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quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Ida à pesca das enguias

Num dia de temporal como o de hoje, após uma semana de chuva intensa, constante, dessas em que nada se podia fazer no campo, o meu pai, grande amigo de patuscadas, convidou o meu tio Zé para irem à pesca de enguias nas valas de povoação vizinha, a Ribeira do Pereiro:

Com este tempo, o guarda-rios passa o dia na taberna do Sulpício.

Não está tempo para isso, chove a potes… Encharcamo-nos todos, não nos livramos de pneumonia...

O meu pai, olhando para o céu: Vem aí uma aberta, esta tarde não chove, sentenciou entendido.

E eu, fartíssimo de estar fechado em casa nessas férias de Natal, pedi para ir também, que me cheirava a aventura.

Na minha terra não há cursos de água, pelo que logo após o jantar, como então se chamava ao almoço, nos metemos ao caminho, capuz feito de saco de serapilheira, botins de borracha, cestos para apanhar as enguias nas valas da Ribeira do Pereiro. A meio do caminho, na Salgueira, deu em chover torrencialmente.

É melhor voltarmos para casa, vai ser toda a tarde assim, disse o meu tio avisadamente, vendo a escuridão do céu.

E o meu pai, talvez por espírito de contradição, seguramente por teimosia: És é maluco, estamos quase lá, a chuva já passa, chuva civil não molha militar, e tretas do género.


Avançamos, a atascarmo-nos na terra encharcada, a escorregar pelas serventias e caminhos lamacentos. Chegámos às Cobradas. Lá em baixo, por entre as cortinas de água que uniam céu e terra, nem se vislumbravam as casas da povoação.

O meu tio, mais ajuizado, disse que não prosseguia. Ainda caio e parto uma perna, fico inválido, e tenho de sustentar a família. Não vou.

O meu pai teimava. Afinal, era só descer aquelas ravinas…

E depois metes-te dentro das valas, com água por baixo e por cima? És é maluco!

Era. E teimoso. E odiava alterar planos. Tal e qual como eu sou.

Perto, havia um palheiro sem paredes. O meu tio abrigou-se lá: Daqui não saio enquanto não deixar de chover.

O meu pai avançou, eu atrás. Mas as botas de borracha escorregaram na lama da ravina, caiu e rolou por terra. Voltou para o palheiro.

Eu não te disse?, resmungou o meu tio.

Desculpou-se com as botas de borracha, escorregavam na lama como as enguias. E estendendo-se sobre os caules de milho, logo começou a ressonar, sempre sonolento e exausto, de noite padeiro, de dia agricultor. Todas as noites era o mesmo fandango: a minha mãe, logo às onze da noite, Acorda, Afonso! Ele nada. Ela insistia. Abanava-o, chamava-o, mas o meu pai, que não dormia mais de três ou quatro horas por dia, nem reagia. Lá para a meia-noite, hora a que era suposto “pegar”, começava a rabujar. E, finalmente, já atrasado, levantava-se, retirava a pequena maleta de couro onde guardava o dinheiro da venda do pão do prego na parede, punha a trabalhar a motorizada Mondial, e fazia-se à escuridão da noite, deixando-nos receosos de que, mal acordado, caísse em barranco nas curvas de Cós e por lá ficasse estendido toda a noite.

Como aconteceu algumas vezes. Culpa do fantasma que lá o esperava para o assombrar, ou de pau que se enfiava nos raios, quase sempre do raio do vinho — a sorte de um homem é escapar, dizia, e a sorte só o desamparou muito mais tarde, quando morreu debaixo do tractor.

Fora do palheiro, a chuva incessante, densa, fundia vinhas, cabeços, carreiros, os próprios pinheiros à nossa volta numa mesma névoa, como se as nuvens tivessem descido à terra, o que, por lá sucede frequentemente. Fez-se noite rapidamente. Farto de esperar por aberta, certamente desejoso de chegar a casa e se enxugar à lareira, o meu tio acordou o meu pai. Com as dificuldades costumeiras: O quê? Onde? Deixa-me mas é dormir!

Lá acabou por se levantar, rabugento. Tarde perdida, sem enguias, mas molhados como elas. E como enguias, escorregámos quase às cegas pelos carreiros barrentos, chicoteados pelas vides molhadas, subida após subida até à aldeia e depois a casa, logo a minha mãe, vendo-me molhado como pinto, ralha: Tira-me já essa roupa e vem aquecer-te ao lume!, e para o meu pai: Vêm bonitos, vêm! Que falta de juízo, e levares o garoto com este temporal, sabendo como ele é enfermiço! Amanhã vai estar de cama outra vez!

Não fiquei doente. Mas, fosse do que fosse, nunca mais o meu pai me levou às enguias.

FOTO: uns anos mais tarde, á porta da nossa adega. o meu pai, orgulhoso com o seu atomizador Fontan, o meu tio Zé, o meu primo Fernando e, o mais pequeno, o meu irmão. Eu tirei a foto.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

O correio electrónico e eu

 Apesar do filtros anti-spam, sou bombardeado diariamente com montes de lixo, que, antes de mais, marco como “correio indesejado” ; depois, leio apenas os títulos das mensagens de empresas que conheço e com que tive ou tenho relações, e apago-as, excepto se for para assunto de meu interesse ou para fazer pagamentos, que ficam para a noite;  as de amigos com anexos, que não consigo ler no telemóvel, e as que exigem atenção e reflexão, ficam também para a noite…

E é aqui, e por isso, que falho amiúde.  Não  raro, cansado, adormeço no sofá, e as mensagens acabam esquecidas, e com outras à frente, vão-se acumulando, na pasta, depressa desaparecem da vista e só uma pesquisa as traria de volta, se me lembrasse delas…

É a completa ausência de organização e de agenda, comandada pela preguiça. Afinal, o “método de trabalho” que adoptei ao aposentar-me.


Conversas ao telefone

Nunca apreciei as conversas ao telefone.  Ao fim de algum tempo,  a mão que o segura fica dormente, aquece a orelha, mudo para a outra, vejo a conversa a arrastar-se, mas não a desenvolver-se, a impaciência provoca-me bicho-carpinteiro, e os numerosos afazeres com que preencho os dias reclamam insistentemente a minha atenção...

Também nisto me revejo na (minha) avó da Luz. Apesar da solidão, que bem lhe devia pesar durante as longas invernias na aldeia quase deserta, quando me telefonava a conversa era mais ou menos esta: “Vocês estão todos bons? Olha, se cá quiseres vir, já há pêras apanhadoiras. Beijos para todos, fiquem bem e até à próxima, se Deus quiser." E desligava.

Já a sua filha (e minha mãe) se alongava um pouco mais ao telefone; mas, também ela, logo que tinha sabido dos "seus", me despachava, mesmo quando eu procurava prolongar a conversa:

"Mãe, e por aí?"

"Ora, por cá tudo na mesma, não há novidades. Vou desligar que estou a arrefecer. E estou em pé, doem-me  as costas."

Hoje, que tenho a idade de uma e de outra, sinto também que conversar longamente requer ocasião e condições: é preciso disponibilidade, estar presencialmente com os interlocutores, bem instalado, confortável, melhor ainda com comida e bebida à frente — e televisão, computadores e telemóveis desligados.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Gheke pepe: nota de uma leitora

 Continuam a chegar reacções à leitura de Gheke Pepe, como esta, de Maria Emília Simões, que publico com a sua autorização. Muito obrigado! 

“…Entretanto, gostava de lhe dar parte do que foi a minha reacção ao livro - porque penso que todos gostamos de receber este tipo de retorno quando somos lidos. Não pretendo fazer crítica, apenas expor aquilo que senti e pensei. A primeira coisa que salta à vista é que se trata de uma obra escrita com paixão - e isso dá-lhe um impacto muito próprio. Depois, o ambiente da época está muito bem recriado - tanto na linguagem como nos episódios pensados para caracterizar os comportamentos. O contraste entre a crueza da linguagem vulgar usada na descrição do quotidiano, e a doçura e lirismo daquela que é usada para descrever tudo aquilo que diz respeito ao romance amoroso em curso cria uma dinâmica muito interessante. A ambiguidade da situação em torno de Esther, muito bem concebida, cria uma reflexão sobre a atracção sexual que, não sendo profunda, não deixa de levantar questões importantes. Gostei do desenvolvimento da intriga, muito bem entrosada nos factos históricos, e da bem urdida trama. Parabéns! E obrigada por estes bons momentos passados na companhia de Gheke Pepe. Como sabe, gostei de Um Amor Inventado, mas considero esta obra superior: muito bem conseguida!”