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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Os enganos de Deus

Mesmo tendo em conta que os desígnios divinos são insondáveis, muita confusão me faz saber que se pode ter enganado nas Suas escolhas, como depreendo das declarações do papa resignatário. 
(Talvez ninguém devesse falar para a imprensa a partir de certa idade, mesmo que o julgue fazer por inspiração divina...)
Este episódio recorda-me muitos outros, envolvendo personalidades como Margareth Tatcher ou o famoso mestre de karaté G. Yamaguchi, Tesouro Nacional do Japão, que, aos oitenta anos, contou a um jornal que certo dia, para combater o tédio, tinha ido à montanha lutar com um tigre. Resultado: a Japan Karaté Association (Goju-Ryu), a que presidia, demitiu-o e tornou obrigatória a reforma dos seus dirigentes aos setenta anos.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Amanhecer blasfemo

Todos os sábados, ao anoitecer, chegava a casa a cair de bêbedo. Cabeça pendente sobre a mesa, enquanto aguardava as couves com feijões da ceia, ruminava as humilhações da semana, atacavam-no fúrias, esmurrava a mesa, ralhava, replicava aos apelos à contenção com berro herético: "Os colhōes do Padre Santo!". 
Nem outros palavrões, nem outras blasfémias. E esta reservada para as bebedeiras. Tão violenta que jamais a esqueci e então receava que na rua o ouvissem os beatos "tus", assim chamados porque, dizia-se, entre eles todos se tratavam por tu independentemente das hierarquias sociais, e fizessem queixa ao padre, à polícia, à pide. 
Cinquenta anos depois, matinalmente massacrado com as reportagens televisivas sobre as voltinhas do papamóvel na Praça de São Pedro, o anel, o palácio onde vai habitar e as suas divisões,  os pormenores passados presentes e futuros -- e eu queria a meteorologia, que isso é que é serviço público, vital para a agricultura -- também eu berrei pelos colhōes do Padre Santo, ou será ele descolhoado, ou de tal detalhe, fundamental para a governação, se terá esquecido a douta enviada especial, que tudo o mais sabe, que de tudo o mais fala, que sobre todas as outras coisas opina? 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O papa explicado às crianças

O Afonso, que já lê mas não compreende as legendas da televisão, quer saber quem é o papa. Explico o melhor que sei: é o chefe da igreja.
-- Porque é que falam dele?
-- Porque pediu para deixar de ser papa.
-- Porque é que já não quer ser papa?
-- Porque é muito velho e diz que já não pode trabalhar mais.
-- O que é que ele faz?
-- Não sei bem. Manda na igreja, vai a reuniões, recebe pessoas, escreve...
-- E agora ficamos sem papa?
-- Não, vem um mais novo para o lugar dele.
-- E porque é que só falam do papa?
-- Porque não têm mais de que falar. A televisão é assim. Num dia o mau tempo, no outro um acidente, hoje é o papa. Isto passa. E depressa.