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quarta-feira, 30 de março de 2011

Outro Afeganistão

Leio que americanos e ingleses ponderam a possibilidade de armar os rebeldes líbios. Primeiro, tiveram o discernimento extraordinário de, à distância, conseguirem distinguir os bons dos maus e bombardear estes últimos; agora pensam armar os bonzinhos, em vez de forçar negociações entre as partes. Entenda-se: ficarei contente se Kadafi for apeado e enforcado. Pelo seu povo. Ficaria muito contente se se instaurasse na Líbia um regime que respeitasse os direitos básicos do ser humano. Mas o que vejo nas televisões são bandos a disparar entusiasticamente-- para o ar. A circular de carro, para trás e para diante, sem estratégia, sem táctica, aparentemente sem coordenação e sem comando. Razões de sobra para recear o pior. Quais as reais motivações, -- políticas, religiosas, tribais -- daquela turba anárquica? Como tratam os prisioneiros que fazem, os suspeitos de pertencerem ao outro lado? Que farão quando não houver um inimigo comum? Contra quem virarão as armas? Seguirão os senhores da guerra, ou, esquecido o gosto da matança, irão votar pacificamente em partidos a formar, num país que aparenta ser tribal?
Armem-nos e depois queixem-se. E quando não souberem como limpar a merda que entretanto fizeram, peçam-nos militares para a pacificação, que nós, portugueses, podemos pagar missões militares no Kosovo, no Afeganistão, creio que na Bósnia, até em Timor -- suficientemente rico para se vangloriar da possibilidade de comprar o lixo da nossa dívida.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Os amigos

São, diz o povo, para as ocasiões. Os bons amigos, para sempre. Não surpreende que Hugo Chávez exprima pesar pela renúncia do seu bom amigo português. Mas já devia ter percebido que o bom amigo português depressa abandona os seus bons amigos quando caídos em desgraça, como fez com Kadafi (por que razão tem H no nome?). Como sucederá com Chávez.

domingo, 27 de março de 2011

A importância da pose

Excelente post de Rentes de Carvalho sobre a importância social da pose. Que me fez recordar um episódio relatado pelo mestre Funakoshi, o homem que levou o Karaté de Okinawa para o Japão. O mestre ganhava então a vida como porteiro numa residência de estudantes e, quando varria a entrada, chegou cavalheiro importante a perguntar pelo famoso sensei Funakoshi. O velho mestre pediu licença para o ir chamar, entrou no prédio, tirou o avental, largou a vassoura, penteou-se e apresentou-se ao cavalheiro estupefacto: -- O porteiro veio dizer-me que me procurava...
Também eu já passei por situações semelhantes. Há vinte e tal anos, durante a construção da minha casa, cavava um cabouco, encharcado em suor, roupa enlameada, e sai de carrão senhor encasacado, engravatado, sapatos reluzentes, passa por mim como se eu não existisse,  nem sequer bom-dia sobranceiro, entra na casa e dirige-se ao pedreiro. À distância não oiço o que diz, mas, pelos gestos, a apontarem para mim, presumo que pergunta pelo patrão. Volta cabisbaixo para me tentar vender não sei que materiais, desmoralizado, sem convicção -- com razão, porque, digo-lhe, não tenho tempo para conversas, preciso de abrir o alicerce. Mas, acrescento para o pôr a andar,  se quiser ajudar, podemos conversar. Ora lá reza o rifão, antes uma mão inchada que uma enxada na mão...

FOTO: a cavar. Não um cabouco, mas o meu poço. Pouco depois da construção da casa.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Os sátrapas


Na hora da despedida, Pinto de Sousa recebe da chanceler alemã agradecimento pelos bons serviços prestados. Prova provada de que ainda há gratidão no mundo. Pelo menos no germânico. Nós, por cá, e cientes de que o o futuro próximo vai ser negro, agradecemos apenas a alegria que nos deu ontem. Que Merckel se não preocupe: nenhum dos nossos próximos sátrapas vai desobedecer às suas ordens.
Ave Imperatrix morituri te salutant.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Romantismos

Em tempo de desgraças (esta, esta), nada propício a comemorações, é preciso não esquecer bons momentos da vida, como aquele em que, 37 anos atrás, me casei.

Romantismos

É no que dá não pagar a luz. Até tenho uma boa justificação: no passado, aderi à factura electrónica e, posteriormente, o endereço de mail fornecido foi cancelado, sem que eu me lembrasse de o substituir. E perdi a password do site da EDP. Ora a EDP, apesar de receber o correio devolvido, continuou a enviá-lo para esse endereço inválido, e ontem, ao chegar à noite a casa, não tinha electricidade. Simpático, da parte de uma empresa que até me exigiu caução, nunca devolvida, a quem pago há quase 40 anos a conta exigida.
Constatação: completa dependência, quase tudo precisa de electricidade para funcionar, dos portões ao esquentador. Decisão: isto vai mudar, que a toca da raposa deve ter sempre duas saídas. Ontem cortaram por falta de pagamento (e não repuseram nem sei quando o farão, apesar de o pagamento ter sido imediatamente efectuado), amanhã pode ser por qualquer outra razão -- apagão, catástrofe natural, falência da empresa... Impossível, dir-me-ão. Mas empresas bem maiores também faliram...
Às escuras, restou-me fazer o jantar possível -- até o fogão é eléctrico! -- e comer na confusão do escritório, à luz do candeeiro da rua e de uma vela ornamental. Couves cozidas sobrantes da véspera, atum de lata, vinho... Nada como treinar sobrevivência nos tempos que correm, preparando aqueles que se avizinham, em que talvez nem haja lata de atum para adubar as couves.

Leitura recomendada

"Os apocaliptólogos", de Rui Rocha. No Delito de Opinião.

terça-feira, 22 de março de 2011

Lindo

João Alfaro, cada vez melhor. AQUI

Sem cortes orçamentais

Canta animado o verdelhão, indiferente à governação.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os Magalhães e os líbios

Parece que a Líbia de Kadafi, com mais ou menos H pelo meio do nome, seria a lança em África da J P Sá Couto e dos seus Magalhães. De facto, estes computadores, que o nosso governo distribuiu às pazadas e hoje devem ser sucata, não apresentam argumentos atraentes que justifiquem a sua compra no segmento em que concorrem, o dos netbook, e a empresa não soube ou não pôde acompanhar a moda dos tablets. Só mesmo no terceiro mundo, pela mão de ditadores amigos do nosso governo, poderiam ser impingidos às criancinhas, como por cá o foram. Sem proveito para o país e em prejuízo da educação.
Ao ver o que se passa na Líbia, é possível que a administração da empresa fabricante dos Magalhães desabafe como a mulher de político de esquerda, palrador com lugar cativo na TV, quando ele foi preso pela PIDE nos anos 70 por ser então militante do MRPP:
-- Lá se foram os cortinados!

domingo, 20 de março de 2011

Primavera

Dia lindo, quente, cantam os passarinhos animados -- só o meu coração está vestido de trevas. Espero estar enganado, mas a esperança esvaneceu-se. A minha mãe foi ligada ao ventilador.

sábado, 19 de março de 2011

Agradecimento

A todos os que manifestaram solidariedade, apoio e condolências pelo falecimento do meu sogro.
Muito obrigado.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Morreu um homem

A quem muito devo e a quem queria quase como se fosse meu pai: Eduardo Nunes,  meu sogro, assentador dos caminhos de ferro, rijo e seco como as incontáveis travessas da linha que assentou. Faria 85 anos no próximo domingo. Funeral amanhã, sexta, às 15H30.
Morreu um homem. Já restam poucos.

terça-feira, 15 de março de 2011

Um raio de Sol

Uma obra de arte não se explica. A não ser que o observador seja algo limitado. É o caso. Por isso, o Afonso explica-me: -- O céu, o Sol, e este és tu.
-- Mas não estou parecido!
-- És tu, quando eras mais novo.
Mas ternura, ternura, é dizer-me de um desenho que está a começar: -- Este é para a avó Isabel. 
Porque sabe que a bisavó está muito doente. E o Miguel, que em tudo imita o irmão mais velho, logo grita que também está a fazer um desenho para a avó Isabel.

domingo, 13 de março de 2011

Sobre a "geração à rasca" e a sua manif

Não fui à manifestação e, portanto, não sei o que se passou lá. A essa hora, estava no corredor dos Cuidados Intensivos da Cirurgia Toráxica, a aguardar que terminasse a operação à minha mãe. E quando um homem fala daquilo que não sabe só pode dizer asneiras, não importa o que tenha visto na televisão (e foi muito pouco) ou o que tenha lido, sobretudo nos blogues. Por isso, não me pronuncio sobre o número de manifestantes (e deve ser difícil contá-los, sobretudo se não pararem quietos), as respectivas ideologias e motivações, ou o apregoado civismo, que pode ser muito bem uma exteriorização de conformismo bem comportado. O que tenho a dizer não é novo e ninguém o vai querer ouvir, menos ainda seguir: é preciso mudar de rumo. Todos nós. Não basta culpar os partidos políticos por estarem alheados da sociedade (e estão, e sempre estiveram, e assim querem continuar, ou alguém acredita que os militantes fazem poleiros para os outros?), nem transferir a esperança para movimentos cívicos em país onde se cospe na via pública, se atravessa ao lado mas não sobre as passadeiras, onde os condutores se sentem reis e senhores das estradas, se adora a cunha e se ultrapassam os outros sempre que possível. Deixemo-nos de tretas: em Portugal não há civismo, como pode haver movimentos cívicos? Trata-se, e aí vai a solução que parecem procurar no pós-manif, de abandonar um estilo de vida insustentável (a realidade vai dar-me razão) e de procurar outros, menos urbanos, menos manga-de-alpaca, sem Ipads e Iphones, em que haja mais interesses na vida do que descarregar filmes, músicas, viajar para destinos exóticos. Para viver mais próximo da natureza e em harmonia com ela, pôr a produzir a terra onde ela for capaz de o fazer em vez de a cobrir de betão, reforçar os laços familiares e de amizade, comer o pão que se ganhou com o suor do rosto, recuperar os prazeres simples como saborear a água da fonte ou o vinho do produtor, ler um livro, ver um filme, ouvir uma música, conversar, amar...
Ou seja, abandonar o novo-riquismo urbano feito de centros comerciais onde as famílias passeiam aos domingos, e voltar à província, ao campo, à ruralidade, reabrir as escolas e os hospitais fechados. Não para viver como os nossos antepassados, odiando os vizinhos e lutando à enxadada por um palmo de terra numa sovinice repugnante. Mas para nos integrarmos no país possível. Para sermos mais felizes. Para sobrevivermos.

sábado, 12 de março de 2011

Annus horribilis

A minha mãe em Santa Maria, nos cuidados intensivos, culminar de complicações cumulativas que principiaram no início do ano, o meu sogro no Hospital de Torres Novas, vítima na segunda-feira passada de um AVC  que os médicos consideram irreversível. Ano de merda: cortes salariais, iminência de bancarrota, a catástrofe no Japão, as matanças na Líbia... E ainda estamos no princípio de Março. Quando uma boa notícia?
Adenda: a minha mãe foi ontem, sábado, operada de urgência à aorta. A intervenção correu bem e encontra-se estável. Quatro horas, peito aberto, coração parado durante 50 minutos. Diz o cirurgião que das operações ao coração é a que pode dar mais complicações.

sexta-feira, 11 de março de 2011

11 de Março de 1975

Tinha 20 anos, fazia a recruta no RI7, Leiria, como soldado instruendo e, como única informação do que se passava à minha volta, os boatos que logravam ultrapassar os altos muros do quartel. Recordam-me a efeméride posts que a analisam à distância de 36 anos, bem longe da agitação, das ameaças, da insegurança, do medo que nós, miúdos vivemos, enquanto apertávamos a G3, companheira inseparável e tranquilizadora. Eis o testemunho desse dia e daqueles que se seguiram, como o registei aqui, há um ano.

quinta-feira, 10 de março de 2011

De candeias às avessas

Meti na cabeça, problema meu, que por melhor que escreva, por melhores que sejam os meus romances e contos, não conseguirei captar o interesse dos editores. É que, como diz o povo, mais vale nascer engraçado do que ser engraçado. E, se dúvidas tivesse, posts como este, da editora Maria do Rosário Pedreira, dissipá-las-iam:
Com o valter hugo mãe, sinto, por exemplo, uma espécie de parentesco, como se ele fosse um irmão mais novo que me orgulhava de levar às festas porque fazia sempre brilharetes de encher o coração pelo lado da beleza. Alguns saberão que o valter me fez uma declaração de amor (enfim, à minha poesia) num 14 de Fevereiro de há três anos, (...)
Não é enternecedor? Não me interessa que seja o valter hugo mãe, que até escreve coisas interessantes. O que me interessa é a atitude. Ora eu não sei dançar, detesto bailes, nunca cultivei a lisonja, não nasci capaz de fazer  em festas "brilharetes de encher o coração pelo lado da beleza" -- estou feito, não é assim? 
Resta-me o consolo de escrever para aqueles leitores capazes de se darem ao trabalho de me lerem e, eventualmente, de apreciarem  não a minha pessoa, mas a minha escrita. Como, por exemplo, aquele que ao terminar a leitura de Entre Cós e Alpedriz, contou-me a mulher dele, meneou a cabeça  em sinal de aprovação e comentou: -- O filha da puta escreve bem!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Avisos

Avisei antes da invasão do Afeganistão e do Iraque, embora a Wikileaks me não faça nenhuma referência (grandes estúpidos!) -- os embaixadores americanos andavam distraídos e não deram o devido valor aos meus avisos; hoje estarão bem arrependidos, ao verem como os EUA se atolaram até ao pescoço em areias do deserto e disparates -- dizia eu então que toda a gente sabe como é que as guerras começam, ninguém pode prever como acabam; que é fácil começá-las, bem mais difícil terminá-las. Pois hoje acrescento: esqueçam esse disparate de invadir a Líbia. Encontrem formas inteligentes e não bélicas para derrotar o Kadafi, como deveriam ter encontrado para varrer do poder talibãs e Saddam, se o cheiro do petróleo os não tivesse embebedado. Como agora. Depois não digam que não os avisei.

Avô babado

No meio das desgraças quotidianas, mais duras as familiares do que as nacionais, mais estas do que as internacionais, embeveço-me com os meus netos: o Tiago, que começou a andar e não pára, o Miguel a falar exuberantemente, já com frases complexas bem estruturadas, o Afonso, que sem ter lido O Principezinho fez este desenho para a avó: por detrás da grade, na verdade a rede da capoeira, está um patinho. Que na vida real não existe, porque a minha capoeira não tem patos. E para que dúvidas não subsistam, ele próprio escreve o título de cada quadro. Isso mesmo. Escreve aos cinco anos, acabadinhos de fazer, não porque o ensinemos, mas porque ele quer saber e já aprendeu a escrever muitas palavras, algumas bem grandes, como elefante. E quando não sabe escrever, pergunta.
Mete o Miró a um canto.

Leitura recomendada

Do post de João Carvalho, no Delito de Opinião, sobre o disparate ortográfico que nos impuseram ou querem impor, não sei bem. Por mim, nada tenho a ver com essa aberração, especialmente gravosa no ensino, uma vez que os manuais e os livros de leitura obrigatória e facultativa estão em desacordo com este acordo e só daqui a muitos anos poderão ser substituídos. E não há formação digna de crédito, apenas acções de editoras, mais ou menos ansiosas para vender mais uns trastes.

Das cigarras e das formigas

Diverte-se o país em carnavais, enche os hotéis, espairece nos destinos turísticos habituais, discutem os menos favorecidos nos cafés a governação, preparam os mais esclarecidos a contestação – cada qual diverte-se como sabe, como quer ou como pode, mas, meus senhores, minhas senhoras, é a terra que dá as batatas e para as colher há que as plantar, como eu fiz neste fim-de-semana, nas Sesmarias.

quinta-feira, 3 de março de 2011

John Galliano: o estilista anti-semita

John Galliano, estilista italiano da casa Dior, foi despedido por anti-semitismo e vai ser julgado, arriscando-se a ser condenado a uns meses de prisão. Não é meu costume meter-me nestes assuntos, sempre duvidosos, e não tenho a menor simpatia por quem, em público, ofende os outros, as suas origens, a sua religião, a sua sexualidade. Eu próprio descendo de Silvas,  plantas daninhas, e de Catarinos, feijões humildes, apelidos que denotam remotas origens cristão-novas -- e ruim como sou corre-me nas veias, quase de certeza, sangue semita. Mas acontece que vi, uma vez após outra, que as televisões passam os escândalos até ao vómito, o filme que os ofendidos fizeram e puseram a circular.
O que vi então? Uma criatura avelhentada, avinagrada, apinocada, a desejar que os antepassados dos ofendidos tivessem sido exterminados. A suspirar por Hitler e pelo seu Reich, não tanto por convicção, parece-me, mas por impotência face a eventual provocação anterior. Nazismo? Anti-semitismo? Duvido muito. As câmaras de gás não se encheram apenas com judeus. Também estilistas como este, mais ou menos estilosos, amaneirados, aperaltados, lá foram gaseados. Inclino-me mais para provocação dos jovens e resposta inadequada, inconveniente, a traduzir a impotência do pobre estilista, Rei (agora deposto) na Dior, criatura desprezível e insignificante na brasserie.
Criatura que caiu em desgraça porque é mediática. Não duvido de que se o estilista fosse taxista, magarefe, professor, não importa o quê desde que cidadão anónimo, a cena não iria muito além da troca mútua de insultos, acompanhados talvez de safanões e de sopapos.

Acidente com arma (2)

A pistola-metralhadora FBP era falsa, todos o sabíamos. Por isso nós, furriéis milicianos, nunca tínhamos balas no carregador, que aquela descendente da francesa Vigneron disparava por nervosismo, stress, pequenos impactos... Qualquer pretexto lhe servia. Boa para a luta nas ruas, onde importa disparar primeiro, com as suas balas derrubantes de 9 milímetros, perigosa em situações de paz, quase inútil no mato, com o seu tra-tra amaricado, incapaz de impor respeito ao inimigo como fazia a G3, de estrondo másculo e coice poderoso, a amiga fiel do soldado e do oficial. Mas era a arma padrão do sargento e sargento, naquele tempo, salvo nas forças especiais, não sabia usar arma: era o escriturário, o amanuense, o manga-de-alpaca, a guerra entregue aos milicianos. Pois não sei porquê, mas naquele dia o sargento de serviço, sargento de dia, era do quadro e levou à risca as suas obrigações, carregando a tiracolo a FBP regulamentar, carregador bem abastecido, quando foi fazer a revista ao pessoal de serviço, costas para a parede da caserna – que  crivou de balas, sem atingir os soldados, os quais, com os reflexos apurados em tiroteios, prontamente se lançaram ao chão. E o sorja lateiro, em pânico: -- Acudam, acudam, parem-me esta coisa! -- enquanto a pistola-metralhadora continuava a vomitar balas em todas as direcções…

Acidente com arma

Alguém disse ao velho que a sua jovem mulher andava metida com outro – o seu melhor amigo. E ele, rancoroso, calou-se bem calado. A vida dos três continuou a decorrer pacatamente na normalidade aldeã até que, num belo dia (convém que o tempo não seja elemento de perturbação na história) pediu ao amigo, pedreiro: -- Havias de me ir ver o telhado, que mete água quando chove, isto também porque só se sobe ao telhado em belos dias, para não partir as telhas, para não escorregar e cair.
E o pedreiro foi. Então o amigo deu-lhe um tiro e o amigo caiu redondo no chão, já morto. No julgamento todos testemunharam que eram amigos, nunca entre eles houvera disputas, nunca se disseram palavras azedas. Tão amigos que o defunto até tinha jantado em sua casa na véspera e almoçaria nela se não tivesse morrido por acidente, quando a caçadeira que limpava se disparou por acaso. Não sei se os juízes percebem de armas, nem por que lhe não perguntaram como se limpa arma carregada, por que se limpa a arma com o cano apontado para o telhado, exactamente para o amigo que substituía telhas partidas. Foi absolvido. Todos sabiam que fora ajuste de contas por conta do par de cornos, mas a vida nas aldeias é assim, comenta-se e nunca se diz, menos em tribunal, ninguém quer arrostar com uma carga de trabalhos, nada devolverá a vida ao morto, e ainda acabariam processados por calúnias, difamação, onde obter as provas, se o tribunal, com os meios para as conseguir, se deu por satisfeito com as evidências (como gosto da palavra!) apresentadas?
Ora tempos depois o nosso matador resolveu matar o porco, na via pública, como sempre se fez desde tempos imemoriais. Passa a GNR, processo, coimas: dez contos!
E o nosso homem, descontente com o desconcerto do mundo: -- Matei um homem, não me custou nada. Matei um porco, dez contos de multa!

Acidentes com armas de fogo

O mínimo que o cidadão pode esperar das suas forças de segurança é que saibam manusear as armas que lhes são distribuídas, o que pressupõe, antes de mais, o saberem que as armas matam e, portanto, em circunstância alguma podem ser descurados os procedimentos de segurança. No meu tempo de recruta, apesar de não termos balas nas G3, bastava o cano apontar na direcção de um camarada para ouvirmos o furriel ou o alferes:
--- Já no chão, a encher!
É que a cabeça é algo burra, aprende-se melhor com o corpo. E o corpo aprendia que os "acidentes" ocorrem sempre com armas descarregadas ou em circunstâncias não intencionais -- matéria para outro post, logo à noite.
Por tudo isto, tantos anos passados, continuo sem compreender como é que numa esquadra de polícia um agente, demais a mais superior hierárquico, atinge acidental e mortalmente um camarada. Não conheço as pistolas Clock (creio que é assim que se escreve). Presumo que sejam mais seguras que as antigas Walter, sempre fiáveis. Alguém de bom senso me consegue explicar:
  1. Como é que a arma tinha bala na câmara e porquê?
  2. Como é que a patilha de segurança estava destravada e porquê?
  3. Como é que o dedo apertou o gatilho e porquê?
  4. Como é que no meio de tanto acontecimento fortuito e improvável a bala foi logo alojar-se no ventre do camarada que tinha acabado de entrar?
Azares do caraças. Excessivos para a minha compreensão, sempre limitada.

terça-feira, 1 de março de 2011

Socialismo e bananas

A propósito do encontro de hoje entre Sócrates e Merckel, recordei-me de uma velha piada do tempo da guerra fria, a que falta o nhã-nhã-nhã das crianças que se arreliam mutuamente:
Dois miúdos, um de cada lado do Muro de Berlim, atazanam-se:
-- Eu tenho uma banana e tu não!
-- Mas eu tenho o socialismo e tu não!
-- Mas com o senhor W. Brandt eu também vou ter o socialismo!
-- E então diz adeus às bananas!
NOTA: a anedota está desactualizada. Como é sabido, o Partido Socialista foi substituído pelo Partido Sócrates. Pelo que podemos estar descansados: hoje acabam-se as bananas, mas continuaremos a ter os bananas. No governo, para nosso desgoverno.

Leitura indispensável

O post de José Ricardo, hoje, no seu blogue Ponteiros Parados (eram dois os ponteiros, mas um arranjou o seu próprio espaço) sobre a importância do silêncio, nomeadamente nas bibliotecas. Post perfeito, só posso acrescentar que me revejo inteiramente nele e invejo o talento do autor...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Boa leitura

Efeito borboleta e outras histórias, de José Mário Silva. Histórias muito bem urdidas, muito bem escritas e contadas. Do melhor que li ultimamente no género -- e leio muito, embora, seguramente, bem menos do que este autor. Parabéns.
Já quanto à poesia (Luz indecisa), também incluída, não faz o meu género. Questão de gosto, ou, talvez, de falta dele.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sapadores

Cinco militares mortos em acidente em centro internacional de desminagem. Quando andei na tropa, dizia-se dos sapadores que só erram duas vezes. A primeira e a última.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Soliso amalelo

Deve ser o dos chineses, a verem-nos afundar, afundar, sem saber nadar. É que, depois, quem lhes vai comprar os produtos fabricados nas "nossas" fábricas deslocalizadas? Quem os vai ressarcir dos prejuízos com a nossa dívida pública, e a dos americanos? Para quem vão eles fabricar os Iphones e os Ipads e os Isei-lá-que-mais? Ainda se a China fosse potência imperialista, daquelas que quer pôr o John Waine ou o Jackie Chan a zelar pela ordem mundial! Mas não, em cinco mil anos de história (desculpem imprecisões, lido mal com o tempo, e o jantar, caras de bacalhau com couves da minha horta, alho, azeite, pão torrado, estava mesmo bom, e o meu vinho não é água), em cinco mil anos de história,  escrevia, mais ano menos ano, nunca o Império do Meio se interessou pelos bárbaros brancos ou os procurou civilizar, pelo que não estarão agora interessados em nos governar, menos ainda em nos aturar. E se a China não crescer os seus não-sei-quantos-por cento ao ano como dará esperança aos milhões (mais um, menos um) de jovens desempregados da sua geração parva? E com o preço do petróleo a disparar para valores inimagináveis, como vai sustentar o crescimento? Bom, já se viu que nada percebo de economia nem de finanças, mas aposto que os chineses encaram a situação mundial e, em especial, a portuguesa, com um tera-giga-mega-hiper-super soliso amalelo.
Imagem: extraída de Bubishi, R. Habersetzer
(Comment allez-vous, sensei? Ça fai déjà dix ans qu'on s'est rencontrés à Strasbourg, le temps passe trop vite, on le sait.)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sinal dos tempos

Até as andorinhas andam exaltadas, não sei se da crise, se da desgovernação, se do futebol. Ou se de tudo isto.
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Paradoxos

Deste país e deste povo: tantos "aos carimbos" (vai-se às empresas que se sabe não necessitarem de funcionários e pede-se que carimbem papel comprovativo de que não têm emprego para o candidato, que assim comprova no Centro de Emprego que está a procurar trabalho) e anúncios como este, hoje. Café Ice Cream, Entroncamento.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

La solitude

Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'une autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
J'attends des mutants. Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais...

la solitude...

Les moules sont d'une texture nouvelle, je vous avertis. Ils ont été coulés demain matin. Si vous n'avez pas, dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée, il est inutile de vous transmettre, il est inutile de regarder devant vous car devant c'est derrière, la nuit c'est le jour. Et...

la solitude...

Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues, soient aussi imperturbables que les feux d'arrêt ou de voie libre. Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau. Et pourtant...

la solitude...

Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l'appellerons "bonheur", les mots que vous employez n'étant plus " les mots" mais une sorte de conduit à travers lequel les analphabètes se font bonne conscience. Mais...

la solitude...

Le Code civil nous en parlerons plus tard. Pour le moment, je voudrais codifier l'incodifiable. Je voudrais mesurer vos danaïdes démocraties.
Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit, le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité. La lucidité se tient dans mon froc.

Léo Ferré

Profecias

Antes de mais, e para que não haja equívocos, a minha solidariedade para com os árabes que lutam  contra a tirania e morrem nas ruas -- hoje, só numa cidade líbia, terão sido assassinados mais de 200.
Leva avante, e não temer...
Pela santa liberdade,
Triunfar ou padecer...
(1)
Por todo o lado, os povos do terceiro mundo, há demasiado tempo oprimidos, privados de esperança e, sobretudo, dos seus recursos naturais, vão levantar-se uns após outros. Más notícias para nós, na velha Europa, há séculos a viver melhor ou pior, quase sempre acima das nossa possibilidades -- à custa de quem? Más notícias para o nosso governo que ainda tem a esperança de escapar ao "auxílio" da União Europeia e do FMI, péssimas para todos aqueles que protestam contra os combustíveis caros, contra o desemprego, contra a carestia da vida: o  petróleo vai subir até valores impensáveis,  os preços de todos os bens, alimentos incluídos, vão disparar, e nem as energias renováveis ou as barragens nos vão valer. Se tivéssemos energia nuclear seria menos mau, mas foi mais divertido alinhar em campanhas "nuclear? Não, obrigado."
Também o já periclitante desequilíbrio de forças, que tem permitido a Israel fazer o que bem entende, tem os seus dias contados: os novos regimes não serão tão simpáticos, tão compreensivos, tão tolerantes como o foram os dos déspotas apeados ou  a apear, quanto mais não seja porque os seus povos não o permitirão, e com um Irão nuclear a política dos falcões judeus de extrema-direita terá de dar lugar a opções mais dialogantes, mais pacifistas. Goste-se ou não, é o que vai acontecer.
E nós, portugueses? Bom, para que não subsista a dúvida de saber quem se vai lixar, recorde-se  o anexim do mar e do mexilhão. Depois, há muita terra inculta. Para férias, em vez da República Dominicana, talvez uma praia portuguesa, pese embora o desconforto daqueles a quem revolta ouvir labreguices ao nosso povo (noutras línguas não lhes parecem tão mal). Haverá emprego para gente qualificada, i. e., que saiba e queira fazer alguma coisa de útil. A parcimónia impor-se-á, queiramos ou não. A mudança de rumo também, embora receie que só após violentas convulsões sociais.
(1) Versão  constante de A Brasileira de Prazins, Camilo Castelo Branco.

O problema nacional

Consiste a ironia em afirma algo querendo significar o contrário. Um exemplo bem actual é o post de Rentes de Carvalho "Em defesa do Dr. Armando Vara":
"Tivesse este país muitos homens como o Dr. Armando Vara não estaríamos como estamos."
Ou, lendo ao contrário, pobre país que tem, e sempre teve, tantos doutores da mula ruça, os quais logram convencer a plebe de que com a nossa (leia-se: deles) ancestral chico-esperteza conseguimos enganar o mundo inteiro e arredores e dar sempre a volta por cima. E quando as coisas começam a correr mal, a culpa é  dos outros, às armas, nobre povo, nação valente, imortal, mesmo que nos lixem nas taxas de juro, na economia, ah, havemos de os bater no futebol nem que tenhamos de naturalizar  à pressa os jogadores brasileiros, africanos, sul americanos, não importa -- a não ser que nos roubem as arbitragens.
Porque as qualidades que engrandecem outras nações, desprovidas da nossa esperteza, o honesto estudo com muita experiência misturado, são perda de tempo, são burrices desses povos que ainda se não converteram às novas oportunidades com muitos magalhães e quadros electrónicos misturadas.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Tai Chi Chuan e eu

Estrasburgo, 2000. Treino de Tai Chi
Maravilhou-me a elegância  do Tai Chi, logo da primeira vez vi executar, há uns bons 20 e tantos anos. Eu praticava um karaté de baixíssimo nível técnico, que privilegiava a força e a brutidade, apesar dos avisos em contrário que já então o sensei Vilaça Pinto fazia ouvir -- e nós, se escutávamos os seus conselhos (que remédio, era o mestre a falar), ignorávamo-los na prática, como se a nossa máxima fosse "quanto mais bruto melhor". 
O Tai Chi foi-nos apresentado como o remédio miraculoso que evitaria a doença, afastaria a velhice, adiaria a morte. Por isso o treinei afincadamente, o que seguramente me não fez mal nenhum. Mas, acredito-o hoje, muito me beneficiou ter continuado a  praticar em simultâneo o karaté, apesar do inconveniente óbvio de ter limitado os meus progressos tanto na suave arte chinesa como no mais rude e aparentemente mais tosco karaté. Vários dos companheiros de então foram levados pela doença e pela morte, apesar de treinarem  afincadamente o Tai Chi. Alguns sofreram graves enfermidades. Outros exibiam barrigas bem prósperas, que faziam rir os velhos karatekas. E num seminário com Yang Jwing- Ming, o mestre contou-nos que sofria do coração, problema congénito e familiar. Que, ao sabê-lo, protestou junto do médico: -- Mas eu faço 12 horas diárias de Tai Chi! E o médico: -- Pois, o Tai Chi é óptimo para combater o stress e baixar a tensão arterial. Mas para combater o colesterol precisa de fazer exercício violento.
Aproximava-me dos cinquenta. A escola em que treinava tinha abandonado o karaté em favor do Tai Chi. Entendi chegada a hora de agradecer tudo o que tinham feito por mim e mudar de rumo. E voltei a dedicar-me exclusivamente ao karaté. 
Aproximo-me dos sessenta. Muitos dos karatekas do meu tempo abandonaram a prática, uns por desinteresse, outros por razões de saúde, que os anos não perdoam. Enquanto puder, continuarei. Quando não treino durmo pior, sinto as pernas presas, surgem dores aqui e ali. E o Tai Chi? Primeiro pensava: quando não puder treinar karaté, volto-me então novamente para ele. Hoje duvido. Afinal, um passeio enérgico, uma kata executada de acordo com as nossas capacidades físicas trarão seguramente mais benefícios. Perdi há muito a fé na magia do Tai Chi, seja ele Yang ou Chen.

Hurt, Johnny Cash

Recomendada pelo Jeroen, meu sobrinho, talvez o mais português dos holandeses:
Olá zé,
se gostas "os velhos" talvez também gostas este canção: johny cash - hurt
http://www.youtube.com/watch?v=o22eIJDtKho

Jeroen.
Muito obrigado.

Esclarecimentos

O post anterior, “Geração à rasca: discordâncias” suscitou comentários discordantes, o que muito me agrada porque (i) confirma que o blogue tem leitores atentos e (ii) que esses leitores têm sentido crítico e não hesitam em o exercer. Mas receio não ter sido bem interpretado.
Ora mal vão as coisas quando um texto precisa de outro a esclarecer o seu significado: ou não estava bem escrito, ou não foi bem compreendido. Se não foi bem escrito – e nem a pressa pode servir de atenuante – deveria tê-lo sido; se não foi devidamente entendido, ou os leitores o não leram com a devida atenção, ou se concentraram em aspectos porventura menos relevantes, incomodados, talvez pela referência final aos Deolinda. Como só a primeira hipótese, a da deficiente redacção, é da minha responsabilidade, retomo as ideias do post:
  • Desagrada-me que se atribua aos privilégios da minha geração a responsabilidade pela situação da chamada geração “à rasca”, e apresento argumentos de natureza pessoal.
  • Discordo do recente lugar-comum segundo o qual essa geração é a mais qualificada ou a mais habilitada de sempre.
  • É uma desonestidade intelectual proceder a generalizações sobre o desemprego entre os licenciados como se as respectivas licenciaturas fossem iguais na duração, na natureza, no conhecimento obtido, na procura por parte dos empregadores.
  • Admito que a frase final choque e seja até vista como provocatória pelos fãs dos Deolinda. Questão de gosto – ou da minha falta dele.

Geração à rasca: discordâncias

Relativamente a algumas das ideias deste post e a outras correlativas que por aí circulam. 
1. Desagrada-me a conversa de que a geração "à rasca" se encontre em tal situação, não por a casa-de-banho dos pais estar ocupada com tantos moradores lá no apartamento, quando  alguns há muito deveriam ter batido a asa, mas por causa dos privilégios da geração anterior -- a minha. Que diabo, vivi o salazarismo (se querem saber como era, leiam Entre Cós e Alpedriz, que podem descarregar gratuitamente aqui), a crise energética associada ao marcelismo, a agitação e a instabilidade do 25 de Abril ao 25 de Novembro, sempre com a espada de Dâmocles da guerra colonial suspensa sobre a minha cabeça, passei privações que hoje levariam a pedidos de ajuda às organizações humanitárias, fiz a trabalhar e paguei do meu bolso a minha licenciatura, sofri o FMI, fiz um mestrado a sério (dissertação disponível aqui), a trabalhar e às minhas expensas, progredi na carreira passo a passo, vejo a reforma possível cortada cerce, em risco até, pois o dinheiro dos meus descontos é gasto em subsídios a quem nunca, ou pouco, trabalhou -- e somos nós, eu e os outros como eu, que pagámos os estudos dos nossos filhos, que os apoiámos quando necessário, como apoiamos hoje os nossos pais, os culpados? Que diabo, tenho 37 anos de descontos, fui servente de pedreiro, operário de plásticos, tropa à força, professor sem habilitação, com habilitação, estagiário, efectivo, agora já nem sei o quê... Ricardo Vicente, tenha dó!
2. Não é verdade que a geração "à rasca" seja, como se repete na televisão, a mais qualificada de sempre. Nem sequer a mais habilitada, o que é coisa muito diferente. Têm diplomas em barda graças a Bolonha, reconheço. O que não reconheço é valor a licenciaturas de de 2 ou 3 anos, mestrados de um, sem tese. Muitos, da faculdade conhecerão pouco mais do que as praxes e as semanas académicas. Muitos nem escrever sabem (coitados, são disléxicos). Muitos fizeram cursos da treta, sabendo que para nada serviriam.
3. Há anos, dizia então o bastonário da ordem dos advogados que a ordem recebia 700 novos pedidos de inscrição por mês, o que era incomportável num país com a dimensão do nosso. Acrescentem-se os licenciados em comunicação social, em letras, em cursos que não lembrariam ao diabo -- e venha alguém cantar que precisa de estudar para ser escrava, ou parva, como se auto-caracteriza.
4. Ontem, na SIC, o presidente do Técnico (creio que é esse o título) apontava uma taxa de empregabilidade de, salvo erro de memória, 98% nos primeiros 6 meses após conclusão da licenciatura. Se mais engenheiros formasse, mais empregaria. E punha a par exigência na formação com empregabilidade.
5. Há muitos anos que insisto com os meus alunos: precisam de se aplicar  a Português (a minha disciplina), Matemática, Física, Inglês. Resposta: não gostam, como se estudo tivesse de ser, pelo menos no seu início, fonte de prazer. E optam por Sociologia, Geografia, Espanhol, etc., disciplinas de interesse, sem dúvida, mas que lhes não permitem a entrada no Técnico, nem em nenhum outro curso de empregabilidade elevada. Com  pessimismo ancestral, respondem-me que todos os cursos servem para o desemprego. Vivam os Deolinda, música a condizer com a letra. Uma merda. O rei vai nu e é preciso dizê-lo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os velhos

Old folks, John Denver. Adaptação de Les Vieux, de Brel. Álbum Whose garden was this.

Os velhos

Les vieux, de Jacques Brel

Leitura do dia

Diário irregular, de Sérgio de Almeida Correia. No Delito de Opinião. E, também no DO, para mim o melhor blogue português, outro excelente post, que registo com atraso:  O estado agiota, por Pedro Correia.

Relativismo moral

Suponhamos que me proponho descrever o ataque e a tomada de um navio de passageiros ou de um avião. Por exemplo, o Achille Lauro, ocupado  por um comando palestiniano em 1985. Se adoptar o ponto de vista dos atacantes, falarei de revolucionários heróicos que lutam por uma causa que consideram justa. Se, pelo contrário, abraçar o ponto de vista oposto, falarei em pirataria cruel, que não hesita em assassinar e deitar borda fora um passageiro paraplégico. Aparentemente, ambos os pontos de vista são defensáveis, talvez até legítimos. Mas acontece que eu recuso o relativismo moral, embora não seja ingénuo ao ponto de condenar em absoluto o Mal, que tem o seu papel como força motriz da história: sem a maldade, viveríamos ainda felizes e inconscientes no Jardim do Éden e conversaríamos amenamente com o Senhor quando, ao fim da tarde, fizesse o seu passeio refrescante...
Preciso, portanto, de dar conta dos vários pontos de vista, das suas hipocrisias, incoerências, inconsequências e consequências. De mostrar que em nome da Razão e do Bem se cometem atrocidades. De alertar para os perigos das boas intenções (lá diz o povo, delas está o Inferno cheio) e, sobretudo, de não transformar terroristas em cavalheiros cultos, aventureiros, empenhados no progresso social.
Assim, regicídio, ditadura salazarista, nazismo, comunismo, assaltos a embarcações turísticas e a aviões civis, etc. (a lista seria infindável) surgirão como acontecimentos historicamente datados, contextualizados, mas não como actos dignos de admiração e de imitação.Tarefa difícil? Talvez, que será tentador tomar por bons os testemunhos dos intervenientes, sempre interessados em branquear as suas acções perante as gerações vindouras, os quais aparentam sobremaneira ser credíveis se simpáticos, cultos, com modos cavalheirescos e, a cereja em cima do bolo, quando falam fluentemente Francês.
E, porque se pode aprender muito com os mestres, nada como ler Camilo Castelo Branco, que tão bem resolve este tipo de narrações paradoxais. Por exemplo, Onde está a felicidade ou A Brasileira de Prazins.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Arrogância intelectual

Aprecio muito um trabalho bem escrito, fundamentado em investigação rigorosa. Mas não tenho paciência para com aqueles que, tendo trabalhado, tendo investigado, não aceitam críticas.  Essa atitude releva da arrogância intelectual e, infelizmente, é mal nacional, sobretudo na blogosfera.

Objecções de consciência

Já fui um número. Não gostei. Recuso voltar a sê-lo, até porque não vejo qualquer razão justificativa. Façam o favor de me tratar pelo nome: Zé para os amigos, Cipriano, nome artístico na profissão, José Catarino, aqui, na Net, até descobrir, graças aos avisos do Google, que é nome comum a muita gente pouco recomendável -- e, para evitar confusões, passei a assinar por inteiro, José Cipriano Catarino.
Um nome, e não um número, confunde os serviços administrativos, que parecem incapazes de fazer uma ordenação alfabética, mesmo com os computadores? Paciência.
Eis uma objecção de consciência, entre muitas que tenho, irrelevante para os outros, importante para mim, soldado instruendo 1093975. Há 36 anos, exactamente. No RI 7, em Leiria, incorporado à força aos 20 anos.