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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Três notas sobre a crise financeira

(1) Não é coisa nova:
"Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
-- Num galopezinho muito seguro e muito a direito -- disse o Cohen, sorrindo. -- Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma..."

Eça de Queirós, Os Maias

(2) Há pouco, ouvi Obama dizer algo como: os americanos têm de passar a viver de acordo com as suas possibilidades, substituindo o cartão de crédito pela poupança.

Creio não errar ao presumir que lá, como cá, mais facilmente passará o camelo pelo buraco da agulha do que o cidadão prescindirá do cartão de crédito.

(3) Ontem recebi mais uma mensagem no telemóvel propondo-me uma transferência de 3500 euros para a minha conta. Os bancos têm mesmo falta de liquidez?

sábado, 11 de outubro de 2008

Shotokan revisitado

Hoje, em Leiria, em treino de instrutores dirigido pelo mestre Vilaça Pinto, e com karatekas que não encontrava há uns vinte anos, uns vindos do Algarve, outros do Norte, a maior parte do Centro. Regresso com o prazer de um bom treino e com a satisfação de o ter conseguido aguentar até ao fim, apesar das dores num joelho, agora diluídas nas outras de todo o corpo...
Como cantava Brel, num contexto diferente,
(...)Finalement, finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes (...)

(La chanson des vieux amants)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O próximo romance?

"Quando sai o próximo romance?, perguntam-me frequentemente leitores e leitoras de Entre Cós e Alpedriz. Tenho dificuldade em explicar que não tem data prevista - pode, até, nem haver "próximo romance". Só posso garantir que trabalho duro, não em um, mas em dois projectos - mas trabalho não chega, nem sequer é garantia de qualidade. E sem que eu reconheça qualidade (outros poderão legitimamente discordar dos meus juízos de valor), não sai nada meu.

Falta-me tempo, mas não é a falta de tempo que me atrasa a escrita: é antes a incapacidade de escrever o que quero como quero, e depois, para piorar as coisas, aquilo que escrevo é sempre comparado, por mim e, provavelmente, por todos os leitores, com as obras de referência, antigas e contemporâneas!

É escusado alongar-me, procurando desculpas, descrevendo a tortura que é escrever, primeiro enfrentando o ecrã em branco, depois, frequentemente, apagando desconsoladamente o produto de horas e horas de trabalho, outras vezes avançando por páginas e páginas para mais tarde descobrir que se trata de um beco, de onde importa sair para recomeçar noutro local e de outra forma... E no fim há a dúvida, constante, insidiosa, sobre a qualidade do pouco que sobrevive à acção de DEL, essa tecla destruidora de textos...

Entretanto, enquanto não publico nada (Do lacrau e da sua picada não será publicado, conforme explicarei em breve, que hoje os olhos já se fecham), sugiro a leitura de excertos de Entre Cós e Alpedriz, a qual trará certamente pormenores e motivará interpretações que talvez tenham escapado da primeira vez. Ou a leitura de mestres da escrita, como Mário de Carvalho (Um deus passeando pela brisa da tarde, Contos Vagabundos, A Sala Magenta...), Gonçalo M. Tavares (Jerusalém, Aprender a rezar na era da técnica...), Saramago (Levantado do Chão, Memorial do Convento, Jangada de Pedra...). Ou de clássicos, como Homero, nas traduções de Frederico Lourenço - especialmente da Ilíada.

Boas leituras!

domingo, 5 de outubro de 2008

Necessidades de formação?

Se o DN transcreveu correctamente o que foi dito (ou escrito), o sr. assessor está a precisar urgentemente de formação intensiva na área do Português:

"Contactado pelo DN, o assessor de imprensa do Ministério da Educação, Rui Nunes, admitiu que a formação de professores "está a ser reorganizada", nomeadamente com novas regras para os centros de for- mação das associações de escolas que "exigem precisamente a identificação exacta das necessidades". No entanto, garantiu que além de estarem a decorrer "imensas acções de formação, nomeadamente através dos serviços ministeriais, o processo não parou. Estamos em Outubro. Até ao fim do ano vão haver muitas formações"."

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ou com a tia Sofia?


O Miguel não terá mais parecenças com a tia do que com a mãe?
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A mãe do Miguel e do Afonso


Diz a tia Sofia que o Miguel é parecido com a mãe... Será?
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terça-feira, 30 de setembro de 2008

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Conteúdos educativos

Tenho defendido publicamente, para irritação daqueles que por idealismo ingénuo ou por razões menos nobres se obstinam em ver nas ferramentas tecnológicas o Santo Graal da educação, que essas ferramentas não resolvem, por si só, nenhum dos problemas do ensino, subalternizam o papel do professor, e o seu emprego ressente-se da inexistência de conteúdos interessantes.

Por isso me agradou o artigo "Conteúdos educativos: o parente pobre do plano tecnológico", (Rui Pacheco, da Porto Editora, in PCGUIA 155, Outubro de 2008, p. 13), de onde extraí a seguinte citação:

“Há até meritórios esforços de criação de comunidades educativas em torno de plataformas como o Moodle e outras. Não obstante, os conteúdos disponibilizados são recorrentemente elementares, pouco atractivos, raramente interactivos, muito pouco multimédia e, com lamentável assiduidade, resultam, consciente ou inconscientemente, do desrespeito da propriedade intelectual alheia, isto é, da cópia ilegal de textos e imagens”.

Em vez de fazer depender a criação de conteúdos da boa vontade e da carolice de professores nem sempre devidamente preparados para essa tarefa, e sempre com crónica falta de tempo (por mim falo), não deveria o nosso governo providenciar a aquisição de materiais e conteúdos educativos com empenho igual àquele com que adquire computadores, videoprojectores e quadros electrónicos? E não deveria tomar como suas as necessidades de manutenção e de segurança, não apenas dos equipamentos, mas sobretudo dos dados armazenados pelas escolas? Quem será responsabilizado quando algo der para o torto? Direcções que, em certos casos, talvez nem façam ideia do que seja uma rede ou um servidor?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Regresso às aulas

Primeira aula, décimo ano, alunos desconhecidos. Depois de me apresentar sumariamente, peço a cada aluno que fale um pouco de si: nome, hobbies, hábitos de leitura, expectativas futuras… Corre tudo bem até que chego a uma menina:

-- Sou X e, sem querer ser malcriada, não vou responder porque não lhe diz respeito!

Confesso: foi preciso chegar ao trigésimo terceiro ano de trabalho na profissão para ouvir uma destas. E viva a avaliação diagnóstico, a da oralidade, com um peso de 25%, e as aulas de apresentação de noventa minutos, em que é preciso esticar o assunto já que não podemos terminar mais cedo…

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares


"Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!", disse Saramago. Entretanto, Gonçalo Tavares publicou nos seu Livros Pretos Aprender a rezar na era da técnica, obra excelente, embora eu continue a gostar mais de Jerusalém.

domingo, 7 de setembro de 2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O Miguel, dois meses

E também a avó Zé e o Afonso.

Ai Magalhães!

É bom que façam o Magalhães, do e-escolinhas, bem robusto: clientes como o Afonso teclam com vontade.

sábado, 30 de agosto de 2008

Hacker destrói o meu site

Pela segunda vez em poucos meses, o meu site (www.jose-catarino.com) foi destruído pelo ataque de um pirata. Com aqui escrevi da primeira vez, não compreendo o porquê: não molesta nem ofende ninguém, não tem interesse económico… A repetição dos ataques a este site indicia direccionalidade e intencionalidade: há alguém que, por razões que desconheço, se empenha em destruir o meu trabalho. (O ranhoso assina "Latin Hack Team").


"A homem de valor jamais faltarão inimigos", escrevi em Entre Cós e Alpedriz, pelo que não me surpreenderá que em breve o site seja novamente destruído. Inútil gastar palavras a tentar descrever a pulhice de quem se dedica a estragar o trabalho alheio, valentemente protegido pelo anonimato. Segunda-feira o site estará novamente de pé.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

sábado, 23 de agosto de 2008

Saramago, a escrita e os passeios no campo

No blogue da fundação josé saramago (assim mesmo, em minúsculas, à moda de valter hugo mãe ou, mais para trás, de e.e. cummings), há um texto de apresentação do novo romance de Saramago, assinado por Pilar, que, querendo salientar as vicissitudes que a escrita do livro conheceu, começa assim:
"Queridas amigas, queridos amigos,
Escrevê-lo não foi um passeio ao campo:(...)"
Interrogo-me: desde quando é que escrever, mesmo para um mestre como Saramago, pode ser comparado a um passeio no campo? Não terá ele vivido em cada romance anterior as falsas partidas, penetrado em becos sem saída, sentido a dúvida angustiante (serei capaz outra vez?), não terá precisado de vencer quotidianamente a certeza derrotista e paralisante (já não sou capaz, isto não vai prestar, não se compara ao que já escrevi...), não se terá atormentado, palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo com a dificuldade de "résumer le pourquoi du monde dans un comment écrire"?
Não, trata-se, certamente, apenas de uma frase infeliz, em que Pilar procurou fazer estilo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Reflexões sobre o estilo (1)


Encontro, por vezes, textos que dão conta de alguma preocupação com as ferramentas do escritor – se prefere o computador, a caneta, a velha máquina de escrever… Considero esta questão perfeitamente desinteressante: Homero não utilizou nenhuma delas, como as não utilizaram Fernão Lopes, Camões, Camilo ou Eça. Só há uma ferramenta que conta: a mente do criador, e só há um resultado que conta: a obra final produzida. Tudo o resto, dos meios de produção ao que o autor sentiu ou pensou, se escreveu na cama ou no comboio, são pormenores irrelevantes e distractivos.

Já a reflexão sobre o estilo me parece muito mais produtiva, talvez por ser uma das minhas obsessões. Importa esclarecer: não sou (nem aspiro vir a ser) crítico literário; o estilo interessa-me como elemento fulcral da obra, uma vez que condiciona a voz do narrador e todo o discurso (o modo como a história é contada). Ora em alguma da literatura portuguesa contemporânea predomina um estilo oralizante, avesso a convenções ortográficas e a convenções da narrativa (e.g., suprimir os elementos que permitem identificar o discurso directo) que, pesem embora eventuais vantagens – polifonia, envolvimento do leitor na construção da narrativa, ritmo rápido pela inexistência de "travões" como seriam as maiúsculas, etc., resulta obscuro, chato, não raro ilegível (terá algo a ver com a história do rei que ia nu?) e eu, leitor que procura o prazer do texto, rapidamente me enfado e ponho o livro de lado, sem me deixar impressionar pelo nome ou pelo currículo do autor.

Pode objectar-se que os tempos mudaram, já ninguém escreve com a limpidez de Camilo, o rigor de Eça. Mas, mesmo sem puxar pela cabeça, saltam logo contra-exemplos: Yourcenar, Vergílio Ferreira, García Marquez, Mário de Carvalho…

Fico-me na fé do Padre Vieira. Desagradava-lhe o estilo predominante na sua época: "[u]m estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza" e defendia que "[o] estilo há-de ser muito fácil e muito natural (…) Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem." (in Sermão da Sexagésima)

sábado, 16 de agosto de 2008