Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de março de 2023

O prémio

No meu primeiro ano do Curso Comercial, tive, pela primeira vez, aulas de Inglês. A professora, jovem em início de carreira, chegou cheia de ilusões e de boa vontade. Para nos motivar, haveria, portando-nos bem, aulas em que traria gira-discos e ouviríamos música inglesa e, após cada teste, ofereceria um single ao melhor aluno.

Mas a turma era má. Tinha muitos repetentes, alguns já a avizinhar os vinte anos, filhos de gente importante na cidade. E nós, treze, catorze anos, que queríamos aprender a língua dos Beatles, corresponder à simpatia da professora, assistíamos com desgosto e desaprovação interior ao abandalhar as aulas. Depressa se acabou a música e o gira-discos, de nada adiantou tentar, fora das aulas, apelar ao Augusto , o líder do gangue: Eu quero que a professora boazinha se f.! E ai de ti se dizes alguma coisa, cá fora levas no focinho!

Entregou o primeiro teste, então chamado exercício escrito, elogiou o melhor aluno, quis saber que disco queria, e, na aula seguinte, entregou-lho. Eu terei ficado em terceiro ou quarto lugar. A história repetiu-se no teste seguinte. Ainda não tinha chegado a minha vez.

Incapaz de ter mão na gandulagem, a professora passou a apresentar queixa. Não adiantava mandar o Augusto para a rua, porque ele recusava-se a sair. O director da escola incumbiu o director de curso de resolver o conflito.

Esperava eu que ouvisse cada um de nós em privado, e formasse opinião depois. Nada disso. Sem a presença da professora na sala, adoptou a postura de camarada, de compincha: Ora vamos lá a saber o que se passa, a professora apresentou queixa da turma. 

Toma a palavra o Augusto e culpa a professora: Veja o “senhor doutor” que até teve o descaramento de dizer, a turma pode ser testemunha: Eu tenho a faca e o queijo na mão! E eu não me calei: se a stora tem a faca e o queijo, eu tenho o pires!

O director de curso, professor de Contabilidade do terceiro ano, acena em concordância com a cabeça: É o primeiro ano de ensino dela, eu… e contava histórias da sua experiência pessoal comprovando que, ele sim, é que era bom professor. Ficámos nisto até ao toque de saída, o Augusto e os seus apoiantes a elogiarem o director de curso, ali promovido a “senhor doutor” (contabilista não tinha direito ao título, ao contrário da jovem professora, licenciada em letras, a quem o negavam, referindo-se-lhe como “ela”), Fiquem descansados, vou falar com a minha colega para ver se ela tem mais calma.

Aula seguinte, mesmo comportamento, interrupções frequentes, sempre a despropósito, disparates e piadas secas constantes, enquanto, debalde, a professora, sabendo-se desautorizada pela hierarquia, até porque o Augusto não se coibia de lhe dizer que o senhor doutor directos do curso “nos tinha dado razão, tentava, ao menos, “dar a matéria“.

Terceiro teste, último do primeiro período e, finalmente, a melhor nota é a minha. E já sabia que single iria pedir, tinha previamente conversado com os colegas de quarto:

— Vou pedir o What is reading dos Beatles!

Riram muito. Queres dizer, Dock of a Bay, do Otis Redding!

— Pois, é isso!

Mas não pedi.

— Têm-se portado tão mal que não vai haver mais prémios nem confianças. A partir de agora, nem os dentes me vão voltar a ver!

quarta-feira, 18 de maio de 2022

No tempo da magia

 “Em nome do Anjo Bento…”

E a velha passava uma vez com a faca ferrugenta  sobre o cobrão

“Eu te corto…”

E a faca passava segunda vez

“Bicho peçonhento…”

Última passagem coma faca. A terceira.

“Está feito. Amanhã ou depois já estás bom. Mas, se o rabo se tivesse juntado à cabeça, ias para debaixo da terra.

Assim se tratavam as picadas de aranha. E todas as outras maleitas, cada qual com sua oração. O que faltava em médicos, em remédios, sobrava em rezas, as quais, se ditas com fé suficiente, porque então como hoje basta acreditar para que o milagre aconteça, tudo curavam graças à intervenção dos santos  da especialidade. 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Na loja da aldeia

 – Vai-me à loja comprar fósforos!

Uma corrida, e estava lá, pois ficava ao virar da esquina. Chão pavimentado em frente, ardósia negra, quente, na frontaria, loja enorme, aos meus olhos de criança, À esquerda, o posto de correios, o Diário de Notícias aparafusado a ripa de madeira sobre o balcão em L; a seguir, os panos e materiais de costura, ao fundo, por detrás do balcão com a balança, a faca do bacalhau, os papéis de embrulho, ficavam as tulhas do arroz, da massa, do açúcar, as prateleiras com produtos de drogaria, de loja de ferragens, de tudo um pouco. No ar, leve cheiro a sabão azul acabado de cortar, a cloreto. Atrás, porta que dava para a taberna, cujos fregueses entravam por estreito corredor acimentado, onde ficava a máquina de venda de petróleo.

A empregada, a Cesaltina, destoava da rudeza campestre pelos seus bons modos, simpatia, presença elegante. De fora da terra, não estava contaminada pelas guerras e más relações indígenas.

– Quando veio para cá, contava a minha avó, parecia uma bonequinha, vestida com o traje das valadeiras, que é parecido com o das pexinas (peixeiras da Nazaré).

Cresceu atrás do balcão, por todos estimada. Quando a minha irmã e a minha prima brincavam às lojas, discutiam por vezes: – Eu sou a Cesaltina…

– Não és nada, hoje sou eu, que tu foste ontem!

E a Cesaltina pergunta-me o que quero, interrompendo a conversa com freguesas que escolhiam panos. Aviado, estendo-lhe os vinte e cinco tostões e abalo a correr.

– Espera aí, toma o troco!

Era torcido. Convencido, sabichão, parvo a mais não poder ser.

– Não quero!

– Mas tens de levar o troco!

– Não quero! A minha mãe não mo mandou levar!

E já chegava a casa, bofes à boca como sempre, estendo as compras à minha mãe,

– E o troco?

– Troco? Mas não mo mandou trazer!

– Já buscá-lo!

Os modos da minha mãe cortaram rente a minha resmunguice.

Foi devagar, cabisbaixo, que voltei à loja e à Cesaltina:

– A minha mãe mandou-me buscar o troco…

Ela olhou para as outras mulheres enquanto retirava o dinheiro da gaveta:

– Agora não to havia de dar…, dizia, enquanto me contava as moedas para a mão.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

A emboscada

Diariamente, uma matilha de rafeiros, arraçados de fox-terrier, esperava-me emboscada, quando, aí pelos meus treze, catorze anos, voltava da escola, rumo à casa onde estava hospedado, numa das pontas de Leiria: num ladrar infernal, cercavam-me, raivosos, a tentarem rasgar-me as calças, dilacerar-me as pernas. E eu, apavorado, costas contra as paredes das casas, tentava mantê-los à distância, repelindo-os com os pés, com os livros como se paus fossem, enquanto, como o caranguejo, andava de lado, até me afastar o suficiente do território a que chamavam seu e me deixarem ir à minha vida, sempre ladrando ameaçadores.

Se eu não andasse sempre na Lua, em permanente devaneio, lembrar-me-ia de ir prevenido com bolsada de pedras, ou, melhor, de ir dar uma grande volta, evitando passar pela azenha de onde eles saiam. Mas apanhavam-me sempre desprevenido. Creio que sabiam o meu horário.

Não foi premeditado, mas naquela tarde, cercado, quase mordido pela rafeiragem, fingi meter a mão no bolso como se lá tivesse pedra; recuaram, para voltarem ainda mais agressivos. E eu encontrei na algibeira uma bomba de Carnaval, de um modelo então novo, que acendia sem fósforo, bastava riscar na lixa da caixa de fósforos.

Foi o que fiz. Atirei-lhes a bombinha. Recuaram novamente, para , cada qual de seu lado, me voltarem a cercar e a atacar. O silvo da bicha acesa, como cobra furiosa, atraiu-os. Lançaram-se sobre a bomba, que saltitava na estrada, fumegando, Béu, béu, béu, a tentarem abocá-la.

Pum!

Ah cães dum raio! Foi ver qual fugia mais depressa para o moinho!

E daí para a frente, se me espreitavam era para prontamente desaparecerem, refugiando-se apavorados em casa.


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A minha bicicleta

 – Afilhado, quando fizeres a quarta classe, dou-te uma bicicleta!

A promessa apanhou-me de surpresa, deixou-me sem fala, a rebentar de alegria interior. Uma bicicleta! Minha, não como a de outros garotos, surripiada às escondidas ao pai, ou a irmão mais velho, o que lhes valia depois umas boas tareias. Logo que pude, deixei-o na cavaqueira na adega com o meu pai, e corri a dar a grande notícia à minha mãe. 


-- Dá-te uma bicicleta? Tomaria ele ter uma! Isso são coisas que se dizem aos garotos.

– Dá, ele disse que dava, o meu pai ouviu.

– Então espera por ela.

Esperei. Fiz a quarta classe, o Ciclo preparatório, o Curso Comercial, etc., etc. Sempre sem bicicleta. Que essa há-de dar-ma o meu padrinho, assim prometeu num serão na nossa adega sessenta anos atrás.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Jimbrinhas

Era demasiado pequeno, franzino, sem jeito para nada. E, então, não faltavam mimos, que o bullying e os traumas de infância ainda não haviam sido inventados:

Não prestas para nada! Mal empregado o que comes! Não podes com uma gata pelo rabo! Não sabes fazer nada! E, a resumir, a culminar a caracterização da minha inépcia, inevitavelmente vinha palavra que tudo resumia e nunca ouvi fora da aldeia: jimbrinhas!

Só na escola brilhava. Sabichão. Devorador dos poucos livros que me passavam ao alcance, de tudo o que era letra, fosse em edital, em jornal velho, em pacote de açúcar. Mas, fora das letras – um jimbrinhas chapado!

Chegaram os livros de ‘cóbois’. E cada garoto logo escolheu a sua personagem, mais forte no soco, mais rápida no sacar do revólver, mais fatal no tiro, mais justiceira na missão de punir os maus, índios e ladrões de gado, jogadores invariavelmente batoteiros, assaltantes de diligências:

– Eu sou o Kit Carson!

– O Arizona Kid!

– O Roy Roger!

– O Texas Kid!

– O Bill the Kid!

– Eu é que sou esse! E rebolavam já, engalfinhados, no pé da terra batida da estrada.

Sem querer entrar em brigas, lá declarei que era aquele que nenhum escolhera:

– Eu sou o Jim Bridger!

Gargalhada geral: Isso, tu és o Jim Brinhas!

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Denunciantes (1j

Manhã de segunda-feira, a arrumar a mala para a escola.
Mãe, a minha bata?
Ainda está molhada, sempre a chover, não enxugou, não a levas.
A professora bate-me!
Bate-te lá agora! Quando entrares, vais-lhe logo dizer que eu não ta mandei porque ainda está ensopada, com este tempo não enxugou.
Bom, que remédio! Pelo caminho, encontro colega, mais velho.
E ele: Tenho de voltar a casa, esqueci-me da bata!
Sempre fui fala-barato. Do género que fala sem pensar: Ora, não precisas, quando a professora te perguntar por ela dás uma desculpa qualquer!
Mas ele voltou atrás. Afinal, estava a meia dúzia de passos de casa.
Entramos. José Cipriano, a tua bata?
Minha senhora..., e repeti a desculpa encomendada pela minha mãe.
A professora, compreensiva, ia passar a outro menino quando o meu vizinho se levanta e fala acusador:
Minha senhora, eu voltei a casa para buscar a minha bata, e ele disse-me que não valia a pena, para dar uma desculpa qualquer à senhora professora quando me perguntasse por ela!
O olhar da jovem professora endureceu, o rosto crispou-se. Levantou-se, furiosa, já com a régua em riste: O quê? Vem já aqui!
A tremer, lavado em lágrimas, tentava inutilmente convencê-la de que tinha dito a verdade. A pesada régua bate impiedosa, dor lancinante, dor sofrida também por antecipação enquanto a próxima reguada não martiriza a minha mãozinha enfezada, que por entre gritos e contorções procura, em vão, fugir ao castigo!
Agora a outra mão, para se não ficar a rir desta!
Quem ria era o feliz denunciante, pelo meu sofrimento, pela sua colaboração no exercício da justiça sobre o sabichão preferido da professora.
Então como agora, a justiça era cega, e exercida com imparcialidade — sobre os pobres. Os meninos abastados, “ricos”, como o meu delator, nunca apanhavam, mesmo se  burros que nem portas! 

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O Drácula

No segundo ano do meu estágio, então chamado Profissionalização em Exercício, chegaram vários colegas de outras escolas. 
Um deles, alto, magro, camisa sem colarinho, longo sobretudo preto, olhar esgazeado, pose de génio, foi logo alcunhado por um de nós: Drácula.
Incompreendido por todos nós,  exceptuando uma outra estagiária, do seu grupo disciplinar, a quem apalpava as coxas nas reuniões, seduzida pela “linguagem do Mestre” — era assim que se lhe referia — pois o nosso Drácula respirava Lacan, arrotava Lacan, tratava-nos, tanto a nós, colegas de estágio, como aos orientadores, com tal sobranceria que me lembro de ouvir um dizer-lhe que, de cada vez que abria a boca, era para nos chamar burros.
Num seminário em que ele arengava interminavelmente, insuportavelmente, um orientador, baixo, obeso, que sempre dormia nas reuniões após o almoço, desculpado pelos seus pares com  problemas cardíacos de que efectivamente sofria e cedo haveriam de o vitimar, interrompeu o forte roncar e, ouvindo o Drácula a proclamar, deliciado com o efeito de choque da boutade, que todos nós temos três pais, resmungou alto:
— Só se és tu!
Ruidosa gargalhada geral quebrou o formalismo, desvaneceu o enfado e enfureceu o distinto orador.

Mas os alunos conheciam-no por outra alcunha. “O professor do c*”.
Isto porque, na aula de apresentação, incomodado com a entrada às pinguinhas da turma, berrou para um dos retardatários com o seu sotaque cerrado do Porto:

— Olha lá, pá, que c*ralho de turma é esta?

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Chico Buarque

Estávamos em 1972, havia a guerra colonial, a agitação constante nas universidades, as manifs nas ruas que o regime não lograva impedir, a música que nos chegava de fora, Brel, Simon&Garfunkel, Donovan, Chico Buarque, Patxi Andion, por cá a de José Afonso.
O meu primo, então a frequentar o Conservatório, pediu-me que comprasse bilhetes para concerto que Chico Buarque ia dar num cinema entre os Restauradores e o Marquês, esqueci o nome. Quando lhe entreguei o bilhete, 
— Compraste também para ti?
— Não. Estou teso...
Insistiu para que comprasse, quis pagá-lo ele. Recusei, e voltei ao tal cinema. Comprei o mais barato, para o poleiro, o último balcão. E lá me sentei, a ver no palco figuras minúsculas que tocavam os primeiros acordes — o conjunto do Chico (hoje diz-se banda), o MPB4. Na sala, gigantesca, uma pessoa aqui, outra ali.
Então, chega funcionário a pedir para nós, os do poleiro, nos sentarmos na primeira fila, para que Chico Buarque não actuasse para cadeiras vazias. Tive, assim, oportunidade de assistir ao seu espectáculo juntinho a ele.
Excepcional. Mas com fraca assistência, nem a banda a passar colocou a sala ao rubro. E o cantor, a determinada altura, desabafou: não sabia se as suas músicas eram apreciadas em Portugal, mas no Brasil quase ninguém as conhecia. 
Pois, cá, fora do meio intelectual, apenas a banda a passar tinha chegado às massas, embora na rádio se ouvisse muita música brasileira, eu quero buzinar o seu calhambeque e quejandos.
Ainda bem que tudo mudou. Chico Buarque, que talvez fizesse suas as palavras (creio que) de Brel, algo como não sou poeta nem músico, faço canções — conheceu no Brasil e cá a glória merecida pelo seu talento, enorme e diversificado (letrista, músico, actor, escritor), e acaba de ser distinguido com o Prémio Camões.
E eu tive o privilégio, graças à insistência do meu primo, de o ter visto no palco, tão perto que quase lhe podia tocar, quando era jovem, antes da consagração, e de me ter embevecido com a sua genialidade e a dos músicos que o acompanhavam...
(A time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence
A time of confidences
Long ago it must be
I have a photograph
Preserve your memories
They're all that's left you
Simon&Garfunkel, Old Friends)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Numpelecebo!

Da única vez na minha vida em que entrei num restaurante chinês, depois de estudar a ementa à procura de comida que a minha boca aceitasse, pedi pato com grelos. Veio, e eu chamei a empregada para reclamar: aquilo era frango com brócolos! E ela, até aí fluente no Português, só me dizia: Numpelecebo! Numpelecebo!
Pois nunca mais entrei num restaurante chinês porque também eu Numpelecebo!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Como se faz um descrente

Conta Lobo Antunes que foi assediado sexualmente por um professor de Moral, fazendo-me recordar que as minhas desavenças com religiosos e igreja começaram bem cedo, aí pelos meus sete anos.
O meu pai mandava-me à catequese, não por fé, que a não tinha, mas porque sempre era melhor do que andar na rua, na coboiada com a garotada de má fama, suspeitos de crimes atrozes como roubar fruta de árvore de onde caía para o chão. E eu já então lia tudo o que apanhava, tinha memória espantosa e a mania de que sabia tudo. Ora um dos raros livros que havia em minha casa, não imagino o motivo, era Os Quatro Evangelhos. Que eu sabia de cor e salteado, pois naquela idade bastava-me ler para decorar.
Era uma guerra com a pobre catequista, quase analfabeta, ela a papaguear o catecismo e eu a desmenti-la: Jesus não tinha dito nada daquilo porque S. Mateus contava que...
Chegou seminarista para ajudar e a catequista logo me despachou para ele. Que também não parecia ter lido os evangelhos: quando o desmenti, pregou-me forte chapada. E eu saí sacristia fora, para satisfação de ambos.
O meu pai estava em casa.
— A catequese já acabou?, perguntou desconfiado.
— Vim-me embora e não vou mais!
— E porquê?
Contei que o padreco me tinha batido. O meu pai nada disse, mas não me obrigou mais a frequentar a catequese. Quando tive de gramar as aulas de Religião e Moral fiz a vida negra aos padres, que não raro me punham na rua, mas essas são histórias para outra ocasião
Foi apenas aos 14 anos que de uma assentada me confessei pela primeira e última vez, comunguei, e fui crismado, aproveitando visita do bispo à minha freguesia.
Talvez por isso me não possa agora vir gabar de ter sido assediado por um qualquer padre, que entre mim e eles sempre quis distância.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

As bicicletas (1)

Aprendi tarde, e mal, a andar de bicicleta. Não havia nenhuma em minha casa, o que me fazia sentir desfavorecido face a miúdos ainda mais pobres, os quais, embora sem altura para chegar do selim aos pedais, as montavam com as pernas por debaixo do quadro e se exibiam no adro em corridas e acrobacias.
É certo que o meu pai tinha motoreta, e então eram tão raras na aldeia como os automóveis. Mas nem me passava pela cabeça montar nela, cair certamente, amassar chapa, riscar a pintura; receava sobretudo que, por volta da meia noite, quando o meu pai lhe pegasse para sair, sempre atrasado para o trabalho distante, ela não trabalhasse, fazendo-o perder o dia, ameaçando até o emprego.
Um dia, um primo, uns anos mais velho, apareceu com bicicleta. Talvez do tio, já não sei. E lá vamos nós a correr pelas ruas, ele a pedalar, eu atrás apeado, esbaforido. A certa altura, propôs ensinar-me.
Comecei por recusar, a medo de cair. Ah, mas ele amparava a bicicleta, não me deixava cair!
Assim tranquilizado, montei a custo no selim, tentei chegar aos pedais. 
— Não precisas, eu empurro, depois aprendes a dar meias pedaladas. 
Poucos metros depois, já ele largava a bicicleta por breves momentos, e eu ganhava confiança. Até que, quase no fim da rua, entendeu terminada a lição, que a paciência das crianças é curta. E não encontrou melhor forma de marcar o final do que com violento empurrão no guiador, fazendo-me estatelar violentamente no pó da estrada.
Esfarrapado, dorido, chorei, protestei contra a estupidez do acto.
— Todos caem, precisavas de aprender!
Não voltei a montar em bicicleta até que, aí pelos meus dezoito anos, outro primo, mais novo, surgiu com velha pasteleira. Experimentei sozinho, rua abaixo, pouco depois já pedalava pelas ruas da aldeia, triunfante, eufórico, por, finalmente, ter aprendido algo que qualquer miúdo de seis anos fazia, e muito melhor do que eu.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Alegretes

Alegretes
A casa, que uma inscrição datava de meados do século XIX, era de pedra tosca, telha romana, pequenas janelas de madeira, os vidros partidos remendados com papelão. 
Na frente, que dava para rua estreita, tinha, de cada lado dos degraus da porta de entrada, alegretes estreitos cobertos por sardinheiras coloridas acima dos quais se elevavam — cabaças! Que eu e o meu primo cobiçávamos, disputávamos: — Aquela é minha! 
Nem sei para que as queríamos. Eram novidade, eram diferentes das demais plantas aldeãs, eram, assim as achava e acho, bonitas na sua elegância feminina de curvas simétricas e perfeitas.
Mas a casa, que tinha pertencido ao nosso bisavô Zabel e passado por herança ao avô Zé Cipriano, estava arrendada. A indivíduo de maus fígados, quezilento — o Maneta, de alcunha e de facto, pois tinha o braço direito amputado pelo pulso. O que nos alimentava as esperanças de em breve nos tornarmos proprietários das apetecidas cabaças era o facto de o nosso avô querer despejar o inquilino:
— Preciso da casa, o meu Emílio quer casar e não  tem onde morar…
Verdade. Quando o tio casou, à pressa como era costume na nossa família, lá se instalou até arranjar melhor.
O Maneta é que não parecia convencido e resistia. Até que o nosso avô nos anunciou: sai no fim do mês, dia 1 vamos lá.
Bem cedo, o meu primo e eu estávamos em casa do nosso avô, cada qual receoso de que o outro, se chegasse sozinho, se apropriasse das melhores cabaças. 
Desilusão: as sardinheiras e cabaceiras jaziam por terra, cortadas rente, cobertas pelas  flores e cabaças, tudo espezinhado maldosamente. 
O meu avô abriu a porta e logo à entrada, grande poia de merda humana enfeitada com flor de sardinheira — tal como em todas nos dois pequenos quartos, na cozinha, até na minúscula despensa interior. E o sobrado encharcado por penicadas de mijo. Fedor insuportável. Olhámos para o avô Cipriano, talvez à espera de ataque de raiva, de ameaças justiceiras.
Mas ele, bom homem e aliviado por se ver libre de tão ruim inquilino, riu às gargalhadas:
— Filhas da puta, muita vontade tiveram para cagar e mijar tanto!
(FOTOS: o avô Cipriano, na única foto que tenho dele, dos seus tempos de militar; no casamento da tia Cesaltina: o meu primo António à esquerda, eu à direita, no meio a minha irmã e o primo Fernando Cipriano; a menina à esquerda era a filha de uma amiga da minha mãe do tempo em que vivemos em Chaqueda, mãe solteira. Nunca mais soube nada dela, a dona Capitolina nem da filha.)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Da queda familiar para os negócios

 O meu pai já tinha vendido a fruta com melhor calibre e aspecto. Mas na adega, que outrora fora de vinho, empilhavam-se caixas com pêras e maçãs miúdas, verdoengas, algumas com pedrado.

Terá sido sugestão de companheiro de copos, dos muitos que nas férias convidava para a adega nos quentes serões da aldeia:

— Não vendes esta fruta?

— A quem? Os compradores não a querem!

— Se a levares para o mercado de Pataias desaparece tudo enquanto o Diabo esfrega um olho!

— Mesmo a miúda?

— Tudo! Lá vende-se tudo! 

Ei-lo que sobe ao primeiro andar, eufórico:

— Amanhã vamos a Pataias vender a fruta da adega.

Resmunga a minha mãe: — Só se fores tu! Eu não sou vendedeira de praça!

Ele insiste. Lá vende-se tudo num instante, barato que seja, evita estragar-se. 

Discutem. E a Ana, a pôr água na fervura: — Vamos, avó, eu vou consigo.

Com a companhia da neta, a minha mãe cede. — Mas tu, insiste para vincular o meu pai, ficas também a vender.

O meu pai diz que sim. Mas logo à chegada ao mercado, a pretexto de ver a concorrência, desandou, deixando-as sozinhas, com as caixas de fruta miserável, à espera dos compradores. Que, invariavelmente, optavam pelas bancas bem apresentadas, com abundância de produtos variados.

Demorou a voltar. Deve ter parado nas barracas de comes e bebes, uma bifana e uma cerveja ou copo de tinto, larachas com vendedeiras, cavaqueira com vagos conhecidos.

Queixa-se a Ana da má apresentação do produto, mostra-lhe as bancas de sucesso.

Ele concorda com largo sorriso — concordava sempre com a neta. 

— Mas tivemos azar com o dia. Isto hoje está fraco, os outros também se queixam do mau negócio.

Venderam dois quilos, que nem pagaram o terrado...

terça-feira, 21 de março de 2017

Recordações


Foi no Inverno de 1983 que soube da existência de um clube de karaté próximo -- em Torres Novas. 
Chovia torrencialmente quando abri a porta e pedi para entrar. Como resposta, apenas um aceno de cabeça de um dos dois cintos castanhos que treinavam juntos e prosseguiram o combate sem me darem a menor importância.

Eu, impaciente, tiritava de frio no pequeno pavilhão gelado, húmido, desconfortável, quase despido; num dos topos uma engelhoca para bater (makiwara, saberia muito depois), no outro uma cortina preta atrás da qual se mudava de roupa e um cartaz, imperativo e lacónico:
CULTIVA O SILÊNCIO
Quando finalmente terminaram o treino, uma boa hora depois da minha chegada, pedi para entrar para o clube. A resposta foi desanimadora: não me podiam dar muita atenção. 
Mesmo assim, insisti. Admitiram-me, na certeza de que desistira depressa. Bem enganados estavam!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Um panfleto

Em 1973, o tipo que no ano anterior me tinha recrutado para CLAC (Comité de Luta Anticolonial) foi preso pela Pide e falou, denunciando um rol de gente das estruturas dirigentes do MRPP e organizações satélites. 
Embora o meu nome não surgisse nos autos, ou pela minha insignificância, ou para ficar como isca para captura de peixe mais graúdo, seguindo as orientações transmitidas pelo meu controleiro, deixei o Instituto Comercial, fui secretamente viver para Leiria, que conhecia dos meus tempos do Curso Comercial, com o projecto de trabalhar como vidreiro na Marinha Grande para me ligar, e ao Movimento, ao meio operário da região.
Mas nas fábricas de vidro, já em crise, apenas admitiam filhos de trabalhadores, que entravam finda a escola primária como aprendizes, não 'velhos' de dezanove anos, e acabei por trabalhar em Leiria, primeiro servente de pedreiro, depois operário de plásticos e viver na Marinha Grande, dependente dos raros autocarros da rodoviária para as deslocações diárias, até que ganhei para uma bicicleta usada — e por pouco não morri, uma noite atirado para a berma por carro desembestado, noutra, de escuridão profunda, em choque com bicicleta sem luz... Outras histórias, para outra ocasião.
Quando saía do turno à meia-noite, tinha de aguardar pelo autocarro das oito, oito horas de espera, mal preenchidas com agitação nocturna na cidade adormecida, e pouco tempo depois lá voltava eu ao café de umas bombas de gasolina, o único que estava aberto durante toda a noite, e por lá ficava a um canto, uma bica, um rissol, a ocupar o tempo a escrever. Panfletos como este, redigidos nas costas de ficha de controle da minha produção, que depois haveria talvez de bater à máquina, imprimir na maquineta, esse copiador artesanal, e pela calada na noite deixar debaixo de automóveis estacionados, uma pedrinha em cima, para que só fossem descobertos muito depois de eu por lá ter passado. Ou poemas – textos empolgados, abundantemente adjectivados, recheados de metáforas e imagens, que há muito destrui.
Sobreviveu estranhamente, miraculosamente, este rascunho, exemplo da propaganda que então se fazia — quem a fazia! — contra a guerra colonial e o regime fascista. Demagógico, recheado de lugares comuns, com erros de ortografia, foi um produto das circunstâncias que vivi. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Graças a Deus e graças com Deus

Eu era atentador. Judeu.
... os judeus são muito ruins! , sentenciava a minha avó.
-- Porquê? Perguntava, apenas para a arreliar. 
-- Então! Mataram Nosso Senhor!, exclamava, espantada com tanta ignorância.
-- Mas ele também era judeu!
-- Não digas heresias! Sempre ouvi dizer "graças a Deus, e não graças com Deus!"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A minha mãe e a missa

Aos oitenta anos, a minha mãe perdeu a fé.
Nunca teve muita. Na minha infância, quando o sino chamava imperioso para a missa dominical, desabafava:
— Ora, tenho mais que fazer, Deus há-de perdoar.
Mas obrigava os filhos.
Logo de madrugada, acendia o lume, ia à fonte, preparava-nos o 'almoço', café de cevada com leite em pó aguado e pão com manteiga ou marmelada, aquecia água para os banhos no alguidar, vestia-nos a custo, sem poupar safanões, ralhos, meiguices aldeãs:
— Vê se páras quieto para te albardar!
E eu a choramingar, antecipando a chacota dos outros garotos:
— Não ponho o laço!!
— Pões sim senhor, quem manda sou eu!
Miúdo enraivecido descarrega nos mais pequenos.
— Ó mãe, ele bateu-me!
— Mentirosa, toquei-te sem querer!
Saia bofetada, eu berrava e protestava inocência, a minha mãe, já arrependida da justiça sumária, dava outra na minha irmã para se não ficar a rir, ela gritava como se a estivessem a matar,
— Cala-te!
Nova bofetada.
— Agora choras com razão!
Até que, finalmente, me conseguia pôr à porta: — Já para a missa e portar bem!
Lá ia eu cabisbaixo na roupa domingueira, calções e suspensórios a provocar a chacota da miudagem, laço de elástico que me faria brigar rebolando no pó do adro quando algum malandro o puxasse para me bater violentamente na garganta, emblema do Sporting na lapela, que os matulões iriam querer esborrachar debaixo de uma pedra e só com choro poupariam — por lhes dizer que era do meu pai.
À chegada do Sr. Prior, como chamávamos ao padre, as contendas acabavam instantaneamente, ajoelhávamos no cimento grosseiro da modesta capela da aldeia, à frente raros beatos, depois as mulheres, por último os garotos, sempre na macacada, a distraírem-me na minha devoção, atento às palavras do Sr. Prior a falar-nos do diabo que chegava a entrar na igreja para desencaminhar as almas — tal qual como aqueles diabos, que me beliscavam, obrigando-me a sofrer em silêncio, ou me sussurravam disparates ao ouvido para que risse, e o padre, mesmo em frente, empalidecesse e intimamente jurasse que lhas pagaria se me apanhasse na catequese — ou fizesse queixa à professora, de bendita régua justiceira...
Em casa, a minha mãe, em pecado mortal por faltar ao sacrifício da Santa Missa, por isso condenada aos tormentos do Inferno, assim garantia o padre, momentaneamente aliviada do inferno que era aturar-nos, acudia ao gado, que reclamava no pátio, não os coelhos, silenciosos, mas as galinhas, sempre com fome, os porcos lambões, a burra, impaciente por não sair ao domingo do curral e se espojar no pó da estrada, depois passava a roupa a ferro soprando as brasas para as espevitar enquanto sobre lume de vides e braças de pinheiro cozia o jantar, que o fogareiro a petróleo, fedorento, o bico sempre a entupir, estava reservado para alguma emergência nocturna, como fazer uma água com açúcar, remédio infalível, que outro não havia, para indisposições, indigestões, mal estar geral.
Passaram muitos anos. Enviuvou, passou a ir à missa, que já não é aos domingos por falta de vocações para o sacerdócio, mas de semana e ao anoitecer. Para minha satisfação  egoísta, sempre a querer que tivesse ocupações, caminhadas, ginástica, pintura, renda, pouco me importava, contanto que não estivesse dependente de mim...
Mas faltava frequentemente. Quando vizinha a chamava,
— Maria, vens á missa?
— Hoje não. Fico a fazer companhia ao meu Zé. 
Ou porque estava muito frio, ou lhe doíam as costas, ou "hoje não me apetece"...
Um dia a Morte veio procurá-la. Aneurisma da aorta com derrame pleural. Resistiu-lhe bravamente. Cirurgia de quatro horas in extremis com o coração fora do corpo, no gelo, uma hora. Meses nos Cuidados Intensivos, nos Cuidados Continuados, na Enfermaria...
Rija, arribou. Fraquinha, com complicações pulmonares contraídas em Santa Maria, de bactéria resistente aos antibióticos, a voz sussurrante, quase inaudível, de traqueostomia que correu mal e lesionou as cordas vocais. Incapaz de andar, até de comer. Com alta hospitalar, levei-a para o melhor lar que encontrei.
Voltou a andar, com dificuldade. Fazia a ginástica que podia. Recomeçou a fazer renda. As dores não a largavam, perdeu a vista num olho e o glaucoma ameaçava já o outro.
Na falta de novidades, repetia-lhe as já contadas nas visitas anteriores. Para a ocupar e preencher silêncios, passeávamos a pé, pelos corredores do Lar se chovia, fora se o tempo o permitia.
Apenas as visitas a animavam. Eu, a minha mulher, que a levava quinzenalmente à esteticista, as netas, o bisneto mais velho:

— Hoje veio cá o Afonso...
E eu a pensar que estava a delirar.
— Mãe, ele à tarde está na escola!
— Veio! Veio com a mãe e o irmão, antes de tu chegares! O irmão, como é que se chama, não  me lembro? já anda! Passou o tempo a correr por aí. E com a voz embargada pela emoção: — O Afonso, cada olho! A ver tudo, a querer saber tudo! Como tu eras, em pequeno!
Mas as semanas têm sete dias, os dias vinte e quatro horas.
— Os dias são tão compridos!
— Mãe, tem de se entreter!
— Com quê?
— Tem os trabalhos manuais...
Não lhes via interesse, não apreciava as conversas das companheiras, mais ou menos senis, e sentada naquelas cadeiras doíam-lhe as costas.
— Vens sozinho?
E eu, irritado, a sentir que me recriminava: — Mãe, que quer? As suas netas estão a trabalhar, hão-de vir no fim-de-semana! Domingo venho buscá-la para almoçar connosco! Tem se entreter, tem de se integrar nas actividades...
— Não me interessam!
— Mãe, hoje houve missa. Gostou?
— Fui-me embora, não ligo nada a isso!

Piorou. Deixou de poder sair da sala de convívio quando a freira começava a cerimónia.
— Mãe, hoje assistiu à missa?
— Ora, fingi que estava dormir!
FOTOS: (1) há mais de 40 anos, com a neta mais velha; (2) uma semana antes de morrer, a passear no lar com a outra neta; (3) um lanche no Lar, ao Domingo.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Fraquinha, mas boa!

Naqueles tempos de brincadeiras parvas havia o costume de embebedar pobres diabos para chacota geral ao vê-los aos tombos, desnorteados,
-- Espetámos-lhe com tamanha bebedeira nos queixos que o tivemos de levar de carro de mão a casa! 
Era o que fazia grupo de rapazolas, mortos de riso, a encherem copos atrás de copos de bebida branca a velhote já senil: -- Ti Jaquim, beba mais um copo! Que tal é ela?
-- Obrigado, rapazes, é fraquinha mas é boa! 
Preocupado, o meu pai chega-se, a tentar evitar desgraça: -- Vocês ainda matam o velho!
E um dos rapazes, a chorar de riso, dá-lhe a cheirar o garrafão: -- É água!
E o meu pai, para poupar o pobre diabo à judiaria: -- Ti Jaquim, não beba mais senão fica transtornado!
-- É isso, rapazes. Muito obrigado, mas fico por aqui, que já me está a trepar à cabeça!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Um par de botas


Aí por 1970, pobre mulher, de preto do lenço aos pés metidos em tamancos largueirões, entrou em sapataria da vila, a comprar calçado para o filho. 
A cada prova, pede outro par: -- Maiorzinho, que o pé está a crescer!
Tanto se repete a cena que às tantas o vendedor, exasperado, lhe sugere:
-- Minha senhora, porque é que lhe não compra umas botas 44, guarda-as debaixo da cama, que assim o moço ainda tem calçado quando for para a tropa?