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domingo, 19 de julho de 2009
Estágio de Karaté
quarta-feira, 15 de julho de 2009
CLAC ?

No meu tempo, aí pelos dezoito, vinte anos, significava "Comité de Luta Anti-Colonial". O meu, porque tive um, herdado de José Iglésias, que por sua vez o herdara de famosos actuais como Luís Marques, entretanto preso em Caxias juntamente com outros camaradas seus de comité, chamava-se "Guerra do Povo". Eu sei: o nome dá para rir, mas tinha 18 anos e os amanhãs cantariam em breve...
Depois conheci outro CLAC: O "Clube de Lazer, Aventura e não sei mais o quê" A sigla deve ter algo que atrai como o mel às moscas: não é que já há outro CLAC, novinho em folha?
Já agora, e apesar de pressentir mel e moscas, nem sequer voto em Lisboa... Como Léo Ferré, não quero ser acusado de falar em coisas que me não dizem respeito: "car on pourrait me reprocher de parler de choses qui ne me regardent pas".
(Lembram-se da canção?)
Foto: pouco antes de o Iglésias me recrutar para o CLAC Guerra do Povo, por volta de 1972. Logo que me tornei militante, cortei o cabelo e a barba para passar despercebido.
Depois conheci outro CLAC: O "Clube de Lazer, Aventura e não sei mais o quê" A sigla deve ter algo que atrai como o mel às moscas: não é que já há outro CLAC, novinho em folha?
Já agora, e apesar de pressentir mel e moscas, nem sequer voto em Lisboa... Como Léo Ferré, não quero ser acusado de falar em coisas que me não dizem respeito: "car on pourrait me reprocher de parler de choses qui ne me regardent pas".
(Lembram-se da canção?)
Foto: pouco antes de o Iglésias me recrutar para o CLAC Guerra do Povo, por volta de 1972. Logo que me tornei militante, cortei o cabelo e a barba para passar despercebido.
terça-feira, 14 de julho de 2009
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Que é um nome?
(Para o meu amigo Alfaro João, que ficou incomodado ao saber que no seu blogue tanto o meu nome como o link para este blogue estão incorrectos)
"Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nen
hum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro na cova da Silveirinha, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante...
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo…"
Entre Cós e Alpedriz
"Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nen
hum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro na cova da Silveirinha, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante...Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo…"
Entre Cós e Alpedriz
quarta-feira, 8 de julho de 2009
O fotógrafo
Diz o meu colega Luís Galvão no seu belíssimo site Olhares Fotografia Online:
"O que me encanta na fotografia é poder eternizar um momento, uma expressão, um olhar, um local."
Este desejo de deter o fluir do tempo recordou-me imediatamente um excerto de um dos meus romances em que, curiosamente, também há um fotógrafo, embora à la minuta:
"Foi amor à primeira vista, seduzida tanto pelo seu ar desempenado como pelo romantismo da profissão: sempre feito à estrada, de terra em terra, envolto numa aura de magia, gravava momentos de felicidade que resistiriam muito para além da amargura quotidiana... Encantava-a vê-lo quando escondia a cabeça sob o pano preto, a mão esquerda de fora, alevantada, estalando os dedos para captar a atenção de noivos, ou crianças, ou mancebos em dia de inspecçã
o: --- Olha o passarinho!
Todos riam da graça, e os seus sorrisos capturados pela objectiva perdurariam jovens, bem depois de as rugas lhes vincarem os rostos; logo de seguida, numa lata de atum, protegida por um vidro vermelho, o negro aclarava, a chapa, sempre agitada por uma pinça de madeira, ganhava paulatinamente contornos e traços, surgiam rostos e vestuário: --- És tu! Ficaste tão bem!, ouvia-se, logo que se adivinhava no negativo a imagem invertida de uma vida."
Este desejo de deter o fluir do tempo recordou-me imediatamente um excerto de um dos meus romances em que, curiosamente, também há um fotógrafo, embora à la minuta:
"Foi amor à primeira vista, seduzida tanto pelo seu ar desempenado como pelo romantismo da profissão: sempre feito à estrada, de terra em terra, envolto numa aura de magia, gravava momentos de felicidade que resistiriam muito para além da amargura quotidiana... Encantava-a vê-lo quando escondia a cabeça sob o pano preto, a mão esquerda de fora, alevantada, estalando os dedos para captar a atenção de noivos, ou crianças, ou mancebos em dia de inspecçã
Todos riam da graça, e os seus sorrisos capturados pela objectiva perdurariam jovens, bem depois de as rugas lhes vincarem os rostos; logo de seguida, numa lata de atum, protegida por um vidro vermelho, o negro aclarava, a chapa, sempre agitada por uma pinça de madeira, ganhava paulatinamente contornos e traços, surgiam rostos e vestuário: --- És tu! Ficaste tão bem!, ouvia-se, logo que se adivinhava no negativo a imagem invertida de uma vida."
Netbook leitor de ebook?
Ao contrário de muito boa gente, espero que os leitores de ebooks se tornem acessíveis, populares, funcionais, não para substituírem os livros impressos, mas para os complementarem. Por isso, esta notícia, a que cheguei via blogtailors, me encheu de curiosidade. Será que os netbooks podem ser a solução?
(A quem possa interessar: os meus romances estão disponíveis para download gratuito no meu site. Por mais algum tempo, não muito, que tenho uma proposta interessante para os comercializar.)
(A quem possa interessar: os meus romances estão disponíveis para download gratuito no meu site. Por mais algum tempo, não muito, que tenho uma proposta interessante para os comercializar.)
Jesusalém e Jerusalém

Leio a crítica literária de Eduardo Pitta com grande prazer, mas este texto confundiu-me. Nele, o autor diz-nos que há dois romances intitulados Jerusalém, o primeiro de Gonçalo M. Tavares, o segundo de Mia Couto, ambos da mesma editora. Ora, tendo comprado recentemente Jesusalém, de Mia Couto, não resisti a comparar as capas (ver foto).
Ou Eduardo Pitta se confundiu, o que me parece duvidoso, ou o título do romance de Mia Couto foi recentemente modificado...
Ou Eduardo Pitta se confundiu, o que me parece duvidoso, ou o título do romance de Mia Couto foi recentemente modificado...
Quanto aos livros em causa, também eu considero Jerusalém o melhor romance de Gonçalo M. Tavares e um dos melhores que li nos últimos tempos. Não comecei ainda a ler o de Mia Couto.
Sobre a escolha do título de Gonçalo M. Tavares, também me intrigou até à citação bíblica "se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão direita perca a destreza..." (Creio que lá está: "a minha mão direita seque").
ADENDA: Afinal foi confusão de Eduardo Pitta, que o próprio já corrigiu aqui. Precipitação dos dois, primeiro ele, eu depois.
Sobre a escolha do título de Gonçalo M. Tavares, também me intrigou até à citação bíblica "se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão direita perca a destreza..." (Creio que lá está: "a minha mão direita seque").
ADENDA: Afinal foi confusão de Eduardo Pitta, que o próprio já corrigiu aqui. Precipitação dos dois, primeiro ele, eu depois.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Despudor
Segundo O Público,
Duplica percentagem de reprovações a Matemática nos exames do 12º ano
Duplica percentagem de reprovações a Matemática nos exames do 12º ano
"Para a tutela, este resultado traduz “menos investimento, menos trabalho e menos estudo” do lado dos alunos, na sequência da “difusão da ideia que os exames eram fáceis” por parte da comunicação social." Seria bom que alguém perguntasse se a tal ideia difundida precedeu a realização de exames. Parece-me que, para desincentivar os jovens do estudo, deve ter sido espalhada logo em Setembro. (Na verdade, começou há muitos anos atrás e acentuou-se claramente com esta equipa governativa - o Estatuto do Aluno é só uma gota de água no mar das asneiras.)
Como se aproximam as eleições, a ministra, bem recordada do peso eleitoral dos professores, desta vez não assacou as responsabilidades às escolas. Zurziu na comunicação social porque, bem o sabemos, a culpa é sempre dos outros.
Como se aproximam as eleições, a ministra, bem recordada do peso eleitoral dos professores, desta vez não assacou as responsabilidades às escolas. Zurziu na comunicação social porque, bem o sabemos, a culpa é sempre dos outros.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
domingo, 5 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Cata-vento
"Serpenteando por entre as colinas verdejantes, brilham as paredes brancas das casas das encostas, destoan
do uma ou outra no amarelo que foi moda tempos atrás, vermelhos os telhados, como a luz do poente --- e acima de todas elas, sobressai a torre da igreja, encimada por pára-raios agressivamente virado para o céu, servindo de eixo a cata-vento de ferro, em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente...
Vendo-o assim imóvel, pensar-se-ia até que a ferrugem lhe limitou os movimentos na sua velhice, imobilizando-o nessa direcção; mas não, que quando a aldeia gela fustigada pelos ventos secos de Leste, de onde nunca veio nada que preste, o pobre coitado, não tendo como se resguardar, mais não pode que apontar-lhes o bico, virando a cauda para os lados do mar.
(...)
Foto: Cata-vento e igreja de Casais da Igreja.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente...
Vendo-o assim imóvel, pensar-se-ia até que a ferrugem lhe limitou os movimentos na sua velhice, imobilizando-o nessa direcção; mas não, que quando a aldeia gela fustigada pelos ventos secos de Leste, de onde nunca veio nada que preste, o pobre coitado, não tendo como se resguardar, mais não pode que apontar-lhes o bico, virando a cauda para os lados do mar.
(...)
A mim, que raramente termino aquilo que começo, volúvel como o vento, de tal forma que já troco barlavento com sotavento, consola-me este amigo de outros tempos, testemunha muda de homens e de ventosidades, que tanto sabe e tudo cala, apenas preocupado como eu em afastar a cauda do desconforto, o olhar impassível fitando o infinito. Que ele me valha nesta narração, orientando-me para os protagonistas certos, inspirando-me a seguir a direito, sem desvios nem divagações, e, sobretudo, sem verborreia que se pegue ao texto como excremento de galinha às botas do criador. "
Ler secção completa
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Foto: Cata-vento e igreja de Casais da Igreja.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Gestos
Na autoestrada, um automobilista provocava outro fazendo como Manuel Pinho. Surpreendentemente, o outro, sempre sorridente, mostrava-lhe a gravata. Já na portagem, o primeiro não resistiu:
"Ó amigo, sei que o tenho vindo a ofender, porque é que me responde apontando para a gravata?
"Ah, é que cada um mostra a prenda que a mulher lhe deu pelo Natal."
"Ó amigo, sei que o tenho vindo a ofender, porque é que me responde apontando para a gravata?
"Ah, é que cada um mostra a prenda que a mulher lhe deu pelo Natal."
terça-feira, 30 de junho de 2009
As osgas
Imperam de noite, livrando-nos de mosquitos, melgas e demais pragas nocturnas, que não contentes em picar, em provocar coceira, não raro transmitem doenças (a leishmaniose, por exemplo). Patrulham incansavelmente paredes, muros, sebes, sempre silenciosas, discretas, "inimigas como eu da claridade", incompreendidas e não raro perseguidas: "osgas peçonhentas, achatadas", escreveu Cesário, juntando-as aos demais ladrões do agricultor.
Na foto, um dos meus exemplares.
Na foto, um dos meus exemplares.

Chamam-lhe um figo!


Desde os tempos bíblicos e homéricos que os figos têm vindo a perder status social. Na minha infância, dizia-se que "roubar figos não é crime", talvez por injustamente serem considerados fruta do pobre, e às figueiras, com má fama, acusadas de chuponas, era frequentemente destinada a pior terra. (Ainda o eucalipto não era praga nacional.)
Os figos, sazonais, extremamente perecíveis, dificilmente transportáveis e comercializáveis, perderam negócio primeiro para os pêssegos (Ah, o antigo Temporão de Alcobaça! E o Jota Galo!). Depois vieram as maçãs e as pêras, disponíveis todo o ano, e a fruta exótica -- coitados dos figos!
Sempre do contra, plantei há anos uma figueira no meu quintal, bem advertido dos perigos dessa árvore maldita: "Vizinho, olhe que lhe dá cabo de tudo! Até das paredes!"
Cresceu e entre anos bons, de boa produção, e anos maus, em que lhe juro arrancá-la se não produzir bem no ano seguinte, lá continua, não tão nociva, acho eu, como os agoiros prediziam. E os figos são incríveis.
Ora, como sucede nos anos bons -- e este é um deles, ainda bem que a crise não se propagou às árvores --, reparto a produção com os amigos. Surpresa é que, ultimamente, a simples palavra "figos" provoca olhares augados, conversa lastimosa: "As saudades que eu tenho da figueira do meu avô e das barrigadas de figos que lá comia" e eu, incapaz de resistir a tão forte desejo por uma das melhores frutas da Terra, volto a trepar à árvore, tentando encontrar mais uns figuitos para acudir à nova cliente. Sempre dados com indescritível prazer -- como a figueira mos dá.
Abençoada árvore.
Os figos, sazonais, extremamente perecíveis, dificilmente transportáveis e comercializáveis, perderam negócio primeiro para os pêssegos (Ah, o antigo Temporão de Alcobaça! E o Jota Galo!). Depois vieram as maçãs e as pêras, disponíveis todo o ano, e a fruta exótica -- coitados dos figos!
Sempre do contra, plantei há anos uma figueira no meu quintal, bem advertido dos perigos dessa árvore maldita: "Vizinho, olhe que lhe dá cabo de tudo! Até das paredes!"
Cresceu e entre anos bons, de boa produção, e anos maus, em que lhe juro arrancá-la se não produzir bem no ano seguinte, lá continua, não tão nociva, acho eu, como os agoiros prediziam. E os figos são incríveis.
Ora, como sucede nos anos bons -- e este é um deles, ainda bem que a crise não se propagou às árvores --, reparto a produção com os amigos. Surpresa é que, ultimamente, a simples palavra "figos" provoca olhares augados, conversa lastimosa: "As saudades que eu tenho da figueira do meu avô e das barrigadas de figos que lá comia" e eu, incapaz de resistir a tão forte desejo por uma das melhores frutas da Terra, volto a trepar à árvore, tentando encontrar mais uns figuitos para acudir à nova cliente. Sempre dados com indescritível prazer -- como a figueira mos dá.
Abençoada árvore.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Myra, Maria Velho da Costa

A odisseia de uma jovem russa em Portugal, também ela de mil ardis, contada com uma técnica narrativa primorosa, a combinação harmoniosa do real com o fantástico, a sintaxe elegantemente agramatical, a função poética da linguagem, as personagens – o cão de luta, o motorista, a pintora e os seus empregados domésticos, o frade, para quem a castidade é pecaminosa, e a freira escandalizada com tal heresia, o cego e a sua cadela, o rapaz pardo por quem Myra se apaixona, a gata, os delinquentes que encarnam o mal, a proxeneta e as crianças prostituídas...
O melhor romance que li nos últimos tempos. Um assombro.
O melhor romance que li nos últimos tempos. Um assombro.
domingo, 28 de junho de 2009
terça-feira, 23 de junho de 2009
quinta-feira, 18 de junho de 2009
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Da eloquência
terça-feira, 16 de junho de 2009
Amsterdam, Jacques Brel

As férias grandes eram então grandes, intermináveis na solidão aldeã, os rapazes da minha geração aprendendo ofícios por aqui e por ali, os estudantes fechados em casa a marrar para os exames de segunda época ou a banhos na Nazaré. Na aldeia, que a imigração esvaziara, o convívio quase se resumia a um longo bocejo ao serão, em frente à televisão do café, por entre velhos que jogavam dominó e menos velhos de corpo, igualmente envelhecidos de espírito, que discutiam a bola. Vivia só com a minha avó, os meus pais mourejando na Holanda, em Amesterdão, com os meus irmãos. Apenas eu, o mais velho, ficara. Por companhia, os livros que mensalmente requisitava na biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian, uma telefonia que apanhava a Emissora Nacional -- e os sonhos.
E numa manhã, enquanto a minha avó me contava as novidades do dia – quem namorava quem, quem ralhara, quem fizera as pazes, o que esta dissera daquela – ouvi pela primeira vez Brel. De imediato me impressionou aquela voz poderosa, máscula, dura, nos antípodas das cantorias lamechas e efeminadas que preenchiam as emissões da rádio. No meu Francês ainda incipiente, compreendi que falava daquele porto que eu conhecera no ano anterior, dos marinheiros que lá nasciam e morriam, que bebiam à saúde das putas – sim, “des putains d’Amsterdam, d’Hambourg ou d’ailleurs” numa época em que palavrões andavam arredados dos media... E eu escutei maravilhado aquela canção, aquela voz, diferentes de tudo o que até então ouvira, e aquela raiva gritada, falando de cerveja e de batatas fritas, dos marujos que tiram macacos (do nariz) nas estrelas e “mijam como eu choro sobre as mulheres infiéis”...Para ouvir Amsterdam, mal traduzida para Inglês (por exemplo: Batave, traduzido por boat, whore, é apenas um nome antigo para Holanda).
Foto: minha, tirada em Amesterdão, aí por 1976.
Tropa fandanga
sexta-feira, 12 de junho de 2009
O blogue do pintor
O João Alfaro estreou-se na blogosfera com este belíssimo blogue. Pinturas lindas, fotos das ferramentas do ofício, textos que dão conta das suas motivações e gostos (Diz ele: "O acto da escrita é, para mim, muito sofredor." Bem-vindo ao clube.)
É um repouso de alma um blogue assim, especialmente para quem, como eu, já não suporta a politiquice nacional, se impacienta com uma certa actualidade noticiosa, feita de desgraças quotidianas -- sempre bem esticadas, bem espremidas, cadáver a cadáver --, se agonia com a crítica social estribada numa qualquer presunção de superioridade.
Engenho, arte e uma enorme capacidade de trabalho: temos blogger (ou bloguista?)
É um repouso de alma um blogue assim, especialmente para quem, como eu, já não suporta a politiquice nacional, se impacienta com uma certa actualidade noticiosa, feita de desgraças quotidianas -- sempre bem esticadas, bem espremidas, cadáver a cadáver --, se agonia com a crítica social estribada numa qualquer presunção de superioridade.
Engenho, arte e uma enorme capacidade de trabalho: temos blogger (ou bloguista?)
terça-feira, 9 de junho de 2009
Alimentando o gato Felpudo
Não gosto muito de gatos. Mas este e a irmã foram trazidos pela mãe, famintos, pouco após a morte da minha rotweiller. Alimentei-os e foram ficando pelo quintal, sempre ariscos, sem deixar que ninguém lhes toque. Excepção: o Afonso. A amizade com o macho, o Felpudo, começou cedo, quando o Afonso berrava desalmadamente, sem que nada o calasse; então, levava-o até à porta, mostrava-lhe o gato e, miraculosamente, a gritaria infernal cessava. Depois, começou a andar e a perseguir o Felpudo, que se lhe vinha encostar e pedir afagos. Agora retribui, prendendo o cão e alimentando-o.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
sábado, 6 de junho de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
É queimar!
Outra noite de calor insuportável. De madrugada, bem antes do nascer do Sol, levanto-me e abro as janelas para refrescar a casa. Depressa a temperatura começa a descer dos 28 graus. Volto a deitar-me, saboreando o fresquinho que entra pelas janelas – para de me levantar de um salto e correr a fechá-las: outro vizinho resolveu queimar o lixo do quintal e a fumarada enche-me já a casa. É assim todo o ano, pouco importando que seja Inverno ou Verão, que haja roupa estendida ou não. Creio que é, simplesmente, espírito incendiário, embora moderado: queimam sempre os resíduos em verde, para não levantarem altas chamas…Com a escolaridade básica, ou professores, ou engenheiros – não importa. É queimar.
Dioxinas? -- Isso é nas cimenteiras.
Mau cheiro? -- Não te chega nada a casa!
Podas, relva, caules de couve, detritos diversos, tudo serve para a fumarada matinal ou vespertina, o que importa é que quando se podem abrir janelas para refrescar as casas lá vem a fumaça. (No Inverno, preferem a hora de maior calor, quando queremos enxugar a humidade da estação. Como podem atender a reclamações, se sempre discordamos da hora das queimadas?)
Como aquele capitão do Apocalypse Now que adorava o cheiro a napalm pela madrugada, assim são eles. Não há melhor perfume matinal, assim até lhes dá gosto levantar cedo, a puta da vida ganha-lhes sentido. É queimar.
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