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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Alma do Diabo, Carla Pais

Chegou ontem e li-o de um só fôlego. O diabo do conto tem alma e prendeu-me logo às primeiras linhas! Muito bem escrito, tem por base uma boa história de emigração e turistas, a sugerir-me vagamente a intriga do romance A Amante Holandesa, de Rentes de Carvalho, mas com uma linguagem, um discurso, e desenvolvimento completamente diferentes, que a Carla Pais tem voz própria, que se escuta com prazer e muito promete.      
Personagens interessantes e bem construídas, presença opressiva do sobrenatural em numerosas alusões do narrador, evitando com bom gosto os malabarismos do "realismo mágico", tensão e mistério, que a autora, revelando maestria na arte de contar, não dissipa, não desvenda, não explica, envolvendo assim o leitor na construção de possíveis significados.
Não surpreende, portanto, que A Alma do Diabo tenha vencido o concurso de contos promovido pelo município de São Vicente, local onde, aliás, decorre a maior parte da acção.
Parabéns, Carla, e força nessa escrita. Muito obrigado pela oferta, pelo prazer da leitura, e por te teres lembrado de mim!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O velho das couves


Era um velho que amanhava pequena horta espremida entre prédios de andares lá para o lado dos Olivais. Ali passava os dias cavando, plantando, sachando, mondando, regando. A catar lagartas, a caçar lesmas, a espantar pardais. Coisa de matar o tempo, ocupar a reforma, exercitar o corpo, espairecer a cabeça, adubar o caldo. Coisa de ter algo de que se orgulhar, ramalhudas couves de Valhascos, repolhos inchados como abóboras, abóboras tão grandes que poderiam ser do Entroncamento, cenouras farfalhudas, grossas como nabos, nabos brancos de neve, alfaces repolhudas de verde viçoso, tudo tão apetitoso que aos domingos não faltavam passeantes curiosos a deixar comentários elogiosos. 
Numa manhã estival, apenas o Sol nascido, chega pressuroso a regar a novidade pela fresquidão matinal antes que o calor aperte e a estrague, e encontra a horta devastada. Parte roubada, parte vandalizada. Como se ali se travara batalha nocturna. Cenouras arrancadas e caídas por terra como cadáveres, alfaces pisoteadas como se a tropa lhes passara por cima, melões esventrados como prisioneiros massacrados, o sumo vermelho de uma melancia derramado como sangue... E o velho sentou-se desanimado no banco onde ao entardecer costumava, qual deus bíblico, gozar o fresco da brisa da tarde enquanto admirava a sua criação -- e chorou. 
Dor e raiva. Mais do que o prejuízo do roubo, magoavam-no os estragos sem outra finalidade que o fazer mal por mal fazer.
-- Malandragem! 
E passava o olhar magoado pela terra juncada de hortaliças em meio crescimento.
-- Ainda se roubassem para comer! Ah, se eu os apanho..., resmungava, sabendo que o melhor seria nunca os apanhar -- deixá-lo-iam em pior estado do que a horta.

Voltou a semear, voltou a plantar. E quando a verdura já sorria a prometer encher-lhe em breve a panela, noutra noite arrasaram tudo.
Desconsolado, nem os amaldiçoou. Abalou pesaroso, macambúzio, a pensar no que fazer da sua vida, assim privada de sentido. 
Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram-no enforcado em balaústre das escadas do prédio. 

sábado, 24 de novembro de 2012

Uma casa portuguesa

(O fim-de-semana está chuvoso, a pedir borralho e leitura. Por isso, aqui vai conto, Uma casa portuguesa, 4 pp.)


Do lado de lá, na televisão, esganiçam-se apresentadores e convidados, a transbordar energia, esfuziantes de alegria; do lado de cá, no sofá, a família finge prestar-lhes atenção, constantemente interrompida pela gritaria das crianças que, por entre os adultos, por cima deles, brincam e brigam, correm, saltam, caem, choram. Inútil mandá-las sossegar, elas não pararão, indiferentes à preocupação dos graúdos, inconscientes das desgraças do mundo.
Entra homem jovem, encasacado e engravatado mau grado o calor, saltam-lhe para os braços as crianças, — Papá, papá!, e empurram-se para lhe contar novidades e brigas, fazerem queixinhas reciprocas, — Ele bateu-me! — Porque me estragaste o carro do Faísca! Aos adultos, basta o seu ar pesaroso para adivinharem o desfecho de mais esta entrevista de emprego: 
— Nada. 
Atira-se desalentado para o sofá, afasta um pouco os filhos: — É sempre a mesma coisa. No fim, escolhem o candidato mais novo. Meneia pesaroso a cabeça e acrescenta: — Não adianta, não vale a pena continuar a tentar, fracasso sempre...
O sogro nada diz. O seu silêncio grita por si: não dá para continuarem todos a viver da sua reforma, magra e recentemente amputada de um terço por penhora — créditos bancários não pagos, encargos banais anos atrás, que hoje o perseguem como a outros o homem do fraque.
Todos tinham uma pontinha de esperança naquela entrevista: o lugar era modesto, vendedor, o moço tem apresentação, tem conversa, frequentou a universidade, tinha já passado nos psicotécnicos, talvez, talvez... E como precisavam daquele emprego, quinhentos ou seiscentos euros não é muito, mas nos tempos que correm há que deitar mão ao pouco que ainda aparece, não pode haver esquisitices, doutorices...
— Vou emigrar, desabafa, talvez para que o dissuadam, a ele que vem destroçado desta derrota, a última de tantas outras, a ele que bem conhece a penúria em que vive a família, a ele que detesta viver às sopas do sogro, a ele que também sabe que isto, assim, não pode continuar.
Que emigre, pensa o sogro, que vá para o raio que o parta, desde que desampare a casa e o sofá, se não se der bem pelo estrangeiro, pelo menos é uma boca a menos a sustentar, e que boca, o desemprego não lhe tira o apetite, é uma presença incómoda a menos, um a menos a disputar o comando da televisão, agora reduzida a quatro canais desde que a tv por cabo foi cortada por falta de pagamento — outro processo por dívidas que corre contra si, que bom que seria se, perdido no mar de calotes que afoga os tribunais, prescrevesse antes do julgamento. E se lá no estrangeiro o genro se der bem, chamará para junto de si mulher e filhos, ufa, que alívio, não será o desafogo, mas, pelo menos, o sossego. Sim, gosta de ter consigo a filha e os netos — na Consoada, num ou noutro almoço dominical, é pessoa de antigamente, do "casamento, apartamento", ah, bom tempo esse em que os filhos não nos caíam em casa depois de casados: — Pai, tivemos de entregar a casa ao banco, não podemos ficar na rua, tens um quarto livre, uma salinha de costura onde as crianças podem dormir...
— Mas, objecta a filha, lá fora as coisas não estão famosas.  Ainda há pouco vimos na televisão — não foi, pai? e olha-o na esperança de lhe ouvir palavras que dissuadam o marido de partir — portugueses na Suíça e na Inglaterra que dormem nos automóveis e passam fome, enganados pelos patrões...
— Que faço então? – e olha também ele para o sogro, à espera de resposta, algo como deixa-te ficar, estamos apertados mas ainda cá cabes, onde comem seis comem sete, basta acrescentar água à sopa, isto como se os jovens de hoje se contentassem com a lavadura das gamelas de antigamente, adubada com sardinha repartida irmamente, rabo para o pai, cabeça para a mãe, lombinhos para a filha...
Mais uma vez, o sogro nada diz. Cogita, talvez, que para ele e para a velhota, a reforma, mesmo cortada, chegava, aconchegada com a mísera pensão de sobrevivência da sogra, meses atrás retirada do lar, na impossibilidade de o continuarem a pagar. Semi-falido, como pode arcar com as despesas de três famílias? E ataca-o novamente a vontade louca de sair para comprar A Bola e não mais aparecer, recomeçar talvez num outro qualquer lugar, sozinho, sem encargos nem responsabilidades, nem créditos nem dívidas vencidas, nem Finanças a persegui-lo encarniçadamente… ah, se o país fosse à bancarrota! Toda a gente falida, todos pobres, sem credores à perna! Mas logo lhe ocorre que a sua reforma, esses setecentos e quarenta euros, reduzidos pelo tribunal a quatrocentos e noventa e três, desapareciam também, em lado nenhum há empregos, e então na sua idade... 
Como refúgio de emergência resta-lhe na aldeia o casebre arruinado onde nasceu e que só não vendeu por falta de comprador, tal como três míseras leiras de má terra que não o sustentariam, mesmo com vontade, esforço e saber, coisas que não tem, nem nunca teve. E, no entanto, na sua meninice, as pessoas sobreviviam lá, numa parcimónia inconcebível hoje em dia, sem água canalizada, nem electricidade, nem gás, nem casas de banho, nem televisão, nem telefone, nem carro, nem computador, nem internet... Sem contas para pagar, comendo o que a terra dava antes de serem por ela comidos, poupando cada tostão, fugindo de dívidas como o Diabo da cruz — assim se sobrevivia. E havia momentos de felicidade, serões em que se escolhia o feijão ou se descamisava, as vindimas, a matança do porco, a feira na vila, baptizados, casamentos, funerais, até!  Havia gente feliz! Ele, por exemplo. Por riqueza um pião, alguns berlindes, muitas caricas. Descalço mal saía da escola, indiferente a topadas, chuva, gelo que fosse. Ah, era rijo. E, sim, feliz: não é preciso muito para ser feliz – basta ser criança. Mas ser criança é precisamente aquilo que os anos não permitem que voltemos a ser, excepto como caricatura, o juízo perdido por senilidade. 
— Vou sair um pouco, para espairecer, diz.
— Onde vais? Pergunta a mulher, como se lhe tivesse lido os pensamentos, quarenta anos de coabitação dão para isso.
E ele, ao que um homem chega, justifica-se, sinal de que a consciência o incomoda. De outra forma, como compreender que aos sessenta anos, feitos no mês passado, reformado, arrimo de três famílias, precise de desculpas para ir ao café, sair do harém – três mulheres e uma menina – olvidar as desgraças familiares por entre uma suecada, um café ou uma mini, acesa discussão com os antigos colegas da repartição sobre a governação, o futebol, o mau funcionamento da justiça, o desemprego: vinte anos atrás, facilmente empregaria a filha na repartição, o genro até, mas esse longe de si, talvez na Câmara, onde uma sua cunhada era então a chefe de secretaria. Coitada, triste fim o seu, cancro atroz e fulminante... Que choruda reforma não teria hoje, e solteirona, que boa ajuda seria... Agora, os tempos mudados, os lugares no funcionalismo preenchidos, nenhuma hipótese de empregar a filha ou o asno do genro, incapaz de ser arrimo da família, homem da casa dele. À saída, deita-lhe olhadela de desprezo, vê com desagrado que ocupou o seu lugar ao canto do sofá e, como se fosse o chefe de família, se apropriou do comando da televisão enquanto resmunga — Agora não! ao filho, que lhe pede a leitura de uma história, e incomodado com o olhar de censura da sogra, em jeito de desculpa, acrescentará: — Foi um dia terrível, estou na fossa, já não acredito que um dia venha a ter trabalho.
Não acredita ele, não acredita o sogro, não acredito eu: basta ouvir as notícias, um terço dos jovens está desempregado. E este, em vez de se fazer à vida, desalenta no sofá, como se esperasse que os empregos o viessem procurar a casa... Surpreendido, o sogro ainda o ouve exclamar, meio justificação, meio protesto: — Roubaram-nos o futuro!
As mulheres olham-no intrigadas, não é todos os dias que profere frase tão apropriada, onde a terá ouvido?
Soergue-se, sentindo-se ouvido, escutado: — A culpa é da geração anterior, com emprego para toda a vida, acomodada em direitos adquiridos. Enquanto os velhos não morrerem, não há esperança para nós, os jovens.
O sogro ainda faz menção de voltar atrás para lhe lembrar que são os seus direitos adquiridos que lhe dão tecto e mesa, a ele e à família, mas cala a objecção, inútil começar briga, problemas de mais tem eles todos, e segue para o café, a mini e a sueca, a cogitar como seria bom desaparecer, deixar casa, família, calotes e genro e viver de couves e batatas no casebre abandonado na sua aldeia natal...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A meados de Agosto

Longo. Fragmento de Um amor inventado (inédito), que surge aqui a propósito da chuva desta noite.

"Foi a meados de Agosto, altura em que o tempo muda e o calor do Verão é, por dois ou três dias, substituído pela fresquidão outonal. Começara a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, colava-se às pessoas, às árvores e às casas, tombando depois já reunida em grossas gotas, enlameando o pó dos caminhos, encharcando a terra, onde depressa desaparecia, sorvida pela sequidão dos campos. Uma nuvem de vapor desprendia-se amarelenta das lâmpadas de iluminação pública, inaugurada meses atrás, e unia céu e terra numa melancolia invernosa que fazia ansiar precocemente por castanhas e lareira. Dentro de dias o Estio voltará, mas, por enquanto, a tristeza deste interregno invernoso contagia a aldeia, encerra as famílias em casa, já ao borralho, a que só os rapazes resistem, trocando a monotonia doméstica pela conversa à porta da igreja, onde, mal abrigados da morrinha incessante, se apertam uns contra os outros, espremendo-se, empurrando-se mutuamente para a chuvinha miúda, soltando gargalhadas estrondosas, proferindo heresias, berrando besteiras e palavrões que, se não escandalizam Santa Marta, que os contempla enigmaticamente do alto do seu pedestal, incomodam a vizinhança, que jamais se habituará a estes pequenos desmandos da juventude de todos os tempos. Mais para a noite, dão uma corrida rápida até à tasca do Ameixa, a escassos cem metros, e por lá se deixam ficar até que feche, fazendo salão a troco de pouca despesa, para frustração do taberneiro que já devia ter percebido que jamais enriquecerá com clientes como estes. Pois não só não percebeu como instalou à sociedade, na semana passada, dois jogos de matraquilhos e ouve deliciado, como se fosse caixa registadora cantando de alegria, o som da introdução das moedas, o matraquear das bolas que saem de roldão para iniciar novo jogo. Desiluda-se: quando, no final do mês, na presença do proprietário, abrir as caixas dos jogos encontrará, em vez do esperado montão de moedas de dez tostões, anilhas e caricas espalmadas...
Começam a rumar para casa, primeiro os mais supersticiosos, receosos de que a meia-noite traga ordem de soltura para o sobrenatural, depois abalam os outros, ao verem-se sem companhia e porque amanhã é dia de trabalho; por fim, saem os bêbedos, quase postos na rua pelo taberneiro, que entende serem horas de ele próprio ir descansar.
Depressa a chuvinha os empapa e eles estugam o passo, uns por medo, outros para fugir à molha, e entrarão nas casas ou nos palheiros onde dormem, fechando aliviados atrás de si a porta que os isola do outro mundo e deste, agora pouco agradável. Deitar-se-ão e adormecerão imediatamente, exaustos de um longo dia de trabalho, não ouvindo já o cantar dos galos que, sem que se saiba como, marcam agora o início, mais tarde o fim, do período em que as coisas do Além podem atentar os vivos. Pouco depois, a aldeia dorme sossegada, perturbada talvez por ronco mais forte aqui, por gemidos amorosos ali, por briga feia além, entre casal desentendido, talvez porque o homem chega sempre bêbedo a casa...
É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar, tem de destruir tudo por onde passa; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já, balde na mão, enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau-olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.
Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do dono e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por carraças e solidão."

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Tu também sabes

Com ligeiro atraso, aqui vai a prometida história, ouvida ao meu amigo X, e depurada do calão setentrião. Precisa de uns retoques, dar-lhos-ei mais tarde. E há problemas de formatação, culpa do IPad (que fino!) em que estou a escrever. Ainda não percebi bem como funciona.
Zacarias vai à discoteca. Com olho de predador, inspecciona possíveis presas, procura eventuais interesses comuns, espreita fragilidades, fareja carências. Exclui as acompanhadas -- veio para o engate, não para a pancadaria. Tampa após tampa das mais giras, vão-se reduzindo as escolhas. Pela madrugada, só resta uma: trinta e muitos, para o gorducho, para o feio, algum mau gosto no arranjar-se, tristonha – ah, Zacarias está por tudo, atormentado por atrozes dores testiculares, longo é o jejum, esta não lhe pode escapar, é a última oportunidade da noite. Chega-se, educado, melífluo, copo após copo vai-se encostando, escuta-lhe meigamente os desabafos, nada de pressas, mau-grado os protestos da parte baixa, impaciente com tamanhas delongas. E ela fala pelos cotovelos, derrama lágrimas e conta desgraças sentimentais: "Não sei porque é que te conto estas coisas", "Ora, em mim, podes confiar, faz-te bem desabafar", tudo ouve e nada pede em troca, ansioso embora de que ela se deixe de conversas da treta: "Os homens são todos iguais, querem todos o mesmo e apenas isso." Pudica virgem em local destes? Que espera encontrar aqui, afinal? Um príncipe encantado? Não se dará conta de que não é nenhuma princesa donzela a ver feio sapo em cada pretendente? Dissimula o desagrado, não a contradiz, antes lhe enche o copo e insiste para que beba, finge interesse pelos seus dramas sentimentais: "Não sou, não aceito ser, objecto sexual, passatempo, brinquedo de tempos livres"; está na altura de o namorado se decidir, de lhe propor compromisso firme: "Isto assim não é nem deixa de ser, os anos vão passando, para ele, que é homem, tudo bem, mas para mim assim não serve, ele..." Ele pretextou, conta, turno no hospital, hospital onde, basta ver as séries de televisão, mais namoriscam do que trabalham, e há a colega dos olhos verdes, nova e gira, a Inês, por quem o safado já reconheceu sentir-se atraído... Por isso aqui está sozinha, justifica-se, a cumprir a ameaça que lhe fez: "Então saio eu, estou farta de passar fins-de-semana encafuada em casa à tua espera!" Zacarias ouve mais do que fala, encosta-se, aperta-a contra si, outra vez lhe enche o copo, ajuda-a a levá-lo aos lábios e quase a força a beber, embora ele se resguarde -- álcool, mau álcool de discoteca, pode ser fatal no momento da verdade. Desponta a madrugada quando saem, ela arrepia-se com o frio matinal, ele abraça-a protector, apoia-a no seu caminhar cambaleante, a moça deixa-se levar, vagamente dá-se conta de que entraram para o furgão de uma carrinha fechada, e ele, não aguentando mais, deita-a sobre colchão de espuma, para cima dela se atira, é agora, é agora, as mãos precipitadas levantam-lhe a camisola de gola alta, desviam o sutiã e apertam-lhe os peitos, depois descem em busca de intimidades mais íntimas, e ela, já mais lúcida, afasta-lhas, esquiva ao toque as partes pudendas, evita-lhe a boca, e fala, fala, já não as lamúrias infelizes de há pouco, antes remorsos, afinal é do namorado que gosta, e o Zacarias quer lá saber de quem gosta ou deixa de gostar, precisa é que abra as pernas e sem mais demora, ela soergue-se como querendo ir embora… Ah, assim não, não quer perder outra noite, tanto trabalho lhe deu, tanta paciência para lhe escutar as baboseiras, está por tudo, em desespero mete-lhe a coisa na mão, implora: “Vá lá, ao menos, uma punheta”. Ela começa, sem vontade, sem jeito, mas depressa larga a causa de toda aquela maçada: “Faz tu, que também sabes.”

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Do real e do verdadeiro

Perguntam-me amiúde quem são as personagens das minhas histórias, o que me lisonjeia: trabalho muito para que sejam, ambas, verdadeiras. Muito mesmo. De tal forma que, tenho-o verificado, são normalmente os excertos verídicos que os meus leitores consideram inverosímeis...
Por vezes, sempre devidamente assinaladas, reconto histórias alheias. Por exemplo, hoje à noite publicarei aqui o micro-conto "Tu também sabes", baseado em história ouvida num jantar a um amigo. É dele a história, meu o discurso, i.e., a forma de a contar. E sim, trabalhei muito para conseguir que a minha versão escrita esteja à altura do seu talento de contador de histórias. O que não é nada fácil.

domingo, 24 de junho de 2012

Do princípio da incerteza

Idade: quarenta e cinco anos. Estado civil: divorciado. Profissão: desempregado. Acrescenta, em jeito de justificação: era até há pouco quadro bem pago de próspera empresa. Inadequação ao posto de trabalho, alegaram os Recursos Humanos. Indemnização: uma miséria. Um ano atrás teria recebido o triplo. Mas um ano atrás nem lhe passava pela cabeça que pudesse ser despedido. Começa as frases por quando e se. O seu futuro é conjuntivo. Uma vida em poucas palavras. De circunstância, na sua maior parte. Resignado, repete o lema de toda uma geração: novo demais para a reforma, velho demais para conseguir trabalho. --- E agora? Encolhe os ombros: -- Para já, tenho o subsídio de desemprego. Depois, logo se vê. Alvitro: emigração, Angola… Meneia negativamente a cabeça: falta-lhe a estaleca; o corpo fraqueja: tensão arterial para o alto, hérnia discal… Não, fica por cá. Casa própria, carro, os seus discos, os seus filmes, os seus livros, pequena poupança no banco. Não tem dívidas. Com pouco se contenta… E talvez, se, quando... Incomoda-me tamanha resignação – mas que faria eu no seu lugar? E que lugar é o meu, não estou também eu conformado, não estamos nós resignados, presos ao passado, desinteressados do futuro? Para onde foi esse tempo da mocidade, em que encarávamos o porvir com esperança, o víamos risonho, e, no entanto, pouco mais tínhamos então do que os nossos sonhos? Não serão os nossos desabafos, as nossas frustrações, iguais às dos velhos de todos os tempos, perdidas as ilusões da juventude? Acrescenta: felizmente não tem família. Penso, mas não o digo – afinal, é fraca a confiança entre nós: família, um mal, ou um bem? Prisão ou âncora? Sacudo também eu a cabeça: há muito deixei de julgar os outros. Escuto. É a minha função: ouvir e escrever. Mesmo que ninguém leia – e porque é que tudo o que fazemos precisa de ter utilidade, aproveitamento? Não valerá a pena fazer só por fazer? Como o velhote que, receoso de perder a memória, regista minuciosamente em caderno escolar tudo o que faz durante o dia, e depois se esquece de ler as suas anotações? Talvez a escrita seja afinal uma forma de fixar a volatilidade das coisas, de organizar o Mundo, de dar à vida um sentido, ao seleccionar uma probabilidade entre as muitas possíveis -- mecânica quântica da palavra, também ela governada pelo princípio da incerteza...

domingo, 15 de abril de 2012

A história da semana

É o conto "Jogo de azar", AQUI. "Ao meu pai, mouro de trabalho, padeiro e muitas coisas mais. Com saudade" -- escrevi na dedicatória. 2 pp, rigorosamente verdadeiras, o que não melhora nem piora a história. Catarse, digo eu.

sábado, 14 de abril de 2012

A história da semana

Leitoras que muito prezo  queixam-se da dificuldade em acompanhar a 'publicação' semanal dos textos; e a mim tem-me faltado tempo para rever, retocar os que ainda guardam oportunidade de saírem, não da gaveta, mas da pasta do computador. Assim, após a desta semana, passarei a disponibilizar menos histórias por mês.

domingo, 1 de abril de 2012

A história desta semana

As bruxas já roubam clientes aos psicólogos. O fenómeno parece estender-se à classe média, instruída mas desencantada, amargurada, a necessitar de acreditar em algo, em ter a esperança, ténue que seja, de que a sua vida profissional, ou pessoal, ou familiar, vai melhorar em breve. Ora, como tempos atrás escrevi uma historieta em que uma mulher desesperada recorria à bruxa para que a livrasse do marido, lembrei-me de aproveitar o ressurgir da moda das bruxas e publicá-la AQUI. 6 pp.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ferido d'asa

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha

Logo aos primeiros tiros, Pedro Perdigão tombou redondo por terra. Baque tremendo, dor terrível, sufoco, poeira e sangue – outro resignar-se-ia ao fim inelutável, não ele, Pedro Perdigão.
--- Busca, Fagote! Busca a perdiz! Por ali, ela foi por ali!
Ah, destino ingrato, cair de tiro, morrer abocado por rafeiro, sexo transmudado como se fora paneleiro!
Latidos excitados, Pedro corre ligeiro evitando as dentadas, ziguezagueia, ora o acossam da esquerda, ora o acometem da direita, para onde virar, por onde fugir, a cachorrada vem de todo o lado, -- Busca, busca o ferido!
(Assim está melhor, morrer por morrer que seja como macho, senhor do harém d’Aqui e d’Além.)
Tenta a canzoada atalhar-lhe o caminho, impedi-lo de alcançar o silvado vizinho, Pedro faz das tripas coração, esvoaça um pouco, o suficiente para lhes passar por cima, eis túnel apertado dos coelhos, por lá entra como se animal da terra fosse, os cães seguem-no, na sua excitação nem sentem a dor de cada arranhão, de fora, esbaforido o caçador, incentiva, ameaça, manda – mas não há cão na matilha, por pequeno que seja, que caiba em passagem tão estreita. Pedro avança, espuma de cansaço, de dor, as feridas do tiro rasgadas pelos espinhos acerados das silvas salvadoras, e, a salvo dos perseguidores, desmaia, exausto e exangue.