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terça-feira, 16 de maio de 2017

Ainda a omissão do artigo

Perguntei há uns dias se esta omissão,  recorrente na minha escrita, dificultava a leitura ou irritava o leitor. Na impossibilidade de o fazer individualmente, que as respostas no zfacebook foram numerosas e unânimes -- não dificulta nem irrita, ao contrário do que comentou leitor do meu blogue -- aqui vai o meu agradecimento a todos os que me quiseram ajudar. 
Entretanto, consegui encontrar a Estilista da Língua Portuguesa, de Rodrigues Lapa, obra que muito prezo e recomendo vivamente a todos os oficiais do ofício da escrita. 
A omissão do artigo definido é fenómeno muito mais antigo e generalizado do que a crítica do leitor do meu blogue me fez crer. 
Afinal, não sou original, antes continuador de longa tradição e de prestigiados mestres...

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Ajuda: o meu estilo de escrita

Levo as críticas muito a sério. Mais do que os elogios. porque me obrigam a reflectir e, caso lhes reconheça pertinência, a atalhar caminho.

Semanas atrás, um visitante  deste blogue fez-me o seguinte reparo:

"... não aprecio a falta dos artigos nas frases seguintes: "... seguem travesti mais produzido..." e "... assistem pacatos a revista com umas piadas...". 

É uma marca de estilo recorrente e muito visível nestes seus escritos: aparece quase sempre. Mas soa-me mal e soa-me de todas as vezes que a leio, o que a torna ruidosa. Pode ser defeito meu, mas na minha construção da leitura prefiro a concretização mesmo indefinida de um artigo a esse vago que gera de modo propositado. "

Tenho reflectido sobre esta crítica, mas não me consigo decidir. Note-se que não é a gramaticalidade das frases que está em causa, mas um pormenor estilístico, e mal do autor sem estilo próprio. Por outro lado, este pormenor estilístico pode tornar-se, como diz o meu crítico, ruidoso e desagradável.

O que acham? Agradeço todas as contribuições.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eucaliptos, imaginação e disparates

No conto O Largo, de Manuel da Fonseca, o bêbedo local estraga a história que conta com um mero pormenor -- no Rossio, em Lisboa, atinge o carteirista com um soco e este, ao cair, bate com a cabeça num eucalipto...
Assim é a arte da escrita. Basta um detalhe para arruinar uma bela história, e não há frases, por mais trabalhadas, que a possam salvar. Porque a imaginação não torna aceitável a ignorância, e um disparate, por mais ornamentado que esteja, não deixa de ser um disparate, a não ser que o leitor se aperceba de que o escritor está a gozar com ele.
Exemplifico: no seu Voyage dans la Lune, do séc. XVII, Cyrano de Bergerac põe o seu narrador a dizer que, como toda a gente sabe, a Lua atrai as gorduras... Mark Twain, num conto, faz uma descrição em que um esófago contempla meditativamente o pôr-do-sol...
Bem diferente é a frase que  li no Facebook, dias atrás, atribuída a Clarice Lispector, segundo a qual a vida tinha começado com duas moléculas. Falta-lhe a piada dos exemplos de Cyrano e Twain, e é disparate tão gritante que me surpreendi por a frase não ter sido prontamente  dissecada e desmentida, fosse à luz do conhecimento actual, fosse do que estava acessível no tempo da autora.
Leitores, abram esses olhos e não prescindam do espírito crítico, não se deixem enrolar por palavreados, perguntem sempre, como o Calisto Elói, de Camilo, o que é que tal significa em vernáculo; escritores, se fazem questão de afirmar assertivamente (desculpem o pleonasmo) o que não sabem, e julgam ter tanta certeza no cag... que não erram o chão, dispensando-se de modalizar, ao menos coloquem as asserções na boca das vossas personagens. porque, podem ter a certeza, basta um pormenorzinho para arruinar o trabalho do dia, de semanas ou meses até.
 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Apreciação de Tino, o Perneta

Diz a escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira:
"Acabei agora de ler o conto integral que o José Cipriano Catarino me enviou por correio eletrónico! Gostei muitíssimo. Escrita impecável, isso já o autor nos habituou. Ritmo, vivacidade, graça, elegância, ironia, algum deleitoso sarcasmo, uma visão, diria eu, andrógina, dos factos comezinhos da vida doméstica, que oscila entre a ternura, a armadilha da luxúria e a graça conventual! Deliciei-me a ler_eu não sou muito de doces, mas a leitura deste conto fez-me lembrar lembrar o encanto das horas de vésperas no pátio interior de uma ermida com despensa bem fornecida!"

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Neste ofício de apagador

Ontem à noite e hoje de manhã apaguei irreversivelmente largas dezenas de textos, antigos e recentes. A purga vai continuar. 
Para mim, escrever é sobretudo isto: apagar. E recomeçar, tentando fazer melhor. 
Preciso destes banhos de humildade. Tanto, que entre os raros textos que poupei estão autocríticas tão duras que me é doloroso relê-las. Ficam, são preciosas, volto a elas regularmente, não por masoquismo, mas para que os elogios me não façam perder o norte.
Nem tudo, porém, é tortura. Creio que veio até mim, depois de procura árdua, nova história, ainda com desenvolvimento desconhecido, já com o tom e a toada justos. 
Assim escrevo. Levado pelo ritmo, por bússola o instinto, por modelo o triste Avalor que parte em barca sem leme em busca da Arima amada -- personagens de uma história para a qual a narradora inicial não vislumbra leitores.
Mais fácil, mais produtivo, seria fazer ponto-cruz, arranjar desenho prévio e encher, encher. Só que não é esse o meu modus faciendi...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Artimanhas da escrita

Em cada discurso do general De Gaulle, mesmo naqueles que proferiu em momentos de crise profunda, de quase guerra civil, havia, invariavelmente, uma palavra rara. 
O presidente vai falar esta noite? Pois reuniam-se frente aos televisores, em casa, nos cafés, nas brasseries, nas colectividades, ouviam-no religiosamente até ao fim, cada qual querendo ser o primeiro a identificar a palavra, a explicar triunfante o seu significado, a listar as acepções, a discutir a pertinência do seu emprego.
Também eu recorro frequentemente a este truque para ser lido e verificar se o fui. Não se amofinem. Lembrem-se d'A Queda, de Camus: "Ah! Noto que implica com este imperfeito do conjuntivo. Confesso o meu fraco por este modo, e pela frase castiça em geral." 
Portanto, não me censurem por recorrer amiúde a arcaísmos sintácticos e lexicais. Os quais, afinal, talvez não sejam de tão mau gosto como os palavrões, quando são utilizados escusadamente...

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Como um rio

Seduz-me a fluidez e a plasticidade da água que corre livre de empecilhos. Assim queria a minha escrita: clara, cantante, envolvente, a fervilhar com a perpétua guerra entre vida e morte. À superfície, a tranquilidade ilusória, quebrada por um ou outro salto de peixe, ou cortada por pacato barco a remos; nos remansos e fundões, o refulgir dos cardumes, à meia-água os barbos de longos bigodes, de tocaia, nos limos ondulantes, na sombra dos salgueiros, nas ervas da margem, a enguia voraz, o achigã matador, a delicada víbora, a sanguessuga repugnante.

Este meu fascínio pela água deve ter origem semita, talvez judaica, a ver pelos apelidos de meu pai (Silva, Catarino), a que não serão alheias as origens da minha aldeia natal, povoada por cristãos-novos. Muito misturada com sangue moçárabe, resquício da longa colonização muçulmana da região, a que pôs cobro D. Afonso Henriques, ao tomar Alpedriz em 1143.

Assim sou. Uma Palestina, sempre em guerra comigo mesmo, sempre descontente com o lodo que desajeitadamente levanto do leito e turva as águas que quero claras, para nelas reflectir o Grande Rio que passa inexoravelmente e não volta jamais.

sábado, 20 de julho de 2013

A difícil arte da escrita

Chega de tretas sobre o esforço que escrever implica. Ao felizardo bafejado pela inspiração, bastará sentar-se em frente ao computador e pôr em palavras o que lhe vai na alma para criar a sua obra-prima.
Já aqueles que precisam de trabalhar duro para polir uma simples frase, sempre insatisfeitos com o resultado -- o melhor é dedicarem-se à pintura. (1)
Alguém discorda? Pois então medite no testemunho deste escritor consagrado, extraído com a devida vénia de um dos seus clássicos:
(1) Antigamente mandavam-se plantar batatas; hoje em dia, com a agricultura na moda, é preferível aconselhar-lhes mudança de ramo artístico.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

De volta

aqui o escrevi: a escrita de um romance canibaliza-me, devora tudo o que tenho, obceca-me quase por inteiro, esvazia-me, esgota-me as ideias, faz-me duvidar seriamente das minhas capacidades e, sobretudo, da de voltar a escrever. Desta vez, a paragem foi mais longa do que o habitual: terminei o romance em finais de Dezembro e só hoje voltei à ficção, com um microconto que aqui publicarei logo que suficientemente aplainado. Já o romance concluído não verá tão cedo a luz do dia: primeiro, precisará de conhecer a derrota nos raros concursos e prémios literários a que posso concorrer.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A crueza das estatísticas

Tenho amigos que escrevem por prazer. Abençoados. E dizem não compreender que a escrita possa ser tortura. Que se o fosse, não escreveriam. Abençoados. Pois eu vejo-me como um carpinteiro. A aplainar, a polir, a envernizar constantemente. Não gasto os dicionários porque utilizo sobretudo os electrónicos. Sempre abertos, à distância de um clique e para confirmar as acepções de palavras que conheço bem. E há a investigação, nome pomposo para o trabalho de leitura e recolha de materiais. 
Enfim. Não é o choradinho costumeiro que me leva a escrever estas linhas. É que consultei as estatísticas do Word relativas ao novo romance em que trabalho e fiquei com pena de mim mesmo:
Começado a 22 de Maio de 2011
6.607 minutos de trabalho, que é como quem diz mais de 110 horas
145 revisões
Apenas 65 páginas a 1,5 espaços. Se fosse pago à hora... Se fosse sequer pago...
Nenhuma certeza de o conseguir terminar. E note-se que trabalho nos tempos livres, sem prejuízo das aulas, reuniões, testes, vigilâncias, correcção de exames nacionais de 12º ano (1ª e 2ª fases), avaliação de desempenho, uns relatorizitos, desses com que a profissão se diverte. Não muitos, que tenho uma boa mão-cheia deles em atraso. Como foi possível trabalhar tantas horas no meu romance? Resposta: férias. E disciplina férrea.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Volta à terra, que batatas dá!

Antigamente, quando a crítica era crítica, o politicamente correcto ainda não tinha sido inventado e as origens rurais um estigma que se queria esquecido, assim se despachavam as ambições literárias dos aprendizes de escrevente.
Sigo à risca o preceito: quando chegam os primeiros dias bonitos anunciando a Primavera próxima, trazendo no chilreio animado das andorinhas ânsias de sementeiras, volto à terra e às batatas; eu sei, compradas ficam mais baratas e poupa-se o trabalho, mas como fugir ao apelo da terra que suspira por amanhos? E depois, se o tempo correr de feição, não faltarão elogios às batatas ou ao vinho..
Pelo contrário, a escrita, bem mais cansativa, torturante correcção após correcção - corrijo vezes sem conta , na procura da palavra exacta, da frase certa, da pontuação pretendida - não merecerá talvez um insulto da crítica nem uma olhadela distraída dos raros leitores...
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