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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Morrer nos Montes

Colho a maçã Starking, este ano abundante, lustrosa, sempre atento à escuridão que se adensa. Vem aí temporal. Mas o vício do campo apouca os receios da molha, até o maior, o de ser apanhado por trovoada em cima do tractor.
Chega até mim o dobre a finados do sino da aldeia. Coitado, outro velho que se foi, penso, de cada vez que venho à aldeia morre alguém.
Os primeiros pingos de chuva, grossos, esparsos, fazem-me correr para o tractor, acelerar para casa. Mesmo a tempo. Tocada a vento forte, a chuva cai bruta sobre a povoação, e eu já resguardado, começo novas tarefas, desta feira a preparar adega e utensílios para a vindima.
Telefona-me um amigo distante a dar-me triste nova: ao que leu no jornal, morreu nos Montes um jovem, 23 anos, em acidente de tractor. Assim morreu o meu pai, assim morreu um vizinho, assim têm morrido tantos outros, por cá e nos arredores. Sempre me choca a morte no trabalho, mais ainda quando se trata de um jovem promissor, cheio de sonhos de agricultura biológica, produção de ervas aromáticas, a amanhar encostas soalheiras que outrora foram férteis e ficaram perdidas até que ele, e outros como ele, as começaram a desbravar, lavrando-as, plantando-as, tornado-as num regalo para os olhos.
Mas o bucolismo, a pacatez campestre são ilusão. A beleza de uma terra bem amanhada, de uma horta viçosa, de um pomar a "zombrar" com frutos reluzentes esconde, não raro, perigos corridos, sustos apanhados. E nós, mesmo sabendo-o bem, continuamos a arriscar, para desfazer um tufo de ervas sobrevivente que desfeia a lavoira, para destruir um silvado na estrema, como no acidente que vitimou o meu pai, ou reparar um velho caminho, como me constou que sucedeu neste acidente.
Não conhecia o infeliz moço. Sou quase estranho e estrangeiro na minha própria terra, de onde saí aos catorze anos. Mas lamento sinceramente que os seus sonhos agrícolas lhe tenham sido funestos. À sua família, a todos os que o amavam, as minhas sentidas condolências.

sábado, 24 de outubro de 2009

A idade do deslumbramento

Na foto, tirada por mim há quase quarenta anos com uma Kodak Instamatic, o meu irmão. Época em que ouvi na rádio e pela primeira vez a Ode à Noite, de Álvaro de Campos. A idade do deslumbramento. Com a beleza do Mundo e com a perfeição da poesia de Pessoa:

"Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.


Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida. (...)"

Álvaro de Campos

Posted by Picasa