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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Alice Vieira e o Plano Nacional de Leitura


A inclusão de O Que Dói às Aves, obra para adultos de Alice Vieira, na listagem da Plano Nacional de Leitura (PNL) não é mero erro informático, como alega ingenuamente a responsável, antes evidencia uma realidade deplorável que o PNL teria por desiderato combater: em Portugal, não se lê. A começar por cima, pelos responsáveis pela elaboração das listas de livros recomendados, os quais nem sequer folhearam o livro de Alice Vieira. O que, antes de mais e num tempo em que se discutem as fundações, deveria fazer repensar a utilidade do PNL, analisando custos, obra realmente feita, estatísticas fidedignas de leitores,  reflectindo sobre a qualidade das obras recomendadas, apurando a cedência ou a resistência a pressões editoriais.
Nada vai mudar. O PNL é vaca sagrada. E leiteira.
Declaração de interesses: não, não li o livro de Alice Vieira. Mas não recomendei a terceiros a sua leitura.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um mendigo digno


Ao oferecer trabalho a quem pede esmola, há a remota probabilidade de sermos surpreendidos. 
Há uns anos, ao anoitecer, toca-me à campainha cigano bem posto, franzino, na casa dos seus sessenta anos. Pedia ajuda -- dinheiro ou comida. Se sempre nego dinheiro, nunca nego comida. Mas, por via de algumas situações que já presenciei, antes sondei-o: não queria trabalhar. Sim, queria, mas em quê, se ninguém lhe dava trabalho? Pois eu tinha os muros por pintar, a horta feita matagal...
O homem aceitou prontamente. E eu, convencido da sua boa vontade, dei-lhe do que tinha: pão, uma lata de atum, maçãs e, acrescentei, cem escudos para beber um copo, que não vai comer isso a seco. 
No mês seguinte, reapareceu. Já não a mendigar, mas a perguntar pelo trabalho. Porém, eu receei que o homem se magoasse, ou caísse de andaime, ou, débil como era, lhe desse treco -- sem seguro, eu teria de arcar com as despesas e responsabilidades. Desculpei-me: esquecera-me de comprar as tintas, não valia a pena cavar o quintal, que era cedo para sementeiras -- e aviei-lhe outra sacada com pão, conservas, fruta, cem escudos para o tinto.
Durante muito tempo, foi visita mensal. Cumprimentávamo-nos como velhos conhecidos, eu desculpava-me por não ter ainda trabalho para ele, preparava-lhe o avio do costume, sem esquecer moeda de cem para a pinga, que tanta falta faz, sobretudo a quem sofre

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coração de manteiga


Um AVC obrigou o senhor Joaquim a internamento no lar, incapaz de andar, de fazer a sua vida, de ser auto-suficiente. Homem forte, confiante, vendo-se aleijado para o resto da vida, desanimou. Sou um merdas, um esporra, desabafava. Mas bem cuidado, logo que Fevereiro trouxe dias bonitos, e o sentavam no alpendre a encher os olhos com verde, os ouvidos com a cantoria dos passarinhos que as empregadas também alimentam, ganhou cor, apetite, vontade, devolveram-lhe forças as saudades do filho único, a labutar em Angola, que viria de férias no verão. E contava primeiro os meses, as semanas depois, finalmente os dias: menina Paula, é já domingo que chega o meu Francisco...
Passou esse domingo, passaram os dias, as semanas, aproximava-se o mês do seu final: que terá sucedido ao meu Francisco, que ainda não pôde vir-me ver? Coisa grave, sem dúvida. Mas ele vem, que se não ia embora sem me ver, sem se despedir de mim, sabe-se lá se para sempre.
Coitado do senhor Joaquim, confidencia-me a directora, quem lhe há-de dizer que o filho já regressou a Angola, não quis vir visitar o pai, lares e hospitais fazem-lhe muita impressão, e falta-lhe ânimo para ver o pai entrevado... 

Coração de pedra

Plantava couves na minha horta quando chega cavalheiro junto do portão. Se eu era o dono. Confirmo. Ouço-lhe a lengalenga enquanto endireito as costas, limpo com o braço o suor que me escorre em bica da testa: pois ele era do Centro de Recuperação X e...
Interrompi-o: sabe, é rara a tarde em que me não vêm pedir dinheiro enquanto trabalho no quintal; mas nunca ninguém se oferece para me ajudar...
-- Então não quer contribuir...
Voltei às couves. Não é só preparar a terra, estrumá-la, plantá-las, regá-las. É preciso deixá-las protegidas da passarada, das lesmas e caracóis, ou de manhãzinha apenas restarão os talos.
E, enquanto o suor me cegava, ia magicando que muita gente bem intencionada concebe a solidariedade social como via de sentido único, ignorando a reciprocidade que deveria existir entre o receber e o dar. Quanto mais não fosse, por amor-próprio.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Destilações

A actualidade política nacional e a respectiva cobertura pelos media parece-me tão interessante, tão excitante como as reportagens da TV Guia sobre a Casa dos Segredos: rasca, à procura da intriga, a privilegiar a coscuvilhice, sempre a atiçar, a acossar uns contra os outros, como se todo o Portugal não passasse de uma matilha faminta de rafeiros raivosos.
Eu entretive-me neste 5 de Outubro a destilar, não o ódio que nos cega e queima, mas a minha aguardente. Quando a merda rebentar, como parece ser desejo geral, vamos precisar de um bom desinfectante, como a aguardente, que servirá também  para afogar a desgraça. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Historieta politicamente incorrecta

-- Professora, hoje é dia do Rendimento...
-- Pois, para quem o recebe...
A ciganita fita incrédula a jovem professora:  -- Você não recebe?
E a professora, pedagógica, como pertence na escola primária: -- Não. Recebo o meu ordenado, mas para isso tenho  de trabalhar.
Há um misto de piedade e de desprezo no olhar da jovem aluna: -- Coitada!...

Receitas para a juventude eterna

Séculos e séculos de procura da fonte da juventude, e eis que aparecem os primeiros resultados: primeiro a fome, eufemisticamente chamada dieta hipocalórica, agora a castração. Ė aproveitar.

sábado, 22 de setembro de 2012

Brinquedos sexuais

Vejo com dificuldade as notícias e pior as ouço quando, como hoje, tenho comigo os meus quatro netos, pelo que posso ter percebido mal ou compreendido ao contrário o que julgo ter visto e, como já se ouve por aí, ouvisto. Despertou-me a atenção num telejornal algo sobre a sexualidade dos portugueses. Uma terapeuta ocupacional (os cursos que por aí há!) diz algo enquanto a legenda esclarece que não sei quantos por cento dos portugueses nunca usaram um brinquedo sexual. Espanto-me: ainda há assim tantos a quem não serve aquele com que nasceram? Que atrasado, eu, que nunca entrei numa dessas lojas - como é que se diz?, nem ao menos numa casa de meninas, nem comprei qualquer brinquedo sexual! Que infeliz devo ser sem qualquer fetiche pelo plástico, pelo latex, pelas revistas pornográficas, pelas encenações -- e, sobretudo, pelos discursos sábios dos terapeutas ocupacionais que parecem ter inventado o sexo e a sexualidade. Só espero que não sejam detentores dos direitos de autor, que,.constou-me, o primeiro a registar um processo ou uma ideia fica seu proprietário. E com a perseguição à pirataria que por aí vai...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Coincidências

Da História de Portugal, Quinto Volume, dir. José Mattoso, p 117:
"A crise financeira atingia, em 1847, uma grave situação e, em 1848, o Governo contava apenas com os meios necessários para ocorrer, num único semestre, ao pagamento de metade dos vencimentos dos funcionários públicos e dos soldos e fornecimentos do Exército e da Marinha. O Governo era devedor a nível interno e externo. (...) Crescia aceleradamente a agiotagem. A crise veio acabar numa bancarrota e o período de liquidez só teve lugar a partir de 1852. (...) O aumento do banditismo, provocado pelo desemprego, evasão, deserção e suspensão de lugares e de cargos e o crescendo das guerrilhas provocavam a perturbação da ordem pública. "
Segundo a mesma fonte, a crise agrícola, que se agudizava desde 1837, acentua-se com o Inverno rigoroso de 1844-1845 e piora em 1847 devido à praga da batata, a intensa seca, a más colheitas, que levam ao consequente aumento dos preços dos cereais e produtos de primeira necessidade, causando uma crise geral de subsistência, acompanhada de baixa de salários, fome, desemprego, instabilidade política...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Maria da Fonte Revisitada

Fascina-me a lenda dessa amazona campónia, "a cavalo, sem cair" "as pistolas na mão para matar os Cabrais / que são falsos à nação". Recordo ainda hoje os versos que minha avó recitava ao serão, imaginando-a como uma das revolucionárias da República, que viriam a ser personagens de Entre Cós e Alpedriz:
A Maria da Fonte não é uma mulher como as mais
Usa facas e pistolas para matar os Cabrais!
Dessa revolução anárquica, cavalgada  tanto pela extrema-direita miguelista como pela extrema-esquerda setembrista, nasceu a guerra civil  da Patuleia, que durante oito meses devastou o país, mostrando do que é capaz este povo pacato, ordeiro, quando não aguenta mais. E o hino que imortalizou essa mulher do Minho, aqui numa interpretação maravilhosa de Vitorino,  agrada-me mais que a marcha sebastianista adoptada pela República como hino nacional:



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Anedota reciclada

-- Eu, Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal!
Responde o da Troika: -- Eu Sê lá se é

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Optimista, eu?

Ontem um amigo dizia-me "tu és um optimista. Vês sempre o copo meio cheio". Duvidei. Creio que ė antes o meu pessimismo que me leva a valorizar o pouco que o copo ainda contém. Na certeza de que será cada vez menos. 
Hoje o ministro das finanças dissipou-me as dúvidas.  Sou pessimista. Por isso valorizo cada gota que ainda resta.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

J2HV - a sequela

Transformámos em veleiro o J2HV, essa humilde chata por nós construída para a pesca na albufeira de Castelo do Bode . Com vento a favor, o barco corria sobre a água e nós, entusiasmados, víamos-nos já a explorar todos os recônditos até então inacessíveis na vasta albufeira, e neles a pescar os maiores achigãs... Mas não navegava com vento contrário -- não bolinava. Fomos aos livros, pedimos conselho aos entendidos: o barco precisava de um bom patilhão. E lá voltámos nós às carpintarias, em busca de um pedaço de contraplacado marítimo. Numa delas, quando o empregado procurava por entre bocados  de dimensões variadas um que se aproximasse do pretendido, chega o dono, ricaço de família rica do Entroncamento. Ignora-nos, pergunta rispidamente ao empregado o que faz ali, e inteirado ordena-lhe: "Isso não compensa. Volta para o teu serviço." Saímos indignados com tamanha arrogância, e terá sido por praga nossa que, pouco depois, para nossa satisfação, ele faliu...
Com o patilhão, o barco bolinava. Experimentámo-lo num fim-de-semana, sempre à vista do parque de campismo, onde acampávamos em modestas canadianas por entre as tendas-mansão e as caravanas dos proprietários de potentes lanchas a motor, os quais olhavam por cima da burra para nós, pobretanas penetras a destoar naquele novo-riquíssimo de aparências mantidas, ao que constava, à força de calotes. 
Pouco depois, sem suficiente preparação, o Henrique e eu fomos para subir o rio à vela. Chegados a Castelo do Bode, o Henrique mudou-nos os planos. Acamparíamos no parque de campismo. Mais seguro. Mais confortável. Ainda insisti em pôr a bordo uma tenda e umas latas de atum, para o que desse e viesse. Recusou, com fé inabalável no veleiro: dava perfeitamente para ir e vir no mesmo dia.
Deu para ir. Com vento de feição, afastámo-nos muito e muito rapidamente. Eufóricos. O pior foi para regressar. O mesmo vento que nos levara velozmente para montante, para lá nos empurrava por mais que tentássemos bolinar. O barco era curto, o vento contrário forte, e após horas de tentativas fracassadas, acabávamos sempre no mesmo ponto. A noite aproximava-se fria, o estômago exigia comida de mais sustento que a bolacha Maria, aliás já devorada - foi preciso voltar aos remos. Mas o meu companheiro dizia não poder remar por via dos estilhaços de granada no pulso e no joelho, recordações que trouxe de Angola juntamente com os intestino furados por bala de Kalash, pelo que, qual mestre da embarcação, fumava sentado à proa, cigarros atrás de cigarros, enquanto eu, não fumador, me esforçava exausto contra o vento que, soprando contra a vela amainada, nos dificultava a progressão. Anoiteceu. Ao longe, muito ao longe, avistámos as luzes do parque de campismo. E o meu companheiro, sempre agarrado ao cigarro: "Vá, já está quase". Eu, mais morto que vivo, as mãos ensanguentadas das bolhas rebentadas, maldizia aventura e companhia e, endireitando as costas sofridas, contei-lhe a história dos dois caminheiros surpreendidos por ataque de urso: um trepou para cima de uma árvore, abandonando o companheiro à sua sorte, o qual, não podendo fugir e não havendo quem lhe acudisse, fez-se de morto. O urso farejou-o e foi-se embora. E o amigo, descendo da árvore, pergunta-lhe trocista: "Que segredo te dizia a horrenda besta ao ouvido?" 
"Que nunca mais me meta em outra jornada na companhia de semelhante camarada".
FOTOS: (1) o Henrique e o Jorge no J2HV antes da transformação da chata em veleiro e (2) nós dois a aprender a velejar.

domingo, 9 de setembro de 2012

Certas pessoas

Numa destas noites passeava com a minha mulher quando, junto de uma vivenda, deparámos com quatro cães deitados no passeio. Mudámos para a estrada para não incomodar suas excelências. Ao passarmos, uma cadela pôs-se a ladrar histérica e logo a matilha se levantou contra nós. Não tenho ainda o bom costume cristão de oferecer a outra face em caso de ataque e presenteei a cadela que se me atirava às canelas com dois pontapés que, infelizmente, não fizeram estragos porque ela saltou para trás. Recuei ameaçando a canzoada com o telemóvel, na falta de pedras à mão, e, já algo afastado, vejo chegar senhora furiosa, vinda do escuro do outro lado da rua, com brusquidão abre o portão e leva a rafeiragem para dentro enquanto vocifera, alto e bom som, fingindo dirigir-se à cadela: -- Pois, tu não gostas de certas pessoas...
Ainda fiz tenção de voltar atrás para explicar à senhora que as pessoas, certas pessoas, têm todo o direito de passear livremente na via pública sem serem atacadas, ao contrário dos cães, que a lei obriga a trela e açaimo. Que o comportamento canino, como aliás, o dos humanos, muda consoante estejam sós ou em matilha. Que não gosto de ser atacado. Que já por diversas vezes fui mordido por cães "que nunca mordem a ninguém", pelo que... Mas a senhora desaparecera na escuridão do quintal e só me resta desabafar aqui, lembrando aos  amigos e donos dos cães, entre os quais me incluo, que somos nós os responsáveis pelo seu comportamento e não certas pessoas de quem eles podem não gostar...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Violência conjugal

Muito se tem falado nos últimos dias, e pelos piores motivos, da violência conjugal: para além das formas mais mitigadas, ameaças e agressões reiteradas mais ou menos brutais, só este ano já foram assassinadas 24 mulheres. A inexistência de onda de indignação generalizada, semelhante à provocada pela violência indonésia em Timor na pré-independência, ou pela pedofilia na Casa Pia, sugere-me um qualquer pudor individual e social, motivado talvez por consciência algo intranquila, que acaba por estender uma cortina de silêncio sobre esta forma de violência cobarde, exercida contra os mais fracos.
Tema recorrente na minha escrita, o feedback tem sido escasso. Aparentemente, muitos leitores e leitoras preferem, como sugerem as sugestões de leitura em blogues ou os conteúdos do facebook, os arroubos de imaginação ornamentada de retórica, os dichotes engraçadotes, os lugares comuns e os ditos sentenciosos a evidenciar sabedoria de algibeira. Lamento que assim seja. Mas nem por isso deixarei de escrever sobre aquilo que me angustia: vida e morte, amor, sexo e, sempre - falo da escrita ficcional - sobre os reais males da sociedade portuguesa, perenes, transversais, espoletadores dos faits divers da política e da sociedade que emergem no dia-a-dia: violência doméstica, desemprego, corrupção, ignorância, novo-riquíssimo cavaquista, a especulação bolsista correlata...
A proeminência que tenho dado à violência conjugal radica na minha convicção de que não é mera consequência do atraso nacional, antes sua determinante:  a forma como as mulheres e os mais fracos são tratados é barómetro indiciador da riqueza, da cultura, da prosperidade de um país, de uma comunidade, de uma família. 
NOTA: o terceiro prémio recebido este ano em Manteigas com um conto, Figuras sem estilo, que versa a violência conjugal, é sinal animador. Pode ser lido aqui.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

J2HV - a chegada

Esmorecido o entusiasmo da partida, animava-nos agora o da chegada. E bem carecíamos dele: o descanso do terceiro dia, passado no Rio Fundeiro, eu a pescar, o Vergílio a banhos, não nos devolveu as forças, antes fez emergir a fadiga e as dores musculares. Afinal, teríamos remado umas boas dezenas de quilómetros e numa chata lenta e pesada, que não cortava a água com a elegância de um cisne, antes a empurrava à frente com rudeza de hipopótamo. O vento soprava forte, ora empurrando-nos para trás, ora, quando o rio mudava de direcção,  dando alívio e ajuda, pelo que nos lembrámos de usar o oleado como vela, prendendo-o à proa e segurando-o com os braços, de pé, enquanto o camarada remava, agora um pouco aliviado. Foi assim que do alto da ponte nos avistaram, a quilómetros de distância, o casco um pontinho laranja rente à água, acima o cinzento da vela improvisada, que um de nós, qual Cristo crucificado, segurava dolorosamente, como bem imagina quem já permaneceu um bom instante braços alevantados. Lá estavam as nossas mulheres e o H, pesaroso de não nos ter acompanhado. No regresso, passámos pelo parque de campismo de Castelo do Bode, onde tinha ficado o carro do Vergílio. Com um palmo de água no interior, do temporal que sofremos na primeira noite no Rio Fundeiro.  
Durante dias, semanas, recordámos cada episódio do périplo, quase remada a remada, enfatizámos o esforço, rimos das discussões que em espaço tão acanhado e condições penosas inevitavelmente estalavam. De tal forma que o H, inspirado pela nossa chegada à vela e a remos, propôs nova subida do Zêzere, desta vez à vela e até onde fosse navegável. Mas essa é matéria para o próximo post, J2HV - A Sequela, embora adiante, desde já, que também nisto de aventuras nenhuma preserva a magia e o encanto da primeira, sempre irrepetível.
MAPA: a última e mais custosa etapa da subida do Zêzere. Da margem oposta ao Rio Fundeiro até ao cruzamento com a estrada nacional 238, se a memória me não falha.

Carta fora do baralho


terça-feira, 4 de setembro de 2012

J2HV -- da ilha do Lombo ao Rio Fundeiro

Passada a novidade e o desafio, a aventura sabia a rotina: remar, remar, trocar com o parceiro e descansar, para pouco depois o substituir. Nas margens, pinheirais queimados pelos fogos de Verão. Vivalma. Numa garganta apertada, o vento contrário e a ondulação eram tão fortes que recuávamos em vez de avançar. Só com a fibra do Vergílio conseguimos dobrar aquele cabo das tormentas. No Rio Fundeiro, o deslumbramento: o Zêzere alargava em todas as direcções, a povoação reluzia ao pôr-do-sol, estendendo-se da água encosta acima. 
Anoiteceu rapidamente e, sempre desconfiados dos humanos, acampámos num pinhal do lado oposto, tenda e barco bem escondidos. Durante a noite levantou-se temporal, chuva forte, vendaval violento, que fez recear queda de braças dos pinheiros a esmagarem-nos. Mas o sono era tanto que depressa esquecemos o perigo e adormecemos inconscientes. 
De manhã, o bom tempo voltara. O Vergílio insistiu para que fizéssemos a barba, para não parecermos marginais aos olhos do povo daquele fim de mundo, certamente desconfiado de estranhos. Nada fácil, tendo por espelho a água da barragem. Desembarcámos no Rio Fundeiro, povoação deserta, e encontrámos posto de telefone numa taberna. Foi a primeira e única vez que falámos com as nossas famílias, confirmando a chegada para dois dias depois. Não havia pão, creio que o padeiro só por lá passava um dia por semana, nem outros mantimentos à venda. 
Adiantados face ao previsto, a tenda bem escondida no pinhal, sem saber se encontraríamos nas margens escarpadas lugar propício para novo acampamento, decidimos pernoitar ali. O resto do dia foi passado à pesca, que pouco deu,  três ou quatro achigãs pequenos, que apressadamente fritos mal adubaram o jantar e não lograram consolar os nossos jovens  estômagos de remadores, queixosos do menu "rações de combate", na época bem pobres. 
Na manhã do quarto dia zarpámos para a etapa final, onde o rio cruza com uma estrada. História sem história, fica para o penúltimo post da série.
FOTO: o acampamento na margem oposta ao Rio Fundeiro.
Vídeo: o Vergílio, rijo remador e banhista destemido.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

J2HV - o primeiro dia

A barragem crescia adiante de nós, com braços tão largos que, não fora o mapa, e seguiríamos por eles pensando ser o troço principal do rio. Revezávamos-nos nos remos, calor e cansaço faziam-se sentir. Havíamos deixado para trás as lanchas que aceleravam na barragem, apenas uma ou outra passava por nós de tempos a tempos, talvez a almoçar na "ilha", de que ouvira falar no parque de campismo. Uma delas, à proa moça em top less, quase nos abalroou, numa tentativa de nos virar o barco com a ondulação, e desapareceu deixando gargalhadas em resposta  aos meus insultos, remo alevantado em ameaça vã. O incidente inspirou-me o conto A Sereia, que pode ser lido aqui.
Seriam umas quatro da tarde quando finalmente pusemos os pés em terra, na tal ilhota, àquela hora deserta. O meu companheiro vinha-me convencendo a adiar o almoço para, dizia, nos banquetearmos, não com uma das rações de combate, como eu queria e que cada um podia comer enquanto o outro remava, mas com uma deliciosa sopa de feijão que ele trouxera de casa. 
Na água límpida, fiquei a ver cardumes de bogas a comerem gulosas a sopa deliciosa, em que o gorgulho se misturava com o feijão. "Aí do bicho que passa pela garganta de outro bicho", sentenciava o meu companheiro, enquanto engolia avidamente colherada atrás de colherada. "Devia ter triturado a sopa, assim não vias a carne", e bocas do género, até que ele próprio, mais saciado, deu às bogas o resto da sopa enriquecida com a carne que tanto me enojava.
Rumámos para o local escolhido para pernoita, a Ilha do Lombo, a salvo de incêndios e resguardados da marginalidade.  Alcançámo-la já o Sol se tinha escondido atrás de cabeço, acampámos do lado oposto à estalagem, perto de água, receosos de roubo do barco, jantámos  pão com atum, e adormecemos imediatamente. 
Pela calada da noite, acordei com barulho estranho. Não se via um palmo à frente dos olhos. Alarmado, tentei despertar o Vergílio. Em vão. Dormia como uma pedra. Pela escuridão, martelo na mão, dissimulei-me até ao barco. E descobri que se tratava, não dos assustadores "molinos de los batanes", como os que apavoraram Sancho Pança e D. Quixote, mas de pescadores furtivos que batiam na água para afugentar os peixes para a rede. Pela manhã, ao contar o sucedido, censurei o meu companheiro: "Podiam ter-te levado, que não acordavas". 
A resposta do Vergílio virou anedota familiar durante décadas: "E eu que até dormi com a naifa debaixo da almofada!"
MAPA: o trajecto do primeiro dia. A remos, numa pequena chata. A seguir: da Ilha do Lombo ao Rio Fundeiro.

J2HV - o embarque

Filme do embarque, trinta e um anos atrás. O V(ergílio) a arrumar a tralha, depois cá o J com o equipamento de pesca e o balde das pardelhas (isco vivo para a pesca do achigã). Quatro dias longe de tudo e de todos, num tempo em que não havia telemóveis. Nem rádio levámos e apenas conversámos com outras pessoas no Rio Fundeiro e, claro, à chegada, com as nossas famílias.

sábado, 1 de setembro de 2012

J2HV

Construímos o barquito numa garagem, com a ajuda de um amigo carpinteiro. Uma chata, para pescarmos em Castelo do Bode. Forte e feia. E no baptismo, no Bonito (Entroncamento), demos-lhe por nome as iniciais dos nossos, e o número 2 porque éramos dois Josés. Logo um deles, o carpinteiro, recusou acompanhar-nos: tivera todo o gosto em ajudar, mas água, mesmo mansinha como aquela da barragenzita, não era com ele. Foi sobre o tejadilho do meu carro, um Datsun 100 A, que transportámos o barco para Castelo do Bode. E aprendemos a remar, desenvolvemos a força necessária, e era muita, para mover a chata. Nela pescámos bons achigãs. Mas depressa o J que restava, o autor destas linhas, quis horizontes mais largos, desconhecidos -- uma subida do Zêzere a remos, acampando nas margens, pescando para comer. Conseguimos copiar um mapa militar em papel vegetal (o tempo das fotocópias ainda não tinha chegado até nós), convencemos as nossas mulheres, fizemos os preparativos, e numa manhã de Setembro descarregámos o barquito de cima do carro, arrastámo-lo até à água, colocámos a bordo tenda de campismo, fogão, cobertores, canas de pesca, algumas rações de combate para o caso da pesca falhar, um oleado para abrigo das chuvadas e embarcámos -- dois, J e V, que H, não me lembro com que pretexto, voltou para casa com a mulher depois de nos dizer adeus e de se comprometer a esperar-nos daí a quatro dias junto de uma ponte a montante que marcava o fim previsto para a nossa expedição.
(Continua: em breve, o filme da partida, em Super 8; depois, o relato das peripécias da viagem.)
FOTO: este J, 31 anos mais moço, algures numa das margens da barragem. Em primeiro plano, J2HV coberto com o oleado por causa da chuva.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A meados de Agosto

Longo. Fragmento de Um amor inventado (inédito), que surge aqui a propósito da chuva desta noite.

"Foi a meados de Agosto, altura em que o tempo muda e o calor do Verão é, por dois ou três dias, substituído pela fresquidão outonal. Começara a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, colava-se às pessoas, às árvores e às casas, tombando depois já reunida em grossas gotas, enlameando o pó dos caminhos, encharcando a terra, onde depressa desaparecia, sorvida pela sequidão dos campos. Uma nuvem de vapor desprendia-se amarelenta das lâmpadas de iluminação pública, inaugurada meses atrás, e unia céu e terra numa melancolia invernosa que fazia ansiar precocemente por castanhas e lareira. Dentro de dias o Estio voltará, mas, por enquanto, a tristeza deste interregno invernoso contagia a aldeia, encerra as famílias em casa, já ao borralho, a que só os rapazes resistem, trocando a monotonia doméstica pela conversa à porta da igreja, onde, mal abrigados da morrinha incessante, se apertam uns contra os outros, espremendo-se, empurrando-se mutuamente para a chuvinha miúda, soltando gargalhadas estrondosas, proferindo heresias, berrando besteiras e palavrões que, se não escandalizam Santa Marta, que os contempla enigmaticamente do alto do seu pedestal, incomodam a vizinhança, que jamais se habituará a estes pequenos desmandos da juventude de todos os tempos. Mais para a noite, dão uma corrida rápida até à tasca do Ameixa, a escassos cem metros, e por lá se deixam ficar até que feche, fazendo salão a troco de pouca despesa, para frustração do taberneiro que já devia ter percebido que jamais enriquecerá com clientes como estes. Pois não só não percebeu como instalou à sociedade, na semana passada, dois jogos de matraquilhos e ouve deliciado, como se fosse caixa registadora cantando de alegria, o som da introdução das moedas, o matraquear das bolas que saem de roldão para iniciar novo jogo. Desiluda-se: quando, no final do mês, na presença do proprietário, abrir as caixas dos jogos encontrará, em vez do esperado montão de moedas de dez tostões, anilhas e caricas espalmadas...
Começam a rumar para casa, primeiro os mais supersticiosos, receosos de que a meia-noite traga ordem de soltura para o sobrenatural, depois abalam os outros, ao verem-se sem companhia e porque amanhã é dia de trabalho; por fim, saem os bêbedos, quase postos na rua pelo taberneiro, que entende serem horas de ele próprio ir descansar.
Depressa a chuvinha os empapa e eles estugam o passo, uns por medo, outros para fugir à molha, e entrarão nas casas ou nos palheiros onde dormem, fechando aliviados atrás de si a porta que os isola do outro mundo e deste, agora pouco agradável. Deitar-se-ão e adormecerão imediatamente, exaustos de um longo dia de trabalho, não ouvindo já o cantar dos galos que, sem que se saiba como, marcam agora o início, mais tarde o fim, do período em que as coisas do Além podem atentar os vivos. Pouco depois, a aldeia dorme sossegada, perturbada talvez por ronco mais forte aqui, por gemidos amorosos ali, por briga feia além, entre casal desentendido, talvez porque o homem chega sempre bêbedo a casa...
É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar, tem de destruir tudo por onde passa; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já, balde na mão, enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau-olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.
Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do dono e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por carraças e solidão."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Treino individual

Sou adepto da actividade física. Dia em que me falta nem durmo bem. Encontrei no karaté, trinta e um anos atrás, a modalidade certa para mim.
À tardinha, no meu alpendre, tendo por companhia o meu cão, já habituado à doideira do dono, exercito-me, repito vez após vez as minhas katas favoritas, com o desgosto de treinar algumas delas há mais de um quarto de século e não as conseguir executar satisfatoriamente. É o caso de Tekki Shodan. Um dia, hei-de conseguir executá-la irrepreensivelmente. O filme é um exercício de auto-flagelação. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Comissões de boas vindas

Agosto de 1981. Universidade de Montpellier. Nós, bolseiros, chegáramos dos quatro cantos do mundo. Os russos, então soviéticos, não falavam com ninguém - estavam proibidos, ou receavam o controleiro, o único que interagia com a universidade. Os polacos, por um mês fora da cortina de ferro, extravasavam a alegria e logo no primeiro domingo surpreenderam o padre ao encherem-lhe a igreja. O controleiro russo tenta conversar com eles. Viram-lhe as costas com desprezo: França é terreno neutro, on en a assez, ils nous emmerdent en Pologne. E havia os chineses, inchados com a sua revolução.  Todas as manhãs batiam à porta do professor responsável: se os norte-americanos já tinham chegado. E um dia chegaram. Ei-los que finalmente podem cumprir a missão para que se haviam preparado: punho erguido, cantam para o surpreendido gigante barbudo americano, calções, tronco nu, o hino Abaixo o imperialismo yankee!
Esperariam talvez poder reatar ali, no quente Sul de França, os conflitos do Sudoeste da Ásia. Mas o americano, sem parecer compreender a declaração de guerra, tomou a provocação por simpática recepção, agradeceu, e retirou-se para dentro do quarto. Suponho que no regresso à China terão sido recebidos como heróis, eles que, mais uma vez, e nos antípodas, provaram que o imperialismo americano é um tigre de papel.
Lembrei-me deste episódio hoje, ao ver no telejornal um grupo de sete manifestantes a protestar junto à casa de férias do presidente da republica. Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares, só o ridículo é o mesmo de sempre. 
FOTO: em Montpellier, com parte do grupo português. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Grande GNR!

Que tão bons resultados fornece para as estatísticas! Não é que apanha um produtor caseiro de cannabis por dia? Espantoso. Suponho que  se trate de produção para consumo próprio, da tal que  prejudica os traficantes. Há, portanto, que a combater encarniçadamente. Fico à espera que a GNR apresente resultados semelhantes no combate ao roubo e tráfico de cobre e aos sucateiros receptadores. Aos assaltantes de caixas multibanco com  explosões de gás. À gatunagem, grande e pequena.
(Com excepção de raros medicamentos, café e bebidas alcoólicas, nunca toquei em substâncias estupefacientes).

União Ibérica

Em Espanha é que era bom -- e não falavam então dos caramelos de Badajoz, do azeite baratino, que viria a vitimar mais de mil pessoas. Nem das aspirações independentistas do País Basco ou da Catalunha. Eram os salários, era o nível de vida, eram as reformas aos cinquenta anos ou antes. As vagas em Medicina. Os horários de trabalho. As estâncias de férias. O TGV. Lá tudo bom, por cá tudo uma miséria. Um presidente da república portuguesa chegou ao extremo de pôr em causa a própria nacionalidade, ao dizer em discurso oficial algo como "... de Espanha, de onde talvez nunca nos devêssemos ter separado." 
Ridicularizavam as minhas ideias patrióticas, os versos de Pessoa com que os tentava contraditar, a eles e a elas que tão bem espelhavam o pior do nosso povo  quando a alma lhe falta, e não lhes escasseava auditório nem aprovação para os seus argumentos interesseiros, materialistas, reles, a sobreporem a cupidez à pátria, à língua, à cultura - que não tinham, que não têm.
E veio a crise. Terrível, desmoralizadora. Com a gasolina muito mais barata do lado de lá da fronteira, hoje tão fácil de passar que não fora a língua e nem saberíamos que estávamos em país estrangeiro. O fecho das maternidades alentejanas e os consequentes partos espanhóis. Os impostos, muito mais pesados por cá. As portagens nas antigas SCUT. Os cortes de salários e de subsídios. Com o agravar da crise, novos argumentos e mais poderosos deram sustento à integração ibérica: antes a gozar a próspera dominação castelhano que a sofrer a espartana austeridade imposta pela Alemanha. Antes com nuestros hermanos que sob o jugo da troika, a ouvir funcionários de quarta ou quinta linha, como os designou um banqueiro, a darem-nos lições de governação em conferências de imprensa, como se nossos governantes fossem.
Espanha receava o contágio português. Itália receava o contágio português. Obama receava o contágio português: não somos a Grécia, não somos Portugal, ouvi-o eu dizer.
Todos nos receavam porque portadores de doença contagiosa grave: caloteiros calaceiros.
Hoje, dois anos depois, somos nós que receamos o contágio espanhol, somos nós que vemos na sua crise a maior ameaça à nossa recuperação. Não se ouvem agora as vozes que defendiam a União Ibérica. Mas voltarão a fazer-se ouvir, logo que Espanha volte a estar melhor do que nós, o que inevitavelmente acontecerá - isto se, com a crise, se não desagregar. Porque, toda a gente sabe, ou deveria saber, Espanha nunca existiu como nação e casa onde não há pão... 
Nós, portugueses, a única das nações ibéricas a sacudir a hegemonia de Castela, devíamos ter memória e, futuramente, o bom senso de não defender, mesmo como mera hipótese académica, a União Ibérica, saco de gatos de onde povos e nações (bascos, catalães, galegos...) sonham sair.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crítica ao crítico

José Mário Silva, crítico literário, poeta e contista, é sobejamente conhecido, em parte graças ao blogue Bibliotecário de Babel, e a iniciarias que tem promovido com sucesso, como a Grande Oferta de Livros.
Recentemente brindou-nos com o microconto Um Bilhete para Anchorage, em que mais uma vez evidencia a sua maestria no género, de que saliento a economia da narrativa, o ritmo e o final, que não sendo surpreendente, está bem conseguido. 
Li e reli a história, como sempre faço quando elas me agradam, para as saborear melhor, para apreender a técnica, e, confesso, em busca de fragilidades. É este um defeito meu, que me acompanha desde criança e me motiva para a escrita: a convicção de que com uns retoques muitas narrativas poderiam melhorar -- isto de acordo com o meu gosto.
No conto, JMS glosa a história do homem que, desapontado com a vida, sonha desaparecer para recomeçar algures -- neste caso, no Alasca. Até aqui, tudo normal. Sou daqueles que acreditam que todas as boas histórias foram há muito escritas, pelo que nos resta inovar no modo de as contar, actualizando-as, adaptando-as talvez ao tempo em que vivemos e ao gosto da nossa época. Ora é aí, no contexto, que me parece existir algo a melhorar. Sem ter a pretensão de ensinar a escrever a José Mário Silva, atrevo-me a recordar-lhe que apreendemos a realidade através dos cinco sentidos e se alguns deles não participam nessa apreensão, a narrativa pode não conseguir atingir a ilusão do real que torna as histórias verosímeis. Por exemplo, se se aceita que o Alasca surja estereotipado, por se tratar da quimera com que o pai do protagonista sonha, já a cena do hospital ganharia em verosimilhança com pormenores olfactivos que transportassem o leitor para os cuidados intensivos, acompanhando o protagonista. 
Um bom conto, técnica narrativa apurada. Venham mais.

O professor, o cartaz, Relvas

Roupa suja lava-se em casa. Não aprecio, portanto, protestos no estrangeiro envolvendo questões domésticas, os quais em nada nos dignificam enquanto povo e nação, e menos aprecio que essa campanha seja feita por alguém que é apresentado como professor.
Não é assim que se dignifica a 'classe', por demais desprestigiada, sobretudo por nós, professores, que nem sempre sabemos estar à altura das nossas responsabilidades sociais e culturais. A nossa revolta, a que não faltam causas, não nos devia fazer esquecer da nossa função. A não ser que desejos de protagonismo mediático se sobreponham e obliterem a razão...
Nota: não tenho a menor simpatia por Miguel Relvas, nem o menor apreço pelo que fez para se 'licenciar'. O meu caminho foi sempre outro. 

O bosão de Higgs

 O bosão de Higgs fascina-me desde que ouvi falar dele, não muito tempo atrás. Pelo que julgo ter compreendido, o dito bosão (não faço ideia do que isso seja) preenche o espaço como um oceano infinito e dá massa às partículas que com ele interferem, de forma semelhante à resistência que sentimos ao caminhar na água. Se uma partícula, um fotão, por exemplo, não  interfere com ele, não tem massa. Faz sentido, até porque parece não existir explicação alternativa para a existência da massa. O que não entendo, e não vi ainda explicado em lado nenhum, é (i) o que dá massa ao bosão de Higgs (cento e tal vezes a do protão) e (ii) sendo ubíquo porque é que é tão difícil de encontrar.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Réstia de cebolas

Faria melhor figura se dissesse que faço agricultura biológica, a qual escapa ao estigma da agricultura rasteira. É que a biológica tem a seu favor o ser feita por gente culta, de meio social favorecido, que exerce a actividade quase como desporto. 
Mas - que hei-de fazer? - sou do contra, avesso a modas e modismos, e entendo que toda a agricultura é biológica, feita ou não com recurso a adubos químicos e pesticidas. Não usei nada no caso destas cebolas, que, coitadas, nem água viram de Novembro a Abril porque o céu a não deu. Mas noutras culturas, como a da vinha, não me venham com tretas: ou combatemos as pragas, sobretudo o míldio e o oídio, ou não teremos vinho nem vinha. E ninguém me consegue convencer de que são preferíveis os tratamentos exclusivos com os produtos químicos empregues na agricultura biológica, como a calda bordalesa (sulfato de cobre e cal) ou o enxofre, os quais têm em seu desfavor menor eficácia - nenhuma, até, no combate ao Black Rot. 
Agricultura rasteira, portanto. Na foto, hoje a fazer réstias de cebolas enquanto o povo torra feliz nos areais de Portugal, indiferente a crise e a  troika. Enfim, cada qual diverte-se como quer ou como pode.

domingo, 29 de julho de 2012

Gratidão

Rentes de Carvalho foi um dos raríssimos escritores a aceitar receber um exemplar de Entre Cós e Alpedriz. Leu-o e enviou-me o seguinte comentário, que me encheu de satisfação (suponho que por volta de 2010):

Caro colega,
Em quatro noites seguidas fiz a leitura de “Entre Cós e Alpedriz”. Sinceramente lhe posso dizer que o primeiro parágrafo me entusiasmou de tal modo que com grande interesse continuei a ler. A sobriedade da cena de violação e, sobretudo, o sugerir em vez de mostrar ou detalhar, são prova de quem sabe o que encerra o mister escrita.
Essas excelentes qualidades notam-se em várias cenas, e notavelmente no final, quando Joaquina revê o seu passado.
 Assim, pois, lhe dou aqui merecidos parabéns. “Entre Cós e Alpedriz”  não é um livro perfeito -- não há livros perfeitos -- é, sim, um carinhoso, solidário e muito sentido testemunho.
Foi para mim um prazer lê-lo, e grato lhe fico por se ter lembrado de mo oferecer.
Cordialmente,
JRC

Apita o comboio...

Antigamente, se alguém se queixava de ter perdido o comboio, logo ouvia réplica trocista: como é que se perde coisa tão grande?
Hoje é a CP que perde passageiros. Seis milhões só este ano, mais de metade da população de Portugal. Por muito mais pequenos que os passageiros sejam do que os comboios que os deviam transportar, a CP devia, tendo em conta a dimensão da perda, fazer um esforço para os encontrar. E porque o comboio é o meu meio de transporte favorito, sugiro a contratação do "cliente-mistério" para:

  • Comprar bilhete em qualquer uma das bilheteiras deste país para se aperceber da sobranceria com que somos tratados e pôr-lhe cobro;
  • Comprar bilhete na gare do Oriente cinco ou dez minutos antes da chegada do comboio, que é como quem diz consumir-se na bicha, que as máquinas estão avariadas e o funcionário "como tem tempo não tem pressa" (frase roubada a Fernando Pessoa);
  • Pagar o bilhete para ver o que custa a vida: Entroncamento - Oriente e volta, 25 euros em intercidades. Mais caro que de carro, portagens incluídas, parece-me; Faro - Porto, muito mais caro que de avião...
  • Tentar viajar naqueles dez meses do ano em que há greves...
FOTO: No TGV, rumo a Paris, em 2000.

sábado, 28 de julho de 2012

Jogos olímpicos

Lentamente, regresso à normalidade. Na televisão, a abertura dos Jogos Olímpicos. Sobre a cerimónia, faço minhas as palavras de Eduardo Pitta e de João Gonçalves. Foi exactamente o que senti, antes de enjoar e abandonar a televisão. Hoje, ainda olhei para provas de natação. Sem a identificação espectador - atleta, o espectáculo das máquinas bem afinadas a cortar a água, mais parecidas umas com as outras do que os carros da fórmula 1, resulta monótono, desinteressante.
Azares de quem recusa o rebanho, se não maravilha com milhões gastos, luzes e fogos de artifício. De quem lamenta hipocritamente não conseguir ser quinhoeiro  de tanta alegria, de tanta emoção, de tanta felicidade ao alcance da mão.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quando os sinos dobram

O sino dobra novamente a finados...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tempo contado

Rentes de Carvalho anuncia o fecho do seu blogue Tempo Contado. Leitor assíduo, só posso lamentar a decisão do autor; mas compreendo as suas razões pois, como diziam os antigos, não dá para cavar na vinha e no bacelo ao mesmo tempo. Um blogue exige alimento frequente, rouba tempo que faz falta, especialmente quando, como no caso de Rentes de Carvalho ou no meu, todo ele está contado. 
Aproveitemos para ler e reler Rentes de Carvalho nos seus romances e aprender com o mestre. E talvez ele não consiga resistir e cedo interrompa a ausência anunciada.

domingo, 15 de julho de 2012

O espadachim


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os meus leitores no Scribd

Eis a estatística das leituras dos contos que comecei a publicar no scribd no início deste ano. São mais numerosas do que eu pensava e, surpresa,  mais de um terço tem origem no Brasil. A todos os leitores, um abraço, e o desejo de que continuem a ler as minhas histórias. Muito obrigado.
 (clicar na imagem para ampliar)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Zé Manel não vem

A recepcionista levantou-se da secretária e dirigiu-se aos africanos, uns sentados nos sofás, outros de pé, todos silenciosos. Conto, por alto, a maré negra: dezoito! Com quem desejavam falar? Um dos gigantes, numa voz aflautada que faria rir noutro contexto, esclarece: -- É com o Zé Manel que a gente queremos falar. 
 -- Ah, mas o senhor José Manuel não vem hoje! 
Os trabalhadores entreolharam-se alarmados, protestaram ruidosos. O líder atalhou o clamor com gesto de mão: -- A gente não saímos daqui sem falar com o Zé Manel. 
A recepcionista encolheu os ombros e regressava à sua secretária, sem coragem ou sem vontade de argumentar, aparentemente habituada àquelas invasões. Mas reparou em mim, esquecido desde que os imigrantes tinham ocupado a sala: --- É melhor voltar noutro dia. Hoje, isto está complicado. E apontou com o olhar a complicação: aqueles trabalhadores da construção civil, decididos a esperar pelo Zé Manel, o subempreiteiro que recebe da empresa sete euros à hora e lhes paga dois ou três. Se pagar, que pode ter esturrado o vencimento do pessoal numa qualquer casa de alterne. Aqui, nesta empresa respeitável, ninguém tem culpa de nada, se necessário for, chamam a polícia, mostrarão recibos, deixarão bem claro que pulhices não são com eles – apenas com o engajador, o mesmo que todas as manhãs recruta vinte ou trinta imigrantes, sempre diferentes, e manda embora os outros, para que não se atrevam a reclamar, mesmo que lhes pague quanto e quando quiser. Dois andares acima, talvez os administradores sintam algum incómodo por não poderem sair antes que os trabalhadores zangados se cansem de esperar pelo Zé Manel, ou talvez riam da partida que, mais uma vez, pregou aos pretos… 

NOTA: ouvi esta história ao Nuno, anos atrás, quando a construção civil florescia. Fui buscá-la à minha gaveta informática após ouvir hoje, num telejornal, protestos de trabalhadores africanos, também eles subcontratados.)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mundo pequeno

Excerto do mail de uma amiga: (...) o teu livro "Entre Cós e Alpedriz" [me] foi pedido, via Bookmooch, por alguém com nome árabe que está no Reino Unido! :)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Figuras sem estilo

São poucos os leitores que me fazem chegar as suas opiniões e críticas, pelo que cada uma das que recebo me enche de alegria e de gratidão: alguém me leu. Dias atrás, a propósito do conto Figuras sem estilo, um amigo enviou-me por mail este comentário "Gostei do conto, mas preferia que tivesse um final feliz! Coitado do Paradoxo!" Pois, também eu tenho pena do pobre Paradoxo, igual a tantos outros que por aí andam, os quais, tal como ele, dificilmente poderão ser protagonistas de histórias com final feliz...

Jornalismo latrinário

Indigna-se o Correio da Manhã com o despesismo da ministra da Agricultura: levou ao Brasil comitiva de 20 pessoas, que custou ao contribuinte 40.000 euros:
A ministra da Agricultura, Assunção Cristas, levou para a Cimeira Rio+20 uma comitiva de 20 pessoas. Por dois dias no Brasil, foram gastos cerca de 40 mil euros, só em viagens e estadia. O CM foi saber o que é que os contribuintes portugueses têm a dizer sobre estes gastos governamentais numa altura em que lhes são exigidos tantos sacrifícios. O exemplo não deveria vir de cima?
Agisse o autor da notícia como jornalista e, em vez de se escandalizar com o gasto de 2.000 euros por pessoa numa visita oficial, investigaria e exporia eventuais ganhos com a deslocação, tendo em conta que o Brasil é um dos grandes clientes de produtos agrícolas portugueses, como, por exemplo, o azeite e o vinho verde. 
Mas não. É mais vendável a ideia de que todos os políticos são corruptos, trafulhas -- uma cambada de parasitas que vive à custa dos contribuintes. E as cimeiras são férias pagas. É (também) por causa desta mentalidade mesquinha que não passamos da cepa torta.

domingo, 8 de julho de 2012

Tous les enfants


Nascido a 4 de Julho

Nascido dia 4, 4 anos, segundo de 4 netos.

Poesia de sempre


Como este vilancete de Francisco de Sousa, que tanto me diz:

Abaix´esta serra 
verei minha terra

Ó montes erguidos,
deixai-vos cair,
deixai-vos sumir
e ser destruídos,
pois males sentidos
me dão tanta guerra
por ver minha terra.

Ribeiras do mar,
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deixai-as passar.
Deixai-mas tornar
dar novas da terra
que dá tanta guerra.

Cabo

O sol escurece,
a noite se vem;
meus olhos, meu bem
já não aparece.
Mais cedo anoitece
aquém desta serra
que na minha terra.

Francisco de Sousa

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Tu também sabes

Com ligeiro atraso, aqui vai a prometida história, ouvida ao meu amigo X, e depurada do calão setentrião. Precisa de uns retoques, dar-lhos-ei mais tarde. E há problemas de formatação, culpa do IPad (que fino!) em que estou a escrever. Ainda não percebi bem como funciona.
Zacarias vai à discoteca. Com olho de predador, inspecciona possíveis presas, procura eventuais interesses comuns, espreita fragilidades, fareja carências. Exclui as acompanhadas -- veio para o engate, não para a pancadaria. Tampa após tampa das mais giras, vão-se reduzindo as escolhas. Pela madrugada, só resta uma: trinta e muitos, para o gorducho, para o feio, algum mau gosto no arranjar-se, tristonha – ah, Zacarias está por tudo, atormentado por atrozes dores testiculares, longo é o jejum, esta não lhe pode escapar, é a última oportunidade da noite. Chega-se, educado, melífluo, copo após copo vai-se encostando, escuta-lhe meigamente os desabafos, nada de pressas, mau-grado os protestos da parte baixa, impaciente com tamanhas delongas. E ela fala pelos cotovelos, derrama lágrimas e conta desgraças sentimentais: "Não sei porque é que te conto estas coisas", "Ora, em mim, podes confiar, faz-te bem desabafar", tudo ouve e nada pede em troca, ansioso embora de que ela se deixe de conversas da treta: "Os homens são todos iguais, querem todos o mesmo e apenas isso." Pudica virgem em local destes? Que espera encontrar aqui, afinal? Um príncipe encantado? Não se dará conta de que não é nenhuma princesa donzela a ver feio sapo em cada pretendente? Dissimula o desagrado, não a contradiz, antes lhe enche o copo e insiste para que beba, finge interesse pelos seus dramas sentimentais: "Não sou, não aceito ser, objecto sexual, passatempo, brinquedo de tempos livres"; está na altura de o namorado se decidir, de lhe propor compromisso firme: "Isto assim não é nem deixa de ser, os anos vão passando, para ele, que é homem, tudo bem, mas para mim assim não serve, ele..." Ele pretextou, conta, turno no hospital, hospital onde, basta ver as séries de televisão, mais namoriscam do que trabalham, e há a colega dos olhos verdes, nova e gira, a Inês, por quem o safado já reconheceu sentir-se atraído... Por isso aqui está sozinha, justifica-se, a cumprir a ameaça que lhe fez: "Então saio eu, estou farta de passar fins-de-semana encafuada em casa à tua espera!" Zacarias ouve mais do que fala, encosta-se, aperta-a contra si, outra vez lhe enche o copo, ajuda-a a levá-lo aos lábios e quase a força a beber, embora ele se resguarde -- álcool, mau álcool de discoteca, pode ser fatal no momento da verdade. Desponta a madrugada quando saem, ela arrepia-se com o frio matinal, ele abraça-a protector, apoia-a no seu caminhar cambaleante, a moça deixa-se levar, vagamente dá-se conta de que entraram para o furgão de uma carrinha fechada, e ele, não aguentando mais, deita-a sobre colchão de espuma, para cima dela se atira, é agora, é agora, as mãos precipitadas levantam-lhe a camisola de gola alta, desviam o sutiã e apertam-lhe os peitos, depois descem em busca de intimidades mais íntimas, e ela, já mais lúcida, afasta-lhas, esquiva ao toque as partes pudendas, evita-lhe a boca, e fala, fala, já não as lamúrias infelizes de há pouco, antes remorsos, afinal é do namorado que gosta, e o Zacarias quer lá saber de quem gosta ou deixa de gostar, precisa é que abra as pernas e sem mais demora, ela soergue-se como querendo ir embora… Ah, assim não, não quer perder outra noite, tanto trabalho lhe deu, tanta paciência para lhe escutar as baboseiras, está por tudo, em desespero mete-lhe a coisa na mão, implora: “Vá lá, ao menos, uma punheta”. Ela começa, sem vontade, sem jeito, mas depressa larga a causa de toda aquela maçada: “Faz tu, que também sabes.”

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Do real e do verdadeiro

Perguntam-me amiúde quem são as personagens das minhas histórias, o que me lisonjeia: trabalho muito para que sejam, ambas, verdadeiras. Muito mesmo. De tal forma que, tenho-o verificado, são normalmente os excertos verídicos que os meus leitores consideram inverosímeis...
Por vezes, sempre devidamente assinaladas, reconto histórias alheias. Por exemplo, hoje à noite publicarei aqui o micro-conto "Tu também sabes", baseado em história ouvida num jantar a um amigo. É dele a história, meu o discurso, i.e., a forma de a contar. E sim, trabalhei muito para conseguir que a minha versão escrita esteja à altura do seu talento de contador de histórias. O que não é nada fácil.

Coimas e mais coimas

1. Fui surpreendido -- ainda me surpreendo com estas coisas -- por mail da Autoridade Tributária a informar-me de que não paguei o imposto de circulação em 2008. Tenho a certeza de que o paguei. Pago sempre. Pela internet. Não tenho papéis: já lá vão 4 anos e há tempos, antes de mandar o carro para a oficina após pequeno acidente, fiz limpeza ao porta-luvas. No site das finanças não há registo de qualquer dívida. Para evitar a contra-ordenação com que me ameaçavam, paguei novamente. Com coima, para recompensar, suponho, à incompetência dos serviços que só levaram 4 anos a descobrir, dizem eles, um pagamento em atraso. Desnecessário seria dizer, mas faço-o porque me alivia, que enquanto enquanto ocupam os serviços a vasculhar registos à cata de "dívidas" de 30 euros em 2008 dão tempo aos figurões que sempre deixam prescrever as dívidas de muitos milhões.
2. Uma desgraça nunca vem só, diz o povo no seu optimismo secular. Telefona-me a polícia: o processo que me foi movido há 3 anos ao tentar renovar licença caducada de uso e porte de arma de caça, aqui relatado com desenvolvimento, entretanto arquivado pelo tribunal, ainda mexe: agora tenho de pagar coima de 301 euros! Lá fui para protestar, pagar e terminá-lo. Qual quê! Mais uns papéis, volta novamente tudo para Santarém e daqui por uns meses o agente telefonar-me-á novamente para, talvez então, poder pagar a coima e livrar-me destas arrelias que me fazem perder dias e dias...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Malefícios do calor

Custódio garantiu esta manhã que Portugal vai «lutar até à morte para que este seja o ano de Portugal», quando questionado sobre o que tem faltado para que a selecção consiga ganhar um título.
Eu, afectado pelos 39 graus à sombra, lembro ao fogoso moço duas coisas:
1. Não lhes pede tanto a pátria. Apenas que se esforcem, que joguem o melhor que conseguirem. Afinal, não é num campo de futebol que se joga o destino nacional.
2. Como escreveu o Padre Vieira, "ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua". Espero, no entanto, que o Padre Vieira não tenha sido, também em matéria de futebol, profético: "O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela."

domingo, 24 de junho de 2012

Do princípio da incerteza

Idade: quarenta e cinco anos. Estado civil: divorciado. Profissão: desempregado. Acrescenta, em jeito de justificação: era até há pouco quadro bem pago de próspera empresa. Inadequação ao posto de trabalho, alegaram os Recursos Humanos. Indemnização: uma miséria. Um ano atrás teria recebido o triplo. Mas um ano atrás nem lhe passava pela cabeça que pudesse ser despedido. Começa as frases por quando e se. O seu futuro é conjuntivo. Uma vida em poucas palavras. De circunstância, na sua maior parte. Resignado, repete o lema de toda uma geração: novo demais para a reforma, velho demais para conseguir trabalho. --- E agora? Encolhe os ombros: -- Para já, tenho o subsídio de desemprego. Depois, logo se vê. Alvitro: emigração, Angola… Meneia negativamente a cabeça: falta-lhe a estaleca; o corpo fraqueja: tensão arterial para o alto, hérnia discal… Não, fica por cá. Casa própria, carro, os seus discos, os seus filmes, os seus livros, pequena poupança no banco. Não tem dívidas. Com pouco se contenta… E talvez, se, quando... Incomoda-me tamanha resignação – mas que faria eu no seu lugar? E que lugar é o meu, não estou também eu conformado, não estamos nós resignados, presos ao passado, desinteressados do futuro? Para onde foi esse tempo da mocidade, em que encarávamos o porvir com esperança, o víamos risonho, e, no entanto, pouco mais tínhamos então do que os nossos sonhos? Não serão os nossos desabafos, as nossas frustrações, iguais às dos velhos de todos os tempos, perdidas as ilusões da juventude? Acrescenta: felizmente não tem família. Penso, mas não o digo – afinal, é fraca a confiança entre nós: família, um mal, ou um bem? Prisão ou âncora? Sacudo também eu a cabeça: há muito deixei de julgar os outros. Escuto. É a minha função: ouvir e escrever. Mesmo que ninguém leia – e porque é que tudo o que fazemos precisa de ter utilidade, aproveitamento? Não valerá a pena fazer só por fazer? Como o velhote que, receoso de perder a memória, regista minuciosamente em caderno escolar tudo o que faz durante o dia, e depois se esquece de ler as suas anotações? Talvez a escrita seja afinal uma forma de fixar a volatilidade das coisas, de organizar o Mundo, de dar à vida um sentido, ao seleccionar uma probabilidade entre as muitas possíveis -- mecânica quântica da palavra, também ela governada pelo princípio da incerteza...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Conto premiado

Figuras sem estilo, conto que foi distinguido com o 3º prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel, promovido pelo Município de Manteigas, pode ser lido AQUI. 10 pp.

domingo, 17 de junho de 2012

Ainda o regresso aos campos

Um papa, esqueci o nome, contava que há três maneiras de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres, na agricultura. Acrescentava: -- O meu pai escolheu a mais trabalhosa.

Regresso aos campos


Durante décadas e décadas, os nosso economistas e governantes esforçaram-se para que os campos esvaziassem. Argumentavam então que a taxa de camponeses em Portugal era muito superior à dos países desenvolvidos da Europa; que com tanta gente a sobreviver na agricultura a produtividade era baixa, os proveitos reduzidos; que e mais que... Cépticos como eu viam cinismo em tão boa vontade, em tão grande preocupação com os sofrimentos dos camponeses, que não compravam os alimentos nos hipermercados e ainda valiam aos filhos, enchendo-lhe os porta-bagagens dos carros quando os visitavam. Era preciso que o campo deixasse de produzir e passasse a consumir; era preciso que os filhos dos agricultores se abastecessem nos hipermercados, como fazem as pessoas civilizadas por essa Europa fora, e não na casa paterna.
Depois, vieram os golpes de misericórdia: fecharam as maternidades, as urgências, as escolas, agora os tribunais, as juntas de freguesia, portajaram-se as antigas SCUT... 
E com os campos quase ao abandono, em ano de seca, ora severa, ora extrema, eis que os génios da economia e das finanças, que também são políticos a contragosto, vêm defender o regresso dos jovens ao campo. Prevejo que será um sucesso: as raparigas preferirão os rapazes que melhor lhes falarem do perfume da bosta, da vida idílica longe dos centros comerciais, das escolas, dos hospitais, a comerem o que a terra lhes der, se der, a amealharem os proveitos dos excedentes, vendidos a intermediários com profundo sentido de justiça.
E porque palavras leva-as o vento, termino com história contada dois dias atrás por agricultor septuagenário, que ganha a vida como pedreiro:
-- Zé, contou-me, fui vender a Leiria 300 quilos de batatas. Sabes a como é que mas pagaram? A 22 cêntimos o quilo.
Faço contas de cabeça: -- Sessenta e...
-- Sessenta e seis euros. Ora vê lá o que ganhei, depois de pagar o gasóleo do transporte, e as horas que perdi. Se acrescentar o trabalho da arranca... Para já não falar da plantação, das curas...
Portanto, senhor presidente da república, senhor primeiro-ministro, continuem a vossa campanha em prol do regresso aos campos: os jovens ouvir-vos-ão entusiasmados, e prontamente repovoarão os campos, e assim se salvará a pátria -- a não se que ponham a pensar em quantos quilos de batata precisarão de produzir, de arrancar, de vender para comprar um smart phone.
NOTA: com a ajuda do meu sócio destas aventuras agrícolas, já tenho as batatas armazenadas. Boa produção em ano ruim. Mas não se pense que o trabalho terminou: é preciso combater regularmente a traça, que pode destruir por completo a produção, como fez dois anos atrás, e a podridão. Trabalho porco, fedorento -- nem imaginam como uma batata podre cheira mal --, cansativo. Inútil, por vezes.

domingo, 10 de junho de 2012

10 de Junho

Excelente discurso do professor Nóvoa. A pensar Portugal, a ver a realidade, a apontar caminhos na linha dos nossos maiores pensadores. Bom seria que as suas reflexões fossem escutadas. Mas, suponho, seria exigir demais dos políticos, sempre mais preocupados com gamela e poleiro do que com a pátria.

sábado, 9 de junho de 2012

Portugal X Alemanha

Há que reconhecer: nós, portugueses, trabalhamos muito, mas a produtividade é baixa. São nossas as vitórias morais. Porque as reais são dos outros. 

O Velho e o Mar

No Delito de Opinião, excelente post de Pedro Correia sobre este livro que é, de há muito, um dos meus favoritos. Recordo o prazer que, muitos anos atrás, me dava leccionar o 9 ano, de cujo programa então fazia parte, a par de Gil Vicente e de Os Lusíadas.
Estudava-se a obra a partir da tradução do grande Jorge de Sena, outro autor votado ao esquecimento- Porque, nos tempos que correm, as obras são seleccionadas partindo do princípio, eduquês oblige, de que os alunos são imbecis e, consequentemente, só imbecilidades lhes podem interessar -- como a "obra" recomendada pelo Plano Nacional de Leitura, que nos delicia com diálogos como este, que cito de memória e apenas a título exemplificativo:

-- Onde está o meu cavalo espacial?
-- E o meu capacete supersónico?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Morra primeiro, reforme-se depois

Já não sei o que mais me assombra: se a capacidade dos tecnocratas proferirem asneiras, se a forma acrítica como os media as reproduzem:

Após a crise idade da reforma deve ir até aos 80 anos

por Dinheiro VivoHoje
Para o presidente executivo da AIG - American International Group, a crise da dívida na Europa demonstra que os governos a nível mundial têm de aceitar que as pessoas vão ter de trabalhar mais anos, à medida que a esperança de vida aumenta. Robert Benmosche defendeu que a idade da reforma terá de se estender até aos 80 anos.
"As idades da reforma têm de se alterar para os 70, 80 anos", referiu o CEO da AIG. Numa entrevista na sua casa em Dubrovnik, na Croácia, Robert Benmosche, explicou que assim se tornaria "as pensões e os serviços médicos mais acessíveis. Eles manteriam as pessoas a trabalhar mais tempo e retirariam essa carga dos mais jovens".
Com o desemprego juvenil a atingir números exorbitantes não apenas na Europa ou no Norte de África, mas por todo o Mundo, nada como ter os jovens no desemprego e os velhotes a mourejar. Poupa-se nas pensões de reforma, gasta-se em subsídios de desemprego e afins. Além do mais, os cidadãos ficarão mais tranquilos se protegidos por polícias septuagenários, mais confiantes se as escolas se transformarem em lares da terceira idade e estes tiverem septuagenárias a cuidar dos octogenários sobreviventes... Um paraíso por todo o lado, das minas às pescas, dos militares, à moda -- os velhos a trabalhar, os moços no desemprego.

Ocorre-me até que a citada AIJ estará já a implementar as propostas do seu presidente executivo dando preferência nas entrevistas de emprego aos sexa, septuagenários, em detrimento dos jovens...

Contrariedades


Anos atrás, num quente Julho, pouco depois de a Leya ter comprado a Caminho, telefonei para saber se já havia resultados da apreciação de Entre Cós e Alpedriz. Preocupações desencontradas: eu a perguntar pelo romance, a pessoa do outro lado a lastimar-se da sua triste sorte, despedida minutos antes:
-- E agora, que vou fazer, com mais de cinquenta anos? Quem me dará trabalho, num café que seja, quando souberem que tenho esclerose múltipla?
Durante mais de uma hora ouvi os seus desabafos, incapaz de oferecer conforto válido, incomodado por lhe não poder valer, a ela que se debatia com o drama do desemprego e da luta pela subsistência...
A caminho da praia, só pensava em "Contrariedades", o poema em que Cesário Verde, enfurecido por recusas de publicação, se acalma ao pensar na vizinha:


Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve conta à botica! 
Mal ganha para sopas... 
(...)

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 
(…)
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha!


sexta-feira, 1 de junho de 2012

A arte de subir na vida (2)

E há aqueles que vêem a vida como uma escada cujos degraus são os amigos -- e até se gabam de os espezinhar, quando a vaidade os cega. 

A arte de subir na vida

Diz frequentemente: é uma amizade que importa preservar. Por isso lisonjeia, bajula, serve servilmente. Vai longe. Chegará o dia em que não mais precisará destas amizades de ocasião e será então a sua vez de saborear a lisonja, a bajulação, o servir humilde de quem entende ser a sua uma amizade que importa preservar