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terça-feira, 17 de agosto de 2021

Catarata

Uma cirurgia a catarata no olho direito, feita no sábado passado, força-me à inactividade pelo menos até à próxima sexta-feira, dia da consulta. Ainda sem óculos adequados, o desequilíbrio provocado pelo desencontro entre a visão de cada um dos olhos é deveras perturbador.

Tudo aquilo que se costuma sugerir a quem se queixa de nada ter para fazer – ler, ver filmes, passear, ir à praia – ou o que eu costumava fazer, como trabalhar na horta e no campo, andar de mota, bricologe, cozinhar, limpar a casa, exercitar-me fisicamente, me está vedado, devendo evitar a luz do Sol, o vento, o pó, e não baixar a cabeça, levantar pesos ou fazer esforços.

Uma semana de tédio profundo, portanto. E depois, logo se verá, conforme o que o médico disser.

Resta-me o descanso. Que eu só aprecio quando cansado.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Na loja da aldeia

 – Vai-me à loja comprar fósforos!

Uma corrida, e estava lá, pois ficava ao virar da esquina. Chão pavimentado em frente, ardósia negra, quente, na frontaria, loja enorme, aos meus olhos de criança, À esquerda, o posto de correios, o Diário de Notícias aparafusado a ripa de madeira sobre o balcão em L; a seguir, os panos e materiais de costura, ao fundo, por detrás do balcão com a balança, a faca do bacalhau, os papéis de embrulho, ficavam as tulhas do arroz, da massa, do açúcar, as prateleiras com produtos de drogaria, de loja de ferragens, de tudo um pouco. No ar, leve cheiro a sabão azul acabado de cortar, a cloreto. Atrás, porta que dava para a taberna, cujos fregueses entravam por estreito corredor acimentado, onde ficava a máquina de venda de petróleo.

A empregada, a Cesaltina, destoava da rudeza campestre pelos seus bons modos, simpatia, presença elegante. De fora da terra, não estava contaminada pelas guerras e más relações indígenas.

– Quando veio para cá, contava a minha avó, parecia uma bonequinha, vestida com o traje das valadeiras, que é parecido com o das pexinas (peixeiras da Nazaré).

Cresceu atrás do balcão, por todos estimada. Quando a minha irmã e a minha prima brincavam às lojas, discutiam por vezes: – Eu sou a Cesaltina…

– Não és nada, hoje sou eu, que tu foste ontem!

E a Cesaltina pergunta-me o que quero, interrompendo a conversa com freguesas que escolhiam panos. Aviado, estendo-lhe os vinte e cinco tostões e abalo a correr.

– Espera aí, toma o troco!

Era torcido. Convencido, sabichão, parvo a mais não poder ser.

– Não quero!

– Mas tens de levar o troco!

– Não quero! A minha mãe não mo mandou levar!

E já chegava a casa, bofes à boca como sempre, estendo as compras à minha mãe,

– E o troco?

– Troco? Mas não mo mandou trazer!

– Já buscá-lo!

Os modos da minha mãe cortaram rente a minha resmunguice.

Foi devagar, cabisbaixo, que voltei à loja e à Cesaltina:

– A minha mãe mandou-me buscar o troco…

Ela olhou para as outras mulheres enquanto retirava o dinheiro da gaveta:

– Agora não to havia de dar…, dizia, enquanto me contava as moedas para a mão.