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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Amigos, livros e almoço

HNão  viemos dos quatro cantos do mundo -- afinal, ele é, dizem, redondo e nós somos pessoas modestas. Mas da Mealhada veio o António Breda e a família, de Óbidos o João Madeira, eu e a minha mulher do Entroncamento, de Santarém jovem poeta e historiador, e todos nos encontrámos na casa do António Luiz Pacheco, onde ele e a Fernanda nos receberam com elegância aristocrática à altura da casa da quinta, antiga residência eclesiástica do séc. XVIII.
Excelentes entradas -- salada de polvo, ovas com tomate, camarão, queijos --, vinhos da região, deliciosa garoupa assada, melão, doces cortados com medronheira...
Despretensiosamente, sem máscaras, primeiro ao almoço, depois pela tarde fora, falámos das nossas leituras, discutimos os nossos livros, apontámos pontos fracos, trocámos experiências  concernentes à edição, à distribuição e à comercialização, cortámos amigavelmente na casaca de amigos ausentes com a mesma lisura com que o faríamos se estivessem presentes, contámos histórias e episódios das nossas vidas, partilhámos expectativas, projectos, sonhos.
Despedimo-nos já bem tarde, agradecendo aos anfitriões a excelente tarde e a pensar já no próximo encontro.

sábado, 22 de agosto de 2009

Boas aberturas de bons romances -- Aprender a rezar na era da técnica


"O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e a mais bonita da casa.
-- Agora vais fazê-la, aqui, à minha frente.
A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era o facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem ter sequer o cuidado de sair. O pai queria ver."

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na era da técnica

Boas aberturas de bons romances -- Jerusalém


"Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze. Ernst atendeu."

Boas aberturas de bons romances -- Um deus passeando pela brisa da tarde


"Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?"

Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde

Boas aberturas de bons romances -- Jesusalém


"A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desamado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: Jesusalém. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final."

Mia Couto, Jesusalém

Boas aberturas de bons romances -- As aventuras de Tom Sawyer


(O meu exemplar sumiu, o que não é grave, uma vez que a tradução era deplorável. Vale-me, mais uma vez, a Internet.)

"TOM!"
No answer.
"TOM!"
No answer.
"What's gone with that boy, I wonder? You TOM!"
No answer.
The old lady pulled her spectacles down and looked over them about the room; then she put them up and looked out under them. She seldom or never looked THROUGH them for so small a thing as a boy; they were her state pair, the pride of her heart, and were built for "style," not service -- she could have seen through a pair of stove-lids just as well.

Mark Twain, The adventures of Tom Sawyer

Boas aberturas de bons romances -- O Principezinho

(Clicar sobre a imagem para a ampliar)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Boas aberturas de bons romances -- O Velho e o Mar


(Na tradução de Jorge de Sena)
"Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes."

Boas aberturas de bons romances -- L'étranger


"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J'ai reçu un télégramme de l'asile: "Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués." Cela ne veut rien dire. C'est peut-être hier."

Boas aberturas de bons romances -- Cem anos de solidão


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."

Gabriel García Marquez, Cem anos de solidão

(Esta abertura influenciou-me de tal forma que nos Agradecimentos, p. 240 de Entre Cós e Alpedriz, escrevi:
"Aos meus mestres na arte da escrita, três dos quais são homenageados nesta obra -- García Márquez, Agustina, Fernão Lopes.")

Boas aberturas de bons romances -- Moby Dick


"Call me Ishmael. Some years ago - never mind how long precisely - having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen, and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. "

Herman Melville, Moby Dick

Como escolher os livros

Pode-se seguir as indicações dos críticos ou comprar os premiados. Mas -- fala a experiência pessoal – 9 em cada 10 vezes, pelo menos, é um barrete que se enfia, um mono que se adquire e se larga logo nas primeiras páginas. Porquê? As explicações ficam para melhor ocasião. Melhor critério é seguir as sugestões de outros leitores: se leram o dito cujo, é porque, no mínimo, é legível; mas, como os gostos variam, origina também elevada percentagem de descontentamento.
Restam dois métodos, um infalível e outro quase infalível. O primeiro, que segui durante muitos anos, consiste em comprar o livro apenas depois de o ter lido, por exemplo requisitando-o em bibliotecas ou tomando-o emprestado. Em seu desfavor, o facto de, após leitura, comprarmos muito pouco – mas bom. Foi assim que comprei, por exemplo, Paroles, de Prévert, ou Romancero Gitano, de Lorca. Porém, hoje em dia as bibliotecas estão frequentemente a cargo de funcionários camarários que nunca leram nada, exceptuando, talvez, a TV Guia ou A Bola, o acervo (como eles dizem, mostrando que dominam o jargão) está desactualizado, e deixei de as frequentar, embora tenha saudades do tempo em que nelas entrava com mais prazer e devoção que os fiéis nas igrejas.
Resta, então, o último método, que aplico e recomendo: ler as primeiras linhas do livro. Se me despertam a atenção, leio outros excertos, mais ou menos aleatoriamente. Reconheço que este método, se aplicado à risca, pode-nos privar da leitura de bons livros, como Os Maias, com abertura desinteressante. Enfim, não há procedimento perfeito.
Não faltam boas aberturas de livros. Por preguiça, limitar-me-ei a 10 (uma para cada dedo de cada uma das minhas mãos), sem as hierarquizar, e apresentá-las-ei aqui nos próximos tempos. Depois – ah, a vaidade! – farei o mesmo com os meus romances e contos, incluindo as aberturas de cada capítulo.