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quarta-feira, 23 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010

Ainda as exéquias de Saramago

Como a ministra da cultura estava feliz! Tão generosa a distribuir charme e sorrisos durante o seu discurso!

A arte de morrer*

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades: Camões morreu sozinho e ignorado, Pessoa teve quatro ou cinco acompanhantes no funeral e umas linhas no Diário de Notícias, Saramago tem honras à altura de jogador de futebol falecido no campo. E mais me espanta tanta gente sempre pronta a comentar para as câmaras de televisão, todos com opinião sobre o escritor -- afinal, que livros dele terão lido? Aposto que tantos quantos leram de Camões ou de Pessoa.
Neste país que sempre ignorou escritores e poetas (e artistas, de um modo geral), esta histeria colectiva face à morte esperada de um grande escritor escandaliza-me. Assisti às notícias da morte de outros igualmente grandes, sem espectáculo, sem dramatismo televisivo: Cardoso Pires, Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Sophia, Eugénio de Andrade...
Saramago, que dominou a arte do marketing como poucos e não teve pudor em a usar em proveito próprio, terá preparado (ou, pelo menos, consentido) um final em apoteose, capaz de o consagrar como superstar das letras no imaginário popular. Porém, dentro de dias, o futebol será outro, e apenas restarão os seus livros, uns geniais, outros desinteressantes, não raro, sobretudo nos últimos anos, mais do mesmo.


(*A arte de morrer longe: título do último livro de Mário de Carvalho)

sábado, 12 de junho de 2010

De volta a casa

Após treinos em Paredes de Coura, no dojo do sensei Vilaça Pinto. Treinámos até à exaustão, talvez um pouco além dela, o meu programa de exame: kumité na quinta-feira, no sábado de manhã katas e à tarde kihon e novamente as katas. Com o quimono sempre empapada em suor, apesar do tempo fresco e chuvoso. Almoços e jantares substanciais e bem regados, na sexta jantar de aniversário com o sensei e a família dele, por isso mesmo sem fotos.
O grupo. (Clicar para ampliar.) Da esquerda para a direita:
O Luís, o Xavier, o sensei, o Augusto e este escriba e fotógrafo.

O alojamento: como a única residencial da vila estava cheia, na sexta-feira tive de acampar no dojo, contra a vontade dos meus ossos e músculos, que pediam cama fofinha e sono a sós, sem ouvir o ressonar dos camaradas -- porque o meu não me costuma incomodar.
As katas: Jion, a minha favorita (tokui Kata) e Empi (a antagónica).

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Amanhã, 10 de Junho, feriado, é dia de...

Treino em Paredes de Coura, dirigido pelo Sensei Vilaça Pinto. (Clicar na foto para ampliar)

Das reformas múltiplas

1. Ontem a Presidência esclareceu que o senhor professor doutor só acumula duas reformas; o que não esclareceu é como é que o senhor presidente, estando, como está, no activo, recebe reformas. Presidente ganha assim tão pouco?
2. Faz confusão saber que uma mesma pessoa pode ter tido em simultâneo vários empregos. Fará menos confusão se tivermos presente que:
a) emprego é diferente de trabalho;
b) quem muito burros toca, etc. e tal;
c) O tuga é especialista em truques. Eis alguns muito corriqueiros:
-- O truque da antiguidade. Quando o amigo convidava (jamais os inimigos) para um tacho, negociava-se a antiguidade para a reforma, prestações pagas pela empresa pública, é bom de ver. Dez, vinte anos de antiguidade para a reforma logo à entrada...
--- O truque do casaco e da carteira. O quadro deixava o casaco e a carteira no seu gabinete; se alguém perguntava por ele, o funcionário fingia procurá-lo e esclarecia prestável: ---- o senhor doutor, de momento, não está; mas não anda longe, que tem o casaco e a carteira no gabinete. Claro que o funcionário também precisaria de uns diazitos, etc. e tal.
--- O truque do cartão de ponto. Hoje pico o meu e o teu, amanhã picas tu o meu. É sabido que quadro tem privilégios...
--- O truque de pagar os descontos  como se se estivesse a trabalhar numa qualquer empresa (e.g., Alegre na rádio).
--- O truque do conselho de administração. Tão bom como o truque de deputado. Sem palavras.
--- O truque de não gozar férias. Os elementos da administração não pedem férias durante anos, embora as tenham gozado à grande e à francesa, pelo que têm o direito de ser ressarcidos -- à grande e à francesa -- no momento da reforma.
--- Etc.
Não acredito que o senhor presidente, pessoa de reconhecida integridade, alguma vez tenha recorrido a truques ordinários como aqueles que referi. No entanto, fica-lhe mal:
-- receber reformas estando no activo;
-- arengar sobre sacrifícios, ética e quejandos. Porque, quem tem telhados de vidro...

terça-feira, 8 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Zé, simplesmente

Tempos atrás gabava-se mamã galinha:
--- O meu Rui é tão inteligente que até tem Avaliação Extraordinária!
Agora passa a ser assim:
--- O meu Rui é tão, tão inteligente que fez dois anos num!
E se alguém duvidar:
--- Sim, passou directamente do 8º para o 10º!
E o papá: --- É de família. Eu entrei há dois anos para a Universidade, nos mais de 23, já sou doutor e para o ano vou ser mestre.
--- Mas tu mal sabes ler! E escrever, então...
--- Qual quê! Sou é disléxico.
--- Disléxico?
--- Sim. Mas desde que me despenalizaram os erros, é só de dezoito para cima!
--- Dezoito?
--- Para cima. Mas não te admires: na minha universidade (é assim que ele chama à sua ESE) as notas andam todas à roda do vinte. Os stores são cinco estrelas!
--- Granda Sócrates!
--- Podes crer. Graças a ele, deixámos de ser o país mais desclassificado da Europa.
--- E Pisa?
--- Aquela torre quase a cair?
Não, a da avaliação, a do relatório...
--- Ah, essa mafiagem, que punha os nossos alunos atrás de todos os outros, até dos pretos! Ainda bem que o governo suspendeu a nossa participação. Só servia para nos baixar a auto-estima.
--- As coisas que tu já aprendeste!
Enfurece-se:
--- O que tu e os outros como tu queriam era serem os únicos doutores. Ainda bem que o 25 de Abril chegou ao ensino!
--- Doutor, eu? Deus me livre. Só Zé, não quero cá misturas.
(Imagem: João Alfaro)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dos intelectuais

Desconfio de quem se intitula intelectual.
Por isso, de cada vez que um movimento intelectual se organiza e se torna notícia, demais a mais pronunciando-se sobre matéria em que não é mais competente do que um zé-ninguém como eu próprio, recordo-me do grande Prévert:

Il ne faut pas laisser les intellectuels jouer avec les
allumettes
Parce que Messieurs quand on le laisse seul
Le monde mental Messieurs
N'est pas du tout brillant
(...)
Répétons-le Messsssieurs
Quand on le laisse seul
Le monde mental
Ment
Monumentalement .


Jacques Prévert

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Antidepressivo

Também eu. Valha-nos esta Primavera serôdia, em que as rosas teimam em nos recordar que este mês quase findo é Maio. Governos e desgovernos vão e vêm e a crise é endémica entre nós. Como as rosas.

 "Circunda-te de rosas, ama, bebe
    E cala. O mais é nada."
Ricardo Reis

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O regresso da autodefesa

Conta-se que os antigos pescadores recusavam aprender a nadar: em caso de naufrágio, sofriam menos. É, parece-me, ideia semelhante que impera nas sociedades contemporâneas, em que as pessoas recusam aprender técnicas de autodefesa, preferindo confiar na misericórdia dos agressores. Ora a agressão mudou muito, tanto nas suas motivações como nas consequências. Se num passado não muito distante era motivada, hoje não são raros os casos de violência gratuita, que pode culminar em ferimentos graves ou, até, na morte das vítimas e a atitude dócil de cordeiro, que oferece sem resistência o pescoço ao lobo, não só não é dissuasora de ataques como até os pode precipitar. 
Vêm estas considerações a propósito de notícia que acabei de ver na Euronews: na China, a autodefesa foi introduzida nas escolas após uma série de ataques contra crianças, frequentemente mortais. Surpreendeu-me porque, no berço do Kung Fu, antepassado das artes marciais, tais práticas tinham sido banidas por Mao, que as considerava feudais, e os mestres perseguidos e condenados aos campos de "reeducação". Depois, com a ocidentalização, apenas foram promovidos estilos mais suaves, como o Tai Chi Chuan, expurgados das suas aplicações em combate -- e foi essa faceta de "arte marcial não marcial", não raro reduzida a coreografia que tem por única função a melhoria da saúde, que popularizou esses estilos no Ocidente, em detrimento das práticas tidas por violentas, como as variantes "externas" do Kung Fu ou o Karaté.
Receio que não falte muito, desvanecida a ilusão de que o ser humano é naturalmente bom e a violência sempre condenável, para que entre nós se reequacione a necessidade da prática da autodefesa, que as artes marciais promovem. E, antes que me lancem acusações fáceis e frívolas, recordo que estas artes privilegiam a formação do ser humano, ensinando que só é legítimo recorrer à violência em último recurso -- mas então há que o fazer empregando os meios necessários e suficientes para preservar a integridade física dos agredidos.
NOTAS:
(1) Emprego o termo Kung Fu por ser suficientemente conhecido para dispensar explicações;   as referências à sua evolução recente são propositada e necessariamente superficiais.
(2) Na foto, O Xavier e o Mendes, nos exames em Paredes de Coura, 2009.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vilaça Pinto Sensei no Entroncamento

Na próxima sexta-feira, 21-5-2010. Ginásio Il Korpo, 16H30-18H30. No dia seguinte, sábado, orientará treino de instrutores em Leiria.
Fotos: treino de Março passado, mesmo local.

Menção honrosa

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Rosa alba

Do meu jardim.
Maio. Para recordar Reis, que cantou as rosas:
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Saldanha Sanches

Leio no Da Literatura que morreu Saldanha Sanches. Conheci-o, talcomo à Maria José Morgado e a tantos outros que há muito me não conhecem ou me esqueceram, na agitação revolucionária do início dos anos 70. Era então figura carismática e respeitada no nosso meio, pela idade, pelo passado (tinha acabado de cumprir sete anos em Peniche pelo PCP), pela clareza das suas posições. Depressa jovens turcos, muito mais radicais, o promoveram e o viriam a precipitar em desgraça, culminando com a sua expulsão por seguir a linha de direita, coisa que, pouco depois, também me sucederia...
Fica a memória de um homem que sempre respeitei, que sempre admirei, que muito gostava de ouvir na televisão. À viúva, que não lerá este post, a expressão da minha solidariedade nesta partida do companheiro de uma vida para a prisão sem regresso. E, apesar de tudo, fica também a saudade daqueles tempos loucos e gloriosos, em que lutávamos, não contra as propinas e quejandos, mas contra a guerra colonial, a ditadura fascista, a pide, a repressão -- e arriscávamos a vida, a liberdade, o futuro. Desses tempos, deixei vestígios em Do lacrau e da sua picada:
(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vacas gordas, vacas magras

Escrevi o "poema" que se segue, a itálico,  aí por 1993/94, era Cavaco 1º ministro e Manuela Ferreira Leite a sua ministra da Educação. Portugal era então, diziam-nos, o bom aluno da CEE, de onde chegava dinheiro a rodos. Cavaco, sempre sibilino, dizia no Vale do Ave que era tempo de acabar com as despesas sumptuárias (sic), mas nada fazia para lhes pôr cobro, providenciando que os fundos comunitários fossem bem aplicados. Analfabetos foram formadores, "empresas" de formação proliferaram como larvas de vareja na carne apodrecida, empresários do têxtil e do calçado trocavam de carro -- e que carro -- quase mensalmente, fizeram-se autoestradas e os jipes que bebiam 16 aos 100 atafulharam-nas,  "agricultores" que nunca pisaram a terra enriqueceram com os subsídios para tudo, até para não produzir, o novo-riquismo, ostensivo e grosseiro, sem volfrâmio nem ouro do Brasil, corrompeu tudo, desde aquilo que sempre esteve corrompido até aos valores que ainda subsistiam aqui e ali -- trabalho, dignidade, decência...   
Nunca ninguém apreciou o meu "poema". Retomo-o hoje, dia das "medidas de redução do défice". Para recordar que os males que nos afligem começaram bem antes, com a destruição propositada e planeada da agricultura, das pescas, da indústria, do ensino... Só que, até pouco tempo tempo atrás, quase ninguém queria ver o que, no entanto, era evidente: se um país não produz, não é viável.

Portugal anos noventa

Destroçado pela derrota derramo minha amargura
Pelos caminhos deste país que já foi de vinho e mel
E a ela perdura, amarela e viscosa como fel,
Tingindo cada rosto, cada figura,
De lívida brancura

Já nada é como era dantes
e o cabelo que me vai faltando é apenas
breve indício do Inverno que se vem aproximando.
Mas o que me dói e não tem cura
neste entardecer azedo
é ver o país a adormecer cinzento
de indiferença e pasmo bafiento

Ninguém faz nada sem proveito.
Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)

Não, nem orgulho ferido nem sonhos perdidos
agora já só o meu olhar camponês me magoa
como o mato à minha terra onde já nada é como dantes...
Chove no Verão, o Inverno aquece
E o nevoeiro não tece mistérios bastantes
outros que a miséria deste Portugal que esmorece

Só sei que de lado nenhum sairá a luz que rompe as trevas
porque já nem a noite é de breu
nem os dias resplandecem
e os amanhãs não cantam,
silenciosos como a nossa triste terra.

Irmãos

Posted by Picasa

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Menção honrosa

Para o meu conto Mundo Pequeno,  na 11ª Edição do Concurso Literário Prémio Dr. João Isabel, organização da Câmara Municipal de Manteigas.
Fico muito feliz com a  informação, recebida via telefone há momentos. Muito mais do que com a vinda do papa, apesar do feriado (e eu preciso tanto de tempo para escrever), muito mais do que com a vitória do Benfica, porque não vou em futebóis. Enfim, neste mês de Maio parece haver alegrias para todos...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Fado, futebol e Fátima

Tantos anos depois do fim do salazarismo, não deixa de ser aberrante constatar que dos respectivos três efes apenas o fado perdeu importância. Ontem, gente aos pulos a berrar histericamente "campeões", hoje a praga de Fátima a encher as televisões. Entretanto, o ministro das finanças vai preparando o terreno para novos impostos... Raio de políticos, que nem imaginação têm para inventar novos anestésicos, e voltam sempre às receitas do passado; raio de povo, a quem qualquer pantominice serve para se anestesiar, desde que provoque histeria colectiva, se possível frente às câmaras da televisão -- e esquece que circo é acompanhado de pão: panem et circenses, não era assim, Juvenal?
Cumprimenta clientes que jantam, conhecidos que seroam, toda a gente com os olhos pregados no televisor, TV, dizem os entendidos, ouvidos atentos às conversas, lábios comentando e descomentando, com futebol, fado e Fátima vamo-nos anestesiando e passando o tempo, no ecrã pagadores de promessas rasgam os joelhos entre rezas mastigadas mecanicamente — prometeram, obtiveram a graça, é a altura de a pagar para que no razão divino nada conste em seu desfavor.
— Venha cá, chama imperiosa a dona da pensão, e o rapaz tem um sobressalto, sabe que vai ser interpelado, admoestado, julgado, receia não passar no exame. É isso mesmo: tem de ouvir das boas, não que dona Noémia se tenha esquecido de que também foi na sua juventude criada de servir, também ela engravidou de moço fogoso, quem o imaginaria ao ver o seu discreto marido entretido a criticar o sacrifício dos peregrinos, contrapondo à fé dos ignorantes as novas ideias da igreja, agora mais avessa a sangue derramado, mais arredada de ritos pagãos.
Inédito meu.

domingo, 9 de maio de 2010

Sábado

Tarde calma, chuvosa, estrada deserta, estrada que conhecemos de olhos fechados, percurso que fazemos semanalmente há uns 36 anos. À saída de uma curva suave, a descer, o carro foge para a esquerda, rodopia como em carrossel de feira, dois, três piões, não sei bem, sobe a berma da esquerda, felizmente do lado da encosta, embate contra uma manilha e imobiliza-se. Trabalha. Não ficou atascado. Conseguimos voltar à estrada, tentamos retomar o caminho, fica o susto, felizmente só o susto.
O carro foge em todas as direcções. Um pneu estoirado. Substituo-o, sobre a lama, debaixo da chuva. Arrancamos  -- continua a fugir. E pela primeira vez na vida vi-me forçado a pedir assistência em viagem, reboque...
Provavelmente vai para a sucata. A reparação deve custar bem mais do que ele, de 97, vale. 
Coisas da vida, que pensamos só acontecerem aos outros. Mas, como dizia o meu pai, a sorte de um homem é escapar. Ileso, acrescento eu.

Kindle

O meu Kindle. Por enquanto -- mas só por enquanto -- estou nos livros gratuitos, alguns dos quais apenas poderia adquirir em alfarrabistas ou em leilões.
O aparelho: excedeu todas as minhas expectativas. Só serve para ler livros ( não é adequado, parece-me, para jornais e revistas). O ecrã, monocromático é fantástico e, surpreendentemente, melhora com a intensidade da luz. Guarda a página em que interrompemos a leitura (de cada um dos livros), permite sublinhar, anotar, é facílimo passar livros e textos a partir do computador ou descarregá-los da Amazon...
Levíssimo, é muito prático para ler na cama -- ou em qualquer outro local.
A compra: no site da Amazon. Sem dificuldades, entrega rápida.
Livros gratuitos para download: aqui, ou pesquisando no Google.
Para saber mais: kindleportugal
Estou convencido de que o Kindle e outros e-readers representam um salto qualitativo (e uma revolução nos mercados) comparável à substituição dos tijolos cozidos, tabuinhas enceradas e afins por papiro, pergaminho, papel -- ou dos livros manuscritos pelos impressos.
E o fetichismo -- cheiro, tacto, empréstimos e brigas por livros não devolvidos? Não sinto a falta... Não daqueles que só concebem os livros em estantes a vergar, que um dia os herdeiros doarão ou leiloarão...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Visita papal

A vista papal trouxe de novo beatice e anticlericalismo  para a ribalta. Nada de novo. Sempre os crentes desejaram converter os ateus e vice-versa. Criticar o fundamentalismo de uns faz pressupor que estamos a tomar partido pelos outros. Eis um excerto que, a propósito da pneumónica, escrevi em Entre Cós e Alpedriz:
A devastação causada pela doença provocou uma forte crise religiosa, uns jurando que tinha sido praga divina castigando o povo incréu pela perseguição à Igreja, tanto no Portugal republicano como por essa Europa fora, por exemplo, na Rússia, que já fora Santa e agora era bolchevique; outros, convencidos de que Deus morrera de velhice ou então a Humanidade Lhe não interessava, como Lhe não interessaria o sofrimento dos vermes nas estrumeiras, atacavam azedamente beatos e beatas, padralhada, como se a fé dos outros os incomodasse tanto como a sua descrença ofendia os fiéis que na missa oravam pela sua conversão.
Imagem: João Alfaro, proposta para a contracapa do romance.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mata, que é talassa! (ou outra coisa qualquer)

Contava o meu pai, emigrado na Holanda nos anos sessenta, que outro português, lisboeta, enviava todo o salário para a mulher, que, prontamente, o esturrava. E nos dias que faltavam até à chegada da próxima remessa, ensinava os filhos a insultar e a odiar a fotografia do pai -- que longe labutava para que a família tivesse um presente e um futuro melhores.
Lembrei-me desta anedota, verídica, devido a uma pérola hoje recebida via mail, provinda de alguém que não conheço nem me interessa conhecer -- o seu nome vai directo para o filtro anti-spam. Veja-se que  começa por propor "luto pelos assassinos que governam o nosso país"!
DIA 22 E 23 DE MAIO LUTO PELA MORTE DA DEMOCRACIA, DA JUSTIÇA, DA IGUALDADE, DA HONESTIDADE…
PELOS ASSASSINOS QUE GOVERNAM O NOSSO PAÍS…
Eu fiz parte integrante do 25 de Abril de 1974.
Na minha unidade militar prendemos todos os oficiais.
Estou pronto para outro golpe de Estado (para meter esses políticos na cadeia
)
Enquanto vivemos acima das nossas possibilidades, gastando o que não tínhamos nem temos, protestávamos porque se não gastava o suficiente; agora que nos ameaça o espectro da pobreza, de que nos julgávamos exorcizados para sempre, tudo se resolve prendendo uns tantos... A estes justiceiros, recomendo o estudo da História e, nomeadamente, das revoluções. Recordo que propostas deste calibre ainda recentemente foram implementadas entre nós, na 1ª República, que me querem obrigar a comemorar. E veja-se no que deram -- cinquenta anos de salazarismo. Para que estes "revolucionários " não percam a chama nem a esperança, aqui fica esta canção, que certamente apreciarão muitíssimo.
Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates à la lanterne
Ah ça ira
Les aristocrates on les pendra
(Ah, isto vai, isto vai, os aristocratas para os candeeiros, ah, isto vai, isto vai, os aristocratas, enforcá-los-emos)



domingo, 2 de maio de 2010

Escrita colaborativa

(Clicar na foto para ampliar)

Favas

"Maio as dá, Maio as leva". Ou "semeia e cria, e terás alegria". O prazer de as semear e de as colher (as favas dispensam amanhos) só é comparável ao de juntar a família e amigos para as comer.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Do ofício da escrita

Conselhos de Rentes de Carvalho para todos aqueles a quem vicia, ou, pelo menos, seduz a arte da escrita. Imperdível.

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril

Depois de um fim-de-semana agrícola de trabalho duro -- não deve ser por minha causa que o país caminha para a falência --, notícias e blogues lembram-me de que hoje é dia santo. Ora como não quero que me acusem de ser da reacção, como então se passou a dizer, apresento justificação para a não-comemoração.
O 25 de Abril apanhou-me a dormir. Era uma da tarde e acordou-me a minha mulher, tínhamos casado um mês antes, para me dizer que havia um golpe de estado na capital. "Pois sim, deixa-me  mas é dormir", devo ter respondido, e voltei a adormecer, não no fofo do colchão, mas sobre o chão, que cama não tínhamos. Estava no turno da meia noite às oito e precisava desesperadamente de dormir. Também não tínhamos televisão nem rádio. Nem mobília nenhuma, exceptuando um mocho comprado no mercado.
Vivia na Marinha Grande e trabalhava (operário de plásticos) em Leiria. Motivos: estão em Do lacrau e da sua picada. Chego à cidade cedo, procuro sinais de agitação, nada. Na Praça Rodrigues Lobo encontro o Luís Marques, também ele na clandestinidade, que não via há coisa de um ano. A notícia do golpe de estado trouxera-o até à claridade. Tal como eu, não acreditava que viessem aí grandes mudanças: "Coisas do Spínola e dos spinolistas", terá dito, e eu acreditei. E fui trabalhar, porque o patrão também não tinha ouvido falar em revolução.
Percebe-se que o 25 nada me diga. E juntar-me a múmias de sorriso enfaixado, que só o cravo vermelho não deixa desabar, ouvir e balbuciar lugares-comuns e tretas -- estão-me a ver lá, não estão? Por isso, em vez da gaivota que voava, do povo que está com o MFA e todas essas pirosices musicais, aqui fica uma canção a sério, em que  "les amants d'un jour" pedem "un toit pour s'aimer." (Letra aqui) Uma perfeição.

sábado, 24 de abril de 2010

Do desgoverno do reino

Saramago, discípulo de Vieira (negrito meu):
Dizem que o reino anda mal governado, que nele está de menos a justiça, e não reparam que ela está como deve estar, com sua venda nos olhos, sua balança e sua espada, que mais queríamos nós, era o que faltava, sermos os tecelões da faixa, os aferidores dos pesos e os alfagemes do cutelo, constantemente remendando os buracos, restituindo as quebras, amolando os fios, e enfim perguntando ao justiçado se vai contente com a justiça que se lhe faz, ganhado ou perdido o pleito. Dos julgamentos do Santo Ofício não se fala aqui, que esse tem bem abertos os olhos, em vez de balança um ramo de oliveira, e uma espada afiada onde a outra é romba e com bocas. Há quem julgue que o raminho é oferta de paz, quando está muito patente que se trata do primeiro graveto da futura pilha de lenha, ou te corto, ou te queimo, por isso é que, havendo que faltar à lei, mais vale apunhalar a mulher, por suspeita de infidelidade, que não honrar os fiéis defuntos, a questão é ter padrinhos que desculpem o homicídio e mil cruzados para pôr na balança, nem é para outra coisa que a justiça a leva na mão. Castiguem-se lá os negros e os vilões para que não se perca o valor do exemplo, mas honre-se a gente de bem e de bens, não lhe exigindo que pague as dívidas contraídas, que renuncie à vingança, que emende o ódio, e, correndo os pleitos, por não se poderem evitar de todo, venham a rabulice, a trapaça, a apelação, a praxe, os ambages, para que vença tarde quem por justa justiça deveria vencer cedo, para que tarde perca quem deveria perder logo. É que, entretanto, vão-se mungindo as tetas do bom leite que é o dinheiro, requeijão precioso, supremo queijo, manjar de meirinho e solicitador, de advogado e inquiridor, de testemunha e julgador, se falta algum é porque o esqueceu o padre António Vieira e agora não lembra.
José Saramago, Memorial do Convento

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Como fazer um santo

Ou a perfeição na escrita. Assim escreve o Mestre (negrito meu):
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.

Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lapidar

A não perder. Carlos Fiolhais, no De Rerum Natura, o mais interessante dos blogues que conheço:
"a matemática é a maneira de expressar verdades sobre o mundo físico da melhor maneira, da maneira mais simples e elegante." Clareza, exactidão, domínio da matéria tratada e, sobretudo, domínio da palavra. Como os excertos seguintes bem evidenciam:
Por último, a questão que aqui foi posta: precisamos em Portugal da matemática? O facto de se colocar a pergunta dá logo a informação sobre o estado do país. Um país que está bem não coloca essa pergunta. Será que nós somos concretos? Será que nós somos lógicos e sistemáticos? Se a matemática parte do concreto e é uma procura lógica e sistemática de conhecimento, será que nós usamos metodologias desse tipo nas nossas vidas? E a resposta é que, na minha opinião, infelizmente não, não o fazemos na medida suficiente. Bastará dar um exemplo. A noção portuguesa de tempo é a noção menos concreta possível. Quando uma pessoa diz, “amanhã encontramo-nos”, este amanhã não quer dizer rigorosamente nada. Com um americano, se eu disser amanhã encontramo-nos, tenho de acrescentar o local e a hora, o espaço e o tempo. Planeio um evento num dado ponto do espaço e num dado instante de tempo. . Aqui não, amanhã encontrar-nos-emos, se calhar, por aí... Há uma esperança vaga de eu amanhã me cruzar com uma dada pessoa. Por sua vez, a procura lógica e sistemática devia ser também uma constante nas nossas vidas e não é. Será que nós planeamos as coisas? Acho que somos mais conhecidos pelo improviso, um improviso que, em geral, tem más consequências. Se há uma festa que temos de organizar, nós dizemos, “logo se vê”, uma expressão muito portuguesa. E vamos dizendo isto até à véspera... Depois, na véspera, começa a chover e dizemos: “ainda bem que não preparámos nada, está a chover”. Noutro país mais desenvolvido, como por exemplo na Alemanha, ter-se-ia o plano A e o plano B. O plano A com chuva e o plano B sem chuva, contemplando todas as hipóteses. Esta é a maneira racional, lógica e sistemática, de operar o mundo. (...)
Termino dizendo que vivemos, de facto, numa altura difícil nas nossas escolas, numa altura em que se pensa que um professor pode ser substituído por um computador Magalhães. Mas este debate aqui deu-nos algum conforto, com base nas experiências dos outros países, de países onde não se põe a pergunta sobre a necessidade da matemática. Havemos de ser como eles. Mas, para isso, temos de interiorizar o valor do raciocínio. Essa é a grande riqueza da matemática: pensar bem. A matemática é uma lição permanente para a nossa vida.

domingo, 18 de abril de 2010

Cenas da vida doméstica

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Cenas da vida doméstica

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Cenas da vida doméstica

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Quem sabe sabe

"De há muito que a literatura não me interessa para nada. Em especial a portuguesa. Está tudo escrito e quanto ao rescrito, lamento mas é mau. Quase tudo muito bera. » Fátima Rolo Duarte, fworld

Que delícia este tom soberbamente assertivo, a certeza de que o seu cagar não errará jamais o chão! E há quem delire com tiradas deste gabarito! Sim, a senhora, que não tenho o privilégio de conhecer de lado nenhum, o que não surpreende, é seguramente a única que escapa às suas próprias diatribes.

(NOTA: um leitor deste blogue, em comentário já publicado, diz-me para visitar o blogue da autora, que verificarei que me engano. Já o fiz. De facto, há uma frase não transcrita na citação que copiei do Portugal do Pequeninos em que FRD simula modéstia:  "Eu incluída. Mas comigo posso eu bem." Fica a correcção. Quanto ao tom assertivo, à arrogância intelectual que denota, nada a alterar -- aguardo outros comentários que me persuadam de que estou errado.)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Como água que corre

Assim quero a minha escrita. Cristalina, desimpedida de escolhos, tão natural que a julguem espontânea, tão simples que a creiam fácil, tão livre que a digam anárquica. E para o conseguir trabalho duro, por camadas,  aplainando primeiro, polindo depois, envernizando por fim, olhos postos nos santos mestres Vieira,  Garrett, Camilo, Eça, Saramago, de outros mais novos, ainda não canonizados, que eu já beatifico: Mário de Carvalho, Velho da Costa, Mia Couto... Dizem-me que deveria pensar nos gostos dos júris dos concursos, do público actual, dos críticos... Mas eu, Carneiro de signo e  de temperamento, persisto: o sucesso, que não desdenharia, não é o que me move; quero escrever pelo menos uma página à altura dos meus mestres... Se me ignoram, se alguns críticos, se alguns escritores, nem sequer se dignam responder a mail com oferta de romance, pior para eles. E, se a  minha obra (desculpem a imodéstia: já tenho umas coisitas, espero produzir mais e melhor) tiver mérito, ela acabará por se impor, como a verdade, que vem sempre à tona. 

Na foto: texto em que trabalhei esta manhã. Quantas revisões não sofrerá ainda, até que, completamente irreconhecível, possa chegar ao eventual leitor? Chamar-me-iam mentiroso se fizesse uma estimativa -- algo como centenas. Se este trabalho fosse pago à hora, estaria rico; se fosse sequer pago, seria muito bom...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Vaidades

Recebi, com surpresa porque já me tinha esquecido da oferta, simpático mail do escritor José Cavalheiro sobre Do Lacrau e da sua Picada, que divulgo depois de lhe ter pedido autorização para tal:



Caro José Catarino

Foi com prazer que li o seu livro.

Excelente trabalho pelo que lhe dou os meus parabéns.

Simples, com vários adágios onde é transcrita a vida quotidiana de Portugal entre anos 70, 80, 90 e actual na província "civilizada".

Quem assim escreve, iria por certo gostar de ler "Luuanda" de Luandino Vieira.

As perdizes como batedouras da GNR em frente do carro de político;

Os homens que morrem meninos...
Este é um trabalho que não dispenso da minha biblioteca até porque não se vê por aí de rodízio.

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Abraço

José

Por coincidência, uma colega a quem também ofereci o referido romance elogiou-o com entusiasmo, citando frases de que eu já mal me recordava. Que me sejam perdoadas estas gabarolices; reproduzo-as porque confirmam o meu julgamento sobre O Lacrau, o meu primeiro romance: tem fragilidades, mas não me envergonha nem eu me envergonho de o ter publicado. Merecia melhor sorte, outra visibilidade.

Hoje é Dia Mundial de...

...Uma merda qualquer. É no que dá a banalização. E os lobbies. Nem de propósito: enquanto registo a minha irritação malcriada, escuto desabafo que me abstenho de identificar: -- Tenho de organizar o Dia Mundial do Bullying. Tanto trabalho, tão em cima da hora!
Para quando o Dia Mundial da Puta Que Os Pariu?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Uma boa notícia

Finalmente, neste annus horribilis, com vários feriados perdidos (por exemplo, o 25 de Abril a um domingo e o 1 de Maio a um sábado), uma grande decisão do governo! O papa não pode vir cá mais vezes? E é injusto que a tolerância de ponto de 11 e 14 de Maio se aplique apenas aos funcionários públicos de Lisboa (tarde de 11) e Porto (manhã de 14). Ou há moralidade ou comem todos! Eu quero ver Sua Santidade (bem longe de mim)!

Papa/Portugal: Governo concede tolerância de ponto dia 13 de maio em todo o país

13 de Abril de 2010, 19:23
Lisboa, 13 abr (Lusa) - O Governo decidiu dar tolerância de ponto a todos os trabalhadores da Administração Pública no dia 13 de maio por ocasião da presença do Papa Bento XVI em Portugal, disse hoje à Lusa fonte oficial do executivo.
A mesma fonte adiantou à agência Lusa que será também concedida tolerância de ponto aos funcionários públicos em Lisboa, na parte da tarde do dia 11 de maio, assim como no Porto, na parte da manhã, no dia 14 de maio.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Andorinhas

Todas as tardes de Verão se assemelham, as de hoje como as de há cinquenta anos, como, provavelmente, as de todos os tempos — talvez o entardecer seja apenas um, repetido ano após ano, milénio após milénio, como sem cessar parecem repetir-se vidas e amores, sejam ou não inventados, e o que fica, se fica, não é mais do que efémera história, bem ou mal contada.
Nos fios eléctricos, andorinhas chilreiam como camponesas regressadas da lida, com a alegria que dá a consciência de que o pão comido foi ganho com o suor do rosto. Além, no quintal de uma das casas em ruínas, um melro, macho, como se vê pelo bico amarelo e peito emproado, saltita afoito — longe vai o tempo em que os caçávamos impiedosamente e eles, ariscos, se isolavam longe dos humanos. Da torre da igreja chegam as Ave-Marias e tudo — o sereno do entardecer, o toque triste do sino, a cantoria das andorinhas, o assobiar mavioso do melro — me faz sentir que já vivi este momento vezes sem conta.
Nuvens vogam à deriva, preguiçosamente, quais patos pachorrentos empurrados pelo vento, e eu próprio, contagiado pela indolência do final do dia, mais propenso à divagação, dou voltas à imaginação para saber como deve prosseguir a narração. É que nisto de contar não basta registar a realidade, alinhar os eventos, cingir-se à verdade: como ensina mestre Vieira, “hão-de cair as coisas e hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo.”
Ora o problema que se me põe é este: como contar naturalmente o que se segue, certo de que eu próprio duvidaria da sua veracidade se não o tivesse visto ou, como agora se ouve dizer, “ouvisto”, com estes que a terra há-de comer, bem tarde, espero?
(Inédito meu)

sábado, 10 de abril de 2010

Sábado (de tarde)

A amassar o pão.



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Sábado (de manhã)

Perna de borrego assada no forno.


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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Cão de trabalho

Bem português, como o dono. A culpa é do calor, da luz que enche os olhos, da beleza de cada recanto da nossa terra. Alheado como o dono da pedofilia clerical, de submarinos, de engenheiros-arquitectos. Claramente descrente do potencial salvador de um qualquer coelho.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os padres e eu

Nunca confundi sotaina com santidade e cresci em aldeia que desprezava os "homens de saias". Sinto pelos padres o mesmo que Garrett, Camilo, Junqueiro, Eça. Ou o meu pai. Aborrece-me o seu ar pedante, convencido, não raro amaricado. O seu farisaísmo (Faz o que eu digo, não faças o que eu faço, troça deles o povo). A certeza de que crucificariam Jesus se voltasse à Terra.
Posto isto: enjoam-me as notícias sobre a pedofilia na igreja, as desculpas, as exigências de resignação do papa. Há padres pedófilos, como os há terroristas ou traficantes de armas. Como os haverá entre os clérigos de outras confissões, de outras religiões. Os santos são mais raros que os cometas e o hábito não faz o monge. É tudo.

Mas os padres fazem-me falta!

"Assim rogada, a comadre contava, baixando a voz e olhando em volta como se ouvidos indiscretos a pudessem ouvir ou olhos desconfiados a pudessem ver a falar da vida alheia. Fazia-o porque história segredada tem sabor a rumor e o povo adora murmúrios e boatos. — Pois, comadre, até corre por aí que anda metida com o padre Vergílio!
— Não me diga! Não posso crer... Logo com o senhor prior!
Pois era para que a comadre visse como são as coisas. Tempos atrás falara com a Teodora da parte do Ildefonso, um rapaz sério. Recebera a proposta com desdém: que ele era feio, que isto, que aquilo, que não queria nenhum cavador de enxada para passar a vida arrastada, agarrada à terra. Tanto escolheu, que deu nisto!
A mãe da Joaquina estava mais interessada no romance: — Logo com o padre! Que eu nunca dei muito por ele, sempre o achei herege, com essa conversa de que Deus está no Céu, na Terra e em toda a parte, até no curral da minha burra!
O marido, pouco apreciador de homens de saias, como gostava de frisar, meteu-se na bisbilhotice: o pároco era uma besta, profanando um local sagrado como é a igreja com ditos parvos em linguagem imprópria, como esse da burra. Sim, que mesmo os ateus, mesmo os pedreiros-livres, quando entram numa igreja para um funeral, para um casamento, comportam-se com compostura. Então como admitir ao vigário de Cristo...
As mulheres não o ouviam. Não era a moralidade, antes a imoralidade que lhes interessava. Deixaram a continuação da má-língua para mais tarde, sem homens por perto a atrapalhar — ainda por cima, como é sabido, eles têm uma língua de trapo e então se bebem um copo a mais..."

Entre Cós e Alpedriz

(Foto: igreja de Alpedriz)

Batatas serôdias

O tempo obrigou a plantá-las com dois meses de atraso. E cada um diverte-se como pode ou como quer.
Na Salgueira, com este tempo, estas vistas, este ar, não invejo nenhum Mexia. A erva que se vê à direita em breve dará lugar a feijão. Catarino, como eu.

domingo, 4 de abril de 2010

Coisas que não esquecem

E que se recordam com os netos. Quarenta e cinco anos depois, volto a jogar o pião. Com o Vergílio e o Jorge. Fotos aqui.

Nós e o desporto

Francisco José Viegas traz números do Eurobarómetro: nós, portugueses, somos dos europeus que menos desporto fazem -- pior do que nós, os gregos, quem diria. 
Poder-se-ia relacionar esta realidade com a nossa preguiça, inércia, comodismo, chico-esperteza, com jantares labregos em que come à antiga romana, com o baixíssimo nível cultural do país. Tudo isto será  verdade. Mas não a VERDADE. O desporto nasceu na Inglaterra e durante muito tempo foi apanágio de elites aristocráticas e burguesas que se podiam dar ao luxo de se esforçar sem proveito material enquanto os camponeses, os operários, esgotados por jornadas de trabalho que alguns agora querem reeditar, suspiravam por descanso; de transpirar enquanto o povo suava; de trabalhar para o aperfeiçoamento físico enquanto o povo o fazia para aconchegar o estômago.
O Mundo mudou; a sociedade não muda assim tão depressa. Mais facilmente enchemos o bandulho matando a fome ancestral, mais depressa nos refastelamos nos sofás a berrar contra os ladrões dos árbitros do que corremos para os ginásios ou por essas estradas fora. E sem o trabalho duro dos nossos pais e avós, que queimava toda a caloria que ingerissem, com alimentação em abundância à nossa disposição, engordamos, preguiçosos, sempre sonhando com comida como os nossos antepassados após outro inverno de fome.

NOTAS: 
(1) Constato uma mudança radical nos últimos 20 anos: então, aconteceu-me ser vaiado quando corria na estrada; hoje, no Entroncamento,  abundam corredores, adeptos das caminhadas exercitando-se ao crepúsculo, ginásios mais ou menos compostos. O exercício físico está na moda.
(2) Não sou daqueles que dizem: fiz desporto quando era mais novo. Exercito-me quase diariamente -- no karaté, a passear o cão, na agricultura. Mais faria, se mais tempo tivesse.