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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Guerras do Alecrim e da Manjerona

A parvoíce não começou agora, acompanha-nos certamente desde que a humanidade aprendeu a falar. Mas, atrevo-me a afirmar, nunca se viveram tempos tão parvos como os actuais. Se duvidam, ou pensam que exagero, atentem numa  das polémicas actuais, incida ela sobre vestuário e símbolos religiosos, a forma como  um jogador de futebol festejou ou não festejou o golo, as conversas de balneário (pensava eu que o balneário era o local onde  uns gajos nus tomarem banho procurando não deixar cair o sabonete), agora as discussões acaloradas sobre o 25 de Novembro, quase sempre com intervenientes sem idade para terem participado activamente nos acontecimentos.

Note-se que não questiono a utilidade de apurar factos, e de nos indignarmos com a punição de rapariga muçulmana que ousou mostrar os cabelos, no Irão ou na França, com os gestos malcriados ou atitudes violentas no futebol, ou com os desmandos ocorridos no pós-25 de Abril, marcados pela intentona spinolista do 28 de Setembro de 74, com o bombardeamento aéreo e ataque dos pára-quedistas ao Ralis no 11 de Março,, o Verão Quente de 75, os combates no 25 de Novembro.

Mas, no momento em que vivemos acontecimentos extremamente preocupantes, com a Terceira Guerra Mundial já em curso, fazer de uma data de um passado já distante, que já pouco ou nada tem a ver com a realidade em que vivemos, mais um símbolo para esgrimir entre adversários políticos, com importância idêntica à de saber se fulano usou cravo na lapela nas comemorações do 25 de Abril, certamente por falta de ideias actuais, excede em ridículo, e de longe, as Guerras do Alecrim e Manjerona ( António José da Silva, o Judeu) ou do Hissope (Cruz e Silva).

Digo eu, que vivi o 25 de Novembro “com muito medo e uma arma na mão”, conforme escrevi há anos neste blogue.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

As vítimas

Os adeptos judeus cantavam pelas ruas de Amesterdão:“Deixem as IDF ganhar / Nós vamos lixar os árabes “ (imagens e tradução na TVI). E sgundo outras fontes, “Destruímos as escolas pois já não há crianças em Gaza,”

E, coitadinhos, foram vitimas de antissemitismo. Certamente Israel vai bombardear Amesterdão e matar uns milhares como retaliação.

A flauta

 Contava-se na minha meninice que um velho da terra, outrora criança— coisa estranha! — tinha sido tirado da escola primária pelo pai na segunda ou terceira classe  para trabalhar no campo consigo, como então se usava.

O calor de Junho logo pela manhã, a enxada de bicos maior do que ele, quase tão pesada, a terra seca, gretada pelo Sol,  desanimariam qualquer um, quanto mais a ele, relezito, mal alimentado, contrariado, não que gostasse da escola e dos maus tratos diários do mestre, mas agora até ela se lhe afigurava preferível ao tormento em que se via.

Eis que o pai, barril de água-pé aos queixos, o vê afastar-se sorrateiro, pára na estrema junto a pequeno canavial , nas mãos não a famigerada enxada, mas o canivete e uma cana.

Zé, vem trabalhar!, manda.

Não posso, pai, estou a fazer uma flauta!

Algum tempo depois: Zé, vem cavar comigo!

Não posso, pai! Estou a aprender a tocar flauta!

Passou preguiçoso o tempo, com sempre sucede quando se cava. Mas passou, e chegou o meio-dia solar e com ele a hora do almoço, a que então se chamava jantar.

Tocado pela negra fome, endémica, ancestral, o rapaz chega-se, espera em vão o seu quinhão:

Ó pai, não me dá comer?

Toca flauta, Zé! Toca flauta, Zé!

terça-feira, 21 de maio de 2024

A minha história da língua

Primeiro surgiram os nomes. Exigiram-nos as coisas, todas diferentes mesmo quando aparentavam ser iguais, as pessoas, as ideias que se iam formando. Depois, os verbos. Afinal, o Homem ou ESTAVA ou FAZIA. Bicho irrequieto, tudo eram estados ou acções: bebé dorme, chefe caça. Podia construir frases: Chefe caça urso; urso caça chefe. 

Animal complicado, precisava de distinguir coisas, seres da mesma espécie pelos pormenores. Inventou os adjectivos e estragou a linguagem. Grande chefe caça urso pardo coxo; rapaz zarolho ama rapariga linda... 

O mais, declinações e conjunções, artigos e preposições, advérbios e interjeições veio por acréscimo, como vieram tempo e modo e aspecto. A língua complicou-se de tal forma que deixou de depender da realidade. Passou a construí-la. As palavras, que antes reportavam o mundo, tornaram-se barreira à sua compreensão, deturpando, mistificando. De tal forma que a ciência, quando foi inventada, mais do que as palavras, recorreu aos números, mais do que à linguagem recorreu à matemática, desconfiada dos artifícios retóricos construídos com palavras, os quais permitem defender uma ideia e a sua contrária. 

Pior. Se no início dos tempos, quando o chefe falava, o ouviam em silêncio religioso, não raro de costas, hoje, com o falajar constante e vazio, a palavra perdeu a sua antiga magia.

Chefe manda caçar urso.

Porquê urso e não bisonte? 

Que mal lhe fez o urso?

Ele quer é a pele para a mulher!

Urso é perigoso. Prefiro caçar coelhos.

Caçar está errado. Não se deve fazer mal aos animais.

Nem os nomes escaparam à banalização. Amigo é quem pede amizade no Facebook. Casa, algo que pertence ao banco. Amor, um vocativo a substituir o nome próprio:

— Amor, vai despejar o lixo!

Ou mera palavra melada que como a serpente adorável carrega em si o veneno da mentira,

— Amor, chego tarde, tenho uma reunião que vai demorar...Sim, conselho de turma, acaba tarde, está lá o Fulano, já te falei desse chato, nunca se cala, toda a gente a querer sair e ele a exigir que cada peido que dá fique em acta...

Ou desculpa para a violência doméstica, quando por ela se perdoam os maus-tratos de hoje, os mesmos que se sofrerão amanhã,

— É porque te amo!

e até desculpa  em tribunal os desfalques,

— A ré está absolvida, pode ir em paz...

  — Sr. Dr. Juiz, e os duzentos mil euros da autarquia?

Pois podem dizer-lhes adeus, afinal eram dinheiros públicos e a escrivã privatizou-os por amor, para oferecer carro topo-de-gama ao namorado que ameaçava deixá-la!


segunda-feira, 20 de maio de 2024

Pato com grelos

Só uma vez almocei num restaurante chinês. (Que falta de cultura!)

Foi em finais do século passado, quando estavam na moda, mas não foi o exotismo que lá me levou, menos a esperança de comida a meu gosto.

Fui com os meus amigos de karaté de Lisboa, após um treino. Pela companhia, e não pela comida.

Vem a empregada chinesa, moça simpática e bem-falante, deixa-nos a ementa que olho como cabra para edital, incapaz de adivinhar o que se escondia por detrás daqueles nomes exóticos. Até que —milagre! — lá para o fundo, um prato apetecível: pato com grelos, duas coisas que aprecio e bem combinam entre si.

Chega a moça sorridente e conversadora com os pratos pedidos e eu protesto: enganou-se, pedi pato com grelos e trouxe-me frango com brócolos!

Instantaneamente, a fluência no Português da empregada desaparece: — Num compliendo! Num compliendo! E vai-se, deixando-me a alternativa de comer uma coxa de frango miserável por pato, brócolos por grelos, ou passar fome. 

Comi. Mas não me voltaram a enganar.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Ainda o ensino de Português a estrangeiros

No princípio deste século, chegou-me uma aluna chinesa, que nada sabia de Português. Os serviços do ministério de educação tinham-lhe dado equivalência ao 10 ano, a escola integrou-a numa turma, e lá ficámos nós, os professores, com o problema para resolver, sem qualquer apoio. 

Já aqui contei, por alto,  alguns episódios da minha experiência anterior no ensino a estrangeiros, mas este caso era completamente diferente, com completa ausência de meios e apenas uma hora semanal para trabalhar com a moça, até esse tempo repartido, pois juntaram-lhe outro aluno, esse português, mas com problemas de aprendizagem — que exasperava a colega com as suas dificuldades.

A aluna era muito inteligente, empenhada, e recorria constantemente a dicionário de bolso, nem sempre com proveito: a professora de Matemática ensinava que linhas paralelas são duas rectas apostas — e a aluna, participativa, após rápida consulta ao dicionário, logo colaborava: apostas, jogo, batota! 

Paradoxalmente, no Português era pior: o programa de 10 ano incidia então, no primeiro período, em Camões, incluindo os seus poemas místicos. Eu via-me no papel de catequista, a tentar explicar a jovem urbana de país comunista conceitos bizarros como Céu, Inferno, versos como “o melhor de tudo é crer em Cristo”… 

Mas a aluna era, como disse, inteligente, esforçada, bem disposta, e no final do período já era uma das melhores da turma. Vieram as férias de Natal, recomeçaram as aulas, logos demos pela ausência da nossa Ye, que até então nunca faltara.

Que se passa?, procurámos saber.

— A mãe tirou-a da escola porque é a única da família que fala Português e precisa dela na “loia”!

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Quando o 1 de Maio era vermelho (reposição)

Meses de agitação intensa, as noites nas ruas a fazer pinturas, os dias em manifestações, tinham mandado para a prisão muitos de nós, alguns dos melhores de nós. Dois anos desta vida sem ser preso era prova da minha habilidade, do cuidado com que aplicava todas as precauções revolucionárias, evitando ser seguido, muitas vezes dormindo fora de casa, que era o meu quarto de estudante, na Rua Poço dos Negros. Também me faltava a coragem de me medir com a polícia e as suas torturas, de me querer pôr à prova para saber se, como verdadeiro revolucionário, enfrentaria sem ceder as torturas em Caxias, sobretudo a que mais receava: a do sono.

Por isso, ao contrário de outros que pareciam tudo fazer para serem detidos e na prisão ganharem o estatuto de heróis — ou descobrirem que ainda não estavam devidamente preparados politicamente como filhos do Povo para resistir a duas semanas de tortura do sono — eu evitava ser preso, arriscava o necessário, mas não mais, dissimulava-me constantemente, encorajado pelo meu controleiro, um clandestino.

Mas no primeiro de Maio de 1973 tinha o pressentimento, estava firmemente convencido de que seria finalmente preso — ou morto. Tirei do quarto todo o material comprometedor, livros, panfletos, equipamento artesanal com que os reproduzia e pu-lo a salvo em casa de amiga. Logo de manhã, como cristão que se prepara para a morte, assisti à nossa missa comunista, no cemitério junto à campa de Ribeiro dos Santos, o primeiro mártir da nossa causa.

Saldanha Sanches fez belíssimo discurso, comovente até às lágrimas: também nós devíamos estar prontos a dar naquela tarde as nossas vidas pela revolução.

Como condenado que vê os seus dias chegarem ao termo e se desforra na última refeição, gastei dinheiro que deveria durar mais uma semana em almoço em restaurante melhorzinho, bebi até -- luxo a que de ordinário me não podia dar — uma cerveja, Carlsberg. 

E à hora da manif, segui para o Rossio, pronto para o que desse e viesse. Habituado a manifestações com escassas dezenas de estudantes, sempre os mesmos, exceptuando aqueles que iam sendo presos ou desertavam da causa, assombrou-me ver a praça apinhada de gente, povo!, esse povo em nome de quem há tanto falava, que procurava agitar, trazer à rua, amotinar contra o regime. Do alto de um edifício, por cima do Diário de Notícias, a Pide (quem mais poderia ser?) filmava-nos ostensivamente, ameaçadoramente, e os populares faziam-lhe manguitos destemidos. Senti ali começar a revolução almejada.

Subitamente, a polícia atacou com canhões de água, empurrando-nos dali para fora, rua do Ouro abaixo. Avistei o meu controleiro, ali, à luz do dia: Vamos voltar para o Rossio e tomar a praça! 

Por todo o lado, cacetadas, espancamentos da polícia de choque, o capitão Maltês a comandar. Todos os acessos estavam barrados. Entrei em autocarro apinhado, que havia de entrar no Rossio, fiz comício no interior para trabalhadores assustados comigo, com a polícia que, fora, em todos, em tudo, batia. Vejam, quem trabalha leva porrada! Viva o primeiro de Maio! O primeiro de Maio é vermelho!, mas o condutor recusou abrir as portas dentro da praça, certamente para a polícia não entrar.

Batemo-nos noite fora. Escapei. Pouco depois, denunciado, abandonei os estudos e a capital, fui viver para a Marinha Grande, a trabalhar em Leiria nas obras primeiro, como operário de plásticos depois. Participei na organização do primeiro de Maio vermelho de 1974, na Praça Stefens, lição para os “revisas”, que a tal há muito se não atreviam. 

Deu-se o 25 de Abril, quando cheguei naquela manhã, pronto para a luta, os soldados que nos deveriam reprimir tinham cravos vermelhos nos tapa-chamas das G3, o ambiente era de festa, como se a guerra colonial tivesse acabado, os amanhãs já cantassem...

E nunca mais comemorei nas ruas o primeiro de Maio. 

terça-feira, 30 de abril de 2024

Ainda o ensino a estrangeiros

O ensino de Português a estrangeiros era um desafio permanente. Por exemplo, à chegada, a moça da secretaria dizia-me: Mudámos o seu horário, agora vai ter uma nova aluna. E eu pedia pormenores que me permitissem preparar para o trabalho que ia começar dentro de minutos. Ela pouco sabia: É uma senhora holandesa, grávida, vai cá estar duas semanas. E eu, ansioso: se sabia se falava alguma coisa de Português, ou de Francês… 

A moça sorria e abanava negativamente a cabeça. 

Ei-la, a nova aluna, que me espera já na sala. Uma holandesa a fazer-me lembrar as flamengas do Brel: pontualíssima, hirta, rosto sem expressão, nada exuberante, menos ainda faladora. 

Procuro pontes linguísticas, quase me armo em poliglota. Sem sucesso. A senhora, pelos vistos, só falava a sua língua. Nem sequer um sorriso animador. Estou feito, vamos a isto, à maneira do Tarzan: Chamo-me José, o meu nome é José, e apontando para ela A senhora chama-se…e lá vou quebrando o silêncio, procurando levá-la a repetir identificação, nacionalidades, localização espácio-temporal… Depressa me dou conta de outras dificuldades, a senhora, simplesmente, não conseguia articular os sons LHE e NHE: Tenio uma filia; a minia filia… nem as vogais nasais e, muito menos, os ditongos nasais.

As primeiras duas horas de tormento terminaram. E foi de cabeça desfeita que comecei a segunda aula, desta vez com um dinamarquês, extremamente culto, tradutor da CEE, poliglota, já bem fluente em Português e, fiquei a saber, razoável conhecedor da fonética holandesa. 

Falámos das minhas dificuldades e ele deu-me conselhos que se vieram a revelar extremamente úteis. Por exemplo, para as vogais nasais, que partisse das consoantes nasais m e n, que existiam em holandês, para, uma vez aprendidas, passar aos ditongos nasais. Se eu sabia Latim? Bom, tinha uns rudimentos. Talvez a senhora tivesse aprendido também Latim, muito provável na geração dela, dizia-me, e assim já teríamos uma língua comum para as mediar as dificuldades.

Nessa tarde, mais confiante com as suas dicas recebidas, enfrentei a aula seguinte com a holandesa. O trabalho não ficou fácil, mas tornou-se possível. E nesse ensino essencialmente prático, que a par da responsabilidade me dava ampla liberdade, interrompia frequentemente as aulas para descermos ao bar, onde, eu fazia questão para que perdesse a timidez e ganhasse confiança, ela  pedia Faz favor, um café para este “senior”, e aquele bolo para mim.

— Este, o palmier?

— Nau, esse do lado.

Isto porque nunca ensinei aos meus alunos os nomes de bolos, que nem eu sei: Apenas, este, esse, aquele. E mais uma dúzia de coisas que lhes permitiam comunicar imediatamente com os indígenas. 

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Os Inglaterras

Estávamos no Verão de 1983, o meu contrato no ensino tinha terminado a 31 de Julho, e sem emprego nem salário — não havia então subsídio de desemprego para professores — fui ensinar Português a estrangeiros durante o Verão numa escola privada de Lisboa.

Sempre exigente comigo próprio, a direcção apreciou o meu trabalho, e foi-me dando os casos  difíceis, que tinham exigido mudar de professor por insatisfação: pagavam bem, exigiam resultados e rápidos. Queriam aprender um português básico que lhes permitisse compreender e ser compreendidos em Moçambique ou noutra antiga colónia para onde iam viver dentro de duas ou três semanas. 

Ora em determinada altura foi-me passada uma família canadiana, pai, mãe, um adolescente rebelde, passe o pleonasmo,  e a irmã, ainda criança. A professora anterior não tinha conseguido dar conta da incumbência, nada fácil, como depressa descobri.

Não raro, tinha de mediar discussões ferozes entre pai e filho, que recusava trabalhar, sem nunca me esquecer dos testes semanais  que validavam a aquisição rápida do Português Fundamental I — de todos eles.

Os métodos, estruturais, exigiam que o ensino fosse em Português e extremamente repetitivo, a partir de modelos, algo como: 

Lisboa é a capital de Portugal.

Um habitante de Portugal é um português.

Em Portugal fala-se Português.


E eu começava pelo pai, aluno aplicado:

Paris é a capital da França.

Um habitante de França é um francês. 

Em França fala-se …

— Francês, respondia.

Portanto os franceses falam… 

— Francês.


Passava à mãe, agora com os espanhóis. 

Madrid é a capital de Espanha.

Um habitante de Espanha é espanhol.

Em Espanha fala-se…

— Espanhol!

Portanto, os espanhóis falam…

— Espanhol!


Depois, ao moço:

Londres é a capital da Inglaterra.

Um habitante de Inglaterra é um inglês.

Em Inglaterra fala-se…

E ele, despachado, a atalhar já a pergunta seguinte: —Inglaterra! Os Inglaterras falam Inglês!

Eu já era, então, adepto da chamada Pedagogia do Erro, a qual  valorizava os erros e procurava ensinar a partir deles: — blá, blá…

Mas o moço era rebelde, como disse, torcido, conflituoso, nada predisposto a aceitar que tinha procedido muito bem ao aplicar o que parecia ser a regra, mas nas línguas abundam as excepções e aquela era uma delas…

Esforços baldados. Ele teimava que eram os Inglaterras, o pai exaltava-se e eu… bom, eu dei-lhes a ler o manual do professor e desci ao bar a tomar um café demorado, à espera que a crise se resolvesse em família.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

O Macaco Nu

 Estávamos em 1967ou 1968. A biblioteca da minha escola funcionava muito bem, como já aqui contei. Com um sistema de multas por atrasos, quotas, rifas, e outras iniciativas, a professora responsável, que desempenhava o cargo sem quaisquer regalias, adquiria novos livros acolhendo bem os pedidos dos leitores viciados, entre os quais me incluía.

Ora na época fazia furor O Macaco Nu, de Desmond Morris, e eu, com a curiosidade e a irreverência da adolescência, fui pedir-lhe que o adquirisse para a biblioteca.

Recusou: achava muito bem que eu lesse tal obra, e até se prontificava a emprestar-me o seu exemplar logo que ela e o marido terminassem a leitura; mas não se atrevia a comprá-lo para a biblioteca a medo do padre conservador (nem todos o eram) V. da R. 

— Só com autorização do senhor director. Porque é que lhe não pedes?

Só conhecia o director de o ver nos intervalos à chapada aos alunos que corriam loucamente pelos corredores. E de ouvir falar dos seus métodos disciplinares, mais amigo de castigar à bofetada do que com suspensões. Mas não ia dar parte de fraco. E lá fui bater-lhe à porta.

Foi muito cordial, nada autoritário com fedelho de 14 anos  que pedia obra quase censurada para a biblioteca. Achava muito bem que eu o quisesse ler, Mas os teus colegas, não sei! Nem todos têm a maturidade necessária! Olha, até te posso emprestar o meu logo que acabe de o ler! Mas para a biblioteca, não, não quero brigas com o  padre. V.  Da R.  

Nessa tarde, ao namorar a montra da papelaria, não resisti, e com os meus escassos escudos, comprei-o, li-o até de madrugada, fascinado com o conteúdo, antecipando envaidecido o estatuto que a leitura de tal obra me daria nas discussões com os colegas e com os professores.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Uma dívida de gratidão

A biblioteca da escola onde fiz o Curso Comercial funcionava muito bem, graças à dedicação e ao esforço da professora responsável, que teve um papel fundamental na minha orientação como leitor.

Nem todos aceitavam a sua orientação, parecendo, até, que provocatoriamente  pediam livros que sabiam serem recusados para darem vazão à rebeldia da idade: — Se não posso ler o que quero, não leio nenhum outro!

Também a mim me recusou alguns títulos: lembro-me, por exemplo, do Amor de Perdição:

— Ias precisar de muitos lenços para as lágrimas! Lê primeiro este… Só viria a ler, deslumbrado, o Amor de Perdição já adulto, pelos meus vinte e tal anos. Mas valeu a pena a demora, porque, então, o soube apreciar, lendo muito para além do triângulo amoroso Simão-Teresa-Mariana. E continua a ser uma das minhas obras favoritas.

Foi com essa professora que eu, leitor preconceituoso, comecei a ler ficção científica, ao ponto de ficar viciado no género e na colecção Argonauta: As Flores que Pensam, obras de Ray Bradbury, Clifford Simac, Azimov …E também não-ficção: A Expedição da Kon-Tiki, À Margem do Tempo... Fiquei, aliás, muito surpreendido, quando me disse (conversávamos muito) que nos países anglo-saxónicos se lia muito mais não-ficção do que ficção. Como também eu hoje faço.


Saí da escola, deu-se o 25/4. Em conversa com alunos, perguntei pela professora.

— Ah, saneámo-la da biblioteca!

— Mas porquê? Ela e o marido até eram oposicionistas!

— Pois, mas quando queríamos trazer um livro, não deixava e mandava outro!

E perdi-lhe o rasto. Mas não a consciência da dívida de gratidão, que me levou a registar na dedicatória do meu primeiro romance, Do Lacrau e da Sua Picada:

“A duas das professoras a quem mais devo:

− Margarida Martins d’Aires Filipe, minha professora primária;

− Margarida de Carvalho, professora de Português na Escola Industrial e Comercial de Leiria.”


Pouco depois, foi a minha vez de lutar pela promoção da leitura. Bibliotecas de turmas, exposições orais de livros feitas pelos alunos, visitas de estudo à biblioteca municipal, a pé, tentando que se inscrevessem como leitores e requisitassem livros para depois falarem deles nas aulas…Batalhei muito na área.

Por vezes com a satisfação profissional que traziam os pequenos sucessos, por vezes citando mentalmente o profeta: Eu sou a voz que prega no deserto…

”Valeu a pena? /Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa).

quarta-feira, 3 de abril de 2024

“Viva la libertad, carajo!”

 “Viva la libertad, carajo!”

Berra MileI, o presidente da Argentina, no fim do seu discurso sobre as Malvinas.

Curiosa esta mudança de linguagem, de estilo, de ideais até: uma certa direita, que tradicionalmente enchia a boca com Deus, pátria, família, agora enche-a com o “carajo”.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Dia dos namorados

Já D. Dinis, um dos nossos melhores poetas, na cantiga de que abaixo se transcreve um fragmento, descria da paixão daqueles que apenas a sentem e a exprimem numa época fixa: o “tempo da flor”. Por muito bem que os seus cantos amorosos soem (Proençaes soem mui bem trobar), censura-lhes a insinceridade, o convencionalismo, a observância do calendário, incompatíveis com uma paixão sincera.

De então para cá (D. Dinis morre em 1325), assistimos a um afunilamento no horizonte temporal da expressão  das paixões, que passaram do tempo da flor para um (e um só)  dia oficial — o dia de ontem, proclamado  dia dos namorados pelos areópagos do consumismo . 

Estou a ser injusto: há também dia para beijar (13 de Abril). Dois dias num ano inteiro. 

Nada como ter a vida organizada, os amores calendarizados, ser como toda a gente, até porque, já que falo de amor, tenho de recordar a máxima do senhor de La Rochefoucauld: há pessoas que nunca se teriam apaixonado se não tivessem ouvido falar de amor. 


“Proençaes soem mui bem trobar

e dizem eles que é com amor;

mais os que trobam no tempo da flor

e nom em outro, sei eu bem que nom

ham tam gram coita no seu coraçom

qual m'eu por mia senhor vejo levar."

D. Dinis

(Proençais: cantigas de amor à moda Provençal; Coita: sofrimento amoroso; mia senhor: minha senhora)

FOTO: antes de haver dia dos namorados e dia do beijo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Deus existe?

 Deus existe? (Comentário a um post alheio)


Há dois problemas que condicionam tanto as perguntas como as respostas: (1) a linguagem que formula as primeiras e enforma as segundas e (2) os nossos cérebros de primatas, que percepcionam o Cosmos a partir de sentidos que não evoluíram para o compreender, mas para sobreviver nas savanas africanas.

Pensamos com palavras e, como notou Saussure, o pai da linguística, sem elas talvez nem exista pensamento estruturado, ou, pelo menos, pensamento abstracto; mas, todos sabemos,  as palavras e a lógica que com  elas se constrói não são necessariamente conformes à realidade observada (e.g., o Sol nasce de manhã) e não  são seguramente adequadas para formular questões metafísicas: que é Deus?  Se falamos do Jeová bíblico não será difícil negar o seu papel criador, mas se a hipótese de muitiversos nos parecer pouco elegante haverá que procurar hipóteses explicativas para o facto - assombroso - da perfeita afinação das leis físicas.

A nossa capacidade de conhecer o Cosmos parece ser,  também, limitada pela nossa estrutura cerebral, se assim posso dizer: até ao momento, e com toda a nossa tecnologia, conhecemos apenas 5% do Universo; aos 95 % em falta, chamamos energia e matéria escuras. E não fazemos ideia -eu não faço - do que seja o Espaço ou o Tempo, nem se a luz é corpuscular ou ondulatória, etc.

A pergunta Deus existe? pode nem sequer fazer sentido. Nada obriga a que o signo  tenha correspondente (o referente saussurreano) e  nada garante que, no estado actual da ciência, se surgissem  possíveis respostas tivessem significado compreensível para nós. 

Deposito as esperanças nos avanços da ciência, com o receio de que as respostas  não cheguem no meu tempo. Um contacto com civilização alienígena também poderia trazer alguma luz. Enquanto tal não sucede, sinto-me como a rã no fundo do poço. Da ignorância. Crente, agnóstico, ateu? Um pouco disso tudo, conforme o significado atribuído às palavras.

sábado, 8 de julho de 2023

O teu ioiô

 Enquanto deixo passar a hora de maior calor, ouço na televisão um cantor: "Tu passas por mim com o teu ioiô". Se tivesse uma voz   prodigiosa , até podia pedir um Mercedes Benz e uma televisão a cores, como a Janis Joplin, que nos deixava deslumbrados. Mas a voz é banal, talvez uma terceira voz dos meus tempos de ciclo preparatório — eu era da quarta, e da única vez que me atrevi cantar levei uma bofetada do mestre de Canto Coral — que se aproveita, então? A música pimba, igual às outras do género? O “boneco”?

 Deixo de lado a voz, um dom que se pode trabalhar, se houver por onde, e a música, arte que deveriam estudar tendo em conta o métier escolhido. Fico pelas letras, certamente o mais acessível.

Ora  sempre me admiro quando os ouço e dou por mim a comentar: mas esta gente não se ouve, não se enxerga? Querem trabalhar na música e são insensíveis à musicalidade das palavras, ou, no caso, à ausência dela? Suponhamos que relacionamos cada sílaba com uma cor. Que temos no citado verso? Um amontoado de cores sortidas, que não combinam entre si. Como é possível que se esmerem na composição do "boneco" e sejam tão desleixados, ou insensíveis, quanto ao que cantam?

Mais: como é possível que tantos artistas, de valor igual, pululem pelo país fora e encham as tardes de sábado das televisões, sem voz, sem música, com letras prosaicas e triviais? Onde esperam chegar? Ou a auto-satisfação por aparecerem na TV basta, desculpa, justifica tanto apego à mediocridade?

Pêlo na venta e sandes de presunto

A empregada do café tinha pêlo na venta. Era sobretudo com os proprietários de segunda geração, da idade dela, que espingardeava:

Hás-de arrumar essas garrafas de gás vazias… mandava o genro dos “donos velhos”.

Arruma-as tu, que tens bom corpo para isso! E bem folgado!

O patrãozinho fervia de raiva, ralhava.

E ela: Olha lá, porque é que me não despedes? Fico em casa a receber o subsídio de desemprego, e não tenho de te aturar!

Entrei com um amigo para almoço frugal, de trabalho no campo: Duas sandes de presunto  e duas cervejas, faz favor.

Abanou a cabeça: Comam de queijo.

Está bem, anui..

Mas o meu amigo é casmurro: Mas tem ali presunto, porque é que tem de ser queijo?

Interrompi-o: Não teimes, comemos sandes de queijo, depois explico-te.

Não se calou às primeiras. Comidas as sandes, bebidas as cervejas e o café, já fora, voltei à carga: Ó meu sacana, não percebeste que o presunto deve estar estragado?

Ah, era isso? Porque é que ela não disse?

Com a patroa ao lado e o café cheio?

quarta-feira, 10 de maio de 2023

O 1 de Maio de 1973

Meses de agitação intensa, as noites nas ruas a fazer pinturas, os dias em manifestações, tinham mandado para a prisão muitos de nós, alguns dos melhores de nós. Dois anos desta vida sem ser preso era prova da minha habilidade, do cuidado com que aplicava todas as precauções revolucionárias, evitando ser seguido, muitas vezes dormindo fora de casa, que era o meu quarto de estudante, na Rua Poço dos Negros. Também me faltava a coragem de me medir com a polícia e as suas torturas, de me querer pôr à prova para saber se, como verdadeiro revolucionário, enfrentaria sem ceder as torturas em Caxias, sobretudo a que mais receava: a do sono.

Por isso, ao contrário de outros que pareciam tudo fazer para serem detidos e na prisão ganharem o estatuto de heróis — ou descobrirem que ainda não estavam devidamente preparados politicamente como filhos do Povo para resistir a duas semanas de tortura do sono — eu evitava ser preso, arriscava o necessário, mas não mais, dissimulava-me constantemente, encorajado pelo meu controleiro, um clandestino.

Mas no primeiro de Maio de 1973 tinha o pressentimento, estava firmemente convencido de que seria finalmente preso — ou morto. Tirei do quarto todo o material comprometedor, livros, panfletos, equipamento artesanal com que os reproduzia e pu-lo a salvo em casa de amiga. Logo de manhã, como cristão que se prepara para a morte, assisti à nossa missa comunista, no cemitério junto à campa de Ribeiro dos Santos, o primeiro mártir da nossa causa.

Saldanha Sanches fez belíssimo discurso, comovente até às lágrimas: também nós devíamos estar prontos a dar naquela tarde as nossas vidas pela revolução.

Como condenado que vê os seus dias chegarem ao termo e se desforra na última refeição, gastei dinheiro que deveria durar mais uma semana em almoço em restaurante melhorzinho, bebi até -- luxo a que de ordinário me não podia dar — uma cerveja, Carlsberg. 

E à hora da manif, segui para o Rossio, pronto para o que desse e viesse. Habituado a manifestações com escassas dezenas de estudantes, sempre os mesmos, exceptuando aqueles que iam sendo presos ou desertavam da causa, assombrou-me ver a praça apinhada de gente, povo!, esse povo em nome de quem há tanto falava, que procurava agitar, trazer à rua, amotinar contra o regime. Do alto de um edifício, por cima do Diário de Notícias, a Pide (quem mais poderia ser?) filmava-nos ostensivamente, ameaçadoramente, e os populares faziam-lhe manguitos destemidos. Senti ali começar a revolução almejada.

Subitamente, a polícia atacou com canhões de água, empurrando-nos dali para fora, rua do Ouro abaixo. Avistei o meu controleiro, ali, à luz do dia: Vamos voltar para o Rossio e tomar a praça! 

Por todo o lado, cacetadas, espancamentos da polícia de choque, o capitão Maltês a comandar. Todos os acessos estavam barrados. Entrei em autocarro apinhado, que havia de entrar no Rossio, fiz comício no interior para trabalhadores assustados comigo, com a polícia que, fora, em todos, em tudo, batia. Vejam, quem trabalha leva porrada! Viva o primeiro de Maio! O primeiro de Maio é vermelho!, mas o condutor recusou abrir as portas dentro da praça, certamente para a polícia não entrar.

Batemo-nos noite fora. Escapei. Pouco depois, denunciado, abandonei os estudos e a capital, fui viver para a Marinha Grande, a trabalhar em Leiria nas obras primeiro, como operário de plásticos depois. Participei na organização do primeiro de Maio vermelho de 1974, na Praça Stefens, lição para os “revisas”, que a tal há muito se não atreviam. 

Deu-se o 25 de Abril, quando cheguei naquela manhã, pronto para a luta, os soldados que nos deveriam reprimir tinham cravos vermelhos nos tapa-chamas das G3, o ambiente era de festa, como se a guerra colonial tivesse acabado, os amanhãs já cantassem...

E nunca mais comemorei nas ruas o primeiro de Maio. 

terça-feira, 2 de maio de 2023

Um amigo perdido no tempo e no espaço

 O Vasco, via-se à distância, só podia ser um revolucionário: enorme, o mesmo sobretudo escuro de Verão ou de Inverno, boina basca sobre a desgrenhada cabeleira negra encaracolada e sebenta, barba imponente à Fidel de Castro, a tiracolo bornal militar comprado na Feira da Ladra, azedo no falar, quase grunhidos em algarvio cerrado. Inevitavelmente, pelo menos aos olhos dos estudantes, sobre ele recaíam as suspeitas de autoria e distribuição dos panfletos, da colagem dos “selos”, etiquetas autocolantes com palavras de ordem anticoloniais, das pinturas que volta-não-volta decoravam a fachada do Instituto; e ele, agradado com essa imagem, nada fazia para se livrar de suspeitas, antes pelo contrário, sempre que podia distribuía a propaganda associativa, por convicção, talvez também por desejo de brilhar e, eventualmente, vir a ser recrutado.

Tão exposto, parecia um perigo para as organizações clandestinas: um liberal, um pequeno-burguês, demasiado fácil de vigiar pela PIDE, útil, mas sem lugar nos comités clandestinos que se moviam nas sombras. Mas, se eu nada lhe confidenciava que sugerisse o meu envolvimento na luta clandestina, nem lhe dava “tarefas”, acabámos por partilhar um quarto na rua de Arroios durante dois meses.

Longe do Instituto, com as cantinas fechadas uma após outra pela polícia, as minhas despesas aumentaram tanto que nem a comer nas mais baratas das tascas para trabalhadores cabo-verdianos o dinheiro me chegava até ao final do mês — eu era boa boca, comia tudo, mais interessado na quantidade que na qualidade, mas, mesmo assim, a fome, crónica, endémica, atormentava-me. Como os cearenses de Josué de Castro, que tinha lido recentemente, também eu tinha a cabeça cheia de comidas imaginárias… o Vasco, mais abonado, sugeria-me que “tirasse” comida nos supermercados, como ele e outros revolucionários faziam frequentemente; mas não nasci para ladrão, e roubar, mesmo disfarçado eufemisticamente de “expropriação da burguesia” era, para mim, mais intolerável que a fome que me roía nesse final de Maio. 

Em desespero, escrevi à minha avó, perguntando se me podia enviar um coelho OU uma galinha. Dois dias depois, para minha surpresa, chegou à camionagem a encomenda, com um coelho E uma galinha! Vim a saber que um primo, ao ler a carta, que a minha avó já não tinha olhos para tal, trocou o “ou” por “e”. A namorada do Vasco cozinhou os bichos e, para se não estragarem, empanturrámo-nos com eles durante uns dias, tirando eu a barriga de misérias até à chegada da próxima carta dos meus pais, emigrantes na Holanda, com a mesada de Junho.

Findo o ano lectivo, separámo-nos. Embora amigos, não me convinha a sua curiosidade: onde foste, de onde vens, vieste tarde na noite passada, onde vais…

Só aí por 76 ou 77, nos voltámos a encontrar. Veio falar comigo a tentar demover-me: eu tinha apresentado pedido de demissão, certo da inevitabilidade de expulsão por “seguir a linha de direita”, como me acusava a miudagem ultra-radical entrada no pós-25 de Abril. 

O seu aspecto era o mesmo, mas o ar tenebroso era agora adequado: guarda-costas do Arnaldo Matos. E confidenciou-me: também ele só não tinha ainda mandado tudo isto à merda por causa do “homem dos bigodes“, a quem o ligava profunda lealdade e admiração.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Onde estavas, Zé, no 25 de Abril? (Reposição)

Na Marinha Grande, a dormir.

Era uma da tarde e acordou-me a minha mulher, tínhamos casado um mês antes, para me dizer que, segundo boato ouvido na padaria, havia um golpe de estado na capital. "Pois sim, deixa-me  mas é dormir", devo ter respondido, com o sono de pedra dos vinte anos, e voltei a adormecer, não sobre fofo colchão, mas no chão, que cama não tínhamos. 

Naquela semana fazia na fábrica o turno da meia noite às oito e precisava desesperadamente de dormir. Também não tínhamos televisão nem rádio. Nem mobília nenhuma, exceptuando um mocho comprado no mercado.
Vivia na Marinha Grande e trabalhava (operário de plásticos) em Leiria. Motivos: estão em Do lacrau e da sua picada. Chego à cidade ainda de dia, procuro sinais de agitação, nada. Na Praça Rodrigues Lobo encontro o Luís Marques, o mais duro e o mais valente revolucionário que conheci, também ele na clandestinidade, que não via há coisa de um ano. A notícia do golpe de estado trouxera-o até à claridade. Tal como eu, não acreditava que viessem aí grandes mudanças: "Coisas do Spínola e dos spinolistas", terá dito, e eu acreditei. E fui trabalhar, porque o patrão também não tinha ouvido falar em revolução.
Muita coisa mudou. Logo nos dias seguintes, aqueles que até então nos insultavam quando nos manifestávamos nas ruas contra a guerra colonial e o fascismo, que telefonavam à polícia quando pela calada da noite pintávamos paredes, que nos denunciavam como perigosos agitadores comunistas ao encontrarem propaganda nos quartos alugados, reconverteram-se ao vermelho, mas só no cravo na lapela, e muitos tornaram-se guardiães do regime.
Apesar deles, do dia de trabalho para a nação, do fim da luta de classes que apregoavam, o país mudou. Tanto, e para melhor, que está hoje irreconhecível. 
Aos que fizeram a revolução, agradeço a criação de condições para acabar com a ditadura, a sua polícia política, a guerra colonial, para democratizar e desenvolver. Embora, não poucas vezes, tal ter sido conseguido contra eles -- mas, em dia de fes não é bonito lembrar tais coisas. 
Quanto ao povo, esse está nas praias, aposto, a festejar feriado a que dá tanta importância como ao 5 de Outubro, ao 1 de Dezembro, à Nossa Senhora Não-Sei-de-Quê...
Foto: nós dois, uns meses mais tarde.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Chico Buarque (reposição)

 Estávamos em 1972, havia a guerra colonial, a agitação constante nas universidades, as manifs nas ruas que o regime não lograva impedir, a música que nos chegava de fora, Brel, Simon&Garfunkel, Donovan, Chico Buarque, Patxi Andion, por cá a de José Afonso.

O meu primo, então a frequentar o Conservatório, pediu-me que comprasse bilhetes para concerto que Chico Buarque ia dar num cinema entre os Restauradores e o Marquês, esqueci o nome. Quando lhe entreguei o bilhete, 
— Compraste também para ti?
— Não. Estou teso...
Insistiu para que comprasse, quis pagá-lo ele. Recusei, e voltei ao tal cinema. Comprei o mais barato, para o poleiro, o último balcão. E lá me sentei, a ver no palco figuras minúsculas que tocavam os primeiros acordes — o conjunto do Chico (hoje diz-se banda), o MPB4. Na sala, gigantesca, uma pessoa aqui, outra ali.
Então, chega funcionário a pedir para nós, os do poleiro, nos sentarmos na primeira fila, para que Chico Buarque não actuasse para cadeiras vazias. Tive, assim, oportunidade de assistir ao seu espectáculo juntinho a ele.
Excepcional. Mas com fraca assistência, nem a banda a passar colocou a sala ao rubro. E o cantor, a determinada altura, desabafou: não sabia se as suas músicas eram apreciadas em Portugal, mas no Brasil quase ninguém as conhecia. 
Pois, cá, fora do meio intelectual, apenas a banda a passar tinha chegado às massas, embora na rádio se ouvisse muita música brasileira, eu quero buzinar o seu calhambeque e quejandos.
Ainda bem que tudo mudou. Chico Buarque, que talvez fizesse suas as palavras (creio que) de Brel, algo como não sou poeta nem músico, faço canções — conheceu no Brasil e cá a glória merecida pelo seu talento, enorme e diversificado (letrista, músico, actor, escritor), e acaba de ser distinguido com o Prémio Camões.
E eu tive o privilégio, graças à insistência do meu primo, de o ter visto no palco, tão perto que quase lhe podia tocar, quando era jovem, antes da consagração, e de me ter embevecido com a sua genialidade e a dos músicos que o acompanhavam...
(A time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence
A time of confidences
Long ago it must be
I have a photograph
Preserve your memories
They're all that's left you
Simon&Garfunkel, Old Friends)