Número total de visualizações de página

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Historieta politicamente incorrecta

-- Professora, hoje é dia do Rendimento...
-- Pois, para quem o recebe...
A ciganita fita incrédula a jovem professora:  -- Você não recebe?
E a professora, pedagógica, como pertence na escola primária: -- Não. Recebo o meu ordenado, mas para isso tenho  de trabalhar.
Há um misto de piedade e de desprezo no olhar da jovem aluna: -- Coitada!...

Receitas para a juventude eterna

Séculos e séculos de procura da fonte da juventude, e eis que aparecem os primeiros resultados: primeiro a fome, eufemisticamente chamada dieta hipocalórica, agora a castração. Ė aproveitar.

sábado, 22 de setembro de 2012

Brinquedos sexuais

Vejo com dificuldade as notícias e pior as ouço quando, como hoje, tenho comigo os meus quatro netos, pelo que posso ter percebido mal ou compreendido ao contrário o que julgo ter visto e, como já se ouve por aí, ouvisto. Despertou-me a atenção num telejornal algo sobre a sexualidade dos portugueses. Uma terapeuta ocupacional (os cursos que por aí há!) diz algo enquanto a legenda esclarece que não sei quantos por cento dos portugueses nunca usaram um brinquedo sexual. Espanto-me: ainda há assim tantos a quem não serve aquele com que nasceram? Que atrasado, eu, que nunca entrei numa dessas lojas - como é que se diz?, nem ao menos numa casa de meninas, nem comprei qualquer brinquedo sexual! Que infeliz devo ser sem qualquer fetiche pelo plástico, pelo latex, pelas revistas pornográficas, pelas encenações -- e, sobretudo, pelos discursos sábios dos terapeutas ocupacionais que parecem ter inventado o sexo e a sexualidade. Só espero que não sejam detentores dos direitos de autor, que,.constou-me, o primeiro a registar um processo ou uma ideia fica seu proprietário. E com a perseguição à pirataria que por aí vai...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Coincidências

Da História de Portugal, Quinto Volume, dir. José Mattoso, p 117:
"A crise financeira atingia, em 1847, uma grave situação e, em 1848, o Governo contava apenas com os meios necessários para ocorrer, num único semestre, ao pagamento de metade dos vencimentos dos funcionários públicos e dos soldos e fornecimentos do Exército e da Marinha. O Governo era devedor a nível interno e externo. (...) Crescia aceleradamente a agiotagem. A crise veio acabar numa bancarrota e o período de liquidez só teve lugar a partir de 1852. (...) O aumento do banditismo, provocado pelo desemprego, evasão, deserção e suspensão de lugares e de cargos e o crescendo das guerrilhas provocavam a perturbação da ordem pública. "
Segundo a mesma fonte, a crise agrícola, que se agudizava desde 1837, acentua-se com o Inverno rigoroso de 1844-1845 e piora em 1847 devido à praga da batata, a intensa seca, a más colheitas, que levam ao consequente aumento dos preços dos cereais e produtos de primeira necessidade, causando uma crise geral de subsistência, acompanhada de baixa de salários, fome, desemprego, instabilidade política...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Maria da Fonte Revisitada

Fascina-me a lenda dessa amazona campónia, "a cavalo, sem cair" "as pistolas na mão para matar os Cabrais / que são falsos à nação". Recordo ainda hoje os versos que minha avó recitava ao serão, imaginando-a como uma das revolucionárias da República, que viriam a ser personagens de Entre Cós e Alpedriz:
A Maria da Fonte não é uma mulher como as mais
Usa facas e pistolas para matar os Cabrais!
Dessa revolução anárquica, cavalgada  tanto pela extrema-direita miguelista como pela extrema-esquerda setembrista, nasceu a guerra civil  da Patuleia, que durante oito meses devastou o país, mostrando do que é capaz este povo pacato, ordeiro, quando não aguenta mais. E o hino que imortalizou essa mulher do Minho, aqui numa interpretação maravilhosa de Vitorino,  agrada-me mais que a marcha sebastianista adoptada pela República como hino nacional:



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Anedota reciclada

-- Eu, Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal!
Responde o da Troika: -- Eu Sê lá se é

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Optimista, eu?

Ontem um amigo dizia-me "tu és um optimista. Vês sempre o copo meio cheio". Duvidei. Creio que ė antes o meu pessimismo que me leva a valorizar o pouco que o copo ainda contém. Na certeza de que será cada vez menos. 
Hoje o ministro das finanças dissipou-me as dúvidas.  Sou pessimista. Por isso valorizo cada gota que ainda resta.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

J2HV - a sequela

Transformámos em veleiro o J2HV, essa humilde chata por nós construída para a pesca na albufeira de Castelo do Bode . Com vento a favor, o barco corria sobre a água e nós, entusiasmados, víamos-nos já a explorar todos os recônditos até então inacessíveis na vasta albufeira, e neles a pescar os maiores achigãs... Mas não navegava com vento contrário -- não bolinava. Fomos aos livros, pedimos conselho aos entendidos: o barco precisava de um bom patilhão. E lá voltámos nós às carpintarias, em busca de um pedaço de contraplacado marítimo. Numa delas, quando o empregado procurava por entre bocados  de dimensões variadas um que se aproximasse do pretendido, chega o dono, ricaço de família rica do Entroncamento. Ignora-nos, pergunta rispidamente ao empregado o que faz ali, e inteirado ordena-lhe: "Isso não compensa. Volta para o teu serviço." Saímos indignados com tamanha arrogância, e terá sido por praga nossa que, pouco depois, para nossa satisfação, ele faliu...
Com o patilhão, o barco bolinava. Experimentámo-lo num fim-de-semana, sempre à vista do parque de campismo, onde acampávamos em modestas canadianas por entre as tendas-mansão e as caravanas dos proprietários de potentes lanchas a motor, os quais olhavam por cima da burra para nós, pobretanas penetras a destoar naquele novo-riquíssimo de aparências mantidas, ao que constava, à força de calotes. 
Pouco depois, sem suficiente preparação, o Henrique e eu fomos para subir o rio à vela. Chegados a Castelo do Bode, o Henrique mudou-nos os planos. Acamparíamos no parque de campismo. Mais seguro. Mais confortável. Ainda insisti em pôr a bordo uma tenda e umas latas de atum, para o que desse e viesse. Recusou, com fé inabalável no veleiro: dava perfeitamente para ir e vir no mesmo dia.
Deu para ir. Com vento de feição, afastámo-nos muito e muito rapidamente. Eufóricos. O pior foi para regressar. O mesmo vento que nos levara velozmente para montante, para lá nos empurrava por mais que tentássemos bolinar. O barco era curto, o vento contrário forte, e após horas de tentativas fracassadas, acabávamos sempre no mesmo ponto. A noite aproximava-se fria, o estômago exigia comida de mais sustento que a bolacha Maria, aliás já devorada - foi preciso voltar aos remos. Mas o meu companheiro dizia não poder remar por via dos estilhaços de granada no pulso e no joelho, recordações que trouxe de Angola juntamente com os intestino furados por bala de Kalash, pelo que, qual mestre da embarcação, fumava sentado à proa, cigarros atrás de cigarros, enquanto eu, não fumador, me esforçava exausto contra o vento que, soprando contra a vela amainada, nos dificultava a progressão. Anoiteceu. Ao longe, muito ao longe, avistámos as luzes do parque de campismo. E o meu companheiro, sempre agarrado ao cigarro: "Vá, já está quase". Eu, mais morto que vivo, as mãos ensanguentadas das bolhas rebentadas, maldizia aventura e companhia e, endireitando as costas sofridas, contei-lhe a história dos dois caminheiros surpreendidos por ataque de urso: um trepou para cima de uma árvore, abandonando o companheiro à sua sorte, o qual, não podendo fugir e não havendo quem lhe acudisse, fez-se de morto. O urso farejou-o e foi-se embora. E o amigo, descendo da árvore, pergunta-lhe trocista: "Que segredo te dizia a horrenda besta ao ouvido?" 
"Que nunca mais me meta em outra jornada na companhia de semelhante camarada".
FOTOS: (1) o Henrique e o Jorge no J2HV antes da transformação da chata em veleiro e (2) nós dois a aprender a velejar.

domingo, 9 de setembro de 2012

Certas pessoas

Numa destas noites passeava com a minha mulher quando, junto de uma vivenda, deparámos com quatro cães deitados no passeio. Mudámos para a estrada para não incomodar suas excelências. Ao passarmos, uma cadela pôs-se a ladrar histérica e logo a matilha se levantou contra nós. Não tenho ainda o bom costume cristão de oferecer a outra face em caso de ataque e presenteei a cadela que se me atirava às canelas com dois pontapés que, infelizmente, não fizeram estragos porque ela saltou para trás. Recuei ameaçando a canzoada com o telemóvel, na falta de pedras à mão, e, já algo afastado, vejo chegar senhora furiosa, vinda do escuro do outro lado da rua, com brusquidão abre o portão e leva a rafeiragem para dentro enquanto vocifera, alto e bom som, fingindo dirigir-se à cadela: -- Pois, tu não gostas de certas pessoas...
Ainda fiz tenção de voltar atrás para explicar à senhora que as pessoas, certas pessoas, têm todo o direito de passear livremente na via pública sem serem atacadas, ao contrário dos cães, que a lei obriga a trela e açaimo. Que o comportamento canino, como aliás, o dos humanos, muda consoante estejam sós ou em matilha. Que não gosto de ser atacado. Que já por diversas vezes fui mordido por cães "que nunca mordem a ninguém", pelo que... Mas a senhora desaparecera na escuridão do quintal e só me resta desabafar aqui, lembrando aos  amigos e donos dos cães, entre os quais me incluo, que somos nós os responsáveis pelo seu comportamento e não certas pessoas de quem eles podem não gostar...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Violência conjugal

Muito se tem falado nos últimos dias, e pelos piores motivos, da violência conjugal: para além das formas mais mitigadas, ameaças e agressões reiteradas mais ou menos brutais, só este ano já foram assassinadas 24 mulheres. A inexistência de onda de indignação generalizada, semelhante à provocada pela violência indonésia em Timor na pré-independência, ou pela pedofilia na Casa Pia, sugere-me um qualquer pudor individual e social, motivado talvez por consciência algo intranquila, que acaba por estender uma cortina de silêncio sobre esta forma de violência cobarde, exercida contra os mais fracos.
Tema recorrente na minha escrita, o feedback tem sido escasso. Aparentemente, muitos leitores e leitoras preferem, como sugerem as sugestões de leitura em blogues ou os conteúdos do facebook, os arroubos de imaginação ornamentada de retórica, os dichotes engraçadotes, os lugares comuns e os ditos sentenciosos a evidenciar sabedoria de algibeira. Lamento que assim seja. Mas nem por isso deixarei de escrever sobre aquilo que me angustia: vida e morte, amor, sexo e, sempre - falo da escrita ficcional - sobre os reais males da sociedade portuguesa, perenes, transversais, espoletadores dos faits divers da política e da sociedade que emergem no dia-a-dia: violência doméstica, desemprego, corrupção, ignorância, novo-riquíssimo cavaquista, a especulação bolsista correlata...
A proeminência que tenho dado à violência conjugal radica na minha convicção de que não é mera consequência do atraso nacional, antes sua determinante:  a forma como as mulheres e os mais fracos são tratados é barómetro indiciador da riqueza, da cultura, da prosperidade de um país, de uma comunidade, de uma família. 
NOTA: o terceiro prémio recebido este ano em Manteigas com um conto, Figuras sem estilo, que versa a violência conjugal, é sinal animador. Pode ser lido aqui.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

J2HV - a chegada

Esmorecido o entusiasmo da partida, animava-nos agora o da chegada. E bem carecíamos dele: o descanso do terceiro dia, passado no Rio Fundeiro, eu a pescar, o Vergílio a banhos, não nos devolveu as forças, antes fez emergir a fadiga e as dores musculares. Afinal, teríamos remado umas boas dezenas de quilómetros e numa chata lenta e pesada, que não cortava a água com a elegância de um cisne, antes a empurrava à frente com rudeza de hipopótamo. O vento soprava forte, ora empurrando-nos para trás, ora, quando o rio mudava de direcção,  dando alívio e ajuda, pelo que nos lembrámos de usar o oleado como vela, prendendo-o à proa e segurando-o com os braços, de pé, enquanto o camarada remava, agora um pouco aliviado. Foi assim que do alto da ponte nos avistaram, a quilómetros de distância, o casco um pontinho laranja rente à água, acima o cinzento da vela improvisada, que um de nós, qual Cristo crucificado, segurava dolorosamente, como bem imagina quem já permaneceu um bom instante braços alevantados. Lá estavam as nossas mulheres e o H, pesaroso de não nos ter acompanhado. No regresso, passámos pelo parque de campismo de Castelo do Bode, onde tinha ficado o carro do Vergílio. Com um palmo de água no interior, do temporal que sofremos na primeira noite no Rio Fundeiro.  
Durante dias, semanas, recordámos cada episódio do périplo, quase remada a remada, enfatizámos o esforço, rimos das discussões que em espaço tão acanhado e condições penosas inevitavelmente estalavam. De tal forma que o H, inspirado pela nossa chegada à vela e a remos, propôs nova subida do Zêzere, desta vez à vela e até onde fosse navegável. Mas essa é matéria para o próximo post, J2HV - A Sequela, embora adiante, desde já, que também nisto de aventuras nenhuma preserva a magia e o encanto da primeira, sempre irrepetível.
MAPA: a última e mais custosa etapa da subida do Zêzere. Da margem oposta ao Rio Fundeiro até ao cruzamento com a estrada nacional 238, se a memória me não falha.

Carta fora do baralho


terça-feira, 4 de setembro de 2012

J2HV -- da ilha do Lombo ao Rio Fundeiro

Passada a novidade e o desafio, a aventura sabia a rotina: remar, remar, trocar com o parceiro e descansar, para pouco depois o substituir. Nas margens, pinheirais queimados pelos fogos de Verão. Vivalma. Numa garganta apertada, o vento contrário e a ondulação eram tão fortes que recuávamos em vez de avançar. Só com a fibra do Vergílio conseguimos dobrar aquele cabo das tormentas. No Rio Fundeiro, o deslumbramento: o Zêzere alargava em todas as direcções, a povoação reluzia ao pôr-do-sol, estendendo-se da água encosta acima. 
Anoiteceu rapidamente e, sempre desconfiados dos humanos, acampámos num pinhal do lado oposto, tenda e barco bem escondidos. Durante a noite levantou-se temporal, chuva forte, vendaval violento, que fez recear queda de braças dos pinheiros a esmagarem-nos. Mas o sono era tanto que depressa esquecemos o perigo e adormecemos inconscientes. 
De manhã, o bom tempo voltara. O Vergílio insistiu para que fizéssemos a barba, para não parecermos marginais aos olhos do povo daquele fim de mundo, certamente desconfiado de estranhos. Nada fácil, tendo por espelho a água da barragem. Desembarcámos no Rio Fundeiro, povoação deserta, e encontrámos posto de telefone numa taberna. Foi a primeira e única vez que falámos com as nossas famílias, confirmando a chegada para dois dias depois. Não havia pão, creio que o padeiro só por lá passava um dia por semana, nem outros mantimentos à venda. 
Adiantados face ao previsto, a tenda bem escondida no pinhal, sem saber se encontraríamos nas margens escarpadas lugar propício para novo acampamento, decidimos pernoitar ali. O resto do dia foi passado à pesca, que pouco deu,  três ou quatro achigãs pequenos, que apressadamente fritos mal adubaram o jantar e não lograram consolar os nossos jovens  estômagos de remadores, queixosos do menu "rações de combate", na época bem pobres. 
Na manhã do quarto dia zarpámos para a etapa final, onde o rio cruza com uma estrada. História sem história, fica para o penúltimo post da série.
FOTO: o acampamento na margem oposta ao Rio Fundeiro.
Vídeo: o Vergílio, rijo remador e banhista destemido.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

J2HV - o primeiro dia

A barragem crescia adiante de nós, com braços tão largos que, não fora o mapa, e seguiríamos por eles pensando ser o troço principal do rio. Revezávamos-nos nos remos, calor e cansaço faziam-se sentir. Havíamos deixado para trás as lanchas que aceleravam na barragem, apenas uma ou outra passava por nós de tempos a tempos, talvez a almoçar na "ilha", de que ouvira falar no parque de campismo. Uma delas, à proa moça em top less, quase nos abalroou, numa tentativa de nos virar o barco com a ondulação, e desapareceu deixando gargalhadas em resposta  aos meus insultos, remo alevantado em ameaça vã. O incidente inspirou-me o conto A Sereia, que pode ser lido aqui.
Seriam umas quatro da tarde quando finalmente pusemos os pés em terra, na tal ilhota, àquela hora deserta. O meu companheiro vinha-me convencendo a adiar o almoço para, dizia, nos banquetearmos, não com uma das rações de combate, como eu queria e que cada um podia comer enquanto o outro remava, mas com uma deliciosa sopa de feijão que ele trouxera de casa. 
Na água límpida, fiquei a ver cardumes de bogas a comerem gulosas a sopa deliciosa, em que o gorgulho se misturava com o feijão. "Aí do bicho que passa pela garganta de outro bicho", sentenciava o meu companheiro, enquanto engolia avidamente colherada atrás de colherada. "Devia ter triturado a sopa, assim não vias a carne", e bocas do género, até que ele próprio, mais saciado, deu às bogas o resto da sopa enriquecida com a carne que tanto me enojava.
Rumámos para o local escolhido para pernoita, a Ilha do Lombo, a salvo de incêndios e resguardados da marginalidade.  Alcançámo-la já o Sol se tinha escondido atrás de cabeço, acampámos do lado oposto à estalagem, perto de água, receosos de roubo do barco, jantámos  pão com atum, e adormecemos imediatamente. 
Pela calada da noite, acordei com barulho estranho. Não se via um palmo à frente dos olhos. Alarmado, tentei despertar o Vergílio. Em vão. Dormia como uma pedra. Pela escuridão, martelo na mão, dissimulei-me até ao barco. E descobri que se tratava, não dos assustadores "molinos de los batanes", como os que apavoraram Sancho Pança e D. Quixote, mas de pescadores furtivos que batiam na água para afugentar os peixes para a rede. Pela manhã, ao contar o sucedido, censurei o meu companheiro: "Podiam ter-te levado, que não acordavas". 
A resposta do Vergílio virou anedota familiar durante décadas: "E eu que até dormi com a naifa debaixo da almofada!"
MAPA: o trajecto do primeiro dia. A remos, numa pequena chata. A seguir: da Ilha do Lombo ao Rio Fundeiro.

J2HV - o embarque

Filme do embarque, trinta e um anos atrás. O V(ergílio) a arrumar a tralha, depois cá o J com o equipamento de pesca e o balde das pardelhas (isco vivo para a pesca do achigã). Quatro dias longe de tudo e de todos, num tempo em que não havia telemóveis. Nem rádio levámos e apenas conversámos com outras pessoas no Rio Fundeiro e, claro, à chegada, com as nossas famílias.

sábado, 1 de setembro de 2012

J2HV

Construímos o barquito numa garagem, com a ajuda de um amigo carpinteiro. Uma chata, para pescarmos em Castelo do Bode. Forte e feia. E no baptismo, no Bonito (Entroncamento), demos-lhe por nome as iniciais dos nossos, e o número 2 porque éramos dois Josés. Logo um deles, o carpinteiro, recusou acompanhar-nos: tivera todo o gosto em ajudar, mas água, mesmo mansinha como aquela da barragenzita, não era com ele. Foi sobre o tejadilho do meu carro, um Datsun 100 A, que transportámos o barco para Castelo do Bode. E aprendemos a remar, desenvolvemos a força necessária, e era muita, para mover a chata. Nela pescámos bons achigãs. Mas depressa o J que restava, o autor destas linhas, quis horizontes mais largos, desconhecidos -- uma subida do Zêzere a remos, acampando nas margens, pescando para comer. Conseguimos copiar um mapa militar em papel vegetal (o tempo das fotocópias ainda não tinha chegado até nós), convencemos as nossas mulheres, fizemos os preparativos, e numa manhã de Setembro descarregámos o barquito de cima do carro, arrastámo-lo até à água, colocámos a bordo tenda de campismo, fogão, cobertores, canas de pesca, algumas rações de combate para o caso da pesca falhar, um oleado para abrigo das chuvadas e embarcámos -- dois, J e V, que H, não me lembro com que pretexto, voltou para casa com a mulher depois de nos dizer adeus e de se comprometer a esperar-nos daí a quatro dias junto de uma ponte a montante que marcava o fim previsto para a nossa expedição.
(Continua: em breve, o filme da partida, em Super 8; depois, o relato das peripécias da viagem.)
FOTO: este J, 31 anos mais moço, algures numa das margens da barragem. Em primeiro plano, J2HV coberto com o oleado por causa da chuva.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A meados de Agosto

Longo. Fragmento de Um amor inventado (inédito), que surge aqui a propósito da chuva desta noite.

"Foi a meados de Agosto, altura em que o tempo muda e o calor do Verão é, por dois ou três dias, substituído pela fresquidão outonal. Começara a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, colava-se às pessoas, às árvores e às casas, tombando depois já reunida em grossas gotas, enlameando o pó dos caminhos, encharcando a terra, onde depressa desaparecia, sorvida pela sequidão dos campos. Uma nuvem de vapor desprendia-se amarelenta das lâmpadas de iluminação pública, inaugurada meses atrás, e unia céu e terra numa melancolia invernosa que fazia ansiar precocemente por castanhas e lareira. Dentro de dias o Estio voltará, mas, por enquanto, a tristeza deste interregno invernoso contagia a aldeia, encerra as famílias em casa, já ao borralho, a que só os rapazes resistem, trocando a monotonia doméstica pela conversa à porta da igreja, onde, mal abrigados da morrinha incessante, se apertam uns contra os outros, espremendo-se, empurrando-se mutuamente para a chuvinha miúda, soltando gargalhadas estrondosas, proferindo heresias, berrando besteiras e palavrões que, se não escandalizam Santa Marta, que os contempla enigmaticamente do alto do seu pedestal, incomodam a vizinhança, que jamais se habituará a estes pequenos desmandos da juventude de todos os tempos. Mais para a noite, dão uma corrida rápida até à tasca do Ameixa, a escassos cem metros, e por lá se deixam ficar até que feche, fazendo salão a troco de pouca despesa, para frustração do taberneiro que já devia ter percebido que jamais enriquecerá com clientes como estes. Pois não só não percebeu como instalou à sociedade, na semana passada, dois jogos de matraquilhos e ouve deliciado, como se fosse caixa registadora cantando de alegria, o som da introdução das moedas, o matraquear das bolas que saem de roldão para iniciar novo jogo. Desiluda-se: quando, no final do mês, na presença do proprietário, abrir as caixas dos jogos encontrará, em vez do esperado montão de moedas de dez tostões, anilhas e caricas espalmadas...
Começam a rumar para casa, primeiro os mais supersticiosos, receosos de que a meia-noite traga ordem de soltura para o sobrenatural, depois abalam os outros, ao verem-se sem companhia e porque amanhã é dia de trabalho; por fim, saem os bêbedos, quase postos na rua pelo taberneiro, que entende serem horas de ele próprio ir descansar.
Depressa a chuvinha os empapa e eles estugam o passo, uns por medo, outros para fugir à molha, e entrarão nas casas ou nos palheiros onde dormem, fechando aliviados atrás de si a porta que os isola do outro mundo e deste, agora pouco agradável. Deitar-se-ão e adormecerão imediatamente, exaustos de um longo dia de trabalho, não ouvindo já o cantar dos galos que, sem que se saiba como, marcam agora o início, mais tarde o fim, do período em que as coisas do Além podem atentar os vivos. Pouco depois, a aldeia dorme sossegada, perturbada talvez por ronco mais forte aqui, por gemidos amorosos ali, por briga feia além, entre casal desentendido, talvez porque o homem chega sempre bêbedo a casa...
É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar, tem de destruir tudo por onde passa; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já, balde na mão, enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau-olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.
Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do dono e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por carraças e solidão."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Treino individual

Sou adepto da actividade física. Dia em que me falta nem durmo bem. Encontrei no karaté, trinta e um anos atrás, a modalidade certa para mim.
À tardinha, no meu alpendre, tendo por companhia o meu cão, já habituado à doideira do dono, exercito-me, repito vez após vez as minhas katas favoritas, com o desgosto de treinar algumas delas há mais de um quarto de século e não as conseguir executar satisfatoriamente. É o caso de Tekki Shodan. Um dia, hei-de conseguir executá-la irrepreensivelmente. O filme é um exercício de auto-flagelação. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Comissões de boas vindas

Agosto de 1981. Universidade de Montpellier. Nós, bolseiros, chegáramos dos quatro cantos do mundo. Os russos, então soviéticos, não falavam com ninguém - estavam proibidos, ou receavam o controleiro, o único que interagia com a universidade. Os polacos, por um mês fora da cortina de ferro, extravasavam a alegria e logo no primeiro domingo surpreenderam o padre ao encherem-lhe a igreja. O controleiro russo tenta conversar com eles. Viram-lhe as costas com desprezo: França é terreno neutro, on en a assez, ils nous emmerdent en Pologne. E havia os chineses, inchados com a sua revolução.  Todas as manhãs batiam à porta do professor responsável: se os norte-americanos já tinham chegado. E um dia chegaram. Ei-los que finalmente podem cumprir a missão para que se haviam preparado: punho erguido, cantam para o surpreendido gigante barbudo americano, calções, tronco nu, o hino Abaixo o imperialismo yankee!
Esperariam talvez poder reatar ali, no quente Sul de França, os conflitos do Sudoeste da Ásia. Mas o americano, sem parecer compreender a declaração de guerra, tomou a provocação por simpática recepção, agradeceu, e retirou-se para dentro do quarto. Suponho que no regresso à China terão sido recebidos como heróis, eles que, mais uma vez, e nos antípodas, provaram que o imperialismo americano é um tigre de papel.
Lembrei-me deste episódio hoje, ao ver no telejornal um grupo de sete manifestantes a protestar junto à casa de férias do presidente da republica. Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares, só o ridículo é o mesmo de sempre. 
FOTO: em Montpellier, com parte do grupo português. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Grande GNR!

Que tão bons resultados fornece para as estatísticas! Não é que apanha um produtor caseiro de cannabis por dia? Espantoso. Suponho que  se trate de produção para consumo próprio, da tal que  prejudica os traficantes. Há, portanto, que a combater encarniçadamente. Fico à espera que a GNR apresente resultados semelhantes no combate ao roubo e tráfico de cobre e aos sucateiros receptadores. Aos assaltantes de caixas multibanco com  explosões de gás. À gatunagem, grande e pequena.
(Com excepção de raros medicamentos, café e bebidas alcoólicas, nunca toquei em substâncias estupefacientes).