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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Fodudo no cu *

Acordei estremunhado com gritaria que alvoroçava toda a Travessa do Mata-Porcos, mas antes que assomasse à janela a apurar o motivo da algazarra, entra-me quarto adentro a dona da moradia acompanhada de brava regateira que arrasta consigo pela orelha moço. Olham em volta e não encontrando meu primo, viram-se furiosas para mim, atravessam-se-me à frente, impedindo-me de deitar a mão à espada pendurada em prego na parede ao lado da cama, a regateira empurra-me contra o tabique, deita-me as manápulas à camisa de dormir: onde estava esse canalha, meu primo, que lhe sodomizara o filho?
Olho-a aparvalhado, de nada sabia. Quando tal sucedera?
Não importava, berrava. Não viera a discutir calendários, mas a exigir reparação. Ou acusava-o na justiça e, quanto mais não fosse pela má fama que tinha, não se livraria de ser dependurado como tordo na boiz. Onde estava?
A gritaria atraía mais e mais gente, primeiro mulheres das vielas e da vida, logo seguidas por rapazes vadios que jogavam à bilharda na rua, homens desocupados que por ali arrastam os dias, toda a gente revoltada contra os fidalgos pervertidos que, lá por serem ricos e poderosos, se arrogam o direito de abusar das pobres crianças indefesas, e tantos e tantas entraram porta adentro que o pequeno quarto depressa ficou completamente atravancado, eu espalmado contra a parede, sofrendo safanões, piparotes, injúrias, como se fora o acusado. Tentava protestar a minha inocência, a ignorância do sucedido, mas ninguém queria ouvir as minhas razões: — Cala-te que és igual a ele. Família, farinha do mesmo saco.
A indignação popular crescia: — Ah, isto agora mudou de figura, acabou-se o tempo do “quero, posso e mando”, doravante outro galo cantará, que já não têm quem lhes acuda por parte da aleivosa da rainha!
— Hão-de pagar, senhora comadre, por aquilo que fizeram, por aquilo que nos têm feito, por aquilo que nos fariam se os deixássemos! Este já não escapa e o outro, quando lhe deitarmos a mão…
E das escadas, sem conseguir entrar, o taberneiro judeu grita que comêramos e bebêramos do seu sem pagar. Para não ficar atrás, berra a minha senhoria que lhe devíamos o aluguer do quarto. E a criada gorducha das redondezas acusa-me de dela haver abusado – fora ela a convidar-me, seduzida, ao que então me dissera, pela minha juventude e beleza, naquele tempo em que eu, receando ser sodomita, trabalhava para esclarecer as dúvidas e fatigar o que supunha ser a causa do pecado. E, acrescentava altas vozes, com ela fizera porcarias que são contra a nossa santa religião – coisas que ela me ensinara, no seu gozo da minha virgindade, dessas a que as mulheres recorrem quando querem contentar os homens e receiam emprenhar, pelo que se não admirava que também houvesse penetrado o pobre rapazinho no cu, pois a ela o mesmo fizera, isto depois de a desvirginar — e ninguém ria! 
Encostado à parede, via-me já como o pobre Bispo, como o tabelião e o prior de Guimarães que com ele jantavam, mortos sem por quê, lançados da torre da Sé afundo, desnudados, mutilados, a apodrecer em plena rua devorados pelos cães, roídos pelas ratazanas, infestados pelas larvas das varejas, sequer sem enterro cristão. E tomado pela cobardia que, por vezes, acomete até os mais valentes, gritei: – Mas é a meu primo, o senhor fidalgo Álvaro Domingues, que esta senhora acusa. E ele não está. Eu nada tenho a ver com isto, nunca vi o moço mais gordo!
O ruído enfraqueceu. E eu continuei: — Esta mulher acusa a meu primo, não a mim. E não diz quando ocorreram os acontecimentos...
E ela: – Quando? Ora toda a gente sabe. De há meses para cá. Ainda ontem...
Interrompi-a triunfante: – Mentes, má puta velha! Há mais de uma semana que meu primo saiu de Lisboa, a juntar-se à hoste de D. Nuno Álvares Pereira, acrescentei, na esperança de que o patriotismo e a adoração por D. Nuno sossegassem a populaça.
Mas a velha era osso duro de roer: – Teu primo e tu são unha com carne. Ambos pervertidos e invertidos. Basta ver que dormem juntos, na mesma cama, dizia e apontava com gesto largo o estreito leito que partilhávamos. E virando-se para o filho, rapazote dos seus quinze, dezasseis anos, a penugem do bigode a despontar: – Este também foi? E perante o olhar duro da mãe, o moço aquiesceu com meneio de cabeça. E a velha, triunfante: – Diz alto o que te fizeram estes malandros.
— Tenho vergonha…
— Ou contas ou arrebento contigo antes de arrebentar com o fidalgote!
 — Tomaram-me à força, numa esquina do Poço do Chão, e fui por eles fodudo no cu...
 — Por qual deles?
Pois não o sabia. O olho de trás é furado, acrescentou com esgar malandrino. Talvez até por ambos… 
A fúria da multidão recrudescia. Pouco lhes importava que fosse inocente ou culpado. Afinal todos somos pecadores, assim reza a nossa santa religião, os maiores de todos são os poderosos, a mim não faltariam portanto pecados nem acusadores — se não foi teu primo foste tu, matam-se primeiro, o Senhor apurará depois a inocência ou a culpa e proferirá sentença em conformidade. E uma jurava altas vozes por tudo o que há de mais sagrado que sim, eu era sodomita, vira-me embrulhado com um rapaz, demais a mais judeu, aos beijos na boca e com lambuzadelas como os cães, em tal pouca-vergonha que nos enxotara dali para fora, e cresciam de novo para mim, arrepanhavam-me a camisa, empurraram-me para fora do quarto, lançaram-me escadas abaixo sob socos e pontapés, arrastaram-me pelos pés para o meio da rua enquanto troçavam cruelmente das minhas misérias que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não lograva esconder, cuspiam, escarravam, atiravam terra e pedradas à pobre tripazinha que culpavam de haver penetrado rapazinhos, quando a velha, receando que pusessem cobro a meus breves dias com crueldades terríveis antes de haver em mãos o provento do ardil, se interpôs entre mim e a turba: – Pagas já em dinheiro pela desonra e maldades que fizeste a meu filho, ou preferes pagar com o corpo?
E ouvi na multidão a homem que se mantém de mulheres, certamente indignado por algumas delas me haverem ofertado seus serviços: – Paga primeiro em dinheiro, depois com o corpo
 — Pagas ou não?, berrava a regateira, enquanto me sacudia violentamente pelas abas da camisa de dormir.
— Eu também quero o meu dinheiro da vitelinha e das sardinhas comidas e jamais pagadas!
— E eu, os meus alugueres atrasados! 
— E eu, esganiçava-se a criada gorducha sem que nenhum a não desmentisse, exijo reparação por me haver desonrado!
E todos em uníssono:
— Primeiro a mim, que para isso cá vim e me fodeu o rapaz no cu!
— Não, a mim, que me papou as sardinhas e a vitelinha e me mamou o bom vinho!
— A mim, que fui por ele desvirginada!
E eu, apavorado, que em situações como aquela qualquer valente se acobarda, nem ousei continuar a protestar inocência: — Pago.
Prontamente todas as mãos se estenderam. 
 — Comigo não tenho..., mostrando com gesto a nudez, que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não ocultava.
 — Vamos então buscar a contia ao quarto de Vossa Senhoria. 
Sempre debaixo de repelões, safanões, estaladas, que todos queriam molhar a sopa e fazer justiça por suas mãos além de receber as contias cujas suas diziam ser, empurravam-me para dentro de casa, depois escadas acima até ao cubículo onde dormia. Nem tentei protestar que lá também nada tinha. Antes, num daqueles relances de ousadia em que a juventude é fértil, sacudi as mãos que me empurravam, entrei lampeiro como se tivesse o colchão forrado a dinheiro, de um pulo alcancei a espada, feri aos mais próximos sem gravidade, apenas cortes que os fizeram recuar de surpresa e de dor, e antes que me acometessem enraivecidos pelo logro e pela reacção, saltei pela janela para os telhados e corri, corri desalmadamente sempre perseguido por rapazolas, entre os dianteiros o que me acusara de o haver fodudo no cu, enquanto em baixo, pelas ruas e vielas me perseguiam os homens, mais atrás corriam as mulheres ululando por vingança, sangue, castigo cruel para pederastas e sodomitas. E eu, com asas nos pés, pulava sobre casas, saltava de ruela em ruela, telhas partiam-se à minha passagem, uma vez ou outra quase cai dentro dos sótãos, até que, junto à Sé, avistando a prelado a subir indolente a rua, saltei para a rua, tomei-lhe as rédeas, apeei-o da montada sob a ameaça da espada e, enquanto o diabo esfrega um olho, piquei a mula rua abaixo, finalmente a salvo dos meus perseguidores, apenas vestido com a camisa de dormir esvoaçante que nem sempre ocultava as partes pudendas, tão magoadas pela crueldade justiceira da populaça. Por onde passava, atraía a atenção e a mofa, uns a chamarem outros: — Mestre, venha cá fora ver isto! 
E gritavam-me, com a falta de respeito a que, melhor ou pior, me ia habituando: 
— Fidalgo, foges de marido sanhudo? 
— Ná, é de puta a quem ficou a dever.
— Taberneiro. Taberneiro, que o fidalgo é ruim caloteiro.
Gheke Pepe
* Título pilhado a Fernão Lopes. Na época arcaica, verbos terminados em -er tinham o particípio passado em -udo (eg., saber, sabudo).

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As judias


Fui então os olhos e os ouvidos do Mestre na Judiaria. Não era tanto o que os judeus me diziam que interessava: também o Mestre os ouvia amiúde. Eram os pormenores que pudessem alertar para partida iminente. Mas na Judiaria a vida decorria como fora dela, na cidade cercada: privações, fome, pedidos de esmola, mancebas que me chamavam das janelas e se me ofereciam a troco de comida ou de dinheiro, sempre a medo de serem descobertas e castigadas por se deitarem com cristão — mas a fome, delas e sobretudo de seus filhos, sobrepunha-se ao medo da punição. Também em casa de D. David, tão rico ao que se dizia, a parcimónia imperava: havia o caldo aguado em que desfazíamos o pão ázimo, já de si duro, hortelã, salsa, poejos, orégãos e outras ervas a boiarem em vez das couves que há muito haviam acabado, por vezes, raramente, pequena tira de carneiro salgado ou carapau enjoado a dar o tempero. Comecei a trazer às escondidas nacos de borrego, de cabrito, mais raramente de vaca, e entregava-os à criada para que a minha amada, tão debilitada pela doença que a minha ausência lhe causara, ganhasse melhor cor e fosse perdendo a magreza que dela tomara conta; mas Esther dava-os à irmã, criança em quem receávamos descortinar sinais de tísica, na sua magreza, na palidez, na vivacidade e na lucidez surpreendentes na sua tenra idade — e nas visões. A princípio, não me quisera delas falar nem consentia que Esther o fizesse. Mas tão ligadas eram aquelas irmãs que até o amor por mim pareciam partilhar e tão faladoras que as incomodavam os silêncios que por vezes tombavam sobre a sala onde namorávamos, sempre separados pela mesa. Depressa esgotava eu as novidades, pois não me alongava na descrição dos padecimentos da cidade dada a nojo dentro e fora da judiaria, nem contava os meus feitos nas escaramuças, que não fica bem a gentil-homem gabar-se — e quase sempre pouco haveria para relatar: rápidas surtidas, choque brutal com os inimigos, fortes golpes de facha que amassavam os corpos por debaixo dos bacinetes e vestidos de malha, derrubes de lança mais aparatosos e humilhantes do que perigosos, por vezes alguns feridos em sofrimento atroz, mais raramente mortos de parte a parte. O resto eram conversas de homens, sempre vulgares, em linguagem de caserna, impróprias para donzelas cultas e delicadas como eram aquelas judias. Então, talvez por precisar de desabafar, talvez para que eu partilhasse as atribulações da sua família e da sua raça, no presente e no porvir, Esther falou dos pesadelos da irmã e vendo que os não apoucava nem ridicularizava, a própria Sara ganhou confiança e ousou contá-los, creio eu que em vã tentativa de deles se libertar: em eras por vir, os judeus padeceriam horrivelmente, vivendo a medo, a medo falando, a medo calando, as crianças roubadas aos pais e baptizadas à força cristãs por entre choros horríveis, levadas para longes terras para serem criadas por famílias cristãs, condenadas a jamais reverem pai e mãe, se acaso vivos ainda fossem; homens eram desmembrados por padres para que confessassem pecados e crimes que não haviam cometido e, ou morriam das sevícias, ou, confessando, seriam queimados juntamente com as mulheres e os filhos enquanto os cristãos os insultavam e escarneciam dos seus padecimentos…
— Vês tudo isso nos teus sonhos?
Negou, abanando a cabeça. Era muito pior. Não via, vivia. Nos seus pesadelos, ela era o homem torturado, a criança roubada à mãe e para mui longe levada, era o seu corpo que ardia nas fogueiras sob insultos e escarros dos cristãos…
— Tudo isso são sonhos. Deves esquecê-los quando acordas, fazem-te mal porque sofres com eles como se verdadeiros foram.
— E são, fidalgo. Deveis ter já reparado que nos sonhos não sentimos os odores, não vemos as cores, pelo menos como quando em vigília. Ah, se soubésseis como são aflitivos os gritos das crianças que ardem, como é horrível o cheiro da carne humana queimada, como fedem as masmorras em que sou encarcerada! Mas, sabei, virão outras eras muito piores, em que nós, judeus, somos arrebanhados como gado, metidos à força em estreitas carruagens mais compridas do que a nossa Lisboa, homens, velhos, mulheres, crianças, tantos de cada vez que não dá para contar, para sermos mortos aos milhares em salas de ar envenenado, os cabelos rapados para urdirem com eles meias, a pouca gordura dos nossos corpos famintos aproveitada como se da de animais se tratasse. 
— Impossível, retruquei. Em tempo algum tal acontecerá, pelo menos na nossa Europa, tão civilizada, toda ela cristã. Torturar, matar, acredito. Agora calçar peúgas feitas de cabelo de mortos ou usar a sua gordura, jamais tal sucederá no mundo cristão.
— Nem todos são cristãos. Mas naquela era, até os que o são, mais do que a Deus adoram a um homenzinho ridículo, cara rapada e bigodinho tão insignificante como ele. Quem o vê, não imagina a sua ruindade: é pior do que o próprio Satanás. Já lestes o Apocalipse?
— Não. Não sei muito Latim. Mas já ouvi dizer que o apóstolo João viu o fim do Mundo.
— Assim é. Então dizei-me: se ele o viu, não o posso também eu ver? 
Protestei contra a blasfémia: os profetas acabaram com a vinda de Cristo ao Mundo. Acabaram os profetas, começaram os santos. Porque deixou de ser necessário preparar a vinda do Messias — e, adivinhando o sorriso escarninho de Sara, lembrei-me de que para os judeus Jesus é, apenas, outro profeta, mas não ainda o Salvador que os reconduzirá ao prometido reino do leite e do mel. Pois continuam a penar e a padecer, dispersos por este mundo que tanto os persegue e atormenta por os seus antepassados matarem o Filho do Homem…
Atalhou-me Esther: — Não discutamos as nossas religiões, que há catorze séculos se não entendem, como mãe e filha desavindas. E — olhou reprovadora para a irmã — deixemo-nos de conversas fúnebres, de pesadelos aterradores. Que pensará de nós o meu namorado? Sorriu-me: — Pois nem parece que estamos a namorar.
— Bem guardados por mim. E digo-vos, mesmo sabendo que sou causadora de vossa tristeza, este vosso namoro é um dos meus raros prazeres. Ao ver-vos tão apaixonados, ao ver como me fingis ouvir enquanto os vossos olhos se procuram e encontram, esqueço por momentos o meu pesar e o meu triste destino.

Eu tentava tranquilizar a pobre pequena: tudo isso eram pesadelos, o futuro a Deus pertence e só Ele o conhece, o Homem jamais será tão ruim que faça tais atrocidades a crianças, a mulheres, a velhos indefesos. É certo que na guerra fazemos coisas horríveis, mas contra inimigos tão valentes como nós, que igual ou pior nos fariam se pudessem; mas nela ou na paz é dever do cavaleiro proteger as damas e as donzelas, sejam elas cristãs ou judias. E para as distrair narrei a triste história do moço que tempos atrás perdera a mão direita. Meio verdadeira, meio inventada, bem alongada como pertence.
Gheke Pepe (inédito)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ebook: Entre Cós e Alpedriz

O meu romance Entre Cós e Alpedriz, que publiquei em edição de autor em 2008 esgotando cinco pequenas tiragens, foi reeditado em formato ebook pela Escrytos (Leya), encontrando-se à venda em todas as lojas online parceiras da Escrytos (Almedina, Amazon, App Leya na App Store, Barnes & Noble, Bookwire, Fnac.pt, Gato Sabido, Google, IBA, iBook Store, Kobo, LeyaOnline, Livraria Cultura, Mundo Positivo, Mybooks, Numilog, Reader's Hub da Samsung, Submarino, Wook).

Trata-se de uma narrativa rural, situada numa aldeia -- a minha -- mas não se restringe ao folclore, ao pitoresco, ao passado: anima-a o drama da condição humana, que ora brilha nos olhos da criança que deslumbrada  vê pela primeira vez o mar, ora empalidece e definha no rosto do homem acamado por trombose.
Governa-a o vento da memória, que reúne vidas e histórias dispersas na eira do Tempo, acompanhando a protagonista, Joaquina Guiomar, pelas vicissitudes do Portugal do século XX desde a "manhã longínqua daquele Outubro chuvoso em que o campino abusou dela" até aos nossos dias.

Sobre Entre Cós e Alpedriz, Rentes de Carvalho teve a amabilidade de me enviar a seguinte mensagem:
Caro colega,
Em quatro noites seguidas fiz a leitura de “Entre Cós e Alpedriz”. Sinceramente lhe posso dizer que o primeiro parágrafo me entusiasmou de tal modo que com grande interesse continuei a ler. A sobriedade da cena de violação e, sobretudo, o sugerir em vez de mostrar ou detalhar, são prova de quem sabe o que encerra o mister escrita.
Essas excelentes qualidades notam-se em várias cenas, e notavelmente no final, quando Joaquina revê o seu passado.
 Assim, pois, lhe dou aqui merecidos parabéns. “Entre Cós e Alpedriz”  não é um livro perfeito -- não há livros perfeitos -- é, sim, um carinhoso, solidário e muito sentido testemunho.
Foi para mim um prazer lê-lo, e grato lhe fico por se ter lembrado de mo oferecer.
Cordialmente,
JRC
Os interessados podem descarregar amostra gratuita numa das lojas online acima referidas.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Povo emigrante

A couchette do Sud Express desperta alvoroçada com o alegre chilrear das passageiras, pressentindo-se na nossa terra.
-- Minha senhora, deixe-me dormir! -- rabujo sonolento.
E elas: -- Ó senhor, a gente levantamos-se cedo!
A noite dorme ainda nos vales da serra, pelas janelas embaciadas vislumbram-se pinheiros fugidios, correm velozes penedias fantasmagóricas, tudo vago, indistinto, difuso da morrinha que tomba incessantemente. No corredor, o revisor tenta convencer passageiro grudado na porta do comboio a voltar para o aconchego da couchette: -- Saia desse frio, ainda falta muito para chegarmos!
E ele, com maravilhosa pronúncia de beirão, floreada de esses ápico-alveolares: -- Num xaio daqui, que quero xer o primeiro a buer um bagaxinho na estaxão da Guarda!
Gente de trabalho, trazida pelo "amor da pátria, não movido / De prémio vil, mas alto e quási eterno". Jovem taxista na banlieue, que acumulou avaramente horas extra para acrescentar dois dias ao fim-de-semana. Proprietário de duas petites surfaces, coisa de mil metros carrés cada, a dimensão ideal, afirma, para o petit commerce. Mulheres que fazem ménage. Se viessem de avião, mais rápido, mais barato, perderiam um dia nas viagens aeroporto-casa e volta, o tempo é precioso, todo ele escasso para tanta saudade.
Ei-los que saem resplandecentes de felicidade por pisarem solo pátrio, sorrisos abertos, olhos molhados não sei se da pegajosa chuvinha molha-tolos, se por avistarem já por entre a cerração velhote ou criança que os espera tiritando no cais...
Povo que lavava no rio e hoje lava escadas em Paris. Ridicularizado no falar, no vestir, nos costumes. Rude, tosco, mesquinho, por vezes brutal. Mas pleno de vitalidade, dotado de capacidade de sobrevivência invejável -- e animado por amor à pátria sem par, incompreensível para muitos.
Povo de Cesário Verde: "Povo! No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes, agonizas; / Listrões de vinho lançam-lhe divisas, / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz! "
Povo de Pedro Homem de Mello e de Amália: "Povo, eu te pertenço".
(FOTO: ainda em França, no TGV)

sábado, 5 de janeiro de 2013

A arte da poda

-- O primeiro podador foi um burro. Corolário:  qualquer burro sabe podar.
Os entendidos, porque também no que à poda concerne não faltam especialistas, sorriem superiores. Há uma poda para isto, outra para aquilo. Uma para ter grau, outra para conseguir grande produção. Uma para a Trincadeira, outra para o Fernão Pires. Outra...
Nem me canso a responder. Afinal, eu podo, eles não. Em vez de argumentos, conto a história, que ouvi ao Tio António Matos, saudoso vizinho já falecido:
"Um homem tinha uma videira e um burro. A videira não dava nada e um dia o burro soltou-se e roeu-a. Naquele ano, a cepa desfez-se em uvas e o homem passou a fazer como o burro, com uma tesoura em vez dos dentes."
Por isso, digo eu, se precisam de podar vinhas, aprendam com os burros. Esqueçam as teorias e cortem.
FOTO: hoje, a podar a minha vinha.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O velho das couves


Era um velho que amanhava pequena horta espremida entre prédios de andares lá para o lado dos Olivais. Ali passava os dias cavando, plantando, sachando, mondando, regando. A catar lagartas, a caçar lesmas, a espantar pardais. Coisa de matar o tempo, ocupar a reforma, exercitar o corpo, espairecer a cabeça, adubar o caldo. Coisa de ter algo de que se orgulhar, ramalhudas couves de Valhascos, repolhos inchados como abóboras, abóboras tão grandes que poderiam ser do Entroncamento, cenouras farfalhudas, grossas como nabos, nabos brancos de neve, alfaces repolhudas de verde viçoso, tudo tão apetitoso que aos domingos não faltavam passeantes curiosos a deixar comentários elogiosos. 
Numa manhã estival, apenas o Sol nascido, chega pressuroso a regar a novidade pela fresquidão matinal antes que o calor aperte e a estrague, e encontra a horta devastada. Parte roubada, parte vandalizada. Como se ali se travara batalha nocturna. Cenouras arrancadas e caídas por terra como cadáveres, alfaces pisoteadas como se a tropa lhes passara por cima, melões esventrados como prisioneiros massacrados, o sumo vermelho de uma melancia derramado como sangue... E o velho sentou-se desanimado no banco onde ao entardecer costumava, qual deus bíblico, gozar o fresco da brisa da tarde enquanto admirava a sua criação -- e chorou. 
Dor e raiva. Mais do que o prejuízo do roubo, magoavam-no os estragos sem outra finalidade que o fazer mal por mal fazer.
-- Malandragem! 
E passava o olhar magoado pela terra juncada de hortaliças em meio crescimento.
-- Ainda se roubassem para comer! Ah, se eu os apanho..., resmungava, sabendo que o melhor seria nunca os apanhar -- deixá-lo-iam em pior estado do que a horta.

Voltou a semear, voltou a plantar. E quando a verdura já sorria a prometer encher-lhe em breve a panela, noutra noite arrasaram tudo.
Desconsolado, nem os amaldiçoou. Abalou pesaroso, macambúzio, a pensar no que fazer da sua vida, assim privada de sentido. 
Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram-no enforcado em balaústre das escadas do prédio. 

Breve balanço de 2012


Folheando o meu razão, 2012 emerge como ano bastardo. 
A perda da minha mãe, cortes salariais e de subsídios, fracas colheitas por causa da seca que se prolongou de final do ano até 1 de Abril, sementeiras perdidas... E sempre, sempre, o negativismo nacional a assombrar os dias, nos noticiários, nos jornais, nos blogues, no Facebook, onde qualquer cidadão ou cida-dona é o feliz detentor da  VERDADE e  na sua arrogância se compraz a achincalhar, a ofender quem se atreve a pensar diferente, enlameando mesmo quem dedica a vida a fazer bem aos outros, como no caso Isabel Jonet, que carinhosamente apelidavam Ovelha Xoné...
Porém, presenteou-me com o João, o meu quarto neto neste país envelhecido onde as crianças escasseiam. Não me faltou com saúde, nem com comida na mesa, deu-me alegrias diárias, singelas, como abraço do Miguel e "um avô, tinha saudades tuas", elogios entusiásticos do Afonso aos meus dons culinários enquanto devora simples hambúrguer grelhado na lareira, o beicinho do Tiago, a caminho dos três anos, se lhe não cedo imediatamente o iPad em que escrevo...
Não me faltou com outras alegrias: recebi mais um (pequeno) prémio literário, terminei outro romance, de que aqui darei conta em breve.
Em Setembro, chegou a minha aposentação e recebia-a sem entusiasmo, antes como inevitabilidade: prefiro sair pelo meu pé do que corrido, e da forma como as coisas se estão a pôr... Não vi a reforma como libertação. Fui professor 36 anos, de 1976 a 2012, por vocação, por prazer, embora de há uns anos para cá não faltasse quem, de cima abaixo e de abaixo acima, porfiasse em transformar qualquer possível prazer em tormento, entendendo, talvez, que trabalho tem de ser penoso... Às línguas invejosas, "reformado tão novo", respondo que comecei a trabalhar em 1973 (primeiro como servente de pedreiro, depois como operário de plásticos) e me reformei com 39 anos de descontos, sem nunca ter recebido subsídio de desemprego. Podia trabalhar mais anos? Sem dúvida, mas não nas actuais condições do ensino, inferno que muitos não aguentam durante uma única semana. Deixo o lugar aos mais novos, que bem precisam, com o desemprego que por aí grassa. É assim que pertence: os jovens a trabalhar, os velhos a viverem o melhor que puderem os anos que lhes restam.
2012 já lá vai. Ao verter o razão em balanço, concluo que o bem que houve, e muito foi, deixa saldo positivo a transitar para o exercício de 2013. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Ebook: Do lacrau e da sua picada

O meu primeiro romance, Do lacrau e da sua picada, foi publicado em formato ebook pela Leya Escrytos, e já está disponível nas principais lojas (Apple, Amazon,...).
Não gosto de elaborar resumos e sinopses: se precisei de duzentas páginas em que não há, nem poderia haver, uma palavra a mais ou a menos, ou não o teria considerado terminado, como posso reduzir o livro a algumas linhas?
Assim, sugiro a quem tiver paciência e apetência a leitura da amostra gratuita, certamente mais esclarecedora do que a sinopse que acompanha o ebook.
Em breve, terá a companhia dos irmãos mais novos -- Entre Cós e Alpedriz, Um Amor Inventado, GueHek Pepe.
As críticas e sugestões são sempre bem-vindas e muito apreciadas.
(IMAGEM: do pintor João Alfaro, autor da capa da versão em papel)

Da inutilidade dos votos de bom ano


Feliz Ano Novo -- para quem procura ser feliz, os meus desejos são escusados e quiçá incomodativos por obrigarem a dar atenção a telemóvel ou computador, desviando-a do que conta: as pessoas; para quem finge deleitar-se com a infelicidade, podem até ser ofensivos. 
Que cada qual viva 2013 o melhor que puder, se tal for de seu agrado; que embeleze a desgraça, aureolando-a de sombras românticas, se é assim que quer viver.  

domingo, 23 de dezembro de 2012

Um Natal Feliz

Fragmento extraído de Do lacrau e da sua picada

As lágrimas voltarão, inevitavelmente, quando daqui a pouco a avó vir a família reunida. Retirar-se-á então da sala para não entristecer os outros, que também sofrem com a ausência da Nela.
Começam a servir as couves e o bacalhau em silêncio, as crianças salvam a situação, apesar da dor que sentem e sentirão até ao fim dos seus dias, não conseguem estar muito tempo sisudas e a sua alegria contagia os outros, primeiro o Luís, que elas macaqueiam neste momento, depois os adultos. A avó regressa, abraçam-na, acariciam-na, limpam-lhe as lágrimas, é a altura de serem felizes novamente, talvez a vida seja mesmo uma merda, que mal haverá em a aproveitar, saboreando os pequenos momentos como este, que até parecem dar-lhe sentido?
É o que todos tentam agora fazer. Dos muitos manjares apetitosos que há na nossa cozinha, poucos nos sabem tão bem como as couves com bacalhau e família reunida. À vez ou tudo ao monte, conversa-se, galhofa-se, neste momento somos todos iguais, todos igualmente importantes, os adultos calam-se para ouvir uma das pequenas contar um episódio qualquer da sua escola — já anda na quarta classe, como o tempo passa! esqueçamos também o tempo que passa, é o momento de saborear couves e vida.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Portimão (3)


O Portimão endireitara-se. Era o que dizia o comandante do destacamento, cheio de fé na bondade humana. Eu desconfiava. 
-- Aquilo foi o vinho, como ele disse. O raspanete que lhe demos serviu-lhe de emenda. Não volta a fazer asneiras. Veja como anda sossegado, envergonhado até. 
Eu calava as discordâncias. Tinha apenas 21 anos, mas farejava a dissimulação. Via o Portimão como cobra que rasteja humilde, a evitar dar nas vistas, para melhor atacar à traição. 
-- Olhe, dizia-me o major levando-me a passear de braço dado pela parada sob olhares escarninhos dos prontos, -- Pediu-me uma pistola...
Atónito, interrompi o passeio, olhei-o nos olhos: -- Meu major, ele é o armeiro, tem o quarto atravancado com G3! Até em cima de um dos beliches!
E o comandante, pacientemente: -- Eu sei. Mas diz ele que se lhe aparecer alguém de noite ao postigo precisa de uma arma pequenina. Como você está de serviço este fim-de-semana e não temos mais Walters, damos-lhe a sua. 
De sargento de dia, desarmado! Que figura a minha!
O major insistiu. E eu entreguei-lhe a pistola, com balas no carregador, conseguidas com grande dificuldade.
Os recrutas, em plenário dinamizado pelos SUV (Soldados Unidos Vencerão!), tinham aprovado medidas revolucionárias: não rastejar na prova de técnica de combate porque o chão estava lamacento, e não fazer serviços, pelo que na sexta-feira à tarde o quartel esvaziou. 
Desabafei com o alferes que ficou de serviço: -- Já viste a minha figura de palhaço, sargento de dia desarmado? E logo para dar a minha arma ao Portimão, que já tem duzentas...
Tranquilizou-me. Com o quartel deserto, não haveria novidades. -- Olha, a minha mulher e o meu cunhado vêm ter comigo e dormem cá, não faltam quartos livres. Porque é que não vais para casa?
Sair do quartel, dormir em casa, com a minha mulher? Irrecusável. Portanto, desenfiei-me.
Regressei no domingo, antes do restante pessoal. E o pobre alferes contou-me a toirada da noite anterior: o Portimão embebedara-se outra vez e não tendo ninguém com quem brigar na nossa unidade, foi armar desacatos para o bar dos sargentos de um quartel vizinho. Chamado o nosso oficial de dia a repor a ordem, ameaçou matá-lo com a minha pistola... A custo conseguiu levá-lo de volta, teve outras vezes a arma apontada à cara, bala na câmara, sem se poder afastar até que a bebedeira passasse, temeroso pela mulher e cunhado, escondidos na ala dos oficiais...
Não era possível abafar o ocorrido. O Portimão foi recambiado para o nosso quartel de origem, Torres Novas, onde, como contei, acabou caído na parada, atingido por estilhaços, um testículo a menos...  

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Portimão (2)


Fui destacado, com uma dúzia de camaradas, quase todos na foto, para dar uma recruta em Santa Margarida, campo militar em lugar ermo, com longa avenida entre numerosos quartéis, cada qual com a sua autonomia. Logo numa das primeiras noites, estava eu de sargento de dia, e chamam-me à caserna dos recrutas. O Portimão, bêbedo, ameaçava os  moços, a extorquir-lhes dinheiro, bebidas, enchidos, chocolates.  Cheguei-me às boas, a tentar levá-lo dali para fora. Recusou sair: queria o bagaço, que, dizia, os recrutas tinham escondido nos armários. 
-- Venha então daí, e peguei-lhe amigavelmente no braço, vamos ao bar, que lhe pago um copo.
Intempestivamente, libertou-se com um safanão, apontou-me a G3 à cara, a dois passos de distância, meteu bala na câmara, grunhiu: -- Sei usar esta merda!
Nem me apercebi do perigo que corria. Inútil a Walter de serviço, sem balas. Pistola e braçadeira eram meros adereços, distintivos da função. 
Avancei para ele, desviei o cano a arma, -- Oiça lá, meu sacana. É assim que me agradece por o safar das porradas quando está desenfiado do serviço, como aconteceu ainda no mês passado, você a dormir e o posto de sentinela vazio?
-- Isso não é agora para aqui chamado, contrapôs, aparentemente desorientado. 
-- Aí não é? Eu faço-lhe bem e você aponta-me essa merda? É assim que me agradece?
Por entre palavrões e ameaças afastou-se e refugiou-se no quarto. 
Queixa apresentada, o comandante do destacamento, major que havia feito a descolonização de São Tomé e Príncipe, chamou-o ao seu gabinete na minha presença. E o Portimão, que tinha cursado com distinção a escola de malandragem, desfez-se em falinhas mansas, tom humilde, confessou-se arrependido, fora o vinho, blá, blá...
Continuou connosco até ao fim-de-semana, quando armou zaragata tal que o bonzinho do major teve de o devolver ao nosso quartel de origem, Torres Novas.  E eu só me não vi envolvido porque estava desenfiado... Matéria para o próximo post, o último da série.
FOTO: em Santa Margarida, 1975. Sou (fui) o primeiro à direita, agachado.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Portimão (1)


Em 1975, durante toda uma noite, um soldado pronto, o Portimão, infernizou o quartel de Torres Novas, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. E nós, resguardados nas esquinas, perguntávamos Porquê?, como se mau vinho e muita ruindade não fossem resposta suficiente. Gritava ele, enquanto recarregava a G3: havia de matar o comandante, o segundo comandante, o sargento da companhia...
Por volta da meia noite saiu do quartel, paredes meias com a vila. Desarmou pobre polícia, que em pânico se atirou às águas imundas e gélidas do Almonda e a nado fugiu para a outra margem. Então, não encontrando a quem perseguir na vila deserta, reentrou no quartel sem que o frio da noite lhe tivesse arrefecido a fúria assassina.
Da capital chegaram ordens para o abater. Perplexos, cruzámos olhares: ninguém com coragem para disparar sobre camarada de armas. Mas agora, com balas reais nos carregadores, já não era só fugir, respondia-se ao fogo, evitando atirar à figura. E o Portimão caiu atingido por estilhaços de rajada, vários ferimentos ligeiros, um testículo a menos, Presídio Militar como destino. Para meu grande alívio, por razões que contarei no próximo post. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

O fim do mundo está próximo

Com base em laboriosa investigação dos textos sagrados do Apocalipse, minucioso estudo das tabuinhas sumérias e tijolos babilónios (ou terá sido ao contrário?), das garatujas egípcias e dos textos  dos Maias, traduzidos por Eça de Queirós, e tendo procedido a aprofundados cálculos matemáticos, rigorosos como os do ministro das finanças, pude determinar que se aproxima o fim do Mundo. Alguns sinais recentes, como a cratera de impacto da foto, surgida do dia para a noite no meu quintal, as projecções do BCE e do Banco de Portugal, a aproximação de pragas de gafanhotos, e as notícias da RTP não deixam margem para dúvidas. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Teodoro e o menino palrador

Falava torrencialmente.
-- Queres cinco tostões para te calares um minuto?
Um minuto de silêncio, a eternidade. Impossível.
Disparatava, devaneava, interrogava: -- Quem é? -- E se... -- E agora...
-- Davas uma rica taramela para espantar a passarada na eira!
E eu, sempre reco teco, teco reco...
-- Oh, rapaz, cala-te um bocadinho, por amor de Deus!
Nem suborno, nem promessas, nem súplicas, nem ameaças: -- E se aquela casa caísse agora e de lá saísse um leão...
Foi em Chaqueda, tinha cinco ou seis anos. Morávamos à entrada, do lado de Alcobaça,  uma dúzia de casas afastadas da aldeia. Por entre as ruínas de edifício começado para ser a Fábrica do Pão, mas nunca terminado, negras paredes não rebocadas, o homem cavava. Enorme, ganga azul, botas de borracha. Teodoro, nunca me esqueci do nome. Operário na fábrica de vidros.
E eu, sempre na minha infindável palração, reco teco,  teco reco...
-- Se não te calas, abro uma cova funda, enterro-te lá, que nunca mais te encontram.
Gelei. Fugi apavorado. E só hoje, mais de meio século passado, me atrevo a contar a história.  

domingo, 9 de dezembro de 2012

Diferenças de Rentes de Carvalho

Rentes de Carvalho regressou, após mini sabática que deixou mais pobre a blogosfera. Um único post como o de hoje dá por bem empregues as visitas diárias na sua ausência, na esperança de que, arrependido, tivesse voltado mais cedo. É a voz do mestre, que tanta faz nestes tempos de lugares comuns, verbosidade lamechas, textos mal escritos a imitar a moda das calças rotas e cuecas à vista.
Da extrospecção para a introspecção, nem uma palavra a mais, nem uma a menos no post Diferenças. Com queda, cadência e caso, como recomenda Vieira: "A queda é para as coisas, porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar hão-de ter queda; a cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes, hão-de ter cadência; o caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo..."

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Morgadinha dos Canaviais revisitada


Voltei à Morgadinha dos Canaviais, quarenta e tantos anos depois do fascínio da primeira leitura. Moveu-me, não a nostalgia das idealizações campestres, mas o estudo do viver nos finais da primeira metade do séc. XIX, trabalho de pesquisa para romance que estou a escrever, resultado da minha obcecação pelo mito da Maria da Fonte, de que já aqui dei conta.
A Morgadinha dos Canaviais ainda tem muito para oferecer aos leitores de hoje, mau grado o seu início fastidioso, pedante até. A pedir, portanto, leitura em diagonal, mormente quando surge a Tia Doroteia e a sua criada, ou dona Vitória e os seus conflitos com a criadagem. Notáveis os conflitos interiores de algumas das personagens, a lembrar Dostoievski, outro mestre no género. Primorosa a denúncia do caciquismo, da corrupção política e das fraudes eleitorais, a dissecação das artimanhas com que os demagogos manipulavam então o povo — como hoje, mutatis mutandis.
Nas personagens, apreciei sobretudo o político nacional, encarnado no Conselheiro, e os caciques locais — Joãozinho das Perdizes, o Brasileiro Seabra, o Pertunhas, o Torcato, o missionário. Comoveu-me o Cancela, o homem que se levanta contra a tirania da religião, e sofre a morte da filha adolescente. Bem concebido o Zé Pereira, tocador de zabumba, que afoga no vinho os desgostos que lhe dá a mulher, beata. E pressenti em Henrique de Souselas grandes parecenças com o Gonçalo da Ilustre Casa de Ramires, até com o protagonista de A Cidade e as Serras.
Recomendo para estes longos serões de Novembro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Outono de seu riso magoado


Crescem as noites, arrefecem os dias, alongam-se as sombras, até há pouco exíguas, verticais, duras – eis que difusas se confundem com natureza, casas, objectos, pessoas, e a lucidez que sempre nos faltou não alcança destrinçar nessa penumbra a realidade fugidia.
Não é só o Portugal tristonho a definhar, não; é todo um mundo de aparências, de quimeras, créditos, promessas plásticas de juventude eterna, vidas de sonho decalcadas de revistas de cabeleireira… Sabemos hoje (sabê-lo-emos?), que a riqueza era virtual como o dinheiro, como o crédito bancário,  e vemos as prometidas vidas de sonho esvanecerem-se para todo o sempre como sombras que jamais conseguiremos alcançar, ora fugindo à nossa frente se as perseguimos, ora a  seguirem-nos trocistas se lhes viramos as costas. Para nosso desgosto e revolta, espera-nos,  sarcástica, a frugalidade austera dos nossos pais e avós…
NOTAS
(1) post de Outubro de 2010; infelizmente bem actual.
(2) Título: verso de um poema de Camilo Pessanha.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Serões na Província


Assobiava o vento nas empenas, à procura de friesta por onde entrar, a querer aquecer-se também ele ao borralho, zangado empurrava chaminé abaixo a fumaça das vides, canas,  rama de pinheiro, dançavam hipnotizadoras as chamas,
-- Põe- me um casaco nessas costas!
 E nós, a atirar caruma a arder para a fogueira: -- Foguetes!
-- Quem brinca com o lume mija na cama!
-- Qual é a coisa, qual é ela...
Trás! Rato enforcou-se na ratoeira. Outros virão, há ainda dois buracos disponíveis, dentro aromático toucinho frito, isca irresistível,
-- Verde foi o meu nascimento, de luto me vesti...
-- Sou eu, responde a avó,
-- Não é nada, é a azeitona, refuta a minha irmã, com a certeza das crianças.

A avó, despertada da sonolência, pega na cafeteira enfarruscada, prepara caneca de água com açúcar, conta as histórias de sempre, 
-- Joãozinho, disse a madrasta, que era bruxa, vê se o forno está bem quente,
(E queria que ele metesse a cabeça no forno para o empurrar e queimar vivo),
-- Parece-me que não, venha vossemecê ver...
A bruxa foi, o Joãozinho, quando a apanhou com a cabeça na porta do forno, zás, empurrou-a com toda a força, ajudado pela irmã, trancaram a porta do forno e a bruxa foi queimada viva. -- Bem feito, não foi? A malvada queria matar os enteados, pobres criancinhas!
-- E os animais foram viver para dentro de casa. Logo nessa noite entrou ladrão. O cão ladrou ão ão e mordeu-lhe numa perna, o gato soprou ffffff e arranhou-lhe as mãos, o burro zurrou i-nó-i-nó e pregou-lhe uma parelha de couces nas ventas, o galo cacarejou córócócó e bicou-o na cara, o ladrão fugiu mordido, arranhado, picado, escouceado. Bem feito para ele, não foi? Que não tinha nada que ir roubar.
(A justiça era então expedita e justa),
-- Rebola cabacinha, rebola cabação,
Não vi velhinha nem velhão,..
-- Aquece-te bem e corre para a cama!
As camisas de milho que enchiam o colchão afundavam-se em cova aconchegadora, eu tiritava sob cobertor de papa e mantas de trapos, pela madrugada, em sonhos, aflito para urinar, via cântaro esquecido junto à fonte, ah com que alivio, com que prazer pela malvadeza, lhe mijava para dentro!
E acordava com palmadas maternas, não pela partida pregada à velha, apenas por ter outra vez mijado na cama... 
(Eu era feliz, e ninguém estava morto
Álvaro de Campos, Aniversário)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Natais e carnavais


Primeiro transformaram o Natal em evento comercial, agora noutro carnaval, com as grandes e pequenas cidades ao despique para conseguirem atenção mediática, seja com palhaçadas, seja com impressionantes pirâmides ornamentadas com toneladas de mau gosto e míriades de luzes pirosas a apelarem ao deslumbramento saloio, sem apego àquilo que individualiza um povo, que distingue uma nação. Os brasileiros fazem a maior "árvore de Natal" do Mundo, os belgas a mais ridícula, os ingleses aproveitam para se despir e, de cuecas e barrete de Pai Natal, outra ridicularia dos tempos modernos, espojam-se espalhafatosamente para gáudio próprio e alheio... E cidades portuguesas, ressalvado o bom gosto e espírito natalício daquelas que, como Bragança, preferiram distribuir prendas pelas crianças do concelho,  competem entre si com idênticas pirâmides metálicas e, sempre, milhares de luzes, a dissipar, não as trevas da ignorância que promovem, mas o erário público...
Admira-me que os cidadãos que gritam histéricos nas inaugurações, antes não vomitem enojados. Afinal, Natal, Passagem de Ano, Carnaval, dia de São Valentim, das Bruxas, lançamento do novo IPhone ou Windows -- que singulariza cada um destes eventos? Idênticas multidões possuídas de igual histeria, animadas com a mesma ilusão de felicidade comercial, por todo o lado o Admirável Mundo Novo a explodir em iguais fogos de artifício.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quebra cabeças


Pequeno e franzino, introvertido e pacato, cresci predestinado a ser vítima daquilo a que hoje se chama bullying. Valeu-me o mau génio com que a natureza me dotou. Que me leva a agir sem pensar, sem medir as consequências. Começou a manifestar-se bem cedo. Recordo-me de, aos seis anos, ter ido viver para aldeia estranha, e mandado à loja comprar azeite pela minha mãe, vi o caminho barrado por magote de rapazes indígenas que jogavam à bola: -- Não passas, não passas! 
Talvez eles brincassem, mas senti-me ameaçado.  Quando um deles, o dobro do meu tamanho, me tirou o lindo boné de palha, pala de plástico azul, o pôs na cabeça enquanto dançaricava em redor de mim, -- É meu, é meu, não to dou!, a garrafa que levava para trazer o azeite subiu até lá acima, atingiu-o na cabeça, ele caiu ensanguentado, retirei-lhe o boné e passei por entre a malta atónita sem que nenhum deles ousasse fazer-me frente. 
No regresso, encontrei-os junto à porta de minha casa, onde a minha mãe curava com tintura a cabeça partida, eles ameaçavam-me, gritavam-me impropérios, distorciam o sucedido, como voltaram a fazer depois, na escola, acusando-me de agressão brutal em resposta a alegre brincadeira, e vi-me ostracizado pela professora, de quem fora até então o menino bonito. E continuei introvertido e pacato, fechado em mim, por companhia as leituras -- a quebrar cabeças quando me punham fora de mim.

sábado, 24 de novembro de 2012

25 de Novembro


Vivi o PREC (Processo Revolucionário em Curso) e o Verão Quente de 1975 com muito medo e uma arma na mão. Sempre que o meu quartel entrava de prevenção rigorosa, o que sucedia todas as semanas, deitava-me vestido e calçado, cinturão com cartucheiras carregadas, G3 com bala na câmara. Era muito influenciável e levava a sério as prelecções do comandante, que nos frequentes plenários revolucionários de lavagem ao cérebro antecipava ataques da reacção; apavoravam-me as medidas logo tomadas, como metralhadora antiaérea na parada para resistir aos aviões Fiat que no 11 de Março haviam bombardeado o Ralis, quartel revolucionário -- e a gritaria constante do povo que se manifestava fora dos muros do quartel soava-me como música fúnebre em filme de terror.
Boataria constante e contraditória. A televisão substituía a programação normal e a informação pelo malfadado hino do MFA ou passava ininterruptamente a estúpida da cantilena em que a gaivota voava, voava. Ambiente opressivo, sem notícias de casa e da família. Soldados enervados passavam-se e disparavam contra camaradas. Outros, apenas para saírem do quartel, voluntariavam-se para barricadas na RTP, desejosos de atirar sobre os reaças -- enquanto o comandante jurava morrer de botas calçadas quando “aí vier a reacção”. 
No 25 de Novembro foi a mim, segundo furriel miliciano com 21 anos mal feitos, que enviaram a erguer e comandar barricadas nas estradas da Atalaia e de Torres Novas, sem outras ordens, sem saber o que ia fazer, como proceder, apenas para o comando fingir que fazia alguma coisa, sem se comprometer embora.
Poucos dias depois, fui saneado, bem como todos os oficiais e sargentos milicianos da minha unidade – para minha grande alegria. 
E o valente comandante da EPAM (Escola Prática de Administração Militar), que jurava morrer de botas calçadas? Pois rendeu-se logo que os comandos de Jaime Neves, de passagem pelo Lumiar, dispararam bazucada contra a porta de armas... 
FOTO: pouco antes do 25 de Novembro. Sou o primeiro ajoelhado à direita.

Uma casa portuguesa

(O fim-de-semana está chuvoso, a pedir borralho e leitura. Por isso, aqui vai conto, Uma casa portuguesa, 4 pp.)


Do lado de lá, na televisão, esganiçam-se apresentadores e convidados, a transbordar energia, esfuziantes de alegria; do lado de cá, no sofá, a família finge prestar-lhes atenção, constantemente interrompida pela gritaria das crianças que, por entre os adultos, por cima deles, brincam e brigam, correm, saltam, caem, choram. Inútil mandá-las sossegar, elas não pararão, indiferentes à preocupação dos graúdos, inconscientes das desgraças do mundo.
Entra homem jovem, encasacado e engravatado mau grado o calor, saltam-lhe para os braços as crianças, — Papá, papá!, e empurram-se para lhe contar novidades e brigas, fazerem queixinhas reciprocas, — Ele bateu-me! — Porque me estragaste o carro do Faísca! Aos adultos, basta o seu ar pesaroso para adivinharem o desfecho de mais esta entrevista de emprego: 
— Nada. 
Atira-se desalentado para o sofá, afasta um pouco os filhos: — É sempre a mesma coisa. No fim, escolhem o candidato mais novo. Meneia pesaroso a cabeça e acrescenta: — Não adianta, não vale a pena continuar a tentar, fracasso sempre...
O sogro nada diz. O seu silêncio grita por si: não dá para continuarem todos a viver da sua reforma, magra e recentemente amputada de um terço por penhora — créditos bancários não pagos, encargos banais anos atrás, que hoje o perseguem como a outros o homem do fraque.
Todos tinham uma pontinha de esperança naquela entrevista: o lugar era modesto, vendedor, o moço tem apresentação, tem conversa, frequentou a universidade, tinha já passado nos psicotécnicos, talvez, talvez... E como precisavam daquele emprego, quinhentos ou seiscentos euros não é muito, mas nos tempos que correm há que deitar mão ao pouco que ainda aparece, não pode haver esquisitices, doutorices...
— Vou emigrar, desabafa, talvez para que o dissuadam, a ele que vem destroçado desta derrota, a última de tantas outras, a ele que bem conhece a penúria em que vive a família, a ele que detesta viver às sopas do sogro, a ele que também sabe que isto, assim, não pode continuar.
Que emigre, pensa o sogro, que vá para o raio que o parta, desde que desampare a casa e o sofá, se não se der bem pelo estrangeiro, pelo menos é uma boca a menos a sustentar, e que boca, o desemprego não lhe tira o apetite, é uma presença incómoda a menos, um a menos a disputar o comando da televisão, agora reduzida a quatro canais desde que a tv por cabo foi cortada por falta de pagamento — outro processo por dívidas que corre contra si, que bom que seria se, perdido no mar de calotes que afoga os tribunais, prescrevesse antes do julgamento. E se lá no estrangeiro o genro se der bem, chamará para junto de si mulher e filhos, ufa, que alívio, não será o desafogo, mas, pelo menos, o sossego. Sim, gosta de ter consigo a filha e os netos — na Consoada, num ou noutro almoço dominical, é pessoa de antigamente, do "casamento, apartamento", ah, bom tempo esse em que os filhos não nos caíam em casa depois de casados: — Pai, tivemos de entregar a casa ao banco, não podemos ficar na rua, tens um quarto livre, uma salinha de costura onde as crianças podem dormir...
— Mas, objecta a filha, lá fora as coisas não estão famosas.  Ainda há pouco vimos na televisão — não foi, pai? e olha-o na esperança de lhe ouvir palavras que dissuadam o marido de partir — portugueses na Suíça e na Inglaterra que dormem nos automóveis e passam fome, enganados pelos patrões...
— Que faço então? – e olha também ele para o sogro, à espera de resposta, algo como deixa-te ficar, estamos apertados mas ainda cá cabes, onde comem seis comem sete, basta acrescentar água à sopa, isto como se os jovens de hoje se contentassem com a lavadura das gamelas de antigamente, adubada com sardinha repartida irmamente, rabo para o pai, cabeça para a mãe, lombinhos para a filha...
Mais uma vez, o sogro nada diz. Cogita, talvez, que para ele e para a velhota, a reforma, mesmo cortada, chegava, aconchegada com a mísera pensão de sobrevivência da sogra, meses atrás retirada do lar, na impossibilidade de o continuarem a pagar. Semi-falido, como pode arcar com as despesas de três famílias? E ataca-o novamente a vontade louca de sair para comprar A Bola e não mais aparecer, recomeçar talvez num outro qualquer lugar, sozinho, sem encargos nem responsabilidades, nem créditos nem dívidas vencidas, nem Finanças a persegui-lo encarniçadamente… ah, se o país fosse à bancarrota! Toda a gente falida, todos pobres, sem credores à perna! Mas logo lhe ocorre que a sua reforma, esses setecentos e quarenta euros, reduzidos pelo tribunal a quatrocentos e noventa e três, desapareciam também, em lado nenhum há empregos, e então na sua idade... 
Como refúgio de emergência resta-lhe na aldeia o casebre arruinado onde nasceu e que só não vendeu por falta de comprador, tal como três míseras leiras de má terra que não o sustentariam, mesmo com vontade, esforço e saber, coisas que não tem, nem nunca teve. E, no entanto, na sua meninice, as pessoas sobreviviam lá, numa parcimónia inconcebível hoje em dia, sem água canalizada, nem electricidade, nem gás, nem casas de banho, nem televisão, nem telefone, nem carro, nem computador, nem internet... Sem contas para pagar, comendo o que a terra dava antes de serem por ela comidos, poupando cada tostão, fugindo de dívidas como o Diabo da cruz — assim se sobrevivia. E havia momentos de felicidade, serões em que se escolhia o feijão ou se descamisava, as vindimas, a matança do porco, a feira na vila, baptizados, casamentos, funerais, até!  Havia gente feliz! Ele, por exemplo. Por riqueza um pião, alguns berlindes, muitas caricas. Descalço mal saía da escola, indiferente a topadas, chuva, gelo que fosse. Ah, era rijo. E, sim, feliz: não é preciso muito para ser feliz – basta ser criança. Mas ser criança é precisamente aquilo que os anos não permitem que voltemos a ser, excepto como caricatura, o juízo perdido por senilidade. 
— Vou sair um pouco, para espairecer, diz.
— Onde vais? Pergunta a mulher, como se lhe tivesse lido os pensamentos, quarenta anos de coabitação dão para isso.
E ele, ao que um homem chega, justifica-se, sinal de que a consciência o incomoda. De outra forma, como compreender que aos sessenta anos, feitos no mês passado, reformado, arrimo de três famílias, precise de desculpas para ir ao café, sair do harém – três mulheres e uma menina – olvidar as desgraças familiares por entre uma suecada, um café ou uma mini, acesa discussão com os antigos colegas da repartição sobre a governação, o futebol, o mau funcionamento da justiça, o desemprego: vinte anos atrás, facilmente empregaria a filha na repartição, o genro até, mas esse longe de si, talvez na Câmara, onde uma sua cunhada era então a chefe de secretaria. Coitada, triste fim o seu, cancro atroz e fulminante... Que choruda reforma não teria hoje, e solteirona, que boa ajuda seria... Agora, os tempos mudados, os lugares no funcionalismo preenchidos, nenhuma hipótese de empregar a filha ou o asno do genro, incapaz de ser arrimo da família, homem da casa dele. À saída, deita-lhe olhadela de desprezo, vê com desagrado que ocupou o seu lugar ao canto do sofá e, como se fosse o chefe de família, se apropriou do comando da televisão enquanto resmunga — Agora não! ao filho, que lhe pede a leitura de uma história, e incomodado com o olhar de censura da sogra, em jeito de desculpa, acrescentará: — Foi um dia terrível, estou na fossa, já não acredito que um dia venha a ter trabalho.
Não acredita ele, não acredita o sogro, não acredito eu: basta ouvir as notícias, um terço dos jovens está desempregado. E este, em vez de se fazer à vida, desalenta no sofá, como se esperasse que os empregos o viessem procurar a casa... Surpreendido, o sogro ainda o ouve exclamar, meio justificação, meio protesto: — Roubaram-nos o futuro!
As mulheres olham-no intrigadas, não é todos os dias que profere frase tão apropriada, onde a terá ouvido?
Soergue-se, sentindo-se ouvido, escutado: — A culpa é da geração anterior, com emprego para toda a vida, acomodada em direitos adquiridos. Enquanto os velhos não morrerem, não há esperança para nós, os jovens.
O sogro ainda faz menção de voltar atrás para lhe lembrar que são os seus direitos adquiridos que lhe dão tecto e mesa, a ele e à família, mas cala a objecção, inútil começar briga, problemas de mais tem eles todos, e segue para o café, a mini e a sueca, a cogitar como seria bom desaparecer, deixar casa, família, calotes e genro e viver de couves e batatas no casebre abandonado na sua aldeia natal...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O presidente da Boa Memória

O actual presidente da República parece ter esquecido que foi primeiro ministro durante uns dez anos; que tomou medidas decisivas para a destruição da nossa agricultura, das pescas, da indústria.

Cavaco: portugueses esqueceram o mar, a agricultura e a indústria


Tenho memória. Lembro-me bem de teorias segundo as quais era imperativo retirar gente, muita gente da agricultura, porque nos países europeus que nos serviam de modelo a percentagem de população agrícola era muito inferior à nossa. Lembro-me bem dos subsídios para arrancar pomares e vinhas, dessa estranha forma de vida em que alguns prosperaram, plantando com subsídios para arrancar com outros subsídios um ou dois anos depois. Lembro-me dos subsídios para não produzir, ou apenas para alimentar as abetardas. Lembro-me das multas recentes, bem pesadas, para quem recuse arrancar as vinhas plantadas, salvo erro,  depois de 2001...
Se alguém tem problemas de memória é seguramente o professor Cavaco Silva. Já se tinha esquecido do que fez pela destruição da nossa frota pesqueira quando veio apontar-nos o mar e os seus recursos como jangada salvadora. Hoje quer aumento da produção agrícola. Um reconhecimento público das asneiras das suas políticas governativas está, suponho, fora de questão. Porque em Portugal nunca ninguém tem culpa de nada. É o destino.
(Texto de 2010, republicado a propósito das declarações de hoje do PR.)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da igualdade face à lei

Vejo na televisão um juiz sair do seu lugar para cumprimentar amavelmente o réu, um criminoso VIP. Ouço dizer que foi mudado de cela e de prisão por não apreciar as instalações anteriores. Serão tão amavelmente tratados, já não digo os outros criminosos, mas os pobres cidadãos que se vêem em tribunal a tentar receber indemnizações por despedimento ou confrontados com acções de despejo por  falha nas prestações, ou em processos para cobrança coerciva de uma mão cheia de euros?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pobre país

Pobre país que culpa uma estrangeira pelos seus problemas. É fácil, desresponsabiliza-nos e aos nossos governantes presentes e sobretudo passados, mas revela uma terrível falta de senso, indiciadora de que à primeira oportunidade que se apresente tudo se repetirá. Ouro do Brasil, volfrâmio na segunda guerra mundial, fundos comunitários no cavaquismo, pouco importa. Quando temos, desbaratamos alegremente. Quando falta, insultamos os estrangeiros. Connosco, a culpa é sempre dos outros. Pior do que isto, só as saudades do Companheiro Vasco, o "maior amigo do povo, dos trabalhadores e da classe operária". 
Enfim, desabafos em dia em que me dói a cabeça. Culpa da Merkel, seguramente.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Arco da Velha

Assim aprendi a chamar-lhe, in illo tempore, quando havia mistério e magia, e o arco surgia no céu a recordar que nunca mais Deus destruiria o Mundo com água. O nome completo, Arco da Velha Aliança, era então longo de mais para criança de curta vida.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Imigrante (2)

O Jeroen já tem trabalho. Ao que parece, excelente e bem pago pelos padrões nacionais. Até eu, que o conheço, estou surpreendido: não esperava que conseguisse tão depressa. Darei os pormenores possíveis (o segredo é a alma do negócio, diz-se), quando ele me autorizar a divulgá-los.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Imigrante


Sem esperança de emprego, os portugueses emigram, repetindo tendência secular deste país saturnino, que só não devora os seus filhos quando, antes, eles o abandonam. 
Neste contexto depressivo, não deixa de ser estranha a vinda de um jovem que abandona a rica Holanda para cá procurar trabalho -- que lá nunca lhe faltou, desde os 15 ou 16 anos em acumulação com os estudos, depois em full time. 
É o Jeroen (pronuncia-se Irún), meu sobrinho, e, já aqui o escrevi, o mais português dos holandeses -- ou, como ele então respondeu, o mais holandês dos portugueses.
Admiro-lhe a coragem de tentar concretizar o sonho antigo de viver em Portugal, em contracorrente com a maré de desânimo que nos paralisa. E conhecendo-o bem, conhecendo as suas capacidades, não duvido de que consiga. Aposto que antes do final do ano terá trabalho, decidido que vem a aceitar o que aparecer, até dominar o português.
Desta epopeia, do seu sucesso improvável, ou do seu fracasso certo, aqui darei notícia.
Para, espero, proveito e exemplo. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Peniche, 1976


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Emigração


O meu pai, sempre aventureiro, emigrou, tinha eu os meus doze anos. Antes, numa linda tarde outonal, à porta da adega, enchi-me de coragem e atrevi-me a tentar dissuadi-lo. Os riscos. A língua. A nossa pobreza. Se valeria a pena tentar a sorte nessa Holanda longínqua e desconhecida, para onde o passador lhe arranjara papéis, em vez da França, para onde todos os outros iam. Para minha surpresa, não me ralhou, antes me ouviu como se eu fosse adulto -- sempre se orgulhou de mim, mas disso só me apercebi mais tarde. 
Não nascera para agricultor. Ia à aventura. Se não resultasse, que o pusessem na fronteira quando o dinheiro se lhe acabasse. Toda a vida arriscara. Pouco tinha a perder.
E uma noite partiu, velha mala de cartão na mão, apesar dos meus protestos: -- Lá deito-a para o lixo.
Ansiosamente aguardávamos as suas cartas. O sofrimento atroz desses tempos em país estrangeiro, de língua incompreensível, inverno inconcebível, o dinheiro a acabar, o companheiro de aventura a regressar derrotado, as vigarices dos patrões que lhe não pagaram, as vezes em que chorou -- só muito depois o contou. As cartas chegavam às duas, três por semana, pelo Natal veio uma com folha de químico azul a esconder nota de dois florins e meio para os filhos, coisa de vinte escudos. Sobrevivemos com parcimónia indescritível, amenizada com a venda dos dois porcos, das batatas. Nos piores momentos, quando a minha mãe desesperava, a minha avó, a viver connosco por viuvez, convencia-a a carregarem a burra com o que havia na adega, o que a terra ia dando, couves, grelos, cebolas, alhos, feijões, e a seguirem para o mercado de Pataias, caminhada de quase dez quilómetros, a fazerem alguns escudos para o governo da semana.
Um dia, a carta contava que o meu pai tinha prestado provas para as oficinas da KLM, a companhia de aviação holandesa;  e depois, a grande notícia: entrara. 
A nossa vida melhorou. Com viagens de avião a preços irrisórios -- creio que pagava cinco por cento do bilhete -- passou a ser visita regular, a quem os poderosos do concelho pediam o favor de trazer garrafa de uísque, então caríssimo entre nós, gravador ou, os grandes figurões de Alcobaça, que o conheciam dos seus tempos de padeiro e confiavam na sua discrição, filmes pornográficos, quase inexistentes entre nós. 
E eu, que reprovara no curso de Serralheiros, finalmente convencido de que não tinha hipóteses nessa área, saí de casa aos treze anos e fui para Leiria fazer o Curso Comercial. Assim se acentuou a minha solidão, a viver como hóspede em casa estranha, em plena crise da adolescência -- nenhuma é fácil, menos o foi a minha, sempre avesso a facilidades -- em meio desconhecido, citadino, de costumes bem diferentes dos meus, rústicos e brutos.
Uma vez por mês, ia a casa, curto fim-de-semana, pois a camioneta gastava quase um dia, entre viagens e mudas, a percorrer os trinta quilómetros. A minha mãe primeiro, os meus irmãos depois, crianças de cinco de dez anos, juntaram-se ao meu pai, e só em Agosto voltávamos a ser família.
Duros tempos, que recordo agora, após conversa com amigos que tentam a sorte por esse mundo fora, na penosa vivência da emigração, mal suavizada pelo Skype.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Infância


Nasci pobre, em aldeia pobre deste país então pobre. Não passei fome: o meu pai era padeiro, tinha salário e um quilo de pão de segunda por dia. Não tive brinquedos, nem festas de aniversário, nem guloseimas. Nenhum luxo, nem sequer pelo Natal, em que, pela calada da noite, o Menino Jesus descia pela chaminé enfarruscada para deixar no meu sapato peúgas, roupa interior, talvez uns rebuçados. 
Não me sabia, não me sentia pobre: vivia num mundo alternativo, de sonho, em permanente devaneio, prolongando no quotidiano a fantasia dos livros que devorava, uns emprestados, outros requisitados na Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian: eu era o Tarzan, rei dos macacos, o Robinson Crusoé de uma ilha deserta do tamanho da minha rua, buscava o tesouro dos piratas nas minhas Matas (quarenta homens na mala do morto / ió ió e uma garrafa de rum, cantava o papagaio empoleirado no meu ombro), fazia no meu Nautilus milhares de léguas submarinas, ou sobrevoava África de balão, quando não era injustamente encarcerado em masmorra, de onde me evadiria um dia para ser o conde de Monte Cristo da vingança... Batia-me em vielas lado a lado com D'Artagnan e os três mosqueteiros, fugia de casa com o Huck Finn, embarcava rumo ao desastre com Pedro, Pescador de Baleias, acompanhava Ismael e Ahab na caça insana da terrível baleia branca…
Professores falavam sem que os ouvisse, entediava-me nas aulas de Desenho, brincava nas Oficinas, em cada sábado formava no recreio para a ordem unida da Mocidade Portuguesa -- ou faltava a umas e outras, para andar de barco no Alcoa, pelo que no segundo ano quase reprovei, precisamente a Mocidade, a que só podia dar três faltas...
Todas as disciplinas contavam para a média, e eu, muito mais novo que os meus colegas, era um desastre a Canto Coral, uma nódoa a Desenho, um incapaz a Oficinas, um nulo a Ginástica (assim se chamava então), cujo professor dava também Trabalhos no Campo – duas horas seguidas a ditar apontamentos; embora mediano a Matemática, brilhava a Português, História, Ciências,  o que não chegou para a média de catorze, e perdi a bolsa de estudo que me permitira ir estudar. E ao terceiro ano, o primeiro do curso de Formação de Serralheiros, reprovei: 8 a Oficinas, 9 a Desenho de Máquinas -- nas restantes disciplinas, positivas bem razoáveis.
Vergonha tamanha que, se acaso saí de casa naquelas férias grandes, foi às escondidas. E nunca mais reprovei outro ano.  

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desespero


Escrevo sobretudo nos cafés, alheado de quem me rodeia. Num deles, desperta-me conversa exaltada ao telefone de uma das empregadas: 
-- ... tenho três filhos, não podem passar fome por causa de um chulo de um patrão. Não sei, a mulher anda a passear por aí bem vestida, a ele e aos filhos não lhes falta nada, os meus filhos não podem passar fome. Às três, vou aí e não vou sozinha. Eu não sujo as minhas mãos, mas há quem o faça. 

Coitada. Uma simpatia com os clientes, apesar da paga miserável, tardia, regateada. Tempos atrás o companheiro da moça contava: sem leite para as crianças, fora exigir os salários atrasados. Conseguira cinquenta euros por conta...
Lutei dia e noite contra o regime salazarista, enfrentei a polícia nas ruas, conheci a clandestinidade. Mas, reconheço-o hoje, Salazar não permitia horários de sessenta, setenta horas semanais, salários em atraso, pagos aos bochechos como favor que se faz, como é favor o trabalho que se "dá" a quem dele carece e se sujeita pelo leite para os filhos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Prática de Ji'in

Quando, em finais de 2010, comecei a preparar-me para o exame de graduação de San dan, perguntei ao meu mestre que kata escolher para favorita (Tokuigata). A resposta surpreendeu-me: Ji'in. Porra, pensei, logo essa, que detesto, para favorita? 
Mas como sou daqueles que entendem que o parecer do mestre é para seguir, apliquei-me seriamente no estudo e no treino de Ji'in. Um ano depois, já a apreciava. Hoje, sinto-a como minha. Muito há ainda para melhorar, muito suor ainda me há-de encharcar,  até a poder apresentar em exame, como este vídeo, gravado hoje no ginásio Il Korpo, bem mostra.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

As tripas de Deus

O progresso da ciência, e nomeadamente o da Física, tem permitido elaborar, a partir de estranhas evidências, especulações fantásticas sobre a natureza do Universo, algumas das quais parecem saídas da ficção científica. Por exemplo, a hipótese holográfica (Maybe, that is, the universe is rather like a hologram, Brian Greene) ou a de se tratar de simulação em computador.

Para os defensores desta última hipótese, seríamos, não ratinhos no laboratório divino, mas  personagens de um programa ou jogo de computador. Para minha surpresa, há um projecto para testar esta possibilidade:
E se o universo for apenas uma simulação de computador? Investigadores da Universidade de Bona, Alemanha, querem acabar com todas as dúvidas: afinal, o universo é ou não é uma simples simulação de computador?
Se os resultados forem positivos, continuaremos a valorizar cada uma das ilusões que nos fazem esquecer da nossa efemeridade -- por exemplo, essas que preenchem os telejornais -- ou conseguiremos suportar e assumir plenamente a virtualidade da nossa existência, respondendo às banalidades do quotidiano com palavras semelhantes às do Castelhano, do Auto da Índia, de Gil Vicente:
Hablo en las tripas de Dios
Y vos hablaisme en los gatos
!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Testemunhos de leitor



Aos seis anos, antes do Natal, já a professora me punha de frente para as quatro classes, a ler o jornal, para assombro de matulões e matulonas, obrigados a frequentar a escola até aos catorze anos, se antes não concluíssem a quarta classe. Entrei com cunha do meu pai, para não ficar todo o dia sozinho em casa, e algumas das minhas recordações mais antigas são leituras dessa época, no suplemento Ria Connosco, do Diário Popular, como a de uma sereia, que então muito me intrigou. Não continuei durante muito tempo a ser o menino bonito da professora: pouco depois, parti uma cabeça com garrafada e acabou o meu estado de graça. O que pouco me importou. Sabia ler e devorava tudo o que encontrava com letras, os dois ou três livros que havia em casa, os outros nas bibliotecas itinerantes Calouste Gulbenkian. Lia às escondidas, nas aulas mais chatas (para mim, quase todas, excepto Português, História, Ciências), à noite, em casa, quando minha mãe me supunha a estudar fervorosamente -- a ocasião em que me apanhou dará outro post.
Em Leiria, para onde fui frequentar o Curso Comercial aos treze anos, era cliente diário dos quiosques que vendiam a 15 tostões livros usados e os voltavam a comprar por 10. 
Foi então que tive orientação mais consistente e vivi aquilo que considero ser a promoção ideal da leitura. Contá-lo é, antes de mais, exprimir novamente a minha gratidão a essa professora, Margarida de Carvalho, que nunca mais vi e nem sei se viverá ainda.
O sistema por ela implementado era assaz simples: não havia funcionários na biblioteca, a própria responsável (e professora a tempo inteiro) nos recebia: -- O que é que já leste? De que é que mais gostaste? Porque é que não gostaste? Que queres ler? Ah, sim? E porquê? Mas antes vais-me ler este, quando acabares conversamos e depois veremos se estás em condições de ler esse que queres.
A rebeldia da adolescência levava à biblioteca alguns que nunca, nem antes nem depois, leram nada, para provocadoramente pedirem livros que a professora entendia serem ainda inadequados. E eles: Assim não levo nada, se não me deixa ler o que quero. Depois queixavam-se da tirania da bibliotecária ao director de curso, até ao director da escola, se a ocasião se proporcionava. 
Graças à sua orientação, evoluí dos Cinco, Hornoblower e Sandokan para leituras que ainda hoje recordo (A expedição da Kon Tiki, À margem do tempo...), aprendi a apreciar a ficção científica e maravilhei-me com Simack, Bradbury, passei por Pearl Buck, devorei tudo o que por lá havia de Steinbeck, Hemingway, conheci Brecht, impressionei-me pela primeira vez (muitas outras se seguiram) com O Estrangeiro...
Só tive notícias desta professora no pós 25 de Abril: os alunos tinham conseguido saneá-la do cargo. Motivo? "Não nos deixava requisitar os livros que queríamos, pedíamos uma coisa, mandava-nos ler primeiro outra. " 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Indiscrições


No restaurante quase vazio, Gaspar oblige, apenas nós e, na mesa do lado, moço solitário, brasileiro pelo falar ao telemóvel. Escuto, indiscreto. Alguém o tenta reconciliar com a ex. O rapaz concorda que ela tem qualidades, enumera-as até.
Mentalmente intrometo-me: Não sejas parvo, pá, mulher de qualidades é bem precioso, a não perder. 
O brasileiro prodigaliza encómios, sintetiza-os em frase lapidar: É uma grande mulher...
(Oh parvalhão, e estás a almoçar sozinho e descansado, deixando escapar uma grande mulher?)
Justifica a inacção, como se tivesse escutado os meus pensamentos trocistas: -- Mas deixá-la lá estar uns tempos...
(Cretino. Uma grande mulher, de grandes qualidades, em pousio? Em que mundo vives, cara?)
Acrescenta, nostálgico: -- É uma grande dona de casa...
(Corre, estúpido, antes que outro mais expedito te ocupe o lugar. E se for boa na cama... Ai, estes rapazes de agora! Deve ser  falta de cultura: bem se vê que este nem conhece o Ne me quitte pas, nem leu Entre Cós e Alpedriz:
"... Tudo isso carregarás senão com satisfação, pelo menos sem revolta, bastando para tal pensares na ventura que hoje tiveste e que, certamente, te não será negada sempre que o mereceres.  É isso, homem, os tomates são as nossas grilhetas.")

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Alice Vieira e o Plano Nacional de Leitura


A inclusão de O Que Dói às Aves, obra para adultos de Alice Vieira, na listagem da Plano Nacional de Leitura (PNL) não é mero erro informático, como alega ingenuamente a responsável, antes evidencia uma realidade deplorável que o PNL teria por desiderato combater: em Portugal, não se lê. A começar por cima, pelos responsáveis pela elaboração das listas de livros recomendados, os quais nem sequer folhearam o livro de Alice Vieira. O que, antes de mais e num tempo em que se discutem as fundações, deveria fazer repensar a utilidade do PNL, analisando custos, obra realmente feita, estatísticas fidedignas de leitores,  reflectindo sobre a qualidade das obras recomendadas, apurando a cedência ou a resistência a pressões editoriais.
Nada vai mudar. O PNL é vaca sagrada. E leiteira.
Declaração de interesses: não, não li o livro de Alice Vieira. Mas não recomendei a terceiros a sua leitura.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um mendigo digno


Ao oferecer trabalho a quem pede esmola, há a remota probabilidade de sermos surpreendidos. 
Há uns anos, ao anoitecer, toca-me à campainha cigano bem posto, franzino, na casa dos seus sessenta anos. Pedia ajuda -- dinheiro ou comida. Se sempre nego dinheiro, nunca nego comida. Mas, por via de algumas situações que já presenciei, antes sondei-o: não queria trabalhar. Sim, queria, mas em quê, se ninguém lhe dava trabalho? Pois eu tinha os muros por pintar, a horta feita matagal...
O homem aceitou prontamente. E eu, convencido da sua boa vontade, dei-lhe do que tinha: pão, uma lata de atum, maçãs e, acrescentei, cem escudos para beber um copo, que não vai comer isso a seco. 
No mês seguinte, reapareceu. Já não a mendigar, mas a perguntar pelo trabalho. Porém, eu receei que o homem se magoasse, ou caísse de andaime, ou, débil como era, lhe desse treco -- sem seguro, eu teria de arcar com as despesas e responsabilidades. Desculpei-me: esquecera-me de comprar as tintas, não valia a pena cavar o quintal, que era cedo para sementeiras -- e aviei-lhe outra sacada com pão, conservas, fruta, cem escudos para o tinto.
Durante muito tempo, foi visita mensal. Cumprimentávamo-nos como velhos conhecidos, eu desculpava-me por não ter ainda trabalho para ele, preparava-lhe o avio do costume, sem esquecer moeda de cem para a pinga, que tanta falta faz, sobretudo a quem sofre

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coração de manteiga


Um AVC obrigou o senhor Joaquim a internamento no lar, incapaz de andar, de fazer a sua vida, de ser auto-suficiente. Homem forte, confiante, vendo-se aleijado para o resto da vida, desanimou. Sou um merdas, um esporra, desabafava. Mas bem cuidado, logo que Fevereiro trouxe dias bonitos, e o sentavam no alpendre a encher os olhos com verde, os ouvidos com a cantoria dos passarinhos que as empregadas também alimentam, ganhou cor, apetite, vontade, devolveram-lhe forças as saudades do filho único, a labutar em Angola, que viria de férias no verão. E contava primeiro os meses, as semanas depois, finalmente os dias: menina Paula, é já domingo que chega o meu Francisco...
Passou esse domingo, passaram os dias, as semanas, aproximava-se o mês do seu final: que terá sucedido ao meu Francisco, que ainda não pôde vir-me ver? Coisa grave, sem dúvida. Mas ele vem, que se não ia embora sem me ver, sem se despedir de mim, sabe-se lá se para sempre.
Coitado do senhor Joaquim, confidencia-me a directora, quem lhe há-de dizer que o filho já regressou a Angola, não quis vir visitar o pai, lares e hospitais fazem-lhe muita impressão, e falta-lhe ânimo para ver o pai entrevado... 

Coração de pedra

Plantava couves na minha horta quando chega cavalheiro junto do portão. Se eu era o dono. Confirmo. Ouço-lhe a lengalenga enquanto endireito as costas, limpo com o braço o suor que me escorre em bica da testa: pois ele era do Centro de Recuperação X e...
Interrompi-o: sabe, é rara a tarde em que me não vêm pedir dinheiro enquanto trabalho no quintal; mas nunca ninguém se oferece para me ajudar...
-- Então não quer contribuir...
Voltei às couves. Não é só preparar a terra, estrumá-la, plantá-las, regá-las. É preciso deixá-las protegidas da passarada, das lesmas e caracóis, ou de manhãzinha apenas restarão os talos.
E, enquanto o suor me cegava, ia magicando que muita gente bem intencionada concebe a solidariedade social como via de sentido único, ignorando a reciprocidade que deveria existir entre o receber e o dar. Quanto mais não fosse, por amor-próprio.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Destilações

A actualidade política nacional e a respectiva cobertura pelos media parece-me tão interessante, tão excitante como as reportagens da TV Guia sobre a Casa dos Segredos: rasca, à procura da intriga, a privilegiar a coscuvilhice, sempre a atiçar, a acossar uns contra os outros, como se todo o Portugal não passasse de uma matilha faminta de rafeiros raivosos.
Eu entretive-me neste 5 de Outubro a destilar, não o ódio que nos cega e queima, mas a minha aguardente. Quando a merda rebentar, como parece ser desejo geral, vamos precisar de um bom desinfectante, como a aguardente, que servirá também  para afogar a desgraça.