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terça-feira, 11 de março de 2014

11 de Março de 1975

Nesse dia os spinolistas fizeram um golpe de estado: os caças-bombardeiros Fiat G 91 atacaram o RALIS, quartel revolucionário, depois pára-quedistas recentemente chegados das colónias cercaram o quartel. Alguns mortos, um diálogo improvável e surrealista entre os respectivos comandantes, levou a melhor o barbudo Durand Clemente e logo começou contra-golpe que conduziu ao poder os militares afectos ao PC.
Eu estava a terminar a minha recruta, como já aqui contei, em texto que reponho. Bons tempos, não voltei a ter vinte anos -- os três vintes estão próximos.


No dia 11 de Março de 1975, tinha eu vinte anos e fora incorporado no exército em Janeiro desse ano. Fazia a minha recruta no Regimento de Infantaria de Leiria (RI7) como instruendo e ia começar a minha semana de campo. Na véspera, fomos informados dos planos: ao alvorecer, chegariam helicópteros, embarcaríamos e seríamos lançados numa pista de técnica de combate, em condições muito próximas do combate real nas colónias. Formámos na parada, equipamento completo (farda nº 3, arreios, cantil, carregadores vazios, G3, etc.) e ficámos horas a olhar para o céu, à espera da chegada dos hélis, um pouco assustados, que a guerra nunca é uma brincadeira, mesmo em treinos. A meio da manhã, sem esclarecimentos, mandaram-nos marchar e atravessámos a cidade ao toque de tambores, algo vaidosos, o trânsito interrompido à nossa passagem, quatro companhias, rumo aos Marrazes. Ainda de longe, ouvíamos já o estrondo grave do rebentamento das granadas, o matraquear das metralhadoras, os tiros constantes das espingardas G3, até o som amaricado de uma ou outra pistola-metralhadora Vigneron. As ordens chegavam já berradas, Tá a formar em bicha pirilau! Corram! E nós corríamos, sem saber para onde, atrás do camarada da frente, por entre o chinfrim infernal e o cheiro da pólvora. Então o da frente estaca, detenho-me também, passa camarada enlouquecido, sem que o furriel ranger que o perseguia o conseguisse deter, coxa a jorrar sangue às golfadas: tinham-lha furado com bala real. Gritam-nos para continuar, perco o medo, se já lixaram um vão ter mais cuidado com os outros. E corria por cima de troncos sobre riacho enlameado ainda com muita corrente, rastejava por debaixo do arame farpado enquanto assobiavam balas (o tiro estava regulado em altura, não devíamos levantar a cabeça, por isso a afundava na lama, já nem ligava aos tiros, era certamente munição de salva, nem às granadas de treino, azuis, que lançavam de todos os lados, inofensivas como bombas de São João, e liberto do arame farpado corria pelo leito do riacho, sempre por entre a berraria de oficiais e furriéis, ouço um gritar O pequenino é o melhor, então surge-me pela frente um tenente e lança uma granada ofensiva bem para cima de mim. Mergulho no lodaçal, estoira a granada, só quem já assistiu sabe do poder do estrondo, da violência do sopro, de resto são inofensivas, levanto-me prontamente para continuar a correr por ali abaixo, mas o braço direito, sempre segurando a G3, estava imobilizado. O tenente puxa-o, parece voltar ao sítio, continuo, só mais tarde soube que tinha uma lesão para o resto da vida. E subitamente tudo acaba para mim, camaradas do meu pelotão recebem-me risonhos, estamos felizes, sobrevivemos, não fugimos, não chorámos, abençoados palavrões, por isso nunca os desperdiço. Correm boatos: há guerra em Lisboa!  A disciplina prevalece, obedecemos às ordens, formar, marchar, começar novas e extenuantes provas, sempre debaixo de berros, tiros, explosões. À noite, para dormir, manta reles, um pano de tenda, com quatro faz-se um bivaque, o frio e a humidade são terríveis, os camaradas de "quarto" vão para uma fogueira, eu, doido com sono, morto de cansaço, durmo ali, sobre água que corre pelo chão, enregelado, a custo me despertam para o meu turno de sentinela, nevoeiro de cortar à faca, que guardo eu ali, no pinhal, sem uma única bala no carregador?
À alvorada, formamos e regressamos ao quartel, a semana de campo durou um dia, não tocam bélicos os tambores, marchamos como vencidos, envergonhados, para não atrair a atenção do povo. No quartel, contam-nos factos e boatos, ninguém sabe bem o que se passa, parece que os pára-quedistas atacaram o Ralis nos nossos helicópteros, há mortos e feridos, e olhamos constantemente para o céu, receosos de que desçam sobre nós, discutimos se os tentamos abater no ar ou os deixamos poisar primeiro, os corpos tremem, é frio, é medo. Grita fora o povo, somos fascistas e não o sabíamos, mandam-nos para a carreira de tiro interior fazer fogo com as HK21, na esperança ingénua de que o matraquear das metralhadoras afugente a multidão. À noite, mais boatos: os americanos preparam-se para desembarcar nas nossas praias, é a contra-revolução fascista do Spínola que aí vem. E um furriel, apavorado, pede-nos aguardente, vai sair com uma companhia de prontos para defender a Praia da Vieira de ataque iminente dos marines
Na manhã seguinte, 13 de Março, andamos em pequenos grupos pela parada, nenhum oficial aparece, os furriéis sabem tanto como nós, e desce um héli, não são pára-quedistas, são jovens oficiais, muito jovens, com patentes demasiado elevadas, que logo reúnem com o comandante. Acabamos por saber que foi demitido, o povo está com o MFA e tretas do género, eis que chega a época dos comícios, dos oficiais de aviário, ontem eram alferes, hoje são majores, começam os fins-de-semana cortados por prevenções rigorosas que vem aí o espectro da contra-revolução e esses valentes oficiais juram punho erguido que então morrerão com as botas calçadas a combatê-la – para se esconderem cobardemente no 25 de Novembro, mas essa é outra história, em que também estive envolvido, bem contra vontade.

domingo, 2 de março de 2014

Leituras deste Inverno -- Ana Karenine

Todos conhecem a frase de abertura, mas quantos terão prosseguido para além dela, até à última das 735 pp. (introdução incluída) de letra miudinha? Ana Karenine não é obra a devorar apressadamente, numa ânsia de saber como termina, o que, aliás, nem é difícil de prever. Pelo contrário, adapta-se a leitura lenta, por prazer, saboreada capítulo a capítulo, frase a frase. Sublinho:

  • Com personagens a propiciarem caricatura, Tolstoi evita o caminho da facilidade, e não as expõe demasiado ao ridículo. Que diferença, por exemplo, do nosso Eça, que escreve sobre o mesmo período histórico e idêntico meio social. Recordo que em Os Maias, tirando a Maria Eduarda e a mãe, nenhuma das numerosas mulheres é bonita, interessante ou inteligente; nem a Gouvarinho é, sequer, sexy... Quanto aos homens, exceptuando Afonso, também nenhum se aproveita. Os ambientes são quase sempre rascas, conformes à tese de que Portugal é uma choldra e, consequentemente, os portugueses e portuguesas são criaturas socialmente inúteis, fúteis, feias, ignorantes, mesquinhas, e de mau gosto. Lá fora, na Inglaterra que sofre com a revolução industrial, na Paris que esmaga no sangue a Commune é que é bom.
  • A fina análise psicológica das personagens, das suas contradições. Nada inferior a Dostoievski, frequentemente apontado como rival. Não apenas de Ana e do amante, o conde Vronsky, mas também do marido de Ana, de Kitty, do extraordinário Levine, talvez o verdadeiro protagonista, até de personagens secundárias como Sérgio.
  • A economia da narrativa, persistente em obra tão longa. Nela não há nada que eu cortasse. Os eventos e as falas ocorrem com naturalidade, sem truques fáceis, nem soluções do tipo Deus Ex Machina.
  • A reflexão sobre as questões pessoais, sociais e nacionais, registando direito e avesso, embora frequentemente seguindo o ponto de vista angustiado de Levine.
  • A descrição minuciosa do labor agrícola, só possível em quem muito nele transpirou.
  • A descrição fascinante do trabalho dos cães de parar na sempre difícil caça às narcejas nos pântanos.
  • A tremenda, terrível, reflexão sobre a condição humana a que procede Levine após a morte do irmão e que quase o leva ao suicídio, apesar da felicidade em que vive com o casamento e a paternidade. E a descoberta que faz, embora, infelizmente, eu a não partilhe. Como seria bom ter a fé que Levine encontra! 
Escrever, e parafraseio Roland Barthes, é resumir o porquê no Mundo num como escrever.  Fê-lo Tolstoi em Ana Karenine, fê-lo nas suas outras obras, da juventude à velhice. É esse o meu desiderato, apesar de me faltar o seu talento e a sua capacidade de trabalho. Conseguirei realizá-lo? Duvido muito. Mas só assim -- reflectindo sobre o porquê do Mundo e a condição humana, num trabalho formal doloroso, aplainando como carpinteiro cada frase, escolhendo cada palavra -- me interessa escrever. Mesmo que, fazendo-o, venha a ser o meu único leitor. 

sábado, 1 de março de 2014

Leituras de Inverno

As minhas leituras são de todo o ano. E nestes invernos longos, à antiga, já sem testes para corrigir nem aulas para preparar, ou planos inúteis a elaborar e relatórios estúpidos a escrever, tenho ficado  pela sala a ler, no aconchego do recuperador de calor, sem grande vontade de subir para o escritório, onde apenas modesto termoventilador me aquece os pés...
Leio, já aqui o disse, por duas únicas razões: o prazer e a aprendizagem. O que, na literatura, me conduz inevitavelmente aos clássicos.
Ora os clássicos, diz-me pessoa sábia, leram-se na mocidade. Hoje é tempo de ver o que escreve este ou aquela. De estar actualizado. De, também nas leituras, seguir a onda.
Mas, com tanto clássico neste Mundo, quem terá conseguido lê-los todos na juventude, até porque alguns só recentemente foram traduzidos? E, admitindo que se leram, não nos terão escapado interpretações fundamentais, por falta de experiência de vida, sabido que a leitura é recriação — são recriações — da obra? Ler, por exemplo, o Amor de Perdição aos quinze anos não é  mesmo que lê-lo aos trinta. O leitor adolescente, ofuscado pelo triângulo amoroso Simão, Teresa, Mariana poderá não ter olhos para o resto, aquilo que faz desse romance uma obra-prima: a linguagem, a economia da narrativa, o humor, o realismo das personagens secundárias, a recriação dos ambientes da época, a grandeza do ferrador João da Cruz, pai de Mariana...
Boas razões, parece-me, para ler ou reler os clássicos passada a juventude. Embora haja consequências: em confronto com essas leituras pouco do que se escreve actualmente resistirá.
Conversa de velho, daqueles que sempre dizem  "antigamente é que era bom"? Talvez. Falta de sentido de humor? Seguramente. O que é certo é que as amostras que descarrego dos livros mais badalados, na LeyaOnline, na Wook, na Amazon, raramente me motivam para comprar a obra. Matteo perdeu o emprego. Excelente título, de autor de quem muito aprecio outras obras. Pois deixei o Matteo a correr pelas rotundas em contramão, que tenho mais que ler, a vida é breve e a arte longa.
No ano passado, os cinco volumes de Os Miseráveis deram-me leitura para quase todo o Inverno. Entremeados  com A Capital, que também nunca tinha lido, A Universe From Nothing, Maria da Fonte, das releituras de As Pupilas do sr. Reitor e de A Morgadinha dos Canaviais...
E neste Inverno, oficialmente prestes a terminar, escolhi outra obra de peso, uma das poucas de Tolstoi que ainda não tinha lido: Ana Karenine. Acabei na noite passada. Dessa leitura de quase todo um Inverno, darei aqui amanhã breve e incompleto testemunho. É que não sou crítico, apenas leitor inveterado.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Coro da Primavera


domingo, 16 de fevereiro de 2014

A arte de bem partir camarões

Naquele final de tarde, espreitei vários restaurantes de praia. Um, com um grupo na esplanada, deu-me mais confiança.
-- Jantar?, pergunta o empregado. E eu, ainda duvidoso: -- Para já, queremos apenas petiscar. E pedimos amêijoas, -- Não há, pode ser berbigão?, uns camarões, cervejas.
Provei um. Outro. A mesma coisa. Estragado. Chamei o empregado, pedi a conta. E ele, ao fazê-la: -- Então não comem o camarão?
Descaí-me: -- Está podre...
O que fui dizer! Foi à cozinha, veio de lá mulher brava,
-- Olhe, se o levasse para aqueles -- e apontava para o grupo da esplanada -- aqueles comiam tudo! Você, e vincava assanhada a forma de tratamento,  é que não o sabe partir!
E eu, com a calma possível, a querer fugir do escândalo: -- Minha senhora, só quero pagar e ir embora...
Qual quê! Primeiro tive de suportar lição e enxovalho da fera, que despedaçava camarão após camarão, a ensinar o você a parti-lo para não saber a podre...

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Intuição e ciência

Segundo O Público,
Uma equipa de cientistas britânicos mostrou que as zonas que se activam no cérebro de um matemático quando ele acha que uma fórmula é bela são as mesmas que se activam quando qualquer um de nós acha belos um quadro ou uma peça musical.
Imediatamente vi na notícia a confirmação da genial intuição de Álvaro de Campos, que quase um século antes proclamou que o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

PREC

Atente-se nestas ruínas: foi uma fábrica que empregou centenas e centenas de operários e de operárias. Conhecia-a em 1976, pouco depois de ter entrado para o ensino.
Havia então na minha escola umas actividades revolucionárias obrigatórias à quarta-feira à tarde, espécie de formação cívica, que impunham a visita às unidades fabris da região, conduzindo, a pé bem entendido, uma meia dúzia de turmas. E tais actividades estavam atribuídas aos professores maçaricos. Como eu.
Lembro-me do cheiro nauseabundo dos curtumes, do riso trocista das operárias ao ver-nos quase a vomitar, quase a desmaiar com o pivete, elas que, facão na mão, limpavam as peles de sebos repugnantes e gorduras putrefactas indiferentes ao mau cheiro.
Pouco tempo antes, os trabalhadores, reunidos em plenário, tinham-se apropriado da fábrica. O patrão suicidou-se. Para a gestão convidaram colega meu, escolhido, não pelas suas qualificações como gestor, que não tinha (suponho que estava matriculado em História), mas por... ter sido orador num comício promovido pela secção local da Intersindical, a antepassada da CGTP.
Em breve a fábrica faliu e fechou. As suas ruínas são também as do próprio PREC -- o Processo Revolucionário em Curso, que agonizava em 1976.
Tudo cansa.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Em noite de temporal

Sou do tempo em que numa noite de temporal como esta se pensava, antes de mais, naqueles que arriscavam a vida no mar. Depois nos pastores, expostos às inclemências do tempo, a proteger os rebanhos. Em todos aqueles que não tinham um tecto que os abrigasse, agasalho contra a chuva, o vento, o frio, prato de sopa quente e côdea de pão para confortar os estômagos.
Em que nós, pobres, nos sentíamos privilegiados por termos família, casa, lareira. Ouvidas as histórias da avó da Luz, mais ou menos a esta hora, eu corria sonolento para a cama antes que o vento que entrava pelas friestas me arrefecesse, enroscava-me sobre cobertores e mantas, o colchão de camisas de milho afundava, e logo adormecia embalado pelo vendaval e pela chuva.
Como agora vou fazer.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Aniversário

3 de Fevereiro é o aniversário da minha mulher. E o da a noite em que começámos a namorar.
Foi em 1973, no Big Ben, um café de estudantes. 
Indiferentes à densa fumaça do tabaco, beijávamo-nos, esquecidos dos outros, que talvez nos olhassem espantados, sem cuidar dos riscos do presente, das incertezas do futuro: eu era militante anti-colonial, e nessa noite tinha de fazer dez pinturas comemorando o 4 de Fevereiro, com o risco de ser preso, abatido, que a polícia não brincava em serviço nem fora dele. Ou ter de passar à clandestinidade por denúncia, como pouco depois aconteceu.
Fui servente de pedreiro, operário de plásticos. Na Marinha Grande, dormíamos no chão, sem mobília. Fui chamado para a tropa aos 20 anos. Saneado após o 25 de Novembro. Pouco depois, professor. Conhecemos o desemprego simultâneo, numa época em que não havia subsídio de desemprego. Até esparguete comi -- e desde a tropa que o não podia ver à frente. Outra vez professor. O meu ordenado, então o único, não chegava para a renda da casa e a comida. Valeu-nos a família, com pequenos empréstimos que todos os meses pagávamos... e voltávamos a pedir. E as batatas que nos davam, os ovos, o possível. Mário Soares cortou-me parte do subsídio de Natal, e fiquei sem dinheiro para comprar sapatos que substituíssem os únicos que tinha, com as solas rotas, um horror em tempo de chuva. Apiedado, ao vê-los de biqueira aberta, um colega mais velho arranjou-me explicandos. Por agasalho invernal, um casaco de malha, tricotado pela minha mulher.
Bien sûr, nous eûmes des orages
Passaram os anos, criámos as filhas. As dificuldades enrijaram-nos. Aproximaram-nos quando nos afastaram.
Vingt ans d´amour, c´est l´amour fol
E outros vinte. E mais um.
Há datas que se não esquecem.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

As praxes, o cérebro e a linguagem

A morte recente de seis jovens no Meco reacendeu a polémica em torno das praxes. Estremam-se as posições, discute-se mais com a fúria das paixões do que com a racionalidade dos argumentos, o que não surpreende já que esta matéria, como a maioria das que enchem os jornais, é do plano emotivo e não do racional. Radica em convicções profundas, em necessidades básicas dos mamíferos: pertencer a um grupo, submeter os mais novos, ensinar-lhes pelo recurso à força quem manda, qual o seu lugar na hierarquia.
Diz a ciência que temos três cérebros, o reptiliano, o mamífero (na imagem, sistema límbico), o neocórtice. Ora o cérebro mamífero, onde se situam as convicções profundas, é cego, é surdo a argumentos, como bem sabe quem já discutiu com um adepto de um clube de futebol ou um crente fervoroso. Os defensores das praxes, como os dos clubes de futebol, das antigas ou das novas religiões, não se deixarão persuadir pelos argumentos contrários, antes, com o neocórtice, procurarão argumentos socialmente válidos, justificações nobres e altruístas para as respectivas práticas, esgrimindo com as palavras — onde alguém de fora vê humilhação eles dirão integração...
Palavras, leva-as o vento. As palavras, as frases — a linguagem humana — são forma imperfeita de representação daquilo que se nos afigura ser a realidade em que vivemos. E somos criaturas maliciosas. Forjamos argumentos para defender o indefensável, o absurdo, o mal. Já li apologias da excisão feminina, da escravatura, do infanticídio, da tirania, da exploração do homem pelo homem, da livre posse de armas de fogo, dos touros de morte, agora das praxes... Não se pense que, tomado por desonestidade intelectual, misturo assuntos com graus de gravidade muito diferentes: todas eles são instanciações da barbárie que constantemente, por todo o lado, ameaça a civilização. Na Síria ou no Mali, na República Centro-Africana ou na aldeia da Índia em que o conselho de anciãos — os defensores da tradição — condena uma jovem a violação colectiva. Não importa onde: como escreveu Agustina, "em toda a parte há sete cores e sete ventos, e o homem é só um" (1). Insisto: é a barbárie que nos ameaça, em todos os tempos, em todos os lugares, por mais que os requintes da civilização a ocultem momentaneamente dos nossos olhos.
O ser humano não nasce bom, ao contrário do que sustentava Rousseau, antes parece sonhar constantemente com oportunidades para exercer o mal sobre os seus semelhantes com malvadez que as brutas feras dificilmente conseguem imitar — e elas têm a atenuante de agirem por instinto e lutarem por algo vital: comida, território, sexo. Portanto, é ao Estado, enquanto garante dos valores fundamentais da civilização, que cabe agir com firmeza, não tolerando outros estados no seu território, nem outros direitos para além do da República. Tanto os alunos como as instituições de ensino superior devem ser responsabilizados — estas, na pessoa dos seus dirigentes, civil e criminalmente, sempre que cúmplices em todo e qualquer acto que ofenda os Direitos Humanos. Devem ser obrigadas a entender, pelo Estado que as financia, que as aprova, que a sua função primordial não é produzir diplomas manhosos, licenciar políticos, promover festanças, antes contribuir para a criação de um escol livre, insubmisso, participativo, com fome de saber, que tanta falta faz ao nosso país. Ou fechar. 

Imagem: Carl Sagan, Os Dragões do Éden, Círculo de Leitores, p. 65
(1) A Sibila, p.37

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Herdanças

Herdamos as casas e as terras, os escassos oiros e os trastes abundantes. Os retratos, as fotografias, os papéis. O mau feitio, a apetência pela solidão e pelo silêncio, o gosto pela leitura e pela escrita, a paixão pelo trabalho, pela vida ocupada, cansativa. Os tiques, os ditos, os provérbios e as frases feitas:
-- Não herdamos só os bens, herdamos também os males, dizia a minha mãe, quando, ao avizinhar os oitenta, as doenças a começaram a rondar. 
Soube ontem de outra herança sua: tensão ocular elevada. A mesma que, à minha mãe, provocou glaucoma, depois cegueira de um olho e só não do outro porque, entretanto, morreu:
-- Em Julho acaba tudo!
A responsável pelo lar interpretava risonha o dito como vaticínio senil do fim do Mundo. Não, esclareci. A minha mãe, simplesmente, antecipava o seu futuro, sabedora de que na nossa família "Julho é ladrão".
Heranças...

domingo, 19 de janeiro de 2014

Uma boleia atribulada

(Pelos meus dezoito anos (foto de baixo) viajei muito à boleia. Num Verão, corri o Algarve, história que fica para outra ocasião. Acumulei experiências, ouvi histórias, conheci pessoas. Muitos anos depois, passei algumas à narrativa. Uma delas é a que se segue, e situei-a nas curvas de Cós, na subida para a Santa Rita (foto de cima, do mesmo rolo da outra), um dos lugares mais bonitos da minha terra. Vale a pena a visita, sobretudo se incluir também o Mosteiro de Cós, o castelo de Porto de Mós — e os Mosteiros da Batalha e de Alcobaça, estes certamente já conhecidos de todos.)

Na viagem de regresso, estoirado, todo o corpo suspirando por descanso, adormecerá tão profundamente na camioneta que não fará o transbordo em Leiria e voltará novamente para trás... A uns cinco ou seis quilómetros, desperta-o o rádio, em berraria estridente, que condutor e revisor julgam-se sós no autocarro; atarantado vai ter com eles e pergunta se ainda falta muito para chegarem... 
— Já chegámos e já voltámos. Ainda estivemos uns dez minutos na garagem, responde o condutor. Acrescenta o revisor, em tom de justificação: 
— Olhei bem, e o autocarro estava vazio!
Desculpa-se: vinha a dormir, deitado no banco, lá atrás. 
— E agora?, pergunta preocupado, vendo que o autocarro ruge e devora estrada, motorista e revisor desejosos de chegar a casa, sem passageiros que protestem contra os tombos nas curvas ou que gritem assustados com o excesso de velocidade, o rádio sempre berrando tão alto que o João mal se consegue fazer ouvir.
— Ou volta connosco para Pombal, ou sai aqui e vai à boleia. 
— A esta hora, quem parará? 
Mas não tem outra solução e é isso que faz, com tanto azar que o deixam junto a um cemitério, raio de lugar, raio de hora, como chegará a casa, a uns bons trinta quilómetros? Meia hora depois, avista uns faróis, pede insistentemente boleia, o carro afrouxa, chiam os pneus com a brusquidão da travagem, ainda tenta explicar-se, mas interrompe-o voz apressada: — Entre! 
É médico e já devia estar há horas no hospital de Alcobaça, atrasou-o outro parto que correu mal, imagina rindo a fúria da parturiente que o aguarda gritando com dores, as imprecações da parteira, uma e outra supondo-o no conforto de cama de amante ou em farra bem bebida — se é homem há que esperar o pior, dir-lhes-á a sabedoria feminina. Não está incomodado, insultos e pragas aliviam o sofrimento de uma e a aflição da outra, e talvez entretanto a criança nasça sem a sua ajuda, poupando-lhe o trabalho de a pôr cá fora. É também aflito que o João se retesa e segura ao que pode, enquanto o doutor, divertido, troça dos seus receios, estranhos em quem pede boleia à porta do cemitério à meia-noite: parara convencido de que fosse alma penada que quisesse fugir de lugar tão macabro... O João, desesperadamente agarrado à porta para evitar cair em cima do doutor nas curvas, para não ser projectado nas travagens nem bater com a nuca nas acelerações, que, embora o veículo tenha já cinto de segurança não sabe como o pôr nem se atreveria a fazê-lo, ofendendo o condutor, aproveita uma recta para se explicar: tinha ido visitar a namorada, adormecera na camioneta e perdera a ligação... O médico ri, imaginando os motivos. Depois, sério, vendo a cara inocente do rapaz, dá conselhos, os quais, como sempre sucede com todos nós, só serão tomados, se o forem, tarde de mais. Diz-lhe que o comportamento feminino é frequentemente imprevisível, porque homens e mulheres pensam e reagem de diferentes maneiras, dão diferente importância às coisas... O João ouve-o, embora a atenção se concentre na estrada, como ele próprio gostaria que o médico também fizesse, olhando para o caminho em vez de o olhar nos olhos quando fala, bom seria também que não tirasse as mãos do volante para gesticular... Vendo que o pendura está mais preocupado com a sua condução “agressiva”, como a caracteriza, do que com os conselhos que prodigaliza, lembra-lhe que ele próprio trava quando entender necessário, não precisa o João de o fazer, nem de se inclinar nas curvas, que não vão de mota... Agora as mulheres, insiste, talvez por as considerar especialidade sua, pela profissão e pela importância que lhes dá fora dela, as mulheres podem ser, e são frequentemente, um problema, porque os homens as não compreendem nem são ensinados a fazê-lo. 
— Por exemplo, há mulheres que no período mudam por completo de comportamento, tornando-se agressivas, más, embirrantes, entendendo que por elas passarem mal os companheiros se devem desfazer em atenções, quando muitas vezes eles nem sequer sabem do sofrimento que as aflige — mas se gostassem realmente delas, deviam adivinhá-lo, sem que fosse preciso explicar-lhes, pensam elas. 
— Olhe, continua, conheci casos de casais com óptimo relacionamento que acabaram por se separar por causa desta incompreensão, elas ofendidas com a falta de solidariedade para com os tormentos delas, tão zangadas ficavam que acabada a menstruação os continuavam a privar da ração ou, se acaso entretanto faziam as pazes, entretanto começava novo período... Um círculo vicioso, está a ver, não é?
Mas o que o João via era a morte diante dos olhos: chiavam pneus, os faróis devassavam a noite, árvores e muros corriam loucamente direito ao carro e desviavam-se no último momento, o cheiro da borracha queimada penetrava novamente no interior do veículo... A dada altura, uma nuvem de centelhas chispou quando a parede de uma casa se não arredou, mas o médico nem sequer afrouxou: 
— Deixe lá, é só chapa riscada, o seguro paga a pintura. Onde é que você mora? 
E insistiu em o deixar em casa, para terror do João, ao imaginar aquela condução louca pelas curvas de Cós acima. Tinha razão em se assustar, que o médico parecia querer antecipar o lema que o povo defendeu nos anos noventa, sem conseguir convencer o Presidente da Câmara: Vamos fazer das curvas uma recta! Por várias vezes o carro teve pelo menos uma roda no precipício, chegou a entrar pelo atalho e após saltos violentos, apercebendo-se de que a o caminho não era por ali, acelerou em marcha atrás, enquanto os cabelos do João se punham em pé ao ver a velocidade a que recuavam sem que fosse possível descortinar na escuridão os limites do abismo; na Curva da Segunda o automóvel derrapou tanto que quase fez inversão de marcha: 
— Isto sim, são curvas que dão luta! Hei-de cá voltar! 
Subiam já em estrada melhor. 
— Olhe, tenho uns colegas com a mania dos ralis, vou desafiá-los para uma corridinha até cá acima.
— Moro aqui, senhor doutor, atreveu-se o João, ainda distante de casa, receoso de que o bólide entrasse pela sua rua adentro, raspando paredes, alvoroçando cães, apavorando moradores. — Muito obrigado pela boleia, sr. dr.!
— Não tem de quê. Olhe, tome o meu cartão, pode precisar se a sua namorada engravidar...
— Já está, descaiu-se o João. 
— Vê-se que você é dos que não perdem tempo!
Um Amor Inventado (ebook, Leya Online)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A epopeia dos malteses*

Esta medalha recorda-me a aventura do meu pai, que há quase cinquenta anos emigrou para a Holanda, com a típica mala de cartão,
— Devia comprar uma mala melhor...
— Serve bem. Quando chegar, ponho-a no lixo.
Por bens a roupa do corpo e algumas mudas, nenhum agasalho apropriado para os invernos da Batávia,
— Lá compro o que fizer falta!
Acima de tudo, forte vontade de trabalhar e uma determinação hoje inconcebível:
— Fico até se me acabar o dinheiro ou arranjar trabalho. Depois, que me ponham na fronteira...
Chegou após dias de comboio por essa Europa que desconhecia — tinha, apenas, a terceira classe — e descobriu que o contrato de trabalho era falso. De tanto calcorrear as ruas de Amesterdão em busca de trabalho feriu-se-lhe um pé, queria uma farmácia —  e o guia e intérprete, apenas interessado em o sugar até ao último tostão, dizia não haver.
— Os maiores ladrões que por lá encontrei foram os portugueses!
Mas também havia gatunos de outras nacionalidades. O primeiro patrão, num restaurante, não lhe pagou. O companheiro de aventura desistiu passado pouco tempo. Mal por mal, antes a pobreza da aldeia, o conforto da pátria.
Com o dinheiro a acabar, soube de vagas na KLM, a companhia holandesa de aviação. Concorreu. Esperou, já sem dinheiro. Entrou. E teve de esperar um mês inteiro pelo salário.
— Não roubei nem pedi esmola!
Nobre povo, nação valente, imortal
 porque, como as enguias, dominamos a arte ancestral da sobrevência
Lá, na fria Holanda, era neste clube, a cuja direcção chegou a pertencer, que entre outros emigrantes mitigava as saudades da pátria madrasta.

*A epopeia dos malteses é o título de um poema de Mário Beirão que  ser lido, por exemplo, aqui.

domingo, 12 de janeiro de 2014

O último moicano

Ninguém. Nem perto, nem longe, nas colinas distantes. Nem sequer chilreiam passarinhos. O único ruído é o da água que canta pelas regueiras, depois se espraia, encharca o chão, me prende as botas à terra, coladas com quilos de lama. Não é difícil imaginar, como na infância, que sou o único habitante do planeta.
Começo a poda dos pessegueiros, já a quererem abrolhar. Sinal de que o Inverno não vai suficientemente frio. Na encosta, o Sol aquece-me, o suor escorre testa abaixo, sujando os óculos -- os primeiros suores do ano, e só me não ponho em tronco nu por medo dos mosquitos que se chegaram, pressentindo refeição engordada pelas comezainas de Natal e passagem de ano.
Avança lentamente a labuta. A exigir técnica, arte, intuição sobretudo. Tal como a escrita. E, para ambas, tesoura afiada, serrote volta-não-volta.
O Sol esconde-se por detrás da minha Salgueira, é tempo de regressar. À noite, nem ligo a televisão para me não irritar. Sentado à lareira, sozinho, no silêncio aldeão, volto a sentir-me longe deste mundo e dos seus funerais de circo, das suas guerras de alecrim e mangerona, do este diz que aquele disse, das intrigas dos jornalistas, quantas vezes a falarem apenas para encher espaço televisivo, da praga dos comentadores.
Contemplo quase hipnotizado as chamas  dançantes, volto atrás no tempo, a um tempo que não vivi, revejo os meus avós paternos naquele mesmo canto, os cinco filhos a aquecerem mãos e pés ao fogo, costas geladas pelas correntes de ar, antes de correrem para as enxergas frias e tiritarem noite fora, estômagos sempre necessitados... E inevitavelmente ocorrem-me os versos de Jacques Brel (Jaurès):
Estavam gastos aos quinze anos
Acabados ao começar
Os doze meses chamavam-se Dezembro
Que vida tiveram os nossos avós
Entre o absinto e as missas cantadas
Eram velhos antes de o serem

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Invernias de antigamente

Nem mesmo turvados pelo álcool conseguem imaginar esses tempos que um dia virão e que poucos deles conhecerão, tempos em que a aldeia terá telefones, água canalizada, esgotos, estradas e caminhos alcatroados. Não haverá então fome em Portugal, mas outros problemas surgirão, fazendo talvez os seus netos e bisnetos desejarem ter vivido no tempo dos avós, em que éramos, disse-se depois, pobrezinhos, mas honrados e felizes. É sabido, ninguém está bem com o bem que tem. Fiquemos, portanto, naquele Inverno terrível, como poucos terá havido antes ou depois, desde que os Montes são habitados.
Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do Mouco. De manhã, atravessara com outras mulheres o rio de Cós, que no Verão é apenas um humilde fio de água, levando o jantar ao homem, empregado na padaria, as outras seguindo para a Castanheira, com o comer para os homens, que laboravam num lagar de azeite. Demorou-se, ajudando-o a carregar as braças de pinheiro ainda verdes com que aquecia o forno, mal protegidas da chuva numa arribana próxima, e no regresso encontrou a ponte já submersa pela inundação. As companheiras recearam atravessar a enchente, mas, ou afoita ou em fezes pela criança de dois anos que deixara sozinha fechada em casa, certamente a chorar desalmadamente há horas, acordando só e sentindo-se talvez abandonada, aventurou-se. Quando já estava na outra margem, afundou-se subitamente numa cova oculta na água barrenta e, apesar de não ter perdido o pé, o ar contido nas roupas levantou-a e a enxurrada arrastou-a sem que ninguém lhe pudesse valer; só no dia seguinte o corpo foi encontrado, numa várzea do Valado.
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pexins. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido.

Entre Cós e Alpedriz

domingo, 5 de janeiro de 2014

Canis Major

Anda o Mundo conturbado, sempre atormentado por cataclismos, guerras e crises económicas, o país angustia-se, deprime-se, discute, toda a gente preocupada com a Euribor, o Benfica e a bancarrota iminente. Só eu me alheio e, em vez de fazer contas à vida, peregrinar de banco em banco na renegociação das dívidas, agitar semanalmente lenço branco pelos estádios, me manifestar, juntar-me ao coro que entoa o "Está na hora / de o governo ir embora...", atormento-me com outras ralações, que aos mais apenas despertam sorrisos de comiseração: já é outra vez Natal e ainda há pouco era Verão os dias, as semanas, os meses, as estações e os próprios anos passam sem que os consiga afrouxar um pouco, o prazer, quando o há, tem já travo amargo, que o Inverno se aproxima inexoravelmente...
Como o Cão, farejador que busca Sentido para o que É enquanto segue Órion, o amo, pelo firmamento, por entre poeiras, planetas, estrelas, constelações e mitos, assim sou eu, outro que busca uma resposta que permita, senão resolver o puzzle da vida e dos seus mistérios, pelo menos encaixar uma qualquer peça neste quebra-cabeças; como me poderia então comprazer com as coisas fúteis, aceitar viver um dia, uma hora que fosse, reduzindo o meu destino a um abaixo-assinado, a uma reivindicação, a um protesto, tomando o transitório por perene como as estrelas, repetitivo como a Noite, cíclico como as Estações, cumulativo como o Tempo, definitivo como a Morte?
Não se incomodem comigo, ignorem-me, vão sem mim renegociar os vossos créditos, xingar os árbitros, exigir a demissão do governo; porém, se um de vós, num qualquer dia em que acorde mal disposto, indignado com a ironia da Vida, que nos mostra a Beleza e se compraz em a destruir, nos dá Compreensão para mais sofremos com o fim dos outros e antecipadamente com o nosso, e tiver vontade e disposição então que folheie este livro, nem que seja para logo o pôr de lado com desprezo, porque pouco recreia, a ninguém esclarece, a nada responde.

As Plêiades, inédito

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Todos príncipes

Andaba o rei Bamba a labrar no xeu campo...
Caía a chuva torrencial, pelas janelas embaciadas avistavam-se lameiros nos acessos ao Pavilhão Novo. O professor Lindley Cintra prosseguia a leitura da lenda do Rei Vamba ou Rei Wamba, que recolhera de pobre camponesa das Beiras aquando da pesquisa para o seu Atlas Linguístico da Península Ibérica. Assim tinham de ser as fontes: analfabetos, mais de sessenta e cinco anos, com os dentes da frente para que os esses ápico-alveolares não pudessem ser atribuídos à sua falta.
E eu via distinto o rei lavrador, pernas nuas, pés descalços, uma mão na rabiça, outra na vara com o aguilhão, a gritar incentivos aos bois Ah, Galante! Força, Moreno!
Isto é que era monarquia: a merecer o pão com o suor do rosto, sem vergonha de sujar as unhas na terra em vez de parasitar na Corte, esquiar nas estâncias alpinas, ou veranear nas praias quentes da França republicana, a fugir dos paparazzi, ansiosos para encher com fotos de flirts e pequenos escândalos as  revistas cor-de-rosa que nos salões de cabeleireira entretêm as mulheres, lhes dão matéria para fabricar sonhos, sobretudo às desiludidas com as imperfeições masculinas — tanto sapo beijado e nenhum metamorfoseou em belo príncipe!
A proclamação da República não extinguiu a realeza. Multiplicou-a. Democratizou-a. O que escasseia em marqueses, duques, condes e viscondes sobeja em príncipes e princesas. No café, correm histéricas as crianças, guincham desalmadamente, jogam à bola? A Suas Altezas Reais tudo se tolera. Não querem ir à escola? Seus desejos são ordens. Exigem dormir todas as noites com a mamã? Meu Príncipe! Minha Princesa! O Mundo será como quiseres, tua vontade a minha vontade, a nossa vontade, que apenas cá estamos, todos nós, para te servir!

Longe, longe, a uns trinta e tal anos de distância, distraio-me a ver moça de saltos altos que corre para a paragem de autocarro junto à faculdade, evita poças e lama, o vendaval revira-lhe o guarda-chuva, a chuva fustiga-a, ensopa-lhe os longos cabelos, depois perco-a de vista e amodorrado escuto as histórias do Mestre, encanto-me com a monarquia visigótica, nobres de carne, osso e trabalho: Andaba o Rei Bamba a labrar no xeu campo...

Álvaro, Álvaro, como sinto teus versos, como os faço meus!
Toda a gente que eu conheço (...),
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...(...)
Ó príncipes, meus irmãos, 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Natal (Do lacrau e da sua picada)

Nem se despe, para quê a maçada, se se deita sozinha — quem a viu e quem a vê! — e sobre a cama que insiste em rodar, sempre no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, volta atrás no tempo, muito atrás, até à meninice agora tão distante, agora tão longe, nos antípodas do tempo e do espaço.
Bons tempos, esses, os da infância, quando o mundo era de confiança e se crescia feliz e protegida, ignorante de tudo, até da própria pobreza, feliz com a roupa herdada das primas, feliz com os primeiros brincos, com uma simples boneca de plástico, nua como todos nós ao nascer, para depois lhe costurar os vestidos, ajudada pela mãe ou pelas primas mais crescidas... Bons esses natais, em casa dos avós, o mau tempo lá fora... O vento, furioso, investindo contra a casa, procurando orifício por onde entrar, as mulheres ao lume cosendo, remendando, tagarelando sempre, as panelas negras como carvão fervendo as couves para os porcos, a cafeteira enfarruscada aquecendo o café de cevada ou a água com açúcar para a sossega, o sapato deixado na lareira à espera das prendas que o Menino Jesus trará pela calada da noite, descendo pela chaminé quando todos dormirem...
Depois, a cama roda em sentido oposto, os avós já morreram, primeiro ele, depois ela. Os pais instalam-se de vez na casa herdada, fazem obras, o centro da casa, passa a ser a sala de jantar, completamente modificada e mobilada, a lareira só raramente é acesa, para não sujar, o presépio dá lugar à Árvore de Natal, o Menino Jesus é substituído pelo Pai Natal; então já tudo perdeu a graça, os pais deixam-se de fitas e acabam por lhe entregar em mão as prendas.

Do lacrau e da sua picada (2008)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Agonia

A mulher e a filha, que uma só não pode com ele, levam-no para dentro de casa, deitando-o no divã onde dorme só. Ocorre-lhe, então, que toda a sua vida foi apenas um dia que agora chega ao fim, embora a agonia se possa arrastar por meses ou mesmo anos, como sucedeu ao avô, acamado durante seis anos. Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão
baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se  e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nenhum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro na cova da Silveirinha, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante... 
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo…

Entre Cós e Alpedriz (2007)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Do vento e do barro

Soprou-me o vento sobre o barro, assim fez o meu ser,  pés colados à terra, cabeça acima das nuvens. Cozeu-me à sua imagem — irascível, instável, amigo de larguezas e de solidões. Deu-me por brinquedos imaginação e argila para os moldar — quase sempre aviões, como os que sobrevoavam as vinhas por onde corria descalço, braços abertos como asas tentando elevar-me da mediocridade terrena, e embalado nas descidas pulava barreiras e silvados, e por instantes também eu voava, não tão alto como os jactos que traçavam no céu linhas brancas, nem como os falcões que nele planavam, nem sequer como as esquivas perdizes de voo curto — era antes esvoaçar de melro de moita em moita, coisa de metros, depois, o preço de cada sonho: trambolhão na realidade, amortecido pela terra mole sempre amiga, para outra vez  me levantar e acelerar ladeira abaixo, outra ribanceira, outro salto, outra queda... 
No seu soprar constante o vento levou-me os cabelos um por um, metaforizou as minhas ribanceiras, os meus silvados, os meus voos, só preservou a veleidade de querer elevar-me acima da terra de que me fez, isolando-me daqueles que por todo o lado protestam, resmungam, vociferam, insultam, ameaçam. 
Torno-me suspeito pelo silêncio — a minha linguagem é outra. Oiço as vozes, escuto as raivas, misturo-as, observo as vidas, confundo-as, depois moldo-as no barro da minha escrita, sopro-lhes a vida, na esperança de que se não esboroem tão depressa como o pó de que o vento me fez...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As uvas do pessoal

O povo. Espezinhado, oprimido durante meio século — sem erguer a voz. Veio o 25 de Abril e era ouvi-lo gritar que jamais seria vencido. Na vanguarda, o sr. João: chegara a hora da mudança. De  fazer cooperativa, onde pobres e ricos entregassem a fruta, as uvas, e recebessem justa paga. 
Defendia a ideia há muito, no café, no largo, respeitosamente escutado — afinal era o senhor João, proprietário de muitas terras, empregador de servos —, mas, mal virava costas,
— O que ele quer sei eu!
Sabiam. Que toda a gente é igual, todos querem tudo para si, nada para os outros. Que Deus fizera torto o Mundo e não havia dilúvio que o endireitasse. Que o homem é o ladrão do homem. Não que negassem razão ao sr. João. Bem sabiam que os intermediários vendiam em Lisboa os pêssegos cinco vezes mais caros. Que penavam para receber o dinheiro do vinho vendido, esmolando adiantamentos junto dos compradores, figurões da terra, os quais pagavam quando e como queriam. 
Mas no minifúndio os camponeses têm dupla personalidade, simultaneamente proprietários e assalariados; cuspiam nas mãos, como se ainda segurassem o cabo da enxada, empurravam a boina para o alto da cabeça, acenavam afirmativamente, sim senhor, uma cooperativa é coisa boa, isso é que nos resolvia as coisas, mas mal o sr. João virava costas costas lá vinha
— O que ele quer sei eu!
Desconfiavam dele, bem se via. Era ateu. Contra o regime. Desconfiavam da família: um tio, republicano velho, estivera envolvido nos motins contra Salazar e, murmurava-se, em morte de homem. Um irmão, desertor, estava fugido em França.
Veio o 25 de Abril e o sr. João assumiu-se: era da CDU. Para os camponeses — comunista, como sempre tinham suspeitado.
A cooperativa avançava, empregava gente na abertura dos alicerces:
— O que é que fazes agora?
— Ando na construção da adega dos comunistas!
Nunca passou das fundações. Matou-a a caça aos comunistas, no Verão Quente de 75. Pouco importava se eram militantes ou meros simpatizantes. O ódio ancestral ao jacobinismo, aos pedreiros livres, aos ateus, renascera com as ocupações de terras no Alentejo, e os mais raivosos eram aqueles que de seu pouco iam além dos sete palmos que nos esperam no cemitério. 
A cooperativa, que comprara uvas, não as pagava, que o vinho não escoava, perdidos os mercados africanos com a descolonização. 
Pôs-se a esperança na ajuda revolucionária:
— A União Soviética compra o nosso vinho!
Não fazia diferença o serem vermelhos — contanto que o quisessem. E durante algum tempo sonhou-se largo, seriam muitos milhões de bêbedos eslavos a trocar o ruim vodka, que tanto mal faz à saúde, pelo nosso tinto quem sabe se graças a ele se operaria o terceiro milagre de Fátima, a conversão da santa Russia. Mas os tempos não estavam para milagres, e a fraternidade revolucionária era mera propaganda. O vinho não se vendia.
E numa noite homens revoltados pintaram em letras vermelhas no muro da casa do sr. João 
Pequeno Cunhal
Quando é que pagas as uvas do pessoal?" 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Outonais

De um lado do rego, a terra revirada pela charrua, do outro o verdura dos cardos a exigir lavoira. Um pouco mais longe, à esquerda, a vinha, avermelhada pelo Outono, quase a despir-se para dormir no Inverno. Em baixo, a eira e a sua casa. Ao fundo, massa indistinta azulada pela distância, os pinheirais que ocultam da vista o mar. Ausente da foto, mas a pairar sobre tudo isto, o cheiro a terra amanhada, solidão e silêncio, brutalmente quebrado pelo trabalhar do tractor, a protestar contra o esforço de esventrar barro, de virar leivas, de pôr a raiz ao sol às ervas daninhas -- ou, como gosto de lhes chamar, mal situadas.
Depois fresei uma tira da terra lavrada, abri regos, semeie ervilhas, couve-nabo e  -- perfeita loucura! -- plantei batatas, que a geada seguramente queimará. Assim é a agricultura: um risco assumido, uma aposta frequentemente perdida. Mas, lá reza adágio da minha terra, "mais vale perder a semente do que a sementeira". E a alegria de semear em dia soalheiro até faz esquecer o desgosto que já deu, que provavelmente dará -- encontrar batatal queimado pela friagem matinal.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Corte na aldeia

Toca o telemóvel.
—  Queres almoçar amanhã connosco?
— Sim, com todo o gosto. Estou na aldeia, mas regresso logo à tarde, conta comigo.
— À uma, no Alto Pina.
— Sim, mas consegues estar lá a essa hora? Com este frio deves ter montes de doentes...
— Aparece à uma, vais-te entretendo com as entradas, que eu não demoro.
Vamo-nos juntando. Um engenheiro que rompeu com  o Partido Comunista após quarenta anos de militância. Um pára-quedista reformado, meio surdo das explosões da guerra da Guiné. Um industrial. Um ancião, sempre muito bem posto, que foi contínuo na primeira escola em que trabalhei, perfeito gentleman, hoje como então — para recolher os estênceis, batia à porta da sala de professores e antes de entrar sempre perguntava se os senhores professores davam licença. Um poeta e historiador, que foi presidente de conselho directivo dessa escola até se aposentar. Um advogado. O médico anfitrião. E este cronista, sempre agarrado à comida como a querer matar carências dos velhos tempos. E à bebida. Não ao "louro chá no bule fumegando", tão do agrado das pessoas finas, mas ao roxo tinto, que desde Homero faz as delícias dos poetas, escritores e amantes das letras.
De que se fala nesses almoços só de homens, sem jovens? Política, futebol, trabalho, sociedade, família? En passant. A acompanhar as entradas. Dos conhecidos? O necessário para saber — O que é feito dele, há tanto tempo que o não vejo! —  Pois encontrei-o na semana passada...
Dos velhos tempos? Apenas para recordar boas histórias, primorosamente contadas.
Dos dramas existenciais? Sim,  que não acreditamos em vida após a morte, nem nos alegra eventual reconhecimento póstumo, mas, mesmo assim, e apesar de tudo, teimamos em escrever poemas, textos, contos, romances, como se...  E todo o restaurante ri à gargalhada quando o poeta resume as glórias post mortem que nos aguardam: — A viúva vai ao cemitério pôr-nos flores, lá conhece viúvo também ele choroso, juntam-se...
O mais é o filme que apreciámos ou não, os livros, as crónicas do Lobo Antunes na Visão, a exposição de pintura do nosso amigo João Alfaro. Depois, mesa limpa de pratos e travessas, vem a poesia.
A voz do poeta embarga-se ao ler o seu  "In memoriam Do Amílcar Fialho" (para nós, o Padre Amílcar). Interrompe-o o industrial, com a rudeza a que a amizade masculina recorre para esconder as lágrimas:
— Dê cá isso, que você não sabe dizer os seus poemas!
...se ele pudesse
ainda estar aqui
com o seu coração do tamanho
das tasquinhas do mundo
com sua voz rouca de fumo e álcool...

Recordamos o padre falecido, homenzarrão pleno de força, vozeirão a trovejar pelos corredores da escola, impressionante de aspecto, bruto de modos — homem bom como poucos, amigo de ateus e de comunistas.
Depois, "Almondinas":

Dizem que o rio chora toda a noite
Nas lágrimas tombadas dos salgueiros.
(...)
Dizem que o rio canta toda a noite...
Ou são os pássaros que traz na voz
Que soltam o seu canto a perseguir o vento
E as pedras nuas da distância?
Almonda! Almonda! Almonda!
Um eco...
(...)
Senta-se connosco a proprietária do restaurante, mulher gira e simpática, a fazer as suas recomendações para a sobremesa. Doentes do médico vêm-no cumprimentar, chegam-se conhecidos, o farmacêutico da aldeia, delegados de informação médica. Puxamos mais cadeiras para a mesa, oferecemos hospitaleira a garrafa, aplaudimos as canções de jovens, engenheiros agrícolas e comerciais de empresa da região, que em mesa próxima tocam e cantam maravilhosamente.
Fora, o sol outonal, já baixo, estende longas sombras das árvores pelo pátio, a lembrar-nos que vão sendo horas de partir. Ainda prolongamos pelas despedidas conversas inacabadas, que a fria nortada obriga a abreviar. Retomá-las-emos no próximo almoço. 

NOTAS:
(1) Título roubado ao poeta leiriense Rodrigues Lobo.
(3) O verso "o louro chá..." é, toda a gente o sabe, de Correia Garção.
(2) O poema In Memoriam é do António Mário; Almondinas, de Maria Sarmento.

domingo, 24 de novembro de 2013

25 de Novembro

O triste Avalor

Mas de nenhuma parte chegavam notícias. O João procurou nas grandes cidades, nas pequenas, nas vilas e aldeias deste país, por lugarejos e casais. Telefonou para todas as terras onde tinha conhecidos, muitos deles da tropa, perguntando se por lá tinham visto mulher e criança com tais e tais características. Pediu os endereços e escreveu a emigrantes, em França, na Suíça, na Holanda, na Suécia, no Canadá, no Brasil, nos Estados Unidos. Em vão. Ninguém tinha visto a Berta, nenhum indício dela. Logo que teve uma pequena licença, passou dias e dias em embaixadas e consulados, dormindo no meu quarto de estudante, arrastando-me consigo na demanda, para o ajudar com os meus fracos conhecimentos de francês e de inglês. Nada. A Berta desaparecera deste mundo, como ameaçara fazer. 
Dia após dia, noite após noite, pensou em partir também ele, sem rumo, sem destino, numa busca incessante, qual Avalor procurando em barca à deriva a sua Arima — mas o Mundo é tão grande e o homem bicho da terra tão pequeno — e uma réstia da razão que nos despoja da grandeza dos homens de antanho impediu-o de se perder por esses caminhos fora, numa peregrinação incomparavelmente mais louca do que a volta a Portugal em que a conhecera...
Notas
(1) Para os mais esquecidos: Avalor e Arima  são personagem da Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro.
(2) O fragmento pertence a um romance meu.

domingo, 17 de novembro de 2013

Chiqueda ou Chaqueda?

            Ensinava a minha professora da primeira classe — o que é a memória de uma criança! — que se podia dizer de ambas as formas. Lá vivi, nessa aldeia dos arredores de Alcobaça, entre os seis e os sete anos, lá volto de vez em quando, em busca de referências que se ajustem às imagens bem nítidas das minhas recordações.
            Em vão. Quase nada corresponde. Nem sequer encontro a casa térrea onde morámos, de pátio acimentado, a represa que me fascinava, a mim, que nunca vira tanta água, tão límpida, e nela nadavam rente ao fundo cardumes de peixes enormes — tudo então era enorme! — e cintilavam difusos ao passarem por redemoinho que se formava junto à conduta de madeira enegrecida que canalizava a água para a roda da azenha, de cujas pás escorria cantante para a vala que a levava de volta  ao ribeiro   onde uma manhã afoguei gatinhos, mandado pela minha mãe. Um deles, malha branca na cabeça, mais teimoso, nadou para a margem e eu, com a frieza dos meus seis anos, com uma cana empurrei-o de novo para a correnteza e a morte. Algo me deve ter tocado, ou a crueldade do acto, ou a resistência do gatinho, que ainda nem os olhos abria, para nunca mais ter esquecido o episódio. E nunca mais afoguei gatinhos…

            Lá está a estrada nova, que vi construir, cujo alcatrão derretido pelo calor do Verão se me colava aos pés descalços. A estrada "velha", por onde ia para a escola. Uma tarde, voltei atrás, apavorado com bicho, e a ninguém dizia o nome, os rapazes, supondo que era cobra, armaram-se com paus e pedras e acompanharam-me sem que eu confessasse que o bicho aterrador era simples libelinha, a que chamávamos tira-olhos, e eu fugira receoso de que me arrancasse os meus... Estrada velha onde vi noutra tarde rapazes que se divertiam a masturbar o longo pénis de um burro. Estrada onde surpreendi a garotada caminhando empoleirado em andas, que eu mesmo construí, a partir de descrição ouvida a meu avô, em ida à aldeia — e logo eles, invejosos, fizeram muitas, melhores, mais altas do que as minhas, mas eu desinteressara-me delas e fazia rodeiros com rodas de beterraba, que logo se desfaziam e dava aos porcos, às galinhas.
            Na frente da casa ficava a padaria, onde me enganaram pela primeira vez, levando pão sem pagar — pagaram-no os empregados, que eram os meus pais. Recordo o quarto onde, luz acesa, li e reli o suplemento de sábado do Diário Popular, Ria Connosco, intrigado com o desenho de uma sereia, a primeira que vi; ao lado, no divã, a minha irmã, bebé de ano, dormia tranquilamente sob o meu cuidado, consolada com o biberão de água com açúcar que lhe dera. Eu, inquieto, assustado, com a demora dos nossos pais tinha medo de adormecer, passavam as horas, e eles sem aparecer, eu sem saber deles!
            Era noite alta quando chegaram, tinham ido à terra na motoreta pensando demorar pouco, mas no regresso souberam que estava emboscado polícia da Viação e Trânsito na caça às multas — dois na motorizada, o que era proibido, a pendura sem capacete... E estava por pagar outra, trazia-me o meu pai na motoreta, e o polícia surpreendeu-nos numa curva junto à barragem da fábrica da Fervença, em vão lhe falou o meu pai ao sentimento: tinha-me levado à terra a ver os meus avós, tão pequeno não podia fazer a jornada a pé...

            Nada esqueci. Só não consigo encontrar a Chaqueda ou Chiqueda da minha infância, e ela, no entanto, está lá, irreconhecível sob as novas casas, desfigurada pelos arruamentos. Muito mais bonita, luminosa, com uma história em cada pormenor...

FOTO: azenha que não é a da minha infância, antes do restaurante onde casou a Sofia.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Os marretas

Há quem se compraza com as desgraças do quotidiano, embora não aparente ser muito afectado por elas. Quem gaste o tempo a afundar no pessimismo este pobre país, mesmo quando, como hoje, se ouvem e lêem umas notícias encorajadoras, daquelas que nos trazem algum alento, alguma esperança, ténue embora, após os anos negros em que temos vivido -- e os marretas vá de deitar abaixo, ansiosos para que tudo corra mal, como se o que estivesse em jogo fosse o governo ou as oposições e não este pobre Portugal.
Se gastassem a energia, que não lhes falta para a conversa, a fazer algo por si próprios, pelas suas famílias, pelos outros -- pela pátria -- aposto que muito mais depressa sairíamos do atoleiro. E até lá, o sofrimento seria menos penoso, não tendo de os ouvir de manhã à noite.

FOTO: uma das minhas lavoiras, hoje. O dia estava a pedir. A terra, de sazão: molhada, mas não encharcada. A charrua cortava-a como faca a manteiga. E eu, num dia tão lindo, em lado nenhum me sinto melhor do que a trabalhar na terra, em completo sossego, desligado do Mundo e dos seus profetas da desgraça. 
Como a retoma do crescimento económico, as sementeiras podem fracassar -- foi o que sucedeu na época passada. O tempo pode nem sequer me deixar semear. E todo o trabalho estará perdido.
Vale a pena tudo isto? Respondo com os conhecidos versos do poeta: "Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena."
Mas alma é o que falta ao povo, ao país...

sábado, 9 de novembro de 2013

O nosso dia de sorte

Tinha-me esquecido da greve nas escolas. Surpreende-me a chegada dos meus três netos mais velhos, pouco passava das nove da manhã, eufóricos, em algazarra ensurdecedora -- pobres professores!, penso frequentemente.
À porta, grita-me o Miguel (cinco anos):
-- Avô, hoje é o nosso dia de sorte!

Nos trinta e seis anos em que fui professor, fiz umas greves, outras não. Ponderava os motivos e as motivações. Num prato da balança, o pesado rombo no orçamento, o prejuízo para os alunos, sempre angustiado com a falta de tempo; no outro prato, a revolta, as frustrações, os ganhos possíveis, a solidariedade com os colegas...

E os alunos: -- Stôr, já decidiu se faz greve? Vá, faça lá!
-- Estamos atrasados, os exames estão à porta...
-- Faça lá, que depois a gente até estuda com mais vontade...
-- Tenham paciência, eu é que decido!
-- Mas decida bem. Já basta ainda não nos ter dado um único feriado!

Ouve-se dizer que uma greve para ter consequências tem de prejudicar muita gente. Talvez o mesmo aconteça com as greves dos professores. Mas deixam tanta criança feliz!

(NOTA: deixei passar o dia da greve e o do rescaldo antes de publicar este textozinho. Estou de fora, não quero que os colegas no activo pensem que os quero influenciar.)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O vedor

Foi a época em que renasceu o novo-riquismo, animado pelo volfrâmio dos fundos comunitários. Jipes. Viagens a lugares exóticos. Piscinas... 
Alma camponesa a minha. Sempre a duvidar de riquezas fáceis. Avessa a exibicionismos, incomodada com sinais exteriores de riqueza. Sempre do contra, sempre contra a corrente. Indiferente a conselhos sensatos:
-- Tens área, manda lixar a horta, faz mas é piscina! Fica-te mais barato comprares as couves e, já viste, uma piscina! Logo pela manhã um mergulho...
Eu objectava: piscina quer limpeza, manutenção... É trabalhosa, cara... Além do mais, não gosto assim tanto de água. E tinha a piscina municipal a dois ou três minutos de carro... Depois, nenhuma couve comprada tem o gosto das minhas, plantadas com as minhas mãos, regadas com o suor do meu rosto -- que, embora abundante, era insuficiente para a sede delas.
Pensei então fazer um poço. Recomendaram-me um vedor, ferroviário imponente, pela altura, pela largura:
-- Nunca falha! Em vez do forcado de oliveira, usa uma fita de aço. Acerta sempre! E até te cava o poço!
Vem o homenzarrão, percorre o quintal, braços estendidos a segurar a fita de aço torcida, que lhe chicoteia violentamente a enorme pança ao passar em certos sítios: 
-- Tem aqui água que não a gasta!
-- Funda?
-- A três metros.
Eu estava impressionado. E via-me já a regar copiosamente os mimos da Primavera, a fazer horta até no Verão... 
Decidi-me: -- Como é que se faz um poço? 
-- Compre as manilhas, basta noventa de diâmetro, que eu abro-o. Noventa centímetros é o suficiente para eu me mexer lá dentro.
Fiquei preocupado. O homem era gordo, era velho -- e se me morria a cavar o poço? 
-- Faço seguro por quantos dias? 
-- Para mim, não é preciso, tenho Caixa da CP. Mande lá vir as manilhas e depois diga alguma coisa.
-- E o preço?
-- Depois combinamos. O que é preciso é que ninguém fique mal.
Comprei as manilhas. Com uns dois metros de diâmetro, por via das dúvidas -- não queria o homem entalado lá em baixo. E mandei-lhe recados. Semana após semana. 
Cresciam-me orelhas de burro, longas, espetadas, ao ver, dia após dia, o meu quintal transmudado em estaleiro de obras, as manilhas a ocuparem quase toda a horta... Como me veria livre delas?
Sem saber o que mais fazer, fui procurar o ferroviário-vedor a casa. Não estava. A neta, mulher feita, quis saber o que lá me levava. Desabafei, contando a história -- e levei descompostura severa: se achava bem pôr homem daquela idade, doente do coração, a cavar poço; se não tinha vergonha... Tentei ripostar: ele é que se oferecera, nada me dissera do coração, demais a mais não trabalharia de graça, constara-me até que ele costumava abrir poços depois de despegar da CP...
Pior. A culpa era de malandros como eu, que o desencaminhavam, roubando-o ao descanso, afastando-o da família, dos netos. Abalei deselegantemente, de orelhas caídas, para não ouvir mais reprimendas. A moça tinha razão, quem me mandara dar ouvidos a velho gabarola?
O poço? Pois não sabendo de mais ninguém que o abrisse, deitei eu mãos à obra. Com as minhas mãozinhas delicadas de professor. Afinal, era só cavar, cavar... E retirar a terra, coisa que um homem não pode fazer sozinho. Valeu-me a ajuda de familiares e amigos, sempre prontos a dar uma mão, as duas neste caso, em cada uma das minhas ideias malucas.
Tinha os meus trinta e seis anos, muita força de vontade e alguma força física, eles eram rijos e tenazes, por todos lá afundámos o poço até aos sete metros.
Água? Um veiozinho por nascente, que secava em Maio... A convencer-me de que o vedor acertara em cheio: eu não conseguia gastar a água que havia por debaixo do solo!

FOTOS:
1. As manilhas no quintal.
2. A escavar o poço. Nota-se, por detrás de mim, alguma humidade nas manilhas -- a prometida água, tão abundante que a não gastaria.
3. Petisco para os trabalhadores. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As notícias interessantes

A meio da semana, a meio da manhã, o rapaz surpreende a avó com visita inesperada. Olha em volta, e não o vendo, logo pergunta pelo avô.
-- Saiu, foi lá abaixo, à cidade, na motoreta... Hoje não trabalhas?
-- Ele demora?
-- Foi comprar o jornal, deve estar por aí a aparecer. O pior é se encontra este, se encontra aquele, um copito aqui, um copito ali...
-- E eu com tanta pressa! Vim numa correria, é só falar com o avô, e vou-me logo embora. Tenho uma novidade para contar. Mas primeiro tem de ser ao avô. Se quiser, pode ouvir, mas primeiro é a ele.
A espera prolonga-se. Impacienta-se o moço, angustiado com a lenta passagem do tempo, que acompanha de minuto a minuto no smartphone:
-- E se eu fosse ver do avô?
-- Sabes que ele não gosta. Está sempre a dizer: um homem só se procura ao fim de três dias.
Ouve-se finalmente o traque-traque da motoreta. O rapaz corre ao portão, sim, é o avô que regressa, inconfundível silhueta azul operário, capacete estilo penico. Vem com pressa, cumprimenta o neto a despachar, logo faz tenção de seguir para o seu refúgio, o barraco junto ao galinheiro, ansioso por ler no seu sossego as desgraças do dia, ainda a escorrerem sangue das parangonas vermelhas do Correio da Manhã. O neto segue-o, tenta captar-lhe a atenção:
-- Avô, vim cá de propósito para falar consigo, não quis que soubesse por outra pessoa, quero que seja o primeiro a saber...
O avô detém-se, levanta os olhos da primeira página, corta rude o arrazoado, impaciente com as delongas.
-- Saber o quê?
-- Vou ser pai...
-- E o que é que isso me interessa?
Aliviado como se se tivesse livrado de moscardo de zumbido incomodativo, segue para o seu refúgio, a inteirar-se com calma daquilo que é verdadeiramente interessante: os assaltos a residências, os crimes horrendos, os abusos revoltantes, por fim, o futebol, à maneira de sobremesa. Depois, consolado, fechará o jornal e irá ver de almoço...

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Culpa do Halloween

Roubaram a única abóbora da minha produção!