Número total de visualizações de página

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Tu também sabes

Com ligeiro atraso, aqui vai a prometida história, ouvida ao meu amigo X, e depurada do calão setentrião. Precisa de uns retoques, dar-lhos-ei mais tarde. E há problemas de formatação, culpa do IPad (que fino!) em que estou a escrever. Ainda não percebi bem como funciona.
Zacarias vai à discoteca. Com olho de predador, inspecciona possíveis presas, procura eventuais interesses comuns, espreita fragilidades, fareja carências. Exclui as acompanhadas -- veio para o engate, não para a pancadaria. Tampa após tampa das mais giras, vão-se reduzindo as escolhas. Pela madrugada, só resta uma: trinta e muitos, para o gorducho, para o feio, algum mau gosto no arranjar-se, tristonha – ah, Zacarias está por tudo, atormentado por atrozes dores testiculares, longo é o jejum, esta não lhe pode escapar, é a última oportunidade da noite. Chega-se, educado, melífluo, copo após copo vai-se encostando, escuta-lhe meigamente os desabafos, nada de pressas, mau-grado os protestos da parte baixa, impaciente com tamanhas delongas. E ela fala pelos cotovelos, derrama lágrimas e conta desgraças sentimentais: "Não sei porque é que te conto estas coisas", "Ora, em mim, podes confiar, faz-te bem desabafar", tudo ouve e nada pede em troca, ansioso embora de que ela se deixe de conversas da treta: "Os homens são todos iguais, querem todos o mesmo e apenas isso." Pudica virgem em local destes? Que espera encontrar aqui, afinal? Um príncipe encantado? Não se dará conta de que não é nenhuma princesa donzela a ver feio sapo em cada pretendente? Dissimula o desagrado, não a contradiz, antes lhe enche o copo e insiste para que beba, finge interesse pelos seus dramas sentimentais: "Não sou, não aceito ser, objecto sexual, passatempo, brinquedo de tempos livres"; está na altura de o namorado se decidir, de lhe propor compromisso firme: "Isto assim não é nem deixa de ser, os anos vão passando, para ele, que é homem, tudo bem, mas para mim assim não serve, ele..." Ele pretextou, conta, turno no hospital, hospital onde, basta ver as séries de televisão, mais namoriscam do que trabalham, e há a colega dos olhos verdes, nova e gira, a Inês, por quem o safado já reconheceu sentir-se atraído... Por isso aqui está sozinha, justifica-se, a cumprir a ameaça que lhe fez: "Então saio eu, estou farta de passar fins-de-semana encafuada em casa à tua espera!" Zacarias ouve mais do que fala, encosta-se, aperta-a contra si, outra vez lhe enche o copo, ajuda-a a levá-lo aos lábios e quase a força a beber, embora ele se resguarde -- álcool, mau álcool de discoteca, pode ser fatal no momento da verdade. Desponta a madrugada quando saem, ela arrepia-se com o frio matinal, ele abraça-a protector, apoia-a no seu caminhar cambaleante, a moça deixa-se levar, vagamente dá-se conta de que entraram para o furgão de uma carrinha fechada, e ele, não aguentando mais, deita-a sobre colchão de espuma, para cima dela se atira, é agora, é agora, as mãos precipitadas levantam-lhe a camisola de gola alta, desviam o sutiã e apertam-lhe os peitos, depois descem em busca de intimidades mais íntimas, e ela, já mais lúcida, afasta-lhas, esquiva ao toque as partes pudendas, evita-lhe a boca, e fala, fala, já não as lamúrias infelizes de há pouco, antes remorsos, afinal é do namorado que gosta, e o Zacarias quer lá saber de quem gosta ou deixa de gostar, precisa é que abra as pernas e sem mais demora, ela soergue-se como querendo ir embora… Ah, assim não, não quer perder outra noite, tanto trabalho lhe deu, tanta paciência para lhe escutar as baboseiras, está por tudo, em desespero mete-lhe a coisa na mão, implora: “Vá lá, ao menos, uma punheta”. Ela começa, sem vontade, sem jeito, mas depressa larga a causa de toda aquela maçada: “Faz tu, que também sabes.”

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Do real e do verdadeiro

Perguntam-me amiúde quem são as personagens das minhas histórias, o que me lisonjeia: trabalho muito para que sejam, ambas, verdadeiras. Muito mesmo. De tal forma que, tenho-o verificado, são normalmente os excertos verídicos que os meus leitores consideram inverosímeis...
Por vezes, sempre devidamente assinaladas, reconto histórias alheias. Por exemplo, hoje à noite publicarei aqui o micro-conto "Tu também sabes", baseado em história ouvida num jantar a um amigo. É dele a história, meu o discurso, i.e., a forma de a contar. E sim, trabalhei muito para conseguir que a minha versão escrita esteja à altura do seu talento de contador de histórias. O que não é nada fácil.

Coimas e mais coimas

1. Fui surpreendido -- ainda me surpreendo com estas coisas -- por mail da Autoridade Tributária a informar-me de que não paguei o imposto de circulação em 2008. Tenho a certeza de que o paguei. Pago sempre. Pela internet. Não tenho papéis: já lá vão 4 anos e há tempos, antes de mandar o carro para a oficina após pequeno acidente, fiz limpeza ao porta-luvas. No site das finanças não há registo de qualquer dívida. Para evitar a contra-ordenação com que me ameaçavam, paguei novamente. Com coima, para recompensar, suponho, à incompetência dos serviços que só levaram 4 anos a descobrir, dizem eles, um pagamento em atraso. Desnecessário seria dizer, mas faço-o porque me alivia, que enquanto enquanto ocupam os serviços a vasculhar registos à cata de "dívidas" de 30 euros em 2008 dão tempo aos figurões que sempre deixam prescrever as dívidas de muitos milhões.
2. Uma desgraça nunca vem só, diz o povo no seu optimismo secular. Telefona-me a polícia: o processo que me foi movido há 3 anos ao tentar renovar licença caducada de uso e porte de arma de caça, aqui relatado com desenvolvimento, entretanto arquivado pelo tribunal, ainda mexe: agora tenho de pagar coima de 301 euros! Lá fui para protestar, pagar e terminá-lo. Qual quê! Mais uns papéis, volta novamente tudo para Santarém e daqui por uns meses o agente telefonar-me-á novamente para, talvez então, poder pagar a coima e livrar-me destas arrelias que me fazem perder dias e dias...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Malefícios do calor

Custódio garantiu esta manhã que Portugal vai «lutar até à morte para que este seja o ano de Portugal», quando questionado sobre o que tem faltado para que a selecção consiga ganhar um título.
Eu, afectado pelos 39 graus à sombra, lembro ao fogoso moço duas coisas:
1. Não lhes pede tanto a pátria. Apenas que se esforcem, que joguem o melhor que conseguirem. Afinal, não é num campo de futebol que se joga o destino nacional.
2. Como escreveu o Padre Vieira, "ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua". Espero, no entanto, que o Padre Vieira não tenha sido, também em matéria de futebol, profético: "O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela."

domingo, 24 de junho de 2012

Do princípio da incerteza

Idade: quarenta e cinco anos. Estado civil: divorciado. Profissão: desempregado. Acrescenta, em jeito de justificação: era até há pouco quadro bem pago de próspera empresa. Inadequação ao posto de trabalho, alegaram os Recursos Humanos. Indemnização: uma miséria. Um ano atrás teria recebido o triplo. Mas um ano atrás nem lhe passava pela cabeça que pudesse ser despedido. Começa as frases por quando e se. O seu futuro é conjuntivo. Uma vida em poucas palavras. De circunstância, na sua maior parte. Resignado, repete o lema de toda uma geração: novo demais para a reforma, velho demais para conseguir trabalho. --- E agora? Encolhe os ombros: -- Para já, tenho o subsídio de desemprego. Depois, logo se vê. Alvitro: emigração, Angola… Meneia negativamente a cabeça: falta-lhe a estaleca; o corpo fraqueja: tensão arterial para o alto, hérnia discal… Não, fica por cá. Casa própria, carro, os seus discos, os seus filmes, os seus livros, pequena poupança no banco. Não tem dívidas. Com pouco se contenta… E talvez, se, quando... Incomoda-me tamanha resignação – mas que faria eu no seu lugar? E que lugar é o meu, não estou também eu conformado, não estamos nós resignados, presos ao passado, desinteressados do futuro? Para onde foi esse tempo da mocidade, em que encarávamos o porvir com esperança, o víamos risonho, e, no entanto, pouco mais tínhamos então do que os nossos sonhos? Não serão os nossos desabafos, as nossas frustrações, iguais às dos velhos de todos os tempos, perdidas as ilusões da juventude? Acrescenta: felizmente não tem família. Penso, mas não o digo – afinal, é fraca a confiança entre nós: família, um mal, ou um bem? Prisão ou âncora? Sacudo também eu a cabeça: há muito deixei de julgar os outros. Escuto. É a minha função: ouvir e escrever. Mesmo que ninguém leia – e porque é que tudo o que fazemos precisa de ter utilidade, aproveitamento? Não valerá a pena fazer só por fazer? Como o velhote que, receoso de perder a memória, regista minuciosamente em caderno escolar tudo o que faz durante o dia, e depois se esquece de ler as suas anotações? Talvez a escrita seja afinal uma forma de fixar a volatilidade das coisas, de organizar o Mundo, de dar à vida um sentido, ao seleccionar uma probabilidade entre as muitas possíveis -- mecânica quântica da palavra, também ela governada pelo princípio da incerteza...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Conto premiado

Figuras sem estilo, conto que foi distinguido com o 3º prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel, promovido pelo Município de Manteigas, pode ser lido AQUI. 10 pp.

domingo, 17 de junho de 2012

Ainda o regresso aos campos

Um papa, esqueci o nome, contava que há três maneiras de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres, na agricultura. Acrescentava: -- O meu pai escolheu a mais trabalhosa.

Regresso aos campos


Durante décadas e décadas, os nosso economistas e governantes esforçaram-se para que os campos esvaziassem. Argumentavam então que a taxa de camponeses em Portugal era muito superior à dos países desenvolvidos da Europa; que com tanta gente a sobreviver na agricultura a produtividade era baixa, os proveitos reduzidos; que e mais que... Cépticos como eu viam cinismo em tão boa vontade, em tão grande preocupação com os sofrimentos dos camponeses, que não compravam os alimentos nos hipermercados e ainda valiam aos filhos, enchendo-lhe os porta-bagagens dos carros quando os visitavam. Era preciso que o campo deixasse de produzir e passasse a consumir; era preciso que os filhos dos agricultores se abastecessem nos hipermercados, como fazem as pessoas civilizadas por essa Europa fora, e não na casa paterna.
Depois, vieram os golpes de misericórdia: fecharam as maternidades, as urgências, as escolas, agora os tribunais, as juntas de freguesia, portajaram-se as antigas SCUT... 
E com os campos quase ao abandono, em ano de seca, ora severa, ora extrema, eis que os génios da economia e das finanças, que também são políticos a contragosto, vêm defender o regresso dos jovens ao campo. Prevejo que será um sucesso: as raparigas preferirão os rapazes que melhor lhes falarem do perfume da bosta, da vida idílica longe dos centros comerciais, das escolas, dos hospitais, a comerem o que a terra lhes der, se der, a amealharem os proveitos dos excedentes, vendidos a intermediários com profundo sentido de justiça.
E porque palavras leva-as o vento, termino com história contada dois dias atrás por agricultor septuagenário, que ganha a vida como pedreiro:
-- Zé, contou-me, fui vender a Leiria 300 quilos de batatas. Sabes a como é que mas pagaram? A 22 cêntimos o quilo.
Faço contas de cabeça: -- Sessenta e...
-- Sessenta e seis euros. Ora vê lá o que ganhei, depois de pagar o gasóleo do transporte, e as horas que perdi. Se acrescentar o trabalho da arranca... Para já não falar da plantação, das curas...
Portanto, senhor presidente da república, senhor primeiro-ministro, continuem a vossa campanha em prol do regresso aos campos: os jovens ouvir-vos-ão entusiasmados, e prontamente repovoarão os campos, e assim se salvará a pátria -- a não se que ponham a pensar em quantos quilos de batata precisarão de produzir, de arrancar, de vender para comprar um smart phone.
NOTA: com a ajuda do meu sócio destas aventuras agrícolas, já tenho as batatas armazenadas. Boa produção em ano ruim. Mas não se pense que o trabalho terminou: é preciso combater regularmente a traça, que pode destruir por completo a produção, como fez dois anos atrás, e a podridão. Trabalho porco, fedorento -- nem imaginam como uma batata podre cheira mal --, cansativo. Inútil, por vezes.

domingo, 10 de junho de 2012

10 de Junho

Excelente discurso do professor Nóvoa. A pensar Portugal, a ver a realidade, a apontar caminhos na linha dos nossos maiores pensadores. Bom seria que as suas reflexões fossem escutadas. Mas, suponho, seria exigir demais dos políticos, sempre mais preocupados com gamela e poleiro do que com a pátria.

sábado, 9 de junho de 2012

Portugal X Alemanha

Há que reconhecer: nós, portugueses, trabalhamos muito, mas a produtividade é baixa. São nossas as vitórias morais. Porque as reais são dos outros. 

O Velho e o Mar

No Delito de Opinião, excelente post de Pedro Correia sobre este livro que é, de há muito, um dos meus favoritos. Recordo o prazer que, muitos anos atrás, me dava leccionar o 9 ano, de cujo programa então fazia parte, a par de Gil Vicente e de Os Lusíadas.
Estudava-se a obra a partir da tradução do grande Jorge de Sena, outro autor votado ao esquecimento- Porque, nos tempos que correm, as obras são seleccionadas partindo do princípio, eduquês oblige, de que os alunos são imbecis e, consequentemente, só imbecilidades lhes podem interessar -- como a "obra" recomendada pelo Plano Nacional de Leitura, que nos delicia com diálogos como este, que cito de memória e apenas a título exemplificativo:

-- Onde está o meu cavalo espacial?
-- E o meu capacete supersónico?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Morra primeiro, reforme-se depois

Já não sei o que mais me assombra: se a capacidade dos tecnocratas proferirem asneiras, se a forma acrítica como os media as reproduzem:

Após a crise idade da reforma deve ir até aos 80 anos

por Dinheiro VivoHoje
Para o presidente executivo da AIG - American International Group, a crise da dívida na Europa demonstra que os governos a nível mundial têm de aceitar que as pessoas vão ter de trabalhar mais anos, à medida que a esperança de vida aumenta. Robert Benmosche defendeu que a idade da reforma terá de se estender até aos 80 anos.
"As idades da reforma têm de se alterar para os 70, 80 anos", referiu o CEO da AIG. Numa entrevista na sua casa em Dubrovnik, na Croácia, Robert Benmosche, explicou que assim se tornaria "as pensões e os serviços médicos mais acessíveis. Eles manteriam as pessoas a trabalhar mais tempo e retirariam essa carga dos mais jovens".
Com o desemprego juvenil a atingir números exorbitantes não apenas na Europa ou no Norte de África, mas por todo o Mundo, nada como ter os jovens no desemprego e os velhotes a mourejar. Poupa-se nas pensões de reforma, gasta-se em subsídios de desemprego e afins. Além do mais, os cidadãos ficarão mais tranquilos se protegidos por polícias septuagenários, mais confiantes se as escolas se transformarem em lares da terceira idade e estes tiverem septuagenárias a cuidar dos octogenários sobreviventes... Um paraíso por todo o lado, das minas às pescas, dos militares, à moda -- os velhos a trabalhar, os moços no desemprego.

Ocorre-me até que a citada AIJ estará já a implementar as propostas do seu presidente executivo dando preferência nas entrevistas de emprego aos sexa, septuagenários, em detrimento dos jovens...

Contrariedades


Anos atrás, num quente Julho, pouco depois de a Leya ter comprado a Caminho, telefonei para saber se já havia resultados da apreciação de Entre Cós e Alpedriz. Preocupações desencontradas: eu a perguntar pelo romance, a pessoa do outro lado a lastimar-se da sua triste sorte, despedida minutos antes:
-- E agora, que vou fazer, com mais de cinquenta anos? Quem me dará trabalho, num café que seja, quando souberem que tenho esclerose múltipla?
Durante mais de uma hora ouvi os seus desabafos, incapaz de oferecer conforto válido, incomodado por lhe não poder valer, a ela que se debatia com o drama do desemprego e da luta pela subsistência...
A caminho da praia, só pensava em "Contrariedades", o poema em que Cesário Verde, enfurecido por recusas de publicação, se acalma ao pensar na vizinha:


Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve conta à botica! 
Mal ganha para sopas... 
(...)

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 
(…)
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha!


sexta-feira, 1 de junho de 2012

A arte de subir na vida (2)

E há aqueles que vêem a vida como uma escada cujos degraus são os amigos -- e até se gabam de os espezinhar, quando a vaidade os cega. 

A arte de subir na vida

Diz frequentemente: é uma amizade que importa preservar. Por isso lisonjeia, bajula, serve servilmente. Vai longe. Chegará o dia em que não mais precisará destas amizades de ocasião e será então a sua vez de saborear a lisonja, a bajulação, o servir humilde de quem entende ser a sua uma amizade que importa preservar

quinta-feira, 31 de maio de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

Treino de instrutores e avançados

Hoje, Cardosos, Leiria. Direcção: Vilaça Pinto Sensei.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Zé Rambo

Em mais uma tentativa -- fracassada -- para animar a minha mãe e interessá-la pela vida, na convicção ingénua de que precisa de pôr entre parênteses a dor física e a outra, bem pior, a de sentir que o seu tempo está a acabar, levei-a à nossa aldeia e à sua casa. Aparentemente, nada disso a alegrou: nem deitou olhadela às flores do jardim, lindas apesar de não serem tratadas há ano e meio, nem fez ronda pela casa a ver se tudo estava como tinha deixado, nem se entregou a conversa alegre com as familiares e vizinhas, que, sabendo-a chegada, logo acorreram a fazer-lhe companhia animada e animadora. Enfim. Só me resta evitar o contágio, se é que ainda vou a tempo, para me não tornar igualmente azedo, desinteressado, egoísta. Porque, diz o povo, quem lida com um coxo, ao fim de um ano, coxeia.
Pois, à chegada, entrei pela Rua do Sol a ver se a minha tia, sua irmã, estava em casa. Mal parei, surge vizinha alegre, "Priga", estás como o vinho do Porto...", a minha mãe prefere contar as suas maleitas, reais e imaginárias, distraí-me com a conversa, quando se afastou saí a tocar a campainha da minha tia, não estava -- e, ao voltar para o carro, vejo-o lançado em marcha atrás rua abaixo, a minha mãe dentro. Corri para o alcançar, mas ele acelerava na descida, consegui abrir a porta, sempre correndo tão depressa quanto podia, mas não pude entrar, que o carro ia, como disse, em marcha atrás. Antes que embatesse contra a adega da Tia Irene ou despencasse pelo pomar vizinho abaixo, atirei-me para dentro, metade do corpo de fora e, sem olhar sequer, puxei o travão de mão. 
Depois, já em casa, reparei que as mãos me tremiam como varas verdes. Nunca antes, em quase quatro décadas de condução, me esquecera de travar o carro. Felizmente, em ocasiões de perigo, reajo sem pensar. O medo vem depois.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A santidade e os políticos

Parece instalada na opinião pública a crença de que os políticos têm de ser pessoas de vida irrepreensível, de moral impoluta, sem a menor mácula na vida privada. Santos. Surpreende-me esta exigência que, surgida em países luteranos, alastrou até  nós, de base católica, logo predispostos ao perdão -- o qual, para existir, pressupõe o pecado prévio. 
Nas últimas décadas, evoluímos do sorriso cúmplice ao ouvir falar da vida sexual de, por exemplo, Miterrand, mulher e amante de longa data a coabitarem no Eliseu, para o apedrejamento público de Clinton  (no link com actrizes pornográficas, o sortudo) e hoje nem rimos às gargalhadas ao ouvir acusar Strauss-Khan de ter ido à putas ou de com elas ter participado em orgias em que as teria violado! O sentido do ridículo parece ter desaparecido. Esta exigência de santidade estendeu-se dos notáveis da política àqueles que os servem: os guarda-costas de Obama são censurados por terem o costume de, em deslocações ao estrangeiro, contratarem umas meninas... Mais me choca o puritanismo coevo por ser promovido e imposto por órgãos de informação que, descaradamente, vendem putedo, putaria e putices -- e porque, por este andar, em breve teremos a governar as nações santos que nem pecar sabem, ou criaturas aterrorizadas com o receio de que pecadilhos do passado sejam descobertos e lhes arruínem a carreira. 
A crise actual é, também, uma crise de homens de estado. Como queremos ter os melhores se lhes exigimos, para além da honestidade e incorruptibilidade, a santidade nas suas vidas privadas, nomeadamente naquilo que, entre adultos, é do foro íntimo, como a sexualidade? Como não nos havemos de nos queixar da incompetência dos governantes, se quase lhes exigimos a castidade?


segunda-feira, 21 de maio de 2012

I started a joke


domingo, 20 de maio de 2012

Lágrimas

As flores choram na chuva a ausência da jardineira.

sábado, 12 de maio de 2012

Retrato

Na serra. O fascínio que me provocou a leitura de A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, nomeadamente a descrição da travessia que o protagonista faz de noite e a pé, continua bem vivo quarenta e tantos anos depois.

Serra da Estrela


Cegonhas

Em Castelo Branco, ontem, quando seguia para Manteigas.

terça-feira, 8 de maio de 2012

3º Prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel

É oficial: o Município de Manteigas atribuiu o 3º Prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel ao meu conto "Figuras sem estilo". Muito me honra a distinção, pelo que no próximo sábado estarei em Manteigas para a receber. 
Em 2010, no 11º concurso promovido pelo Município de Manteigas, outro conto meu foi distinguido com menção honrosa. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

3ª Prémio em Concurso Literário


Acabo de ser informado por telefone de que um conto meu, "Figuras sem estilo", foi distinguido com o 3º prémio num concurso literário. Oportunamente darei mais pormenores.

Efeméride

Poucas datas conheço, menos ainda respeito. O 7 de Maio é uma das excepções: foi a data em que entrei para o ensino, 36 anos atrás. Poderia lastimar o estado a que as coisas chegaram, o barulho ensurdecedor que vem das salas do lado, com o pobre professor a tentar fazer-se ouvir, enquanto aguardo por "clientes" na sala de estudo, alunos postos na rua, como antigamente se dizia, mas já nem disso tenho vontade. Também eu fui forçado a acomodar-me, a esperar que o tempo passe, sem nada que possa fazer, excepto participações, relatórios, planos de melhoria, actas, coisas que dão trabalho inútil ao professor e nenhuma consequência têm jamais para os prevaricadores... Lamento muito ter perdido a fé -- na utilidade da profissão, no valor do meu trabalho, no meu contributo para o futuro dos meus alunos. Mas aconteceu. Por isso, mas não apenas por isso, pedi a reforma. Infelizmente, não se trata de passar o testemunho na crença de que os mais jovens darão melhor conta do recado. Trata-se, tão só, de já me não rever na profissão que escolhi por vocação. Como escrevi neste blogue tempos atrás, eu era professor de Português com formação em Literatura e especialização em Linguística. Hoje sou acompanhante nuns casos, formador (mas não professor) nos cursos profissionais, segurança nas "substituições"...

Satisfações

Não gosto de dar explicações. Para aqueles que me conhecem bem, são escusadas; para quem me não conhece, inúteis. Mas, a título de excepção, aqui vai uma: este blogue começou por ser, é, e continuará a ser, forma privilegiada de comunicação com familiares dispersos pelo país e pelas sete partidas do mundo. Mesmo amigos que não lêem o Português por aqui passam diariamente e traduzem os textos com o Google, na esperança de ter novidades da terra e das pessoas que aprenderam a amar. Conceito estranho para muitos de nós, sempre a dizer mal da pátria e dos seus costumes, esse de que há estrangeiros que de Setembro a Julho sonham voltar para junto de nós, um Agosto em cada ano, movidos pela saudade que supúnhamos ser exclusivamente nossa. 
Por vezes, muito raramente, há também outros visitantes. Que chegam de navalha afiada, senhores da razão, do bom-gosto. À procura do inefável, do ainda não dito, talvez nem sequer sentido. E prontamente ajuízam sentenciam, insultam, penitenciar-me-iam até pudessem eles, a coberto do grandioso anonimato, ou escondidos atrás de nomes que cheiram a falso de tão mal amanhados -- e que o Google desconhece, coisa estranha para tais sumidades. Não me conseguem descoroçoar. Desejo-lhes boas leituras em melhores blogues, que felizmente não faltam: basta ver a minha lista de favoritos. 
E assim irei continuando, Carneiro de signo e de feitio, a escrever sobre a família, a agricultura, o karaté, os meus livros, coisas desinteressantes para doutos visitantes, importantes para mim e para aqueles que me importam...
FOTO: o João, meu neto mais novo, hoje. 

sábado, 5 de maio de 2012

A Europa e eu

A União Europeia faz-me lembrar  a fábula Le pot de terre et le pot de fer, de La Fontaine: a panela de ferro persuade a panela de barro a acompanhá-la numa viagem prometendo protegê-la, interpor-se entre ela e eventuais perigos. Não tinham dado cem passos com as suas três pernas quando chocam  e, antes que possa soltar sequer um ai, a panela de barro é desfeita em pedaços, legitimando a moralidade: associemo-nos apenas com os nossos iguais para não termos destino igual ao da pobre panela de barro.
Poucos concordarão comigo, acomodados ao que julgam ser os benefícios desta Europa Unida, pátria das pátrias, que trouxe a paz e a prosperidade -- a união faz a força, não é?
Não, não é. Tal como na fábula, a associação entre barro e ferro dá, necessariamente, cacada:
O Governo alemão vai permitir ao candidato à Presidência francesa François Hollande “salvar a face”, mas espera que ele mantenha os compromissos assumidos em nome da França, nomeadamente o tratado orçamental, disse o ministro das Finanças germânico. (No Público)
Não conheço o texto original, nem o conseguiria ler, que não sei alemão. Mas, se a tradução é minimamente fidedigna, cada palavra é uma pérola. Colonial. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Aviso à navegação

Aprecio a crítica, não tolero o insulto. Por isso, quem não sabe distinguir luta de ideias de ofensas pessoais escusa de aqui vir comentar -- não será publicado. Acrescento: este blogue é meu. Nele publico o que me apetece, como me apetece. Dou a cara, assumo a responsabilidade pelas minhas afirmações. É tudo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nome profético

A empresa pública criada pelo governo para recuperar calotes chama-se Parvalorem:

Há, portanto, razões de sobejo para dizer Parva-lorem em vez de par-valorem: parva é a figura que fará ao tentar recuperar os calotes; lorem, de lorem ipsum, texto que na linguagem jornalística serve para encher espaços...

domingo, 29 de abril de 2012

Contra a unanimidade

Para limpar os ouvidos da conversa encomiástica do professor Marcelo sobre a "doçura" do povo português, eis  o Cântico Negro, de José Régio, na versão vigorosa de Villaret. 

O comilão

Diz o povo: quem não presta para comer não presta para trabalhar. Não se subentenda, porém, que qualquer comilão é trabalhador aplicado e eficiente. Basta ver o caso do ex-primeiro ministro, cujo nome não menciono  para não conspurcar o blogue:

"Despesas com almoços e jantares chegaram a atingir 12.800 euros só num mês.
"Correio da Manhã" escreve que o gabinete do ex-primeiro ministro José Sócrates gastou durante os seis anos de Governo mais de 460 mil euros em almoços e jantares no País e no estrangeiro. E em três anos sucessivos gastou mesmo mais do que a verba orçamentada: em 2007, 2008 e 2009, a rubrica Representação dos Serviços recebeu uma dotação total de 225 656 euros, mas a despesa total, segundo a Secretaria-Geral da Presidência do Concelho de MInistros, atingiu 260 174 euros, um aumento de 15,3%.
As mais elevadas do gabinete do ex-primeiro ministro com almoços e jantares ocorreram, precisamente, de 2007 a 2009: em cada um desses anos, os encargos anuais com refeições oscilaram entre 80 mil euros e 90 835 euros.
Março, maio, agosto, novembro e dezembro são os meses que concentram despesas mensais mais avultadas com almoços e jantares. Por exemplo, 11 109 euros em dezembro de 2006, 10 742 euros em agosto de 2008 e 12 813 euros em novembro de 2009." (No DN)
Irra, bem nos comeu -- e come, e comerá -- por parvos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Rosas

Deliciadas com a chuva, abençoam o céu que, finalmente, a dá.

Ó vadio!

Muito aprende na escola quem quer aprender. O Afonso, seis anos, diz-me: -- Ó avô, cão vadio é um animal sem dono.
-- É, confirmo.
-- Mas quando o Tex foge, tu gritas: Ó vadio!

O negócio das rescisões amigáveis

Em empresas públicas que me abstenho de nomear é prática corrente proceder a rescisões amigáveis quando o trabalhador se aproxima da idade da reforma: leva a indemnização, fica com o subsídio de desemprego, receberá a reforma quando este último acabar. Tudo é calculado como se de bónus se tratasse. Agora que o governo quer proceder a rescisões amigáveis na Função Pública, receio que, mais uma vez, estas venham a ser negócios apetecíveis para aqueles que sabem viver e têm bons padrinhos: -- Sr. X, está na altura certa para rescindir...
A ver vamos, que não falta gente com olho neste país. E, como sempre, trama-se, em nome da moralidade, aquele que cumpre ou a quem faltam os tais bons padrinhos.

Resgates

Tudo se resgata hoje em dia: a Grécia, pescadores desaparecidos, o cadáver da avó afogada ontem em Matosinhos. Sugiro aos senhores jornalistas, antes de voltarem a resgatar o que quer que seja, que olhem para o dicionário (Porto Editora):

Resgatar 
verbo transitivo
1. obter o resgate de;
2. livrar do cativeiro;
3. libertar de (castigo ou situação de inferioridade); remir;
4. reaver (um penhor); desempenhar;
5. cumprir;
6. expiar;
verbo reflexo
libertar-se; remir-se;
(De resgate+-ar)

Impotência

O governo pode cortar-me o vencimento, o subsídio de férias e o de Natal, pode cortar a quem trabalha o que bem entende para tranquilizar os mercados. O governo não pode tocar nas parcerias público-privadas, nem em nenhum dos outros contratos escandalosos assinados pelo anterior governo, ou assustaria os mercados. É bom que o governo se não esqueça de que os mercados não votam nas nossas eleições e boys e grandes empresas poucos votos têm. Isto de ser prepotente com os mais fracos e subserviente com os poderosos pode sair-lhe caro.
ADENDA: o governo justifica a sua impotência com a blindagem dos contratos.  Até podia aceitar -- se por igual respeitasse a blindagem dos contratos de quem trabalha.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

E o 25 de Abril?

Onde estava eu? A viver na Marinha Grande, na clandestinidade; a trabalhar por turnos como operário de plásticos na Júlio Ferreira e Filhos, em Leiria, pelo que o golpe de estado me apanhou a dormir: tinha despegado às oito da manhã. Não havia então telemóveis, nem internet, eu não tinha televisão nem rádio. A revolução começaria dias depois, perto do 1º de Maio e mudaria este país, tornando-o irreconhecível. Democratizar, descolonizar, desenvolver, tudo isso se fez e só por ignorância ou má fé se pode negar que se vive hoje incomparavelmente melhor do que então. Porém, ninguém me viu, nem verá, de cravo na lapela, o emblema adoptado pelos vira-casacas.

O burro do espanhol

Será que os helvéticos desconhecem a história do burro do espanhol, o tal que morreu precisamente quando já estava desabituado de comer? É o que parece, a fazer fé nesta notícia do Público:
"A justiça suíça confirmou hoje que uma mulher desta nacionalidade morreu em Janeiro de 2011 depois de ter iniciado, semanas antes, um regime conhecido por “dieta do sol”, que requeria que ela parasse de comer e de beber, vivendo apenas dos raios solares."
Imagem: do pintor João Alfaro

Constatação

É triste um homem ter de morrer para se ouvir dizer tanto bem dele.

25 de Abril

O melhor neste dia, para além da chuva, que finalmente caiu, terá sido o discurso de Assunção Esteves, douta presidente da AR. Não tivera eu coração empedernido e teria certamente chorado ao ouvi-la (sic):
"A crise económica que atravessa a Europa é, porém, na verdade,  também..."
Em verdade, em verdade vos digo: não é o acordo ortográfico que está a assassinar a língua portuguesa.

sábado, 21 de abril de 2012

La chanson de Jacky

Même si un jour à Knokke-le-Zoute
Je deviens comme je le redoute
Chanteur pour femmes finissantes
Même si j’leur chante "Mi Corazon"
Avec la voix bandonéante
D’un Argentin de Carcassonne
Même si on m’appelle Antonio
Que je brûle mes derniers feux
En échange de quelques cadeaux
Madame, je fais ce que je peux
Même si j’me saoule à l’hydromel
Pour mieux parler d’virilité
A des mémères décorées
Comme des arbres de Noël
Je sais qu’dans ma soûlographie
Chaque nuit pour des éléphants roses
Je chanterai ma chanson morose
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{Refrain:}
Etre une heure, une heure seulement
Etre une heure, une heure quelquefois
Etre une heure, rien qu’une heure durant
Beau, beau, beau et con à la fois

Même si un jour à Macao
J’deviens gouverneur de tripot
Cerclé de femmes languissantes
Même si lassé d’être chanteur
J’y sois dev’nu maître chanteur
Et qu’ce soit les autres qui chantent
Même si on m’appelle le beau Serge
Que je vende des bateaux d’opium
Du whisky de Clermont-Ferrand
De vrais pédés, de fausses vierges
Que j’aie une banque à chaque doigt
Et un doigt dans chaque pays
Et que chaque pays soit à moi
Je sais quand même que chaque nuit
Tout seul au fond de ma fum’rie
Pour un public de vieux Chinois
Je r’chanterai ma chanson à moi
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{au Refrain}

Même si un jour au Paradis
J’devienne comme j’en serais surpris
Chanteur pour femmes à ailes blanches
Que je leur chante "Alléluia!"
En regrettant le temps d’en bas
Où c’est pas tous les jours dimanche
Même si on m’appelle Dieu le Père
Celui qui est dans l’annuaire
Entre "Dieulefit" et "Dieu vous garde"
Même si je m’laisse pousser la barbe
Même si toujours trop bonne pomme
Je m’crève le cœur et l’pur esprit
A vouloir consoler les hommes
Je sais quand même que chaque nuit
J’entendrai dans mon paradis
Les anges, les Saints et Lucifer
Me chanter la chanson d’naguère
Celle du temps où j’m’appelais Jacky.

{au Refrain}

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Felicidade

Tristezas não pagam dívidas, pensará o João, indiferente ao calote nacional que terá inevitavelmente de pagar. É isto que nos faz falta, um sorriso aberto e a mão levantada, fechada embora, não se perca o pouco que ainda nos resta. E o avô, de ordinário sorumbático, responde com outro sorriso à felicidade do João.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os meus leitores

Estatísticas do Scribd. Clicar na imagem para ampliar.

domingo, 15 de abril de 2012

A história da semana

É o conto "Jogo de azar", AQUI. "Ao meu pai, mouro de trabalho, padeiro e muitas coisas mais. Com saudade" -- escrevi na dedicatória. 2 pp, rigorosamente verdadeiras, o que não melhora nem piora a história. Catarse, digo eu.

sábado, 14 de abril de 2012

A história da semana

Leitoras que muito prezo  queixam-se da dificuldade em acompanhar a 'publicação' semanal dos textos; e a mim tem-me faltado tempo para rever, retocar os que ainda guardam oportunidade de saírem, não da gaveta, mas da pasta do computador. Assim, após a desta semana, passarei a disponibilizar menos histórias por mês.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A voz do mestre

Muitos procuram desesperadamente um guia espiritual, mestre, guru, salvador,  e nessa busca quase socrática chegam-se ao suposto mestre, colam-se-lhe, bebem-lhe as palavras, imitam-lhe o comportamento, copiam-lhe os tiques, citam-lhe as frases -- até que um dia descobrem desiludidos que seguiam  não a um santo mas apenas a um homem, com as suas fraquezas, os seus vícios, o seu lado insuportável. E novamente depositarão as esperanças noutro, não querendo ver, ou não o conseguindo fazer, que é em si mesmos que devem procurar o seu mestre, esforçar-se arduamente para o polir para o aproximar da quimera que perseguem e, se acaso o conseguirem, ter a coragem de assumir perante eventuais discípulos as fraquezas da sua condição humana, desiludindo-os.
É este o drama que a consciência nos impõe, o de sermos capazes de lucidamente nos aceitarmos como homens, ignorantes e mortais, talhados para o fracasso, lutando embora para o ludibriar. O mais do que isto é a poesia de Fernando Pessoa, em que a voz do mestre sempre soa:
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter
Felizes, nós? Ali, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez,

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar;
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

C' est trop facile

É demasiado fácil criticar os vícios deste país e das suas gentes, indignar-me com as trapalhadas dos políticos, zurzir na porcaria da televisão. Demasiado fácil e sempre apreciado. Queirosiano, dirá quem gosta do estilo. Eu cansei-me. De ler o tal estilo queirosiano, de escrever batendo no pobre ceguinho que é este país, que somos nós, que sou eu. País que assassina a sua língua à revelia do acordo ortográfico, que fala demasiado alto, que se está cagando para os direitos dos outros, ao sossego. ao silêncio, à privacidade. Que desconhece o significado de discrição e de tudo faz uma peixarada. País que é o meu, país cujos 'intelectuais' encontram fonte de inspiração precisamente  nos nossos vícios, defeitos, fealdade, mau gosto. À semelhança de Eça. Tal como, a fazer fé em reportagem televisiva, Lobo Antunes, que terá feito sucesso nos EUA com crónicas sobre as mulheres portuguesas de bigode. 
"Chama-lhes putas, filha" -- ensinava a mãe. "Chama-lhes putas, antes que te chamem a ti!"
Assim andamos nós. Porque, como canta o grande Brel, é demasiado fácil / é demasiado fácil / fingir:
C'est trop facile,
C'est trop facile,
De faire semblant.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Abril

Abril é o meu mês, sete o dia, e ambos me contaminaram ao nascer, fazendo-me incerto como Abril, ora de águas mil, ora primaveril, individualista como o sete, número ímpar, primo, que só por si mesmo ou pela unidade se deixa dividir. Como se não bastasse, Carneiro obstinado e persistente, sempre a cair em barrancos, sempre sem emenda. Enfim, eu.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O regresso dos duplos

Há tempos escrevi aqui sobre um dos meus filmes favoritos, A sombra do guerreiro, de A. Kurosawa, que tem como herói um duplo, e analisa de forma fascinante a relação entre a pessoa e a máscara: 

Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um  senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Ora leio no DN que  Madonna está a treinar cinco mulheres  para se fazerem passar por Madonna, que é, ela mesma, uma máscara. Não se poderá dar o caso de, às tantas, ser difícil distinguir a máscara original das clonadas, ou, até, de uma delas superar o original?

domingo, 1 de abril de 2012

A história desta semana

As bruxas já roubam clientes aos psicólogos. O fenómeno parece estender-se à classe média, instruída mas desencantada, amargurada, a necessitar de acreditar em algo, em ter a esperança, ténue que seja, de que a sua vida profissional, ou pessoal, ou familiar, vai melhorar em breve. Ora, como tempos atrás escrevi uma historieta em que uma mulher desesperada recorria à bruxa para que a livrasse do marido, lembrei-me de aproveitar o ressurgir da moda das bruxas e publicá-la AQUI. 6 pp.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Gabarolices

Tempos atrás recebi esta mensagem de uma ex-aluna:
Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "A vida é uma festa (1)": 

Como está o Sr Professor?
O meu nome é XXXXX e fui sua aluna no 11ºano na Escola Secundária do Entroncamento, há cerca de 16 anos.
Hoje tenho 33 anos, duas filhas e apesar de um curso de Economia, o português e a recordação do professor que me fez amar a literatura e a minha língua, acompanharam-me desde então.
A vida deu-me a oportunidade de me cruzar no seu caminho, que apesar de em apenas duas horas por semana, me ensinou a gostar dos Maias, das Viagens na Minha Terra e do efeito contemplativo que ainda hoje me ajuda a ver o mundo, a vida e as pessoas com outros olhos, com a alma e com o coração.
Ensinou-me a ler e sobretudo a gostar de o fazer. Com isto mudou a minha vida para sempre. Se isto é o papel do Educador, então cumpriu-o na perfeição.
Continuo a amar os Maias e todos os outros que entretanto tive oportunidade de ler e lamento que no nosso país a única literatura que vende é a light, com a Margarida Rebelo qualquer coisa a bater records de venda. Lamento sobretudo que as gerações futuras não tenham o bom-senso para perceber que abrir um livro é um acto de inteligência, de liberdade e de capacidade de sonhar.

Nota: As aulas de português eram para mim uma festa...

Muitas felicidades
XXXXXXX

terça-feira, 27 de março de 2012

Nos correios

Uma ida aos Correios é suplício. Às tantas, dou pela entrada de uma moça já pouco moça que foi minha aluna. Do 7º ano ao 12º. De pequenina, cabelos pela cintura, uma bonequinha que não falava, até uma mulherzinha que também não falava. As coisas correram bem entre nós, apesar do seu mutismo: sempre a passei, com boas notas, inteiramente merecidas -- ou não lhas teria dado. Pois a moça já pouco moça -- como os jovens envelhecem depressa! -- entra e sai, sai e entra, resvés comigo, e coisa estranha, não me conhece. Enfim, maneiras de ser, ou anda um professor a educar uma jovem seis anos para isto, ou, como diz o meu amigo João, a partir dos cinquenta somos invisíveis para as mulheres, sei lá. Eu não existo e é tudo.
Pelo canto do olho apercebo-me da entrada de outra ex-aluna, esta apenas do 10º ao 12º. Notas pouco brilhantes. Prevejo que também me não vai conhecer. E, de facto, durante longos minutos, parece que me não vê naqueles correios quase desertos, em que os funcionários arrastam o serviço. De repente, põe-se a meu lado e conversamos. Pergunto-lhe pela vida, falamos de outras alunas. Nem tudo está perdido. O civismo ainda existe.

domingo, 25 de março de 2012

Almoço no quintal

Essa mulher

Numa tal festa da Primavera, TVI, dois moços esganiçam-se em disputa: "Eu vi primeiro essa mulher". Como se se tratasse de nota de vinte euros achada na rua: é minha, que a vi primeiro. Que mulher? Não importa: avistou-a primeiro, é dele.
Nem sequer enxergam a triste figura, banhas apertadas nas t-shirts demasiado justas, cabelo à galã dos anos cinquenta, estilo mestre barbeiro Ti' Jaquim da Burra. Música, voz? Que é isso? Para que é que faz falta? Letra? Um primor. No Afeganistão deve ser um sucesso.
Dir-me-ão: há pior; há muito pior. Pois há.

A história da semana

Pirulito, Rimas e a Associação de Moradores. Uma história falhada, segundo a crítica devastadora do Afonso, o meu neto mais velho: "as histórias para crianças têm poucas letras e imagens muito grandes". Enfim, apeteceu-me escrevê-la, aqui está.

sábado, 24 de março de 2012

Sábado

Com a vaga esperança de que acabe por chover, lá vamos nós fazer mais uma sementeira: feijão Catarino. A história da semana não está esquecida; mas o ar do campo faz-me tombar com sono muito cedo, e a esta hora já só penso na cama, um livro antes de os olhos se fecharem por completo... Amanhã, com uma hora a menos, cá virei pôr a história, ainda nem sei bem qual.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Roncadores

Muito se ronca por aí, de um roncar tão antigo que já o Padre Vieira o repreendeu:
ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar? Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. 
Pois na sua insignificância, estas roncas da terra tomam-se por espadartes, por baleias até, e roncam, roncam, com tal arrogância, tão ruidosamente, que de pouco nos serve tapar os ouvidos, mudar de canal, desligar até a televisão: a todo o lado chega o seu ronco insuportável, roncando como se tivessem o rei na barriga, sentindo-se tão donos da verdade que só a sua voz escutam embevecidos, maravilhados, tomando por inteligência de espírito e por beleza de ideias aquilo que para nós são grunhidos alarves e ignorantes.
Diz o Padre Vieira que "duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder." Eu estou em crer que hoje se ronca sobretudo por poder, sem o qual o ronco que nos submerge como ruído de fundo se reduziria a desprezível chiadeira pífia; porque o roncar de saber, mais tolerável, parece-me, se acaso surge aqui ou ali, anda tão embrulhado em ideias feitas e chavões, tão falho de originalidade, de pensamentos próprios, que dificilmente se distingue da ignorância atroz e só casado com o poder logra fazer-se escutar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Judiarias

Quando se falava de judeus, a minha avó tinha resposta pronta:
-- Os judeus são muito ruins.
Eu estranhava: ela nunca tinha conhecido nenhum: -- Porquê?
-- Ora, mataram Nosso Senhor...
-- Mas, atalhava eu, Jesus também era judeu!
Zangava-se: -- Não sejas herege.

domingo, 18 de março de 2012

Fome de leitura

Uns têm, outros não. Por isso, entendo ser desperdício de dinheiro iniciativas como o Plano Nacional de Leitura. Para mim, o que importa é pôr os livros ao alcance de cada criança, de cada adulto. Se tiverem a paixão da leitura, devorá-los-ão, mesmo que ainda os não saibam ler, como faz o Afonso, aqui a explicar algo às bisavós. Ontem, 17 de Março.

Pelos defuntos

A velhota retira à sua pensão de miséria, já escassa para a farmácia, dez euros para pagar missa por alma do seu defunto; o padre acrescenta o nome do falecido à lista do dia pretendido, não mais de oito nomes, até as missas têm limites de repartição. E por esse acto tão simples, pôr um nome numa lista e pagar dez euros, o defunto beneficiará de mordomias no além, talvez menor tempo de espera no Purgatório, caso a justiça divina seja tão demorada como a portuguesa, ou alívio de pena, caso a justiça divina seja corruptível.
Cá se fizeram, cá se pagam, não ao divino, mas aos seus comissários.
XXI séculos depois de Cristo, como pode a Igreja colaborar nesta farsa, tão contrária aos ensinamentos do seu Mestre, explorando a crendice de pessoas frágeis, carenciadas, pobres entre as mais pobres, estrafegadas pelo custo de medicamentos, taxas moderadoras, custos do transporte para esses hospitais que deslocalizaram para as grandes cidades, aumentos nos transportes, electricidade -- talvez, até, a passarem  fome?

sábado, 17 de março de 2012

O conto desta semana

É uma das histórias de Do lacrau e da sua picada. Um jovem casal, vida provinciana, bovarismo, violência conjugal. Assim escrevia eu uma dúzia de anos atrás. Para os meus fiéis trinta leitores, A menina do shopping, que pode ser lida AQUI.

terça-feira, 13 de março de 2012

Pâmpano

Eis a minha vinha que desperta da dormência invernal e dos troncos nodosos despontam jovens pâmpanos, de onde sairão longas vides, parras, cachos de uvas -- o milagre da Primavera repete-se num ciclo indiferente a secas, crises, querelas políticas. Assim houvera eu de ser, capaz de renascer em cada Março encarnando a Esperança, como se antes nunca tivesse vivido, intactas e inteiras as ilusões da mocidade.

domingo, 11 de março de 2012

Com o João

Passada a gripe, que me deitou abaixo durante quase duas semanas, corro a ver o João; encontro-o muito maior, mais gordo, as peles já cheias. Dorminhoco como de costume.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O conto desta semana

Ferido d' Asa, disponível para leitura AQUI.

FOTO: Pedro Perdigão, quando nos conhecemos, ambos mais moços.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O conto desta semana

Amanhã publicarei história mais ligeira, já conhecida dos leitores deste blogue: Ferido d' Asa, inspirada em versos que Camões glosou: Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha. 
Creio que surgiu desta forma: num domingo de Novembro, estava eu a labutar no meu Casal, e por lá passaram, em momentos diferentes, dois caçadores. Eles porque não caçavam nada, eu para endireitar as costas, lá nos pusemos na conversa, discreteando sobre os males do Mundo, da pátria e da agricultura. E uns dias depois, sem que nela tivesse pensado ou me apetecesse escrevê-la, a história veio ter comigo. Coisa rápida, quase sem correcções. 5 pp.

FOTO: no Casal, em farda de trabalho.

terça-feira, 6 de março de 2012

O primeiro voo

Na época, voar não era trivial e poucos se podiam dar ao luxo de o fazer. No meu caso, o meu pai era operário da KLM, a companhia holandesa de aviação, pelo que tinha direito a grande desconto no preço do bilhete. 
A aventura começou bem antes: fui sozinho, já me não recordo como, para Lisboa, e na confusão do aeroporto, balcões, línguas, voos a chegar e a partir, perdi o avião. Soube depois que ainda o tinham atrasado 15 minutos à minha espera. O senhor do balcão, algo preocupado com um miudito de província, enfezadito, catorze anos, escreveu-me um bilhete para apresentar em Schiphol: "Please help mr. Catarino to..."
Passei a noite no café, mesmo ao lado da pista, a ver as descolagens e aterragens dos enormes jactos ali ao lado, por entre o cheiro asfixiante do petróleo queimado. E na manhã seguinte, lá fui a pé com os outros passageiros para o "meu"avião, o tal Super Caravelle, pouco mais do que a camioneta de carreira da minha terra, mas com asas. Falávamos todos uns com os outros como se fôssemos conhecidos, a disfarçar o aperto de estômago quando a subida era cortada por brusca descida, e nova subida, cada vez mais altos...
Estávamos indignados, que na véspera tinham roubado o título ao  Joaquim Agostinho, acusando-o de dopping. Não acreditávamos: ele nem sequer precisava disso, que venceu com mais de uma hora de avanço. Não. Agostinho era humilde, era batalhador, era esforçado, e os poderosos deste país, a começar por essa cambada da federação, invejavam-no, tinham-lhe raiva, desprezavam-no pelas suas origens campónias.
Pouco depois, o almoço. Olhei envergonhado para os talheres, tantos, para que serviriam? E não ousava começar a comer para que se não apercebessem da minha ignorância rústica, quando uma das senhoras riu alto: -- Bom, isto deve servir tudo para o mesmo. Vou usar este mais pequenino, que me dá mais jeito, A tensão desanuviou, cada qual comeu com os talheres com que bem entendeu, mesmo os meus companheiros da classe média lisboeta não estavam habituados a tanto requinte. Deixei-os em Bruxelas e segui já ao pôr-do-sol para Amsterdam, baixinho, sobre os polders onde ainda havia moinhos de vento como nas ilustrações do chocolate holandês, a beber café delicioso.
No aeroporto, não me consegui desembaraçar: o meu Inglês era pobre, o Francês melhor, até que o polícia me pergunta: "Combien de temps vous rendez-vous en Hollande?" Eu puxava pela cabeça, até tinha estudado o verbo rendre no final do 3º período, mas o que significava? E nada me ocorria nem o polícia parecia capaz de encontrar sinónimo. Valeu-me a chegada do meu pai, passaporte na mão.

Fobias

Aí por volta de 1976, ganhei medo de andar de avião. Nada de especial, apenas uma série de mal-entendidos, línguas desconhecidas, a minha imaginação delirante. Já antes tinha voado, a primeira vez num Super Caravelle, uma geringonça fantástica, creio que em 1968; depois disso, voei mais vezes, sempre com desconforto, receoso de explosivos, terroristas, incêndios provocados por fumador na casa de banho. Mas isto é que eu não esperava:

PSP prende fornecedor de droga de estrela da televisãoHoje40 comentáriosJorge Esteves estava sob escuta por crimes violentos, mas acabou por ser preso por fornecer droga a figuras da moda e televisão e também a pilotos da TAP.
(No DN. Negrito meu).

segunda-feira, 5 de março de 2012

Déjà vu

Vou deitando a mão a livros que, na estante, esperam há muito por leitura. Pouca é a paciência, poucos aqueles que sobrevivem ao teste da leitura do primeiro parágrafo.
Le grand cahier, de Agota Kristof (1991), passou no teste. Com uma escrita denotativa, seca, organizado em capítulos titulados de 2 ou 3 páginas, traz até mim o horror de dois irmãos cuja mãe, sem comida na Grande Cidade, deposita em casa da avó, na Pequena Cidade. Num tempo e espaço indefinidos, mas situados no séc. XX, algures na Europa Central, as crianças vão endurecer os corpos e os espíritos para que coisas como amar ou matar lhes não sejam penosas. Obra dura, cruel. Que me deixou com a sensação de que terá influenciado, no estilo e na temática, obras nacionais muito badaladas.

Impaciência

Em reclusão desde sexta-feira, com febre acima dos 39, ainda tentei preencher os momentos em que o Brufene me arranca da sonolência vendo televisão. Não dá: dias e dias a falarem do jogo de futebol que ainda não aconteceu ou já aconteceu; a tentativa constante e acintosa de degradar as relações entre as pessoas -- políticos, dirigentes, ninguém escapa -- com intrigas de comadres baseadas no disse-que-disse; reportagens que se arrastam à porta do local de um qualquer evento, crime, incêndio, etc., a debitar palavreado sem significado e em mau Português. E, pior, a conversa dos dirigentes da oposição que continuam a não querer ver a alhada em que estamos metidos e de que não estão inocentes. Das duas uma: ou isto estoira, e não adiantará dizer depois que tinham razão; ou sobrevivemos, e espera-os uma longa travessia do deserto.
Há um tempo para falar e um tempo para o silêncio. Neste 2012, já tão sofrido, bom seria que nos uníssemos. Não faltará tempo para punir políticas erradas. E Seguro que se deixe de fazer, também ele, o papel de intriguista. Mais do que azedar as relações entre ministros, cabe-lhe apresentar ideias exequíveis, uma política em que demarque o seu partido do governo. Como comadre calhandreira não chega a primeiro-ministro.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O conto desta semana

Já está disponível AQUI  a história desta semana: uma jovem professora primária é colocada numa aldeia da serra e em vão tenta mudar o destino que espera os seus alunos.

Tadinho de mim

A gripe deitou-me abaixo. Em vivo ardor tremendo estou de frio. Espero recuperar a tempo de participar no treino de Almeirim de instrutores e avançados, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto no próximo domingo. Ou, se não puder participar, pelo menos assistir e almoçar com a rapaziada. 
Cá pela família, isto está mau. Somos quatro engripados, quem está pior é o Afonso, com  febre acima dos quarenta, que não baixa com os medicamentos. Estas novas estirpes parecem muito mais agressivas.
Saúde para todos, especialmente para aqueles que também estão doentes.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O conto desta semana

Não é propriamente um conto, embora possa ser lido como tal; é um dos capítulos de uma novela inédita. Custou-me muito a escrever, de tal forma que depois, durante mais de um mês, não consegui escrever nada. Até começa pacífico, com a descrição de uma escola primária de aldeia serrana nos anos 60. Homenagem minha aos professores que mais contribuíram para a nossa formação: os primários. Depois... 4 pp. A ler amanhã.

Objecção de consciência

Sempre disse muito claramente que não iria aplicar o novo acordo ortográfico. Já nem tenho paciência para explicar as numerosas razões desta decisão, tomada em consciência, apesar do risco de vir a ser sancionado. E é inútil lembrarem-me de que antigamente farmácia se escrevia com ph, pois passo muito do meu tempo a ler textos antigos, alguns dos quais  remontam à alvorada da nossa literatura, em finais do séc. XII. 
Diferente foi a atitude de muitos dos meus colegas, uns por, em consciência, concordarem com as alterações propostas, outros, raros, porque sempre correm atrás das modas.
Hoje foi a vez  da Presidente da Associação de Professores de Português sair em defesa do novo acordo em declarações ao DN:

A Associação de Professores de Português (APP) "lamenta" as declarações do secretário de Estado da Cultura sobre possíveis alterações ao Acordo Ortográfico (AO), e considera que se anda "a brincar" com o Ensino.
Em declarações à Lusa, a presidente da APP, Edviges Ferreira, afirmou que "é de lamentar as declarações do secretário de Estado [da Cultura], e também que entre os governantes não haja acordo".
A responsável recordou que "saiu uma portaria do Ministério da Educação, segundo a qual os professores são obrigados a aplicar o novo Acordo Ortográfico a partir do ano letivo 2011/12, a decorrer".
"E agora com que cara vão dizer aos alunos que cada um escreve como entende", questionou a docente.
Edviges Ferreira considerou estarem "a brincar com os professores, alunos, pais, e toda uma comunidade".
Para a presidente da APP as declarações de Francisco José Viegas "destoam da contenção orçamental que nos é exigida", referindo os gastos já feitos com "os manuais escritos já impressos segundo as novas regras" e os que implica a reformulação das regras.
Declaração de interesses: em devido tempo, desvinculei-me da referida associação por entender que não defendia devidamente os interesses dos professores de Português. Este comunicado bem o comprova: afinal, um dos motivos para a rejeição de alterações reside nos custos dos manuais já impressos pelas editoras. Pena não ter denunciado o preço indecente dos manuais escolares, pena não ter avançado com propostas para reduzir o seu custo, purgando-os daquilo que pode ser cortado, o que melhoraria a respectiva operacionalidade. 
Talvez por detrás desta rejeição indignada esteja algo mais profundo e difícil de erradicar: o apego ao eduquês. Que, qual hidra, continua peçonhenta com todas as suas cabeças intactas, quase um ano após a tomada de posse do ministro Nuno Crato-- que, já deu para ver, não é nenhum Hércules.

Ai, estes eufemismos!

Ou a crença de que o termo empregue muda a realidade da coisa:
António Costa rejeita que a Câmara de Lisboa esteja a estudar o surgimento de um bordel na Mouraria, mas admite que foi apresentada uma proposta com vista à criação de “uma safe house” onde, entre outras coisas, as profissionais do sexo se poderiam dedicar a uma “prática segura” da sua actividade. (Ler aqui)
Para evitar a António Costa o recurso a estrangeirismos, sugiro, em alternativa a "bordel", que parece incomodá-lo: lupanar, alcouce, prostíbulo, casa de putas, casa de meninas; ou um dos termos arcaicos "mancebia", " putaria",  "Safe house" não lembra ao diabo, e escandalizaria os egrégios avós.

ADENDA: lembrei-me entretanto de que anos atrás um autarca espanhol, Jesús Gil, creio eu, ganhou umas eleições com a proposta de construir em Marbella um putódromo. Neologismo bem melhor do que safe house.