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terça-feira, 21 de março de 2017

Recordações


Foi no Inverno de 1983 que soube da existência de um clube de karaté próximo -- em Torres Novas. 
Chovia torrencialmente quando abri a porta e pedi para entrar. Como resposta, apenas um aceno de cabeça de um dos dois cintos castanhos que treinavam juntos e prosseguiram o combate sem me darem a menor importância.

Eu, impaciente, tiritava de frio no pequeno pavilhão gelado, húmido, desconfortável, quase despido; num dos topos uma engelhoca para bater (makiwara, saberia muito depois), no outro uma cortina preta atrás da qual se mudava de roupa e um cartaz, imperativo e lacónico:
CULTIVA O SILÊNCIO
Quando finalmente terminaram o treino, uma boa hora depois da minha chegada, pedi para entrar para o clube. A resposta foi desanimadora: não me podiam dar muita atenção. 
Mesmo assim, insisti. Admitiram-me, na certeza de que desistira depressa. Bem enganados estavam!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Oito máximas importantes do Karaté

Os antigos mestres viam o karaté como uma forma de estar na vida, contribuindo para o aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade. Um exemplo está na máxima que todos os praticantes conhecem, mas poucos respeitam, segundo a qual o essencial não está na vitória ou na derrota, mas no aperfeiçoamento do carácter. Máxima que sempre me faz sorrir ironicamente... Talvez por ter ouvido a mestre: "Se a prática do combate aperfeiçoasse o carácter, os pugilistas deveriam ser santos".
Pois hoje, com este tempo chuvoso que me priva do meu treino individual, deu-me para traduzir um excerto de Karaté-Do Kyohan, de Gichin Funakoshi, obra que considero a Bíblia da Arte da Mão Vazia, antes chamada Arte da Mão da China, ou, simplesmente, Mão (Té).
"Oito máximas importantes do karaté:

  1. O espírito está em harmonia com os céus e a terra.
  2. O ritmo do corpo é o do Sol e da Lua.
  3. A Lei tem em conta simultaneamente a dureza e a doçura.
  4. É preciso agir de acordo com o tempo e as mudanças.
  5. É preciso aplicar as técnicas quando se encontra a abertura.
  6. O 'Ma' necessita do recuo e do avanço, do encontro e da separação.
  7. Os olhos não devem perder a mínima mudança.
  8. As orelhas ouvem intensamente em todas as direcções."
Gichin Funakoshi, Karaté-Do Kyohan, p.248, tradução francesa de Tsutomu Ohshima, 1979.

 (Numeradas por mim para facilitar leitura e apreciação.)
1.Procuremos a harmonia, busca transversal às artes marciais japonesas, como, por exemplo, o Aikido, em vez de nos desgastarmos em guerras constantes pela afirmação pessoal rebaixando os outros, atitude típica da infância e da adolescência, mas imprópria do adulto.
2. O ritmo do corpo deve obedecer ao ying (Lua) e ao yang (Sol). Como convencer jovens karatekas de que o treino yang é bom, mas não basta, há que o enriquecer com a vertente ying?
3. A Lei não deve ser vista como o conjunto das regras de arbitragem, ou do dojo, ou do código civil, nem sequer como os Direitos Humanos, mas como algo que rege o Universo, que remete para (2). Doçura, suavidade, estão ausentes da prática até mesmo no estilo de karaté que foi buscar o nome a esta máxima: o Go ju-Ryu, à letra a escola da força e da suavidade, ou no Ju do, hoje nos antípodas do ramo de salgueiro. Dúvidas? Vejam uma arte suave, como o Tai Chi, mesmo na sua vertente mais dura, como no estilo Chen.
4. Nem podia ser de outra forma num mundo composto de mudança, nas palavras de Camões. Apenas insisto no tempo, que fará inevitavelmente de cada jovem karateka um velho. E que o deveria pensar se deve treinar destruindo o seu corpo e não raro o de outros, seguindo a mentalidade de mestres formados na Segunda Guerra Mundial, cujo ideal de vida era morrer gloriosamente aos vinte anos. Não morreram, mas transmitiram a Arte como se cada um de nós fosse um samuraizinho sem sabre. Felizmente sobreviveu nos livros o testemunho dos mestres anteriores a esse período negro da História e do Japão.
5. Não desperdiçar energia em técnicas inúteis, para espectador ver. Um golpe, uma vida, defendiam os antigos mestres, mesmo sabendo que dificilmente um único golpe é letal. E não esquecer outro ensinamento do mestre: se um objecto apresenta uma cavidade de dois centímetros cúbicos, então dois centímetros cúbicos de água são suficientes para o encher. Que é como quem diz: procurar e não desperdiçar as aberturas do inimigo, evitar ter pontos fracos.
6. Qualquer karateka com prática do kumité tem suficiente experiência da importância do recuo e do avanço no Ma, que costumamos traduzir de forma redutora como distância; pode não estar suficiente sensibilizado para a necessidade de encontro e separação, sobretudo se fizer muita competição.
7. e 8.: a atenção ao que nos rodeia é fundamental para não sermos apanhados desprevenidos pela vida. Para isso, é preciso que as ilusões não distorçam a realidade. Ou, como diz o mestre em poema seu, "Em todas as coisas, o Homem deve manter o espírito claro".
Nota final: seria um erro crasso restringir estas oito máximas à prática do karaté. Como o mestre escreveu na página 7, "A vida através do karaté-do é a própria vida, tanto pública como privada".

FOTO extraída da obra citada: o mestre exercitando-se no makiwara


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Falando de Karaté a propósito da Grécia

As palavras são fonte de ambiguidade. Por isso, nada como precisar o sentido que lhes atribuímos. Quando digo Karaté não me refiro a quimonos brancos, desconfortáveis e sem braguilha,a gritarias mecanizadas, as rituais, a formaturas e ordem unida. Tudo isso faz parte do Karaté, como hoje fazem as competições, mas não é o Karaté. São aspectos do Karaté, importantes, sem dúvida, mas que podem fazer esquecer, e fazem-no frequentemente, aquilo que realmente ele deveria ser: uma Arte de Vida. E de sobrevivência. Só assim se pode compreender, por exemplo, o 12 dos Niju Karaté Jutsu Kyokun, algo como Os Vinte Mandamentos da Lei da Mão da China, posteriormente mudada para Mão Vazia:
12. Não pensar ganhar, pensar em não perder.
Dir-me-ão: ideias do passado. Sem sentido nestes tempos de jogos olímpicos, de futebol, de competitividade exacerbada, em que os atletas e os não atletas são treinados para almejarem exclusivamente a vitória, mesmo que para tal destruam ou danifiquem irremediavelmente os seus corpos. Tempos em que as massas apenas se regozijam com taças, ao ponto de quase toda a glória ir para o vencedor, ao ponto de os segundos classificados chorarem de humilhação. Em que aquele que não enriquece seja lá como for é um pobre diabo, não raro um falhado, em que se mede a qualidade nas artes pelo valor das vendas...
Pois. O antigo Karaté, a fazer fé nas obras dos mestres da geração de Funakoshi, todos naturais da ilha de Okinawa, então relativamente isolada do Japão e da sua cultura, é unânime: 
Travar 100 combates e ganhá-los todos não é prova de grande perícia. Esta estará antes na capacidade de vencer 100 vezes sem ter de lutar uma única. 
Difícil, quase impossível. Porque pressupõe antes de mais o aniquilamento da vaidade, do orgulho, dos preconceitos ideológicos, para pensar unicamente no objectivo a atingir. No caso dos governantes, deveria ser no bem do povo, especialmente no mais pobre, no mais desfavorecido. Mas, como certamente nunca leram A Arte da Guerra, e se o fizeram nada entenderam, preferem a chantagem: arruinamos o nosso país, levamos connosco ao fundo outros mais vulneráveis, causamos prejuízos terríveis à Europa e ao Mundo! E os adversários, burocratas da Troika: se não cortam salários e pensões não levam nem mais um euro!
Qualquer que seja o desfecho, estoirem os gregos com tudo, ou alcancem vitória de Pirro para a propaganda doméstica e dos círculos ideológicos próximos, o povo miúdo vai sofrer muito. Que importa, dirão certos intelectuais privilegiados, para os quais sempre haverá pão à mesa, pianos e piscinas, e por isso são incapazes de perceber que faz mais falta um euro ao pobre do que um milhão ao capitalista que querem punir? Dos intelectuais do Facebook, que, certamente ofuscados pelo valor simbólico dos mitos, ou então por desonestidade intelectual, não hesitam em evocar a despropósito da crise grega a Retirada dos Dez Mil, em que Xenofonte relata como trouxe até à pátria os seus mercenários acossados por territórios estrangeiros e hostis, ou a Resistência aos nazis, em que se destacaram também países que agora se não solidarizam com a Grécia? Só ainda não compararam a situação actual com as Termópilas, talvez porque aí morreram espartanos, gregos mas não democratas, e porque a cabeça decepada do rei Leónidas foi passeada por entre as tropas persas espetada num pau, o que não seria animador para Tsypras e Varoufakis caso venham a perder a batalha...
Les jeux sont faits. Ou, fica melhor em Latim, Alea jacta est, de outro brilhante cabo de guerra da Antiguidade, o do genocídio dos Gauleses. 
Eu, na linha de pensamento dos velhos mestres de Karaté  preferia outro aforismo: Ganhar, perdendo. Coisa que não passa pelas cabeças brilhantes que de um lado e de outro jogam com as nossas vidas à mesa do póquer europeu, todas cegas pelos fundamentalismos ideológicos, de um lado os da esquerda caviar deslumbrada com o poder, do outro os sátrapas do capitalismo financeiro -- Ou vai ou racha! 
Uns e outros safar-se-ão, não lhes faltarão depois palavras e argumentos para justificarem o que aí vem, encontrarem culpas, apontarem dedos acusadores. 
Pobre mexilhão português, grego, cipriota, ou desses países para cujos habitantes ainda não conhecemos os nomes -- já sabemos o que nos espera quando o mar bate na rocha.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Memórias do seminário

-- Vamos pôr o pai ao Seminário, repetia a minha filha mais velha, a Ana, então na adolescência, encantada com o trocadilho. E foi no Seminário do Verbo Divino, em Fátima, que ela e a mãe me deixaram -- para uma semana de treino de karaté, ou algo afim, em regime de internato, sete horas por dia.
No seminário levávamos vida espartana, com hora de recolher, nele comíamos, passávamos como sombras brancas pelos corredores para não ofender com a vista dos quimonos as religiosas que chegavam em revoadas, às centenas, trazidas em camionetas de excursão, cada uma mais feia do que as outras: -- Freiras giras só nos filmes, resumia o meu companheiro de quarto, o Benjamim.
Pois à chegada, logo que deixámos a escassa bagagem nos quartos, saímos em grupo com o mestre, Kenji Tokitsu, então ainda não  completamente tomado pela arrogância e brutidade de modos que me levou a abandoná-lo anos depois. No Santuário, conversávamos baixo, procurando não incomodar os fiéis, que mesmo assim nos repreenderam malcriadamente: Chiu! Caluda! E nós retirámo-nos dali, sem mais aquela.
Pois na manhã seguinte tínhamos treino ao ar livre, logo às sete da manhã. O pinhal estava imundo, por todo o lado sacos de plástico, papel higiénico e cagadas, pensos higiénicos até.
Desabafa o japonês: -- Povo estranho. adora a Deus, mas suja a sua obra!
Fotos: o grupo da Escola Tradicional de Karatédo, quando éramos meninos e moços, nas escadarias do Seminário do Verbo Divino e no refeitório

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Aniversário

Não sou destas coisas de fazer anos. Se os faço é porque a tal eles me obrigam -- ou ainda teria quarenta ou cinquenta. Não me desagrada de todo, antes de mais porque a alternativa a não fazer anos é bem pior, e depois porque tenho a sorte de os passar bem acarinhado pela família e amigos chegados.
Neste aniversário desactivei as notificações do Facebook para não ser bombardeado com parabéns de amigos virtuais, que muito estimo, mas , não na minha intimidade.
Decidido a não trabalhar neste dia, luxo permitido pela aposentação, não deixei, no entanto, o exercício fisico habitual de lado. De manhã, no ginásio, qual hamster  na gaiola, corri, remei, pedalei, puxei e levantei pesos, fiz abdominais, alongamentos, etc. De tarde, o meu treino de karaté, hoje resumido ã minha tokui-gata, Hangetsu, a Meia-Lua, primeiro com halteres de 3 quilos, lentamente, para não prejudicar as articulações, depois sem pesos. E à noite, jantar e serão com a família local e amigos. Et voilà. Com a esperança de para o ano fazer melhor Hangetsu.

domingo, 20 de abril de 2014

San-Dan


Ainda não me consciencializei de que desde o passado dia 7 pertenço ao venerável clube dos sexagenários. E assim ontem deixei as velhas pantufas em casa e participei no treino de karaté dirigido pelo mestre Vilaça Pinto. Manhã e tarde. Depois, exames de graduação de dan (os cintos pretos).

O júri, constituído pelos sensei Vilaça Pinto e Vitor Carreira, entendeu conceder-me o San-Dan, terceiro degrau na escada da Via (Technical Standards e Programa Técnico), deixando-me suficientemente orgulhoso para o contar, e muito humilde para continuar os treinos com a perseverança habitual mostrando-me merecedor do grau recebido. Porque, todos o sabemos, não são os títulos que dão valor ao homem, é antes este que pode (ou não) dignificar os títulos que lhe são atribuídos. 

Aos mestres e professores que me orientaram ao longo desta longa caminhada, especialmente Cristovão Vilaça Pinto Sensei, aos companheiros de treino, o meu sincero agradecimento. Um abraço muito especial para o Augusto, professor e companheiro de mais de três décadas de treino, que lesão na anca obrigou recentemente a parar, e um muito obrigado para o sensei Pedro Neves, que muito me ajudou a preparar este exame.

Oss!
FOTOS: (1) panorâmica (incompleta) do treino geral (todas as graduações).
(2) cintos pretos presentes, foto de Dulce da Graça, via Facebook.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Karaté toda a vida

Ao avizinhar os sessenta anos, mais de metade dos quais de prática do karaté, e com a paixão pela arte bem viva, impõe-se-me uma reflexão sobre a forma de treinar por forma a poder praticar enquanto a saúde mental e física o permitir.
Não é, porém, esta a perspectiva dominante nos 'dojos', mesmo quando os praticantes já não são jovens e sofrem com as mazelas da idade e da prática. Os mais velhos a imitar os mais novos e não o contrário.
O vídeo de baixo afigura-se-me um importante exemplo e contributo para a prática em idade avançada. Nele, Morio Higaonna, nome incontornável no karaté estilo Goju Ryu de Okinawa, com 70 anos, dá informações muito interessantes sobre onde e como treinar, a alimentação, mostra aplicações a dois, orienta a execução dessa kata extraordinária que é Sanchin, base dos estilos Goju Ryu e Uechi Ryu -- e de alguma forma presente no estilo Shotokan, na kata Hangetsu.
Para reflectir.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Campeonato da Europa da JSKA

De Vilaça Pinto, meu mestre de karaté, chegou-me a seguinte nota informativa, que divulgo  com todo o prazer. Parabéns ao mestre e aos seus alunos participantes no campeonato, os quais se distinguiram internacionalmente, honrando a nossa associação e o nosso país.
Campeonato da Europa da JSKA em Suhl, Alemanha, nos dias 12 e 13 deste mês de Julho.
O dia 12 foi preenchido com 2 sessões de treino técnico e curso de arbitragem sendo o dia seguinte dedicado à referida competição.
A delegação portuguesa:
Vilaça Pinto, José Xavier, Vitor Carreira, José Jerónimo, Carla Jerónimo, Rui Jerónimo, José Mendes, Paulo Almeida, José Maurício, Bruno Carvalho, Rosa Jerónimo, Alvaro Domingues, Mariana Semblano, Telma Silva e Marta Franco (acompanhante).
Gostaria de relevar a presença portuguesa pela forma exemplar como participou em todas as actividades deste encontro (treino técnico, arbitragem e competição). Relativamente à competição destacaram-se pelos resultados obtidos os seguintes competidores:
José Xavier - 1º Lugar em Kumite veteranos;
Rui Jerónimo - 1º Lugar em Kata seniores;
Carla Jerónimo - 1º Lugar em Kata seniores;
Mariana Semblano – 1º Lugar em Kata cadetes;
Telma Silva – 1º Lugar em Kata infantis;
José Maurício – 3º Lugar em Kata e Kumite veteranos;
José Jerónimo – 3º Lugar em Kata veteranos;
Bruno Carvalho – 5º Lugar em Kata seniores.
Gostaria ainda de salientar a importância desta presença portuguesa numa prova internacional participada por 14 países e 250 competidores, tendo lugar exactamente na Alemanha, país onde o nosso destino é traçado como membro da CE.
A subida dos competidores portugueses ao pódio “impôs” durante aqueles breves instantes aos países presentes, também eles membros da CE, uma imagem de valor e competência que nos orgulha a todos e que nos devolve a autoestima que nos tem vindo a ser roubada.  
Cumprimos com brilho e dignidade o nosso dever enquanto representantes de Portugal e esta é a razão porque lhe peço que não deixe que este acontecimento passe sem ser justamente anunciado.
Cumprimentos, Oss!
Vilaça Pinto

segunda-feira, 25 de março de 2013

Das katas e do karaté


O karaté foi concebido como uma arte de vida. Explico: não tem por fim a vitória ou a derrota, nem taças ou medalhas, mas a educação dos praticantes, visando, pelo rigor, pelo esforço e pela disciplina que a sua prática exige, veicular e ajudar a seguir um rumo na vida orientado pela justiça. Tal como nas diversas religiões, uma coisa são os ideais propalados, outra a vivência dos adeptos. Os karatecas não são santos, como os cristãos também o não são.
Os ideais pretendem nortear, encaminhar o homem. O que cada qual faz com eles é outro problema, aqui e agora irrelevante. Acrescento ainda que palavras como “arte, vida, justiça, vitória, derrota”, etc., devem ser vistas como termos com valor iniciático, bem diferente do sentido que comummente lhes atribuímos; assim, justiça, por exemplo, é indissociável do Ying e Yang…
Ora a formação do karateka passa por “moldes”, em japonês kata, termo que designa um conjunto de práticas ritualizadas, executadas de forma fixa, visando a perfeição. Nesta perspectiva, religiosa, reconheço, não importa se a kata executada se reporta à cerimónia do chá ou a práticas de origem guerreira, normalmente designadas por artes marciais. Pouco importa qual é a kata favorita (tokui-gata), uma vez que não é a kata adoptada que forma o executante, mas este que, supostamente, evoluirá com a sua prática. Em linguagem popular, todos os caminhos vão dar a Roma. O que se busca, quase sempre inconscientemente, são os frutos da perseverança, da tenacidade, da aprendizagem, colhidos enquanto penosamente se percorre o caminho (Via em Latim, Do em Japonês) da aprendizagem e da vida.
Executar katas (que, em casos extremos, como o ritsu zen, não têm um único movimento) não deve ser visto apenas como um combate contra inimigos imaginários, espécie de shadowboxing, ou mero exercício físico e mental. É mais, perdoe-se-me a blasfémia, oração e missa. Porque os karatecas executam-nas diariamente com fervor, convicção – e ausência do sentido do ridículo.


(Neste filme, Teki Shodan. Com alguma dificuldade em levantar as pernas, que o menisco ainda não está a 100%) 

sábado, 23 de março de 2013

Treino individual

Conforme prometido, filme do treino individual de hoje, ainda coxo, o que não desculpa erros e imprecisões. Filme adaptado por programa velhinho. São as três Teki e Hangetsu, espero que dê para reconhecer.

terça-feira, 19 de março de 2013

O coxo

Vai para quatro semanas que, sem motivo aparente, o meu joelho esquerdo deu em doer; não as dores que volta-não-volta atormentam os karatekas e passam com uns dias de repouso, mas dor atroz, que tornou penoso o subir e descer escadas, o andar -- e se eu gosto de andar a pé! --, me expôs ao ridículo de coxear em público: Zé, que é isso? O que é que te deu? 
O médico, que é também o meu professor de karaté há trinta e tantos anos, diagnosticou problemas no menisco: Fazes uns exames... Tratamento? Pomada, repouso, um comprimido, se te vires muito aflito.
Bom, não consigo estar parado. E, há dias, ao trabalhar no campo por entre dores quase insuportáveis, tive de fugir repentinamente de uma braça de macieira que cortava e por pouco me não caía em cima. O joelho deu um estalo, a dor mudou de local, e senti que a articulação tinha ido ao sítio. 
De então para cá, creio que melhorei um pouco: subo e desço escadas como adulto e já não como bebé, as dores não são tão intensas, especialmente se não fizer movimentos laterais, e ontem já experimentei fazer umas katas no meu alpendre. Por enquanto, apenas consigo fazer as três Teki -- uma surpresa, pois pensava que a posição, kiba dachi, "o cavalo de ferro", fosse péssima para os joelhos.
É esta a riqueza do karaté: há quase sempre possibilidade de prosseguir o treino, de fazer exercício físico, quando, muito provavelmente, todas as outras modalidades seriam inviáveis. Se tiver quem me faça o filme, amanhã coloco aqui uma das katas do coxo -- eu mesmo. Para exemplificar ensinamento dos antigos mestres: a via do karaté não tem limites, nem de condição física, nem sequer de idade.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Kasé Sensei no Le Monde

Mestre Kasé (1929-2004) é hoje homenageado na edição online do prestigiado jornal Le Monde. Figura incontornável do estilo Shotokan, o mestre marcou como poucos o karaté francês e exerceu forte influência sobre o europeu. Muitos anos atrás, participei num estágio que ele dirigiu em Alverca, onde conheci pela primeira vez a extraordinária kata Chinte.
Aos numerosos discípulos que deixou em Portugal, sempre saudosos do mestre e orgulhosos das graduações que lhes atribuiu, recomendo a leitura do artigo.
Vídeo: mestre Kanazawa executando Chinte

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Empenado

A construção da estrutura desta estufa exigiu-me muito trabalho de marreta, em más condições: chuva, frio, lama... Resultado: dor de costas, que perdura desde domingo passado e me impede de participar no Treino de Instrutores e Avançados (karaté), amanhã, em Paredes de Coura, dirigido pelo Sensei Vilaça Pinto. Um abraço para o mestre e para os participantes. Oss!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Prática de Ji'in

Quando, em finais de 2010, comecei a preparar-me para o exame de graduação de San dan, perguntei ao meu mestre que kata escolher para favorita (Tokuigata). A resposta surpreendeu-me: Ji'in. Porra, pensei, logo essa, que detesto, para favorita? 
Mas como sou daqueles que entendem que o parecer do mestre é para seguir, apliquei-me seriamente no estudo e no treino de Ji'in. Um ano depois, já a apreciava. Hoje, sinto-a como minha. Muito há ainda para melhorar, muito suor ainda me há-de encharcar,  até a poder apresentar em exame, como este vídeo, gravado hoje no ginásio Il Korpo, bem mostra.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Treino individual

Sou adepto da actividade física. Dia em que me falta nem durmo bem. Encontrei no karaté, trinta e um anos atrás, a modalidade certa para mim.
À tardinha, no meu alpendre, tendo por companhia o meu cão, já habituado à doideira do dono, exercito-me, repito vez após vez as minhas katas favoritas, com o desgosto de treinar algumas delas há mais de um quarto de século e não as conseguir executar satisfatoriamente. É o caso de Tekki Shodan. Um dia, hei-de conseguir executá-la irrepreensivelmente. O filme é um exercício de auto-flagelação. 

sábado, 26 de maio de 2012

Treino de instrutores e avançados

Hoje, Cardosos, Leiria. Direcção: Vilaça Pinto Sensei.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Treino de instrutores e de avançados

Amanhã, em Leiria, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto.
FOTO: alguns dos participantes no treino de 29-9-2011.
ADENDA: não participei; a dor de cabeça dominical chegou um dia mais cedo.

sábado, 26 de novembro de 2011

Treino de instrutores e avançados

Hoje, nos Cardosos, Leiria, dirigido por Vilaça Pinto, sensei. O aspecto enevoado da foto tem uma explicação: a lente embaciada.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Karaté de velhos

Treino sozinho pelo menos três vezes por semana. E às quartas, no âmbito do Desporto Escolar, ensino os rudimentos do Karaté a alguns miúdos -- etiqueta, kihon e kumité básicos, as três primeiras Heian. Nos meus treinos solitários, aqueles que verdadeiramente me interessam, começo com Qi Qong, a que chamamos modestamente aquecimento, prossigo com o kihon do meu programa de exame e um pouco do das graduações inferiores, estudo kumité em frente do espelho na falta de parceiros, aplico-me nas partes mais difíceis das katas, executando-as lentamente e corrigindo-as graças aos espelhos, depois passo a repetições sucessivas da tokui-gata procurando a correcção de posições e de movimentos, o ritmo, a sensação, o equilíbrio, a velocidade e a força, desenjoo com Bassai Dai e com Empi, a kata antagónica, faço revisões de Jion, acrescento abdominais e flexões, termino com Qi Qong, agora chamado arrefecimento -- e banho.
Neste momento, e seguindo sugestão do meu mestre, a minha tokui-gata é Ji'in, kata que não apreciava. Porém, e à medida que a vou repetindo e tentando aperfeiçoar, começa a fazer mais sentido --  e não é que já gosto dela?
Karaté de velhos, troçarão os moços, amantes de competições, taças, glória. Sim, sem dúvida. Quem me dera poder continuá-lo por muitos anos. Porque a paixão não esmorece e, finalmente, sinto que estou a fazer progressos na Arte da Mão Vazia.
FOTO: o salto a 360 graus de Empi, "a andorinha em voo"

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Treino de instrutores e avançados

24 de Setembro, na sede do CSK Leiria, junto ao castelo. Início às 10H30. Direcção: Vilaça Pinto sensei.