Número total de visualizações de páginas

sábado, 10 de abril de 2010

Sábado (de tarde)

A amassar o pão.



Posted by Picasa

Sábado (de manhã)

Perna de borrego assada no forno.


Posted by Picasa

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Cão de trabalho

Bem português, como o dono. A culpa é do calor, da luz que enche os olhos, da beleza de cada recanto da nossa terra. Alheado como o dono da pedofilia clerical, de submarinos, de engenheiros-arquitectos. Claramente descrente do potencial salvador de um qualquer coelho.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os padres e eu

Nunca confundi sotaina com santidade e cresci em aldeia que desprezava os "homens de saias". Sinto pelos padres o mesmo que Garrett, Camilo, Junqueiro, Eça. Ou o meu pai. Aborrece-me o seu ar pedante, convencido, não raro amaricado. O seu farisaísmo (Faz o que eu digo, não faças o que eu faço, troça deles o povo). A certeza de que crucificariam Jesus se voltasse à Terra.
Posto isto: enjoam-me as notícias sobre a pedofilia na igreja, as desculpas, as exigências de resignação do papa. Há padres pedófilos, como os há terroristas ou traficantes de armas. Como os haverá entre os clérigos de outras confissões, de outras religiões. Os santos são mais raros que os cometas e o hábito não faz o monge. É tudo.

Mas os padres fazem-me falta!

"Assim rogada, a comadre contava, baixando a voz e olhando em volta como se ouvidos indiscretos a pudessem ouvir ou olhos desconfiados a pudessem ver a falar da vida alheia. Fazia-o porque história segredada tem sabor a rumor e o povo adora murmúrios e boatos. — Pois, comadre, até corre por aí que anda metida com o padre Vergílio!
— Não me diga! Não posso crer... Logo com o senhor prior!
Pois era para que a comadre visse como são as coisas. Tempos atrás falara com a Teodora da parte do Ildefonso, um rapaz sério. Recebera a proposta com desdém: que ele era feio, que isto, que aquilo, que não queria nenhum cavador de enxada para passar a vida arrastada, agarrada à terra. Tanto escolheu, que deu nisto!
A mãe da Joaquina estava mais interessada no romance: — Logo com o padre! Que eu nunca dei muito por ele, sempre o achei herege, com essa conversa de que Deus está no Céu, na Terra e em toda a parte, até no curral da minha burra!
O marido, pouco apreciador de homens de saias, como gostava de frisar, meteu-se na bisbilhotice: o pároco era uma besta, profanando um local sagrado como é a igreja com ditos parvos em linguagem imprópria, como esse da burra. Sim, que mesmo os ateus, mesmo os pedreiros-livres, quando entram numa igreja para um funeral, para um casamento, comportam-se com compostura. Então como admitir ao vigário de Cristo...
As mulheres não o ouviam. Não era a moralidade, antes a imoralidade que lhes interessava. Deixaram a continuação da má-língua para mais tarde, sem homens por perto a atrapalhar — ainda por cima, como é sabido, eles têm uma língua de trapo e então se bebem um copo a mais..."

Entre Cós e Alpedriz

(Foto: igreja de Alpedriz)

Batatas serôdias

O tempo obrigou a plantá-las com dois meses de atraso. E cada um diverte-se como pode ou como quer.
Na Salgueira, com este tempo, estas vistas, este ar, não invejo nenhum Mexia. A erva que se vê à direita em breve dará lugar a feijão. Catarino, como eu.

domingo, 4 de abril de 2010

Coisas que não esquecem

E que se recordam com os netos. Quarenta e cinco anos depois, volto a jogar o pião. Com o Vergílio e o Jorge. Fotos aqui.

Nós e o desporto

Francisco José Viegas traz números do Eurobarómetro: nós, portugueses, somos dos europeus que menos desporto fazem -- pior do que nós, os gregos, quem diria. 
Poder-se-ia relacionar esta realidade com a nossa preguiça, inércia, comodismo, chico-esperteza, com jantares labregos em que come à antiga romana, com o baixíssimo nível cultural do país. Tudo isto será  verdade. Mas não a VERDADE. O desporto nasceu na Inglaterra e durante muito tempo foi apanágio de elites aristocráticas e burguesas que se podiam dar ao luxo de se esforçar sem proveito material enquanto os camponeses, os operários, esgotados por jornadas de trabalho que alguns agora querem reeditar, suspiravam por descanso; de transpirar enquanto o povo suava; de trabalhar para o aperfeiçoamento físico enquanto o povo o fazia para aconchegar o estômago.
O Mundo mudou; a sociedade não muda assim tão depressa. Mais facilmente enchemos o bandulho matando a fome ancestral, mais depressa nos refastelamos nos sofás a berrar contra os ladrões dos árbitros do que corremos para os ginásios ou por essas estradas fora. E sem o trabalho duro dos nossos pais e avós, que queimava toda a caloria que ingerissem, com alimentação em abundância à nossa disposição, engordamos, preguiçosos, sempre sonhando com comida como os nossos antepassados após outro inverno de fome.

NOTAS: 
(1) Constato uma mudança radical nos últimos 20 anos: então, aconteceu-me ser vaiado quando corria na estrada; hoje, no Entroncamento,  abundam corredores, adeptos das caminhadas exercitando-se ao crepúsculo, ginásios mais ou menos compostos. O exercício físico está na moda.
(2) Não sou daqueles que dizem: fiz desporto quando era mais novo. Exercito-me quase diariamente -- no karaté, a passear o cão, na agricultura. Mais faria, se mais tempo tivesse.

terça-feira, 30 de março de 2010

A ministra da educação e as ilusões dos profs

É confrangedor ver como confundimos a realidade com as nossas ilusões, indiferentes ao facto de a senhora ministra não ter, até agora e que eu saiba, implementado uma única das suas numerosas promessas, sempre alardeadas perante os media em vez de as fazer publicar no Diário da República. E com a vagueza que caracteriza o seu discurso, mais feito de insinuações e de sorrisos que de matéria concreta que evidencie conhecimento dos dossiês, tem conseguido granjear importante capital de simpatia e de ilusões, inclusive entre os profs, esperançosos de que o reinado negro da megera tenha finalmente terminado -- esquecendo que se trata de uma política desenvolvida nos últimos 30 anos, concebida pelas autodesignadas Ciências da Educação, as quais não foram minimamente molestadas pela mudança da equipa ministerial.
Não me surpreende, portanto, a notícia de que os alunos não reprovarão por faltas, que transcrevo:


"Alunos não chumbarão automaticamente por excesso de faltas


A ministra da Educação, Isabel Alçada, revelou hoje que os alunos com excesso de faltas não vão reprovar automaticamente, mas apenas por decisão do conselho de turma caso se verifiquem insuficiências na aprendizagem.
«A nossa proposta de Estatuto [do Aluno] não inclui a reprovação por faltas. A reprovação decorre da insuficiência da aprendizagem se assim o conselho de turma o entender», afirmou a ministra, em declarações aos jornalistas, no final de uma audição na Comissão de Educação da Assembleia da República.
Segundo Isabel Alçada, a proposta de alteração ao diploma, que seguirá para Conselho de Ministros «muito em breve», procura evitar a retenção por faltas, dando aos diretores e professores mais poder para impedir que o aluno falte repetidamente."
Diário Digital / Lusa
Assim, os alunos (eu tenho vários nessas circunstâncias) não precisarão de pôr os pés nas salas de aula e medidas visando o combate à indisciplina, como o reforço das exigências de pontualidade ou a aplicação de suspensão em caso de violência terão reduzido ou nulo efeito prático.
Em suma, alguma coisa precisava de mudar para que tudo ficasse na mesma. Mudou o rosto da ministra.

sábado, 27 de março de 2010

Treino de instrutores

Entroncamento, 27 de Março de 2010. Dirigido por Vilaça Pinto Sensei. Fotos disponíveis aqui.
Posted by Picasa

sexta-feira, 26 de março de 2010

Sono...

Correio atrasado. Novela em última (espero, já foram tantas!) revisão, atrasadíssima. Que diabo faço eu? Nem sei bem: fazer testes, corrigir testes, fazer a avaliação de acordo com os sete e quinhentos do eduquês, valha-me o Excel, o melhor programa da Microsoft, daqui a pouco até faz a avaliação sozinho por mim, que sofro de há semanas para cá de autêntica doença do sono, que ou me prostra no sofá, ou me deixa meio acordado, incapaz de fazer coisa que preste, sobretudo de responder a mails importantes. Que me desculpem. As respostas seguem em breve. Pior, quanto mais durmo, mais sono tenho. Quando era mais novo, pensava eu que com a idade se precisa de dormir menos. Bem enganado estava. Como compreendo agora tão bem os versos de António Nobre!

« Na vida que a dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vilaça Pinto Sensei no Entroncamento

Para dirigir treinos de instrutores. Sexta (17-18H30) e sábado (9-11 H e 17-19H), no Ginásio Il Korpo.
Vilaça Pinto Sensei é pioneiro do Karaté em Portugal, tendo sido formado no Japão pelo mestre Nakayama, lenda viva do Karaté. Para quem o não conhece, recomendo a leitura da entrevista que deu recentemente à revista inglesa “The Shotokanway”, disponível aqui:

(Foto: estágio idêntico, mesmo local, Março de 2009)

A grande cólera

(Canta, ó deusa, a cólera...)

...Atena e Hera te darão força, se quiserem;
mas tu domina o coração orgulhoso
que tens no peito. A afabilidade é preferível.
Abstém-te da discórdia geradora de conflitos,
para que te honrem ainda mais Aqueus novos e velhos...

Ilíada, Homero, trad. Frederico Lourenço

O primeiro livro da literatura europeia, escreve na Introdução Frederico Lourenço, acrescentando que "sob um certo ponto de vista, nenhum livro que se lhe tenha seguido conseguiu superá-lo".

terça-feira, 23 de março de 2010

Casamento

Sem fato de noiva, sem banquete. 36 anos depois daquele 23 de Março de 1974, faço minhas as palavras de Brel :
Finalement finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes
(Finalmente, finalmente
Foi-nos necessário muito talento
Para sermos velhos sem ser adultos)
(Chanson des vieux amants)

sábado, 20 de março de 2010

Cenas da vida familiar

A tia Sofia e o Tiago.
Posted by Picasa

sexta-feira, 19 de março de 2010

Alteração do regime de faltas dos alunos

"A ministra da Educação, Isabel Alçada, anunciou hoje que vai alterar o regime de faltas dos alunos e que voltará a haver distinção entre ausências justificadas e injustificadas." (Público)
Eis uma medida do mais elementar bom senso. Mas, pergunto eu, que bem gostaria de acreditar que vão ser tomadas medidas para repor um mínimo de disciplina nas escolas,
1. Que consequências vão ter as faltas? Que efeitos práticos? Por exemplo, vão permitir reprovar os alunos faltistas ou castigados com dias de suspensão, ou terão apenas efeitos estatísticos, como acontece actualmente? 
2. Como vai o Ministério da Educação reagir aos possíveis protestos das Associações e Confederações de Pais?
3. Com uma equipa que anuncia muito, mas tarda a publicar em suporte legal as suas anunciações, que avança com decisões extremamente gravosas, como o fim dos concursos de professores, e prontamente as retira  (ou não mediu as consequências, ou receou as consequências, já não sei o que é pior) -- que confiança se pode ter nesta e noutras anunciações?

terça-feira, 16 de março de 2010

Bullying na minha escola

Há quatro ou cinco anos, um dos meus jovens alunos de karaté, desajeitado e trapalhão, vem falar comigo no final do treino: tinha posto a cara de um colega em sangue...
Nem lhe dei tempo para se explicar. Ralhar antes de ouvir é um dos meus numerosos defeitos: se não estava farto de saber que o karaté não era para ser usado em brigas de escola...
O moço sabia: --- Mas queriam-me levar ao poste...
--- Ao poste?
--- Sim, ao poste, para me baterem lá com os testículos!
Alto lá. Não serei eu a condenar rapaz que defende a integridade dos ditos cujos, que um dia ainda lhe poderão fazer falta. --- Como é que é isso?
--- Ah, quatro ou cinco agarram-nos, correm contra um poste e batem connosco, de pernas abertas  contra ele.
Eu, já calmo: --- E tu, o que é que fizeste?
Não sabia bem. Só se lembrava de que da cara de um deles jorrou sangue e todos fugiram.
Fui imediatamente prevenir o presidente do Conselho Executivo: --- Se aparecer algum marmanjão a queixar-se do meu aluno, já sabes o que se passou. 
E fiquei pensando que outros, de maior fineza técnica, de maior agressividade no dojo, talvez não tivessem conseguido enfrentar devidamente a violência. Porque, em caso de agressão, o segredo, ensina-me longa experiência, é agir primeiro e pensar nas consequências depois. Porque "um cérebro é uma ferramenta que não serve para pensar; serve para agir" (Alain Resnais, Mon Oncle d'Amérique).
 
Foto: estágio Goju Ryu em 2002, Escola Secundária do Entroncamento

Bullying em Os Maias

Esta coisa do bullying não é nova. Sempre houve quem lhe fizesse frente e quem, pelo contrário, optasse por servir de bombo da festa. Veja-se como, na ficção, Eça não hesita em pôr o seu Carlos a zurzir nos malandros. E, repare-se, o avô não recorre a tretas pacifistas -- essas ficam por conta dos psicólogos e pedagogos modernaços:
Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra história. Era o Manuel, trazia uma pedra na mão... Ele primeiro pensara ir às boas; mas os dois rapazes começaram a rir... De maneira que os correu a todos...
— E maiores que tu?
— Três rapagões, vovô, pode perguntar à tia Pedra... Ela viu, que estava na eira. Um deles trazia uma foice…
— Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, desmonte, que está a sopa a esfriar. Upa! upa!

domingo, 14 de março de 2010

Companheiros de trabalho


Para ampliar, clicar na foto.

quinta-feira, 11 de março de 2010

11 de Março


No dia 11 de Março de 1975, tinha eu vinte anos e fora incorporado no exército em Janeiro desse ano. Fazia a minha recruta no Regimento de Infantaria de Leiria (RI7) como instruendo e ia começar a minha semana de campo. Na véspera, fomos informados dos planos: ao alvorecer, chegariam helicópteros, embarcaríamos e seríamos lançados numa pista de técnica de combate, em condições muito próximas do real. Formámos na parada, equipamento completo (farda nº 3, arreios, cantil, carregadores vazios, G3, etc.) e ficámos horas a olhar para o céu, à espera da chegada dos hélis, um pouco assustados, que a guerra nunca é uma brincadeira, mesmo em treinos. A meio da manhã, sem esclarecimentos, mandaram-nos marchar e atravessámos a cidade ao toque de tambores, algo vaidosos, o trânsito interrompido à nossa passagem, quatro companhias, rumo aos Marrazes. Ainda de longe, ouvíamos já o estrondo grave do rebentamento das granadas, o matraquear das metralhadoras, os tiros constantes das espingardas G3, até o som amaricado de uma ou outra pistola-metralhadora Vigneron. As ordens chegavam já berradas, Tá a formar em bicha pirilau! Corram! E nós corríamos, sem saber para onde, atrás do camarada da frente, por entre o chinfrim infernal e o cheiro da pólvora. Então o da frente estaca, detenho-me também, passa camarada enlouquecido, sem que os oficiais que o perseguiam o conseguissem deter, sangue jorrando da coxa: tinham-lha furado com bala real. Gritam-nos para continuar, perco o medo, se já lixaram um vão ter mais cuidado com os outros. E corria por cima de troncos sobre riacho enlameado ainda com muita corrente, rastejava por debaixo do arame farpado enquanto assobiavam balas (sim, nós sabíamos que o tiro estava regulado em altura, só não devíamos levantar a cabeça, por isso a afundava na lama, lama por todo o lado, já nem ligava aos tiros, era certamente munição de salva, nem às granadas de treino, azuis, que lançavam de todos os lados, inofensivas como bombas de São João, corria pelo leito do riacho, sempre por entre a berraria de oficiais e furriéis, ouço um gritar O pequenino é o melhor, então surge-me pela frente um tenente e lança uma granada ofensiva bem para cima de mim. Mergulho no lodaçal, estoira a granada, só quem já assistiu sabe do poder do estrondo, da violência do sopro, de resto são inofensivas, levanto-me prontamente para continuar a correr por ali abaixo, mas o braço direito, sempre segurando a G3, estava imobilizado. O tenente puxa-o, parece voltar ao sítio, continuo, só mais tarde soube que tinha uma lesão para o resto da vida. E subitamente tudo acaba para mim, camaradas do meu pelotão recebem-me risonhos, estamos felizes, sobrevivemos, não fugimos, não chorámos, abençoados palavrões, por isso nunca os desperdiço, antes os reservo para ocasião propícia. Alguém diz Há guerra em Lisboa e nós aqui a brincar aos soldados. É tempo de organizar e partir para novas provas, mais pacíficas, bem cansativas, e assim continuamos até à noite. Para dormir, manta reles, um pano de tenda, com quatro faz-se um bivaque, o frio e a humidade são terríveis, os camaradas de "quarto" vão para uma fogueira, eu, doido com sono, morto de cansaço, durmo ali, sobre água que corre pelo chão, enregelado.
À alvorada, formamos e regressamos ao quartel, a semana de campo durou um dia, não tocam bélicos os tambores, marchamos como vencidos, envergonhados, para não atrair a atenção do povo. No quartel, contam-nos factos e boatos, ninguém sabe bem o que se passa, parece que os pára-quedistas atacaram o Ralis nos nossos helicópteros, há mortos e feridos, e olhamos constantemente para o céu, receosos de que desçam sobre nós, discutimos se os tentamos abater no ar ou os deixamos poisar primeiro, os corpos tremem, é frio, é medo. Grita fora o povo, somos fascistas e não o sabíamos, mandam-nos para a carreira de tiro interior fazer fogo com as metralhadoras HK21, na esperança vã de que o barulho afugente a multidão. À noite, mais boatos: os americanos preparam-se para desembarcar nas nossas praias, é a contra-revolução fascista do Spínola que aí vem. E um furriel, apavorado, pede-nos aguardente, vai sair com uma companhia de prontos para defender a Praia da Vieira.
Na manhã seguinte, 13 de Março, andamos em pequenos grupos pela parada, nenhum oficial aparece, os furriéis sabem tanto como nós, e desce um héli, não são pára-quedistas, são jovens oficiais, muito jovens, com patentes demasiado elevadas, que chegam e reúnem com o comandante. Acabamos por saber que foi demitido, o povo está com o MFA e tretas do género, eis que chega a época dos comícios, dos oficiais de aviário, ontem eram tenentes, hoje são majores, começam os fins-de-semana cortados por prevenções rigorosas que vem aí o espectro da contra-revolução e esses valentes oficiais juram e voltam a jurar que morrerão com as botas calçadas – para se esconderem cobardemente no 25 de Novembro, mas essa é outra história, em que também estive envolvido, bem contra vontade.

terça-feira, 9 de março de 2010

O tempora! O mores!


Na televisão, a propósito do miúdo da escola de Mirandela que se terá afogado no Tua, uma mãe confirma: sim, há bullying na escola. E comprova. O seu próprio filho foi forçado a riscar um carro:
--- Se não riscas aquele carro não és mais meu amigo.
Não a ouço falar de umas boas palmadas pedagógicas, nem sequer da conversa que se impunha: amigos daqueles, quanto mais longe melhor. Apenas parece pretender desculpabilizar o seu pequeno vândalo, culpando outro.
Recuo no tempo, até à minha própria adolescência. Nem pensar em riscar carros, a propriedade era então sagrada, os pais tinham de pagar os estragos dos filhos, que depois os pagavam em casa com o corpo. Desresponsabilização por ter sido aliciado? Duvido muito. Acreditava-se então no livre arbítrio, na consciência do Bem e do Mal, que, aliás, se incutia desde muito cedo.
Comparando as nossas patifarias com as actuais, creio que nos portávamos bem; as transgressões, inevitáveis, eram pensadas, medidas, não raro evitadas por medo das consequências. E hoje? Sendo sempre a culpa dos outros – amigos, professores, escola – os jovens, não raro apelidados de crianças, mesmo que já tenham atingido a maioridade ou andem perto dela, são, na prática, inimputáveis. Podem, portanto, fazer o que lhes der na veneta porque, na pior das hipóteses, terão de varrer numa tarde as folhas do átrio da escola ou receber acompanhamento psicológico.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Como publicar um e-book para Kindle

Ramiro Marques publicou em ProfBogue um post meu em que descrevo sumariamente o processo de edição dos meus romances na plataforma digital da Amazon, que consegui fazer graças à informação disponibilizada por José Bernardes (Kindle Portugal). No meu post explico também como obter o ISBN porque, apesar de não ser obrigatório para publicação na plataforma da Amazon, tem interesse indiscutível.

domingo, 7 de março de 2010

Sobre a função pública e a greve

Gostei deste post de Eduardo Pitta. Concorde-se ou não com ele, há que reconhecer que escreve tendo sempre presente o rigor dos factos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os meus romances no Kindle

José Bernardes, no seu blogue Kindle Portugal, teve a gentileza de divulgar a publicação em formato Kindle dos meus romances Do lacrau e da sua picada e Entre Cós e Alpedriz.
Muito obrigado!

terça-feira, 2 de março de 2010

E-books portugueses para Kindle

Os meus romances Do lacrau e da sua picada e Entre Cós e Alpedriz podem ser adquiridos na Amazon em formato Kindle.
Agradeço todas as críticas, tanto aos conteúdos como à forma.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Nunca mais Primavera

Badaladas do sino
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa

Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera
Neste tempo tão chuvoso?


Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração

(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)

Lá, onde corre a fresca regueira
onde cresce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão

O sino dobra novamente a finados...

(Entre Cós e Alpedriz)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Tiago e o avô

Em dia de temporal, fechados em casa. Quase como no soneto de Correia Garção, substituindo  "a rezar" por "a dormir" e "jogando" por "pintando" (dinossauros, com o Afonso, no Paint).

Cheios de espessa névoa os horizontes,
Espantosas voragens vem saindo!
Foi-se o Sol entre as nuvens encobrindo,
Voltando para o mar os quatro Etontes

 
Caiu a grossa chuva pelos montes,
Os incautos pastores aturdindo;
E engrossados os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes

 
Com medonho estampido, navorosos.
Os longos ecos dos trovões soando.
A rezar nos pusemos temerosos.

 
Parou a chuva; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos;
Não me atrevo a sair, fico jogando.


Correia Garção


Posted by Picasa

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Duro Inverno

"... Então, o mais tardar na própria noite, procuram fazer as pazes, passando dos berros e das lágrimas à ternura e depois ao prazer, adormecendo nessas noites frias de Inverno enroscados um no outro como cobras, bem aconchegados sob cobertor de papa e mantas de trapos, enquanto a nortada procura friesta por onde entrar e a chuva tomba desalmadamente sobre as colinas, escorre pelas regueiras, inunda os chãos-de-horta, transforma regatitos em riachos furiosos, que tudo arrastam consigo — árvores, pontes de madeira, gado, pessoas até, como sucedeu à filha do Mouco, numa tarde em Cós.
(...)

E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pescadores. Há meses que não podiam ir ao mar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha, seja o vinho vendido.
(...)
O duro Inverno prolongou-se até finais de Abril, alargando constantemente o fosso entre ricos e pobres e multiplicando estes últimos, em boa parte à custa dos que tiveram até então uma pobreza remendada, apoiada numas courelas que lhes asseguravam alguma independência, mas que agora se viam forçados pela necessidade a empenhar ou a vender por tuta-e-meia.
As geadas queimaram as batatas novas; o feijão e o milho não medravam, antes pareciam definhar, amarelentos; o granizo, a que cá chamamos pedraço, destruiu boa parte das uvas e o míldio devastou as vinhas, apesar das pulverizações constantes com calda bordalesa, que a chuva prontamente lavava. Faltava a lenha e os cavacos encharcados que podiam conseguir nos pinhais eram ciosamente guardados pelos donos, que, em vez de agradecerem a limpeza gratuita que as mulheres faziam às matas, retirando com longas varolas os ramos secos, carregando a caruma e as pinhas para atear o lume, o tojo para chamuscar o porco, se as apanhavam em flagrante delito exigiam pagamento da carga, como se tivessem com quê, aproveitando, se estivessem sozinhas, para sugerir que então pagassem com o corpo. (...)"
Entre Cós e Alpedriz

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Inverno do nosso descontentamento

Não se trata de Shakespeare, nem do romance de Steinbeck --- é a triste realidade em que o nosso país vive. Como uma desgraça nunca vem só, diz o povo no seu optimismo secular, à crise financeira, ao desemprego crescente, ao endividamento, aos escândalos políticos, somam-se este Inverno ataques da natureza raramente vistos na nossa terra: Oeste, Madeira, tornados...
Agrada-me a chuva que inunda campos sequiosos,  alegro-me vendo cheios os poços vazios no Outono. Mas estamos no fim de Fevereiro, e o Sol, "cá dele", como se diz na minha aldeia? E sem Sol nada se cria, nem sequer nabiças e nabos, que tanto apreciam a chuva, sem Sol que enxugue os campos impossível cultivá-los, e muito em breve será demasiado tarde para as minhas sementeiras de sequeiro...
Precisamos urgentemente de Sol que torne glorioso este Inverno inusitado -- diferente daquele que ficou em Alcácer Quibir.
(Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;


Shakespeare, Ricardo III )

Farrapos de nuvem

...E um olhar destemido atravessa o tempo
Atravessa-me no meu tempo  – eu sei, não sou daqui
daqui onde a mãe chuva é  delícia
e o mau tempo  prazer

Não como a ave que traz à terra o branco do céu
e o solta em efémero grito ...

(Fragmento de um rascunho meu, já antigo)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Não deserto do ensino

Não meti os papéis para a reforma hoje. Faltou-me a coragem. Afinal, é a minha vida desde 1976. Por pior que o ensino se tenha tornado, por pior que vá ficar --- e vai, não duvido, por muito que a minha ministra sorria --- não me imagino a viver fora dele. Eu sei, alguma vez terá de ser. Mas não hoje, mas não agora.
Nem preciso de inventar desculpas, argumentar com penalizações e quejandos. É só cobardia. Sem a minha profissão, sofreria do síndroma do membro amputado. É um sacerdócio, uma cruz que tenho de carregar, por sentido de dever, ou por não ser capaz de viver de outro modo. Não adianta arranjar desculpas.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Elefantes, jibóias e desertores

Para o Reinaldo:

Cá está o elefante a que me referia, engolido por uma jibóia.
Quanto ao desertor, se não mudar de ideias até lá, será o mocinho da foto. Amanhã, antes que se torne impossível e se veja obrigado a continuar até ao fim dos seus dias uma inglória carreira de palhaço.
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
Le déserteur, Boris Vian

O desertor

C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous le dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

( [Sr. Presidente] não é para o irritar
É preciso que lho diga
A minha decisão está tomada
Vou desertar)
(Boris Vian, Le déserteur)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A avó Zé

A avó Zé vista pelo Afonso. Trabalho de artista, na linha de Miró.  Evidencia, sem margem para dúvidas, que o talento para a pintura foi herdado do avô materno --- eu próprio. 
Põe os olhos neste pequeno pintor, João. Admira a disposição, a subtileza cromática, a linguagem não figurativa mas fortemente expressiva, a melancolia do modelo...

(Sei que é a avó porque o Afonso mo disse; porque se me tivesse dito que era um marciano teria acreditado na mesma. Também me pintou, mas não está satisfeito com o retrato: não conseguiu fazer o bigode; descontentamento de artista, que certamente motivará a próxima obra-prima.)
Posted by Picasa

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Amigos, amigos...

Nem que me tivesse saído o Euromilhões: as propostas de amizade surgem às dezenas por dia --- fulano (não imagino quem seja) "adicionou-te como amigo(a) no Facebook. Precisamos que confirmes que conheces X para que sejam amigo(a)s no Facebook"....
Já pensei em criar um filtro anti-spam. Para não ter de o fazer, lembro que tenho feitio intratável, interesses pouco apetecíveis (gosto de trabalhar, de transpirar), não perco tempo com conversas de salão, não vou em futebóis, não troco um livro do Camilo (estou a ler O Senhor do Paço de Ninães) por todos os que estão nos tops, não gosto de viajar, não como massas (e pizzas só com muita larota), não suporto aquilo a que hoje chamam música (e tenho uma lesão do ouvido interno nos 43 db)...
Em resumo: não sou nada recomendável para amigo. Por que não vão bater a outra porta?

"Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho. 
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia
!"

Álvaro de Campos, Lisbon Revisited

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Domingo

Dia de frio (ah, este aquecimento global!), corpo dorido de treinos de karaté na sexta (Entroncamento) e no sábado (Leiria) dirigidos pelo sensei Vilaça Pinto (sem fotos, esqueci-me das pilhas).
Hoje seria dia de descanso, tinha-o decidido, mas a imagem é enganadora. Como diz o meu narrador numa novela que recentemente terminei,
"sete dias tem a semana, cada qual de labuta, só o Senhor, porque é Deus Todo-Poderoso, pôde descansar num deles..."
Posted by Picasa

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Asfixia democrática

Oiço na televisão, Canal 2, Telejornal das 10H, moço boy do PSD em comissão parlamentar:
"Quando se há receio..."
Enganou-se, penso eu. Mas ele, que, pelos vistos, aprendeu técnicas de retórica, repete e repete: "Quando se há receio..."
A senhora presidente, que até foi ministra da educação (como Couto dos Santos, o tal do "Se eu fosse aluno bastaria-me ver a prova" a propósito da PGA) não poderia encomendar umas aulitas de língua portuguesa, pelo menos para os seus moços que falam para a televisão? Ou asfixiá-los democraticamente, para não acrescentarem a uma desgraça outra bem maior?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Desenhos animados

Sempre gostei de desenhos animados. Dos do meu tempo, em que um coelho esperto fazia patifarias, ou um canário torturava um pobre gatinho, dos do tempo das minhas filhas, a Heidi, depois Scubidu, o cão que ria... Agora, com os meus netos, vejo Os Irmãos Coala, o Carteiro Paulo, Vila Moleza... 
As histórias melhoraram muito. Gosto, por exemplo, do Carteiro Paulo, que é feliz a distribuir o correio, nestes tempos em que ser feliz é (1) estar reformado; (2) viajar; (3) comprar. 
Ou da Vila Moleza, com heróis sempre activos e dinâmicos em luta contra o sedentarismo juvenil e trocando os doces pela comida saudável. E o mau perde sempre! Eu sei, na vida é ao contrário, mas lá que dá gosto vê-lo cair vítima das suas próprias armações, dá. Boas lições de vida para os mais pequenos --- o meu neto mais velho vai fazer quatro anos --- e satisfação para o avô, antes que as noticias do telejornal o tragam de novo a este mundo em que
Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Mal d'olhos

Tenho um queratocone. O suficiente para intrigar os conhecidos, sempre prontos a dar sugestões, na sua vontade de ajudar:
--- Porque é que não vais ao oftalmologista? Porque é que não usas óculos?
--- Porque não vejo com eles.
--- Então é porque precisas de mudar de lentes. Etc.
Mas há mais e pior. Um problema que não me afectava há oito anos voltou --- e sei que se vai repetir, como então aconteceu.
A visão começa a ficar indistinta, turva. Um pequeno ponto brilhante --- e eu digo: cá está esta merda outra vez. No canto superior direito, com os olhos abertos ou fechados, surge, brilhante, uma luz curva zigzagueante, como quando olhamos para o filamento de uma lâmpada de incandescência, as cores decompostas como se luz passasse através de um prisma. Então já vejo pouco e mal. Fecho os olhos. A imagem cintilante permanece entre dez a vinte minutos. Depois alarga, dilui-se, as cores quase se combinam e acaba por desaparecer.
Das primeiras vezes, há um dez anos, consultei, apavorado três ou quatro oftalmologistas. Os quais apresentaram várias hipóteses para o fenómeno, nenhum tratamento: insuficiente irrigação do nervo óptico, prenúncio de dores de cabeça... Convenci-me, então, que teria de conviver com  a maleita. Nada fácil: ficar com a visão gravemente afectada ao volante na 2ª circular em hora de ponta, ou numa aula em turma difícil, disfarçando para que me não pressintam fragilizado --- já passei por tudo isto e muito mais --- não é nada bom. Pior é no domingo passado ter recomeçado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Se Portugal fosse pessoa*

* Ler aqui, no blogue de Rentes de Carvalho. O olhar dorido do estrangeirado sobre a nossa pátria, sobre nós, os europeus sem remédio, desde sempre vítimas da nossa própria esperteza saloia.
(Curiosamente, no Público a notícia de que as câmaras se não conseguem livrar dos estádios cuja construção impuseram e nós pagámos e continuaremos a pagar. Enquanto os responsáveis por actos de má governação não tiverem de responder por eles com o seu próprio património --- se é que é o seu património! ---, sem prescrições nem amnistias, sem retórica nem artimanhas de advogados ... Eu sei: em Portugal, isso será no dia de São Nunca. À tarde.)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Aniversários

Não tenho cabeça para datas e deixo passar aniversários que devia recordar. Há algumas excepções: lembro-me do meu e de que no dia de hoje esta menina faz anos e, melhor, que nós começámos a namorar, num café da zona da Faculdade de Ciências, o Big Ben, sempre cheio de estudantes e de tabaco.
Foi em 1973. Para meu desgosto, nesse dia  tivemos de nos separar bem cedo, porque eu tinha pinturas (hoje diz-se grafitos)  marcadas para essa noite, a propósito da comemoração do 4 de Fevereiro, data oficial da guerra em Angola na versão do MPLA, e a polícia estava à nossa espera, sabendo que iríamos pintar e onde o iríamos fazer... Para piorar, os clichés anticolonialistas eram enormes e lembro-me que dos cinco que tinham sido atribuídos ao meu CLAC apenas conseguimos completar dois. Não fora a veterania e o sangue frio da minha camarada do CLAC, bem grávida (que será feito dela? nunca soube o seu verdadeiro nome) e teria sido caçado como coelho. Escapei e no dia seguinte a menina da foto e eu já estávamos outra vez bem agarrados, tão bem que nunca mais nos largámos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A obra nasce

Primeiro uma ideia vaga começa a formar-se na minha cabeça, uma frase surge a reclamar registo escrito --- a obra começa. Vai fluindo penosamente, como ribeirito em busca do seu mar, deriva aqui e ali, recua quando encontra obstáculos insuperáveis, por vezes acumula-se à espera, sempre reclamando trabalho sem me dizer em que direcção seguir, como prosseguir. E, em dado momento, após dias, ou semanas, ou meses, ou anos, (ou nunca),  ganha alma, emerge das sombras, impõe-se-me como história madura, capaz de singrar por si só.
Sim, não dá para acreditar. Confissões destas parecem tretas mistificadoras. Como é que se escreve sem saber o quê? Então não se fazem planos, como aqueles que se exigem aos alunos? Eu não faço. E o processo narrativo torna-se menos intrigante se pensarmos nos nossos próprios filhos. Investimos neles, esforçamo-nos, mas quase sempre seguem o seu próprio rumo, agrade-nos ou não...
Por exemplo, neste momento trabalho num conto em que tento plasmar a minha experiência de operário de plásticos nos idos de 1973. Procuro reconstituir o ambiente, tarefa difícil, porque a escrita é linear, da esquerda para a direita, de cima para baixo, e numa fábrica tudo nos envolve --- ruído das máquinas, dos compressores, das lâmpadas fluorescentes, cheiro a óleo, a plástico fundido, humidade no chão de cimento, que combina perigosamente com a electricidade, pelo que junto a cada máquina há um estrado de ripas de madeira e sobre ele um operário concentrado, mudo, de gestos precisos, olhos atentos aos mostradores, mãos quase insensíveis ao calor que abrem  velozes os moldes. Por vezes, demasiadas vezes, há acidentes: queimaduras graves, dedos ou mão decepada, até um morto por electrocussão --- precisamente o camarada que me substituiu na minha máquina na semana de férias do meu casamento...
Vê-se que esta história vai já adiantada; mas não sei ainda como é que os vários ingredientes se combinarão, qual o desfecho, como será contado... Se prazer há no mister da escrita, é, sem dúvida, este, o da surpresa, a que acresce o da contemplação da obra terminada, com modesto desabafo incrédulo: fui eu quem escreveu isto? Sim, porque cada história é irrepetível, como irrepetível é a minha vida...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Esboço

Do João Alfaro, a experimentar a minha caneta digital.
Posted by Picasa