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sábado, 30 de abril de 2011

Portugal tem talentos


Que imitam na perfeição a voz, os requebros, os trejeitos, a mímica, os tiques de Jorge Palma, Rui Veloso, Manuel Freire. Outros clonam perfeitamente as receitas literárias da moda. Quais camaleões, olhamos para eles, mas apenas conseguimos ver os originais que copiam. Só não se imitam a si próprios. Talvez porque o sucesso de que gozam os impeça de compreender isto: 
Quando tu fores Tu, não haverá mais Deus nem Demónio.
FOTO: (clicar para ampliar). Sardanisca à caça no meu quintal. Como ela, antes réptil humilde que camaleão  bem sucedido.

Elogios


Sobejamente conhecidos, do tempo em que havia crítica, debate, confronto de ideias. Tão bons que geraram inimigos do peito. Porque, naquele tempo, o valor de um homem media-se pelo dos seus inimigos.
“A sua tese tem tanto de bom como de original. Infelizmente, o que é bom não é original; o que é original não é bom.” Marcelo Caetano para já me não lembro quem.
“A sua tese é uma excelente súmula das leituras feitas.” Lindley Cintra para não digo quem.
“É um excelente romance do século XIX.” Vergílio Ferreira sobre Mau tempo no canal.

Escrita feliz

Ouço-os: a escrita sai-lhes naturalmente, sem sofrimento nem especial esforço. Escrevem por prazer, ou não o fariam. Um, que vende em barda, confessa até que não conhece a branca do escritor. O seu problema está na falta de tempo e não na de ideias, pelo que se fica por modestas trinta páginas diárias.
Escrevem como eu cago. E o resultado não é muito diferente.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Ventos contrários

Não me refiro às sondagens que sugerem nova vitória de Sócrates, nem às notícias que, diariamente, os media inventam sobre o pacote do FMI & C.a. Relativamente a essas duas tragédias, estou conformado: só tenho um voto e não será para o PS; quanto aos cortes, lá diz  povo, vão-se os anéis e fiquem os dedos. Não. Os ventos contrários são os que ameaçam a minha agricultura, com previsão de mau tempo para o fim-de-semana; tenho a vinha e as batatas para curar, o feijão e o milho para semear, e assim não dá. É certo que uma desgraça nunca vem só, mas não poderia chover apenas de segunda a sexta?
FOTO: Lisboa, 2009

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Literatura sem palavras

A "Universidade do Porto lança um desafio à criatividade, ao sintetismo e à imaginação de toda a comunidade: escrever um micro-conto de ficção com apenas 100 palavras..."

Aprecio o micro-conto, já escrevi alguns, mas cem palavras? Como contar uma história, transmitir ideias, exprimir sentimentos e sensações, criar ambiente, num texto do tamanho deste post? Tudo se faz, evidentemente, mas a que preço? Se há matéria em que a miniaturização me parece pouco apetecível, ei-la.
Avizinha-se uma nova literatura, especialmente concebida para analfabetos: sem palavras, para não ser preciso ler. Idealmente, uma página em branco, para acompanhar com música bem batida.
(100 palavras)

A excepção e a regra

O acordo entre os ferroviários e a CP que levou à desconvocação da greve alargada tem argumentação deveras arrevesada, que sugere descarrilamento da empresa:
Em causa estão os cortes salariais, abrangidos no Orçamento do Estado, nas horas extraordinárias, no horário nocturno, nos dias de descanso e nos feriados que ficarão sem efeito, caso o acordo tiver o aval das duas tutelas, tendo em conta a excepção de a CP depender directamente do trabalho extraordinário dos funcionários para o regular funcionamento.
Como é que pode  "a CP depender directamente do trabalho extraordinário dos funcionários para o regular funcionamento"? Vai a actual administração exigir a reposição dos prémios pagos às anteriores administrações que permitiram que a CP se transformasse numa empresa de trabalho extraordinário num país em que o desemprego é revoltante? Vão os sindicatos exigir a pronta admissão de novos trabalhadores para evitar esta dependência escandalosa do trabalho extraordinário? Alguém vai rever o conceito de trabalho extraordinário (é que, li, só por se apresentarem ao serviço têm direito a prémio de produtividade de 6 euros!) ? Vai alguém fazer alguma coisa ou esperamos pela falência da empresa, precedida de novas greves?

Atónito

Gripe violenta e sequelas subsequentes atordoaram-me de tal forma nos últimos tempos, que hoje, ao ler as notícias que dão maioria ao PS, julguei delirar. Não, não sou eu que deliro, é o país, lá pelos algarves, brasis, repúblicas dominicanas. É o país, cujos infelizes sem direito a ponte fazem greve, indignados com a injustiça de terem de trabalhar enquanto os outros se regalam à chuva na praia -- afinal, com toda a gente de férias, a quem, senão a mim, faz falta o comboio?
Parecia brincadeira de crianças derrotar este PS, que nos conduziu à perda da independência, à bancarrota, num percurso errático e alucinado, sempre destruindo o que jurava defender e não cumprindo nada do prometido. Pois parecia. Mas esquecemos as motivações básicas do povo: pão e circo. Enquanto não faltarem -- e circo como o de Sócrates jamais se viu -- o povo depressa esquece / e tornará a votar PêEsse.

ADENDA: a greve dos maquinistas foi desconvocada. Sugiro atestado médico.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Alarmismo social

Por parte, precisamente, daqueles que deviam ser o garante da estabilidade das instituições. Falo dos militares, que berram desalmadamente apenas porque não receberam no dia (por eles) previsto. Acalmem-se, quando o pagamento faltar será para todos, não apenas para a tropa. E, entretanto, podem aproveitar o dia de jejum para pensar em todos os trabalhadores que têm ou tiveram salários verdadeiramente em atraso. Para reflectir sobre a necessidade que Portugal tem de tantos oficiais superiores em terra, na força aérea, na marinha. Sobre o excesso escandaloso de mordomias. Sobre a possibilidade de pôr à venda os novos brinquedos bélicos como os submarinos, que devem estar como novos, sem uso. Em restringir a participação em missões de paz , só aceitando aquelas cujos beligerantes paguem a conta. Exactamente no dia 20 de cada mês.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Amante Holandesa

Os leitores que me conhecem sabem que não sou dado à lisonja; aqueles que me não conhecem, façam uma pesquisa e apontem-me elogios aos escritores e poetas da moda. 
Pois bem, finalmente consegui comprar uns livros de Rentes de Carvalho, comecei a leitura por A Amante Holandesa, e digo e escrevo: é muito bom. Lê-se de um fôlego, muito bem escrito, técnica primorosa. Obra de mestre.
Há, claro, o risco de o autor pensar que o estou a engraxar, João. Mas olha: estou muito mais interessado no que José Rentes de Carvalho escreve do que naquilo que possa pensar de mim. E o sacana é mesmo bom!

Primavera

O chilrear das andorinhas, sempre azafamadas, o perdigão a chamar o bando, no sábado passado o cantar do cuco. É a Primavera, a tentar alegrar-me no meio das desgraças.
Foto: roubada da Wikipedia, que nunca vi nenhum no campo.

A Europa e eu

Nunca fui europeísta. Não é de agora, quando os nossos "irmãos" alemães nos querem fritar para castigo dos nossos erros, mas de sempre. Discordei dos fundos comunitários entregues a espertalhões que prontamente os converteram em jipes, em apartamentos com vista para o rio, em roupa de marca, europeia, claro, óculos de sol a milhares de contos. E em viagens constantes, ditas de sonho, porque, tentaram-me convencer, estamos neste mundo para passar férias em locais exóticos, longe da vulgaridade nacional. E riam-se de mim, quando lhes cjtava Álvaro Pais: --- Bom Londres é Portugal!
Indignei-me com a propaganda do Clube Europeu da minha escola e, sobretudo, com um autocolante, repugnante do azul à estupidez do slogan "A minha pátria é a Europa"... E então a conversa interminável, que fui obrigado a gramar, sobre a "Europa da Regiões", que opunham à das nações, agoniava-me até ao vómito.
Se simpatias, mesmo escondidas, ainda tivesse pela integração europeia, o julgamento do Tintin no Congo por racismo, oitenta anos depois de ter sido publicado, e qualquer que seja a decisão do tribunal, dissipá-las-ia prontamente. Esta Europa, onde me querem obrigar a viver, cada vez me agrada menos. Até mesmo como vizinha. Venha de lá a Jangada de Pedra.

sábado, 16 de abril de 2011

O melhor escritor

Quem é melhor escritor? Aquele que publica regularmente e vende em barda, é célebre, conhece a glória, ou o pobre diabo que escreve discretamente ao longo da vida e talvez até deixe obra-prima inédita, a publicar a título póstumo?  O autor fácil, o difícil, o popular? Aquele que é fotogénico, bem falante, irreverente, fazedor de escândalos que animam os palcos mediáticos, ou o que foge da luz como o diabo da cruz? Questões ociosas, que escapam a respostas cabais. Porque dependerão sempre da subjectividade de quem responde. E porque ocioso estou eu, por força de gripe e do adiantado da hora, lembrei-me do Barthes:

l'écrivain est un homme qui absorbe radicalement le pourquoi du monde dans un comment écrire.
Traduzo, que já la vai o tempo em que todos os portugueses, excepto os emigrantes, falavam Francês, como disse Herbert Pagani numa entrevista:
o escritor é um homem que absorve radicalmente o porquê do mundo num como escrever
Tudo o resto, sucesso, vendas, prémios, formas, géneros, temas, etc., é secundário. O que importa, para Barthes, para mim, é ser capaz de absorver os dramas da existência, o mistério da vida, e plasmar tudo isso num como escrever, como farão, em suportes diferentes, os pintores, os músicos, os escultores...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Desenquadramento

Os partidos políticos teimam em me deixar sem escolha também nas próximas eleições. Porque, viciados na retórica tola com que nos vêm anestesiando desde o 25 de Abril e na procura do efeito mediático, simplesmente não se conseguem calar, não conseguem impedir os disparates que prontamente jorram da boca dos seus dirigentes mal vêem câmaras de televisão. Haverá nesta atitude, para além do falajar crónico 
("temos de dizer alguma coisa senão morremos estúpidos" -- e só um estúpido fala para não ficar calado)
a convicção enraizada, que faço remontar à oratória barroca, de que com suficiente conversa  e excessiva exposição mediática nós iremos na cantiga. O que, infelizmente, tem acontecido. 
Primeiro foi o PS, obstinadamente estúpido e incompetente, a fazer-me arrepender de lhe ter dado o meu voto há seis anos; agora é o Coelho, que todos os dias me dá fortes razões para nele não votar; o PC, em que votei algumas vezes no tempo de Cunhal, definha tristemente afogado em lugares comuns e falta de ideias -- e como as poderia haver num partido que escorraça quem ousa tê-las? Havia, ainda o Bloco de Esquerda, apesar dos discursos redondos e ocos de Louçã, que gosta tanto da palração que se esquece do conteúdo; mas, há pouco, vi cartaz do Bloco, tão abjecto, tão baixo, tão inflamatório dos sentimentos mais baixos da populaça, que também a possibilidade de nele votar foi prontamente excluída. Tem por slogan
"Para eles a fartura / Para nós a factura"
Será que as pessoas inteligentes do Bloco se não indignam com esta dicotomia bronca entre nós e eles, com esta alusão invejosa e mesquinha à fartura dos outros, com este atribuir simplista da culpa aos outros, porque nós, coitadinhos, nada temos a ver com o que se passou em Portugal desde o 25 de Abril? O que pretendem, afinal, os seus dirigentes? Uma Patuleia? Cuidado, porque o eleitorado do Bloco está bem mais do lado da fartura do que da factura!
Enfim, como os resultados das próximas eleições serão irrelevantes para a governação, ter em quem votar é mais uma questão desportiva do que política...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Default já!

Quase nada percebo de finanças. Apenas o suficiente para saber que é impossível continuar a mendigar empréstimos a juros altíssimos para pagar outros empréstimos e os encargos absurdos do Estado. Uma coisa são os serviços prestados aos cidadãos, na saúde, na educação, na justiça, nos transportes públicos, etc. (e podem todos eles ser seguramente embaratecidos e com aumento de qualidade), outra é o esbanjamento e a pouca vergonha a que assistimos numa política de dois pesos e de duas medidas que premeia o compadrio, a corrupção, as obras megalómanas e inúteis, mas persegue impiedosamente a classe média baixa, que não tem como fugir aos cortes e aos impostos. Por isso, e consciente da minha insignificância e ignorância, tenho defendido junto das escassas dezenas de leitores deste blogue, na sua maior parte familiares e amigos, uma mudança de rumo. Tenho perfeita consciência de que serei um dos sacrificados; mas já estou habituado e talvez consiga sobreviver também a esta crise. Sei bem que há muita gente, muito mais qualificada, que se lesse as minhas propostas as ridicularizaria -- mas foram muitos desses técnicos tão competentes que nos conduziram à situação actual, não eu e as minhas ideias.Ora apraz-me verificar que começam a surgir posts que defendem exactamente a necessidade de mudar de rumo, assumindo uma situação de default (suponho que seja bancarrota encapotada). Como este, de Ricardo Vicente, no Albergue Espanhol. Leiam-no e digam-me se a argumentação do autor não faz sentido. Porque  a manutenção do actual statu quo já não tem pernas (ou euros) para se aguentar.

Terei visto bem?

O FMI e etc. a apanhar táxi no aeroporto. A representação do PSD a chegar para encontro com o governo em brutos carrões... Pode ser manipulação de imagens por parte da televisão. Pode ser do meu queratocone. Ou pode ser apenas mais uma evidência das caganças nacionais. Puede y no puede, como cantava Neruda.

Gente importante

Gente importante não limpa o cu a nenhum telho (o dito é anterior ao papel higiénico, mas continua apropriado). Gente importante fala na primeira pessoa: eu fiz a revolução ou eu não fazia hoje a revolução. Gente importante só aceita ser presidente. Gente importante julga-se importante. Só não sabe, porque, lá diz o Principezinho, para os vaidosos todos os homens são admiradores,  que nós, as enguias deste país, nos cagamos para eles e para a sua prosápia. Que, na nossa incultura, na nossa ingratidão, até citamos Napoleão, o tal que dizia a Talleirand: "Vous n'êtes que de la merde dans un bas de soie." Isso mesmo: merda numa meia de seda, mesmo que hoje se não usem meias de seda, como se não usam os telhos para limpar a merda que lhes sai das bocas, quando as abrem. (Ah, se ainda servisse para adubar os nossos campos incultos...)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Viva a Islândia!

Não gastem conversa com Sócrates, Coelho, esquerda e direita. Tudo isso é passado. Aos políticos portugueses está doravante reservada unicamente a função de "actores". Isso mesmo: não "agentes", mas profissionais da representação. E a nós, portugueses, espera-nos a difícil labutação pela sobrevivência. Como os nossos antepassados. Como o nosso povo. Como as enguias. Embora pense que amolecemos demasiado nos últimos 35 anos e, desprovidos da fibra dos homens de antanho, já não sejamos capazes de preferir o lume vivo da independência e da dignidade ao azeite fervente da frigideira da subsidio-servo-dependência.
Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. (...) As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”
Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil...
Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados…
Há um país da Europa que declarou bancarrota; cujos contribuintes recusam pagar os prejuízos dos bancos e em referendo recusaram indemnizar os investidores (ou especuladores) ingleses e holandeses... Eles sobrevivem, escamados, esventrados, mas livres. VIVA A ISLÂNDIA!

domingo, 10 de abril de 2011

Dívida pública

Um credor furioso perseguiu caloteiro até aos sanitários públicos e ocupou o urinol mesmo a seu lado.
-- Olha lá, pá, quando é que me pagas o que me deves?
E o pobre caloteiro, intimidado, enquanto dava as três sacudidelas da praxe: -- Não sei, pá, isto está mau! Vamos a ver se a coisa se endireita... Olha, se endireitar, o primeiro buraco a tapar é o teu!
(Dedicada à Alemanha, à Finlândia, à França, à Inglaterra, a todos os outros países-fêmea desta Europa credora e  ingrata, em nome do velho Portugal, cuja res publica já não promete endireitar-se.)

sábado, 9 de abril de 2011

Rituais dos pequenos vampiros

Salto de canal em canal, sempre perseguido pelo congresso triunfal do PS (Partido Sócrates). Como é possível tanto descaramento? Não tenho dúvidas de que poderia ter sido outro o partido a conduzir-nos nos últimos seis anos para o abismo  em que, segundo o ministro Luís Amado, Portugal caiu. Mas não foi. Foi Sócrates que nos atirou para lá. E revolta-me-me ouvir os finlandeses e outros que tais a discutirem se nos vão ajudar e em que moldes. E envergonha-me ouvir Cavaco Silva (abençoada decisão de não votar nas últimas presidenciais!), esse presidente pobre e indesejável na Europa dos (novos) ricos, a pedir imaginação nas ajudas comunitárias. Será que nunca lhe disseram que a homem sem dinheiro até os cães lhe mijam nas pernas?

(Título roubado a um conto de Cardoso Pires.)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Para ler e reflectir

Este post de Luís Naves, o autor de Territórios de Caça, sobre as vicissitudes que afectam os autores nacionais e a produção literária caseira.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Outros tempos


Time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence, a time of confidences
Long ago, it must be, I have a photograph
Preserve your memories, they're all that's left you


Simon & Garfunkel, Bookend

Algures no céu

Numa destas noites, o Afonso perscrutou demoradamente o firmamento. Depois, desconsolado, desabafou: -- Não consigo ver o avô Eduardo no céu!

quarta-feira, 30 de março de 2011

Noite

Farrapos de nuvem devoram o verde
Pisam sem remorsos malmequeres
E um olhar destemido atravessa o tempo
Atravessa-me no meu tempo  – eu sei, não sou daqui
daqui onde a chuva é delícia
e o mau tempo recebido com prazer

Não como a ave que traz à terra o puro branco do céu
e o solta num efémero grito divino
Mas sombra do hoje, que passa e não deixa vestígio
De mim que ficará?
pó sobre pó
vida tão útil ou inútil
como um soluço no tempo
que tudo amassa e aniquila
e só ele sobreviverá

Não, não é isto que me mete medo.

Nem mesmo definhar irremediavelmente
qual candeia antiga a que o azeite vai faltando
e que, em se apagando a sua luz,
tresanda a sebo ardido e nauseabundo

Não, não é o me mete medo.

Só o saber que a matéria que hoje sou
por um breve momento pensou e sem chegar a compreender
logo voltou a ser verme cego e ignorante
farrapo de estrume entre filhos das nuvens
irmão de malmequeres no ódio ao puro branco do céu

Outro Afeganistão

Leio que americanos e ingleses ponderam a possibilidade de armar os rebeldes líbios. Primeiro, tiveram o discernimento extraordinário de, à distância, conseguirem distinguir os bons dos maus e bombardear estes últimos; agora pensam armar os bonzinhos, em vez de forçar negociações entre as partes. Entenda-se: ficarei contente se Kadafi for apeado e enforcado. Pelo seu povo. Ficaria muito contente se se instaurasse na Líbia um regime que respeitasse os direitos básicos do ser humano. Mas o que vejo nas televisões são bandos a disparar entusiasticamente-- para o ar. A circular de carro, para trás e para diante, sem estratégia, sem táctica, aparentemente sem coordenação e sem comando. Razões de sobra para recear o pior. Quais as reais motivações, -- políticas, religiosas, tribais -- daquela turba anárquica? Como tratam os prisioneiros que fazem, os suspeitos de pertencerem ao outro lado? Que farão quando não houver um inimigo comum? Contra quem virarão as armas? Seguirão os senhores da guerra, ou, esquecido o gosto da matança, irão votar pacificamente em partidos a formar, num país que aparenta ser tribal?
Armem-nos e depois queixem-se. E quando não souberem como limpar a merda que entretanto fizeram, peçam-nos militares para a pacificação, que nós, portugueses, podemos pagar missões militares no Kosovo, no Afeganistão, creio que na Bósnia, até em Timor -- suficientemente rico para se vangloriar da possibilidade de comprar o lixo da nossa dívida.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Os amigos

São, diz o povo, para as ocasiões. Os bons amigos, para sempre. Não surpreende que Hugo Chávez exprima pesar pela renúncia do seu bom amigo português. Mas já devia ter percebido que o bom amigo português depressa abandona os seus bons amigos quando caídos em desgraça, como fez com Kadafi (por que razão tem H no nome?). Como sucederá com Chávez.

domingo, 27 de março de 2011

A importância da pose

Excelente post de Rentes de Carvalho sobre a importância social da pose. Que me fez recordar um episódio relatado pelo mestre Funakoshi, o homem que levou o Karaté de Okinawa para o Japão. O mestre ganhava então a vida como porteiro numa residência de estudantes e, quando varria a entrada, chegou cavalheiro importante a perguntar pelo famoso sensei Funakoshi. O velho mestre pediu licença para o ir chamar, entrou no prédio, tirou o avental, largou a vassoura, penteou-se e apresentou-se ao cavalheiro estupefacto: -- O porteiro veio dizer-me que me procurava...
Também eu já passei por situações semelhantes. Há vinte e tal anos, durante a construção da minha casa, cavava um cabouco, encharcado em suor, roupa enlameada, e sai de carrão senhor encasacado, engravatado, sapatos reluzentes, passa por mim como se eu não existisse,  nem sequer bom-dia sobranceiro, entra na casa e dirige-se ao pedreiro. À distância não oiço o que diz, mas, pelos gestos, a apontarem para mim, presumo que pergunta pelo patrão. Volta cabisbaixo para me tentar vender não sei que materiais, desmoralizado, sem convicção -- com razão, porque, digo-lhe, não tenho tempo para conversas, preciso de abrir o alicerce. Mas, acrescento para o pôr a andar,  se quiser ajudar, podemos conversar. Ora lá reza o rifão, antes uma mão inchada que uma enxada na mão...

FOTO: a cavar. Não um cabouco, mas o meu poço. Pouco depois da construção da casa.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Os sátrapas


Na hora da despedida, Pinto de Sousa recebe da chanceler alemã agradecimento pelos bons serviços prestados. Prova provada de que ainda há gratidão no mundo. Pelo menos no germânico. Nós, por cá, e cientes de que o o futuro próximo vai ser negro, agradecemos apenas a alegria que nos deu ontem. Que Merckel se não preocupe: nenhum dos nossos próximos sátrapas vai desobedecer às suas ordens.
Ave Imperatrix morituri te salutant.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Romantismos

Em tempo de desgraças (esta, esta), nada propício a comemorações, é preciso não esquecer bons momentos da vida, como aquele em que, 37 anos atrás, me casei.

Romantismos

É no que dá não pagar a luz. Até tenho uma boa justificação: no passado, aderi à factura electrónica e, posteriormente, o endereço de mail fornecido foi cancelado, sem que eu me lembrasse de o substituir. E perdi a password do site da EDP. Ora a EDP, apesar de receber o correio devolvido, continuou a enviá-lo para esse endereço inválido, e ontem, ao chegar à noite a casa, não tinha electricidade. Simpático, da parte de uma empresa que até me exigiu caução, nunca devolvida, a quem pago há quase 40 anos a conta exigida.
Constatação: completa dependência, quase tudo precisa de electricidade para funcionar, dos portões ao esquentador. Decisão: isto vai mudar, que a toca da raposa deve ter sempre duas saídas. Ontem cortaram por falta de pagamento (e não repuseram nem sei quando o farão, apesar de o pagamento ter sido imediatamente efectuado), amanhã pode ser por qualquer outra razão -- apagão, catástrofe natural, falência da empresa... Impossível, dir-me-ão. Mas empresas bem maiores também faliram...
Às escuras, restou-me fazer o jantar possível -- até o fogão é eléctrico! -- e comer na confusão do escritório, à luz do candeeiro da rua e de uma vela ornamental. Couves cozidas sobrantes da véspera, atum de lata, vinho... Nada como treinar sobrevivência nos tempos que correm, preparando aqueles que se avizinham, em que talvez nem haja lata de atum para adubar as couves.

Leitura recomendada

"Os apocaliptólogos", de Rui Rocha. No Delito de Opinião.

terça-feira, 22 de março de 2011

Lindo

João Alfaro, cada vez melhor. AQUI

Sem cortes orçamentais

Canta animado o verdelhão, indiferente à governação.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os Magalhães e os líbios

Parece que a Líbia de Kadafi, com mais ou menos H pelo meio do nome, seria a lança em África da J P Sá Couto e dos seus Magalhães. De facto, estes computadores, que o nosso governo distribuiu às pazadas e hoje devem ser sucata, não apresentam argumentos atraentes que justifiquem a sua compra no segmento em que concorrem, o dos netbook, e a empresa não soube ou não pôde acompanhar a moda dos tablets. Só mesmo no terceiro mundo, pela mão de ditadores amigos do nosso governo, poderiam ser impingidos às criancinhas, como por cá o foram. Sem proveito para o país e em prejuízo da educação.
Ao ver o que se passa na Líbia, é possível que a administração da empresa fabricante dos Magalhães desabafe como a mulher de político de esquerda, palrador com lugar cativo na TV, quando ele foi preso pela PIDE nos anos 70 por ser então militante do MRPP:
-- Lá se foram os cortinados!

domingo, 20 de março de 2011

Primavera

Dia lindo, quente, cantam os passarinhos animados -- só o meu coração está vestido de trevas. Espero estar enganado, mas a esperança esvaneceu-se. A minha mãe foi ligada ao ventilador.

sábado, 19 de março de 2011

Agradecimento

A todos os que manifestaram solidariedade, apoio e condolências pelo falecimento do meu sogro.
Muito obrigado.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Morreu um homem

A quem muito devo e a quem queria quase como se fosse meu pai: Eduardo Nunes,  meu sogro, assentador dos caminhos de ferro, rijo e seco como as incontáveis travessas da linha que assentou. Faria 85 anos no próximo domingo. Funeral amanhã, sexta, às 15H30.
Morreu um homem. Já restam poucos.

terça-feira, 15 de março de 2011

Um raio de Sol

Uma obra de arte não se explica. A não ser que o observador seja algo limitado. É o caso. Por isso, o Afonso explica-me: -- O céu, o Sol, e este és tu.
-- Mas não estou parecido!
-- És tu, quando eras mais novo.
Mas ternura, ternura, é dizer-me de um desenho que está a começar: -- Este é para a avó Isabel. 
Porque sabe que a bisavó está muito doente. E o Miguel, que em tudo imita o irmão mais velho, logo grita que também está a fazer um desenho para a avó Isabel.

domingo, 13 de março de 2011

Sobre a "geração à rasca" e a sua manif

Não fui à manifestação e, portanto, não sei o que se passou lá. A essa hora, estava no corredor dos Cuidados Intensivos da Cirurgia Toráxica, a aguardar que terminasse a operação à minha mãe. E quando um homem fala daquilo que não sabe só pode dizer asneiras, não importa o que tenha visto na televisão (e foi muito pouco) ou o que tenha lido, sobretudo nos blogues. Por isso, não me pronuncio sobre o número de manifestantes (e deve ser difícil contá-los, sobretudo se não pararem quietos), as respectivas ideologias e motivações, ou o apregoado civismo, que pode ser muito bem uma exteriorização de conformismo bem comportado. O que tenho a dizer não é novo e ninguém o vai querer ouvir, menos ainda seguir: é preciso mudar de rumo. Todos nós. Não basta culpar os partidos políticos por estarem alheados da sociedade (e estão, e sempre estiveram, e assim querem continuar, ou alguém acredita que os militantes fazem poleiros para os outros?), nem transferir a esperança para movimentos cívicos em país onde se cospe na via pública, se atravessa ao lado mas não sobre as passadeiras, onde os condutores se sentem reis e senhores das estradas, se adora a cunha e se ultrapassam os outros sempre que possível. Deixemo-nos de tretas: em Portugal não há civismo, como pode haver movimentos cívicos? Trata-se, e aí vai a solução que parecem procurar no pós-manif, de abandonar um estilo de vida insustentável (a realidade vai dar-me razão) e de procurar outros, menos urbanos, menos manga-de-alpaca, sem Ipads e Iphones, em que haja mais interesses na vida do que descarregar filmes, músicas, viajar para destinos exóticos. Para viver mais próximo da natureza e em harmonia com ela, pôr a produzir a terra onde ela for capaz de o fazer em vez de a cobrir de betão, reforçar os laços familiares e de amizade, comer o pão que se ganhou com o suor do rosto, recuperar os prazeres simples como saborear a água da fonte ou o vinho do produtor, ler um livro, ver um filme, ouvir uma música, conversar, amar...
Ou seja, abandonar o novo-riquismo urbano feito de centros comerciais onde as famílias passeiam aos domingos, e voltar à província, ao campo, à ruralidade, reabrir as escolas e os hospitais fechados. Não para viver como os nossos antepassados, odiando os vizinhos e lutando à enxadada por um palmo de terra numa sovinice repugnante. Mas para nos integrarmos no país possível. Para sermos mais felizes. Para sobrevivermos.

sábado, 12 de março de 2011

Annus horribilis

A minha mãe em Santa Maria, nos cuidados intensivos, culminar de complicações cumulativas que principiaram no início do ano, o meu sogro no Hospital de Torres Novas, vítima na segunda-feira passada de um AVC  que os médicos consideram irreversível. Ano de merda: cortes salariais, iminência de bancarrota, a catástrofe no Japão, as matanças na Líbia... E ainda estamos no princípio de Março. Quando uma boa notícia?
Adenda: a minha mãe foi ontem, sábado, operada de urgência à aorta. A intervenção correu bem e encontra-se estável. Quatro horas, peito aberto, coração parado durante 50 minutos. Diz o cirurgião que das operações ao coração é a que pode dar mais complicações.

sexta-feira, 11 de março de 2011

11 de Março de 1975

Tinha 20 anos, fazia a recruta no RI7, Leiria, como soldado instruendo e, como única informação do que se passava à minha volta, os boatos que logravam ultrapassar os altos muros do quartel. Recordam-me a efeméride posts que a analisam à distância de 36 anos, bem longe da agitação, das ameaças, da insegurança, do medo que nós, miúdos vivemos, enquanto apertávamos a G3, companheira inseparável e tranquilizadora. Eis o testemunho desse dia e daqueles que se seguiram, como o registei aqui, há um ano.

quinta-feira, 10 de março de 2011

De candeias às avessas

Meti na cabeça, problema meu, que por melhor que escreva, por melhores que sejam os meus romances e contos, não conseguirei captar o interesse dos editores. É que, como diz o povo, mais vale nascer engraçado do que ser engraçado. E, se dúvidas tivesse, posts como este, da editora Maria do Rosário Pedreira, dissipá-las-iam:
Com o valter hugo mãe, sinto, por exemplo, uma espécie de parentesco, como se ele fosse um irmão mais novo que me orgulhava de levar às festas porque fazia sempre brilharetes de encher o coração pelo lado da beleza. Alguns saberão que o valter me fez uma declaração de amor (enfim, à minha poesia) num 14 de Fevereiro de há três anos, (...)
Não é enternecedor? Não me interessa que seja o valter hugo mãe, que até escreve coisas interessantes. O que me interessa é a atitude. Ora eu não sei dançar, detesto bailes, nunca cultivei a lisonja, não nasci capaz de fazer  em festas "brilharetes de encher o coração pelo lado da beleza" -- estou feito, não é assim? 
Resta-me o consolo de escrever para aqueles leitores capazes de se darem ao trabalho de me lerem e, eventualmente, de apreciarem  não a minha pessoa, mas a minha escrita. Como, por exemplo, aquele que ao terminar a leitura de Entre Cós e Alpedriz, contou-me a mulher dele, meneou a cabeça  em sinal de aprovação e comentou: -- O filha da puta escreve bem!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Avisos

Avisei antes da invasão do Afeganistão e do Iraque, embora a Wikileaks me não faça nenhuma referência (grandes estúpidos!) -- os embaixadores americanos andavam distraídos e não deram o devido valor aos meus avisos; hoje estarão bem arrependidos, ao verem como os EUA se atolaram até ao pescoço em areias do deserto e disparates -- dizia eu então que toda a gente sabe como é que as guerras começam, ninguém pode prever como acabam; que é fácil começá-las, bem mais difícil terminá-las. Pois hoje acrescento: esqueçam esse disparate de invadir a Líbia. Encontrem formas inteligentes e não bélicas para derrotar o Kadafi, como deveriam ter encontrado para varrer do poder talibãs e Saddam, se o cheiro do petróleo os não tivesse embebedado. Como agora. Depois não digam que não os avisei.

Avô babado

No meio das desgraças quotidianas, mais duras as familiares do que as nacionais, mais estas do que as internacionais, embeveço-me com os meus netos: o Tiago, que começou a andar e não pára, o Miguel a falar exuberantemente, já com frases complexas bem estruturadas, o Afonso, que sem ter lido O Principezinho fez este desenho para a avó: por detrás da grade, na verdade a rede da capoeira, está um patinho. Que na vida real não existe, porque a minha capoeira não tem patos. E para que dúvidas não subsistam, ele próprio escreve o título de cada quadro. Isso mesmo. Escreve aos cinco anos, acabadinhos de fazer, não porque o ensinemos, mas porque ele quer saber e já aprendeu a escrever muitas palavras, algumas bem grandes, como elefante. E quando não sabe escrever, pergunta.
Mete o Miró a um canto.

Leitura recomendada

Do post de João Carvalho, no Delito de Opinião, sobre o disparate ortográfico que nos impuseram ou querem impor, não sei bem. Por mim, nada tenho a ver com essa aberração, especialmente gravosa no ensino, uma vez que os manuais e os livros de leitura obrigatória e facultativa estão em desacordo com este acordo e só daqui a muitos anos poderão ser substituídos. E não há formação digna de crédito, apenas acções de editoras, mais ou menos ansiosas para vender mais uns trastes.

Das cigarras e das formigas

Diverte-se o país em carnavais, enche os hotéis, espairece nos destinos turísticos habituais, discutem os menos favorecidos nos cafés a governação, preparam os mais esclarecidos a contestação – cada qual diverte-se como sabe, como quer ou como pode, mas, meus senhores, minhas senhoras, é a terra que dá as batatas e para as colher há que as plantar, como eu fiz neste fim-de-semana, nas Sesmarias.

quinta-feira, 3 de março de 2011

John Galliano: o estilista anti-semita

John Galliano, estilista italiano da casa Dior, foi despedido por anti-semitismo e vai ser julgado, arriscando-se a ser condenado a uns meses de prisão. Não é meu costume meter-me nestes assuntos, sempre duvidosos, e não tenho a menor simpatia por quem, em público, ofende os outros, as suas origens, a sua religião, a sua sexualidade. Eu próprio descendo de Silvas,  plantas daninhas, e de Catarinos, feijões humildes, apelidos que denotam remotas origens cristão-novas -- e ruim como sou corre-me nas veias, quase de certeza, sangue semita. Mas acontece que vi, uma vez após outra, que as televisões passam os escândalos até ao vómito, o filme que os ofendidos fizeram e puseram a circular.
O que vi então? Uma criatura avelhentada, avinagrada, apinocada, a desejar que os antepassados dos ofendidos tivessem sido exterminados. A suspirar por Hitler e pelo seu Reich, não tanto por convicção, parece-me, mas por impotência face a eventual provocação anterior. Nazismo? Anti-semitismo? Duvido muito. As câmaras de gás não se encheram apenas com judeus. Também estilistas como este, mais ou menos estilosos, amaneirados, aperaltados, lá foram gaseados. Inclino-me mais para provocação dos jovens e resposta inadequada, inconveniente, a traduzir a impotência do pobre estilista, Rei (agora deposto) na Dior, criatura desprezível e insignificante na brasserie.
Criatura que caiu em desgraça porque é mediática. Não duvido de que se o estilista fosse taxista, magarefe, professor, não importa o quê desde que cidadão anónimo, a cena não iria muito além da troca mútua de insultos, acompanhados talvez de safanões e de sopapos.

Acidente com arma (2)

A pistola-metralhadora FBP era falsa, todos o sabíamos. Por isso nós, furriéis milicianos, nunca tínhamos balas no carregador, que aquela descendente da francesa Vigneron disparava por nervosismo, stress, pequenos impactos... Qualquer pretexto lhe servia. Boa para a luta nas ruas, onde importa disparar primeiro, com as suas balas derrubantes de 9 milímetros, perigosa em situações de paz, quase inútil no mato, com o seu tra-tra amaricado, incapaz de impor respeito ao inimigo como fazia a G3, de estrondo másculo e coice poderoso, a amiga fiel do soldado e do oficial. Mas era a arma padrão do sargento e sargento, naquele tempo, salvo nas forças especiais, não sabia usar arma: era o escriturário, o amanuense, o manga-de-alpaca, a guerra entregue aos milicianos. Pois não sei porquê, mas naquele dia o sargento de serviço, sargento de dia, era do quadro e levou à risca as suas obrigações, carregando a tiracolo a FBP regulamentar, carregador bem abastecido, quando foi fazer a revista ao pessoal de serviço, costas para a parede da caserna – que  crivou de balas, sem atingir os soldados, os quais, com os reflexos apurados em tiroteios, prontamente se lançaram ao chão. E o sorja lateiro, em pânico: -- Acudam, acudam, parem-me esta coisa! -- enquanto a pistola-metralhadora continuava a vomitar balas em todas as direcções…

Acidente com arma

Alguém disse ao velho que a sua jovem mulher andava metida com outro – o seu melhor amigo. E ele, rancoroso, calou-se bem calado. A vida dos três continuou a decorrer pacatamente na normalidade aldeã até que, num belo dia (convém que o tempo não seja elemento de perturbação na história) pediu ao amigo, pedreiro: -- Havias de me ir ver o telhado, que mete água quando chove, isto também porque só se sobe ao telhado em belos dias, para não partir as telhas, para não escorregar e cair.
E o pedreiro foi. Então o amigo deu-lhe um tiro e o amigo caiu redondo no chão, já morto. No julgamento todos testemunharam que eram amigos, nunca entre eles houvera disputas, nunca se disseram palavras azedas. Tão amigos que o defunto até tinha jantado em sua casa na véspera e almoçaria nela se não tivesse morrido por acidente, quando a caçadeira que limpava se disparou por acaso. Não sei se os juízes percebem de armas, nem por que lhe não perguntaram como se limpa arma carregada, por que se limpa a arma com o cano apontado para o telhado, exactamente para o amigo que substituía telhas partidas. Foi absolvido. Todos sabiam que fora ajuste de contas por conta do par de cornos, mas a vida nas aldeias é assim, comenta-se e nunca se diz, menos em tribunal, ninguém quer arrostar com uma carga de trabalhos, nada devolverá a vida ao morto, e ainda acabariam processados por calúnias, difamação, onde obter as provas, se o tribunal, com os meios para as conseguir, se deu por satisfeito com as evidências (como gosto da palavra!) apresentadas?
Ora tempos depois o nosso matador resolveu matar o porco, na via pública, como sempre se fez desde tempos imemoriais. Passa a GNR, processo, coimas: dez contos!
E o nosso homem, descontente com o desconcerto do mundo: -- Matei um homem, não me custou nada. Matei um porco, dez contos de multa!

Acidentes com armas de fogo

O mínimo que o cidadão pode esperar das suas forças de segurança é que saibam manusear as armas que lhes são distribuídas, o que pressupõe, antes de mais, o saberem que as armas matam e, portanto, em circunstância alguma podem ser descurados os procedimentos de segurança. No meu tempo de recruta, apesar de não termos balas nas G3, bastava o cano apontar na direcção de um camarada para ouvirmos o furriel ou o alferes:
--- Já no chão, a encher!
É que a cabeça é algo burra, aprende-se melhor com o corpo. E o corpo aprendia que os "acidentes" ocorrem sempre com armas descarregadas ou em circunstâncias não intencionais -- matéria para outro post, logo à noite.
Por tudo isto, tantos anos passados, continuo sem compreender como é que numa esquadra de polícia um agente, demais a mais superior hierárquico, atinge acidental e mortalmente um camarada. Não conheço as pistolas Clock (creio que é assim que se escreve). Presumo que sejam mais seguras que as antigas Walter, sempre fiáveis. Alguém de bom senso me consegue explicar:
  1. Como é que a arma tinha bala na câmara e porquê?
  2. Como é que a patilha de segurança estava destravada e porquê?
  3. Como é que o dedo apertou o gatilho e porquê?
  4. Como é que no meio de tanto acontecimento fortuito e improvável a bala foi logo alojar-se no ventre do camarada que tinha acabado de entrar?
Azares do caraças. Excessivos para a minha compreensão, sempre limitada.

terça-feira, 1 de março de 2011

Socialismo e bananas

A propósito do encontro de hoje entre Sócrates e Merckel, recordei-me de uma velha piada do tempo da guerra fria, a que falta o nhã-nhã-nhã das crianças que se arreliam mutuamente:
Dois miúdos, um de cada lado do Muro de Berlim, atazanam-se:
-- Eu tenho uma banana e tu não!
-- Mas eu tenho o socialismo e tu não!
-- Mas com o senhor W. Brandt eu também vou ter o socialismo!
-- E então diz adeus às bananas!
NOTA: a anedota está desactualizada. Como é sabido, o Partido Socialista foi substituído pelo Partido Sócrates. Pelo que podemos estar descansados: hoje acabam-se as bananas, mas continuaremos a ter os bananas. No governo, para nosso desgoverno.

Leitura indispensável

O post de José Ricardo, hoje, no seu blogue Ponteiros Parados (eram dois os ponteiros, mas um arranjou o seu próprio espaço) sobre a importância do silêncio, nomeadamente nas bibliotecas. Post perfeito, só posso acrescentar que me revejo inteiramente nele e invejo o talento do autor...