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domingo, 5 de agosto de 2012

Grande GNR!

Que tão bons resultados fornece para as estatísticas! Não é que apanha um produtor caseiro de cannabis por dia? Espantoso. Suponho que  se trate de produção para consumo próprio, da tal que  prejudica os traficantes. Há, portanto, que a combater encarniçadamente. Fico à espera que a GNR apresente resultados semelhantes no combate ao roubo e tráfico de cobre e aos sucateiros receptadores. Aos assaltantes de caixas multibanco com  explosões de gás. À gatunagem, grande e pequena.
(Com excepção de raros medicamentos, café e bebidas alcoólicas, nunca toquei em substâncias estupefacientes).

União Ibérica

Em Espanha é que era bom -- e não falavam então dos caramelos de Badajoz, do azeite baratino, que viria a vitimar mais de mil pessoas. Nem das aspirações independentistas do País Basco ou da Catalunha. Eram os salários, era o nível de vida, eram as reformas aos cinquenta anos ou antes. As vagas em Medicina. Os horários de trabalho. As estâncias de férias. O TGV. Lá tudo bom, por cá tudo uma miséria. Um presidente da república portuguesa chegou ao extremo de pôr em causa a própria nacionalidade, ao dizer em discurso oficial algo como "... de Espanha, de onde talvez nunca nos devêssemos ter separado." 
Ridicularizavam as minhas ideias patrióticas, os versos de Pessoa com que os tentava contraditar, a eles e a elas que tão bem espelhavam o pior do nosso povo  quando a alma lhe falta, e não lhes escasseava auditório nem aprovação para os seus argumentos interesseiros, materialistas, reles, a sobreporem a cupidez à pátria, à língua, à cultura - que não tinham, que não têm.
E veio a crise. Terrível, desmoralizadora. Com a gasolina muito mais barata do lado de lá da fronteira, hoje tão fácil de passar que não fora a língua e nem saberíamos que estávamos em país estrangeiro. O fecho das maternidades alentejanas e os consequentes partos espanhóis. Os impostos, muito mais pesados por cá. As portagens nas antigas SCUT. Os cortes de salários e de subsídios. Com o agravar da crise, novos argumentos e mais poderosos deram sustento à integração ibérica: antes a gozar a próspera dominação castelhano que a sofrer a espartana austeridade imposta pela Alemanha. Antes com nuestros hermanos que sob o jugo da troika, a ouvir funcionários de quarta ou quinta linha, como os designou um banqueiro, a darem-nos lições de governação em conferências de imprensa, como se nossos governantes fossem.
Espanha receava o contágio português. Itália receava o contágio português. Obama receava o contágio português: não somos a Grécia, não somos Portugal, ouvi-o eu dizer.
Todos nos receavam porque portadores de doença contagiosa grave: caloteiros calaceiros.
Hoje, dois anos depois, somos nós que receamos o contágio espanhol, somos nós que vemos na sua crise a maior ameaça à nossa recuperação. Não se ouvem agora as vozes que defendiam a União Ibérica. Mas voltarão a fazer-se ouvir, logo que Espanha volte a estar melhor do que nós, o que inevitavelmente acontecerá - isto se, com a crise, se não desagregar. Porque, toda a gente sabe, ou deveria saber, Espanha nunca existiu como nação e casa onde não há pão... 
Nós, portugueses, a única das nações ibéricas a sacudir a hegemonia de Castela, devíamos ter memória e, futuramente, o bom senso de não defender, mesmo como mera hipótese académica, a União Ibérica, saco de gatos de onde povos e nações (bascos, catalães, galegos...) sonham sair.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crítica ao crítico

José Mário Silva, crítico literário, poeta e contista, é sobejamente conhecido, em parte graças ao blogue Bibliotecário de Babel, e a iniciarias que tem promovido com sucesso, como a Grande Oferta de Livros.
Recentemente brindou-nos com o microconto Um Bilhete para Anchorage, em que mais uma vez evidencia a sua maestria no género, de que saliento a economia da narrativa, o ritmo e o final, que não sendo surpreendente, está bem conseguido. 
Li e reli a história, como sempre faço quando elas me agradam, para as saborear melhor, para apreender a técnica, e, confesso, em busca de fragilidades. É este um defeito meu, que me acompanha desde criança e me motiva para a escrita: a convicção de que com uns retoques muitas narrativas poderiam melhorar -- isto de acordo com o meu gosto.
No conto, JMS glosa a história do homem que, desapontado com a vida, sonha desaparecer para recomeçar algures -- neste caso, no Alasca. Até aqui, tudo normal. Sou daqueles que acreditam que todas as boas histórias foram há muito escritas, pelo que nos resta inovar no modo de as contar, actualizando-as, adaptando-as talvez ao tempo em que vivemos e ao gosto da nossa época. Ora é aí, no contexto, que me parece existir algo a melhorar. Sem ter a pretensão de ensinar a escrever a José Mário Silva, atrevo-me a recordar-lhe que apreendemos a realidade através dos cinco sentidos e se alguns deles não participam nessa apreensão, a narrativa pode não conseguir atingir a ilusão do real que torna as histórias verosímeis. Por exemplo, se se aceita que o Alasca surja estereotipado, por se tratar da quimera com que o pai do protagonista sonha, já a cena do hospital ganharia em verosimilhança com pormenores olfactivos que transportassem o leitor para os cuidados intensivos, acompanhando o protagonista. 
Um bom conto, técnica narrativa apurada. Venham mais.

O professor, o cartaz, Relvas

Roupa suja lava-se em casa. Não aprecio, portanto, protestos no estrangeiro envolvendo questões domésticas, os quais em nada nos dignificam enquanto povo e nação, e menos aprecio que essa campanha seja feita por alguém que é apresentado como professor.
Não é assim que se dignifica a 'classe', por demais desprestigiada, sobretudo por nós, professores, que nem sempre sabemos estar à altura das nossas responsabilidades sociais e culturais. A nossa revolta, a que não faltam causas, não nos devia fazer esquecer da nossa função. A não ser que desejos de protagonismo mediático se sobreponham e obliterem a razão...
Nota: não tenho a menor simpatia por Miguel Relvas, nem o menor apreço pelo que fez para se 'licenciar'. O meu caminho foi sempre outro. 

O bosão de Higgs

 O bosão de Higgs fascina-me desde que ouvi falar dele, não muito tempo atrás. Pelo que julgo ter compreendido, o dito bosão (não faço ideia do que isso seja) preenche o espaço como um oceano infinito e dá massa às partículas que com ele interferem, de forma semelhante à resistência que sentimos ao caminhar na água. Se uma partícula, um fotão, por exemplo, não  interfere com ele, não tem massa. Faz sentido, até porque parece não existir explicação alternativa para a existência da massa. O que não entendo, e não vi ainda explicado em lado nenhum, é (i) o que dá massa ao bosão de Higgs (cento e tal vezes a do protão) e (ii) sendo ubíquo porque é que é tão difícil de encontrar.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Réstia de cebolas

Faria melhor figura se dissesse que faço agricultura biológica, a qual escapa ao estigma da agricultura rasteira. É que a biológica tem a seu favor o ser feita por gente culta, de meio social favorecido, que exerce a actividade quase como desporto. 
Mas - que hei-de fazer? - sou do contra, avesso a modas e modismos, e entendo que toda a agricultura é biológica, feita ou não com recurso a adubos químicos e pesticidas. Não usei nada no caso destas cebolas, que, coitadas, nem água viram de Novembro a Abril porque o céu a não deu. Mas noutras culturas, como a da vinha, não me venham com tretas: ou combatemos as pragas, sobretudo o míldio e o oídio, ou não teremos vinho nem vinha. E ninguém me consegue convencer de que são preferíveis os tratamentos exclusivos com os produtos químicos empregues na agricultura biológica, como a calda bordalesa (sulfato de cobre e cal) ou o enxofre, os quais têm em seu desfavor menor eficácia - nenhuma, até, no combate ao Black Rot. 
Agricultura rasteira, portanto. Na foto, hoje a fazer réstias de cebolas enquanto o povo torra feliz nos areais de Portugal, indiferente a crise e a  troika. Enfim, cada qual diverte-se como quer ou como pode.

domingo, 29 de julho de 2012

Gratidão

Rentes de Carvalho foi um dos raríssimos escritores a aceitar receber um exemplar de Entre Cós e Alpedriz. Leu-o e enviou-me o seguinte comentário, que me encheu de satisfação (suponho que por volta de 2010):

Caro colega,
Em quatro noites seguidas fiz a leitura de “Entre Cós e Alpedriz”. Sinceramente lhe posso dizer que o primeiro parágrafo me entusiasmou de tal modo que com grande interesse continuei a ler. A sobriedade da cena de violação e, sobretudo, o sugerir em vez de mostrar ou detalhar, são prova de quem sabe o que encerra o mister escrita.
Essas excelentes qualidades notam-se em várias cenas, e notavelmente no final, quando Joaquina revê o seu passado.
 Assim, pois, lhe dou aqui merecidos parabéns. “Entre Cós e Alpedriz”  não é um livro perfeito -- não há livros perfeitos -- é, sim, um carinhoso, solidário e muito sentido testemunho.
Foi para mim um prazer lê-lo, e grato lhe fico por se ter lembrado de mo oferecer.
Cordialmente,
JRC

Apita o comboio...

Antigamente, se alguém se queixava de ter perdido o comboio, logo ouvia réplica trocista: como é que se perde coisa tão grande?
Hoje é a CP que perde passageiros. Seis milhões só este ano, mais de metade da população de Portugal. Por muito mais pequenos que os passageiros sejam do que os comboios que os deviam transportar, a CP devia, tendo em conta a dimensão da perda, fazer um esforço para os encontrar. E porque o comboio é o meu meio de transporte favorito, sugiro a contratação do "cliente-mistério" para:

  • Comprar bilhete em qualquer uma das bilheteiras deste país para se aperceber da sobranceria com que somos tratados e pôr-lhe cobro;
  • Comprar bilhete na gare do Oriente cinco ou dez minutos antes da chegada do comboio, que é como quem diz consumir-se na bicha, que as máquinas estão avariadas e o funcionário "como tem tempo não tem pressa" (frase roubada a Fernando Pessoa);
  • Pagar o bilhete para ver o que custa a vida: Entroncamento - Oriente e volta, 25 euros em intercidades. Mais caro que de carro, portagens incluídas, parece-me; Faro - Porto, muito mais caro que de avião...
  • Tentar viajar naqueles dez meses do ano em que há greves...
FOTO: No TGV, rumo a Paris, em 2000.

sábado, 28 de julho de 2012

Jogos olímpicos

Lentamente, regresso à normalidade. Na televisão, a abertura dos Jogos Olímpicos. Sobre a cerimónia, faço minhas as palavras de Eduardo Pitta e de João Gonçalves. Foi exactamente o que senti, antes de enjoar e abandonar a televisão. Hoje, ainda olhei para provas de natação. Sem a identificação espectador - atleta, o espectáculo das máquinas bem afinadas a cortar a água, mais parecidas umas com as outras do que os carros da fórmula 1, resulta monótono, desinteressante.
Azares de quem recusa o rebanho, se não maravilha com milhões gastos, luzes e fogos de artifício. De quem lamenta hipocritamente não conseguir ser quinhoeiro  de tanta alegria, de tanta emoção, de tanta felicidade ao alcance da mão.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quando os sinos dobram

O sino dobra novamente a finados...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tempo contado

Rentes de Carvalho anuncia o fecho do seu blogue Tempo Contado. Leitor assíduo, só posso lamentar a decisão do autor; mas compreendo as suas razões pois, como diziam os antigos, não dá para cavar na vinha e no bacelo ao mesmo tempo. Um blogue exige alimento frequente, rouba tempo que faz falta, especialmente quando, como no caso de Rentes de Carvalho ou no meu, todo ele está contado. 
Aproveitemos para ler e reler Rentes de Carvalho nos seus romances e aprender com o mestre. E talvez ele não consiga resistir e cedo interrompa a ausência anunciada.

domingo, 15 de julho de 2012

O espadachim


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os meus leitores no Scribd

Eis a estatística das leituras dos contos que comecei a publicar no scribd no início deste ano. São mais numerosas do que eu pensava e, surpresa,  mais de um terço tem origem no Brasil. A todos os leitores, um abraço, e o desejo de que continuem a ler as minhas histórias. Muito obrigado.
 (clicar na imagem para ampliar)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Zé Manel não vem

A recepcionista levantou-se da secretária e dirigiu-se aos africanos, uns sentados nos sofás, outros de pé, todos silenciosos. Conto, por alto, a maré negra: dezoito! Com quem desejavam falar? Um dos gigantes, numa voz aflautada que faria rir noutro contexto, esclarece: -- É com o Zé Manel que a gente queremos falar. 
 -- Ah, mas o senhor José Manuel não vem hoje! 
Os trabalhadores entreolharam-se alarmados, protestaram ruidosos. O líder atalhou o clamor com gesto de mão: -- A gente não saímos daqui sem falar com o Zé Manel. 
A recepcionista encolheu os ombros e regressava à sua secretária, sem coragem ou sem vontade de argumentar, aparentemente habituada àquelas invasões. Mas reparou em mim, esquecido desde que os imigrantes tinham ocupado a sala: --- É melhor voltar noutro dia. Hoje, isto está complicado. E apontou com o olhar a complicação: aqueles trabalhadores da construção civil, decididos a esperar pelo Zé Manel, o subempreiteiro que recebe da empresa sete euros à hora e lhes paga dois ou três. Se pagar, que pode ter esturrado o vencimento do pessoal numa qualquer casa de alterne. Aqui, nesta empresa respeitável, ninguém tem culpa de nada, se necessário for, chamam a polícia, mostrarão recibos, deixarão bem claro que pulhices não são com eles – apenas com o engajador, o mesmo que todas as manhãs recruta vinte ou trinta imigrantes, sempre diferentes, e manda embora os outros, para que não se atrevam a reclamar, mesmo que lhes pague quanto e quando quiser. Dois andares acima, talvez os administradores sintam algum incómodo por não poderem sair antes que os trabalhadores zangados se cansem de esperar pelo Zé Manel, ou talvez riam da partida que, mais uma vez, pregou aos pretos… 

NOTA: ouvi esta história ao Nuno, anos atrás, quando a construção civil florescia. Fui buscá-la à minha gaveta informática após ouvir hoje, num telejornal, protestos de trabalhadores africanos, também eles subcontratados.)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mundo pequeno

Excerto do mail de uma amiga: (...) o teu livro "Entre Cós e Alpedriz" [me] foi pedido, via Bookmooch, por alguém com nome árabe que está no Reino Unido! :)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Figuras sem estilo

São poucos os leitores que me fazem chegar as suas opiniões e críticas, pelo que cada uma das que recebo me enche de alegria e de gratidão: alguém me leu. Dias atrás, a propósito do conto Figuras sem estilo, um amigo enviou-me por mail este comentário "Gostei do conto, mas preferia que tivesse um final feliz! Coitado do Paradoxo!" Pois, também eu tenho pena do pobre Paradoxo, igual a tantos outros que por aí andam, os quais, tal como ele, dificilmente poderão ser protagonistas de histórias com final feliz...

Jornalismo latrinário

Indigna-se o Correio da Manhã com o despesismo da ministra da Agricultura: levou ao Brasil comitiva de 20 pessoas, que custou ao contribuinte 40.000 euros:
A ministra da Agricultura, Assunção Cristas, levou para a Cimeira Rio+20 uma comitiva de 20 pessoas. Por dois dias no Brasil, foram gastos cerca de 40 mil euros, só em viagens e estadia. O CM foi saber o que é que os contribuintes portugueses têm a dizer sobre estes gastos governamentais numa altura em que lhes são exigidos tantos sacrifícios. O exemplo não deveria vir de cima?
Agisse o autor da notícia como jornalista e, em vez de se escandalizar com o gasto de 2.000 euros por pessoa numa visita oficial, investigaria e exporia eventuais ganhos com a deslocação, tendo em conta que o Brasil é um dos grandes clientes de produtos agrícolas portugueses, como, por exemplo, o azeite e o vinho verde. 
Mas não. É mais vendável a ideia de que todos os políticos são corruptos, trafulhas -- uma cambada de parasitas que vive à custa dos contribuintes. E as cimeiras são férias pagas. É (também) por causa desta mentalidade mesquinha que não passamos da cepa torta.

domingo, 8 de julho de 2012

Tous les enfants


Nascido a 4 de Julho

Nascido dia 4, 4 anos, segundo de 4 netos.

Poesia de sempre


Como este vilancete de Francisco de Sousa, que tanto me diz:

Abaix´esta serra 
verei minha terra

Ó montes erguidos,
deixai-vos cair,
deixai-vos sumir
e ser destruídos,
pois males sentidos
me dão tanta guerra
por ver minha terra.

Ribeiras do mar,
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deixai-as passar.
Deixai-mas tornar
dar novas da terra
que dá tanta guerra.

Cabo

O sol escurece,
a noite se vem;
meus olhos, meu bem
já não aparece.
Mais cedo anoitece
aquém desta serra
que na minha terra.

Francisco de Sousa

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Tu também sabes

Com ligeiro atraso, aqui vai a prometida história, ouvida ao meu amigo X, e depurada do calão setentrião. Precisa de uns retoques, dar-lhos-ei mais tarde. E há problemas de formatação, culpa do IPad (que fino!) em que estou a escrever. Ainda não percebi bem como funciona.
Zacarias vai à discoteca. Com olho de predador, inspecciona possíveis presas, procura eventuais interesses comuns, espreita fragilidades, fareja carências. Exclui as acompanhadas -- veio para o engate, não para a pancadaria. Tampa após tampa das mais giras, vão-se reduzindo as escolhas. Pela madrugada, só resta uma: trinta e muitos, para o gorducho, para o feio, algum mau gosto no arranjar-se, tristonha – ah, Zacarias está por tudo, atormentado por atrozes dores testiculares, longo é o jejum, esta não lhe pode escapar, é a última oportunidade da noite. Chega-se, educado, melífluo, copo após copo vai-se encostando, escuta-lhe meigamente os desabafos, nada de pressas, mau-grado os protestos da parte baixa, impaciente com tamanhas delongas. E ela fala pelos cotovelos, derrama lágrimas e conta desgraças sentimentais: "Não sei porque é que te conto estas coisas", "Ora, em mim, podes confiar, faz-te bem desabafar", tudo ouve e nada pede em troca, ansioso embora de que ela se deixe de conversas da treta: "Os homens são todos iguais, querem todos o mesmo e apenas isso." Pudica virgem em local destes? Que espera encontrar aqui, afinal? Um príncipe encantado? Não se dará conta de que não é nenhuma princesa donzela a ver feio sapo em cada pretendente? Dissimula o desagrado, não a contradiz, antes lhe enche o copo e insiste para que beba, finge interesse pelos seus dramas sentimentais: "Não sou, não aceito ser, objecto sexual, passatempo, brinquedo de tempos livres"; está na altura de o namorado se decidir, de lhe propor compromisso firme: "Isto assim não é nem deixa de ser, os anos vão passando, para ele, que é homem, tudo bem, mas para mim assim não serve, ele..." Ele pretextou, conta, turno no hospital, hospital onde, basta ver as séries de televisão, mais namoriscam do que trabalham, e há a colega dos olhos verdes, nova e gira, a Inês, por quem o safado já reconheceu sentir-se atraído... Por isso aqui está sozinha, justifica-se, a cumprir a ameaça que lhe fez: "Então saio eu, estou farta de passar fins-de-semana encafuada em casa à tua espera!" Zacarias ouve mais do que fala, encosta-se, aperta-a contra si, outra vez lhe enche o copo, ajuda-a a levá-lo aos lábios e quase a força a beber, embora ele se resguarde -- álcool, mau álcool de discoteca, pode ser fatal no momento da verdade. Desponta a madrugada quando saem, ela arrepia-se com o frio matinal, ele abraça-a protector, apoia-a no seu caminhar cambaleante, a moça deixa-se levar, vagamente dá-se conta de que entraram para o furgão de uma carrinha fechada, e ele, não aguentando mais, deita-a sobre colchão de espuma, para cima dela se atira, é agora, é agora, as mãos precipitadas levantam-lhe a camisola de gola alta, desviam o sutiã e apertam-lhe os peitos, depois descem em busca de intimidades mais íntimas, e ela, já mais lúcida, afasta-lhas, esquiva ao toque as partes pudendas, evita-lhe a boca, e fala, fala, já não as lamúrias infelizes de há pouco, antes remorsos, afinal é do namorado que gosta, e o Zacarias quer lá saber de quem gosta ou deixa de gostar, precisa é que abra as pernas e sem mais demora, ela soergue-se como querendo ir embora… Ah, assim não, não quer perder outra noite, tanto trabalho lhe deu, tanta paciência para lhe escutar as baboseiras, está por tudo, em desespero mete-lhe a coisa na mão, implora: “Vá lá, ao menos, uma punheta”. Ela começa, sem vontade, sem jeito, mas depressa larga a causa de toda aquela maçada: “Faz tu, que também sabes.”

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Do real e do verdadeiro

Perguntam-me amiúde quem são as personagens das minhas histórias, o que me lisonjeia: trabalho muito para que sejam, ambas, verdadeiras. Muito mesmo. De tal forma que, tenho-o verificado, são normalmente os excertos verídicos que os meus leitores consideram inverosímeis...
Por vezes, sempre devidamente assinaladas, reconto histórias alheias. Por exemplo, hoje à noite publicarei aqui o micro-conto "Tu também sabes", baseado em história ouvida num jantar a um amigo. É dele a história, meu o discurso, i.e., a forma de a contar. E sim, trabalhei muito para conseguir que a minha versão escrita esteja à altura do seu talento de contador de histórias. O que não é nada fácil.

Coimas e mais coimas

1. Fui surpreendido -- ainda me surpreendo com estas coisas -- por mail da Autoridade Tributária a informar-me de que não paguei o imposto de circulação em 2008. Tenho a certeza de que o paguei. Pago sempre. Pela internet. Não tenho papéis: já lá vão 4 anos e há tempos, antes de mandar o carro para a oficina após pequeno acidente, fiz limpeza ao porta-luvas. No site das finanças não há registo de qualquer dívida. Para evitar a contra-ordenação com que me ameaçavam, paguei novamente. Com coima, para recompensar, suponho, à incompetência dos serviços que só levaram 4 anos a descobrir, dizem eles, um pagamento em atraso. Desnecessário seria dizer, mas faço-o porque me alivia, que enquanto enquanto ocupam os serviços a vasculhar registos à cata de "dívidas" de 30 euros em 2008 dão tempo aos figurões que sempre deixam prescrever as dívidas de muitos milhões.
2. Uma desgraça nunca vem só, diz o povo no seu optimismo secular. Telefona-me a polícia: o processo que me foi movido há 3 anos ao tentar renovar licença caducada de uso e porte de arma de caça, aqui relatado com desenvolvimento, entretanto arquivado pelo tribunal, ainda mexe: agora tenho de pagar coima de 301 euros! Lá fui para protestar, pagar e terminá-lo. Qual quê! Mais uns papéis, volta novamente tudo para Santarém e daqui por uns meses o agente telefonar-me-á novamente para, talvez então, poder pagar a coima e livrar-me destas arrelias que me fazem perder dias e dias...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Malefícios do calor

Custódio garantiu esta manhã que Portugal vai «lutar até à morte para que este seja o ano de Portugal», quando questionado sobre o que tem faltado para que a selecção consiga ganhar um título.
Eu, afectado pelos 39 graus à sombra, lembro ao fogoso moço duas coisas:
1. Não lhes pede tanto a pátria. Apenas que se esforcem, que joguem o melhor que conseguirem. Afinal, não é num campo de futebol que se joga o destino nacional.
2. Como escreveu o Padre Vieira, "ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua". Espero, no entanto, que o Padre Vieira não tenha sido, também em matéria de futebol, profético: "O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela."

domingo, 24 de junho de 2012

Do princípio da incerteza

Idade: quarenta e cinco anos. Estado civil: divorciado. Profissão: desempregado. Acrescenta, em jeito de justificação: era até há pouco quadro bem pago de próspera empresa. Inadequação ao posto de trabalho, alegaram os Recursos Humanos. Indemnização: uma miséria. Um ano atrás teria recebido o triplo. Mas um ano atrás nem lhe passava pela cabeça que pudesse ser despedido. Começa as frases por quando e se. O seu futuro é conjuntivo. Uma vida em poucas palavras. De circunstância, na sua maior parte. Resignado, repete o lema de toda uma geração: novo demais para a reforma, velho demais para conseguir trabalho. --- E agora? Encolhe os ombros: -- Para já, tenho o subsídio de desemprego. Depois, logo se vê. Alvitro: emigração, Angola… Meneia negativamente a cabeça: falta-lhe a estaleca; o corpo fraqueja: tensão arterial para o alto, hérnia discal… Não, fica por cá. Casa própria, carro, os seus discos, os seus filmes, os seus livros, pequena poupança no banco. Não tem dívidas. Com pouco se contenta… E talvez, se, quando... Incomoda-me tamanha resignação – mas que faria eu no seu lugar? E que lugar é o meu, não estou também eu conformado, não estamos nós resignados, presos ao passado, desinteressados do futuro? Para onde foi esse tempo da mocidade, em que encarávamos o porvir com esperança, o víamos risonho, e, no entanto, pouco mais tínhamos então do que os nossos sonhos? Não serão os nossos desabafos, as nossas frustrações, iguais às dos velhos de todos os tempos, perdidas as ilusões da juventude? Acrescenta: felizmente não tem família. Penso, mas não o digo – afinal, é fraca a confiança entre nós: família, um mal, ou um bem? Prisão ou âncora? Sacudo também eu a cabeça: há muito deixei de julgar os outros. Escuto. É a minha função: ouvir e escrever. Mesmo que ninguém leia – e porque é que tudo o que fazemos precisa de ter utilidade, aproveitamento? Não valerá a pena fazer só por fazer? Como o velhote que, receoso de perder a memória, regista minuciosamente em caderno escolar tudo o que faz durante o dia, e depois se esquece de ler as suas anotações? Talvez a escrita seja afinal uma forma de fixar a volatilidade das coisas, de organizar o Mundo, de dar à vida um sentido, ao seleccionar uma probabilidade entre as muitas possíveis -- mecânica quântica da palavra, também ela governada pelo princípio da incerteza...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Conto premiado

Figuras sem estilo, conto que foi distinguido com o 3º prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel, promovido pelo Município de Manteigas, pode ser lido AQUI. 10 pp.

domingo, 17 de junho de 2012

Ainda o regresso aos campos

Um papa, esqueci o nome, contava que há três maneiras de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres, na agricultura. Acrescentava: -- O meu pai escolheu a mais trabalhosa.

Regresso aos campos


Durante décadas e décadas, os nosso economistas e governantes esforçaram-se para que os campos esvaziassem. Argumentavam então que a taxa de camponeses em Portugal era muito superior à dos países desenvolvidos da Europa; que com tanta gente a sobreviver na agricultura a produtividade era baixa, os proveitos reduzidos; que e mais que... Cépticos como eu viam cinismo em tão boa vontade, em tão grande preocupação com os sofrimentos dos camponeses, que não compravam os alimentos nos hipermercados e ainda valiam aos filhos, enchendo-lhe os porta-bagagens dos carros quando os visitavam. Era preciso que o campo deixasse de produzir e passasse a consumir; era preciso que os filhos dos agricultores se abastecessem nos hipermercados, como fazem as pessoas civilizadas por essa Europa fora, e não na casa paterna.
Depois, vieram os golpes de misericórdia: fecharam as maternidades, as urgências, as escolas, agora os tribunais, as juntas de freguesia, portajaram-se as antigas SCUT... 
E com os campos quase ao abandono, em ano de seca, ora severa, ora extrema, eis que os génios da economia e das finanças, que também são políticos a contragosto, vêm defender o regresso dos jovens ao campo. Prevejo que será um sucesso: as raparigas preferirão os rapazes que melhor lhes falarem do perfume da bosta, da vida idílica longe dos centros comerciais, das escolas, dos hospitais, a comerem o que a terra lhes der, se der, a amealharem os proveitos dos excedentes, vendidos a intermediários com profundo sentido de justiça.
E porque palavras leva-as o vento, termino com história contada dois dias atrás por agricultor septuagenário, que ganha a vida como pedreiro:
-- Zé, contou-me, fui vender a Leiria 300 quilos de batatas. Sabes a como é que mas pagaram? A 22 cêntimos o quilo.
Faço contas de cabeça: -- Sessenta e...
-- Sessenta e seis euros. Ora vê lá o que ganhei, depois de pagar o gasóleo do transporte, e as horas que perdi. Se acrescentar o trabalho da arranca... Para já não falar da plantação, das curas...
Portanto, senhor presidente da república, senhor primeiro-ministro, continuem a vossa campanha em prol do regresso aos campos: os jovens ouvir-vos-ão entusiasmados, e prontamente repovoarão os campos, e assim se salvará a pátria -- a não se que ponham a pensar em quantos quilos de batata precisarão de produzir, de arrancar, de vender para comprar um smart phone.
NOTA: com a ajuda do meu sócio destas aventuras agrícolas, já tenho as batatas armazenadas. Boa produção em ano ruim. Mas não se pense que o trabalho terminou: é preciso combater regularmente a traça, que pode destruir por completo a produção, como fez dois anos atrás, e a podridão. Trabalho porco, fedorento -- nem imaginam como uma batata podre cheira mal --, cansativo. Inútil, por vezes.

domingo, 10 de junho de 2012

10 de Junho

Excelente discurso do professor Nóvoa. A pensar Portugal, a ver a realidade, a apontar caminhos na linha dos nossos maiores pensadores. Bom seria que as suas reflexões fossem escutadas. Mas, suponho, seria exigir demais dos políticos, sempre mais preocupados com gamela e poleiro do que com a pátria.

sábado, 9 de junho de 2012

Portugal X Alemanha

Há que reconhecer: nós, portugueses, trabalhamos muito, mas a produtividade é baixa. São nossas as vitórias morais. Porque as reais são dos outros. 

O Velho e o Mar

No Delito de Opinião, excelente post de Pedro Correia sobre este livro que é, de há muito, um dos meus favoritos. Recordo o prazer que, muitos anos atrás, me dava leccionar o 9 ano, de cujo programa então fazia parte, a par de Gil Vicente e de Os Lusíadas.
Estudava-se a obra a partir da tradução do grande Jorge de Sena, outro autor votado ao esquecimento- Porque, nos tempos que correm, as obras são seleccionadas partindo do princípio, eduquês oblige, de que os alunos são imbecis e, consequentemente, só imbecilidades lhes podem interessar -- como a "obra" recomendada pelo Plano Nacional de Leitura, que nos delicia com diálogos como este, que cito de memória e apenas a título exemplificativo:

-- Onde está o meu cavalo espacial?
-- E o meu capacete supersónico?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Morra primeiro, reforme-se depois

Já não sei o que mais me assombra: se a capacidade dos tecnocratas proferirem asneiras, se a forma acrítica como os media as reproduzem:

Após a crise idade da reforma deve ir até aos 80 anos

por Dinheiro VivoHoje
Para o presidente executivo da AIG - American International Group, a crise da dívida na Europa demonstra que os governos a nível mundial têm de aceitar que as pessoas vão ter de trabalhar mais anos, à medida que a esperança de vida aumenta. Robert Benmosche defendeu que a idade da reforma terá de se estender até aos 80 anos.
"As idades da reforma têm de se alterar para os 70, 80 anos", referiu o CEO da AIG. Numa entrevista na sua casa em Dubrovnik, na Croácia, Robert Benmosche, explicou que assim se tornaria "as pensões e os serviços médicos mais acessíveis. Eles manteriam as pessoas a trabalhar mais tempo e retirariam essa carga dos mais jovens".
Com o desemprego juvenil a atingir números exorbitantes não apenas na Europa ou no Norte de África, mas por todo o Mundo, nada como ter os jovens no desemprego e os velhotes a mourejar. Poupa-se nas pensões de reforma, gasta-se em subsídios de desemprego e afins. Além do mais, os cidadãos ficarão mais tranquilos se protegidos por polícias septuagenários, mais confiantes se as escolas se transformarem em lares da terceira idade e estes tiverem septuagenárias a cuidar dos octogenários sobreviventes... Um paraíso por todo o lado, das minas às pescas, dos militares, à moda -- os velhos a trabalhar, os moços no desemprego.

Ocorre-me até que a citada AIJ estará já a implementar as propostas do seu presidente executivo dando preferência nas entrevistas de emprego aos sexa, septuagenários, em detrimento dos jovens...

Contrariedades


Anos atrás, num quente Julho, pouco depois de a Leya ter comprado a Caminho, telefonei para saber se já havia resultados da apreciação de Entre Cós e Alpedriz. Preocupações desencontradas: eu a perguntar pelo romance, a pessoa do outro lado a lastimar-se da sua triste sorte, despedida minutos antes:
-- E agora, que vou fazer, com mais de cinquenta anos? Quem me dará trabalho, num café que seja, quando souberem que tenho esclerose múltipla?
Durante mais de uma hora ouvi os seus desabafos, incapaz de oferecer conforto válido, incomodado por lhe não poder valer, a ela que se debatia com o drama do desemprego e da luta pela subsistência...
A caminho da praia, só pensava em "Contrariedades", o poema em que Cesário Verde, enfurecido por recusas de publicação, se acalma ao pensar na vizinha:


Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve conta à botica! 
Mal ganha para sopas... 
(...)

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 
(…)
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha!


sexta-feira, 1 de junho de 2012

A arte de subir na vida (2)

E há aqueles que vêem a vida como uma escada cujos degraus são os amigos -- e até se gabam de os espezinhar, quando a vaidade os cega. 

A arte de subir na vida

Diz frequentemente: é uma amizade que importa preservar. Por isso lisonjeia, bajula, serve servilmente. Vai longe. Chegará o dia em que não mais precisará destas amizades de ocasião e será então a sua vez de saborear a lisonja, a bajulação, o servir humilde de quem entende ser a sua uma amizade que importa preservar

quinta-feira, 31 de maio de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

Treino de instrutores e avançados

Hoje, Cardosos, Leiria. Direcção: Vilaça Pinto Sensei.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Zé Rambo

Em mais uma tentativa -- fracassada -- para animar a minha mãe e interessá-la pela vida, na convicção ingénua de que precisa de pôr entre parênteses a dor física e a outra, bem pior, a de sentir que o seu tempo está a acabar, levei-a à nossa aldeia e à sua casa. Aparentemente, nada disso a alegrou: nem deitou olhadela às flores do jardim, lindas apesar de não serem tratadas há ano e meio, nem fez ronda pela casa a ver se tudo estava como tinha deixado, nem se entregou a conversa alegre com as familiares e vizinhas, que, sabendo-a chegada, logo acorreram a fazer-lhe companhia animada e animadora. Enfim. Só me resta evitar o contágio, se é que ainda vou a tempo, para me não tornar igualmente azedo, desinteressado, egoísta. Porque, diz o povo, quem lida com um coxo, ao fim de um ano, coxeia.
Pois, à chegada, entrei pela Rua do Sol a ver se a minha tia, sua irmã, estava em casa. Mal parei, surge vizinha alegre, "Priga", estás como o vinho do Porto...", a minha mãe prefere contar as suas maleitas, reais e imaginárias, distraí-me com a conversa, quando se afastou saí a tocar a campainha da minha tia, não estava -- e, ao voltar para o carro, vejo-o lançado em marcha atrás rua abaixo, a minha mãe dentro. Corri para o alcançar, mas ele acelerava na descida, consegui abrir a porta, sempre correndo tão depressa quanto podia, mas não pude entrar, que o carro ia, como disse, em marcha atrás. Antes que embatesse contra a adega da Tia Irene ou despencasse pelo pomar vizinho abaixo, atirei-me para dentro, metade do corpo de fora e, sem olhar sequer, puxei o travão de mão. 
Depois, já em casa, reparei que as mãos me tremiam como varas verdes. Nunca antes, em quase quatro décadas de condução, me esquecera de travar o carro. Felizmente, em ocasiões de perigo, reajo sem pensar. O medo vem depois.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A santidade e os políticos

Parece instalada na opinião pública a crença de que os políticos têm de ser pessoas de vida irrepreensível, de moral impoluta, sem a menor mácula na vida privada. Santos. Surpreende-me esta exigência que, surgida em países luteranos, alastrou até  nós, de base católica, logo predispostos ao perdão -- o qual, para existir, pressupõe o pecado prévio. 
Nas últimas décadas, evoluímos do sorriso cúmplice ao ouvir falar da vida sexual de, por exemplo, Miterrand, mulher e amante de longa data a coabitarem no Eliseu, para o apedrejamento público de Clinton  (no link com actrizes pornográficas, o sortudo) e hoje nem rimos às gargalhadas ao ouvir acusar Strauss-Khan de ter ido à putas ou de com elas ter participado em orgias em que as teria violado! O sentido do ridículo parece ter desaparecido. Esta exigência de santidade estendeu-se dos notáveis da política àqueles que os servem: os guarda-costas de Obama são censurados por terem o costume de, em deslocações ao estrangeiro, contratarem umas meninas... Mais me choca o puritanismo coevo por ser promovido e imposto por órgãos de informação que, descaradamente, vendem putedo, putaria e putices -- e porque, por este andar, em breve teremos a governar as nações santos que nem pecar sabem, ou criaturas aterrorizadas com o receio de que pecadilhos do passado sejam descobertos e lhes arruínem a carreira. 
A crise actual é, também, uma crise de homens de estado. Como queremos ter os melhores se lhes exigimos, para além da honestidade e incorruptibilidade, a santidade nas suas vidas privadas, nomeadamente naquilo que, entre adultos, é do foro íntimo, como a sexualidade? Como não nos havemos de nos queixar da incompetência dos governantes, se quase lhes exigimos a castidade?


segunda-feira, 21 de maio de 2012

I started a joke


domingo, 20 de maio de 2012

Lágrimas

As flores choram na chuva a ausência da jardineira.

sábado, 12 de maio de 2012

Retrato

Na serra. O fascínio que me provocou a leitura de A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, nomeadamente a descrição da travessia que o protagonista faz de noite e a pé, continua bem vivo quarenta e tantos anos depois.

Serra da Estrela


Cegonhas

Em Castelo Branco, ontem, quando seguia para Manteigas.

terça-feira, 8 de maio de 2012

3º Prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel

É oficial: o Município de Manteigas atribuiu o 3º Prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel ao meu conto "Figuras sem estilo". Muito me honra a distinção, pelo que no próximo sábado estarei em Manteigas para a receber. 
Em 2010, no 11º concurso promovido pelo Município de Manteigas, outro conto meu foi distinguido com menção honrosa. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

3ª Prémio em Concurso Literário


Acabo de ser informado por telefone de que um conto meu, "Figuras sem estilo", foi distinguido com o 3º prémio num concurso literário. Oportunamente darei mais pormenores.

Efeméride

Poucas datas conheço, menos ainda respeito. O 7 de Maio é uma das excepções: foi a data em que entrei para o ensino, 36 anos atrás. Poderia lastimar o estado a que as coisas chegaram, o barulho ensurdecedor que vem das salas do lado, com o pobre professor a tentar fazer-se ouvir, enquanto aguardo por "clientes" na sala de estudo, alunos postos na rua, como antigamente se dizia, mas já nem disso tenho vontade. Também eu fui forçado a acomodar-me, a esperar que o tempo passe, sem nada que possa fazer, excepto participações, relatórios, planos de melhoria, actas, coisas que dão trabalho inútil ao professor e nenhuma consequência têm jamais para os prevaricadores... Lamento muito ter perdido a fé -- na utilidade da profissão, no valor do meu trabalho, no meu contributo para o futuro dos meus alunos. Mas aconteceu. Por isso, mas não apenas por isso, pedi a reforma. Infelizmente, não se trata de passar o testemunho na crença de que os mais jovens darão melhor conta do recado. Trata-se, tão só, de já me não rever na profissão que escolhi por vocação. Como escrevi neste blogue tempos atrás, eu era professor de Português com formação em Literatura e especialização em Linguística. Hoje sou acompanhante nuns casos, formador (mas não professor) nos cursos profissionais, segurança nas "substituições"...

Satisfações

Não gosto de dar explicações. Para aqueles que me conhecem bem, são escusadas; para quem me não conhece, inúteis. Mas, a título de excepção, aqui vai uma: este blogue começou por ser, é, e continuará a ser, forma privilegiada de comunicação com familiares dispersos pelo país e pelas sete partidas do mundo. Mesmo amigos que não lêem o Português por aqui passam diariamente e traduzem os textos com o Google, na esperança de ter novidades da terra e das pessoas que aprenderam a amar. Conceito estranho para muitos de nós, sempre a dizer mal da pátria e dos seus costumes, esse de que há estrangeiros que de Setembro a Julho sonham voltar para junto de nós, um Agosto em cada ano, movidos pela saudade que supúnhamos ser exclusivamente nossa. 
Por vezes, muito raramente, há também outros visitantes. Que chegam de navalha afiada, senhores da razão, do bom-gosto. À procura do inefável, do ainda não dito, talvez nem sequer sentido. E prontamente ajuízam sentenciam, insultam, penitenciar-me-iam até pudessem eles, a coberto do grandioso anonimato, ou escondidos atrás de nomes que cheiram a falso de tão mal amanhados -- e que o Google desconhece, coisa estranha para tais sumidades. Não me conseguem descoroçoar. Desejo-lhes boas leituras em melhores blogues, que felizmente não faltam: basta ver a minha lista de favoritos. 
E assim irei continuando, Carneiro de signo e de feitio, a escrever sobre a família, a agricultura, o karaté, os meus livros, coisas desinteressantes para doutos visitantes, importantes para mim e para aqueles que me importam...
FOTO: o João, meu neto mais novo, hoje. 

sábado, 5 de maio de 2012

A Europa e eu

A União Europeia faz-me lembrar  a fábula Le pot de terre et le pot de fer, de La Fontaine: a panela de ferro persuade a panela de barro a acompanhá-la numa viagem prometendo protegê-la, interpor-se entre ela e eventuais perigos. Não tinham dado cem passos com as suas três pernas quando chocam  e, antes que possa soltar sequer um ai, a panela de barro é desfeita em pedaços, legitimando a moralidade: associemo-nos apenas com os nossos iguais para não termos destino igual ao da pobre panela de barro.
Poucos concordarão comigo, acomodados ao que julgam ser os benefícios desta Europa Unida, pátria das pátrias, que trouxe a paz e a prosperidade -- a união faz a força, não é?
Não, não é. Tal como na fábula, a associação entre barro e ferro dá, necessariamente, cacada:
O Governo alemão vai permitir ao candidato à Presidência francesa François Hollande “salvar a face”, mas espera que ele mantenha os compromissos assumidos em nome da França, nomeadamente o tratado orçamental, disse o ministro das Finanças germânico. (No Público)
Não conheço o texto original, nem o conseguiria ler, que não sei alemão. Mas, se a tradução é minimamente fidedigna, cada palavra é uma pérola. Colonial. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Aviso à navegação

Aprecio a crítica, não tolero o insulto. Por isso, quem não sabe distinguir luta de ideias de ofensas pessoais escusa de aqui vir comentar -- não será publicado. Acrescento: este blogue é meu. Nele publico o que me apetece, como me apetece. Dou a cara, assumo a responsabilidade pelas minhas afirmações. É tudo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nome profético

A empresa pública criada pelo governo para recuperar calotes chama-se Parvalorem:

Há, portanto, razões de sobejo para dizer Parva-lorem em vez de par-valorem: parva é a figura que fará ao tentar recuperar os calotes; lorem, de lorem ipsum, texto que na linguagem jornalística serve para encher espaços...

domingo, 29 de abril de 2012

Contra a unanimidade

Para limpar os ouvidos da conversa encomiástica do professor Marcelo sobre a "doçura" do povo português, eis  o Cântico Negro, de José Régio, na versão vigorosa de Villaret. 

O comilão

Diz o povo: quem não presta para comer não presta para trabalhar. Não se subentenda, porém, que qualquer comilão é trabalhador aplicado e eficiente. Basta ver o caso do ex-primeiro ministro, cujo nome não menciono  para não conspurcar o blogue:

"Despesas com almoços e jantares chegaram a atingir 12.800 euros só num mês.
"Correio da Manhã" escreve que o gabinete do ex-primeiro ministro José Sócrates gastou durante os seis anos de Governo mais de 460 mil euros em almoços e jantares no País e no estrangeiro. E em três anos sucessivos gastou mesmo mais do que a verba orçamentada: em 2007, 2008 e 2009, a rubrica Representação dos Serviços recebeu uma dotação total de 225 656 euros, mas a despesa total, segundo a Secretaria-Geral da Presidência do Concelho de MInistros, atingiu 260 174 euros, um aumento de 15,3%.
As mais elevadas do gabinete do ex-primeiro ministro com almoços e jantares ocorreram, precisamente, de 2007 a 2009: em cada um desses anos, os encargos anuais com refeições oscilaram entre 80 mil euros e 90 835 euros.
Março, maio, agosto, novembro e dezembro são os meses que concentram despesas mensais mais avultadas com almoços e jantares. Por exemplo, 11 109 euros em dezembro de 2006, 10 742 euros em agosto de 2008 e 12 813 euros em novembro de 2009." (No DN)
Irra, bem nos comeu -- e come, e comerá -- por parvos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Rosas

Deliciadas com a chuva, abençoam o céu que, finalmente, a dá.

Ó vadio!

Muito aprende na escola quem quer aprender. O Afonso, seis anos, diz-me: -- Ó avô, cão vadio é um animal sem dono.
-- É, confirmo.
-- Mas quando o Tex foge, tu gritas: Ó vadio!

O negócio das rescisões amigáveis

Em empresas públicas que me abstenho de nomear é prática corrente proceder a rescisões amigáveis quando o trabalhador se aproxima da idade da reforma: leva a indemnização, fica com o subsídio de desemprego, receberá a reforma quando este último acabar. Tudo é calculado como se de bónus se tratasse. Agora que o governo quer proceder a rescisões amigáveis na Função Pública, receio que, mais uma vez, estas venham a ser negócios apetecíveis para aqueles que sabem viver e têm bons padrinhos: -- Sr. X, está na altura certa para rescindir...
A ver vamos, que não falta gente com olho neste país. E, como sempre, trama-se, em nome da moralidade, aquele que cumpre ou a quem faltam os tais bons padrinhos.

Resgates

Tudo se resgata hoje em dia: a Grécia, pescadores desaparecidos, o cadáver da avó afogada ontem em Matosinhos. Sugiro aos senhores jornalistas, antes de voltarem a resgatar o que quer que seja, que olhem para o dicionário (Porto Editora):

Resgatar 
verbo transitivo
1. obter o resgate de;
2. livrar do cativeiro;
3. libertar de (castigo ou situação de inferioridade); remir;
4. reaver (um penhor); desempenhar;
5. cumprir;
6. expiar;
verbo reflexo
libertar-se; remir-se;
(De resgate+-ar)

Impotência

O governo pode cortar-me o vencimento, o subsídio de férias e o de Natal, pode cortar a quem trabalha o que bem entende para tranquilizar os mercados. O governo não pode tocar nas parcerias público-privadas, nem em nenhum dos outros contratos escandalosos assinados pelo anterior governo, ou assustaria os mercados. É bom que o governo se não esqueça de que os mercados não votam nas nossas eleições e boys e grandes empresas poucos votos têm. Isto de ser prepotente com os mais fracos e subserviente com os poderosos pode sair-lhe caro.
ADENDA: o governo justifica a sua impotência com a blindagem dos contratos.  Até podia aceitar -- se por igual respeitasse a blindagem dos contratos de quem trabalha.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

E o 25 de Abril?

Onde estava eu? A viver na Marinha Grande, na clandestinidade; a trabalhar por turnos como operário de plásticos na Júlio Ferreira e Filhos, em Leiria, pelo que o golpe de estado me apanhou a dormir: tinha despegado às oito da manhã. Não havia então telemóveis, nem internet, eu não tinha televisão nem rádio. A revolução começaria dias depois, perto do 1º de Maio e mudaria este país, tornando-o irreconhecível. Democratizar, descolonizar, desenvolver, tudo isso se fez e só por ignorância ou má fé se pode negar que se vive hoje incomparavelmente melhor do que então. Porém, ninguém me viu, nem verá, de cravo na lapela, o emblema adoptado pelos vira-casacas.

O burro do espanhol

Será que os helvéticos desconhecem a história do burro do espanhol, o tal que morreu precisamente quando já estava desabituado de comer? É o que parece, a fazer fé nesta notícia do Público:
"A justiça suíça confirmou hoje que uma mulher desta nacionalidade morreu em Janeiro de 2011 depois de ter iniciado, semanas antes, um regime conhecido por “dieta do sol”, que requeria que ela parasse de comer e de beber, vivendo apenas dos raios solares."
Imagem: do pintor João Alfaro

Constatação

É triste um homem ter de morrer para se ouvir dizer tanto bem dele.

25 de Abril

O melhor neste dia, para além da chuva, que finalmente caiu, terá sido o discurso de Assunção Esteves, douta presidente da AR. Não tivera eu coração empedernido e teria certamente chorado ao ouvi-la (sic):
"A crise económica que atravessa a Europa é, porém, na verdade,  também..."
Em verdade, em verdade vos digo: não é o acordo ortográfico que está a assassinar a língua portuguesa.

sábado, 21 de abril de 2012

La chanson de Jacky

Même si un jour à Knokke-le-Zoute
Je deviens comme je le redoute
Chanteur pour femmes finissantes
Même si j’leur chante "Mi Corazon"
Avec la voix bandonéante
D’un Argentin de Carcassonne
Même si on m’appelle Antonio
Que je brûle mes derniers feux
En échange de quelques cadeaux
Madame, je fais ce que je peux
Même si j’me saoule à l’hydromel
Pour mieux parler d’virilité
A des mémères décorées
Comme des arbres de Noël
Je sais qu’dans ma soûlographie
Chaque nuit pour des éléphants roses
Je chanterai ma chanson morose
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{Refrain:}
Etre une heure, une heure seulement
Etre une heure, une heure quelquefois
Etre une heure, rien qu’une heure durant
Beau, beau, beau et con à la fois

Même si un jour à Macao
J’deviens gouverneur de tripot
Cerclé de femmes languissantes
Même si lassé d’être chanteur
J’y sois dev’nu maître chanteur
Et qu’ce soit les autres qui chantent
Même si on m’appelle le beau Serge
Que je vende des bateaux d’opium
Du whisky de Clermont-Ferrand
De vrais pédés, de fausses vierges
Que j’aie une banque à chaque doigt
Et un doigt dans chaque pays
Et que chaque pays soit à moi
Je sais quand même que chaque nuit
Tout seul au fond de ma fum’rie
Pour un public de vieux Chinois
Je r’chanterai ma chanson à moi
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{au Refrain}

Même si un jour au Paradis
J’devienne comme j’en serais surpris
Chanteur pour femmes à ailes blanches
Que je leur chante "Alléluia!"
En regrettant le temps d’en bas
Où c’est pas tous les jours dimanche
Même si on m’appelle Dieu le Père
Celui qui est dans l’annuaire
Entre "Dieulefit" et "Dieu vous garde"
Même si je m’laisse pousser la barbe
Même si toujours trop bonne pomme
Je m’crève le cœur et l’pur esprit
A vouloir consoler les hommes
Je sais quand même que chaque nuit
J’entendrai dans mon paradis
Les anges, les Saints et Lucifer
Me chanter la chanson d’naguère
Celle du temps où j’m’appelais Jacky.

{au Refrain}

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Felicidade

Tristezas não pagam dívidas, pensará o João, indiferente ao calote nacional que terá inevitavelmente de pagar. É isto que nos faz falta, um sorriso aberto e a mão levantada, fechada embora, não se perca o pouco que ainda nos resta. E o avô, de ordinário sorumbático, responde com outro sorriso à felicidade do João.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os meus leitores

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domingo, 15 de abril de 2012

A história da semana

É o conto "Jogo de azar", AQUI. "Ao meu pai, mouro de trabalho, padeiro e muitas coisas mais. Com saudade" -- escrevi na dedicatória. 2 pp, rigorosamente verdadeiras, o que não melhora nem piora a história. Catarse, digo eu.

sábado, 14 de abril de 2012

A história da semana

Leitoras que muito prezo  queixam-se da dificuldade em acompanhar a 'publicação' semanal dos textos; e a mim tem-me faltado tempo para rever, retocar os que ainda guardam oportunidade de saírem, não da gaveta, mas da pasta do computador. Assim, após a desta semana, passarei a disponibilizar menos histórias por mês.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A voz do mestre

Muitos procuram desesperadamente um guia espiritual, mestre, guru, salvador,  e nessa busca quase socrática chegam-se ao suposto mestre, colam-se-lhe, bebem-lhe as palavras, imitam-lhe o comportamento, copiam-lhe os tiques, citam-lhe as frases -- até que um dia descobrem desiludidos que seguiam  não a um santo mas apenas a um homem, com as suas fraquezas, os seus vícios, o seu lado insuportável. E novamente depositarão as esperanças noutro, não querendo ver, ou não o conseguindo fazer, que é em si mesmos que devem procurar o seu mestre, esforçar-se arduamente para o polir para o aproximar da quimera que perseguem e, se acaso o conseguirem, ter a coragem de assumir perante eventuais discípulos as fraquezas da sua condição humana, desiludindo-os.
É este o drama que a consciência nos impõe, o de sermos capazes de lucidamente nos aceitarmos como homens, ignorantes e mortais, talhados para o fracasso, lutando embora para o ludibriar. O mais do que isto é a poesia de Fernando Pessoa, em que a voz do mestre sempre soa:
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter
Felizes, nós? Ali, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez,

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar;
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

C' est trop facile

É demasiado fácil criticar os vícios deste país e das suas gentes, indignar-me com as trapalhadas dos políticos, zurzir na porcaria da televisão. Demasiado fácil e sempre apreciado. Queirosiano, dirá quem gosta do estilo. Eu cansei-me. De ler o tal estilo queirosiano, de escrever batendo no pobre ceguinho que é este país, que somos nós, que sou eu. País que assassina a sua língua à revelia do acordo ortográfico, que fala demasiado alto, que se está cagando para os direitos dos outros, ao sossego. ao silêncio, à privacidade. Que desconhece o significado de discrição e de tudo faz uma peixarada. País que é o meu, país cujos 'intelectuais' encontram fonte de inspiração precisamente  nos nossos vícios, defeitos, fealdade, mau gosto. À semelhança de Eça. Tal como, a fazer fé em reportagem televisiva, Lobo Antunes, que terá feito sucesso nos EUA com crónicas sobre as mulheres portuguesas de bigode. 
"Chama-lhes putas, filha" -- ensinava a mãe. "Chama-lhes putas, antes que te chamem a ti!"
Assim andamos nós. Porque, como canta o grande Brel, é demasiado fácil / é demasiado fácil / fingir:
C'est trop facile,
C'est trop facile,
De faire semblant.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Abril

Abril é o meu mês, sete o dia, e ambos me contaminaram ao nascer, fazendo-me incerto como Abril, ora de águas mil, ora primaveril, individualista como o sete, número ímpar, primo, que só por si mesmo ou pela unidade se deixa dividir. Como se não bastasse, Carneiro obstinado e persistente, sempre a cair em barrancos, sempre sem emenda. Enfim, eu.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O regresso dos duplos

Há tempos escrevi aqui sobre um dos meus filmes favoritos, A sombra do guerreiro, de A. Kurosawa, que tem como herói um duplo, e analisa de forma fascinante a relação entre a pessoa e a máscara: 

Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um  senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Ora leio no DN que  Madonna está a treinar cinco mulheres  para se fazerem passar por Madonna, que é, ela mesma, uma máscara. Não se poderá dar o caso de, às tantas, ser difícil distinguir a máscara original das clonadas, ou, até, de uma delas superar o original?

domingo, 1 de abril de 2012

A história desta semana

As bruxas já roubam clientes aos psicólogos. O fenómeno parece estender-se à classe média, instruída mas desencantada, amargurada, a necessitar de acreditar em algo, em ter a esperança, ténue que seja, de que a sua vida profissional, ou pessoal, ou familiar, vai melhorar em breve. Ora, como tempos atrás escrevi uma historieta em que uma mulher desesperada recorria à bruxa para que a livrasse do marido, lembrei-me de aproveitar o ressurgir da moda das bruxas e publicá-la AQUI. 6 pp.