pé com os outros passageiros para o "meu"avião, o tal Super Caravelle, pouco mais do que a camioneta de carreira da minha terra, mas com asas. Falávamos todos uns com os outros como se fôssemos conhecidos, a disfarçar o aperto de estômago quando a subida era cortada por brusca descida, e nova subida, cada vez mais altos...
Estávamos indignados, que na véspera tinham roubado o título ao  Joaquim Agostinho, acusando-o de dopping. Não acreditávamos: ele nem sequer precisava disso, que venceu com mais de uma hora de avanço. Não. Agostinho era humilde, era batalhador, era esforçado, e os poderosos deste país, a começar por essa cambada da federação, invejavam-no, tinham-lhe raiva, desprezavam-no pelas suas origens campónias.
Pouco depois, o almoço. Olhei envergonhado para os talheres, tantos, para que serviriam? E não ousava começar a comer para que se não apercebessem da minha ignorância rústica, quando uma das senhoras riu alto: -- Bom, isto deve servir tudo para o mesmo. Vou usar este mais pequenino, que me dá mais jeito, A tensão desanuviou, cada qual comeu com os talheres com que bem entendeu, mesmo os meus companheiros da classe média lisboeta não estavam habituados a tanto requinte. Deixei-os em Bruxelas e segui já ao pôr-do-sol para Amsterdam, baixinho, sobre os polders onde ainda havia moinhos de vento como nas ilustrações do chocolate holandês, a beber café delicioso.
No aeroporto, não me consegui desembaraçar: o meu Inglês era pobre, o Francês melhor, até que o polícia me pergunta: "Combien de temps vous rendez-vous en Hollande?" Eu puxava pela cabeça, até tinha estudado o verbo rendre no final do 3º período, mas o que significava? E nada me ocorria nem o polícia parecia capaz de encontrar sinónimo. Valeu-me a chegada do meu pai, passaporte na mão.

Fobias

Aí por volta de 1976, ganhei medo de andar de avião. Nada de especial, apenas uma série de mal-entendidos, línguas desconhecidas, a minha imaginação delirante. Já antes tinha voado, a primeira vez num Super Caravelle, uma geringonça fantástica, creio que em 1968; depois disso, voei mais vezes, sempre com desconforto, receoso de explosivos, terroristas, incêndios provocados por fumador na casa de banho. Mas isto é que eu não esperava:

PSP prende fornecedor de droga de estrela da televisãoHoje40 comentáriosJorge Esteves estava sob escuta por crimes violentos, mas acabou por ser preso por fornecer droga a figuras da moda e televisão e também a pilotos da TAP.
(No DN. Negrito meu).

segunda-feira, 5 de março de 2012

Déjà vu

Vou deitando a mão a livros que, na estante, esperam há muito por leitura. Pouca é a paciência, poucos aqueles que sobrevivem ao teste da leitura do primeiro parágrafo.
Le grand cahier, de Agota Kristof (1991), passou no teste. Com uma escrita denotativa, seca, organizado em capítulos titulados de 2 ou 3 páginas, traz até mim o horror de dois irmãos cuja mãe, sem comida na Grande Cidade, deposita em casa da avó, na Pequena Cidade. Num tempo e espaço indefinidos, mas situados no séc. XX, algures na Europa Central, as crianças vão endurecer os corpos e os espíritos para que coisas como amar ou matar lhes não sejam penosas. Obra dura, cruel. Que me deixou com a sensação de que terá influenciado, no estilo e na temática, obras nacionais muito badaladas.

Impaciência

Em reclusão desde sexta-feira, com febre acima dos 39, ainda tentei preencher os momentos em que o Brufene me arranca da sonolência vendo televisão. Não dá: dias e dias a falarem do jogo de futebol que ainda não aconteceu ou já aconteceu; a tentativa constante e acintosa de degradar as relações entre as pessoas -- políticos, dirigentes, ninguém escapa -- com intrigas de comadres baseadas no disse-que-disse; reportagens que se arrastam à porta do local de um qualquer evento, crime, incêndio, etc., a debitar palavreado sem significado e em mau Português. E, pior, a conversa dos dirigentes da oposição que continuam a não querer ver a alhada em que estamos metidos e de que não estão inocentes. Das duas uma: ou isto estoira, e não adiantará dizer depois que tinham razão; ou sobrevivemos, e espera-os uma longa travessia do deserto.
Há um tempo para falar e um tempo para o silêncio. Neste 2012, já tão sofrido, bom seria que nos uníssemos. Não faltará tempo para punir políticas erradas. E Seguro que se deixe de fazer, também ele, o papel de intriguista. Mais do que azedar as relações entre ministros, cabe-lhe apresentar ideias exequíveis, uma política em que demarque o seu partido do governo. Como comadre calhandreira não chega a primeiro-ministro.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O conto desta semana

Já está disponível AQUI  a história desta semana: uma jovem professora primária é colocada numa aldeia da serra e em vão tenta mudar o destino que espera os seus alunos.

Tadinho de mim

A gripe deitou-me abaixo. Em vivo ardor tremendo estou de frio. Espero recuperar a tempo de participar no treino de Almeirim de instrutores e avançados, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto no próximo domingo. Ou, se não puder participar, pelo menos assistir e almoçar com a rapaziada. 
Cá pela família, isto está mau. Somos quatro engripados, quem está pior é o Afonso, com  febre acima dos quarenta, que não baixa com os medicamentos. Estas novas estirpes parecem muito mais agressivas.
Saúde para todos, especialmente para aqueles que também estão doentes.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O conto desta semana

Não é propriamente um conto, embora possa ser lido como tal; é um dos capítulos de uma novela inédita. Custou-me muito a escrever, de tal forma que depois, durante mais de um mês, não consegui escrever nada. Até começa pacífico, com a descrição de uma escola primária de aldeia serrana nos anos 60. Homenagem minha aos professores que mais contribuíram para a nossa formação: os primários. Depois... 4 pp. A ler amanhã.

Objecção de consciência

Sempre disse muito claramente que não iria aplicar o novo acordo ortográfico. Já nem tenho paciência para explicar as numerosas razões desta decisão, tomada em consciência, apesar do risco de vir a ser sancionado. E é inútil lembrarem-me de que antigamente farmácia se escrevia com ph, pois passo muito do meu tempo a ler textos antigos, alguns dos quais  remontam à alvorada da nossa literatura, em finais do séc. XII. 
Diferente foi a atitude de muitos dos meus colegas, uns por, em consciência, concordarem com as alterações propostas, outros, raros, porque sempre correm atrás das modas.
Hoje foi a vez  da Presidente da Associação de Professores de Português sair em defesa do novo acordo em declarações ao DN:

A Associação de Professores de Português (APP) "lamenta" as declarações do secretário de Estado da Cultura sobre possíveis alterações ao Acordo Ortográfico (AO), e considera que se anda "a brincar" com o Ensino.
Em declarações à Lusa, a presidente da APP, Edviges Ferreira, afirmou que "é de lamentar as declarações do secretário de Estado [da Cultura], e também que entre os governantes não haja acordo".
A responsável recordou que "saiu uma portaria do Ministério da Educação, segundo a qual os professores são obrigados a aplicar o novo Acordo Ortográfico a partir do ano letivo 2011/12, a decorrer".
"E agora com que cara vão dizer aos alunos que cada um escreve como entende", questionou a docente.
Edviges Ferreira considerou estarem "a brincar com os professores, alunos, pais, e toda uma comunidade".
Para a presidente da APP as declarações de Francisco José Viegas "destoam da contenção orçamental que nos é exigida", referindo os gastos já feitos com "os manuais escritos já impressos segundo as novas regras" e os que implica a reformulação das regras.
Declaração de interesses: em devido tempo, desvinculei-me da referida associação por entender que não defendia devidamente os interesses dos professores de Português. Este comunicado bem o comprova: afinal, um dos motivos para a rejeição de alterações reside nos custos dos manuais já impressos pelas editoras. Pena não ter denunciado o preço indecente dos manuais escolares, pena não ter avançado com propostas para reduzir o seu custo, purgando-os daquilo que pode ser cortado, o que melhoraria a respectiva operacionalidade. 
Talvez por detrás desta rejeição indignada esteja algo mais profundo e difícil de erradicar: o apego ao eduquês. Que, qual hidra, continua peçonhenta com todas as suas cabeças intactas, quase um ano após a tomada de posse do ministro Nuno Crato-- que, já deu para ver, não é nenhum Hércules.

Ai, estes eufemismos!

Ou a crença de que o termo empregue muda a realidade da coisa:
António Costa rejeita que a Câmara de Lisboa esteja a estudar o surgimento de um bordel na Mouraria, mas admite que foi apresentada uma proposta com vista à criação de “uma safe house” onde, entre outras coisas, as profissionais do sexo se poderiam dedicar a uma “prática segura” da sua actividade. (Ler aqui)
Para evitar a António Costa o recurso a estrangeirismos, sugiro, em alternativa a "bordel", que parece incomodá-lo: lupanar, alcouce, prostíbulo, casa de putas, casa de meninas; ou um dos termos arcaicos "mancebia", " putaria",  "Safe house" não lembra ao diabo, e escandalizaria os egrégios avós.

ADENDA: lembrei-me entretanto de que anos atrás um autarca espanhol, Jesús Gil, creio eu, ganhou umas eleições com a proposta de construir em Marbella um putódromo. Neologismo bem melhor do que safe house.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O espectro

Sinto, desde há dias, que o próximo romance me ronda, insidioso. Em breve tornar-se-á imperioso, não terei como o evitar, não encontrarei maneira de lhe fugir, e apenas o escrevê-lo me dará paz. Se é aquele que pressinto, não o quero. Vade retro Satana!
Médium que sou, não me cabe escolher os espectros que me visitam. Apenas dar-lhes voz, a contragosto embora. Ah, não poder escrever antes  sobre a Primavera e os verdes campos, as brancas ovelhinhas que neles pastam, as abelhas azafamadas de flor em flor, os pastores que dirimem os conflitos amorosos a trinados de flauta!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A terra a quem a trabalha

Desconfio de políticos bem intencionados. A ministra da agricultura, que resiste à seca com fé, preocupa-me. Não é que agora quer roubar à esquerda uma velha causa?

Rosa Soares, Ricardo Garcia
O Governo quer identificar todas as terras em Portugal às quais ninguém se apresenta como dono, reclamá-las para o Estado e distribuí-las para quem as queira cultivar.
Parece tão boa, a ideia. E todos sairemos a ganhar, não é? Mas não seria de fazer, antes de falar, um estudo da aptidão agrícola desses terrenos, do seu relevo, dimensão média, dispersão, viabilidade económica, etc.? E, já agora, outro estudo que mostre quantos portugueses estão dispostos a trabalhar a terra? Leio um pouco mais da notícia revolucionária:
A identificação destas terras será feita no âmbito da realização do cadastro das propriedades rurais, que o Governo quer realizar em quatro a cinco anos, com recurso aos dados que a administração central já tem na sua posse - como informações sobre impostos, subsídios agrícolas e registos públicos.
Ah, então é isso: uma versão da actualização do IMI, a incidir sobre os terrenos agrícolas! Desiluda-se a esquerda, desiluda-se quem abomina os campos incultos, as terras perdidas. Não é a reforma agrária que aí vem, é apenas o agravamento de um imposto. Ornado de boas intenções.
Por isso, faço minhas as palavras de ordem dos anarcas, em plena reforma agrária:
Mortos, fora dos cemitérios, que a terra é de quem a trabalha! 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

A Sereia. Está aqui.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

Amanhã publicarei A Sereia, um dos meus favoritos. 2pp., 748 palavras.

A árvore das patacas (2)

1976. Estava sozinho na sala de professores. Entra um tipo de gabardina apesar do calor, mais sebento do que o detective Columbo. A tresandar a cinzeiro.
-- É pá, já pagam? -- pergunta-me rudemente, à queima-roupa.
E eu, sem saber com quem falava: -- Ainda não. Creio que é só a 25.
-- Vou pôr uma bomba nesta merda. Olha, vou é prá Rússia, que lá há putas e vinho verde!
E desapareceu dali. Soube depois que estava de baixa por maluqueira. A receber o ordenado como se trabalhasse. Aprendi mais tarde que os malucos ganhavam o mesmo, progrediam por igual na carreira, só não precisavam de trabalhar. Na pior das hipóteses, colocavam-nos na biblioteca.

A árvore das patacas (1)

(Ao telefone)
-- Soube que a vossa empresa está a meter pessoal...
-- É verdade...
-- Quero marcar uma entrevista. Vocês pagam bem?
-- Bom, pagamos acima da média.
-- Mas olhe que só vou se me pagarem pelo menos três mil euros por mês!
-- Só três mil? Aqui pagamos melhor. Apareça amanhã às oito da manhã.
(-- É pá, esqueceste-te de que só abrimos às nove?
-- Claro que não. O gajo há-de levantar-se cedo uma vez na vida. E perder a manhã, a ver se aprende alguma coisa.)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Velho Défice, Empréstimo, o Rapaz, e o Burro Pibe

Com a despensa vazia, o Velho Défice resolveu ir aos Mercados. Albardou o Pibe, levou consigo o neto Empréstimo para aprender a comerciar. Contentes todos como a madrugada que se abria em luz, cantorias e promessas, por razões diferentes embora: Grandes negócios vamos fazer, e o Velho esfregava as mãos de contente. E o Neto Empréstimo, mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque, finge interesse nos negócios: como nos receberão nos Mercados?
Não vês tu este dia radioso, que nos augura negócio vantajoso?
Antes nada dissesse: logo o céu enegrece, vem o vento agreste, esfria o ar matinal, desaba forte temporal. Mau prenúncio.
E uma turista para outra, vinda dessas alemanhas, a pedalar rijo na bicicleta para não ganhar banhas: Coisa estranha esta é! O malandro do Velho folgado a cavalo, o pobre Moço a pé!
Acabrunhado, diz o Velho para o petiz apeado: Troquemos, monta tu o Pibe a cavalo antes que alguma alemoa nos pregue um estalo.
E um loiro, finlandês talvez: Coisa nunca antes vista, a cavalo o rapaz, a pé o pobre velho já incapaz.
Montemos então os dois o Pibe, a ver se essas agências não ralham mais, diz o Velho Défice. Que dirão de nós nos Mercados?, demanda ao Neto, sobrolho carregado.
Que fazeis, desalmados? Ah, não aparecer a Protecção dos Animais! Não vedes que assim o pobre Pibe esmagais?
Apeemo-nos, vamos à pata, que o Pibe siga seu caminho aliviado, até lhe solto a arreata.
Logo, logo, coro de protestos indignados: Coisa jamais vista, Défice e Empréstimo apeados para o Pibe se sentir aliviado!
E o Velho, sempre atento às vozes do Mundo: Levemos então nós o Pibe às costas.
Gargalhadas trocistas de uns deputados socialistas: O Velho Défice agora é avarento e carrega às costas o Jumento! E as moças do Bloco, para lhes não ficar atrás: Uma criança ajoujada sob o peso da montada! Para que quereis tal asno, a que Pibe chamais, se nele não montais, antes às costas o carregais como se fôsseis vós os animais?
E o Velho Défice, sem outras ideias, pergunta-me, como se a sábio se dirigisse: Diz-me tu, ó Zé, que muito estudaste, Que farei com esta montada, Pibe chamada, como contentarei as agências e calarei as vozes do Mundo, que faça o que fizer, me criticam a cada segundo?
E eu opino também: Devias saber, ó Velho, que quem quer ganhar eleições põe-nos o burro sobre o costado. Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado.
José Cipriano Catarino

O conto desta semana

Despedimento com justa causa. Um empresário retira o filho da escola por mau comportamento e, como castigo, emprega-o na sua fábrica. Mas o jovem apaixona-se, deslumbrado por imagem voluptuosa...
5 pp. Pode ser lido aqui.

O João

O João e o avô


O João dorme... Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
Ó mar! falla mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...

Ó Mae! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vae sem se sentir.

António Nobre (fragmentos)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Tetra-avô

Nasceu hoje o meu quarto neto; ei-lo na foto aqui ao lado. Mãe e bebé encontram-se bem.

Encontro com escritores

Encontro muito agradável e muito interessante na Livraria Arquivo, em Leiria. Do espaço ao interesse e às questões da assistência, às intervenções dos jovens escritores (João Tordo, Nuno Camarneiro, David Machado), da editora Maria do Rosário Pereira e à moderação de Álvaro Romão  -- tudo excelente. Um prazer muito instrutivo. Agradou-me sobremaneira a consciência que aqueles jovens escritores têm da importância da sua participação na sociedade, da utilidade social do seu trabalho, o seu sentido do devir. E mais não digo, que preciso já de fazer outro post: durante a viagem para o encontro soube que o meu quarto neto tinha nascido. 

Excelente

Esta crónica da Ivone. Ou a arte de transformar uma observação trivial num texto muito, muito bom. Eu, que não partilho o seu pessimismo nem acredito nas potencialidades criativas da tristeza, já o reli uma meia dúzia de vezes.

O conto desta semana

Há uns anos, o pintor João Alfaro, depois de ler o meu conto A Sereia (não publicado), desafiou-me: -- Devias escrever uma história sem sexo.
Escrevi então algumas, entre as quais a que publicarei amanhã: Despedimento com justa causa.  Passa-se lá para os lados do Cavaquistão, em finais do Cavaquismo. Talvez ajude a recordar como e porque é que chegámos à pré-bancarrota. E, sobretudo, que as causas persistem, confundindo-se com os seus efeitos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O título do lacrau

Há dias expliquei aqui o título de Entre Cós e Alpedriz. O lacrau, o meu primeiro romance, quer também ver explicitada a razão de ser do seu título:

Ao fundo, de costas para o Lis, atrás de uma mesa tosca, sem funil nem megafone, estava de pé um homem de boina, aspecto de cavador. Sobre a mesa, em duas caixas de sapatos, escorpiões agitavam caudas e tenazes em tentativas frenéticas para fugir do cativeiro. Sempre que algum o conseguia, caindo sobre a mesa, as mãos encortiçadas do curandeiro seguravam-no, pegando-o entre o polegar e o indicador. Então levantava-o à altura dos olhos, deixava o medo e a repugnância crescerem entre a assistência, e voltava a colocá-lo na caixa de onde se evadira.
As pessoas aproximaram-se, mas não demasiado, e observavam, curiosas e horrorizadas, os homens tecendo comentários sobre o que sucede à pessoa que tem a desdita de ser picada pelo ferrão de semelhante bicho, as mulheres apertando os filhos pequenos ao peito ou, se mais crescidos, agarrando-os firmemente pela mão para que a curiosidade juvenil os não fizesse aproximar demasiado, advertindo-os sobre os perigos deste inimigo da humanidade, eles e elas recordando o velho aforismo: Se o lacrau voasse e a víbora visse, não havia ninguém que no mundo existisse.
Quando a multidão se adensou, o curandeiro falou. Segurou um lacrau à altura dos olhos, para que todos o vissem bem, das tenazes que se agitavam convulsivamente ansiando por presa até ao ferrão que procurava em vão vítima, e disse:
— Este bicho é mau e nojento, mas bem pior é o que alguns de vocês têm dentro do próprio corpo, talvez sem ainda o saberem.
O silêncio arrepiou a multidão, espraiou-se como água agitada por pedrada até às últimas filas e retrocedeu outra vez até ao centro. Então o curandeiro falou de novo:
— Uma picada mata, uma picada cura. A picada do lacrau mata a pessoa... ou o escorpião que a devora. É preciso saber escolher. Lacrau macho para cancro fêmea, lacrau fêmea para cancro macho. Quem quer experimentar?
(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)

A epígrafe deste blogue

A frase que serve de epígrafe a este blogue ocorre neste excerto de Do lacrau e da sua picada:
Calmamente arranja-se para sair, está uma linda tarde de Inverno, dará uma volta a pé, quando regressar sentar-se-á num dos bancos do jardim em frente à sua casa, sorrirá vagamente porque é a primeira vez que o faz desde que ali mora, ela é mulher de centros comerciais e de bares, não de jardins públicos e ar puro.
Pela janela, o Luís avista-a, tem um impulso, correr até ela como fazia em criança, contém-se, com a idade vai ficando mais tímido. Atira-se novamente para cima da cama, não sabe o que pensar, mas julga que tem de pensar qualquer coisa, talvez seja sua obrigação ralhar com a mãe, persuadi-la. Contudo, ela falou de modo tão seguro que pressente não valer a pena insistir, embora algo lhe diga que é essa a sua obrigação, os filhos devem tomar conta dos pais, especialmente o Luís, que tem pais tão difíceis. Chora impotente, convencido de que se já fosse um homem saberia o que fazer, mal ele sabe que está enganado, os homens, mesmo muito velhos, morrem meninos.
O Sol desce rapidamente no horizonte e é escondido pelos prédios de andares que circundam o jardim; o frio instala-se. A Lúcia regressa a casa, está calma, como se tivesse encontrado algum sentido para a sua vida. Começa a cozinhar, sem mau humor, quase com prazer, embora algo distraída. Não nos enganemos, não é nem nunca será uma dona de casa prendada, cada qual é para o que nasce, apenas precisa de actividade física ou então sabe que tristezas não tiram o apetite a rapazes de catorze anos. Pelo canto do olho, vê chegar o filho, que começa a ajudá-la sem que lho tivesse pedido. Sorri-lhe. Ele fala:
— Mãe, acho que devia ralhar contigo, mas não sou capaz de o fazer. Conta-me tudo: quem é, porque é que te queres casar, o que vai ser de mim...
A mãe pega-lhe ao colo. Não é fácil, o Luís já é bem maior do que ela, faz-se a olhos vistos um latagão como o pai. Desta vez, ele não resiste. Deixa-a acariciar-lhe o cabelo, beijá-lo, Ah, é bom voltar a ser criança novamente, um dia o Luís descobrirá que um homem é só uma criança crescida, não precisa de se envergonhar por chorar no colo da mãe, que se explica no tom de voz meigo com que antigamente, quando fugiram de casa do pai, lhe contava histórias para o acalmar e adormecer: (...)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Álgido Inverno

Apropriado para o mês, este poema de Camilo Pessanha. Lembro-me de que me saiu num teste de Introdução aos Estudos Literários, na Faculdade de Letras de Lisboa, muitos anos atrás. Era professora da cadeira Margarida Vieira Mendes, que se viria a doutorar sobre o Padre António Vieira. A morte levou-a demasiado cedo. Recordo com saudade o muito que aprendi com ela.


Passou o Outono já, já torna o frio...
-- Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
-- O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
-- E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha, Paisagens de Inverno II, Clepsidra

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entre Cós e Alpedriz

Levei anos a escrever este romance e durante a maior parte desse tempo intitulei-o Joaquina Guiomar Afonso, inspirado numa cantiga de amor de Roi Queimado:
"Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!

Quando estava quase terminado, teve o mesmo título do último capítulo, De um Verão até ao outro. Só mesmo no fim lhe atribui o título definitivo, que tem o inconveniente de levar alguns leitores a chamarem-me escritor regionalista. 
Não que o epíteto me aborreça: o mesmo dizem, igualmente sem razão, do grande Aquilino; mas considero-o inapropriado: como o meu amigo Arnaldo Marques escreveu então, a matéria do romance
"... é historicamente o século XX português, abafado pela longa e pesada herança salazarenta, vivido numa aldeia do concelho de Alcobaça -- Montes, situada entre Cós e Alpedriz..."
O título final, extraído do dito local Entre Cós e Alpedriz qualquer burro é juiz,  revelou-se certeiro, como salientou na apresentação na Junta de Freguesia dos Montes o falecido dr. Sapinho, então Presidente da Câmara de Alcobaça,  e como confirmam as 5 (pequenas) tiragens que fiz da 1ª edição. E o sucesso não pára: segundo o Google, já há quem o use pelo Brasil. Não faço birras nem cenas sobre autoria e paternidade -- inspirar outros, ser porventura plagiado, envaidece-me. Mas, que diabo, vejam o Google Maps (clicar para ampliar)! Entre Cós e Alpedriz -- só os Montes, outrora terra de Muito vinho e poucas fontes.
NOTA: não é marketing. Tenho apenas meia dúzia de exemplares e pouca vontade de me pôr a fazer a 2ª edição, corrigida com os testemunhos de intervenientes.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

É. como anunciei, Os cornos do diabo, Prémio Irene Lisboa 2010. 15 pp. Para ler, clicar no link.

A Amásia

Sentido de humor ou distracção? É que baptizar "Amásia"  o futuro continente não lhe augura nada de bom. Porque o termo é, toda a gente o sabe, pejorativo. Notícia no Público Online:

Supercontinente Amásia deverá formar-se junto ao Pólo Norte

"A Terra terá um novo supercontinente dentro de 50 a 200 milhões de anos. Amásia resultará da junção da América e da Ásia, segundo geólogos da Universidade de Yale"
.

O conto desta semana

Amanhã disponibilizarei um conto já bem conhecido: Os cornos do diabo, vencedor do Prémio Irene Lisboa 2010 com o título Crime na Capital. Eis o excerto que motivou o título:
Choca-me ouvir criticar defuntos, quanto mais num caso destes, em que a própria viúva, em vez de se desfazer em lágrimas, se desfazia em insultos ao morto. Ah, mas que não pensasse eu — e olhou-me de maneira estranha, como camponês em feira que avalia gado cobiçado, mas ainda não comprado — que ia envelhecer a carpir a morte de semelhante patife. Ainda hoje, ele a entrar no Inferno, e ela a meter um qualquer na cama, nem que tivesse de telefonar para alguma agência. Sempre se portara bem, mas isto fora o cúmulo, ainda por cima notícia de jornal para toda a gente se rir dela, pobre coitada — falava como se o Jorge fosse o culpado da bala assassina — ah, havia de bater com os cornos no umbral das portas do Inferno. Afinal, diabo precisa de cornos, não é assim? — e novamente o olhar me perturbou, como se já me tivesse escolhido para a tarefa por demais obscena de cornear amigo recém-defunto.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um conto por semana

Vou publicar em cada sexta-feira um conto no SCRIBD e colocarei aqui o link para os interessados. É um esforço de organização, reunindo num único local textos que andam dispersos por numerosas pastas no computador e discos externos.  Para começar, "El chupacabras", conto velhote: um casal de investigadores na meia-idade acampa num planalto algures na América Latina. Consta que el chupacabras anda por perto... 2 páginas a espaço e meio, 976 palavras.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

De volta

aqui o escrevi: a escrita de um romance canibaliza-me, devora tudo o que tenho, obceca-me quase por inteiro, esvazia-me, esgota-me as ideias, faz-me duvidar seriamente das minhas capacidades e, sobretudo, da de voltar a escrever. Desta vez, a paragem foi mais longa do que o habitual: terminei o romance em finais de Dezembro e só hoje voltei à ficção, com um microconto que aqui publicarei logo que suficientemente aplainado. Já o romance concluído não verá tão cedo a luz do dia: primeiro, precisará de conhecer a derrota nos raros concursos e prémios literários a que posso concorrer.