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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Natais e carnavais


Primeiro transformaram o Natal em evento comercial, agora noutro carnaval, com as grandes e pequenas cidades ao despique para conseguirem atenção mediática, seja com palhaçadas, seja com impressionantes pirâmides ornamentadas com toneladas de mau gosto e míriades de luzes pirosas a apelarem ao deslumbramento saloio, sem apego àquilo que individualiza um povo, que distingue uma nação. Os brasileiros fazem a maior "árvore de Natal" do Mundo, os belgas a mais ridícula, os ingleses aproveitam para se despir e, de cuecas e barrete de Pai Natal, outra ridicularia dos tempos modernos, espojam-se espalhafatosamente para gáudio próprio e alheio... E cidades portuguesas, ressalvado o bom gosto e espírito natalício daquelas que, como Bragança, preferiram distribuir prendas pelas crianças do concelho,  competem entre si com idênticas pirâmides metálicas e, sempre, milhares de luzes, a dissipar, não as trevas da ignorância que promovem, mas o erário público...
Admira-me que os cidadãos que gritam histéricos nas inaugurações, antes não vomitem enojados. Afinal, Natal, Passagem de Ano, Carnaval, dia de São Valentim, das Bruxas, lançamento do novo IPhone ou Windows -- que singulariza cada um destes eventos? Idênticas multidões possuídas de igual histeria, animadas com a mesma ilusão de felicidade comercial, por todo o lado o Admirável Mundo Novo a explodir em iguais fogos de artifício.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quebra cabeças


Pequeno e franzino, introvertido e pacato, cresci predestinado a ser vítima daquilo a que hoje se chama bullying. Valeu-me o mau génio com que a natureza me dotou. Que me leva a agir sem pensar, sem medir as consequências. Começou a manifestar-se bem cedo. Recordo-me de, aos seis anos, ter ido viver para aldeia estranha, e mandado à loja comprar azeite pela minha mãe, vi o caminho barrado por magote de rapazes indígenas que jogavam à bola: -- Não passas, não passas! 
Talvez eles brincassem, mas senti-me ameaçado.  Quando um deles, o dobro do meu tamanho, me tirou o lindo boné de palha, pala de plástico azul, o pôs na cabeça enquanto dançaricava em redor de mim, -- É meu, é meu, não to dou!, a garrafa que levava para trazer o azeite subiu até lá acima, atingiu-o na cabeça, ele caiu ensanguentado, retirei-lhe o boné e passei por entre a malta atónita sem que nenhum deles ousasse fazer-me frente. 
No regresso, encontrei-os junto à porta de minha casa, onde a minha mãe curava com tintura a cabeça partida, eles ameaçavam-me, gritavam-me impropérios, distorciam o sucedido, como voltaram a fazer depois, na escola, acusando-me de agressão brutal em resposta a alegre brincadeira, e vi-me ostracizado pela professora, de quem fora até então o menino bonito. E continuei introvertido e pacato, fechado em mim, por companhia as leituras -- a quebrar cabeças quando me punham fora de mim.

sábado, 24 de novembro de 2012

25 de Novembro


Vivi o PREC (Processo Revolucionário em Curso) e o Verão Quente de 1975 com muito medo e uma arma na mão. Sempre que o meu quartel entrava de prevenção rigorosa, o que sucedia todas as semanas, deitava-me vestido e calçado, cinturão com cartucheiras carregadas, G3 com bala na câmara. Era muito influenciável e levava a sério as prelecções do comandante, que nos frequentes plenários revolucionários de lavagem ao cérebro antecipava ataques da reacção; apavoravam-me as medidas logo tomadas, como metralhadora antiaérea na parada para resistir aos aviões Fiat que no 11 de Março haviam bombardeado o Ralis, quartel revolucionário -- e a gritaria constante do povo que se manifestava fora dos muros do quartel soava-me como música fúnebre em filme de terror.
Boataria constante e contraditória. A televisão substituía a programação normal e a informação pelo malfadado hino do MFA ou passava ininterruptamente a estúpida da cantilena em que a gaivota voava, voava. Ambiente opressivo, sem notícias de casa e da família. Soldados enervados passavam-se e disparavam contra camaradas. Outros, apenas para saírem do quartel, voluntariavam-se para barricadas na RTP, desejosos de atirar sobre os reaças -- enquanto o comandante jurava morrer de botas calçadas quando “aí vier a reacção”. 
No 25 de Novembro foi a mim, segundo furriel miliciano com 21 anos mal feitos, que enviaram a erguer e comandar barricadas nas estradas da Atalaia e de Torres Novas, sem outras ordens, sem saber o que ia fazer, como proceder, apenas para o comando fingir que fazia alguma coisa, sem se comprometer embora.
Poucos dias depois, fui saneado, bem como todos os oficiais e sargentos milicianos da minha unidade – para minha grande alegria. 
E o valente comandante da EPAM (Escola Prática de Administração Militar), que jurava morrer de botas calçadas? Pois rendeu-se logo que os comandos de Jaime Neves, de passagem pelo Lumiar, dispararam bazucada contra a porta de armas... 
FOTO: pouco antes do 25 de Novembro. Sou o primeiro ajoelhado à direita.

Uma casa portuguesa

(O fim-de-semana está chuvoso, a pedir borralho e leitura. Por isso, aqui vai conto, Uma casa portuguesa, 4 pp.)


Do lado de lá, na televisão, esganiçam-se apresentadores e convidados, a transbordar energia, esfuziantes de alegria; do lado de cá, no sofá, a família finge prestar-lhes atenção, constantemente interrompida pela gritaria das crianças que, por entre os adultos, por cima deles, brincam e brigam, correm, saltam, caem, choram. Inútil mandá-las sossegar, elas não pararão, indiferentes à preocupação dos graúdos, inconscientes das desgraças do mundo.
Entra homem jovem, encasacado e engravatado mau grado o calor, saltam-lhe para os braços as crianças, — Papá, papá!, e empurram-se para lhe contar novidades e brigas, fazerem queixinhas reciprocas, — Ele bateu-me! — Porque me estragaste o carro do Faísca! Aos adultos, basta o seu ar pesaroso para adivinharem o desfecho de mais esta entrevista de emprego: 
— Nada. 
Atira-se desalentado para o sofá, afasta um pouco os filhos: — É sempre a mesma coisa. No fim, escolhem o candidato mais novo. Meneia pesaroso a cabeça e acrescenta: — Não adianta, não vale a pena continuar a tentar, fracasso sempre...
O sogro nada diz. O seu silêncio grita por si: não dá para continuarem todos a viver da sua reforma, magra e recentemente amputada de um terço por penhora — créditos bancários não pagos, encargos banais anos atrás, que hoje o perseguem como a outros o homem do fraque.
Todos tinham uma pontinha de esperança naquela entrevista: o lugar era modesto, vendedor, o moço tem apresentação, tem conversa, frequentou a universidade, tinha já passado nos psicotécnicos, talvez, talvez... E como precisavam daquele emprego, quinhentos ou seiscentos euros não é muito, mas nos tempos que correm há que deitar mão ao pouco que ainda aparece, não pode haver esquisitices, doutorices...
— Vou emigrar, desabafa, talvez para que o dissuadam, a ele que vem destroçado desta derrota, a última de tantas outras, a ele que bem conhece a penúria em que vive a família, a ele que detesta viver às sopas do sogro, a ele que também sabe que isto, assim, não pode continuar.
Que emigre, pensa o sogro, que vá para o raio que o parta, desde que desampare a casa e o sofá, se não se der bem pelo estrangeiro, pelo menos é uma boca a menos a sustentar, e que boca, o desemprego não lhe tira o apetite, é uma presença incómoda a menos, um a menos a disputar o comando da televisão, agora reduzida a quatro canais desde que a tv por cabo foi cortada por falta de pagamento — outro processo por dívidas que corre contra si, que bom que seria se, perdido no mar de calotes que afoga os tribunais, prescrevesse antes do julgamento. E se lá no estrangeiro o genro se der bem, chamará para junto de si mulher e filhos, ufa, que alívio, não será o desafogo, mas, pelo menos, o sossego. Sim, gosta de ter consigo a filha e os netos — na Consoada, num ou noutro almoço dominical, é pessoa de antigamente, do "casamento, apartamento", ah, bom tempo esse em que os filhos não nos caíam em casa depois de casados: — Pai, tivemos de entregar a casa ao banco, não podemos ficar na rua, tens um quarto livre, uma salinha de costura onde as crianças podem dormir...
— Mas, objecta a filha, lá fora as coisas não estão famosas.  Ainda há pouco vimos na televisão — não foi, pai? e olha-o na esperança de lhe ouvir palavras que dissuadam o marido de partir — portugueses na Suíça e na Inglaterra que dormem nos automóveis e passam fome, enganados pelos patrões...
— Que faço então? – e olha também ele para o sogro, à espera de resposta, algo como deixa-te ficar, estamos apertados mas ainda cá cabes, onde comem seis comem sete, basta acrescentar água à sopa, isto como se os jovens de hoje se contentassem com a lavadura das gamelas de antigamente, adubada com sardinha repartida irmamente, rabo para o pai, cabeça para a mãe, lombinhos para a filha...
Mais uma vez, o sogro nada diz. Cogita, talvez, que para ele e para a velhota, a reforma, mesmo cortada, chegava, aconchegada com a mísera pensão de sobrevivência da sogra, meses atrás retirada do lar, na impossibilidade de o continuarem a pagar. Semi-falido, como pode arcar com as despesas de três famílias? E ataca-o novamente a vontade louca de sair para comprar A Bola e não mais aparecer, recomeçar talvez num outro qualquer lugar, sozinho, sem encargos nem responsabilidades, nem créditos nem dívidas vencidas, nem Finanças a persegui-lo encarniçadamente… ah, se o país fosse à bancarrota! Toda a gente falida, todos pobres, sem credores à perna! Mas logo lhe ocorre que a sua reforma, esses setecentos e quarenta euros, reduzidos pelo tribunal a quatrocentos e noventa e três, desapareciam também, em lado nenhum há empregos, e então na sua idade... 
Como refúgio de emergência resta-lhe na aldeia o casebre arruinado onde nasceu e que só não vendeu por falta de comprador, tal como três míseras leiras de má terra que não o sustentariam, mesmo com vontade, esforço e saber, coisas que não tem, nem nunca teve. E, no entanto, na sua meninice, as pessoas sobreviviam lá, numa parcimónia inconcebível hoje em dia, sem água canalizada, nem electricidade, nem gás, nem casas de banho, nem televisão, nem telefone, nem carro, nem computador, nem internet... Sem contas para pagar, comendo o que a terra dava antes de serem por ela comidos, poupando cada tostão, fugindo de dívidas como o Diabo da cruz — assim se sobrevivia. E havia momentos de felicidade, serões em que se escolhia o feijão ou se descamisava, as vindimas, a matança do porco, a feira na vila, baptizados, casamentos, funerais, até!  Havia gente feliz! Ele, por exemplo. Por riqueza um pião, alguns berlindes, muitas caricas. Descalço mal saía da escola, indiferente a topadas, chuva, gelo que fosse. Ah, era rijo. E, sim, feliz: não é preciso muito para ser feliz – basta ser criança. Mas ser criança é precisamente aquilo que os anos não permitem que voltemos a ser, excepto como caricatura, o juízo perdido por senilidade. 
— Vou sair um pouco, para espairecer, diz.
— Onde vais? Pergunta a mulher, como se lhe tivesse lido os pensamentos, quarenta anos de coabitação dão para isso.
E ele, ao que um homem chega, justifica-se, sinal de que a consciência o incomoda. De outra forma, como compreender que aos sessenta anos, feitos no mês passado, reformado, arrimo de três famílias, precise de desculpas para ir ao café, sair do harém – três mulheres e uma menina – olvidar as desgraças familiares por entre uma suecada, um café ou uma mini, acesa discussão com os antigos colegas da repartição sobre a governação, o futebol, o mau funcionamento da justiça, o desemprego: vinte anos atrás, facilmente empregaria a filha na repartição, o genro até, mas esse longe de si, talvez na Câmara, onde uma sua cunhada era então a chefe de secretaria. Coitada, triste fim o seu, cancro atroz e fulminante... Que choruda reforma não teria hoje, e solteirona, que boa ajuda seria... Agora, os tempos mudados, os lugares no funcionalismo preenchidos, nenhuma hipótese de empregar a filha ou o asno do genro, incapaz de ser arrimo da família, homem da casa dele. À saída, deita-lhe olhadela de desprezo, vê com desagrado que ocupou o seu lugar ao canto do sofá e, como se fosse o chefe de família, se apropriou do comando da televisão enquanto resmunga — Agora não! ao filho, que lhe pede a leitura de uma história, e incomodado com o olhar de censura da sogra, em jeito de desculpa, acrescentará: — Foi um dia terrível, estou na fossa, já não acredito que um dia venha a ter trabalho.
Não acredita ele, não acredita o sogro, não acredito eu: basta ouvir as notícias, um terço dos jovens está desempregado. E este, em vez de se fazer à vida, desalenta no sofá, como se esperasse que os empregos o viessem procurar a casa... Surpreendido, o sogro ainda o ouve exclamar, meio justificação, meio protesto: — Roubaram-nos o futuro!
As mulheres olham-no intrigadas, não é todos os dias que profere frase tão apropriada, onde a terá ouvido?
Soergue-se, sentindo-se ouvido, escutado: — A culpa é da geração anterior, com emprego para toda a vida, acomodada em direitos adquiridos. Enquanto os velhos não morrerem, não há esperança para nós, os jovens.
O sogro ainda faz menção de voltar atrás para lhe lembrar que são os seus direitos adquiridos que lhe dão tecto e mesa, a ele e à família, mas cala a objecção, inútil começar briga, problemas de mais tem eles todos, e segue para o café, a mini e a sueca, a cogitar como seria bom desaparecer, deixar casa, família, calotes e genro e viver de couves e batatas no casebre abandonado na sua aldeia natal...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O presidente da Boa Memória

O actual presidente da República parece ter esquecido que foi primeiro ministro durante uns dez anos; que tomou medidas decisivas para a destruição da nossa agricultura, das pescas, da indústria.

Cavaco: portugueses esqueceram o mar, a agricultura e a indústria


Tenho memória. Lembro-me bem de teorias segundo as quais era imperativo retirar gente, muita gente da agricultura, porque nos países europeus que nos serviam de modelo a percentagem de população agrícola era muito inferior à nossa. Lembro-me bem dos subsídios para arrancar pomares e vinhas, dessa estranha forma de vida em que alguns prosperaram, plantando com subsídios para arrancar com outros subsídios um ou dois anos depois. Lembro-me dos subsídios para não produzir, ou apenas para alimentar as abetardas. Lembro-me das multas recentes, bem pesadas, para quem recuse arrancar as vinhas plantadas, salvo erro,  depois de 2001...
Se alguém tem problemas de memória é seguramente o professor Cavaco Silva. Já se tinha esquecido do que fez pela destruição da nossa frota pesqueira quando veio apontar-nos o mar e os seus recursos como jangada salvadora. Hoje quer aumento da produção agrícola. Um reconhecimento público das asneiras das suas políticas governativas está, suponho, fora de questão. Porque em Portugal nunca ninguém tem culpa de nada. É o destino.
(Texto de 2010, republicado a propósito das declarações de hoje do PR.)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da igualdade face à lei

Vejo na televisão um juiz sair do seu lugar para cumprimentar amavelmente o réu, um criminoso VIP. Ouço dizer que foi mudado de cela e de prisão por não apreciar as instalações anteriores. Serão tão amavelmente tratados, já não digo os outros criminosos, mas os pobres cidadãos que se vêem em tribunal a tentar receber indemnizações por despedimento ou confrontados com acções de despejo por  falha nas prestações, ou em processos para cobrança coerciva de uma mão cheia de euros?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pobre país

Pobre país que culpa uma estrangeira pelos seus problemas. É fácil, desresponsabiliza-nos e aos nossos governantes presentes e sobretudo passados, mas revela uma terrível falta de senso, indiciadora de que à primeira oportunidade que se apresente tudo se repetirá. Ouro do Brasil, volfrâmio na segunda guerra mundial, fundos comunitários no cavaquismo, pouco importa. Quando temos, desbaratamos alegremente. Quando falta, insultamos os estrangeiros. Connosco, a culpa é sempre dos outros. Pior do que isto, só as saudades do Companheiro Vasco, o "maior amigo do povo, dos trabalhadores e da classe operária". 
Enfim, desabafos em dia em que me dói a cabeça. Culpa da Merkel, seguramente.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Arco da Velha

Assim aprendi a chamar-lhe, in illo tempore, quando havia mistério e magia, e o arco surgia no céu a recordar que nunca mais Deus destruiria o Mundo com água. O nome completo, Arco da Velha Aliança, era então longo de mais para criança de curta vida.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Imigrante (2)

O Jeroen já tem trabalho. Ao que parece, excelente e bem pago pelos padrões nacionais. Até eu, que o conheço, estou surpreendido: não esperava que conseguisse tão depressa. Darei os pormenores possíveis (o segredo é a alma do negócio, diz-se), quando ele me autorizar a divulgá-los.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Imigrante


Sem esperança de emprego, os portugueses emigram, repetindo tendência secular deste país saturnino, que só não devora os seus filhos quando, antes, eles o abandonam. 
Neste contexto depressivo, não deixa de ser estranha a vinda de um jovem que abandona a rica Holanda para cá procurar trabalho -- que lá nunca lhe faltou, desde os 15 ou 16 anos em acumulação com os estudos, depois em full time. 
É o Jeroen (pronuncia-se Irún), meu sobrinho, e, já aqui o escrevi, o mais português dos holandeses -- ou, como ele então respondeu, o mais holandês dos portugueses.
Admiro-lhe a coragem de tentar concretizar o sonho antigo de viver em Portugal, em contracorrente com a maré de desânimo que nos paralisa. E conhecendo-o bem, conhecendo as suas capacidades, não duvido de que consiga. Aposto que antes do final do ano terá trabalho, decidido que vem a aceitar o que aparecer, até dominar o português.
Desta epopeia, do seu sucesso improvável, ou do seu fracasso certo, aqui darei notícia.
Para, espero, proveito e exemplo. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Peniche, 1976


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Emigração


O meu pai, sempre aventureiro, emigrou, tinha eu os meus doze anos. Antes, numa linda tarde outonal, à porta da adega, enchi-me de coragem e atrevi-me a tentar dissuadi-lo. Os riscos. A língua. A nossa pobreza. Se valeria a pena tentar a sorte nessa Holanda longínqua e desconhecida, para onde o passador lhe arranjara papéis, em vez da França, para onde todos os outros iam. Para minha surpresa, não me ralhou, antes me ouviu como se eu fosse adulto -- sempre se orgulhou de mim, mas disso só me apercebi mais tarde. 
Não nascera para agricultor. Ia à aventura. Se não resultasse, que o pusessem na fronteira quando o dinheiro se lhe acabasse. Toda a vida arriscara. Pouco tinha a perder.
E uma noite partiu, velha mala de cartão na mão, apesar dos meus protestos: -- Lá deito-a para o lixo.
Ansiosamente aguardávamos as suas cartas. O sofrimento atroz desses tempos em país estrangeiro, de língua incompreensível, inverno inconcebível, o dinheiro a acabar, o companheiro de aventura a regressar derrotado, as vigarices dos patrões que lhe não pagaram, as vezes em que chorou -- só muito depois o contou. As cartas chegavam às duas, três por semana, pelo Natal veio uma com folha de químico azul a esconder nota de dois florins e meio para os filhos, coisa de vinte escudos. Sobrevivemos com parcimónia indescritível, amenizada com a venda dos dois porcos, das batatas. Nos piores momentos, quando a minha mãe desesperava, a minha avó, a viver connosco por viuvez, convencia-a a carregarem a burra com o que havia na adega, o que a terra ia dando, couves, grelos, cebolas, alhos, feijões, e a seguirem para o mercado de Pataias, caminhada de quase dez quilómetros, a fazerem alguns escudos para o governo da semana.
Um dia, a carta contava que o meu pai tinha prestado provas para as oficinas da KLM, a companhia de aviação holandesa;  e depois, a grande notícia: entrara. 
A nossa vida melhorou. Com viagens de avião a preços irrisórios -- creio que pagava cinco por cento do bilhete -- passou a ser visita regular, a quem os poderosos do concelho pediam o favor de trazer garrafa de uísque, então caríssimo entre nós, gravador ou, os grandes figurões de Alcobaça, que o conheciam dos seus tempos de padeiro e confiavam na sua discrição, filmes pornográficos, quase inexistentes entre nós. 
E eu, que reprovara no curso de Serralheiros, finalmente convencido de que não tinha hipóteses nessa área, saí de casa aos treze anos e fui para Leiria fazer o Curso Comercial. Assim se acentuou a minha solidão, a viver como hóspede em casa estranha, em plena crise da adolescência -- nenhuma é fácil, menos o foi a minha, sempre avesso a facilidades -- em meio desconhecido, citadino, de costumes bem diferentes dos meus, rústicos e brutos.
Uma vez por mês, ia a casa, curto fim-de-semana, pois a camioneta gastava quase um dia, entre viagens e mudas, a percorrer os trinta quilómetros. A minha mãe primeiro, os meus irmãos depois, crianças de cinco de dez anos, juntaram-se ao meu pai, e só em Agosto voltávamos a ser família.
Duros tempos, que recordo agora, após conversa com amigos que tentam a sorte por esse mundo fora, na penosa vivência da emigração, mal suavizada pelo Skype.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Infância


Nasci pobre, em aldeia pobre deste país então pobre. Não passei fome: o meu pai era padeiro, tinha salário e um quilo de pão de segunda por dia. Não tive brinquedos, nem festas de aniversário, nem guloseimas. Nenhum luxo, nem sequer pelo Natal, em que, pela calada da noite, o Menino Jesus descia pela chaminé enfarruscada para deixar no meu sapato peúgas, roupa interior, talvez uns rebuçados. 
Não me sabia, não me sentia pobre: vivia num mundo alternativo, de sonho, em permanente devaneio, prolongando no quotidiano a fantasia dos livros que devorava, uns emprestados, outros requisitados na Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian: eu era o Tarzan, rei dos macacos, o Robinson Crusoé de uma ilha deserta do tamanho da minha rua, buscava o tesouro dos piratas nas minhas Matas (quarenta homens na mala do morto / ió ió e uma garrafa de rum, cantava o papagaio empoleirado no meu ombro), fazia no meu Nautilus milhares de léguas submarinas, ou sobrevoava África de balão, quando não era injustamente encarcerado em masmorra, de onde me evadiria um dia para ser o conde de Monte Cristo da vingança... Batia-me em vielas lado a lado com D'Artagnan e os três mosqueteiros, fugia de casa com o Huck Finn, embarcava rumo ao desastre com Pedro, Pescador de Baleias, acompanhava Ismael e Ahab na caça insana da terrível baleia branca…
Professores falavam sem que os ouvisse, entediava-me nas aulas de Desenho, brincava nas Oficinas, em cada sábado formava no recreio para a ordem unida da Mocidade Portuguesa -- ou faltava a umas e outras, para andar de barco no Alcoa, pelo que no segundo ano quase reprovei, precisamente a Mocidade, a que só podia dar três faltas...
Todas as disciplinas contavam para a média, e eu, muito mais novo que os meus colegas, era um desastre a Canto Coral, uma nódoa a Desenho, um incapaz a Oficinas, um nulo a Ginástica (assim se chamava então), cujo professor dava também Trabalhos no Campo – duas horas seguidas a ditar apontamentos; embora mediano a Matemática, brilhava a Português, História, Ciências,  o que não chegou para a média de catorze, e perdi a bolsa de estudo que me permitira ir estudar. E ao terceiro ano, o primeiro do curso de Formação de Serralheiros, reprovei: 8 a Oficinas, 9 a Desenho de Máquinas -- nas restantes disciplinas, positivas bem razoáveis.
Vergonha tamanha que, se acaso saí de casa naquelas férias grandes, foi às escondidas. E nunca mais reprovei outro ano.  

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desespero


Escrevo sobretudo nos cafés, alheado de quem me rodeia. Num deles, desperta-me conversa exaltada ao telefone de uma das empregadas: 
-- ... tenho três filhos, não podem passar fome por causa de um chulo de um patrão. Não sei, a mulher anda a passear por aí bem vestida, a ele e aos filhos não lhes falta nada, os meus filhos não podem passar fome. Às três, vou aí e não vou sozinha. Eu não sujo as minhas mãos, mas há quem o faça. 

Coitada. Uma simpatia com os clientes, apesar da paga miserável, tardia, regateada. Tempos atrás o companheiro da moça contava: sem leite para as crianças, fora exigir os salários atrasados. Conseguira cinquenta euros por conta...
Lutei dia e noite contra o regime salazarista, enfrentei a polícia nas ruas, conheci a clandestinidade. Mas, reconheço-o hoje, Salazar não permitia horários de sessenta, setenta horas semanais, salários em atraso, pagos aos bochechos como favor que se faz, como é favor o trabalho que se "dá" a quem dele carece e se sujeita pelo leite para os filhos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Prática de Ji'in

Quando, em finais de 2010, comecei a preparar-me para o exame de graduação de San dan, perguntei ao meu mestre que kata escolher para favorita (Tokuigata). A resposta surpreendeu-me: Ji'in. Porra, pensei, logo essa, que detesto, para favorita? 
Mas como sou daqueles que entendem que o parecer do mestre é para seguir, apliquei-me seriamente no estudo e no treino de Ji'in. Um ano depois, já a apreciava. Hoje, sinto-a como minha. Muito há ainda para melhorar, muito suor ainda me há-de encharcar,  até a poder apresentar em exame, como este vídeo, gravado hoje no ginásio Il Korpo, bem mostra.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

As tripas de Deus

O progresso da ciência, e nomeadamente o da Física, tem permitido elaborar, a partir de estranhas evidências, especulações fantásticas sobre a natureza do Universo, algumas das quais parecem saídas da ficção científica. Por exemplo, a hipótese holográfica (Maybe, that is, the universe is rather like a hologram, Brian Greene) ou a de se tratar de simulação em computador.

Para os defensores desta última hipótese, seríamos, não ratinhos no laboratório divino, mas  personagens de um programa ou jogo de computador. Para minha surpresa, há um projecto para testar esta possibilidade:
E se o universo for apenas uma simulação de computador? Investigadores da Universidade de Bona, Alemanha, querem acabar com todas as dúvidas: afinal, o universo é ou não é uma simples simulação de computador?
Se os resultados forem positivos, continuaremos a valorizar cada uma das ilusões que nos fazem esquecer da nossa efemeridade -- por exemplo, essas que preenchem os telejornais -- ou conseguiremos suportar e assumir plenamente a virtualidade da nossa existência, respondendo às banalidades do quotidiano com palavras semelhantes às do Castelhano, do Auto da Índia, de Gil Vicente:
Hablo en las tripas de Dios
Y vos hablaisme en los gatos
!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Testemunhos de leitor



Aos seis anos, antes do Natal, já a professora me punha de frente para as quatro classes, a ler o jornal, para assombro de matulões e matulonas, obrigados a frequentar a escola até aos catorze anos, se antes não concluíssem a quarta classe. Entrei com cunha do meu pai, para não ficar todo o dia sozinho em casa, e algumas das minhas recordações mais antigas são leituras dessa época, no suplemento Ria Connosco, do Diário Popular, como a de uma sereia, que então muito me intrigou. Não continuei durante muito tempo a ser o menino bonito da professora: pouco depois, parti uma cabeça com garrafada e acabou o meu estado de graça. O que pouco me importou. Sabia ler e devorava tudo o que encontrava com letras, os dois ou três livros que havia em casa, os outros nas bibliotecas itinerantes Calouste Gulbenkian. Lia às escondidas, nas aulas mais chatas (para mim, quase todas, excepto Português, História, Ciências), à noite, em casa, quando minha mãe me supunha a estudar fervorosamente -- a ocasião em que me apanhou dará outro post.
Em Leiria, para onde fui frequentar o Curso Comercial aos treze anos, era cliente diário dos quiosques que vendiam a 15 tostões livros usados e os voltavam a comprar por 10. 
Foi então que tive orientação mais consistente e vivi aquilo que considero ser a promoção ideal da leitura. Contá-lo é, antes de mais, exprimir novamente a minha gratidão a essa professora, Margarida de Carvalho, que nunca mais vi e nem sei se viverá ainda.
O sistema por ela implementado era assaz simples: não havia funcionários na biblioteca, a própria responsável (e professora a tempo inteiro) nos recebia: -- O que é que já leste? De que é que mais gostaste? Porque é que não gostaste? Que queres ler? Ah, sim? E porquê? Mas antes vais-me ler este, quando acabares conversamos e depois veremos se estás em condições de ler esse que queres.
A rebeldia da adolescência levava à biblioteca alguns que nunca, nem antes nem depois, leram nada, para provocadoramente pedirem livros que a professora entendia serem ainda inadequados. E eles: Assim não levo nada, se não me deixa ler o que quero. Depois queixavam-se da tirania da bibliotecária ao director de curso, até ao director da escola, se a ocasião se proporcionava. 
Graças à sua orientação, evoluí dos Cinco, Hornoblower e Sandokan para leituras que ainda hoje recordo (A expedição da Kon Tiki, À margem do tempo...), aprendi a apreciar a ficção científica e maravilhei-me com Simack, Bradbury, passei por Pearl Buck, devorei tudo o que por lá havia de Steinbeck, Hemingway, conheci Brecht, impressionei-me pela primeira vez (muitas outras se seguiram) com O Estrangeiro...
Só tive notícias desta professora no pós 25 de Abril: os alunos tinham conseguido saneá-la do cargo. Motivo? "Não nos deixava requisitar os livros que queríamos, pedíamos uma coisa, mandava-nos ler primeiro outra. " 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Indiscrições


No restaurante quase vazio, Gaspar oblige, apenas nós e, na mesa do lado, moço solitário, brasileiro pelo falar ao telemóvel. Escuto, indiscreto. Alguém o tenta reconciliar com a ex. O rapaz concorda que ela tem qualidades, enumera-as até.
Mentalmente intrometo-me: Não sejas parvo, pá, mulher de qualidades é bem precioso, a não perder. 
O brasileiro prodigaliza encómios, sintetiza-os em frase lapidar: É uma grande mulher...
(Oh parvalhão, e estás a almoçar sozinho e descansado, deixando escapar uma grande mulher?)
Justifica a inacção, como se tivesse escutado os meus pensamentos trocistas: -- Mas deixá-la lá estar uns tempos...
(Cretino. Uma grande mulher, de grandes qualidades, em pousio? Em que mundo vives, cara?)
Acrescenta, nostálgico: -- É uma grande dona de casa...
(Corre, estúpido, antes que outro mais expedito te ocupe o lugar. E se for boa na cama... Ai, estes rapazes de agora! Deve ser  falta de cultura: bem se vê que este nem conhece o Ne me quitte pas, nem leu Entre Cós e Alpedriz:
"... Tudo isso carregarás senão com satisfação, pelo menos sem revolta, bastando para tal pensares na ventura que hoje tiveste e que, certamente, te não será negada sempre que o mereceres.  É isso, homem, os tomates são as nossas grilhetas.")

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Alice Vieira e o Plano Nacional de Leitura


A inclusão de O Que Dói às Aves, obra para adultos de Alice Vieira, na listagem da Plano Nacional de Leitura (PNL) não é mero erro informático, como alega ingenuamente a responsável, antes evidencia uma realidade deplorável que o PNL teria por desiderato combater: em Portugal, não se lê. A começar por cima, pelos responsáveis pela elaboração das listas de livros recomendados, os quais nem sequer folhearam o livro de Alice Vieira. O que, antes de mais e num tempo em que se discutem as fundações, deveria fazer repensar a utilidade do PNL, analisando custos, obra realmente feita, estatísticas fidedignas de leitores,  reflectindo sobre a qualidade das obras recomendadas, apurando a cedência ou a resistência a pressões editoriais.
Nada vai mudar. O PNL é vaca sagrada. E leiteira.
Declaração de interesses: não, não li o livro de Alice Vieira. Mas não recomendei a terceiros a sua leitura.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um mendigo digno


Ao oferecer trabalho a quem pede esmola, há a remota probabilidade de sermos surpreendidos. 
Há uns anos, ao anoitecer, toca-me à campainha cigano bem posto, franzino, na casa dos seus sessenta anos. Pedia ajuda -- dinheiro ou comida. Se sempre nego dinheiro, nunca nego comida. Mas, por via de algumas situações que já presenciei, antes sondei-o: não queria trabalhar. Sim, queria, mas em quê, se ninguém lhe dava trabalho? Pois eu tinha os muros por pintar, a horta feita matagal...
O homem aceitou prontamente. E eu, convencido da sua boa vontade, dei-lhe do que tinha: pão, uma lata de atum, maçãs e, acrescentei, cem escudos para beber um copo, que não vai comer isso a seco. 
No mês seguinte, reapareceu. Já não a mendigar, mas a perguntar pelo trabalho. Porém, eu receei que o homem se magoasse, ou caísse de andaime, ou, débil como era, lhe desse treco -- sem seguro, eu teria de arcar com as despesas e responsabilidades. Desculpei-me: esquecera-me de comprar as tintas, não valia a pena cavar o quintal, que era cedo para sementeiras -- e aviei-lhe outra sacada com pão, conservas, fruta, cem escudos para o tinto.
Durante muito tempo, foi visita mensal. Cumprimentávamo-nos como velhos conhecidos, eu desculpava-me por não ter ainda trabalho para ele, preparava-lhe o avio do costume, sem esquecer moeda de cem para a pinga, que tanta falta faz, sobretudo a quem sofre

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coração de manteiga


Um AVC obrigou o senhor Joaquim a internamento no lar, incapaz de andar, de fazer a sua vida, de ser auto-suficiente. Homem forte, confiante, vendo-se aleijado para o resto da vida, desanimou. Sou um merdas, um esporra, desabafava. Mas bem cuidado, logo que Fevereiro trouxe dias bonitos, e o sentavam no alpendre a encher os olhos com verde, os ouvidos com a cantoria dos passarinhos que as empregadas também alimentam, ganhou cor, apetite, vontade, devolveram-lhe forças as saudades do filho único, a labutar em Angola, que viria de férias no verão. E contava primeiro os meses, as semanas depois, finalmente os dias: menina Paula, é já domingo que chega o meu Francisco...
Passou esse domingo, passaram os dias, as semanas, aproximava-se o mês do seu final: que terá sucedido ao meu Francisco, que ainda não pôde vir-me ver? Coisa grave, sem dúvida. Mas ele vem, que se não ia embora sem me ver, sem se despedir de mim, sabe-se lá se para sempre.
Coitado do senhor Joaquim, confidencia-me a directora, quem lhe há-de dizer que o filho já regressou a Angola, não quis vir visitar o pai, lares e hospitais fazem-lhe muita impressão, e falta-lhe ânimo para ver o pai entrevado... 

Coração de pedra

Plantava couves na minha horta quando chega cavalheiro junto do portão. Se eu era o dono. Confirmo. Ouço-lhe a lengalenga enquanto endireito as costas, limpo com o braço o suor que me escorre em bica da testa: pois ele era do Centro de Recuperação X e...
Interrompi-o: sabe, é rara a tarde em que me não vêm pedir dinheiro enquanto trabalho no quintal; mas nunca ninguém se oferece para me ajudar...
-- Então não quer contribuir...
Voltei às couves. Não é só preparar a terra, estrumá-la, plantá-las, regá-las. É preciso deixá-las protegidas da passarada, das lesmas e caracóis, ou de manhãzinha apenas restarão os talos.
E, enquanto o suor me cegava, ia magicando que muita gente bem intencionada concebe a solidariedade social como via de sentido único, ignorando a reciprocidade que deveria existir entre o receber e o dar. Quanto mais não fosse, por amor-próprio.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Destilações

A actualidade política nacional e a respectiva cobertura pelos media parece-me tão interessante, tão excitante como as reportagens da TV Guia sobre a Casa dos Segredos: rasca, à procura da intriga, a privilegiar a coscuvilhice, sempre a atiçar, a acossar uns contra os outros, como se todo o Portugal não passasse de uma matilha faminta de rafeiros raivosos.
Eu entretive-me neste 5 de Outubro a destilar, não o ódio que nos cega e queima, mas a minha aguardente. Quando a merda rebentar, como parece ser desejo geral, vamos precisar de um bom desinfectante, como a aguardente, que servirá também  para afogar a desgraça. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Historieta politicamente incorrecta

-- Professora, hoje é dia do Rendimento...
-- Pois, para quem o recebe...
A ciganita fita incrédula a jovem professora:  -- Você não recebe?
E a professora, pedagógica, como pertence na escola primária: -- Não. Recebo o meu ordenado, mas para isso tenho  de trabalhar.
Há um misto de piedade e de desprezo no olhar da jovem aluna: -- Coitada!...

Receitas para a juventude eterna

Séculos e séculos de procura da fonte da juventude, e eis que aparecem os primeiros resultados: primeiro a fome, eufemisticamente chamada dieta hipocalórica, agora a castração. Ė aproveitar.

sábado, 22 de setembro de 2012

Brinquedos sexuais

Vejo com dificuldade as notícias e pior as ouço quando, como hoje, tenho comigo os meus quatro netos, pelo que posso ter percebido mal ou compreendido ao contrário o que julgo ter visto e, como já se ouve por aí, ouvisto. Despertou-me a atenção num telejornal algo sobre a sexualidade dos portugueses. Uma terapeuta ocupacional (os cursos que por aí há!) diz algo enquanto a legenda esclarece que não sei quantos por cento dos portugueses nunca usaram um brinquedo sexual. Espanto-me: ainda há assim tantos a quem não serve aquele com que nasceram? Que atrasado, eu, que nunca entrei numa dessas lojas - como é que se diz?, nem ao menos numa casa de meninas, nem comprei qualquer brinquedo sexual! Que infeliz devo ser sem qualquer fetiche pelo plástico, pelo latex, pelas revistas pornográficas, pelas encenações -- e, sobretudo, pelos discursos sábios dos terapeutas ocupacionais que parecem ter inventado o sexo e a sexualidade. Só espero que não sejam detentores dos direitos de autor, que,.constou-me, o primeiro a registar um processo ou uma ideia fica seu proprietário. E com a perseguição à pirataria que por aí vai...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Coincidências

Da História de Portugal, Quinto Volume, dir. José Mattoso, p 117:
"A crise financeira atingia, em 1847, uma grave situação e, em 1848, o Governo contava apenas com os meios necessários para ocorrer, num único semestre, ao pagamento de metade dos vencimentos dos funcionários públicos e dos soldos e fornecimentos do Exército e da Marinha. O Governo era devedor a nível interno e externo. (...) Crescia aceleradamente a agiotagem. A crise veio acabar numa bancarrota e o período de liquidez só teve lugar a partir de 1852. (...) O aumento do banditismo, provocado pelo desemprego, evasão, deserção e suspensão de lugares e de cargos e o crescendo das guerrilhas provocavam a perturbação da ordem pública. "
Segundo a mesma fonte, a crise agrícola, que se agudizava desde 1837, acentua-se com o Inverno rigoroso de 1844-1845 e piora em 1847 devido à praga da batata, a intensa seca, a más colheitas, que levam ao consequente aumento dos preços dos cereais e produtos de primeira necessidade, causando uma crise geral de subsistência, acompanhada de baixa de salários, fome, desemprego, instabilidade política...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Maria da Fonte Revisitada

Fascina-me a lenda dessa amazona campónia, "a cavalo, sem cair" "as pistolas na mão para matar os Cabrais / que são falsos à nação". Recordo ainda hoje os versos que minha avó recitava ao serão, imaginando-a como uma das revolucionárias da República, que viriam a ser personagens de Entre Cós e Alpedriz:
A Maria da Fonte não é uma mulher como as mais
Usa facas e pistolas para matar os Cabrais!
Dessa revolução anárquica, cavalgada  tanto pela extrema-direita miguelista como pela extrema-esquerda setembrista, nasceu a guerra civil  da Patuleia, que durante oito meses devastou o país, mostrando do que é capaz este povo pacato, ordeiro, quando não aguenta mais. E o hino que imortalizou essa mulher do Minho, aqui numa interpretação maravilhosa de Vitorino,  agrada-me mais que a marcha sebastianista adoptada pela República como hino nacional:



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Anedota reciclada

-- Eu, Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal!
Responde o da Troika: -- Eu Sê lá se é

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Optimista, eu?

Ontem um amigo dizia-me "tu és um optimista. Vês sempre o copo meio cheio". Duvidei. Creio que ė antes o meu pessimismo que me leva a valorizar o pouco que o copo ainda contém. Na certeza de que será cada vez menos. 
Hoje o ministro das finanças dissipou-me as dúvidas.  Sou pessimista. Por isso valorizo cada gota que ainda resta.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

J2HV - a sequela

Transformámos em veleiro o J2HV, essa humilde chata por nós construída para a pesca na albufeira de Castelo do Bode . Com vento a favor, o barco corria sobre a água e nós, entusiasmados, víamos-nos já a explorar todos os recônditos até então inacessíveis na vasta albufeira, e neles a pescar os maiores achigãs... Mas não navegava com vento contrário -- não bolinava. Fomos aos livros, pedimos conselho aos entendidos: o barco precisava de um bom patilhão. E lá voltámos nós às carpintarias, em busca de um pedaço de contraplacado marítimo. Numa delas, quando o empregado procurava por entre bocados  de dimensões variadas um que se aproximasse do pretendido, chega o dono, ricaço de família rica do Entroncamento. Ignora-nos, pergunta rispidamente ao empregado o que faz ali, e inteirado ordena-lhe: "Isso não compensa. Volta para o teu serviço." Saímos indignados com tamanha arrogância, e terá sido por praga nossa que, pouco depois, para nossa satisfação, ele faliu...
Com o patilhão, o barco bolinava. Experimentámo-lo num fim-de-semana, sempre à vista do parque de campismo, onde acampávamos em modestas canadianas por entre as tendas-mansão e as caravanas dos proprietários de potentes lanchas a motor, os quais olhavam por cima da burra para nós, pobretanas penetras a destoar naquele novo-riquíssimo de aparências mantidas, ao que constava, à força de calotes. 
Pouco depois, sem suficiente preparação, o Henrique e eu fomos para subir o rio à vela. Chegados a Castelo do Bode, o Henrique mudou-nos os planos. Acamparíamos no parque de campismo. Mais seguro. Mais confortável. Ainda insisti em pôr a bordo uma tenda e umas latas de atum, para o que desse e viesse. Recusou, com fé inabalável no veleiro: dava perfeitamente para ir e vir no mesmo dia.
Deu para ir. Com vento de feição, afastámo-nos muito e muito rapidamente. Eufóricos. O pior foi para regressar. O mesmo vento que nos levara velozmente para montante, para lá nos empurrava por mais que tentássemos bolinar. O barco era curto, o vento contrário forte, e após horas de tentativas fracassadas, acabávamos sempre no mesmo ponto. A noite aproximava-se fria, o estômago exigia comida de mais sustento que a bolacha Maria, aliás já devorada - foi preciso voltar aos remos. Mas o meu companheiro dizia não poder remar por via dos estilhaços de granada no pulso e no joelho, recordações que trouxe de Angola juntamente com os intestino furados por bala de Kalash, pelo que, qual mestre da embarcação, fumava sentado à proa, cigarros atrás de cigarros, enquanto eu, não fumador, me esforçava exausto contra o vento que, soprando contra a vela amainada, nos dificultava a progressão. Anoiteceu. Ao longe, muito ao longe, avistámos as luzes do parque de campismo. E o meu companheiro, sempre agarrado ao cigarro: "Vá, já está quase". Eu, mais morto que vivo, as mãos ensanguentadas das bolhas rebentadas, maldizia aventura e companhia e, endireitando as costas sofridas, contei-lhe a história dos dois caminheiros surpreendidos por ataque de urso: um trepou para cima de uma árvore, abandonando o companheiro à sua sorte, o qual, não podendo fugir e não havendo quem lhe acudisse, fez-se de morto. O urso farejou-o e foi-se embora. E o amigo, descendo da árvore, pergunta-lhe trocista: "Que segredo te dizia a horrenda besta ao ouvido?" 
"Que nunca mais me meta em outra jornada na companhia de semelhante camarada".
FOTOS: (1) o Henrique e o Jorge no J2HV antes da transformação da chata em veleiro e (2) nós dois a aprender a velejar.

domingo, 9 de setembro de 2012

Certas pessoas

Numa destas noites passeava com a minha mulher quando, junto de uma vivenda, deparámos com quatro cães deitados no passeio. Mudámos para a estrada para não incomodar suas excelências. Ao passarmos, uma cadela pôs-se a ladrar histérica e logo a matilha se levantou contra nós. Não tenho ainda o bom costume cristão de oferecer a outra face em caso de ataque e presenteei a cadela que se me atirava às canelas com dois pontapés que, infelizmente, não fizeram estragos porque ela saltou para trás. Recuei ameaçando a canzoada com o telemóvel, na falta de pedras à mão, e, já algo afastado, vejo chegar senhora furiosa, vinda do escuro do outro lado da rua, com brusquidão abre o portão e leva a rafeiragem para dentro enquanto vocifera, alto e bom som, fingindo dirigir-se à cadela: -- Pois, tu não gostas de certas pessoas...
Ainda fiz tenção de voltar atrás para explicar à senhora que as pessoas, certas pessoas, têm todo o direito de passear livremente na via pública sem serem atacadas, ao contrário dos cães, que a lei obriga a trela e açaimo. Que o comportamento canino, como aliás, o dos humanos, muda consoante estejam sós ou em matilha. Que não gosto de ser atacado. Que já por diversas vezes fui mordido por cães "que nunca mordem a ninguém", pelo que... Mas a senhora desaparecera na escuridão do quintal e só me resta desabafar aqui, lembrando aos  amigos e donos dos cães, entre os quais me incluo, que somos nós os responsáveis pelo seu comportamento e não certas pessoas de quem eles podem não gostar...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Violência conjugal

Muito se tem falado nos últimos dias, e pelos piores motivos, da violência conjugal: para além das formas mais mitigadas, ameaças e agressões reiteradas mais ou menos brutais, só este ano já foram assassinadas 24 mulheres. A inexistência de onda de indignação generalizada, semelhante à provocada pela violência indonésia em Timor na pré-independência, ou pela pedofilia na Casa Pia, sugere-me um qualquer pudor individual e social, motivado talvez por consciência algo intranquila, que acaba por estender uma cortina de silêncio sobre esta forma de violência cobarde, exercida contra os mais fracos.
Tema recorrente na minha escrita, o feedback tem sido escasso. Aparentemente, muitos leitores e leitoras preferem, como sugerem as sugestões de leitura em blogues ou os conteúdos do facebook, os arroubos de imaginação ornamentada de retórica, os dichotes engraçadotes, os lugares comuns e os ditos sentenciosos a evidenciar sabedoria de algibeira. Lamento que assim seja. Mas nem por isso deixarei de escrever sobre aquilo que me angustia: vida e morte, amor, sexo e, sempre - falo da escrita ficcional - sobre os reais males da sociedade portuguesa, perenes, transversais, espoletadores dos faits divers da política e da sociedade que emergem no dia-a-dia: violência doméstica, desemprego, corrupção, ignorância, novo-riquíssimo cavaquista, a especulação bolsista correlata...
A proeminência que tenho dado à violência conjugal radica na minha convicção de que não é mera consequência do atraso nacional, antes sua determinante:  a forma como as mulheres e os mais fracos são tratados é barómetro indiciador da riqueza, da cultura, da prosperidade de um país, de uma comunidade, de uma família. 
NOTA: o terceiro prémio recebido este ano em Manteigas com um conto, Figuras sem estilo, que versa a violência conjugal, é sinal animador. Pode ser lido aqui.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

J2HV - a chegada

Esmorecido o entusiasmo da partida, animava-nos agora o da chegada. E bem carecíamos dele: o descanso do terceiro dia, passado no Rio Fundeiro, eu a pescar, o Vergílio a banhos, não nos devolveu as forças, antes fez emergir a fadiga e as dores musculares. Afinal, teríamos remado umas boas dezenas de quilómetros e numa chata lenta e pesada, que não cortava a água com a elegância de um cisne, antes a empurrava à frente com rudeza de hipopótamo. O vento soprava forte, ora empurrando-nos para trás, ora, quando o rio mudava de direcção,  dando alívio e ajuda, pelo que nos lembrámos de usar o oleado como vela, prendendo-o à proa e segurando-o com os braços, de pé, enquanto o camarada remava, agora um pouco aliviado. Foi assim que do alto da ponte nos avistaram, a quilómetros de distância, o casco um pontinho laranja rente à água, acima o cinzento da vela improvisada, que um de nós, qual Cristo crucificado, segurava dolorosamente, como bem imagina quem já permaneceu um bom instante braços alevantados. Lá estavam as nossas mulheres e o H, pesaroso de não nos ter acompanhado. No regresso, passámos pelo parque de campismo de Castelo do Bode, onde tinha ficado o carro do Vergílio. Com um palmo de água no interior, do temporal que sofremos na primeira noite no Rio Fundeiro.  
Durante dias, semanas, recordámos cada episódio do périplo, quase remada a remada, enfatizámos o esforço, rimos das discussões que em espaço tão acanhado e condições penosas inevitavelmente estalavam. De tal forma que o H, inspirado pela nossa chegada à vela e a remos, propôs nova subida do Zêzere, desta vez à vela e até onde fosse navegável. Mas essa é matéria para o próximo post, J2HV - A Sequela, embora adiante, desde já, que também nisto de aventuras nenhuma preserva a magia e o encanto da primeira, sempre irrepetível.
MAPA: a última e mais custosa etapa da subida do Zêzere. Da margem oposta ao Rio Fundeiro até ao cruzamento com a estrada nacional 238, se a memória me não falha.

Carta fora do baralho


terça-feira, 4 de setembro de 2012

J2HV -- da ilha do Lombo ao Rio Fundeiro

Passada a novidade e o desafio, a aventura sabia a rotina: remar, remar, trocar com o parceiro e descansar, para pouco depois o substituir. Nas margens, pinheirais queimados pelos fogos de Verão. Vivalma. Numa garganta apertada, o vento contrário e a ondulação eram tão fortes que recuávamos em vez de avançar. Só com a fibra do Vergílio conseguimos dobrar aquele cabo das tormentas. No Rio Fundeiro, o deslumbramento: o Zêzere alargava em todas as direcções, a povoação reluzia ao pôr-do-sol, estendendo-se da água encosta acima. 
Anoiteceu rapidamente e, sempre desconfiados dos humanos, acampámos num pinhal do lado oposto, tenda e barco bem escondidos. Durante a noite levantou-se temporal, chuva forte, vendaval violento, que fez recear queda de braças dos pinheiros a esmagarem-nos. Mas o sono era tanto que depressa esquecemos o perigo e adormecemos inconscientes. 
De manhã, o bom tempo voltara. O Vergílio insistiu para que fizéssemos a barba, para não parecermos marginais aos olhos do povo daquele fim de mundo, certamente desconfiado de estranhos. Nada fácil, tendo por espelho a água da barragem. Desembarcámos no Rio Fundeiro, povoação deserta, e encontrámos posto de telefone numa taberna. Foi a primeira e única vez que falámos com as nossas famílias, confirmando a chegada para dois dias depois. Não havia pão, creio que o padeiro só por lá passava um dia por semana, nem outros mantimentos à venda. 
Adiantados face ao previsto, a tenda bem escondida no pinhal, sem saber se encontraríamos nas margens escarpadas lugar propício para novo acampamento, decidimos pernoitar ali. O resto do dia foi passado à pesca, que pouco deu,  três ou quatro achigãs pequenos, que apressadamente fritos mal adubaram o jantar e não lograram consolar os nossos jovens  estômagos de remadores, queixosos do menu "rações de combate", na época bem pobres. 
Na manhã do quarto dia zarpámos para a etapa final, onde o rio cruza com uma estrada. História sem história, fica para o penúltimo post da série.
FOTO: o acampamento na margem oposta ao Rio Fundeiro.
Vídeo: o Vergílio, rijo remador e banhista destemido.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

J2HV - o primeiro dia

A barragem crescia adiante de nós, com braços tão largos que, não fora o mapa, e seguiríamos por eles pensando ser o troço principal do rio. Revezávamos-nos nos remos, calor e cansaço faziam-se sentir. Havíamos deixado para trás as lanchas que aceleravam na barragem, apenas uma ou outra passava por nós de tempos a tempos, talvez a almoçar na "ilha", de que ouvira falar no parque de campismo. Uma delas, à proa moça em top less, quase nos abalroou, numa tentativa de nos virar o barco com a ondulação, e desapareceu deixando gargalhadas em resposta  aos meus insultos, remo alevantado em ameaça vã. O incidente inspirou-me o conto A Sereia, que pode ser lido aqui.
Seriam umas quatro da tarde quando finalmente pusemos os pés em terra, na tal ilhota, àquela hora deserta. O meu companheiro vinha-me convencendo a adiar o almoço para, dizia, nos banquetearmos, não com uma das rações de combate, como eu queria e que cada um podia comer enquanto o outro remava, mas com uma deliciosa sopa de feijão que ele trouxera de casa. 
Na água límpida, fiquei a ver cardumes de bogas a comerem gulosas a sopa deliciosa, em que o gorgulho se misturava com o feijão. "Aí do bicho que passa pela garganta de outro bicho", sentenciava o meu companheiro, enquanto engolia avidamente colherada atrás de colherada. "Devia ter triturado a sopa, assim não vias a carne", e bocas do género, até que ele próprio, mais saciado, deu às bogas o resto da sopa enriquecida com a carne que tanto me enojava.
Rumámos para o local escolhido para pernoita, a Ilha do Lombo, a salvo de incêndios e resguardados da marginalidade.  Alcançámo-la já o Sol se tinha escondido atrás de cabeço, acampámos do lado oposto à estalagem, perto de água, receosos de roubo do barco, jantámos  pão com atum, e adormecemos imediatamente. 
Pela calada da noite, acordei com barulho estranho. Não se via um palmo à frente dos olhos. Alarmado, tentei despertar o Vergílio. Em vão. Dormia como uma pedra. Pela escuridão, martelo na mão, dissimulei-me até ao barco. E descobri que se tratava, não dos assustadores "molinos de los batanes", como os que apavoraram Sancho Pança e D. Quixote, mas de pescadores furtivos que batiam na água para afugentar os peixes para a rede. Pela manhã, ao contar o sucedido, censurei o meu companheiro: "Podiam ter-te levado, que não acordavas". 
A resposta do Vergílio virou anedota familiar durante décadas: "E eu que até dormi com a naifa debaixo da almofada!"
MAPA: o trajecto do primeiro dia. A remos, numa pequena chata. A seguir: da Ilha do Lombo ao Rio Fundeiro.

J2HV - o embarque

Filme do embarque, trinta e um anos atrás. O V(ergílio) a arrumar a tralha, depois cá o J com o equipamento de pesca e o balde das pardelhas (isco vivo para a pesca do achigã). Quatro dias longe de tudo e de todos, num tempo em que não havia telemóveis. Nem rádio levámos e apenas conversámos com outras pessoas no Rio Fundeiro e, claro, à chegada, com as nossas famílias.

sábado, 1 de setembro de 2012

J2HV

Construímos o barquito numa garagem, com a ajuda de um amigo carpinteiro. Uma chata, para pescarmos em Castelo do Bode. Forte e feia. E no baptismo, no Bonito (Entroncamento), demos-lhe por nome as iniciais dos nossos, e o número 2 porque éramos dois Josés. Logo um deles, o carpinteiro, recusou acompanhar-nos: tivera todo o gosto em ajudar, mas água, mesmo mansinha como aquela da barragenzita, não era com ele. Foi sobre o tejadilho do meu carro, um Datsun 100 A, que transportámos o barco para Castelo do Bode. E aprendemos a remar, desenvolvemos a força necessária, e era muita, para mover a chata. Nela pescámos bons achigãs. Mas depressa o J que restava, o autor destas linhas, quis horizontes mais largos, desconhecidos -- uma subida do Zêzere a remos, acampando nas margens, pescando para comer. Conseguimos copiar um mapa militar em papel vegetal (o tempo das fotocópias ainda não tinha chegado até nós), convencemos as nossas mulheres, fizemos os preparativos, e numa manhã de Setembro descarregámos o barquito de cima do carro, arrastámo-lo até à água, colocámos a bordo tenda de campismo, fogão, cobertores, canas de pesca, algumas rações de combate para o caso da pesca falhar, um oleado para abrigo das chuvadas e embarcámos -- dois, J e V, que H, não me lembro com que pretexto, voltou para casa com a mulher depois de nos dizer adeus e de se comprometer a esperar-nos daí a quatro dias junto de uma ponte a montante que marcava o fim previsto para a nossa expedição.
(Continua: em breve, o filme da partida, em Super 8; depois, o relato das peripécias da viagem.)
FOTO: este J, 31 anos mais moço, algures numa das margens da barragem. Em primeiro plano, J2HV coberto com o oleado por causa da chuva.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A meados de Agosto

Longo. Fragmento de Um amor inventado (inédito), que surge aqui a propósito da chuva desta noite.

"Foi a meados de Agosto, altura em que o tempo muda e o calor do Verão é, por dois ou três dias, substituído pela fresquidão outonal. Começara a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, colava-se às pessoas, às árvores e às casas, tombando depois já reunida em grossas gotas, enlameando o pó dos caminhos, encharcando a terra, onde depressa desaparecia, sorvida pela sequidão dos campos. Uma nuvem de vapor desprendia-se amarelenta das lâmpadas de iluminação pública, inaugurada meses atrás, e unia céu e terra numa melancolia invernosa que fazia ansiar precocemente por castanhas e lareira. Dentro de dias o Estio voltará, mas, por enquanto, a tristeza deste interregno invernoso contagia a aldeia, encerra as famílias em casa, já ao borralho, a que só os rapazes resistem, trocando a monotonia doméstica pela conversa à porta da igreja, onde, mal abrigados da morrinha incessante, se apertam uns contra os outros, espremendo-se, empurrando-se mutuamente para a chuvinha miúda, soltando gargalhadas estrondosas, proferindo heresias, berrando besteiras e palavrões que, se não escandalizam Santa Marta, que os contempla enigmaticamente do alto do seu pedestal, incomodam a vizinhança, que jamais se habituará a estes pequenos desmandos da juventude de todos os tempos. Mais para a noite, dão uma corrida rápida até à tasca do Ameixa, a escassos cem metros, e por lá se deixam ficar até que feche, fazendo salão a troco de pouca despesa, para frustração do taberneiro que já devia ter percebido que jamais enriquecerá com clientes como estes. Pois não só não percebeu como instalou à sociedade, na semana passada, dois jogos de matraquilhos e ouve deliciado, como se fosse caixa registadora cantando de alegria, o som da introdução das moedas, o matraquear das bolas que saem de roldão para iniciar novo jogo. Desiluda-se: quando, no final do mês, na presença do proprietário, abrir as caixas dos jogos encontrará, em vez do esperado montão de moedas de dez tostões, anilhas e caricas espalmadas...
Começam a rumar para casa, primeiro os mais supersticiosos, receosos de que a meia-noite traga ordem de soltura para o sobrenatural, depois abalam os outros, ao verem-se sem companhia e porque amanhã é dia de trabalho; por fim, saem os bêbedos, quase postos na rua pelo taberneiro, que entende serem horas de ele próprio ir descansar.
Depressa a chuvinha os empapa e eles estugam o passo, uns por medo, outros para fugir à molha, e entrarão nas casas ou nos palheiros onde dormem, fechando aliviados atrás de si a porta que os isola do outro mundo e deste, agora pouco agradável. Deitar-se-ão e adormecerão imediatamente, exaustos de um longo dia de trabalho, não ouvindo já o cantar dos galos que, sem que se saiba como, marcam agora o início, mais tarde o fim, do período em que as coisas do Além podem atentar os vivos. Pouco depois, a aldeia dorme sossegada, perturbada talvez por ronco mais forte aqui, por gemidos amorosos ali, por briga feia além, entre casal desentendido, talvez porque o homem chega sempre bêbedo a casa...
É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar, tem de destruir tudo por onde passa; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já, balde na mão, enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau-olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.
Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do dono e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por carraças e solidão."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Treino individual

Sou adepto da actividade física. Dia em que me falta nem durmo bem. Encontrei no karaté, trinta e um anos atrás, a modalidade certa para mim.
À tardinha, no meu alpendre, tendo por companhia o meu cão, já habituado à doideira do dono, exercito-me, repito vez após vez as minhas katas favoritas, com o desgosto de treinar algumas delas há mais de um quarto de século e não as conseguir executar satisfatoriamente. É o caso de Tekki Shodan. Um dia, hei-de conseguir executá-la irrepreensivelmente. O filme é um exercício de auto-flagelação. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Comissões de boas vindas

Agosto de 1981. Universidade de Montpellier. Nós, bolseiros, chegáramos dos quatro cantos do mundo. Os russos, então soviéticos, não falavam com ninguém - estavam proibidos, ou receavam o controleiro, o único que interagia com a universidade. Os polacos, por um mês fora da cortina de ferro, extravasavam a alegria e logo no primeiro domingo surpreenderam o padre ao encherem-lhe a igreja. O controleiro russo tenta conversar com eles. Viram-lhe as costas com desprezo: França é terreno neutro, on en a assez, ils nous emmerdent en Pologne. E havia os chineses, inchados com a sua revolução.  Todas as manhãs batiam à porta do professor responsável: se os norte-americanos já tinham chegado. E um dia chegaram. Ei-los que finalmente podem cumprir a missão para que se haviam preparado: punho erguido, cantam para o surpreendido gigante barbudo americano, calções, tronco nu, o hino Abaixo o imperialismo yankee!
Esperariam talvez poder reatar ali, no quente Sul de França, os conflitos do Sudoeste da Ásia. Mas o americano, sem parecer compreender a declaração de guerra, tomou a provocação por simpática recepção, agradeceu, e retirou-se para dentro do quarto. Suponho que no regresso à China terão sido recebidos como heróis, eles que, mais uma vez, e nos antípodas, provaram que o imperialismo americano é um tigre de papel.
Lembrei-me deste episódio hoje, ao ver no telejornal um grupo de sete manifestantes a protestar junto à casa de férias do presidente da republica. Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares, só o ridículo é o mesmo de sempre. 
FOTO: em Montpellier, com parte do grupo português. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Grande GNR!

Que tão bons resultados fornece para as estatísticas! Não é que apanha um produtor caseiro de cannabis por dia? Espantoso. Suponho que  se trate de produção para consumo próprio, da tal que  prejudica os traficantes. Há, portanto, que a combater encarniçadamente. Fico à espera que a GNR apresente resultados semelhantes no combate ao roubo e tráfico de cobre e aos sucateiros receptadores. Aos assaltantes de caixas multibanco com  explosões de gás. À gatunagem, grande e pequena.
(Com excepção de raros medicamentos, café e bebidas alcoólicas, nunca toquei em substâncias estupefacientes).

União Ibérica

Em Espanha é que era bom -- e não falavam então dos caramelos de Badajoz, do azeite baratino, que viria a vitimar mais de mil pessoas. Nem das aspirações independentistas do País Basco ou da Catalunha. Eram os salários, era o nível de vida, eram as reformas aos cinquenta anos ou antes. As vagas em Medicina. Os horários de trabalho. As estâncias de férias. O TGV. Lá tudo bom, por cá tudo uma miséria. Um presidente da república portuguesa chegou ao extremo de pôr em causa a própria nacionalidade, ao dizer em discurso oficial algo como "... de Espanha, de onde talvez nunca nos devêssemos ter separado." 
Ridicularizavam as minhas ideias patrióticas, os versos de Pessoa com que os tentava contraditar, a eles e a elas que tão bem espelhavam o pior do nosso povo  quando a alma lhe falta, e não lhes escasseava auditório nem aprovação para os seus argumentos interesseiros, materialistas, reles, a sobreporem a cupidez à pátria, à língua, à cultura - que não tinham, que não têm.
E veio a crise. Terrível, desmoralizadora. Com a gasolina muito mais barata do lado de lá da fronteira, hoje tão fácil de passar que não fora a língua e nem saberíamos que estávamos em país estrangeiro. O fecho das maternidades alentejanas e os consequentes partos espanhóis. Os impostos, muito mais pesados por cá. As portagens nas antigas SCUT. Os cortes de salários e de subsídios. Com o agravar da crise, novos argumentos e mais poderosos deram sustento à integração ibérica: antes a gozar a próspera dominação castelhano que a sofrer a espartana austeridade imposta pela Alemanha. Antes com nuestros hermanos que sob o jugo da troika, a ouvir funcionários de quarta ou quinta linha, como os designou um banqueiro, a darem-nos lições de governação em conferências de imprensa, como se nossos governantes fossem.
Espanha receava o contágio português. Itália receava o contágio português. Obama receava o contágio português: não somos a Grécia, não somos Portugal, ouvi-o eu dizer.
Todos nos receavam porque portadores de doença contagiosa grave: caloteiros calaceiros.
Hoje, dois anos depois, somos nós que receamos o contágio espanhol, somos nós que vemos na sua crise a maior ameaça à nossa recuperação. Não se ouvem agora as vozes que defendiam a União Ibérica. Mas voltarão a fazer-se ouvir, logo que Espanha volte a estar melhor do que nós, o que inevitavelmente acontecerá - isto se, com a crise, se não desagregar. Porque, toda a gente sabe, ou deveria saber, Espanha nunca existiu como nação e casa onde não há pão... 
Nós, portugueses, a única das nações ibéricas a sacudir a hegemonia de Castela, devíamos ter memória e, futuramente, o bom senso de não defender, mesmo como mera hipótese académica, a União Ibérica, saco de gatos de onde povos e nações (bascos, catalães, galegos...) sonham sair.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crítica ao crítico

José Mário Silva, crítico literário, poeta e contista, é sobejamente conhecido, em parte graças ao blogue Bibliotecário de Babel, e a iniciarias que tem promovido com sucesso, como a Grande Oferta de Livros.
Recentemente brindou-nos com o microconto Um Bilhete para Anchorage, em que mais uma vez evidencia a sua maestria no género, de que saliento a economia da narrativa, o ritmo e o final, que não sendo surpreendente, está bem conseguido. 
Li e reli a história, como sempre faço quando elas me agradam, para as saborear melhor, para apreender a técnica, e, confesso, em busca de fragilidades. É este um defeito meu, que me acompanha desde criança e me motiva para a escrita: a convicção de que com uns retoques muitas narrativas poderiam melhorar -- isto de acordo com o meu gosto.
No conto, JMS glosa a história do homem que, desapontado com a vida, sonha desaparecer para recomeçar algures -- neste caso, no Alasca. Até aqui, tudo normal. Sou daqueles que acreditam que todas as boas histórias foram há muito escritas, pelo que nos resta inovar no modo de as contar, actualizando-as, adaptando-as talvez ao tempo em que vivemos e ao gosto da nossa época. Ora é aí, no contexto, que me parece existir algo a melhorar. Sem ter a pretensão de ensinar a escrever a José Mário Silva, atrevo-me a recordar-lhe que apreendemos a realidade através dos cinco sentidos e se alguns deles não participam nessa apreensão, a narrativa pode não conseguir atingir a ilusão do real que torna as histórias verosímeis. Por exemplo, se se aceita que o Alasca surja estereotipado, por se tratar da quimera com que o pai do protagonista sonha, já a cena do hospital ganharia em verosimilhança com pormenores olfactivos que transportassem o leitor para os cuidados intensivos, acompanhando o protagonista. 
Um bom conto, técnica narrativa apurada. Venham mais.

O professor, o cartaz, Relvas

Roupa suja lava-se em casa. Não aprecio, portanto, protestos no estrangeiro envolvendo questões domésticas, os quais em nada nos dignificam enquanto povo e nação, e menos aprecio que essa campanha seja feita por alguém que é apresentado como professor.
Não é assim que se dignifica a 'classe', por demais desprestigiada, sobretudo por nós, professores, que nem sempre sabemos estar à altura das nossas responsabilidades sociais e culturais. A nossa revolta, a que não faltam causas, não nos devia fazer esquecer da nossa função. A não ser que desejos de protagonismo mediático se sobreponham e obliterem a razão...
Nota: não tenho a menor simpatia por Miguel Relvas, nem o menor apreço pelo que fez para se 'licenciar'. O meu caminho foi sempre outro. 

O bosão de Higgs

 O bosão de Higgs fascina-me desde que ouvi falar dele, não muito tempo atrás. Pelo que julgo ter compreendido, o dito bosão (não faço ideia do que isso seja) preenche o espaço como um oceano infinito e dá massa às partículas que com ele interferem, de forma semelhante à resistência que sentimos ao caminhar na água. Se uma partícula, um fotão, por exemplo, não  interfere com ele, não tem massa. Faz sentido, até porque parece não existir explicação alternativa para a existência da massa. O que não entendo, e não vi ainda explicado em lado nenhum, é (i) o que dá massa ao bosão de Higgs (cento e tal vezes a do protão) e (ii) sendo ubíquo porque é que é tão difícil de encontrar.