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quinta-feira, 1 de março de 2018

Eu e a Medicina Tradicional Chinesa

Na assistência, barbudos fardados de hindus, outros de rabicho e vestuário tradicional chinês, professoras de ioga de salto alto, alguns discípulos do mestre vestidos à ocidental como eu, que estava naquele seminário atraído pela fama do orador, fascinado pelos seus livros, seduzido pela sua execução de Tai Chi, que conhecia de vídeos comprados na Amazon.
Falava fluentemente o Inglês, bom conversador, gabarola, divertido. Segundo o currículo, a viver há muitos anos nos Estados Unidos, onde se doutorara num qualquer ramo da Mecânica; trabalhou primeiro na NASA, até se deixar disso, e passar a viver das artes chinesas — medicina, tai chi, seminários, livros e vídeos.
E contava, para delicia da audiência, que o seu antigo emprego o matava. Por exemplo, com frequentes pedras nos rins, na bexiga, que a medicina ocidental não resolvia, apesar dos cinquenta dólares que lhe custavam os medicamentos. Em desespero, parou numa herbanária chinesa, comprou um chá por uns cêntimos, que em dois ou três dias o curou, bastando-lhe depois beber desse chá de tempos a tempos, preventivamente. E eu fiquei deveras impressionado, a lembrar-me do que tinha padecido com crise renal uns anos antes. 
Ele continuava a exaltar os prodígios da medicina chinesa, rindo e fazendo rir a assistência à custa da medicina ocidental, cara, ineficaz, nociva para o organismo. Por exemplo, um dia entrou-lhe no consultório um doente desesperado, a quem os médicos davam pouco tempo de vida devido a cancro nos pulmões. Receitou-lhe uns exercícios respiratórios, que ali nos exemplificou, e para sua alegria e surpresa, semanas depois o moribundo entra-lhe pelo consultório aos gritos Doctor Yang (os mais atentos repararão que com o doutoramento em Mecânica se fazia passar nos EUA e cá por médico!), doctor Yang, estou curado! E mostrava exames que comprovavam que o tumor desaparecera.
Bom, aqui confesso que fiquei algo incrédulo; mas continuei calado enquanto o chinês se vangloriava dos múltiplos milagres, dele, da medicina chinesa, da prática da meditação e do Tai Chi.
Até que.
— Quem é que tem problemas de coração?
Ninguém se acusou.
Passou os olhos pela assistência e fixou-os em mim, talvez por ser dos mais velhos (andava então pelos cinquenta, a idade do mestre), ou por ser dos mais atentos, pois tomava notas. Arrepiei-me: o mestre teria visto em mim sintomas de doença cardíaca? E abanei negativamente a cabeça: — Creio que não, fiz há pouco tempo um ecocardiograma, treino karaté, não sinto ainda nenhuma insuficiência cardíaca...
Pois ele tinha. Recentemente, tinha feito um bypass às coronárias, após a morte de um irmão aos 48 anos. E na recuperação o médico — este não era doutorado em Mecânica — mandou-o fazer muito exercício.
— Mas, doctor, faço doze horas diárias de Tai Chi.
E o doctor ocidental a dizer que o Tai Chi é bom para baixar a tensão arterial e o stress, mas não para baixar os níveis elevadíssimos de colesterol que o paciente apresentava. Devia fazer corrida, bicicleta, saco — exercícios violentos, para queimar colesterol.  O que o nosso crítico das práticas ocidentais passou a acrescentar aos seus treinos de  Tai Chi.
“Então curas os outros, curas o cancro alheio, mas que doctor és tu que não te curas a ti mesmo? Vendes seminários caríssimos — salvo erro, e estávamos no princípio do séc. XX, paguei 140 euros para o frequentar durante 2 dias — , mas quando “ela” te bate à porta, confias a tua vida à medicina que ridicularizas e não à que vendes aos outros?” — ruminei, logo ali.
Mas, já que o tinha pago, frequentei o seminário até ao fim. A ver os portugueses “hindus” de amarelo, os “chineses” de branco ou de preto, fascinados, a contribuirem para a discussão da inquestionável presença de extra-terrestres entre nós, a raptar mulheres e a engravidá-las...
Nem tudo se perdeu. O mestre era e ainda é um excepcional praticante de Tai Chi — embora os místicos não participassem nas aulas práticas, ficando-se pelo bar, certamente a comer vegetais e a prosseguirem a discussão sobre os sentimentos dos pobres animais que ao saberem que vão ser abatidos libertam enzimas e hormonas que contaminam a carne e arruinam a saúde dos parvos dos ocidentais.

E nunca mais voltei...

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