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sábado, 27 de setembro de 2025

Leituras proibidas

 A arribana da Menina Cica fazia cotovelo ao fundo da minha rua. Aberta para as duas estradas, armazenava rolheiros de vides.

Era lá que, saído da camioneta que me transportava de Alcobaça, escondia os livros emprestados antes de chegar a casa. E era lá, aninhado a um canto sobre o pó velho de terra seca e muitas gerações de vides, que os devorava às escondidas.

Entenda-se. Os meus pais gostavam que eu lesse. Os livros da escola. Os outros, que nenhuma falta faziam, apenas de tempos a tempos, como hoje os doces que se dão às crianças. Eu, viciado na leitura, precisava diariamente de livros novos, lidos logo na primeira semana de aulas os de Português, de Ciências, de Geografia.

Em cada mês, requisitava o máximo permitido na Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian, creio que seis livros, que escondia numa arca na adega. Lidos esses, recorria à troca e ao empréstimo.

Tudo servia, contanto que tivesse letras. Até o Mandrake, de que nunca fui fã, até os Sete, há muito lidos todos os Cinco, umas duas dezenas de títulos.

Biografias, história, aventuras, escassa divulgação científica, marchava tudo.

E não conhecia maior prazer que, escondido na arribana, resguardado das vistas pelos feixes de vides amontoados, sobreviver em ilha deserta, perseguir a baleia branca pelos mares do Mundo, caçar a foca nos gelos do Norte, lutar ao lado de D’Artagnan e dos seus amigos mosqueteiros.

Mas os dias de Outono minguavam a olhos vistos, escasseava o tempo da leitura ao chegar a casa quase de noite. Para ler os livros proibidos, comecei a acender a luz do quarto durante a noite, livro de estudo aberto e dentro dele, um dos tais que nenhuma falta faziam.

Apercebendo-se da luz acesa no eu quarto, a minha mãe embevecia-se e contava à minha avó: O meu Zé estuda tanto!

Até que…

Um pequeno erro estragou tud


o. Tinha pedido à minha mãe que me encapasse os livros da escola, esquecido dos de “cobóis” no seu interior. Ora a minha mãe fervia em pouca água, e furiosa pelo meu crime de leitura e mais ainda por a ter enganado na sua ingenuidade, não teve mãos a medir, nem poupou nas palavras.

Pior: na manhã seguinte não me deu dinheiro para o passe da camioneta, nem sequer para o bilhete, segura de que eu manifestaria arrependimento, pediria desculpa, prometeria nunca mais repetir.

Mas eu era torcido e retorcido, além de orgulhoso como as personagens dos Três Mosqueteiros.

Não nos falámos ao pequeno-almoço e eu saí decidido. Na padaria, pedi boleia ao distribuidor do pão e viajei para Alcobaça aos tombos num furgão fechado, por entre cacetes e papos-secos. No regresso, meti-me a pé ao caminho até que, na subida da Maiorga, o meu pai, que saía do trabalho, parou a motorizada e sem palavras levou-me com ele.

A minha mãe ainda insistiu, misturando discurso com palmadas: queria arrependimento, queria mudança de rumo. Mas eu só chorava, palavras, nenhuma, promessas, nada.

Torcido. E no dia seguinte, sempre a rezar-me o responso, lá me deu o dinheiro para o passe da camioneta.

Pobre mãe, que tanto atormentei!


domingo, 11 de maio de 2025

Apocalipse

Em criança, apavoravam-me os pequenos barulhos da noite aldeã — o soalho que estalava, o ténue zumbido do contador da electricidade, as correrias e brigas dos ratos no sótão, o pio agoirento de coruja... e, pior, o receio de aparições do Diabo, sempre tentador e atentador, ou fantasmas, almas penadas, espíritos de defuntos que, faltos de ocupação, podiam surgir a qualquer momento no escuro.

Mas, mais do que os medos trazidos pela noite, alimentados pelas histórias de garotos, beatas, padre na missa, era o fim do Mundo que me aterrorizava. O fim de tudo, certamente após tormentos cruéis do Nosso Pai dos Céus, lá em cima sempre de olho em nós, sempre zangado, sempre a prometer, via profetas, castigo terrível e derradeiro. Era ele quem ralhava no trovão, quem escrevia no céu o aviso do Arco da Velha Aliança — já havia destruído uma vez o Mundo pela água, da próxima seria com o fogo, e isto por via dos nossos pecados, que eram tantos: um distraído padre-nosso ao rezar o terço, pequenas patifarias omitidas por vergonha na confissão, como ter espreitado rapariga que se aliviava em tosca retrete, ou brincadeira durante o Santo Sacrifício da Missa, enquanto o sacerdote verberava o povo ímpio — a vindimar ao domingo! Ah, certamente a mesma gente que fugia à côngrua, (e o senhor prior desesperava por trocar a lambreta por carro), que não mandava os filhos à catequese, talvez hereges, ateus, meio caminho andado para o maldito comunismo, que tanto entristece Nossa Senhora, que prometeu em Fátima o milagre da conversão da Santa Rússia! 

Eu lia sofregamente. Tudo. O jornal, na loja; as folhas arrancadas que embrulhavam o peixe, os fragmentos espetados em pregos das retretes, e amiúde encontrava evidências da proximidade do Apocalipse, agora pelo fogo nuclear, desencadeado pelo Homem, que assim ajudaria o Criador a arrasar definitivamente a Criação e as suas criaturas, que sempre detestou, com excepção de uns tantos graxas como Abraão, capazes até de lhe sacrificarem o filho primogénito para permanecerem nas suas boas graças.

Aí pelos meus treze anos, já a estudar em Leiria, havia na casa onde estava hospedado vários exemplares das Selecções do Reader’s Digest e por elas fiquei a saber que o Mundo era, afinal, o Universo, uma miríade de galáxias, uma infinidade de estrelas, tudo nascido no Big Bang, tudo condenado a perecer num Big Crunch ou em qualquer outra catástrofe cósmica, dependendo da massa do Universo — o velho fim do Mundo, inexorável, já não  planetário, mas cósmico, já não causado pela fúria divina, mas pelos ditames da matéria!

Os anos e as leituras não dissiparam o cenário pessimista da infância. As lendas, a beataria, a crendice cederam perante a linguagem da ciência e as extraordinárias descobertas do último século, mas o facto essencial permanece: o Universo, surgido do Nada, a ele voltará. É certo que muito antes terei eu desaparecido, a terra terá sido incinerada pelo Sol quando este, esgotado o hidrogénio que agora o alimenta, crescer até à órbita de Marte, a Via Láctea terá colidido com Andrómeda, tudo aquilo que hoje conhecemos seria irreconhecível se cá voltássemos. E não encontraríamos nenhuma linha dos meus escritos, nem sequer nenhum vestígio  das obras dos maiores criadores da humanidade, nem um simples átomo que atestasse a sua existência num passado distante — o nosso presente.

Sim, esse fim do Mundo ocorrerá, tudo o indica, num futuro longínquo. Só que passado, presente e futuro são referências ao Tempo, e eu, apesar de muito ter procurado, continuo sem saber o que o Tempo é. Ou se É.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Arrependimento

 Portei-me mal ao telefone. Mas detesto que me liguem a pretexto de me oferecerem descontos, os quais, invariavelmente, obrigam a novas despesas. E estava a comer. Primeiro, pedi, em vão, que a telefonista se despachasse, explicitando rápida e claramente qual o assunto. Depois, irritei-me com o mau português: “eu quero LHE informar…" Impaciente, corrigi-a: “eu quero informá-lo…”

Desligou a chamada.

E eu fiquei arrependido por ter tratado mal pessoa que, obviamente sem formação e ignorando as regras básicas da sintaxe do Português Europeu, tem de aguentar um emprego daqueles. 

sábado, 19 de abril de 2025

Livros aos montes

Estudava então em Leiria, pouco, e estava alojado em casa modesta, velha, escura, tristonha, de uma senhora divorciada que recebia estudantes como hóspedes — sim, ao contrário do que hoje se diz por aí, o divórcio existia antes do 25 de Abril, embora se não  aplicasse aos casamentos religiosos. 

Adiante. O que interessa é que, sobre o soalho, ao fundo de um corredor, amontoavam-se centenas de livros, sem qualquer ordem. Para um miúdo viciado na leitura, afastado da família, num meio completamente estranho, foi um maná dos céus. Devorava um ou dois por dia, misturando Júlio Dinis com Caryl Chessman, o condenado à morte que na cela se tornou escritor, Thor Heyerdahl e a sua Kon-Tiki, Júlio Verne, Dumas, Salgari, Defoe, histórias policiais e de terror com os livros de cowboys e o Major Alvega...

Os dias voavam, as saudades não doíam tanto... 

Naquele primeiro período, os resultados escolares não foram brilhantes.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Em Abril,

Em Abril, queimou a velha (ou o velho) o carro e o carril*

E o que sobrou, em Maio o queimou.

* Chambaril, noutra versão.

segunda-feira, 17 de março de 2025

Invernias

Venho de outro tempo, de outro lugar, de um mundo já desaparecido. E, sem que ninguém mo peça, dou testemunho desse tempo, desse lugar, desse mundo, por exemplo, no meu romance Entre Cós e Alpedriz. 

“Oo geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que nom soube parte de tamtos malles, nem foi quinhoeiro de taaes padecimentos!” (Fernão Lopes, Crónica d’el-rei D. Joham I)


“Nem mesmo turvados pelo álcool conseguem imaginar esses tempos que um dia virão e que poucos deles conhecerão, tempos em que a aldeia terá telefones, água canalizada, esgotos, estradas e caminhos alcatroados. Não haverá então fome em Portugal, mas outros problemas surgirão, fazendo talvez os seus netos e bisnetos desejarem ter vivido no tempo dos avós, em que éramos, disse-se depois, pobrezinhos, mas honrados e felizes. É sabido, ninguém está bem com o bem que tem. Fiquemos, portanto, naquele Inverno terrível, como poucos terá havido antes ou depois, desde que os Montes são habitados.

Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do (…)

E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os “pexins”. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.

Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.

Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.

Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido."

In Entre Cós e Alpedriz

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Coisas de mau gosto

Os mortos não fazem anos. Para eles, o tempo acabou.

E é macabro dizer que fulano  “ faria hoje x anos” — em que estado? 

Ele (ou ela) gostaria de os fazer? E de viver, sabendo mortos todos os familiares, amigos, conhecidos, isto se para tal tivesse ainda lucidez?

Lembro-me, a propósito, de uma resposta de Mário Soares quando uma dona lhe dizia algo como ‘que bonito ter oitenta anos’:

— Para si, que os não tem.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Inteletuais

 Sou,  como é sabido, opositor ao novo acordo ortográfico, que me recuso a aceitar. Mas, mesmo na lógica interna desse acordo, as consoantes  oclusivas devem ser grafadas, i.e., escritas, sempre que são articuladas, i.e., pronunciadas. Por exemplo, 

“É um faCto” e não “É um fato”.

“É um facto que mandei fazer um fato ao alfaiate”.

Assim, e sem ter ouvido o respectivo arrazoado, sou levado a pensar que para a televisão este cavalheiro, que nem sei quem seja, não é um inteCtual que se posiciona inteleCtualmente, mas sim um “inteletual“ que se posiciona “inteletualmente”.


Cacofonia

 Cacofonias


Ouve-se frequentemente dizer “passe a cacofonia“ em situações em que, obviamente, se pretende dizer “passe a redundância“, “passe o pleonasmo”, etc.

 Como exemplo de cacofonia, veja-se esta de Quim Barreiros, um mestre na sua exploração: “…vaca, galo…“(vá cag…). Ou, num registo erudito,  este exemplo de cacofonia em A Capital, de Eça de Queirós: “nunca cauda…“ (Ca-cau).

É com este sentido que a palavra está dicionarizada no Priberam:

“cacofonia

nome feminino

Som desagradável ou palavra obscena resultante da união de sílabas ou palavras diferentes. = CACÓFATO, CACÓFATON ≠ EUFONIA


Origem etimológica:grego kakofonía, -as, som desagradável.


"cacofonia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/cacofonia.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

A Idade de Ouro (reposição)

 Longe vão os meus tempos de pregador. Hoje, sem pretender converter, nem sequer convencer, as polémicas não me motivam como antigamente e fico-me pela contra-argumentação, na esperança vã de que os factos que avanço levem os meus opositores a considerar, tenuamente que seja, que podem não estar tão carregados de razão como se julgam.

Mas, assim mo mostra a vida e confirma a realidade facebookana, esgrimir argumentos é inútil contra a fé, seja ela a religiosa, seja a das causas que se vão construindo sob os meus olhos cépticos: agricultura ‘biológica’, medicinas alternativas, acupunctura, vegetarianismo, alimentos milagrosos que até curam o cancro e se acaso fracassam é porque ou o doente os descobriu demasiado tarde, ou porque os não consumiu da forma adequada, ou com fé suficiente, atitudes anti-científicas que rejeitam as vacinas, desdenham dos medicamentos, põem em causa evidências como a da Terra ser esférica, ou o homem ter descido na Lua, embora, estranhamente, pareçam aceitar que algumas das nossas naves já viajam para fora do sistema solar...

Será a saudade do passado que me leva a considerar muito mais poética a ignorância meio século atrás, com espíritos e espiritistas, almas assombradas e exorcistas, crendices que me deixavam apavorado por ter ingerido cabelo, a medo que se transformasse no meu interior em cobra, a benzer-me para afastar Satanás, a mijar nas feridas para as desinfectar?

Certamente. Mas a ignorância de antanho resultava da falta de informação. A de hoje envolve sobretudo gente dos meios urbanos, com estudos, que se enreda em argumentos e justificações palavrosas, ignorando uns factos, deturpando outros segundo as suas conveniências, não raro sustentando as suas crenças, inevitavelmente assertivas, em “estudos” facilmente desmentíveis.

Por exemplo, partem de factos inegáveis, como os efeitos secundários dos medicamentos, ou os perigos da utilização dos pesticidas agrícolas, para desencadearem campanhas contra o uso de uns e outros, não querendo ver, pois a fé é cega, que o nosso bem-estar depende crucialmente da utilização correcta de uns e de outros.

Sou velho. Já vivi mais do que o meu pai, talvez tanto como o meu avô Cipriano. E lembro-me muito bem, que as recordações do passado são as que a memória melhor retém, de como era a vida meio século atrás, num Portugal pré-científico, subnutrido e cheio de doenças. Infantis, que as vacinas evitaram. Crónicas e incapacitantes que os medicamentos curaram  ou tornaram suportáveis. Em que o cancro — sim, comia-se tudo biológico, mas morria-se igualmente de cancro — se tratava pondo-lhe ovos cozidos por cima, para que o cancro os comesse em vez do doente. E com rezas, que pouco mais havia.

Essa época, com escasso conhecimento científico, quase sem remédios (lembro-me das sulfamidas, da tintura de iodo, do melhoral, mais tarde do Vick Vaporub), em que apenas comia ‘biológico’ do que havia, quando o havia, não foi uma Idade de Ouro. Foi uma idade de sofrimento. Onde, como diz Álvaro de Campos, eu era feliz e ninguém estava morto. Sobretudo por isso.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Sapateiros remendões

 Os doutos economistas Marcelo e Portas (também brilhantes estrategas, mas isso agora não vem ao caso), rejeitam as previsões algo pessimistas do governador do Banco de Portugal, a quem, e não há muito, chamavam o “Ronaldo da Economia”. O maquiavélico Marcelo, bem mais calado desde que eclodiu o escândalo das gémeas brasileiras, ainda aproveitou para dar ferroada, insinuando que Centeno já está em campanha para as presidenciais -  o bom julgador julga os outros por si, diz o povo.

Quem vos mandou, ó sapateiros, tocar rabecão?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Lobos com pele de cordeiro

Ensinaram-me os anos e as muitas leituras a desconfiar dos lobos vestidos com pele de cordeiro. E, também, a procurar descortinar a realidade, sempre  ofuscada pelos desejos.

domingo, 1 de dezembro de 2024

O beija-mão

 António Costa já foi a Kiev prestar vassalagem ao boss.

Manda quem pode, obedece quem deve.



segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Guerras do Alecrim e da Manjerona

A parvoíce não começou agora, acompanha-nos certamente desde que a humanidade aprendeu a falar. Mas, atrevo-me a afirmar, nunca se viveram tempos tão parvos como os actuais. Se duvidam, ou pensam que exagero, atentem numa  das polémicas actuais, incida ela sobre vestuário e símbolos religiosos, a forma como  um jogador de futebol festejou ou não festejou o golo, as conversas de balneário (pensava eu que o balneário era o local onde  uns gajos nus tomarem banho procurando não deixar cair o sabonete), agora as discussões acaloradas sobre o 25 de Novembro, quase sempre com intervenientes sem idade para terem participado activamente nos acontecimentos.

Note-se que não questiono a utilidade de apurar factos, e de nos indignarmos com a punição de rapariga muçulmana que ousou mostrar os cabelos, no Irão ou na França, com os gestos malcriados ou atitudes violentas no futebol, ou com os desmandos ocorridos no pós-25 de Abril, marcados pela intentona spinolista do 28 de Setembro de 74, com o bombardeamento aéreo e ataque dos pára-quedistas ao Ralis no 11 de Março,, o Verão Quente de 75, os combates no 25 de Novembro.

Mas, no momento em que vivemos acontecimentos extremamente preocupantes, com a Terceira Guerra Mundial já em curso, fazer de uma data de um passado já distante, que já pouco ou nada tem a ver com a realidade em que vivemos, mais um símbolo para esgrimir entre adversários políticos, com importância idêntica à de saber se fulano usou cravo na lapela nas comemorações do 25 de Abril, certamente por falta de ideias actuais, excede em ridículo, e de longe, as Guerras do Alecrim e Manjerona ( António José da Silva, o Judeu) ou do Hissope (Cruz e Silva).

Digo eu, que vivi o 25 de Novembro “com muito medo e uma arma na mão”, conforme escrevi há anos neste blogue.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

As vítimas

Os adeptos judeus cantavam pelas ruas de Amesterdão:“Deixem as IDF ganhar / Nós vamos lixar os árabes “ (imagens e tradução na TVI). E sgundo outras fontes, “Destruímos as escolas pois já não há crianças em Gaza,”

E, coitadinhos, foram vitimas de antissemitismo. Certamente Israel vai bombardear Amesterdão e matar uns milhares como retaliação.

A flauta

 Contava-se na minha meninice que um velho da terra, outrora criança— coisa estranha! — tinha sido tirado da escola primária pelo pai na segunda ou terceira classe  para trabalhar no campo consigo, como então se usava.

O calor de Junho logo pela manhã, a enxada de bicos maior do que ele, quase tão pesada, a terra seca, gretada pelo Sol,  desanimariam qualquer um, quanto mais a ele, relezito, mal alimentado, contrariado, não que gostasse da escola e dos maus tratos diários do mestre, mas agora até ela se lhe afigurava preferível ao tormento em que se via.

Eis que o pai, barril de água-pé aos queixos, o vê afastar-se sorrateiro, pára na estrema junto a pequeno canavial , nas mãos não a famigerada enxada, mas o canivete e uma cana.

Zé, vem trabalhar!, manda.

Não posso, pai, estou a fazer uma flauta!

Algum tempo depois: Zé, vem cavar comigo!

Não posso, pai! Estou a aprender a tocar flauta!

Passou preguiçoso o tempo, com sempre sucede quando se cava. Mas passou, e chegou o meio-dia solar e com ele a hora do almoço, a que então se chamava jantar.

Tocado pela negra fome, endémica, ancestral, o rapaz chega-se, espera em vão o seu quinhão:

Ó pai, não me dá comer?

Toca flauta, Zé! Toca flauta, Zé!

terça-feira, 21 de maio de 2024

A minha história da língua

Primeiro surgiram os nomes. Exigiram-nos as coisas, todas diferentes mesmo quando aparentavam ser iguais, as pessoas, as ideias que se iam formando. Depois, os verbos. Afinal, o Homem ou ESTAVA ou FAZIA. Bicho irrequieto, tudo eram estados ou acções: bebé dorme, chefe caça. Podia construir frases: Chefe caça urso; urso caça chefe. 

Animal complicado, precisava de distinguir coisas, seres da mesma espécie pelos pormenores. Inventou os adjectivos e estragou a linguagem. Grande chefe caça urso pardo coxo; rapaz zarolho ama rapariga linda... 

O mais, declinações e conjunções, artigos e preposições, advérbios e interjeições veio por acréscimo, como vieram tempo e modo e aspecto. A língua complicou-se de tal forma que deixou de depender da realidade. Passou a construí-la. As palavras, que antes reportavam o mundo, tornaram-se barreira à sua compreensão, deturpando, mistificando. De tal forma que a ciência, quando foi inventada, mais do que as palavras, recorreu aos números, mais do que à linguagem recorreu à matemática, desconfiada dos artifícios retóricos construídos com palavras, os quais permitem defender uma ideia e a sua contrária. 

Pior. Se no início dos tempos, quando o chefe falava, o ouviam em silêncio religioso, não raro de costas, hoje, com o falajar constante e vazio, a palavra perdeu a sua antiga magia.

Chefe manda caçar urso.

Porquê urso e não bisonte? 

Que mal lhe fez o urso?

Ele quer é a pele para a mulher!

Urso é perigoso. Prefiro caçar coelhos.

Caçar está errado. Não se deve fazer mal aos animais.

Nem os nomes escaparam à banalização. Amigo é quem pede amizade no Facebook. Casa, algo que pertence ao banco. Amor, um vocativo a substituir o nome próprio:

— Amor, vai despejar o lixo!

Ou mera palavra melada que como a serpente adorável carrega em si o veneno da mentira,

— Amor, chego tarde, tenho uma reunião que vai demorar...Sim, conselho de turma, acaba tarde, está lá o Fulano, já te falei desse chato, nunca se cala, toda a gente a querer sair e ele a exigir que cada peido que dá fique em acta...

Ou desculpa para a violência doméstica, quando por ela se perdoam os maus-tratos de hoje, os mesmos que se sofrerão amanhã,

— É porque te amo!

e até desculpa  em tribunal os desfalques,

— A ré está absolvida, pode ir em paz...

  — Sr. Dr. Juiz, e os duzentos mil euros da autarquia?

Pois podem dizer-lhes adeus, afinal eram dinheiros públicos e a escrivã privatizou-os por amor, para oferecer carro topo-de-gama ao namorado que ameaçava deixá-la!


segunda-feira, 20 de maio de 2024

Pato com grelos

Só uma vez almocei num restaurante chinês. (Que falta de cultura!)

Foi em finais do século passado, quando estavam na moda, mas não foi o exotismo que lá me levou, menos a esperança de comida a meu gosto.

Fui com os meus amigos de karaté de Lisboa, após um treino. Pela companhia, e não pela comida.

Vem a empregada chinesa, moça simpática e bem-falante, deixa-nos a ementa que olho como cabra para edital, incapaz de adivinhar o que se escondia por detrás daqueles nomes exóticos. Até que —milagre! — lá para o fundo, um prato apetecível: pato com grelos, duas coisas que aprecio e bem combinam entre si.

Chega a moça sorridente e conversadora com os pratos pedidos e eu protesto: enganou-se, pedi pato com grelos e trouxe-me frango com brócolos!

Instantaneamente, a fluência no Português da empregada desaparece: — Num compliendo! Num compliendo! E vai-se, deixando-me a alternativa de comer uma coxa de frango miserável por pato, brócolos por grelos, ou passar fome. 

Comi. Mas não me voltaram a enganar.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Ainda o ensino de Português a estrangeiros

No princípio deste século, chegou-me uma aluna chinesa, que nada sabia de Português. Os serviços do ministério de educação tinham-lhe dado equivalência ao 10 ano, a escola integrou-a numa turma, e lá ficámos nós, os professores, com o problema para resolver, sem qualquer apoio. 

Já aqui contei, por alto,  alguns episódios da minha experiência anterior no ensino a estrangeiros, mas este caso era completamente diferente, com completa ausência de meios e apenas uma hora semanal para trabalhar com a moça, até esse tempo repartido, pois juntaram-lhe outro aluno, esse português, mas com problemas de aprendizagem — que exasperava a colega com as suas dificuldades.

A aluna era muito inteligente, empenhada, e recorria constantemente a dicionário de bolso, nem sempre com proveito: a professora de Matemática ensinava que linhas paralelas são duas rectas apostas — e a aluna, participativa, após rápida consulta ao dicionário, logo colaborava: apostas, jogo, batota! 

Paradoxalmente, no Português era pior: o programa de 10 ano incidia então, no primeiro período, em Camões, incluindo os seus poemas místicos. Eu via-me no papel de catequista, a tentar explicar a jovem urbana de país comunista conceitos bizarros como Céu, Inferno, versos como “o melhor de tudo é crer em Cristo”… 

Mas a aluna era, como disse, inteligente, esforçada, bem disposta, e no final do período já era uma das melhores da turma. Vieram as férias de Natal, recomeçaram as aulas, logos demos pela ausência da nossa Ye, que até então nunca faltara.

Que se passa?, procurámos saber.

— A mãe tirou-a da escola porque é a única da família que fala Português e precisa dela na “loia”!

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Quando o 1 de Maio era vermelho (reposição)

Meses de agitação intensa, as noites nas ruas a fazer pinturas, os dias em manifestações, tinham mandado para a prisão muitos de nós, alguns dos melhores de nós. Dois anos desta vida sem ser preso era prova da minha habilidade, do cuidado com que aplicava todas as precauções revolucionárias, evitando ser seguido, muitas vezes dormindo fora de casa, que era o meu quarto de estudante, na Rua Poço dos Negros. Também me faltava a coragem de me medir com a polícia e as suas torturas, de me querer pôr à prova para saber se, como verdadeiro revolucionário, enfrentaria sem ceder as torturas em Caxias, sobretudo a que mais receava: a do sono.

Por isso, ao contrário de outros que pareciam tudo fazer para serem detidos e na prisão ganharem o estatuto de heróis — ou descobrirem que ainda não estavam devidamente preparados politicamente como filhos do Povo para resistir a duas semanas de tortura do sono — eu evitava ser preso, arriscava o necessário, mas não mais, dissimulava-me constantemente, encorajado pelo meu controleiro, um clandestino.

Mas no primeiro de Maio de 1973 tinha o pressentimento, estava firmemente convencido de que seria finalmente preso — ou morto. Tirei do quarto todo o material comprometedor, livros, panfletos, equipamento artesanal com que os reproduzia e pu-lo a salvo em casa de amiga. Logo de manhã, como cristão que se prepara para a morte, assisti à nossa missa comunista, no cemitério junto à campa de Ribeiro dos Santos, o primeiro mártir da nossa causa.

Saldanha Sanches fez belíssimo discurso, comovente até às lágrimas: também nós devíamos estar prontos a dar naquela tarde as nossas vidas pela revolução.

Como condenado que vê os seus dias chegarem ao termo e se desforra na última refeição, gastei dinheiro que deveria durar mais uma semana em almoço em restaurante melhorzinho, bebi até -- luxo a que de ordinário me não podia dar — uma cerveja, Carlsberg. 

E à hora da manif, segui para o Rossio, pronto para o que desse e viesse. Habituado a manifestações com escassas dezenas de estudantes, sempre os mesmos, exceptuando aqueles que iam sendo presos ou desertavam da causa, assombrou-me ver a praça apinhada de gente, povo!, esse povo em nome de quem há tanto falava, que procurava agitar, trazer à rua, amotinar contra o regime. Do alto de um edifício, por cima do Diário de Notícias, a Pide (quem mais poderia ser?) filmava-nos ostensivamente, ameaçadoramente, e os populares faziam-lhe manguitos destemidos. Senti ali começar a revolução almejada.

Subitamente, a polícia atacou com canhões de água, empurrando-nos dali para fora, rua do Ouro abaixo. Avistei o meu controleiro, ali, à luz do dia: Vamos voltar para o Rossio e tomar a praça! 

Por todo o lado, cacetadas, espancamentos da polícia de choque, o capitão Maltês a comandar. Todos os acessos estavam barrados. Entrei em autocarro apinhado, que havia de entrar no Rossio, fiz comício no interior para trabalhadores assustados comigo, com a polícia que, fora, em todos, em tudo, batia. Vejam, quem trabalha leva porrada! Viva o primeiro de Maio! O primeiro de Maio é vermelho!, mas o condutor recusou abrir as portas dentro da praça, certamente para a polícia não entrar.

Batemo-nos noite fora. Escapei. Pouco depois, denunciado, abandonei os estudos e a capital, fui viver para a Marinha Grande, a trabalhar em Leiria nas obras primeiro, como operário de plásticos depois. Participei na organização do primeiro de Maio vermelho de 1974, na Praça Stefens, lição para os “revisas”, que a tal há muito se não atreviam. 

Deu-se o 25 de Abril, quando cheguei naquela manhã, pronto para a luta, os soldados que nos deveriam reprimir tinham cravos vermelhos nos tapa-chamas das G3, o ambiente era de festa, como se a guerra colonial tivesse acabado, os amanhãs já cantassem...

E nunca mais comemorei nas ruas o primeiro de Maio.