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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quebra cabeças


Pequeno e franzino, introvertido e pacato, cresci predestinado a ser vítima daquilo a que hoje se chama bullying. Valeu-me o mau génio com que a natureza me dotou. Que me leva a agir sem pensar, sem medir as consequências. Começou a manifestar-se bem cedo. Recordo-me de, aos seis anos, ter ido viver para aldeia estranha, e mandado à loja comprar azeite pela minha mãe, vi o caminho barrado por magote de rapazes indígenas que jogavam à bola: -- Não passas, não passas! 
Talvez eles brincassem, mas senti-me ameaçado.  Quando um deles, o dobro do meu tamanho, me tirou o lindo boné de palha, pala de plástico azul, o pôs na cabeça enquanto dançaricava em redor de mim, -- É meu, é meu, não to dou!, a garrafa que levava para trazer o azeite subiu até lá acima, atingiu-o na cabeça, ele caiu ensanguentado, retirei-lhe o boné e passei por entre a malta atónita sem que nenhum deles ousasse fazer-me frente. 
No regresso, encontrei-os junto à porta de minha casa, onde a minha mãe curava com tintura a cabeça partida, eles ameaçavam-me, gritavam-me impropérios, distorciam o sucedido, como voltaram a fazer depois, na escola, acusando-me de agressão brutal em resposta a alegre brincadeira, e vi-me ostracizado pela professora, de quem fora até então o menino bonito. E continuei introvertido e pacato, fechado em mim, por companhia as leituras -- a quebrar cabeças quando me punham fora de mim.

sábado, 24 de novembro de 2012

25 de Novembro


Vivi o PREC (Processo Revolucionário em Curso) e o Verão Quente de 1975 com muito medo e uma arma na mão. Sempre que o meu quartel entrava de prevenção rigorosa, o que sucedia todas as semanas, deitava-me vestido e calçado, cinturão com cartucheiras carregadas, G3 com bala na câmara. Era muito influenciável e levava a sério as prelecções do comandante, que nos frequentes plenários revolucionários de lavagem ao cérebro antecipava ataques da reacção; apavoravam-me as medidas logo tomadas, como metralhadora antiaérea na parada para resistir aos aviões Fiat que no 11 de Março haviam bombardeado o Ralis, quartel revolucionário -- e a gritaria constante do povo que se manifestava fora dos muros do quartel soava-me como música fúnebre em filme de terror.
Boataria constante e contraditória. A televisão substituía a programação normal e a informação pelo malfadado hino do MFA ou passava ininterruptamente a estúpida da cantilena em que a gaivota voava, voava. Ambiente opressivo, sem notícias de casa e da família. Soldados enervados passavam-se e disparavam contra camaradas. Outros, apenas para saírem do quartel, voluntariavam-se para barricadas na RTP, desejosos de atirar sobre os reaças -- enquanto o comandante jurava morrer de botas calçadas quando “aí vier a reacção”. 
No 25 de Novembro foi a mim, segundo furriel miliciano com 21 anos mal feitos, que enviaram a erguer e comandar barricadas nas estradas da Atalaia e de Torres Novas, sem outras ordens, sem saber o que ia fazer, como proceder, apenas para o comando fingir que fazia alguma coisa, sem se comprometer embora.
Poucos dias depois, fui saneado, bem como todos os oficiais e sargentos milicianos da minha unidade – para minha grande alegria. 
E o valente comandante da EPAM (Escola Prática de Administração Militar), que jurava morrer de botas calçadas? Pois rendeu-se logo que os comandos de Jaime Neves, de passagem pelo Lumiar, dispararam bazucada contra a porta de armas... 
FOTO: pouco antes do 25 de Novembro. Sou o primeiro ajoelhado à direita.

Uma casa portuguesa

(O fim-de-semana está chuvoso, a pedir borralho e leitura. Por isso, aqui vai conto, Uma casa portuguesa, 4 pp.)


Do lado de lá, na televisão, esganiçam-se apresentadores e convidados, a transbordar energia, esfuziantes de alegria; do lado de cá, no sofá, a família finge prestar-lhes atenção, constantemente interrompida pela gritaria das crianças que, por entre os adultos, por cima deles, brincam e brigam, correm, saltam, caem, choram. Inútil mandá-las sossegar, elas não pararão, indiferentes à preocupação dos graúdos, inconscientes das desgraças do mundo.
Entra homem jovem, encasacado e engravatado mau grado o calor, saltam-lhe para os braços as crianças, — Papá, papá!, e empurram-se para lhe contar novidades e brigas, fazerem queixinhas reciprocas, — Ele bateu-me! — Porque me estragaste o carro do Faísca! Aos adultos, basta o seu ar pesaroso para adivinharem o desfecho de mais esta entrevista de emprego: 
— Nada. 
Atira-se desalentado para o sofá, afasta um pouco os filhos: — É sempre a mesma coisa. No fim, escolhem o candidato mais novo. Meneia pesaroso a cabeça e acrescenta: — Não adianta, não vale a pena continuar a tentar, fracasso sempre...
O sogro nada diz. O seu silêncio grita por si: não dá para continuarem todos a viver da sua reforma, magra e recentemente amputada de um terço por penhora — créditos bancários não pagos, encargos banais anos atrás, que hoje o perseguem como a outros o homem do fraque.
Todos tinham uma pontinha de esperança naquela entrevista: o lugar era modesto, vendedor, o moço tem apresentação, tem conversa, frequentou a universidade, tinha já passado nos psicotécnicos, talvez, talvez... E como precisavam daquele emprego, quinhentos ou seiscentos euros não é muito, mas nos tempos que correm há que deitar mão ao pouco que ainda aparece, não pode haver esquisitices, doutorices...
— Vou emigrar, desabafa, talvez para que o dissuadam, a ele que vem destroçado desta derrota, a última de tantas outras, a ele que bem conhece a penúria em que vive a família, a ele que detesta viver às sopas do sogro, a ele que também sabe que isto, assim, não pode continuar.
Que emigre, pensa o sogro, que vá para o raio que o parta, desde que desampare a casa e o sofá, se não se der bem pelo estrangeiro, pelo menos é uma boca a menos a sustentar, e que boca, o desemprego não lhe tira o apetite, é uma presença incómoda a menos, um a menos a disputar o comando da televisão, agora reduzida a quatro canais desde que a tv por cabo foi cortada por falta de pagamento — outro processo por dívidas que corre contra si, que bom que seria se, perdido no mar de calotes que afoga os tribunais, prescrevesse antes do julgamento. E se lá no estrangeiro o genro se der bem, chamará para junto de si mulher e filhos, ufa, que alívio, não será o desafogo, mas, pelo menos, o sossego. Sim, gosta de ter consigo a filha e os netos — na Consoada, num ou noutro almoço dominical, é pessoa de antigamente, do "casamento, apartamento", ah, bom tempo esse em que os filhos não nos caíam em casa depois de casados: — Pai, tivemos de entregar a casa ao banco, não podemos ficar na rua, tens um quarto livre, uma salinha de costura onde as crianças podem dormir...
— Mas, objecta a filha, lá fora as coisas não estão famosas.  Ainda há pouco vimos na televisão — não foi, pai? e olha-o na esperança de lhe ouvir palavras que dissuadam o marido de partir — portugueses na Suíça e na Inglaterra que dormem nos automóveis e passam fome, enganados pelos patrões...
— Que faço então? – e olha também ele para o sogro, à espera de resposta, algo como deixa-te ficar, estamos apertados mas ainda cá cabes, onde comem seis comem sete, basta acrescentar água à sopa, isto como se os jovens de hoje se contentassem com a lavadura das gamelas de antigamente, adubada com sardinha repartida irmamente, rabo para o pai, cabeça para a mãe, lombinhos para a filha...
Mais uma vez, o sogro nada diz. Cogita, talvez, que para ele e para a velhota, a reforma, mesmo cortada, chegava, aconchegada com a mísera pensão de sobrevivência da sogra, meses atrás retirada do lar, na impossibilidade de o continuarem a pagar. Semi-falido, como pode arcar com as despesas de três famílias? E ataca-o novamente a vontade louca de sair para comprar A Bola e não mais aparecer, recomeçar talvez num outro qualquer lugar, sozinho, sem encargos nem responsabilidades, nem créditos nem dívidas vencidas, nem Finanças a persegui-lo encarniçadamente… ah, se o país fosse à bancarrota! Toda a gente falida, todos pobres, sem credores à perna! Mas logo lhe ocorre que a sua reforma, esses setecentos e quarenta euros, reduzidos pelo tribunal a quatrocentos e noventa e três, desapareciam também, em lado nenhum há empregos, e então na sua idade... 
Como refúgio de emergência resta-lhe na aldeia o casebre arruinado onde nasceu e que só não vendeu por falta de comprador, tal como três míseras leiras de má terra que não o sustentariam, mesmo com vontade, esforço e saber, coisas que não tem, nem nunca teve. E, no entanto, na sua meninice, as pessoas sobreviviam lá, numa parcimónia inconcebível hoje em dia, sem água canalizada, nem electricidade, nem gás, nem casas de banho, nem televisão, nem telefone, nem carro, nem computador, nem internet... Sem contas para pagar, comendo o que a terra dava antes de serem por ela comidos, poupando cada tostão, fugindo de dívidas como o Diabo da cruz — assim se sobrevivia. E havia momentos de felicidade, serões em que se escolhia o feijão ou se descamisava, as vindimas, a matança do porco, a feira na vila, baptizados, casamentos, funerais, até!  Havia gente feliz! Ele, por exemplo. Por riqueza um pião, alguns berlindes, muitas caricas. Descalço mal saía da escola, indiferente a topadas, chuva, gelo que fosse. Ah, era rijo. E, sim, feliz: não é preciso muito para ser feliz – basta ser criança. Mas ser criança é precisamente aquilo que os anos não permitem que voltemos a ser, excepto como caricatura, o juízo perdido por senilidade. 
— Vou sair um pouco, para espairecer, diz.
— Onde vais? Pergunta a mulher, como se lhe tivesse lido os pensamentos, quarenta anos de coabitação dão para isso.
E ele, ao que um homem chega, justifica-se, sinal de que a consciência o incomoda. De outra forma, como compreender que aos sessenta anos, feitos no mês passado, reformado, arrimo de três famílias, precise de desculpas para ir ao café, sair do harém – três mulheres e uma menina – olvidar as desgraças familiares por entre uma suecada, um café ou uma mini, acesa discussão com os antigos colegas da repartição sobre a governação, o futebol, o mau funcionamento da justiça, o desemprego: vinte anos atrás, facilmente empregaria a filha na repartição, o genro até, mas esse longe de si, talvez na Câmara, onde uma sua cunhada era então a chefe de secretaria. Coitada, triste fim o seu, cancro atroz e fulminante... Que choruda reforma não teria hoje, e solteirona, que boa ajuda seria... Agora, os tempos mudados, os lugares no funcionalismo preenchidos, nenhuma hipótese de empregar a filha ou o asno do genro, incapaz de ser arrimo da família, homem da casa dele. À saída, deita-lhe olhadela de desprezo, vê com desagrado que ocupou o seu lugar ao canto do sofá e, como se fosse o chefe de família, se apropriou do comando da televisão enquanto resmunga — Agora não! ao filho, que lhe pede a leitura de uma história, e incomodado com o olhar de censura da sogra, em jeito de desculpa, acrescentará: — Foi um dia terrível, estou na fossa, já não acredito que um dia venha a ter trabalho.
Não acredita ele, não acredita o sogro, não acredito eu: basta ouvir as notícias, um terço dos jovens está desempregado. E este, em vez de se fazer à vida, desalenta no sofá, como se esperasse que os empregos o viessem procurar a casa... Surpreendido, o sogro ainda o ouve exclamar, meio justificação, meio protesto: — Roubaram-nos o futuro!
As mulheres olham-no intrigadas, não é todos os dias que profere frase tão apropriada, onde a terá ouvido?
Soergue-se, sentindo-se ouvido, escutado: — A culpa é da geração anterior, com emprego para toda a vida, acomodada em direitos adquiridos. Enquanto os velhos não morrerem, não há esperança para nós, os jovens.
O sogro ainda faz menção de voltar atrás para lhe lembrar que são os seus direitos adquiridos que lhe dão tecto e mesa, a ele e à família, mas cala a objecção, inútil começar briga, problemas de mais tem eles todos, e segue para o café, a mini e a sueca, a cogitar como seria bom desaparecer, deixar casa, família, calotes e genro e viver de couves e batatas no casebre abandonado na sua aldeia natal...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O presidente da Boa Memória

O actual presidente da República parece ter esquecido que foi primeiro ministro durante uns dez anos; que tomou medidas decisivas para a destruição da nossa agricultura, das pescas, da indústria.

Cavaco: portugueses esqueceram o mar, a agricultura e a indústria


Tenho memória. Lembro-me bem de teorias segundo as quais era imperativo retirar gente, muita gente da agricultura, porque nos países europeus que nos serviam de modelo a percentagem de população agrícola era muito inferior à nossa. Lembro-me bem dos subsídios para arrancar pomares e vinhas, dessa estranha forma de vida em que alguns prosperaram, plantando com subsídios para arrancar com outros subsídios um ou dois anos depois. Lembro-me dos subsídios para não produzir, ou apenas para alimentar as abetardas. Lembro-me das multas recentes, bem pesadas, para quem recuse arrancar as vinhas plantadas, salvo erro,  depois de 2001...
Se alguém tem problemas de memória é seguramente o professor Cavaco Silva. Já se tinha esquecido do que fez pela destruição da nossa frota pesqueira quando veio apontar-nos o mar e os seus recursos como jangada salvadora. Hoje quer aumento da produção agrícola. Um reconhecimento público das asneiras das suas políticas governativas está, suponho, fora de questão. Porque em Portugal nunca ninguém tem culpa de nada. É o destino.
(Texto de 2010, republicado a propósito das declarações de hoje do PR.)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da igualdade face à lei

Vejo na televisão um juiz sair do seu lugar para cumprimentar amavelmente o réu, um criminoso VIP. Ouço dizer que foi mudado de cela e de prisão por não apreciar as instalações anteriores. Serão tão amavelmente tratados, já não digo os outros criminosos, mas os pobres cidadãos que se vêem em tribunal a tentar receber indemnizações por despedimento ou confrontados com acções de despejo por  falha nas prestações, ou em processos para cobrança coerciva de uma mão cheia de euros?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pobre país

Pobre país que culpa uma estrangeira pelos seus problemas. É fácil, desresponsabiliza-nos e aos nossos governantes presentes e sobretudo passados, mas revela uma terrível falta de senso, indiciadora de que à primeira oportunidade que se apresente tudo se repetirá. Ouro do Brasil, volfrâmio na segunda guerra mundial, fundos comunitários no cavaquismo, pouco importa. Quando temos, desbaratamos alegremente. Quando falta, insultamos os estrangeiros. Connosco, a culpa é sempre dos outros. Pior do que isto, só as saudades do Companheiro Vasco, o "maior amigo do povo, dos trabalhadores e da classe operária". 
Enfim, desabafos em dia em que me dói a cabeça. Culpa da Merkel, seguramente.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Arco da Velha

Assim aprendi a chamar-lhe, in illo tempore, quando havia mistério e magia, e o arco surgia no céu a recordar que nunca mais Deus destruiria o Mundo com água. O nome completo, Arco da Velha Aliança, era então longo de mais para criança de curta vida.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Imigrante (2)

O Jeroen já tem trabalho. Ao que parece, excelente e bem pago pelos padrões nacionais. Até eu, que o conheço, estou surpreendido: não esperava que conseguisse tão depressa. Darei os pormenores possíveis (o segredo é a alma do negócio, diz-se), quando ele me autorizar a divulgá-los.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Imigrante


Sem esperança de emprego, os portugueses emigram, repetindo tendência secular deste país saturnino, que só não devora os seus filhos quando, antes, eles o abandonam. 
Neste contexto depressivo, não deixa de ser estranha a vinda de um jovem que abandona a rica Holanda para cá procurar trabalho -- que lá nunca lhe faltou, desde os 15 ou 16 anos em acumulação com os estudos, depois em full time. 
É o Jeroen (pronuncia-se Irún), meu sobrinho, e, já aqui o escrevi, o mais português dos holandeses -- ou, como ele então respondeu, o mais holandês dos portugueses.
Admiro-lhe a coragem de tentar concretizar o sonho antigo de viver em Portugal, em contracorrente com a maré de desânimo que nos paralisa. E conhecendo-o bem, conhecendo as suas capacidades, não duvido de que consiga. Aposto que antes do final do ano terá trabalho, decidido que vem a aceitar o que aparecer, até dominar o português.
Desta epopeia, do seu sucesso improvável, ou do seu fracasso certo, aqui darei notícia.
Para, espero, proveito e exemplo. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Peniche, 1976


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Emigração


O meu pai, sempre aventureiro, emigrou, tinha eu os meus doze anos. Antes, numa linda tarde outonal, à porta da adega, enchi-me de coragem e atrevi-me a tentar dissuadi-lo. Os riscos. A língua. A nossa pobreza. Se valeria a pena tentar a sorte nessa Holanda longínqua e desconhecida, para onde o passador lhe arranjara papéis, em vez da França, para onde todos os outros iam. Para minha surpresa, não me ralhou, antes me ouviu como se eu fosse adulto -- sempre se orgulhou de mim, mas disso só me apercebi mais tarde. 
Não nascera para agricultor. Ia à aventura. Se não resultasse, que o pusessem na fronteira quando o dinheiro se lhe acabasse. Toda a vida arriscara. Pouco tinha a perder.
E uma noite partiu, velha mala de cartão na mão, apesar dos meus protestos: -- Lá deito-a para o lixo.
Ansiosamente aguardávamos as suas cartas. O sofrimento atroz desses tempos em país estrangeiro, de língua incompreensível, inverno inconcebível, o dinheiro a acabar, o companheiro de aventura a regressar derrotado, as vigarices dos patrões que lhe não pagaram, as vezes em que chorou -- só muito depois o contou. As cartas chegavam às duas, três por semana, pelo Natal veio uma com folha de químico azul a esconder nota de dois florins e meio para os filhos, coisa de vinte escudos. Sobrevivemos com parcimónia indescritível, amenizada com a venda dos dois porcos, das batatas. Nos piores momentos, quando a minha mãe desesperava, a minha avó, a viver connosco por viuvez, convencia-a a carregarem a burra com o que havia na adega, o que a terra ia dando, couves, grelos, cebolas, alhos, feijões, e a seguirem para o mercado de Pataias, caminhada de quase dez quilómetros, a fazerem alguns escudos para o governo da semana.
Um dia, a carta contava que o meu pai tinha prestado provas para as oficinas da KLM, a companhia de aviação holandesa;  e depois, a grande notícia: entrara. 
A nossa vida melhorou. Com viagens de avião a preços irrisórios -- creio que pagava cinco por cento do bilhete -- passou a ser visita regular, a quem os poderosos do concelho pediam o favor de trazer garrafa de uísque, então caríssimo entre nós, gravador ou, os grandes figurões de Alcobaça, que o conheciam dos seus tempos de padeiro e confiavam na sua discrição, filmes pornográficos, quase inexistentes entre nós. 
E eu, que reprovara no curso de Serralheiros, finalmente convencido de que não tinha hipóteses nessa área, saí de casa aos treze anos e fui para Leiria fazer o Curso Comercial. Assim se acentuou a minha solidão, a viver como hóspede em casa estranha, em plena crise da adolescência -- nenhuma é fácil, menos o foi a minha, sempre avesso a facilidades -- em meio desconhecido, citadino, de costumes bem diferentes dos meus, rústicos e brutos.
Uma vez por mês, ia a casa, curto fim-de-semana, pois a camioneta gastava quase um dia, entre viagens e mudas, a percorrer os trinta quilómetros. A minha mãe primeiro, os meus irmãos depois, crianças de cinco de dez anos, juntaram-se ao meu pai, e só em Agosto voltávamos a ser família.
Duros tempos, que recordo agora, após conversa com amigos que tentam a sorte por esse mundo fora, na penosa vivência da emigração, mal suavizada pelo Skype.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Infância


Nasci pobre, em aldeia pobre deste país então pobre. Não passei fome: o meu pai era padeiro, tinha salário e um quilo de pão de segunda por dia. Não tive brinquedos, nem festas de aniversário, nem guloseimas. Nenhum luxo, nem sequer pelo Natal, em que, pela calada da noite, o Menino Jesus descia pela chaminé enfarruscada para deixar no meu sapato peúgas, roupa interior, talvez uns rebuçados. 
Não me sabia, não me sentia pobre: vivia num mundo alternativo, de sonho, em permanente devaneio, prolongando no quotidiano a fantasia dos livros que devorava, uns emprestados, outros requisitados na Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian: eu era o Tarzan, rei dos macacos, o Robinson Crusoé de uma ilha deserta do tamanho da minha rua, buscava o tesouro dos piratas nas minhas Matas (quarenta homens na mala do morto / ió ió e uma garrafa de rum, cantava o papagaio empoleirado no meu ombro), fazia no meu Nautilus milhares de léguas submarinas, ou sobrevoava África de balão, quando não era injustamente encarcerado em masmorra, de onde me evadiria um dia para ser o conde de Monte Cristo da vingança... Batia-me em vielas lado a lado com D'Artagnan e os três mosqueteiros, fugia de casa com o Huck Finn, embarcava rumo ao desastre com Pedro, Pescador de Baleias, acompanhava Ismael e Ahab na caça insana da terrível baleia branca…
Professores falavam sem que os ouvisse, entediava-me nas aulas de Desenho, brincava nas Oficinas, em cada sábado formava no recreio para a ordem unida da Mocidade Portuguesa -- ou faltava a umas e outras, para andar de barco no Alcoa, pelo que no segundo ano quase reprovei, precisamente a Mocidade, a que só podia dar três faltas...
Todas as disciplinas contavam para a média, e eu, muito mais novo que os meus colegas, era um desastre a Canto Coral, uma nódoa a Desenho, um incapaz a Oficinas, um nulo a Ginástica (assim se chamava então), cujo professor dava também Trabalhos no Campo – duas horas seguidas a ditar apontamentos; embora mediano a Matemática, brilhava a Português, História, Ciências,  o que não chegou para a média de catorze, e perdi a bolsa de estudo que me permitira ir estudar. E ao terceiro ano, o primeiro do curso de Formação de Serralheiros, reprovei: 8 a Oficinas, 9 a Desenho de Máquinas -- nas restantes disciplinas, positivas bem razoáveis.
Vergonha tamanha que, se acaso saí de casa naquelas férias grandes, foi às escondidas. E nunca mais reprovei outro ano.  

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desespero


Escrevo sobretudo nos cafés, alheado de quem me rodeia. Num deles, desperta-me conversa exaltada ao telefone de uma das empregadas: 
-- ... tenho três filhos, não podem passar fome por causa de um chulo de um patrão. Não sei, a mulher anda a passear por aí bem vestida, a ele e aos filhos não lhes falta nada, os meus filhos não podem passar fome. Às três, vou aí e não vou sozinha. Eu não sujo as minhas mãos, mas há quem o faça. 

Coitada. Uma simpatia com os clientes, apesar da paga miserável, tardia, regateada. Tempos atrás o companheiro da moça contava: sem leite para as crianças, fora exigir os salários atrasados. Conseguira cinquenta euros por conta...
Lutei dia e noite contra o regime salazarista, enfrentei a polícia nas ruas, conheci a clandestinidade. Mas, reconheço-o hoje, Salazar não permitia horários de sessenta, setenta horas semanais, salários em atraso, pagos aos bochechos como favor que se faz, como é favor o trabalho que se "dá" a quem dele carece e se sujeita pelo leite para os filhos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Prática de Ji'in

Quando, em finais de 2010, comecei a preparar-me para o exame de graduação de San dan, perguntei ao meu mestre que kata escolher para favorita (Tokuigata). A resposta surpreendeu-me: Ji'in. Porra, pensei, logo essa, que detesto, para favorita? 
Mas como sou daqueles que entendem que o parecer do mestre é para seguir, apliquei-me seriamente no estudo e no treino de Ji'in. Um ano depois, já a apreciava. Hoje, sinto-a como minha. Muito há ainda para melhorar, muito suor ainda me há-de encharcar,  até a poder apresentar em exame, como este vídeo, gravado hoje no ginásio Il Korpo, bem mostra.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

As tripas de Deus

O progresso da ciência, e nomeadamente o da Física, tem permitido elaborar, a partir de estranhas evidências, especulações fantásticas sobre a natureza do Universo, algumas das quais parecem saídas da ficção científica. Por exemplo, a hipótese holográfica (Maybe, that is, the universe is rather like a hologram, Brian Greene) ou a de se tratar de simulação em computador.

Para os defensores desta última hipótese, seríamos, não ratinhos no laboratório divino, mas  personagens de um programa ou jogo de computador. Para minha surpresa, há um projecto para testar esta possibilidade:
E se o universo for apenas uma simulação de computador? Investigadores da Universidade de Bona, Alemanha, querem acabar com todas as dúvidas: afinal, o universo é ou não é uma simples simulação de computador?
Se os resultados forem positivos, continuaremos a valorizar cada uma das ilusões que nos fazem esquecer da nossa efemeridade -- por exemplo, essas que preenchem os telejornais -- ou conseguiremos suportar e assumir plenamente a virtualidade da nossa existência, respondendo às banalidades do quotidiano com palavras semelhantes às do Castelhano, do Auto da Índia, de Gil Vicente:
Hablo en las tripas de Dios
Y vos hablaisme en los gatos
!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Testemunhos de leitor



Aos seis anos, antes do Natal, já a professora me punha de frente para as quatro classes, a ler o jornal, para assombro de matulões e matulonas, obrigados a frequentar a escola até aos catorze anos, se antes não concluíssem a quarta classe. Entrei com cunha do meu pai, para não ficar todo o dia sozinho em casa, e algumas das minhas recordações mais antigas são leituras dessa época, no suplemento Ria Connosco, do Diário Popular, como a de uma sereia, que então muito me intrigou. Não continuei durante muito tempo a ser o menino bonito da professora: pouco depois, parti uma cabeça com garrafada e acabou o meu estado de graça. O que pouco me importou. Sabia ler e devorava tudo o que encontrava com letras, os dois ou três livros que havia em casa, os outros nas bibliotecas itinerantes Calouste Gulbenkian. Lia às escondidas, nas aulas mais chatas (para mim, quase todas, excepto Português, História, Ciências), à noite, em casa, quando minha mãe me supunha a estudar fervorosamente -- a ocasião em que me apanhou dará outro post.
Em Leiria, para onde fui frequentar o Curso Comercial aos treze anos, era cliente diário dos quiosques que vendiam a 15 tostões livros usados e os voltavam a comprar por 10. 
Foi então que tive orientação mais consistente e vivi aquilo que considero ser a promoção ideal da leitura. Contá-lo é, antes de mais, exprimir novamente a minha gratidão a essa professora, Margarida de Carvalho, que nunca mais vi e nem sei se viverá ainda.
O sistema por ela implementado era assaz simples: não havia funcionários na biblioteca, a própria responsável (e professora a tempo inteiro) nos recebia: -- O que é que já leste? De que é que mais gostaste? Porque é que não gostaste? Que queres ler? Ah, sim? E porquê? Mas antes vais-me ler este, quando acabares conversamos e depois veremos se estás em condições de ler esse que queres.
A rebeldia da adolescência levava à biblioteca alguns que nunca, nem antes nem depois, leram nada, para provocadoramente pedirem livros que a professora entendia serem ainda inadequados. E eles: Assim não levo nada, se não me deixa ler o que quero. Depois queixavam-se da tirania da bibliotecária ao director de curso, até ao director da escola, se a ocasião se proporcionava. 
Graças à sua orientação, evoluí dos Cinco, Hornoblower e Sandokan para leituras que ainda hoje recordo (A expedição da Kon Tiki, À margem do tempo...), aprendi a apreciar a ficção científica e maravilhei-me com Simack, Bradbury, passei por Pearl Buck, devorei tudo o que por lá havia de Steinbeck, Hemingway, conheci Brecht, impressionei-me pela primeira vez (muitas outras se seguiram) com O Estrangeiro...
Só tive notícias desta professora no pós 25 de Abril: os alunos tinham conseguido saneá-la do cargo. Motivo? "Não nos deixava requisitar os livros que queríamos, pedíamos uma coisa, mandava-nos ler primeiro outra. " 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Indiscrições


No restaurante quase vazio, Gaspar oblige, apenas nós e, na mesa do lado, moço solitário, brasileiro pelo falar ao telemóvel. Escuto, indiscreto. Alguém o tenta reconciliar com a ex. O rapaz concorda que ela tem qualidades, enumera-as até.
Mentalmente intrometo-me: Não sejas parvo, pá, mulher de qualidades é bem precioso, a não perder. 
O brasileiro prodigaliza encómios, sintetiza-os em frase lapidar: É uma grande mulher...
(Oh parvalhão, e estás a almoçar sozinho e descansado, deixando escapar uma grande mulher?)
Justifica a inacção, como se tivesse escutado os meus pensamentos trocistas: -- Mas deixá-la lá estar uns tempos...
(Cretino. Uma grande mulher, de grandes qualidades, em pousio? Em que mundo vives, cara?)
Acrescenta, nostálgico: -- É uma grande dona de casa...
(Corre, estúpido, antes que outro mais expedito te ocupe o lugar. E se for boa na cama... Ai, estes rapazes de agora! Deve ser  falta de cultura: bem se vê que este nem conhece o Ne me quitte pas, nem leu Entre Cós e Alpedriz:
"... Tudo isso carregarás senão com satisfação, pelo menos sem revolta, bastando para tal pensares na ventura que hoje tiveste e que, certamente, te não será negada sempre que o mereceres.  É isso, homem, os tomates são as nossas grilhetas.")

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Alice Vieira e o Plano Nacional de Leitura


A inclusão de O Que Dói às Aves, obra para adultos de Alice Vieira, na listagem da Plano Nacional de Leitura (PNL) não é mero erro informático, como alega ingenuamente a responsável, antes evidencia uma realidade deplorável que o PNL teria por desiderato combater: em Portugal, não se lê. A começar por cima, pelos responsáveis pela elaboração das listas de livros recomendados, os quais nem sequer folhearam o livro de Alice Vieira. O que, antes de mais e num tempo em que se discutem as fundações, deveria fazer repensar a utilidade do PNL, analisando custos, obra realmente feita, estatísticas fidedignas de leitores,  reflectindo sobre a qualidade das obras recomendadas, apurando a cedência ou a resistência a pressões editoriais.
Nada vai mudar. O PNL é vaca sagrada. E leiteira.
Declaração de interesses: não, não li o livro de Alice Vieira. Mas não recomendei a terceiros a sua leitura.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um mendigo digno


Ao oferecer trabalho a quem pede esmola, há a remota probabilidade de sermos surpreendidos. 
Há uns anos, ao anoitecer, toca-me à campainha cigano bem posto, franzino, na casa dos seus sessenta anos. Pedia ajuda -- dinheiro ou comida. Se sempre nego dinheiro, nunca nego comida. Mas, por via de algumas situações que já presenciei, antes sondei-o: não queria trabalhar. Sim, queria, mas em quê, se ninguém lhe dava trabalho? Pois eu tinha os muros por pintar, a horta feita matagal...
O homem aceitou prontamente. E eu, convencido da sua boa vontade, dei-lhe do que tinha: pão, uma lata de atum, maçãs e, acrescentei, cem escudos para beber um copo, que não vai comer isso a seco. 
No mês seguinte, reapareceu. Já não a mendigar, mas a perguntar pelo trabalho. Porém, eu receei que o homem se magoasse, ou caísse de andaime, ou, débil como era, lhe desse treco -- sem seguro, eu teria de arcar com as despesas e responsabilidades. Desculpei-me: esquecera-me de comprar as tintas, não valia a pena cavar o quintal, que era cedo para sementeiras -- e aviei-lhe outra sacada com pão, conservas, fruta, cem escudos para o tinto.
Durante muito tempo, foi visita mensal. Cumprimentávamo-nos como velhos conhecidos, eu desculpava-me por não ter ainda trabalho para ele, preparava-lhe o avio do costume, sem esquecer moeda de cem para a pinga, que tanta falta faz, sobretudo a quem sofre

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coração de manteiga


Um AVC obrigou o senhor Joaquim a internamento no lar, incapaz de andar, de fazer a sua vida, de ser auto-suficiente. Homem forte, confiante, vendo-se aleijado para o resto da vida, desanimou. Sou um merdas, um esporra, desabafava. Mas bem cuidado, logo que Fevereiro trouxe dias bonitos, e o sentavam no alpendre a encher os olhos com verde, os ouvidos com a cantoria dos passarinhos que as empregadas também alimentam, ganhou cor, apetite, vontade, devolveram-lhe forças as saudades do filho único, a labutar em Angola, que viria de férias no verão. E contava primeiro os meses, as semanas depois, finalmente os dias: menina Paula, é já domingo que chega o meu Francisco...
Passou esse domingo, passaram os dias, as semanas, aproximava-se o mês do seu final: que terá sucedido ao meu Francisco, que ainda não pôde vir-me ver? Coisa grave, sem dúvida. Mas ele vem, que se não ia embora sem me ver, sem se despedir de mim, sabe-se lá se para sempre.
Coitado do senhor Joaquim, confidencia-me a directora, quem lhe há-de dizer que o filho já regressou a Angola, não quis vir visitar o pai, lares e hospitais fazem-lhe muita impressão, e falta-lhe ânimo para ver o pai entrevado...