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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A meados de Agosto

Longo. Fragmento de Um amor inventado (inédito), que surge aqui a propósito da chuva desta noite.

"Foi a meados de Agosto, altura em que o tempo muda e o calor do Verão é, por dois ou três dias, substituído pela fresquidão outonal. Começara a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, colava-se às pessoas, às árvores e às casas, tombando depois já reunida em grossas gotas, enlameando o pó dos caminhos, encharcando a terra, onde depressa desaparecia, sorvida pela sequidão dos campos. Uma nuvem de vapor desprendia-se amarelenta das lâmpadas de iluminação pública, inaugurada meses atrás, e unia céu e terra numa melancolia invernosa que fazia ansiar precocemente por castanhas e lareira. Dentro de dias o Estio voltará, mas, por enquanto, a tristeza deste interregno invernoso contagia a aldeia, encerra as famílias em casa, já ao borralho, a que só os rapazes resistem, trocando a monotonia doméstica pela conversa à porta da igreja, onde, mal abrigados da morrinha incessante, se apertam uns contra os outros, espremendo-se, empurrando-se mutuamente para a chuvinha miúda, soltando gargalhadas estrondosas, proferindo heresias, berrando besteiras e palavrões que, se não escandalizam Santa Marta, que os contempla enigmaticamente do alto do seu pedestal, incomodam a vizinhança, que jamais se habituará a estes pequenos desmandos da juventude de todos os tempos. Mais para a noite, dão uma corrida rápida até à tasca do Ameixa, a escassos cem metros, e por lá se deixam ficar até que feche, fazendo salão a troco de pouca despesa, para frustração do taberneiro que já devia ter percebido que jamais enriquecerá com clientes como estes. Pois não só não percebeu como instalou à sociedade, na semana passada, dois jogos de matraquilhos e ouve deliciado, como se fosse caixa registadora cantando de alegria, o som da introdução das moedas, o matraquear das bolas que saem de roldão para iniciar novo jogo. Desiluda-se: quando, no final do mês, na presença do proprietário, abrir as caixas dos jogos encontrará, em vez do esperado montão de moedas de dez tostões, anilhas e caricas espalmadas...
Começam a rumar para casa, primeiro os mais supersticiosos, receosos de que a meia-noite traga ordem de soltura para o sobrenatural, depois abalam os outros, ao verem-se sem companhia e porque amanhã é dia de trabalho; por fim, saem os bêbedos, quase postos na rua pelo taberneiro, que entende serem horas de ele próprio ir descansar.
Depressa a chuvinha os empapa e eles estugam o passo, uns por medo, outros para fugir à molha, e entrarão nas casas ou nos palheiros onde dormem, fechando aliviados atrás de si a porta que os isola do outro mundo e deste, agora pouco agradável. Deitar-se-ão e adormecerão imediatamente, exaustos de um longo dia de trabalho, não ouvindo já o cantar dos galos que, sem que se saiba como, marcam agora o início, mais tarde o fim, do período em que as coisas do Além podem atentar os vivos. Pouco depois, a aldeia dorme sossegada, perturbada talvez por ronco mais forte aqui, por gemidos amorosos ali, por briga feia além, entre casal desentendido, talvez porque o homem chega sempre bêbedo a casa...
É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar, tem de destruir tudo por onde passa; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já, balde na mão, enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau-olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.
Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do dono e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por carraças e solidão."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Treino individual

Sou adepto da actividade física. Dia em que me falta nem durmo bem. Encontrei no karaté, trinta e um anos atrás, a modalidade certa para mim.
À tardinha, no meu alpendre, tendo por companhia o meu cão, já habituado à doideira do dono, exercito-me, repito vez após vez as minhas katas favoritas, com o desgosto de treinar algumas delas há mais de um quarto de século e não as conseguir executar satisfatoriamente. É o caso de Tekki Shodan. Um dia, hei-de conseguir executá-la irrepreensivelmente. O filme é um exercício de auto-flagelação. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Comissões de boas vindas

Agosto de 1981. Universidade de Montpellier. Nós, bolseiros, chegáramos dos quatro cantos do mundo. Os russos, então soviéticos, não falavam com ninguém - estavam proibidos, ou receavam o controleiro, o único que interagia com a universidade. Os polacos, por um mês fora da cortina de ferro, extravasavam a alegria e logo no primeiro domingo surpreenderam o padre ao encherem-lhe a igreja. O controleiro russo tenta conversar com eles. Viram-lhe as costas com desprezo: França é terreno neutro, on en a assez, ils nous emmerdent en Pologne. E havia os chineses, inchados com a sua revolução.  Todas as manhãs batiam à porta do professor responsável: se os norte-americanos já tinham chegado. E um dia chegaram. Ei-los que finalmente podem cumprir a missão para que se haviam preparado: punho erguido, cantam para o surpreendido gigante barbudo americano, calções, tronco nu, o hino Abaixo o imperialismo yankee!
Esperariam talvez poder reatar ali, no quente Sul de França, os conflitos do Sudoeste da Ásia. Mas o americano, sem parecer compreender a declaração de guerra, tomou a provocação por simpática recepção, agradeceu, e retirou-se para dentro do quarto. Suponho que no regresso à China terão sido recebidos como heróis, eles que, mais uma vez, e nos antípodas, provaram que o imperialismo americano é um tigre de papel.
Lembrei-me deste episódio hoje, ao ver no telejornal um grupo de sete manifestantes a protestar junto à casa de férias do presidente da republica. Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares, só o ridículo é o mesmo de sempre. 
FOTO: em Montpellier, com parte do grupo português. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Grande GNR!

Que tão bons resultados fornece para as estatísticas! Não é que apanha um produtor caseiro de cannabis por dia? Espantoso. Suponho que  se trate de produção para consumo próprio, da tal que  prejudica os traficantes. Há, portanto, que a combater encarniçadamente. Fico à espera que a GNR apresente resultados semelhantes no combate ao roubo e tráfico de cobre e aos sucateiros receptadores. Aos assaltantes de caixas multibanco com  explosões de gás. À gatunagem, grande e pequena.
(Com excepção de raros medicamentos, café e bebidas alcoólicas, nunca toquei em substâncias estupefacientes).

União Ibérica

Em Espanha é que era bom -- e não falavam então dos caramelos de Badajoz, do azeite baratino, que viria a vitimar mais de mil pessoas. Nem das aspirações independentistas do País Basco ou da Catalunha. Eram os salários, era o nível de vida, eram as reformas aos cinquenta anos ou antes. As vagas em Medicina. Os horários de trabalho. As estâncias de férias. O TGV. Lá tudo bom, por cá tudo uma miséria. Um presidente da república portuguesa chegou ao extremo de pôr em causa a própria nacionalidade, ao dizer em discurso oficial algo como "... de Espanha, de onde talvez nunca nos devêssemos ter separado." 
Ridicularizavam as minhas ideias patrióticas, os versos de Pessoa com que os tentava contraditar, a eles e a elas que tão bem espelhavam o pior do nosso povo  quando a alma lhe falta, e não lhes escasseava auditório nem aprovação para os seus argumentos interesseiros, materialistas, reles, a sobreporem a cupidez à pátria, à língua, à cultura - que não tinham, que não têm.
E veio a crise. Terrível, desmoralizadora. Com a gasolina muito mais barata do lado de lá da fronteira, hoje tão fácil de passar que não fora a língua e nem saberíamos que estávamos em país estrangeiro. O fecho das maternidades alentejanas e os consequentes partos espanhóis. Os impostos, muito mais pesados por cá. As portagens nas antigas SCUT. Os cortes de salários e de subsídios. Com o agravar da crise, novos argumentos e mais poderosos deram sustento à integração ibérica: antes a gozar a próspera dominação castelhano que a sofrer a espartana austeridade imposta pela Alemanha. Antes com nuestros hermanos que sob o jugo da troika, a ouvir funcionários de quarta ou quinta linha, como os designou um banqueiro, a darem-nos lições de governação em conferências de imprensa, como se nossos governantes fossem.
Espanha receava o contágio português. Itália receava o contágio português. Obama receava o contágio português: não somos a Grécia, não somos Portugal, ouvi-o eu dizer.
Todos nos receavam porque portadores de doença contagiosa grave: caloteiros calaceiros.
Hoje, dois anos depois, somos nós que receamos o contágio espanhol, somos nós que vemos na sua crise a maior ameaça à nossa recuperação. Não se ouvem agora as vozes que defendiam a União Ibérica. Mas voltarão a fazer-se ouvir, logo que Espanha volte a estar melhor do que nós, o que inevitavelmente acontecerá - isto se, com a crise, se não desagregar. Porque, toda a gente sabe, ou deveria saber, Espanha nunca existiu como nação e casa onde não há pão... 
Nós, portugueses, a única das nações ibéricas a sacudir a hegemonia de Castela, devíamos ter memória e, futuramente, o bom senso de não defender, mesmo como mera hipótese académica, a União Ibérica, saco de gatos de onde povos e nações (bascos, catalães, galegos...) sonham sair.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crítica ao crítico

José Mário Silva, crítico literário, poeta e contista, é sobejamente conhecido, em parte graças ao blogue Bibliotecário de Babel, e a iniciarias que tem promovido com sucesso, como a Grande Oferta de Livros.
Recentemente brindou-nos com o microconto Um Bilhete para Anchorage, em que mais uma vez evidencia a sua maestria no género, de que saliento a economia da narrativa, o ritmo e o final, que não sendo surpreendente, está bem conseguido. 
Li e reli a história, como sempre faço quando elas me agradam, para as saborear melhor, para apreender a técnica, e, confesso, em busca de fragilidades. É este um defeito meu, que me acompanha desde criança e me motiva para a escrita: a convicção de que com uns retoques muitas narrativas poderiam melhorar -- isto de acordo com o meu gosto.
No conto, JMS glosa a história do homem que, desapontado com a vida, sonha desaparecer para recomeçar algures -- neste caso, no Alasca. Até aqui, tudo normal. Sou daqueles que acreditam que todas as boas histórias foram há muito escritas, pelo que nos resta inovar no modo de as contar, actualizando-as, adaptando-as talvez ao tempo em que vivemos e ao gosto da nossa época. Ora é aí, no contexto, que me parece existir algo a melhorar. Sem ter a pretensão de ensinar a escrever a José Mário Silva, atrevo-me a recordar-lhe que apreendemos a realidade através dos cinco sentidos e se alguns deles não participam nessa apreensão, a narrativa pode não conseguir atingir a ilusão do real que torna as histórias verosímeis. Por exemplo, se se aceita que o Alasca surja estereotipado, por se tratar da quimera com que o pai do protagonista sonha, já a cena do hospital ganharia em verosimilhança com pormenores olfactivos que transportassem o leitor para os cuidados intensivos, acompanhando o protagonista. 
Um bom conto, técnica narrativa apurada. Venham mais.

O professor, o cartaz, Relvas

Roupa suja lava-se em casa. Não aprecio, portanto, protestos no estrangeiro envolvendo questões domésticas, os quais em nada nos dignificam enquanto povo e nação, e menos aprecio que essa campanha seja feita por alguém que é apresentado como professor.
Não é assim que se dignifica a 'classe', por demais desprestigiada, sobretudo por nós, professores, que nem sempre sabemos estar à altura das nossas responsabilidades sociais e culturais. A nossa revolta, a que não faltam causas, não nos devia fazer esquecer da nossa função. A não ser que desejos de protagonismo mediático se sobreponham e obliterem a razão...
Nota: não tenho a menor simpatia por Miguel Relvas, nem o menor apreço pelo que fez para se 'licenciar'. O meu caminho foi sempre outro. 

O bosão de Higgs

 O bosão de Higgs fascina-me desde que ouvi falar dele, não muito tempo atrás. Pelo que julgo ter compreendido, o dito bosão (não faço ideia do que isso seja) preenche o espaço como um oceano infinito e dá massa às partículas que com ele interferem, de forma semelhante à resistência que sentimos ao caminhar na água. Se uma partícula, um fotão, por exemplo, não  interfere com ele, não tem massa. Faz sentido, até porque parece não existir explicação alternativa para a existência da massa. O que não entendo, e não vi ainda explicado em lado nenhum, é (i) o que dá massa ao bosão de Higgs (cento e tal vezes a do protão) e (ii) sendo ubíquo porque é que é tão difícil de encontrar.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Réstia de cebolas

Faria melhor figura se dissesse que faço agricultura biológica, a qual escapa ao estigma da agricultura rasteira. É que a biológica tem a seu favor o ser feita por gente culta, de meio social favorecido, que exerce a actividade quase como desporto. 
Mas - que hei-de fazer? - sou do contra, avesso a modas e modismos, e entendo que toda a agricultura é biológica, feita ou não com recurso a adubos químicos e pesticidas. Não usei nada no caso destas cebolas, que, coitadas, nem água viram de Novembro a Abril porque o céu a não deu. Mas noutras culturas, como a da vinha, não me venham com tretas: ou combatemos as pragas, sobretudo o míldio e o oídio, ou não teremos vinho nem vinha. E ninguém me consegue convencer de que são preferíveis os tratamentos exclusivos com os produtos químicos empregues na agricultura biológica, como a calda bordalesa (sulfato de cobre e cal) ou o enxofre, os quais têm em seu desfavor menor eficácia - nenhuma, até, no combate ao Black Rot. 
Agricultura rasteira, portanto. Na foto, hoje a fazer réstias de cebolas enquanto o povo torra feliz nos areais de Portugal, indiferente a crise e a  troika. Enfim, cada qual diverte-se como quer ou como pode.

domingo, 29 de julho de 2012

Gratidão

Rentes de Carvalho foi um dos raríssimos escritores a aceitar receber um exemplar de Entre Cós e Alpedriz. Leu-o e enviou-me o seguinte comentário, que me encheu de satisfação (suponho que por volta de 2010):

Caro colega,
Em quatro noites seguidas fiz a leitura de “Entre Cós e Alpedriz”. Sinceramente lhe posso dizer que o primeiro parágrafo me entusiasmou de tal modo que com grande interesse continuei a ler. A sobriedade da cena de violação e, sobretudo, o sugerir em vez de mostrar ou detalhar, são prova de quem sabe o que encerra o mister escrita.
Essas excelentes qualidades notam-se em várias cenas, e notavelmente no final, quando Joaquina revê o seu passado.
 Assim, pois, lhe dou aqui merecidos parabéns. “Entre Cós e Alpedriz”  não é um livro perfeito -- não há livros perfeitos -- é, sim, um carinhoso, solidário e muito sentido testemunho.
Foi para mim um prazer lê-lo, e grato lhe fico por se ter lembrado de mo oferecer.
Cordialmente,
JRC

Apita o comboio...

Antigamente, se alguém se queixava de ter perdido o comboio, logo ouvia réplica trocista: como é que se perde coisa tão grande?
Hoje é a CP que perde passageiros. Seis milhões só este ano, mais de metade da população de Portugal. Por muito mais pequenos que os passageiros sejam do que os comboios que os deviam transportar, a CP devia, tendo em conta a dimensão da perda, fazer um esforço para os encontrar. E porque o comboio é o meu meio de transporte favorito, sugiro a contratação do "cliente-mistério" para:

  • Comprar bilhete em qualquer uma das bilheteiras deste país para se aperceber da sobranceria com que somos tratados e pôr-lhe cobro;
  • Comprar bilhete na gare do Oriente cinco ou dez minutos antes da chegada do comboio, que é como quem diz consumir-se na bicha, que as máquinas estão avariadas e o funcionário "como tem tempo não tem pressa" (frase roubada a Fernando Pessoa);
  • Pagar o bilhete para ver o que custa a vida: Entroncamento - Oriente e volta, 25 euros em intercidades. Mais caro que de carro, portagens incluídas, parece-me; Faro - Porto, muito mais caro que de avião...
  • Tentar viajar naqueles dez meses do ano em que há greves...
FOTO: No TGV, rumo a Paris, em 2000.

sábado, 28 de julho de 2012

Jogos olímpicos

Lentamente, regresso à normalidade. Na televisão, a abertura dos Jogos Olímpicos. Sobre a cerimónia, faço minhas as palavras de Eduardo Pitta e de João Gonçalves. Foi exactamente o que senti, antes de enjoar e abandonar a televisão. Hoje, ainda olhei para provas de natação. Sem a identificação espectador - atleta, o espectáculo das máquinas bem afinadas a cortar a água, mais parecidas umas com as outras do que os carros da fórmula 1, resulta monótono, desinteressante.
Azares de quem recusa o rebanho, se não maravilha com milhões gastos, luzes e fogos de artifício. De quem lamenta hipocritamente não conseguir ser quinhoeiro  de tanta alegria, de tanta emoção, de tanta felicidade ao alcance da mão.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quando os sinos dobram

O sino dobra novamente a finados...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tempo contado

Rentes de Carvalho anuncia o fecho do seu blogue Tempo Contado. Leitor assíduo, só posso lamentar a decisão do autor; mas compreendo as suas razões pois, como diziam os antigos, não dá para cavar na vinha e no bacelo ao mesmo tempo. Um blogue exige alimento frequente, rouba tempo que faz falta, especialmente quando, como no caso de Rentes de Carvalho ou no meu, todo ele está contado. 
Aproveitemos para ler e reler Rentes de Carvalho nos seus romances e aprender com o mestre. E talvez ele não consiga resistir e cedo interrompa a ausência anunciada.

domingo, 15 de julho de 2012

O espadachim


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os meus leitores no Scribd

Eis a estatística das leituras dos contos que comecei a publicar no scribd no início deste ano. São mais numerosas do que eu pensava e, surpresa,  mais de um terço tem origem no Brasil. A todos os leitores, um abraço, e o desejo de que continuem a ler as minhas histórias. Muito obrigado.
 (clicar na imagem para ampliar)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Zé Manel não vem

A recepcionista levantou-se da secretária e dirigiu-se aos africanos, uns sentados nos sofás, outros de pé, todos silenciosos. Conto, por alto, a maré negra: dezoito! Com quem desejavam falar? Um dos gigantes, numa voz aflautada que faria rir noutro contexto, esclarece: -- É com o Zé Manel que a gente queremos falar. 
 -- Ah, mas o senhor José Manuel não vem hoje! 
Os trabalhadores entreolharam-se alarmados, protestaram ruidosos. O líder atalhou o clamor com gesto de mão: -- A gente não saímos daqui sem falar com o Zé Manel. 
A recepcionista encolheu os ombros e regressava à sua secretária, sem coragem ou sem vontade de argumentar, aparentemente habituada àquelas invasões. Mas reparou em mim, esquecido desde que os imigrantes tinham ocupado a sala: --- É melhor voltar noutro dia. Hoje, isto está complicado. E apontou com o olhar a complicação: aqueles trabalhadores da construção civil, decididos a esperar pelo Zé Manel, o subempreiteiro que recebe da empresa sete euros à hora e lhes paga dois ou três. Se pagar, que pode ter esturrado o vencimento do pessoal numa qualquer casa de alterne. Aqui, nesta empresa respeitável, ninguém tem culpa de nada, se necessário for, chamam a polícia, mostrarão recibos, deixarão bem claro que pulhices não são com eles – apenas com o engajador, o mesmo que todas as manhãs recruta vinte ou trinta imigrantes, sempre diferentes, e manda embora os outros, para que não se atrevam a reclamar, mesmo que lhes pague quanto e quando quiser. Dois andares acima, talvez os administradores sintam algum incómodo por não poderem sair antes que os trabalhadores zangados se cansem de esperar pelo Zé Manel, ou talvez riam da partida que, mais uma vez, pregou aos pretos… 

NOTA: ouvi esta história ao Nuno, anos atrás, quando a construção civil florescia. Fui buscá-la à minha gaveta informática após ouvir hoje, num telejornal, protestos de trabalhadores africanos, também eles subcontratados.)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mundo pequeno

Excerto do mail de uma amiga: (...) o teu livro "Entre Cós e Alpedriz" [me] foi pedido, via Bookmooch, por alguém com nome árabe que está no Reino Unido! :)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Figuras sem estilo

São poucos os leitores que me fazem chegar as suas opiniões e críticas, pelo que cada uma das que recebo me enche de alegria e de gratidão: alguém me leu. Dias atrás, a propósito do conto Figuras sem estilo, um amigo enviou-me por mail este comentário "Gostei do conto, mas preferia que tivesse um final feliz! Coitado do Paradoxo!" Pois, também eu tenho pena do pobre Paradoxo, igual a tantos outros que por aí andam, os quais, tal como ele, dificilmente poderão ser protagonistas de histórias com final feliz...

Jornalismo latrinário

Indigna-se o Correio da Manhã com o despesismo da ministra da Agricultura: levou ao Brasil comitiva de 20 pessoas, que custou ao contribuinte 40.000 euros:
A ministra da Agricultura, Assunção Cristas, levou para a Cimeira Rio+20 uma comitiva de 20 pessoas. Por dois dias no Brasil, foram gastos cerca de 40 mil euros, só em viagens e estadia. O CM foi saber o que é que os contribuintes portugueses têm a dizer sobre estes gastos governamentais numa altura em que lhes são exigidos tantos sacrifícios. O exemplo não deveria vir de cima?
Agisse o autor da notícia como jornalista e, em vez de se escandalizar com o gasto de 2.000 euros por pessoa numa visita oficial, investigaria e exporia eventuais ganhos com a deslocação, tendo em conta que o Brasil é um dos grandes clientes de produtos agrícolas portugueses, como, por exemplo, o azeite e o vinho verde. 
Mas não. É mais vendável a ideia de que todos os políticos são corruptos, trafulhas -- uma cambada de parasitas que vive à custa dos contribuintes. E as cimeiras são férias pagas. É (também) por causa desta mentalidade mesquinha que não passamos da cepa torta.