Os meus romances Do lacrau e da sua picada e Entre Cós e Alpedriz podem ser adquiridos na Amazon em formato Kindle.
Agradeço todas as críticas, tanto aos conteúdos como à forma.
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terça-feira, 2 de março de 2010
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Nunca mais Primavera
Badaladas do sino
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa
Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera
Neste tempo tão chuvoso?
Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração
(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)
Lá, onde corre a fresca regueira
onde cresce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão
O sino dobra novamente a finados...
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa
Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera
Neste tempo tão chuvoso?
Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração
(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)
Lá, onde corre a fresca regueira
onde cresce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão
O sino dobra novamente a finados...
(Entre Cós e Alpedriz)
sábado, 27 de fevereiro de 2010
O Tiago e o avô
Cheios de espessa névoa os horizontes,
Espantosas voragens vem saindo!
Foi-se o Sol entre as nuvens encobrindo,
Voltando para o mar os quatro Etontes
Caiu a grossa chuva pelos montes,
Os incautos pastores aturdindo;
E engrossados os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes
Com medonho estampido, navorosos.
Os longos ecos dos trovões soando.
A rezar nos pusemos temerosos.
Parou a chuva; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos;
Não me atrevo a sair, fico jogando.
Correia Garção
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Duro Inverno
"... Então, o mais tardar na própria noite, procuram fazer as pazes, passando dos berros e das lágrimas à ternura e depois ao prazer, adormecendo nessas noites frias de Inverno enroscados um no outro como cobras, bem aconchegados sob cobertor de papa e mantas de trapos, enquanto a nortada procura friesta por onde entrar e a chuva tomba desalmadamente sobre as colinas, escorre pelas regueiras, inunda os chãos-de-horta, transforma regatitos em riachos furiosos, que tudo arrastam consigo — árvores, pontes de madeira, gado, pessoas até, como sucedeu à filha do Mouco, numa tarde em Cós.
(...)
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pescadores. Há meses que não podiam ir ao mar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha, seja o vinho vendido.
(...)
O duro Inverno prolongou-se até finais de Abril, alargando constantemente o fosso entre ricos e pobres e multiplicando estes últimos, em boa parte à custa dos que tiveram até então uma pobreza remendada, apoiada numas courelas que lhes asseguravam alguma independência, mas que agora se viam forçados pela necessidade a empenhar ou a vender por tuta-e-meia.
As geadas queimaram as batatas novas; o feijão e o milho não medravam, antes pareciam definhar, amarelentos; o granizo, a que cá chamamos pedraço, destruiu boa parte das uvas e o míldio devastou as vinhas, apesar das pulverizações constantes com calda bordalesa, que a chuva prontamente lavava. Faltava a lenha e os cavacos encharcados que podiam conseguir nos pinhais eram ciosamente guardados pelos donos, que, em vez de agradecerem a limpeza gratuita que as mulheres faziam às matas, retirando com longas varolas os ramos secos, carregando a caruma e as pinhas para atear o lume, o tojo para chamuscar o porco, se as apanhavam em flagrante delito exigiam pagamento da carga, como se tivessem com quê, aproveitando, se estivessem sozinhas, para sugerir que então pagassem com o corpo. (...)"
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
O Inverno do nosso descontentamento
Não se trata de Shakespeare, nem do romance de Steinbeck --- é a triste realidade em que o nosso país vive. Como uma desgraça nunca vem só, diz o povo no seu optimismo secular, à crise financeira, ao desemprego crescente, ao endividamento, aos escândalos políticos, somam-se este Inverno ataques da natureza raramente vistos na nossa terra: Oeste, Madeira, tornados...
Agrada-me a chuva que inunda campos sequiosos, alegro-me vendo cheios os poços vazios no Outono. Mas estamos no fim de Fevereiro, e o Sol, "cá dele", como se diz na minha aldeia? E sem Sol nada se cria, nem sequer nabiças e nabos, que tanto apreciam a chuva, sem Sol que enxugue os campos impossível cultivá-los, e muito em breve será demasiado tarde para as minhas sementeiras de sequeiro...
Precisamos urgentemente de Sol que torne glorioso este Inverno inusitado -- diferente daquele que ficou em Alcácer Quibir.
(Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
Shakespeare, Ricardo III )
Made glorious summer by this sun of York;
Shakespeare, Ricardo III )
Farrapos de nuvem
...E um olhar destemido atravessa o tempo
Atravessa-me no meu tempo – eu sei, não sou daqui
daqui onde a mãe chuva é delícia
e o mau tempo prazer
Não como a ave que traz à terra o branco do céu
e o solta em efémero grito ...
Atravessa-me no meu tempo – eu sei, não sou daqui
daqui onde a mãe chuva é delícia
e o mau tempo prazer
Não como a ave que traz à terra o branco do céu
e o solta em efémero grito ...
(Fragmento de um rascunho meu, já antigo)
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Não deserto do ensino
Não meti os papéis para a reforma hoje. Faltou-me a coragem. Afinal, é a minha vida desde 1976. Por pior que o ensino se tenha tornado, por pior que vá ficar --- e vai, não duvido, por muito que a minha ministra sorria --- não me imagino a viver fora dele. Eu sei, alguma vez terá de ser. Mas não hoje, mas não agora.
Nem preciso de inventar desculpas, argumentar com penalizações e quejandos. É só cobardia. Sem a minha profissão, sofreria do síndroma do membro amputado. É um sacerdócio, uma cruz que tenho de carregar, por sentido de dever, ou por não ser capaz de viver de outro modo. Não adianta arranjar desculpas.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Elefantes, jibóias e desertores
Para o Reinaldo:
Cá está o elefante a que me referia, engolido por uma jibóia.
Quanto ao desertor, se não mudar de ideias até lá, será o mocinho da foto. Amanhã, antes que se torne impossível e se veja obrigado a continuar até ao fim dos seus dias uma inglória carreira de palhaço.
Cá está o elefante a que me referia, engolido por uma jibóia.
Quanto ao desertor, se não mudar de ideias até lá, será o mocinho da foto. Amanhã, antes que se torne impossível e se veja obrigado a continuar até ao fim dos seus dias uma inglória carreira de palhaço.
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
Le déserteur, Boris Vian
O desertor
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous le dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter
( [Sr. Presidente] não é para o irritar
É preciso que lho diga
A minha decisão está tomada
Vou desertar)
Il faut que je vous le dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter
( [Sr. Presidente] não é para o irritar
É preciso que lho diga
A minha decisão está tomada
Vou desertar)
(Boris Vian, Le déserteur)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
A avó Zé
A avó Zé vista pelo Afonso. Trabalho de artista, na linha de Miró. Evidencia, sem margem para dúvidas, que o talento para a pintura foi herdado do avô materno --- eu próprio. Põe os olhos neste pequeno pintor, João. Admira a disposição, a subtileza cromática, a linguagem não figurativa mas fortemente expressiva, a melancolia do modelo...
(Sei que é a avó porque o Afonso mo disse; porque se me tivesse dito que era um marciano teria acreditado na mesma. Também me pintou, mas não está satisfeito com o retrato: não conseguiu fazer o bigode; descontentamento de artista, que certamente motivará a próxima obra-prima.)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Amigos, amigos...
Nem que me tivesse saído o Euromilhões: as propostas de amizade surgem às dezenas por dia --- fulano (não imagino quem seja) "adicionou-te como amigo(a) no Facebook. Precisamos que confirmes que conheces X para que sejam amigo(a)s no Facebook"....
Já pensei em criar um filtro anti-spam. Para não ter de o fazer, lembro que tenho feitio intratável, interesses pouco apetecíveis (gosto de trabalhar, de transpirar), não perco tempo com conversas de salão, não vou em futebóis, não troco um livro do Camilo (estou a ler O Senhor do Paço de Ninães) por todos os que estão nos tops, não gosto de viajar, não como massas (e pizzas só com muita larota), não suporto aquilo a que hoje chamam música (e tenho uma lesão do ouvido interno nos 43 db)...
Em resumo: não sou nada recomendável para amigo. Por que não vão bater a outra porta?
"Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!"
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!"
Álvaro de Campos, Lisbon Revisited
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Domingo
Hoje seria dia de descanso, tinha-o decidido, mas a imagem é enganadora. Como diz o meu narrador numa novela que recentemente terminei,
"sete dias tem a semana, cada qual de labuta, só o Senhor, porque é Deus Todo-Poderoso, pôde descansar num deles..."
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Asfixia democrática
Oiço na televisão, Canal 2, Telejornal das 10H, moço boy do PSD em comissão parlamentar:
"Quando se há receio..."
Enganou-se, penso eu. Mas ele, que, pelos vistos, aprendeu técnicas de retórica, repete e repete: "Quando se há receio..."
A senhora presidente, que até foi ministra da educação (como Couto dos Santos, o tal do "Se eu fosse aluno bastaria-me ver a prova" a propósito da PGA) não poderia encomendar umas aulitas de língua portuguesa, pelo menos para os seus moços que falam para a televisão? Ou asfixiá-los democraticamente, para não acrescentarem a uma desgraça outra bem maior?
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Desenhos animados
Sempre gostei de desenhos animados. Dos do meu tempo, em que um coelho esperto fazia patifarias, ou um canário torturava um pobre gatinho, dos do tempo das minhas filhas, a Heidi, depois Scubidu, o cão que ria... Agora, com os meus netos, vejo Os Irmãos Coala, o Carteiro Paulo, Vila Moleza...
As histórias melhoraram muito. Gosto, por exemplo, do Carteiro Paulo, que é feliz a distribuir o correio, nestes tempos em que ser feliz é (1) estar reformado; (2) viajar; (3) comprar.
Os bons vi sempre passar No Mundo graves tormentos; E pera mais me espantar, Os maus vi sempre nadar Em mar de contentamentos.
Mal d'olhos
Tenho um queratocone. O suficiente para intrigar os conhecidos, sempre prontos a dar sugestões, na sua vontade de ajudar:
--- Porque é que não vais ao oftalmologista? Porque é que não usas óculos?
--- Porque não vejo com eles.
--- Então é porque precisas de mudar de lentes. Etc.
Mas há mais e pior. Um problema que não me afectava há oito anos voltou --- e sei que se vai repetir, como então aconteceu.
A visão começa a ficar indistinta, turva. Um pequeno ponto brilhante --- e eu digo: cá está esta merda outra vez. No canto superior direito, com os olhos abertos ou fechados, surge, brilhante, uma luz curva zigzagueante, como quando olhamos para o filamento de uma lâmpada de incandescência, as cores decompostas como se luz passasse através de um prisma. Então já vejo pouco e mal. Fecho os olhos. A imagem cintilante permanece entre dez a vinte minutos. Depois alarga, dilui-se, as cores quase se combinam e acaba por desaparecer.
Das primeiras vezes, há um dez anos, consultei, apavorado três ou quatro oftalmologistas. Os quais apresentaram várias hipóteses para o fenómeno, nenhum tratamento: insuficiente irrigação do nervo óptico, prenúncio de dores de cabeça... Convenci-me, então, que teria de conviver com a maleita. Nada fácil: ficar com a visão gravemente afectada ao volante na 2ª circular em hora de ponta, ou numa aula em turma difícil, disfarçando para que me não pressintam fragilizado --- já passei por tudo isto e muito mais --- não é nada bom. Pior é no domingo passado ter recomeçado.
--- Porque é que não vais ao oftalmologista? Porque é que não usas óculos?
--- Porque não vejo com eles.
--- Então é porque precisas de mudar de lentes. Etc.
Mas há mais e pior. Um problema que não me afectava há oito anos voltou --- e sei que se vai repetir, como então aconteceu.
A visão começa a ficar indistinta, turva. Um pequeno ponto brilhante --- e eu digo: cá está esta merda outra vez. No canto superior direito, com os olhos abertos ou fechados, surge, brilhante, uma luz curva zigzagueante, como quando olhamos para o filamento de uma lâmpada de incandescência, as cores decompostas como se luz passasse através de um prisma. Então já vejo pouco e mal. Fecho os olhos. A imagem cintilante permanece entre dez a vinte minutos. Depois alarga, dilui-se, as cores quase se combinam e acaba por desaparecer.
Das primeiras vezes, há um dez anos, consultei, apavorado três ou quatro oftalmologistas. Os quais apresentaram várias hipóteses para o fenómeno, nenhum tratamento: insuficiente irrigação do nervo óptico, prenúncio de dores de cabeça... Convenci-me, então, que teria de conviver com a maleita. Nada fácil: ficar com a visão gravemente afectada ao volante na 2ª circular em hora de ponta, ou numa aula em turma difícil, disfarçando para que me não pressintam fragilizado --- já passei por tudo isto e muito mais --- não é nada bom. Pior é no domingo passado ter recomeçado.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Se Portugal fosse pessoa*
* Ler aqui, no blogue de Rentes de Carvalho. O olhar dorido do estrangeirado sobre a nossa pátria, sobre nós, os europeus sem remédio, desde sempre vítimas da nossa própria esperteza saloia.
(Curiosamente, no Público a notícia de que as câmaras se não conseguem livrar dos estádios cuja construção impuseram e nós pagámos e continuaremos a pagar. Enquanto os responsáveis por actos de má governação não tiverem de responder por eles com o seu próprio património --- se é que é o seu património! ---, sem prescrições nem amnistias, sem retórica nem artimanhas de advogados ... Eu sei: em Portugal, isso será no dia de São Nunca. À tarde.)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Aniversários
Não tenho cabeça para datas e deixo passar aniversários que devia recordar. Há algumas excepções: lembro-me do meu e de que no dia de hoje esta menina faz anos e, melhor, que nós começámos a namorar, num café da zona da Faculdade de Ciências, o Big Ben, sempre cheio de estudantes e de tabaco.
Foi em 1973. Para meu desgosto, nesse dia tivemos de nos separar bem cedo, porque eu tinha pinturas (hoje diz-se grafitos) marcadas para essa noite, a propósito da comemoração do 4 de Fevereiro, data oficial da guerra em Angola na versão do MPLA, e a polícia estava à nossa espera, sabendo que iríamos pintar e onde o iríamos fazer... Para piorar, os clichés anticolonialistas eram enormes e lembro-me que dos cinco que tinham sido atribuídos ao meu CLAC apenas conseguimos completar dois. Não fora a veterania e o sangue frio da minha camarada do CLAC, bem grávida (que será feito dela? nunca soube o seu verdadeiro nome) e teria sido caçado como coelho. Escapei e no dia seguinte a menina da foto e eu já estávamos outra vez bem agarrados, tão bem que nunca mais nos largámos.
Foi em 1973. Para meu desgosto, nesse dia tivemos de nos separar bem cedo, porque eu tinha pinturas (hoje diz-se grafitos) marcadas para essa noite, a propósito da comemoração do 4 de Fevereiro, data oficial da guerra em Angola na versão do MPLA, e a polícia estava à nossa espera, sabendo que iríamos pintar e onde o iríamos fazer... Para piorar, os clichés anticolonialistas eram enormes e lembro-me que dos cinco que tinham sido atribuídos ao meu CLAC apenas conseguimos completar dois. Não fora a veterania e o sangue frio da minha camarada do CLAC, bem grávida (que será feito dela? nunca soube o seu verdadeiro nome) e teria sido caçado como coelho. Escapei e no dia seguinte a menina da foto e eu já estávamos outra vez bem agarrados, tão bem que nunca mais nos largámos.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
A obra nasce
Primeiro uma ideia vaga começa a formar-se na minha cabeça, uma frase surge a reclamar registo escrito --- a obra começa. Vai fluindo penosamente, como ribeirito em busca do seu mar, deriva aqui e ali, recua quando encontra obstáculos insuperáveis, por vezes acumula-se à espera, sempre reclamando trabalho sem me dizer em que direcção seguir, como prosseguir. E, em dado momento, após dias, ou semanas, ou meses, ou anos, (ou nunca), ganha alma, emerge das sombras, impõe-se-me como história madura, capaz de singrar por si só.
Sim, não dá para acreditar. Confissões destas parecem tretas mistificadoras. Como é que se escreve sem saber o quê? Então não se fazem planos, como aqueles que se exigem aos alunos? Eu não faço. E o processo narrativo torna-se menos intrigante se pensarmos nos nossos próprios filhos. Investimos neles, esforçamo-nos, mas quase sempre seguem o seu próprio rumo, agrade-nos ou não...
Por exemplo, neste momento trabalho num conto em que tento plasmar a minha experiência de operário de plásticos nos idos de 1973. Procuro reconstituir o ambiente, tarefa difícil, porque a escrita é linear, da esquerda para a direita, de cima para baixo, e numa fábrica tudo nos envolve --- ruído das máquinas, dos compressores, das lâmpadas fluorescentes, cheiro a óleo, a plástico fundido, humidade no chão de cimento, que combina perigosamente com a electricidade, pelo que junto a cada máquina há um estrado de ripas de madeira e sobre ele um operário concentrado, mudo, de gestos precisos, olhos atentos aos mostradores, mãos quase insensíveis ao calor que abrem velozes os moldes. Por vezes, demasiadas vezes, há acidentes: queimaduras graves, dedos ou mão decepada, até um morto por electrocussão --- precisamente o camarada que me substituiu na minha máquina na semana de férias do meu casamento...
Vê-se que esta história vai já adiantada; mas não sei ainda como é que os vários ingredientes se combinarão, qual o desfecho, como será contado... Se prazer há no mister da escrita, é, sem dúvida, este, o da surpresa, a que acresce o da contemplação da obra terminada, com modesto desabafo incrédulo: fui eu quem escreveu isto? Sim, porque cada história é irrepetível, como irrepetível é a minha vida...
Sim, não dá para acreditar. Confissões destas parecem tretas mistificadoras. Como é que se escreve sem saber o quê? Então não se fazem planos, como aqueles que se exigem aos alunos? Eu não faço. E o processo narrativo torna-se menos intrigante se pensarmos nos nossos próprios filhos. Investimos neles, esforçamo-nos, mas quase sempre seguem o seu próprio rumo, agrade-nos ou não...
Por exemplo, neste momento trabalho num conto em que tento plasmar a minha experiência de operário de plásticos nos idos de 1973. Procuro reconstituir o ambiente, tarefa difícil, porque a escrita é linear, da esquerda para a direita, de cima para baixo, e numa fábrica tudo nos envolve --- ruído das máquinas, dos compressores, das lâmpadas fluorescentes, cheiro a óleo, a plástico fundido, humidade no chão de cimento, que combina perigosamente com a electricidade, pelo que junto a cada máquina há um estrado de ripas de madeira e sobre ele um operário concentrado, mudo, de gestos precisos, olhos atentos aos mostradores, mãos quase insensíveis ao calor que abrem velozes os moldes. Por vezes, demasiadas vezes, há acidentes: queimaduras graves, dedos ou mão decepada, até um morto por electrocussão --- precisamente o camarada que me substituiu na minha máquina na semana de férias do meu casamento...
Vê-se que esta história vai já adiantada; mas não sei ainda como é que os vários ingredientes se combinarão, qual o desfecho, como será contado... Se prazer há no mister da escrita, é, sem dúvida, este, o da surpresa, a que acresce o da contemplação da obra terminada, com modesto desabafo incrédulo: fui eu quem escreveu isto? Sim, porque cada história é irrepetível, como irrepetível é a minha vida...
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
Caneta digital (e-pens)
Distingue-se de uma esferográfica comum por várias particularidades: grava aquilo que escreve no papel e permite passá-lo para o computador, quer como nota manuscrita, quer, após reconhecimento da escrita, como documento do Word. Faz ainda umas tantas coisas que ainda não experimentei devidamente, talvez por delas não precisar: substituir o rato, escrever directamente em documentos do Office, etc. Comprei-a receoso de que fosse pouco mais do que um brinquedo giro ou uma caneta cara. Afinal faz o que promete, tanto melhor quanto mais perfeita for a caligrafia. A minha é uma desgraça e não melhorou nem com as reguadas da primária, nem com as aulas de Caligrafia, que fiz com doze valores apenas porque me portava bem em turma problemática. E com a passagem dos anos a minha letra piorou.
Pois a caneta é uma pequena maravilha, que me evita a maçada de transcrever textos manuscritos redigidos em locais ou em circunstâncias que não propiciam a utilização do computador portátil, e o funcionamento quase se resume a uma ligação posterior via USB ao computador e a uns cliques do rato.
Para saber mais ou comprar: www.ebc.pt.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
domingo, 24 de janeiro de 2010
Tempo da poda (2)
Fragmento de Entre Cós e Alpedriz
Nem amores ardentes, nem brigas, nem patuscadas, nem bebedeiras de caixão à cova — apenas a terra a que nasceu grudado se cola às suas recordações como o barro dos Montes se colava às suas botas. Vê, vê distintamente as vinhas descavadas, podadas, empadas, os cachos que despontarão e que a calda bordalesa azulará, o cinzento do oídio queimado pelo amarelo do enxofre, as tinas cheias e bem calcadas a caminho da adega transportadas em carro de bois cujo eixo de madeira chia alegremente apesar do óleo queimado com que o carreiro o lubrifica, o aguilhão que espevita os animais de dorso luzidio... Vê-se a si próprio na força da idade, um cavalão cheio de força, fazendo rodar a roda de ferro maciço do esmagador que moverá os rolos dentados que transformarão a polpa das uvas em sumo, sente outra vez o cheiro do mosto, não apenas na sua adega mas perfumando toda a aldeia, mexe outra vez as uvas que fermentam nas tinas, no lagar e nos tonéis remexendo com o tridente de ferro até ao fundo das vasilhas e aspira o perfume do líquido que borbulha enquanto aguarda a sinfonia das prensas cantantes, tlim, tlim, dirá uma, e logo outras responderão, emancipando o jovem mosto do pé, e escorrerá então definitivamente livre pelo ralo do lagar enchendo a pia, como filho já adulto que deixa a casa paterna para seguir o seu rumo vida fora..."
Tempo da poda (1)
Cansado de um fim-de-semana de labuta dura, corpo dorido, sobretudo as mãos, fico-me pelos versos de Cesário, que exprimem bem melhor do que eu o conseguiria fazer o prazer e o sofrimento do trabalho agrícola:
(FOTOS: à esquerda, o Vergílio; na de baixo, eu próprio; clicar para ampliar)"Oh! Que grande alegria eu tenho quando
Sou tal e qual como os mais! E, sem talento,,
Faço um trabalho técnico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!"
"Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.
A nós tudo nos rouba e dizima:
(...)
E o pulgão, a lagarta, os caracóis,
E há inda, além do mais com que se ateima,
As intempéries, o granizo, a queima,
E a concorrência com os espanhóis."
Cesário Verde, "Nós"
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Da escrita
Enquanto As Plêiades não avança, o que não me incomoda porque um romance precisa de tempo para amadurecer, tenho escrito uns contos. "Tenho escrito" significa que os considero acabados, prontos para a luz do dia. Por exemplo, terminei hoje um que comecei na semana passada, e acabei outro que se arrastava há anos sem que o conseguisse dar por terminado, o que sucedeu adoptando uma perspectiva diferente --- e "Inutilia Truncat". São pequenas narrativas, de menos de duas páginas, o que, para mim, em nada diminui o respectivo mérito, uma vez que as narrativas, tal como os homens que se prezam, não se medem aos palmos; e escrever histórias muito curtas é um excelente treino da economia da narrativa, que tanto prezo.Segue-se a fase seguinte, a da apreciação pelos leitores e leitoras do costume. Depois, tendo como sempre em muito boa conta as respectivas críticas e procedido às correcções necessárias, juntar-se-ão aos irmãos mais velhos e, arquivados em pastas, aguardarão por melhores dias.
Se algum leitor conhecer editor que aceite dar uma vista de olhos...
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Dura lex
Hoje, pela primeira vez, entrei num tribunal e, vergonha, para ser ouvido como arguido. O senhor procurador leu-me os direitos, tal e qual como nos filmes (Tem o direito de ficar calado, tem o direito de se fazer acompanhar por um advogado...), os deveres (identificar-se correctamente, falar verdade --- mas isso é o que sempre faço, eu que jamais me escondi atrás de nick names) e perguntou-se se sabia que tinha praticado um crime punível com cinco anos de prisão (acho que é isso, não fixei a pena.)
--- Por ter deixado caducar uma licença que tenho renovado regularmente desde 1982?
--- Sim. Porque, segundo a lei...
Pois Dura lex sed lex. Só que, entendo eu, os juristas que criminalizaram os atrasos na renovação da licença de uso e porte de arma de caça teriam feito melhor se
(1) Permitissem a renovação, cumpridos os requisitos habituais, com coima adequada; OU
(2) Determinassem que a arma em infracção seria confiscada, revertendo para o Estado, sem prejuízo de eventual coima.
Desta forma, e apercebendo-me da infracção, não posso vender nem desfazer-me da espingarda por qualquer processo, e sou forçado a passar por estas burocracias, que, além do mais, tanto devem obstruir a polícia e a justiça. As quais, é sabido, têm muito mais que fazer.
Isto penso eu, "que falo, humilde, baxo e rudo", sem a mínima preparação nem a menor propensão para jurisconsulto...
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Cansado? A precisar de férias?
Segundo o DN, após 30 anos de prisão,
http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1040878.html
Agca, o turco que tentou assassinar João Paulo II, vai tirar férias
14 de Janeiro de 2010, 17:03
http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1040878.html
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
João Semana (reposição)

O meu amigo Augusto é um daqueles médicos que o povo faz questão de homenagear em vida e por isso deu o seu nome ao Centro de Saúde onde trabalha.
Não me ficaria bem, nem ele me perdoaria, que desse alguns exemplos de factos que motivaram a atribuição, anos atrás, de tão honrosa distinção; o que importa é que o povo da Brogueira o fez, para que médicos dedicados como este João Semana dos nossos tempos não sejam esquecidos.
Não me ficaria bem, nem ele me perdoaria, que desse alguns exemplos de factos que motivaram a atribuição, anos atrás, de tão honrosa distinção; o que importa é que o povo da Brogueira o fez, para que médicos dedicados como este João Semana dos nossos tempos não sejam esquecidos.
Preceitos para tempos difíceis
"Um homem vulgar desembainhará o sabre se é ridicularizado e bater-se-á arriscando a vida, mas não devemos ver aí uma prova de coragem. Um verdadeiro homem de valor nunca fica perturbado, mesmo se é confrontado com um acontecimento imprevisto ou uma crise, nunca se irrita quando é arrastado para uma situação de que não é responsável. Isto porque o seu coração é grande e o seu objectivo elevado."
Gichin Funakoshi, Karate-Do Kyohan
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Do ensino
Falta-me a paciência para ouvir falar e, sobretudo, para ler sobre a situação do ensino em Portugal. Mas artigos como este são a excepção, vozes que deveriam ser ouvidas, mas não o serão porque não há pior cego que aquele que não quer ver, especialmente quando é a arrogância, filha dilecta da ignorância e da vaidade, a causa da cegueira.
"A «revolução conservadora» tinha graça há duas décadas quando valia a pena construir o edifício. Hoje, ele está deficiente. Em primeiro lugar, chamem os professores. Os professores-professores — não os técnicos em Ciências da Educação que não dão aulas há vinte anos. Chamem os professores que contactam com os alunos, que dão aulas, que passam pelos corredores e sabem do que se fala quando se fala de educação. A tentação da reforma a todo o custo cria vítima insuspeitas; para legislar sobre o «modelo de avaliação dos professores» a primeira coisa que fizeram foi afastar os professores. Não queiram fazer a reforma curricular afastando-os de novo. Basta ouvir, tomar notas, recolher histórias reais. Isto não são os cientistas da pedagogia que o podem fazer; eles não têm histórias reais para contar — aliás, lendo o que eles escrevem nas introduções aos programas escolares e nos materiais ideológicos produzidos pelo Ministério da Educação, até é legítimo supor que não falam Português." Francisco José Viegas
domingo, 10 de janeiro de 2010
Piada foleira
É de mau gosto, mas não consigo resistir: segundo o DN,
Para os enredos, sugiro que lhe vendamos os nacionais. Já incluídos nos Magalhães que, dizem, ele vai comprar.
Chávez vai produzir "novelas socialistas"
Para os enredos, sugiro que lhe vendamos os nacionais. Já incluídos nos Magalhães que, dizem, ele vai comprar.
O sentido de humor divino
Copenhaga, tantos protestos contra o aquecimento global, e eis a resposta pronta e gélida: Está a nevar em sete distritos
Também eu bato dente, outro Zé Fogão borralheiro. Pior será amanhã, a tremer todo o dia como varas verdes nas salas enregeladas. E a ver os miúdos ainda pior do que eu.
Também eu bato dente, outro Zé Fogão borralheiro. Pior será amanhã, a tremer todo o dia como varas verdes nas salas enregeladas. E a ver os miúdos ainda pior do que eu.
Excesso de informação
Os emigrados nas cidades enchiam os carros nas casas paternas em cada fim-de-semana --- azeite e azeitonas, vinho e aguardente, hortaliças, cebolas, alhos, fruta, as abençoadas batatas, remédio contra a fome, os ovos e as galinhas já arranjadas, os coelhos, o porco, eu sei lá que mais! E partiam, carregadinhos até ao tejadilho, as rodas bojudas do excesso de carga, por entre protestos do motor e golfadas de fumo negro...
Tudo isso acabou. Os mais velhos arrastam-se inúteis pelos bancos dos adros das igrejas, pelas colectividades, sem vontade sequer de espairecer plantando couves porque, há décadas que o sabemos, "não compensa". As colheitas fazem-se no hipermercado. Mas, como canta Manuel Alegre, "há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não." Como eu, que tirei a foto quando seguia para a minha aldeia, aproveitando este sábado de bom tempo para a poda.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
E-books e pirataria
A notícia do Correio da Manhã sobre a pirataria informática que motivou o meu post sobre o Kamasutra parece ter sido recebida com apreensão por pessoas ligadas ao meio livreiro:
"Quando os entusiastas do e-book festejam o lançamento de mais um novo leitor de livros eletrónicos, tenho dúvidas. Tenho dúvidas porque sou conservador – e tenho dúvidas porque tenho receio da pirataria informática que afetará os direitos de autor e a indústria do livro." escreve Francisco José Viegas.
Enquanto autor que não logrou captar o interesse das editoras, nem é provável que o venha a fazer, primeiro, porque não escrevo para elas e para a sua visão das apetências do mercado --- depois queixam-se de que faltam leitores! ---, segundo, porque não tenho feitio, nem tempo, nem necessidade de me arrastar mendigando, lisonjeando, metendo cunhas, enquanto autor, dizia, antes de me perder em divagações ressabiadas, vejo na proliferação de e-books uma janela de oportunidades que me dará maiores possibilidades de chegar até aos leitores. Quanto aos direitos de autor, seria interessante saber quantos autores portugueses recebem valores que lhes permitam, já não digo viver da escrita, mas, pelo menos, levar vida mais folgada. Porque estou convencido de que na sua esmagadora maioria receberão, na melhor das hipóteses, umas migalhinhas, quase uma esmolinha, sem possibilidade de controlar as vendas, sem capacidade para exigir os seus direitos.
Se assim for, quem tem razões para recear o lobo mau da pirataria não são autores como eu, que até pagam para ser lidos, publicando às suas custas, mas as editoras que não parecem capazes de se adaptar aos novos tempos.
(Para receber gratuitamente uma versão em pdf dos meus romances, basta enviar-me um mail com o pedido; já tive o prazer de oferecer muitos por esta via, e não estou mais pobre por isso.)
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Direitos de autor e pirataria
Segundo o Correio da Manhã (via Blogtailors), «O eBook mais pirateado de 2009 foi o Kamasutra, com cem mil a 250 mil cópias registadas da obra erótica hindu."
Tão roubado, bem gostava eu de saber como é que o coitado do Vatsyayana vai viver e poder continuar a desenvolver as sólidas investigações que a obra evidencia.
Tão roubado, bem gostava eu de saber como é que o coitado do Vatsyayana vai viver e poder continuar a desenvolver as sólidas investigações que a obra evidencia.
IMAGEM: extraída da Wikipédia
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Melhores leituras de 2009
Não sou crítico, leio por prazer, e apenas o que me dá prazer. Dito isto, que já deixa antever que me estou nas tintas para os grandes livros do ano, para os encómios da crítica, graças aos quais tenho frequentemente enfiado grandes barretes, eis a minha selecção pessoal de livros 2009 --- um bom ano, que me deu a ler dois romances de excepção:
1. Jesusalém, de Mia Couto.
2. Myra, de Maria Velho da Costa.
Jesusalém é um prodígio de imaginação em que Mia Couto se revela um romancista que, mais do que escrever coisas giras, ambiciona produzir uma obra-prima. Daí a parcimónia neológica, cujas ocorrências são sempre lapidares (Por exemplo. Zaca, incumbido de matar a portuguesa, regressa sem o ter feito e desculpa-se: Desconsegui.). A ideia de acabar o Mundo e criar Jesusalém, onde Cristo seria descrucificado, o namoro do pai de Mwanito com a burra Jesibela, o diálogo entre a portuguesa e a amante moçambicana do marido, por exemplo, são momentos altos da literatura. Há ainda fragilidades, que Mia Couto seguramente eliminará em futuras obras: Mwanito, o fazedor de silêncios, nunca está calado, a aventura moçambicana do português é uma confusão quase tão grande como as confusões familiares, estilo Nouveau Roman, que dominam Venenos de Deus e ainda têm alguma proeminência na parte final deste extraordinário Jesusalém. O melhor romance que eu li em 2009.
Myra, a odisseia de uma adolescente russa em Portugal, Ulisses dos mil ardis, é uma narrativa linear que segue as deambulações da protagonista e do seu cão, às vezes Rambo. Mais do que as sucessivas peripécias, encontros e fugas, que nos vão dar a conhecer Kléber, a pintora, o cego e a sua cadela, o frade para quem a castidade é pecaminosa, o rapaz pardo e a sua casa inteligente, os marginais, a proxeneta brasileira e as vítimas da pedofilia, seduziu-me a sua linguagem nos limites da gramaticalidade, rigorosa, sugestiva, não raro elíptica (porquê? O melhor é lerem a obra). Diálogos extraordinários, técnica descritiva e narrativa invulgar, acção constante, tem como alguns dos momentos mais altos, para além dos acima referidos, os diálogos entre Myra e Rambo, que ocorrem com tal naturalidade que quem conversa com o seu cão, como eu faço, os aceita como verosímeis --- e daí aos diálogos entre Rambo e a gata siamesa é um pequeno passo, que damos quase sem nos apercebermos de que passámos para o campo do maravilhoso…
Desapreciei a ênfase na cultura e no requinte do rapaz pardo, não achei grande piada à casa inteligente, o episódio da tempestade é excessivo e inverosímil, e o car jacking final, com sequestro e homicídio, algo forçado…
Seguramente duas obras-primas da literatura de língua portuguesa, como o Tempo se encarregará de evidenciar.
1 de Janeiro
Passagem de ano
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