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segunda-feira, 30 de junho de 2008


O Afonso e os pais
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Paredes da Vitória, o Afonso e a mãe
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Paredes da Vitória
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Na praia das Paredes
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O Afonso e a (bis)avó Isabel
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O Afonso e os pais
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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Diálogo monótono


-- Quem é que mordeu ao Afonso?
-- O M.
-- E depois, o que é que o Afonso fez ao M.?
-- Tau tau!
-- Ah, e o M. chorou...
-- Não, foi o Afonso!

sábado, 14 de junho de 2008

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Apresentação de Entre Cós e Alpedriz no local da história

Dia 6 de Julho, domingo, às 15 horas, realiza-se a apresentação de Entre Cós e Alpedriz no próprio local da história -- Montes. O evento é organizado pela Junta de Freguesia dos Montes e conta com a presença do sr. Presidente da Câmara de Alcobaça, Dr. Gonçalves Sapinho.
Aos Montenses Fernando Malhó, assessor do Presidente da Câmara, e Óscar Fortes dos Santos, Presidente da Junta de Freguesia, os meus agradecimentos pelo empenho posto na realização da apresentação.

Entre Cós e Alpedriz no youtube

Reinaldo Amarante, inspirado no meu romance Entre Cós e Alpedriz, colocou no Youtube um vídeo de sua autoria.

Muito obrigado!

domingo, 8 de junho de 2008

Os combustíveis estão caros

Em protesto contra o preço dos combustíveis, camionistas desfilaram em marcha lenta. Se se manifestassem a pé, como eu próprio o fiz recentemente, poupavam no gasóleo, não ajudavam o governo com os seus impostos, não prejudicavam o ambiente, melhoravam a condição física, que passar horas sentado num camião deve ser péssimo para a saúde... Mas não: é de rabo sentado e a carregar na buzina que melhor se fazem ouvir.
Logo que o jogo Portugal-Turquia terminou, as ruas encheram-se de carros buzinando felizes. É assim o desporto nacional: sentado e ruidoso.

domingo, 25 de maio de 2008

O irmão do Afonso


Eis o meu neto mais novo, uns meses antes de nascer - prodígios da técnica. Muito parecido com o irmão, não?

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Inglês e a Música

A ministra da educação fala no Jornal das 10 (TV2) sobre grandes realizações do seu ministério - Inglês, Música, Educação Física no 1º Ciclo; quando prometerá uma avaliação imparcial e credível, para que se saiba o que vale tudo isso? Até que seja feita, é legítimo pensar que o mérito apregoado se resume a propaganda... E, já agora, que se contabilizem também os benefícios da aprendizagem de uma língua estrangeira com um tempo semanal no 8º ano...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Fim-de-semana agrícola


Prestes a começar.

Fim-de-semana agrícola


Amanhando a vinha.

Fim-de-semana agrícola


Semeando feijão. Em primeiro plano, o batatal.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Cervantes


O restaurante com vista para a Plaza Mayor de Salamanca, onde esperamos pelo almoço. Nenhum passeio fica completo sem ele.

Salamanca

A imponência da catedral torna inúteis as palavras.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Da palração

Amigos censuram-me por postar pouco. É verdade. Evito contribuir para a parlanda nacional, tão bem captada por Mário de Carvalho:

"Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu do Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse."

Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina

terça-feira, 8 de abril de 2008

Apresentação de Entre Cós e Alpedriz

No passado dia 3-4-08 realizou-se a apresentação de Entre Cós e Alpedriz, promovida pela Câmara Municipal do Entroncamento.
Foi muito gratificante ver o Salão Nobre praticamente cheio com tantos amigos e amigas, ouvir as palavras simpáticas do Vereador da Cultura, João Fanha Vieira, do Arnaldo Marques e do João Alfaro, e francamente comovente ouvir a leitura de excertos pela Deolinda Viegas e pela Teresa Fernandes.
Ao Presidente, que fez questão de também estar presente, a todos os amigos e amigas, o meu obrigado profundamente emocionado. Em cima, fragmentos do vídeo - desculpem-me por neles não dizer nada de jeito, mas que poderia eu acrescentar às leituras da Teresa e da Deolinda, à amizade com que o romance foi acolhido, às palavras simpáticas dos oradores?

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Ronin



O Augusto (2º a contar da esquerda e meu 1º professor de karaté) desafiou-me: ir treinar no passado fim-de-semana a Paredes de Coura com o sensei Vilaça Pinto (1º à esquerda). Treino à antiga, dormindo no dojo, boa comida, boa companhia (da direita para o centro, o Xavier e o Mendes), muita transpiração e muito refinamento técnico.

Perguntar-se-á: que faz um praticante de Goju Ryu num treino de graduados Shotokan? A resposta é simples: esforça-se, aprende humildemente com eles e com o mestre, diverte-se... Este é o karaté que me agrada, sem pensar em graduações, longe das competições e das quezílias.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Reimpressão de Entre Cós e Alpedriz

Com a primeira edição quase esgotada, avancei já para uma reimpressão de Entre Cós e Alpedriz. É certo que as tiragens são modestas (200 exemplares em cada uma delas) e só economicamente viáveis devido ao Print On Demand, mas fico muito feliz por o meu romance estar a ser muito bem recebido pelo público; já dos numerosos críticos a quem o enviei, depois de um pedido nesse sentido, nem um simples mail a confirmar a recepção, quanto mais uma apreciação! Idêntico é o desprezo dos jornais que mantêm secções culturais: nem sequer um não como resposta!
Entretanto, trabalho para assegurar a distribuição à escala nacional, a tradução de excertos para Inglês, Francês, Espanhol visando, antes de mais, as comunidades portuguesas que o lerão talvez mais confortavelmente nas línguas dos países em que trabalham, a sua eventual venda em feiras do livro...
(Ajax, a quem o pai recomendou antes de partir para a guerra que se encomendasse a Atena, retorquiu que com a ajuda da deusa até o mais fraco dos homens consegue vencer; porém, ele haveria de vencer sem essa ajuda e, se necessário, contra a própria deusa. Grande Ajax, apesar do seu fim triste! )

Apresentação de Entre Cós e Alpedriz



quinta-feira, 13 de março de 2008

No escorrega

Fonso relha press

Traduzido directamente do Afonsês: "(O) Afonso (anda no ) escorrega (muito) depressa."

domingo, 9 de março de 2008

Falinhas mansas

Quem ouve falar a minha ministra deve comover-se: tanta incompreensão contra a senhora, que só quer o bem dos professores e do país... Porque será que pela minha cabeça dura só passam pensamentos índios... Como gostava de ser diferente e deixar-me, também eu, comover com aquela fragilidade, aquele ar amargurado, que nem Cristo teve ao ser crucificado?
E os jornalistas, porque será que nenhum lhe pergunta se o modelo laboriosamente montado não terá por única função impedir a progressão na carreira para que a despesa salarial da função pública não continue a crescer? Porque é que ninguém se informa sobre a eventual inexistência de acções de formação, gratuitas ou pagas, inviabilizando a progressão na carreira, seja qual for a classificação dos professores?
Não se pense que se trata de comentários invejosos, como o da raposa que dizia das uvas estarem verdes, não: há muito que cheguei ao topo da carreira e no processo de avaliação cabe-me, neste momento e por escolha dos meus colegas, a função de avaliador. De futuro, ao que tudo indica, será o director a escolher alguém da sua confiança para avaliador.

Marcha da Indignação

A Marcha da Indignação ultrapassou, de longe, as minhas expectativas, apesar de ainda ser cedo para produzir consequências sérias. Por enquanto, ficamos com as falinhas mansas da ministra, num estilo de Madalena sofredora, como se sempre tivesse estado disponível para negociar – é só em 2009, as escolas é que decidem… Porém, nós que lemos os documentos que produziu, não esquecemos que esta aparente flexibilidade só surgiu como consequência dos protestos e é enganadora: até agora, nada de substancial mudou.

Note-se que o protesto não pode ser reduzido à contestação da avaliação de desempenho; esta avaliação e a forma desajeitada como foi lançada, violando a própria legislação emanada do Ministério da Educação, foi a gota de água. Para que quem está de fora possa ter uma ideia do que se passa nas escolas (e que nos impede de trabalhar naquela que é a nossa missão), só nas duas últimas semanas tive 9 reuniões, a última das quais, na passada sexta-feira, terminou às 20H00; ora o secretário de estado Valter Lemos, nas simulações que apresentou para a construção do nosso horário semanal (componente lectiva + componente não lectiva + componente de trabalho individual) considerou apenas 2 horas semanais para reuniões! Qualquer pessoa que não alinhe na fúria persecutória com que alguns se atiram aos professores percebe que se estou a fazer uma coisa não posso estar a fazer outra; se passo o tempo em reuniões não estou a preparar aulas, se estou a preparar aulas não estou a fazer testes, se estou a fazer testes não os estou a corrigir, se os estou a corrigir não estou a tirar faltas, se estou a tirar faltas não estou a receber encarregados de educação… O problema é que o brio profissional e o espírito de missão dos professores nos impedem de dizer o óbvio - assim não dá! – e estoiramos a tentar fazer tudo.

Por isso, porque não aguentamos mais, saímos à rua. E seria bom que alguns comentadores, daqueles que tudo sabem e tudo comentam, se informassem devidamente antes de escreverem disparates que só os podem envergonhar; a lista seria longa e fastidiosa, mas, para abreviar, vou deixar de comprar o Expresso, sugiro a Pacheco Pereira, o psicólogo das multidões que sabe sem estar na manifestação que “Os novatos vão falar muito, gritar mais alto, sentir a "psicologia das multidões", uma novidade para eles “ (os “novatos” são professores de meia idade e sabem comportar-se), sugiro, dizia, que especule sobre política, matéria que conhece, mas não se ponha a tocar rabecão sem antes aprender a sapateiro; sim, não temos plano A nem B porque não estamos a derrubar governos nem a jogar xadrez nem a travar uma guerra – estamos a exigir justiça e bom senso. Por último, a aristocratas que detestam multidões, que se deixem ficar na torre de marfim pensando pela sua cabeça enquanto cem mil de nós a endossam aos sindicatos - o autor fala em 50 mil manifestantes porque os outros 50 mil serão acompanhantes; contas estranhas, tendo em conta a taxa de divórcio, mas enfim, quem sou eu para o desmentir, se eu, professor, me manifestei acompanhado da minha mulher, professora? Ah, e vi uma jovem com um bebé de colo; certamente o levou para parecermos muitos!

Diferente foi a atitude de Francisco José Viegas, que procurou compreender o descontentamento a partir do conhecimento concreto de uma escola que visitou recentemente; o seu exemplo deveria ser seguido: em vez de palpites, porque não vêm visitar as nossas escolas, porque não falam com os nossos alunos e com os seus pais? E depois pensem se conseguiriam sobreviver um mês que fosse como professores!

Quanto à Marcha da Indignação, embora sem plano A nem B, e tendo endossado a minha cabeça não sei a que sindicato, valeu a pena. (Já me esquecia: não sindicalizado, sem partido e sem clube de futebol).

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sábado lá estarei!

De ordinário, falta-me tempo e paciência para ver entrevistas com políticos; pensem lá eles o que pensarem de si próprios, basta-me sofrer com o que fazem, quanto mais ter de os ouvir. Mas não resisti à entrevista de há pouco, no Canal 1, com a minha ministra. Se bem percebi, tudo o que faz é para meu bem; eu é que não compreendo (serei burro? serei ignorante? não saberei ler?) e, tal como eu, os milhares de professores que andam descontentes apenas porque se lhes pede mais trabalho, que resulta, aliás, do nosso próprio esforço para manter mais trinta e tal mil alunos no Ensino Básico...
Fiz a quarta classe no antigamente, quando para tal era necessário saber ler e escrever; licenciei-me noutros tempos pela Faculdade de Letras de Lisboa e duas décadas depois voltei lá e fiz um mestrado em Linguística, bem antes de Bolonha, que me levou sete anos (Sete anos Jacob Labão servia...). Inscrevi doutoramento em Linguística Computacional na mesma faculdade (que, nas circunstâncias actuais, dificilmente concluirei) sobre a computação da causatividade - devo saber ler, não? Sou coordenador de departamento, sim, um desses famigerados sobre quem recai a responsabilidade da avaliação, li tudo o pouco que o Ministério da Educação publicou, tarde e a más horas, e ainda ouço dizer que estou mal informado? Então, só posso dizer como o jogral Diego Pezelho:
"Meu senhor arcebispo, and'eu escomungado,
porque fiz lealdade; enganou-me o pecado.
Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor."
Basta apenas substituir "arcebispo" por "ministra"; na época, "senhor" era palavra uniforme.
Mas, ignorante, desinformado, enganado pelo pecado, sábado lá estarei!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Marcha da Indignação

Desde o Verão Quente que me não manifesto. Estive quase tentado a voltar a fazê-lo aquando da invasão do Iraque pelo actual Bush. Mas, quando soube que algumas personalidades também participariam, desisti: não marcho ao lado de certas pessoas, nem as causas serão jamais as mesmas.
Sábado estarei novamente de volta à rua: o mérito cabe à actual equipa do Ministério da Educação. Não é o mal-estar difuso, não são as aulas de substituição, não é o concurso de titular... É a certeza de que o eduquês venceu definitivamente, de que o professor do futuro será um arquiva-papéis que, cuidadosamente, melhora estatísticas de insucesso e reduz taxas de abandono, tudo bem avaliado cientificamente porque, há muito, a educação deixou de ser uma arte para se tornar numa "ciência"...
Entretanto, porque há e sempre haverá espíritos optimistas que conseguem descortinar aspectos positivos em tudo o que os governantes fazem e decidem, quaisquer que eles sejam, outros que aguardam pelo esvaziar do balão, como se lia no Expresso da semana passada, aqui deixo alguns temas para meditarem: Avaliação de Desempenho, Estatuto do Aluno, Alunos com Necessidades Educativas Especiais, Gestão...
Durante mais de três décadas fiz minhas as palavras que Sebastião da Gama registou no seu Diário, uma das duas obras sobre educação que li até ao momento: "Temos uma profissão maravilhosa e ainda nos pagam o ordenado por cima!" Hoje, e após um dia em que, para além de Direcção de Turma, Atendimento de Pais e Avós, aula de 12º ano, só tive duas reuniões (Conselho Pedagógico e Directores de Turma), estou mais como Álvaro de Campos: "O que há em mim é sobretudo cansaço - / Não disto nem daquilo, (...) Um supremíssimo cansaço / Íssimo, íssimo, íssimo, / Cansaço..."
Ah, mas sábado lá estarei! O eduquês vencerá, a burocracia vencerá, as estatísticas vencerão, o país perderá, a conta será paga pelas gerações presentes e futuras, como sempre os mais desfavorecidos ficarão bem pior - mas desta vez eu manifesto-me. Enquanto posso.

terça-feira, 4 de março de 2008

sábado, 5 de janeiro de 2008

Tadinhos dos fumadores!


Agonia-me o coro de protestos a propósito da lei que proíbe fumar em recintos fechados, vendo nela uma ameaça à democracia e um cercear das liberdades individuais, vindo de quem nunca respeitou o direito dos outros a não respirar fumo e raramente se preocupou em saber se o seu acto incomodava alguém, só porque ousaram pôr em causa o seu direito de acender um cigarro onde bem entenderem.


Enxerguem-se: haverá fumadores educados, daqueles que não fumavam junto a crianças, que evitavam fazê-lo quando na presença de não fumadores, haverá aqueles que nunca sentiram prazer em enviar baforadas de fumo para o rosto de quem detesta o tabaco ou o não pode inalar por razões de saúde, quando não para cima da refeição dos outros… Haverá. Mas o que eu encontrei sempre foi o desprezo completo pela aversão dos outros ao tabaco. Protestei contra ele durante décadas, obrigado a fumá-lo em todo o tipo de reuniões, até em vigilâncias de exame, apesar de proibido, porque um fumador não pode ver-se privado do seu vício durante duas horas. Indignei-me e indigno-me com papás e mamãs a fumarem deliciados em cafés, com crianças e até com bebés de colo, indiferentes ao exemplo e ao mal que inquestionavelmente lhes faz – é para ganharem resistência, atiram-me à cara, felizes com a sua própria inteligência.


Há um ano a minha escola interditou o tabaco, criando uma sala de chuto. Surpreendentemente, tendo em conta a indisciplina da classe e o desrespeito pelas normas que não raro é apanágio dos professores, ninguém fuma na escola! Nem os funcionários que passeavam pelos pavilhões cigarro aceso, nem mesmo os alunos! Parece que os fumadores ansiavam por uma ordem que os ajudasse a moderar ou mesmo a largar o vício. Não me surpreenderia que o mesmo sucedesse agora à escala nacional. Veremos.


Entretanto, àqueles que protestam contra esta nova ditadura, que os impede de fumar um cigarro enquanto bebem um café ou jantam num restaurante, recomendo que façam o mesmo que eu fiz quando nessas circunstâncias fumavam ao pé de mim: ir para o ar livre, onde o fumo não incomodará ninguém. O que está em causa não é o direito de fumar; é o direito de obrigar os outros a inalar a porcaria que já passou antes pelos seus pulmões. E basta de escarcéu sobre liberdades fundamentais e direitos. É, sempre foi, apenas uma questão de (boa) educação.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Entre Cós e Alpedriz

O meu segundo romance está - finalmente! – disponível em papel. Com uma capa linda, da autoria do pintor João Alfaro, uma execução irrepreensível da Publidisa, um texto de contracapa de Arnaldo Marques, que capta a essência da obra e a sintetiza na perfeição, um conteúdo que, espero, não desagradará aos leitores, aí está ele, a meu contento.
Bem sei que a auto-satisfação é nociva, sempre perigosa e, seguramente, efémera. Mas, por enquanto, olho enlevado para o livro, dando por bem empregue todo o tempo despendido - tanto o ano e meio em que trabalhei arduamente para o escrever, palavra a palavra, frase a frase, revisão após revisão, como os vinte anos anteriores em que, em vão, lhe tentei dar forma. Tendo posto neste romance tudo aquilo que tinha, após a sua conclusão, a 14 de Fevereiro de 2007, achei-me completamente vazio, sentindo que dificilmente o conseguirei igualar.

Mas é com esse desiderato que trabalho no próximo romance, já adiantado…

Mais informações

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Consulta pública da revisão da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS)

Está disponível no site do Ministério da Educação uma nova versão da TLEBS. Apesar de não ter procedido ainda ao estudo aprofundado que a nova proposta exige – são 154 páginas! -- foi possível verificar, numa observação rápida, que foram corrigidas algumas das principais insuficiências da versão original da TLEBS, as quais deram azo à forte contestação pública que levou à sua suspensão no Ensino Básico. Assim, e a par de um trabalho de melhoramento da lógica interna da TLEBS, são objecto de reformulação as próprias Áreas, entendendo-se, por exemplo, que "a área da semântica lexical é, na verdade, um domínio de lexicologia", conclusão que não deixa de ser estranha, uma vez que a introdução desta área na versão aprovada em 2004 foi, seguramente, linguisticamente motivada.


Como principais aspectos positivos da versão agora submetida a discussão pública, há a salientar neste breve comentário a clarificação de classes de palavras como os quantificadores, desaparecendo a aberração chamada quantificador relativo; o enriquecimento da classe dos advérbios, registando-se, a par da subclasse advérbio(s?) de negação, a dos advérbios de afirmação, advérbios de inclusão e de exclusão, de quantidade e de grau (três subclasses ausentes da versão anterior), mas a confusão pode persistir, com a proposta das subclasses advérbios de predicado e advérbios de frase… Talvez fosse mais acertado manter as subclasses tradicionais, de natureza semântica (e.g., modo, tempo, dúvida, etc.) até haver consenso entre os linguistas quanto à natureza e às subclasses desta classe de palavras reconhecidamente heterogénea, que reúne elementos que, por vezes, pouco têm de comum.


O conceito de oração é reintroduzido porque, diz-se no documento, "a experiência pedagógica revelou que a tradição no uso de um termo constituía um factor de dificuldade face à adopção de um termo sinónimo. Exemplo: o termo oração na tipologia de frases complexas". Se se aplaude a reintrodução do termo, não se pode deixar de referir que, excepto em raros gramáticos, como, por exemplo, Soares Barbosa (1881), os dois termos não são sinónimos: frase, tal como ocorre na TLEBS (2004) é um objecto estritamente sintáctico e oração é tradicionalmente concebido como um objecto sintáctico-semântico.

De salientar também a substituição dos complementos adverbiais e preposicionais pelos complementos oblíquos, o abandono, na área da Semântica, de termos pouco naturais, como antonímia contrária, contraditória e conversa e – finalmente! – a coragem de pôr de lado a distinção nome concreto / nome abstracto, abandono que, certamente, não deixará de causar celeuma, apesar de a distinção não ter motivação linguística.

Muito em breve, com disponibilidade e paciência, que me faltam no momento presente, procederei a comentários mais específicos sobre a nova proposta, saudando desde já a sua submissão a discussão pública: receava que a TLEBS tivesse sido definitivamente abandonada. É que, apesar das suas insuficiências, algumas das quais aqui referidas no passado, reintroduziu a discussão gramatical nas escolas e, se por mais não fosse, só por isso teria a minha simpatia.


JCC


("Os pareceres sobre o documento que agora se coloca a consulta deverão ser enviados para revisaotlebs@dgidc.min-edu.pt, até ao dia 31 de Dezembro de 2007." )


sábado, 22 de setembro de 2007

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Trovoadas

Os acontecimentos meteorológicos têm proeminência na minha escrita, certamente por causa da minha alma camponesa. Ontem, 20 de Setembro de 2007, trovejava quando me deitei, e adormeci recordando textos em que fiz trovejar. Por exemplo, Em Do lacrau e da sua picada, obra (sub)urbana:

“A raiva torna-se destrutiva, pensa nos comprimidos, não, comprimidos, não. Quando tentar é para ir até ao fim, não hoje, não por causa disto. Pensa sair sozinha, meter-se no carro, dar uma volta por aí, sem destino, pensa em locais onde se poderá divertir e mesmo seduzir, mas acaba por desistir, está demasiado cansada, está uma noite terrível para sair, água e vento, agora começou a trovejar. Dantes, quando era pequena, adorava este tempo, aconchegada na cama, abraçada ao seu ursinho, mais fiel e mais carinhoso do que qualquer homem que tenha conhecido, ursinho que não a quer levar para a cama apenas por uns minutos de prazer, — Adeus, até à próxima, quando os coisos voltarem a encher, telefono-te. Ursinho que não tem mulher e filhos, que não inventa desculpas, não mente, não discute nem força separações foleiras só porque já a registou no rol das conquistas e agora é altura de partir à caça de outro troféu.

Retira o urso do roupeiro onde o arrumara há muito, abraça-o e pouco a pouco começa a acalmar-se. Deixa de chorar convulsivamente, vê-se, agora sim, vê-se claramente no espelho da cómoda, limpa a face, endireita a gola da blusa, dá uma ajeitadela no cabelo, — Ah, se as minhas clientes me vissem agora, neste estado, nunca mais punham os pés no meu salão, e consciente da importância do seu aspecto sempre irrepreensível, vai agora tomar o banho por que ansiava desde que saiu do trabalho, um bom par de horas atrás, para vestir um pijama lavadinho e se enfiar na cama abraçada ao amigo fiel e verdadeiro, bem aconchegada sob os cobertores, escutando a chuva, o vento e os trovões, agora ribombando ao longe, afastando-se sempre até quase se não ouvirem. Apenas a luz dos relâmpagos entrando por uma friesta dos estores mal fechados a informa de que a trovoada continua, apenas mais longe, embalando-a, para que adormeça como uma menina e repouse, que bem o merece.”


Já em Entre Cós e Alpedriz, narrativa campesina, a trovoada tem diferente tratamento:

O enxofre saía da torpilha e envolvia-o, colando-se-lhe às mãos, à face, dando-lhe um ar de Satanás amarelento e sulfuroso, naquele trabalho de inferno, sob um sol também ele amarelado e diabólico, que o queimava por fora enquanto o enxofre ardia por dentro, abrasando pulmões, garganta, secando narinas e boca... Encharcada pelo suor, a roupa colava-se-lhe ao corpo, assando-lhe os sovacos, as virilhas... Nem os pés escapavam, roídos pelas duras botas, que nem o sebo amaciava já, e que o arrastavam veloz de cepa em cepa, sempre envolvido na nuvem sulfurosa que acabaria com o cinzeiro, se não acabasse com ele primeiro...

De tempos a tempos, levantava a cabeça para olhar o céu, receando que as pesadas nuvens desabassem sobre a terra sequiosa, o que, pensava, se aliviaria a pressão na sua cabeça, deitaria a perder o seu trabalho, lavando o enxofre que penosamente aplicava sobre parras e cachos de uvas. Tinha acabado de despegar quando o céu explodiu em fogo e vento; o dia fez-se subitamente noite e a noite se tornava dia rasgada pela luz arrepiante dos relâmpagos. Nos Montes, as mulheres que preparavam já a ceia, estremeceram apavoradas com o ribombar dos trovões e de imediato entoaram a ladainha da Santa Bárbara, esperando que lhes acudisse na desgraça iminente:

Santa Bárbara, bendita

que nos céus está escrita

a papel e água benta

levai para longe esta tormenta

para onde não haja garfo nem colher

nem vaca nem vitelo

nem homem nem mulher...

Grandes deviam ser os pecados do Homem, porque a tormenta, em vez de se afastar, aproximou-se e já não era só o firmamento que despejava fogo sobre a terra, era também a terra que crescia em labaredas ao encontro daquelas que desciam do céu: com um ruído assustador, levantara-se pouco antes um vento quente e seco, que rapidamente espalhou em todas as direcções as chamas que os raios haviam ateado. Então céu e terra uniram-se, tudo vermelho, tudo chamas, sem piedade pela vida de árvores, animais e pessoas. O sino tocou a rebate, o povo saiu à rua, carregando baldes, canecos, almudes e enxadas, sob o uivo fúnebre das mulheres, que carpiam já a desgraça pressentida, todos sabendo que o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar e em matar, precisa de destruir tudo por onde passa.

Foi uma guerra antecipadamente perdida. Os campos secos incendiaram-se como um fósforo e as labaredas, empurradas pelo vendaval terrível que se levantara, atacaram os currais, os palheiros, as adegas e até as casas da periferia; o povo desuniu-se e cada qual procurou salvar o seu e acudir aos seus, permitindo que as chamas entrassem pelos Montes adentro, pelo Pátio dos Vieiras, inflamando as casas como fogueiras de Santo António, uma após outra, até à Rua Principal.

Longos excertos abusando da paciência de eventuais leitores… Que os leiam ou que os ignorem, como vos aprouver: este fim-de-semana vou fazer a vindima, esperando que o vinho venha a ser, pelo menos, tão bom como o do ano passado. Ele há coisas, como o vinho, as batatas e as couves, que alimentam e enchem de orgulho um produtor de textos ignorado!

JCC

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Diz mestre Vieira

"Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas e hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. (…) [P]ara o sermão vir nascendo, há-de ter três modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit."

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima

domingo, 26 de agosto de 2007

Do lacrau e da sua picada

Título do meu primeiro romance concluído e objecto de tentativa de publicação. Deduz-se desta afirmação:
  • Que houve tentativas anteriores;
  • Que os esforços conducentes à publicação da obra por meios convencionais não tiveram êxito.

Com efeito, não acordei um dia decidido a escrever um romance. Desde miúdo que sabia que havia de ser escritor (embora muito haja a dizer sobre a matéria e sobre o termo “escritor”, isso fica para outra ocasião). Durante décadas, tentei estruturar algo merecedor desse nome, primeiro rabiscado em papel, depois batido à máquina… O computador facilitou-me a vida, não tanto por permitir escrever mais lixo mais depressa – o que, efectivamente, permite – mas por possibilitar manter escondidas as tentativas de escrita: é que, ao contrário de muito boa gente, mas cada um é como qual, diz-se, não tolero que me leiam o que quer que seja até que eu próprio o dê a ler – o que só acontece quando sinto que está terminado. Terminado não significa bom; significa que pode ser lido, visto que eu, ao contrário do que ouço frequentemente contar, raramente produzo algo satisfatório apenas por inspiração e só à força de transpiração redijo algo que considere aceitável.

Os textos que dão corpo ao Do lacrau e da sua picada foram, assim, escritos ao longo de muitos anos; a finalização da obra, que demorou mais de um ano, consistiu em boa parte na reformulação desses textos, para que se integrassem tão harmoniosamente quanto possível num todo comum.

Ingenuamente, acreditava que a crítica me dispensaria de falar sobre a minha obra, o que, confesso, me repugna, não por modéstia, que não é uma das minhas virtudes, mas porque sempre detestei explicar romances, filmes ou anedotas: ou o leitor é capaz de perceber por si só e então explicar-lhe o que quer que seja é ofender a sua inteligência, ou não gosta e não vale a pena explicar-lhe, ou é de compreensão e de cultura limitadas e então compreenderá as explicações, mas não a obra, pelo que o esforço resulta igualmente inútil. Porém, como a publicação de Do lacrau e da sua picada passou despercebida (talvez por ter saído como e-book, assunto para outra ocasião) e porque, quase dois anos após a sua conclusão, em Novembro de 2005, sinto um grande carinho por esta narrativa, que me ensinou muito sobre a técnica da escrita e mais ainda sobre a edição em Portugal, apresento as minhas mais do que suspeitas opiniões sobre este meu filho bem-amado:

  • É de leitura fácil e rápida, devido ao seu ritmo frenético;
  • É capaz, pela semelhança com a anagnorise, de surpreender o leitor;
  • Personagens, espaço e tempo não estão desactualizados;
  • Está bem contado e bem escrito;
  • Tem fragmentos muito bons, cuja simplicidade pode, no entanto, ofuscar o seu mérito, pelo menos naqueles espíritos que não sabem como é difícil escrever simples.

Posto isto, nada como oferecer ao eventual leitor fragmentos para que possa ajuizar do mérito da narrativa (e da presunção e da arrogância do autor), esclarecendo desde já que só o não disponibilizo na íntegra por motivos contratuais.

O início introduz, desde logo, a eterna problemática do Tempus fugit sem pretensiosismos nem didactismos:

Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios.

Reparou o leitor inteligente que evitei “meter-lhe Lisboa pelos olhos dentro”, uma vez que as alusões à passagem do tempo são metafóricas e o nome da cidade será descodificado a partir da sua cultura – se não sabe que cidade com castelo é banhada pelo Lis, puta que o pariu. (Se escrevesse para imbecis, teria de explicar que o regresso à Primavera da vida na meia-idade, blá, blá…).

Imediatamente são introduzidas as personagens principais e procede-se à sua descrição en passant. Notar-se-á que embora seja uma narrativa na terceira pessoa, o narrador está presente, não prescindindo de um discurso judicativo:

Repare-se naquele casal que passeia, braço dado, pelas ruas antigas. Pela maneira de olhar, vê-se bem que não são turistas vulgares, daqueles que arrumam cidades, gentes e paisagens em álbuns de fotografias. Não, eles enchem os olhos com o presente em busca de vestígios de passados já esbatidos nas suas memórias, ele atento às ruas e às casas, ela procurando sinais de reconhecimento no rosto de cada um dos transeuntes. Aqui e agora, o cavalheiro compara a cidade de hoje com a que conheceu quarenta anos atrás, quando cá chegou, vindo da aldeia natal, para fazer o Curso Industrial. Ela é uma mulher vistosa, demasiado vistosa mesmo, daquelas que nos obrigam a voltar a cabeça para nos certificarmos de que também o traseiro é digno da dona. Sim, é, é um rabo perfeito, bem apertado em calças justas e à meia-perna, corsárias, chamam-lhes, é um cu soberbo, empertigado e bamboleante por força dos saltos demasiado altos.

Seguimos em frente com uma réstia de inveja do felizardo que agora lhe dá o braço, atribuindo mentalmente essa ventura a carro e fortuna. Bem enganados estamos, neste caso não é verdade, bem pode o nosso ego sofrer, que mulheres como ela são para nós: como esta história mostrará, não é o interesse material que une a loira espampanante a um homem discreto como o António.

Deixemo-los então passeando pela formosa Leiria neste Setembro fresco e risonho, deixemo-los sonhar com a Primavera, acreditar na ternura e nos prazeres da cama, talvez mesmo no amor, e prossigamos, invejosos, o nosso caminho e a nossa história.

Neste momento, o leitor experiente julga que conhece a estrutura e, talvez, a temática, não precisando de ler mais. Desiluda-se. Não sou assim tão previsível. Se quer acompanhar a história, terá de a ler.

E o fim? Fecha o círculo e justifica o título da obra:

Ao fundo, de costas para o Lis, atrás de uma mesa tosca, sem funil nem megafone, estava de pé um homem de boina, aspecto de cavador. Sobre a mesa, em duas caixas de sapatos, escorpiões agitavam caudas e tenazes em tentativas frenéticas para fugir do cativeiro. Sempre que algum o conseguia, caindo sobre a mesa, as mãos encortiçadas do curandeiro seguravam-no, pegando-o entre o polegar e o indicador. Então levantava-o à altura dos olhos, deixava o medo e a repugnância crescerem entre a assistência, e voltava a colocá-lo na caixa de onde se evadira.

As pessoas aproximaram-se, mas não demasiado, e observavam, curiosas e horrorizadas, os homens tecendo comentários sobre o que sucede à pessoa que tem a desdita de ser picada pelo ferrão de semelhante bicho, as mulheres apertando os filhos pequenos ao peito ou, se mais crescidos, agarrando-os firmemente pela mão para que a curiosidade juvenil os não fizesse aproximar demasiado, advertindo-os firmemente sobre os perigos deste inimigo da humanidade, eles e elas recordando o velho aforismo: Se o lacrau voasse e a víbora visse, não havia ninguém que no mundo existisse.

Quando a multidão se adensou, o curandeiro falou. Segurou um lacrau à altura dos olhos, para que todos o vissem bem, das tenazes que se agitavam convulsivamente ansiando por presa até ao ferrão que procurava em vão vítima, e disse:

— Este bicho é mau e nojento, mas bem pior é o que alguns de vocês têm dentro do próprio corpo, talvez sem ainda o saberem.

O silêncio arrepiou a multidão, espraiando-se como água agitada por pedrada até às últimas filas e retrocedeu outra vez até ao centro. Então o curandeiro falou de novo:

— Uma picada mata, uma picada cura. A picada do lacrau mata a pessoa... ou o escorpião que a devora. É preciso saber escolher. Lacrau macho para cancro fêmea, lacrau fêmea para cancro macho. Quem quer experimentar?

(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)

A Ritinha, Lúcia de seu nome artístico, que parecia mais atenta aos transeuntes do que às memórias do António, trouxe-o de volta ao tempo presente, dizendo a despropósito:

— A Nela, a minha cunhada que se enforcou, já te falei dela, sim, a que deixou como últimas palavras "A vida é uma merda", não tinha razão. Acho que a vida pode ser, mas não precisa de ser uma merda. Como dizia o teu curandeiro, uma picada mata, uma picada cura. Depende da escolha.

Sorriu-lhe: — O difícil é atinar com os lacraus certos.”

Em breve, seguir-se-ão outros escritos sobre narrador, personagens, espaço, tempo, linguagem, estilo, etc., tudo no mesmo tom, que o povo tão bem descreve no dito “gaba-te, cesta, que amanhã vais para a vindima”.

Do lacrau e da sua picada foi publicado como e-book em finais de Maio de 2007 pela Edito n Web (http://www.editonweb.com/); custa 4,5 euros e, como calculam, não espero enriquecer com os direitos de autor – o que não aumenta as qualidades nem diminui as imperfeições do romance.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

segunda-feira, 9 de julho de 2007

A vida é uma festa (1)

"Em que mundo é que vives?", perguntam-me frequentemente quando manifesto surpresa por alguma novidade que só eu desconhecia.

Foi o que se passou ao saber que, hoje em dia, nos casamentos, há animadores contratados para entreterem as crianças. É a perfeição: os pais comem, convivem, divertem-se sem que crianças enfadadas os aborreçam, berrando, fazendo birras, pedindo para regressarem a casa, adormecendo... E os animadores ganham a vida, coisa que não está nada fácil e faz falta a todos nós.

Já sabia da existência em praias de locais onde as crianças podem ser largadas, libertando os pais para as exigentes tarefas do lazer; e haverá certamente locais semelhantes em centros comerciais e afins onde adultos num lado, filhos noutro, fruam ambos dos momentos de lazer.

Porém, ocorreu-me -- mas certamente só a mim ocorrem disparates antiquados como este -- que se durante os dias de trabalho pais e crianças mal se vêem, eles lutando pelo pão-nosso-de-cada-dia, elas encerradas em escolas e infantários, e se nos momentos de ócio se separam para cada qual se divertir a seu contento e com seu igual, quando é que convivem e brincam com os progenitores? Quem os educa? Quando e com quem brigam, como pertence e faz falta para a formação dos jovens?

Só me ocorre uma possibilidade: é nas aulas, com os professores, quando, por momentos, a vida deixa de ser uma festa...

JCC

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Rossana Garcia

Durante algum tempo, o blog ekarate (http://ekarate.wordpress.com) foi, muito provavelmente, a melhor 'coisa' sobre karaté que alguma vez surgiu nos media em Portugal. Informação abundante e variada, opiniões discutíveis, verdades verdadeiras e falsas, denúncia de situações vergonhosas, que infelizmente não faltam, envolvendo atletas e treinadores, árbitros e estruturas associativas e federativas geraram discussões muito raras num meio onde, apesar de honrosas excepções, predomina a ignorância, a subserviência e o encobrimento.
A vitalidade do blog durante esse período não pode ser dissociada da energia e da combatividade de uma das suas dinamizadoras, Rossana Garcia, pessoa que nunca conheci pessoalmente e com quem raramente concordei -- tanto no que concerne ao conteúdo dos seus artigos como à falta de rigor que, por vezes, evidenciavam. Porém, e mais uma vez, quero salientar a admiração pela sua voz incómoda, que obrigava a rebater pontos de vista e argumentos, introduzindo a reflexão e a discussão num meio de onde, normalmente, estão ausentes; enquanto a sua voz se não faz ouvir num outro lugar, o karaté voltou ao marasmo de sempre e os interesses estabelecidos devem ter reencontrado a paz momentaneamente perdida, agora que nenhuma outra voz irreverente os põe publicamente em causa.
Entretanto, o blog, mantido pela sua proprietária, a quem falta paciência para aturar má criação de gente que mal sabe escrever as ofensas que debita, por vezes aparentando nem perceber o que se discute, o blog tornou-se uma montra de actividades, sem querelas nem ideias novas...
JCC

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Publicação do meu e-book

O meu primeiro romance, Do lacrau e da sua picada, concluído em Outubro de 2005, foi publicado e está a ser comercializado como e-book pela Edit On Web. No site desta editora, www.editonweb.com, está disponível gratuitamente um capítulo, o XIII (a narrativa tem 16), bem como a badana, o texto da contracapa, o perfil do autor, etc.

Agradeço críticas e sugestões, incluindo o clássico "volta à terra, que batatas dá!"

JCC

sábado, 19 de maio de 2007

Afonso, Maio

Afonso, Maio

Alteração de endereços

A partir de 23 de Maio, os meus endereços ligados ao SAPO (página WEB, mail, etc.) deixam de funcionar. Serão substituídos por outros na CLIX, que oportunamente divulgarei aqui.
José Cipriano Catarino

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Volta à terra, que batatas dá!

Antigamente, quando a crítica era crítica, o politicamente correcto ainda não tinha sido inventado e as origens rurais um estigma que se queria esquecido, assim se despachavam as ambições literárias dos aprendizes de escrevente.
Sigo à risca o preceito: quando chegam os primeiros dias bonitos anunciando a Primavera próxima, trazendo no chilreio animado das andorinhas ânsias de sementeiras, volto à terra e às batatas; eu sei, compradas ficam mais baratas e poupa-se o trabalho, mas como fugir ao apelo da terra que suspira por amanhos? E depois, se o tempo correr de feição, não faltarão elogios às batatas ou ao vinho..
Pelo contrário, a escrita, bem mais cansativa, torturante correcção após correcção - corrijo vezes sem conta , na procura da palavra exacta, da frase certa, da pontuação pretendida - não merecerá talvez um insulto da crítica nem uma olhadela distraída dos raros leitores...
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quarta-feira, 21 de março de 2007