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sábado, 28 de maio de 2011

Nunca o invejoso medrou...

"Compreendo a desilusão do leitor: resistiu até aqui, mas já desespera... Onde estão esses capítulos intragáveis, de um só parágrafo, páginas e páginas preenchidas apenas com listagens de nomes próprios ou de igrejas, que tornam o romance no melhor dos soporíferos e comprovam que estamos perante escritor de primeira água, capaz de desprezar e maltratar o leitor? Onde as partidas pregadas, para avaliar a cultura de quem lê, como aquele esófago de Mark Twain, que debruçado sobre uma asa contemplava meditativamente o pôr-do-sol? Onde a metáfora para decifrar, alegoria que dê um significado profundo à obra e envolva o leitor na produção de sentidos? Quando aparece esse pintor que ganha a vida fazendo retratos dos turistas junto ao Sacré Coeur e a sua namorada, jornalista sempre em viagem, ora na Quinta Avenida, ora nas gôndolas de Veneza, ora pelas montanhas do Afeganistão? Pois, não há...
Está visto, este contador de histórias não respeita as regras do ofício; pior, vê-se que lhe falta paciência para minudências, pormenores, irrelevâncias. E esquece-se de explicar, evita dissertar, não se atira à igreja num anticlericalismo violento, mordendo-a com a ferocidade do Pitt Bull! Não ridiculariza as suas personagens, não nos dá herói decente nem vilão detestável... Eu sei: ele está errado. Sem mistérios para decifrar, conspirações tenebrosas contra a Humanidade, crimes nefandos, como espera cativar o leitor? E os críticos, se não são devidamente torturados, como podem admirar primeiro, valorizar depois, a arte do narrador? E é preciso tomar partido, dividir a sociedade em bons e maus, encontrar culpados para os males do Mundo, evitar o farisaísmo, apontar corajosamente dedo acusador!
A simplicidade aborrece e irrita, cada qual dizendo que assim também era escritor. Onde já se viu (tirando talvez o Decameron, o Lazarilho de Tormes, as Histórias e Contos de Proveito e Exemplo, o Amor de Perdição, O Velho e o Mar, O Estrangeiro...) uma obra impor-se, apesar da simplicidade e da clareza? Se até o velho Homero tem um capítulo da sua Ilíada recheado com nomes e genealogias!
Que fique lavrado, portanto, e sirva para memória futura, o protesto deste narrador descontente, a quem o autor não consente a autodiegese — vê-se que pouco aprendeu em Teoria da Literatura, de que lhe serve ter estudado o Genette? —, que se tenha presente este descontentamento, autorizando-se desde já o leitor a pôr de lado este livreco e a deleitar-se com outros mais ousados, que por isso mesmo conhecem o sucesso merecido, como aquele que até transcreve, ipsis verbis, o menu real que está sobre uma das mesas do Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa.
Histórias de amor há-as a pontapés, basta ligar a televisão, de amor feliz temos algumas, como a do David Mourão-Ferreira — que interesse pode ter uma história límpida de pessoas límpidas, que nem sequer são ricas, poderosas ou vestem bem, nem, pelo contrário, são miseráveis desgraçados, esquecidos por Deus e desprezados pelos homens, nem santos para o cardeal português da Congregação para a Doutrina da Fé beatificar enquanto aguardamos impacientemente pela canonização, com ou sem milagres, sabido que rareiam nestes tempos de cepticismo e de análises clínicas — nem canalhas a pedir escarro de desprezo?
Queria-se uma narrativa polifónica, emaranhada, que obrigasse o leitor a trabalhar, alisando rugas e pregas do texto, corrigindo incoerências, adivinhando sentidos ocultos, descodificando imagens, tropeçando em hipálages; na sua falta, que o autor para tal não tem nem imaginação nem talento, exige-se, pelo menos, um oponente, um adjuvante, e essas coisas todas do modelo actancial de Greimas, presente durante décadas nos manuais escolares de Português, por onde as leitoras e os leitores estudaram! Não me sendo concedido outro, venham de lá os escroques da Pide e, tendo conseguido esta mísera vitória, que prossiga a narrativa, remetendo-se este infeliz narrador à malfadada heterodiegese."
(Inédito meu, de uma novela inédita)

Linguagens

Por que razão se espera que um escritor seja bom orador, se escrita e fala são linguagens diferentes? Tal como Rentes de Carvalho, também eu invejo os escritores que impressionam a plateia com os seus dotes oratórios,  como eles invejarão, muito provavelmente, o talento que Rentes de Carvalho evidencia, talvez não ao falar em público, mas nos seus romances, afinal aquilo que, no seu caso, conta.
Inveja sarcástica a minha, eivada de desconfiança por esses escritores que se impõem pela fala, explicando brilhantemente alegorias e metáforas, isotopias e distopias...
"-- Você sabe falar -- comentou.
-- Nasceu comigo.
-- Daria um péssimo escritor -- prosseguiu. -- Nunca conheci um escritor que fosse um bom orador. "
Ray Bradbury, "Rumo a Quilimanjaro", in As Vozes de Marte, colecção Argonauta, Ed. Livros do Brasil, Lisboa)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O rei dos porcalhões

É sabido que machos de muitas espécies têm hábitos porcos, repugnantes até. Assim, sem pensar muito, e correndo o risco de errar porque a minha área não é a zoologia, lembro-me dos hipopótamos, que com a cauda espalham aos sete ventos os respectivos excrementos antes que eles tombem por terra. Dos cães, sempre de perna alçada... Pois o quadro não ficaria completo sem uma referência ao rei dos animais, o homo sapiens, campeão dos porcalhões. As senhoras duvidam? Então entrem, como que por engano, nas sanitárias, vulgo casas de banho, masculinas. Não importa se em cafés, transportes, centros comerciais, hospitais. Se possível, numa que seja limpa regularmente. Conseguirão explicar-me o chão coberto de urina, se os homens têm órgão de precisão que acerta onde querem? Não é assombroso que muitos jamais primam o botãozinho do autoclismo para evitar que desapareçam os preciosos vestígios da sua presença?  
Ecce homo.

domingo, 22 de maio de 2011

Para a (bis)avó Isabel

Há quase dois meses e meio em Santa Maria. Desenho do Afonso. Ele próprio, os irmãos, uma girafa, uma borboleta e um animal terrestre que não consigo identificar. Graças à simpatia de uma das enfermeiras, já está afixado na parede do quarto. CLICAR PARA AMPLIAR.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O professor Cavaco Silva e a agricultura

Tenho memória. Lembro-me bem de teorias segundo as quais era imperativo retirar gente, muita gente da agricultura, porque nos países europeus que nos serviam de modelo a percentagem de população agrícola era muito inferior à nossa. Lembro-me bem dos subsídios para arrancar pomares e vinhas, dessa estranha forma de vida em que alguns prosperaram, plantando com subsídios para arrancar com outros subsídios um ou dois anos depois. Lembro-me dos subsídios para não produzir, ou apenas para alimentar as abetardas. Lembro-me das multas recentes, bem pesadas, para quem recuse arrancar as vinhas plantadas, salvo erro,  depois de 2001...
Se alguém tem problemas de memória é seguramente o professor Cavaco Silva. Já se tinha esquecido do que fez pela destruição da nossa frota pesqueira quando veio apontar-nos o mar e os seus recursos como jangada salvadora. Hoje quer aumento da produção agrícola. Um reconhecimento público das asneiras das suas políticas governativas está, suponho, fora de questão. Porque em Portugal nunca ninguém tem culpa de nada. É o destino.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Violação

(Último post sobre o assunto, espero, ou ainda fico igual àqueles que só falam no político que todos detestamos, mas, receio, acabará por ganhar as eleições. Para que não tenha publicidade grátis, optei por lhe dar desprezo: quanto mais se mexe na merda, pior ela cheira.)
-- Conte então o que sucedeu.
-- Senhor doutor juiz, aquele senhor agarrou-me e violou-me...
-- E você, um rapaz novo, atlético, não reagiu? Porque é que não fugiu?
-- Ó senhor doutor juiz, como é que podia, de saltos altos e saia travadinha?

Uma noite com Pessoa

Uma noite com Pessoa, propõe a casa do dito cujo, o tal que morreu anónimo e miserável e cuja obra continua entre nós a ser mais citada do que lida -- mas quanta gente não ganha a vida à custa dele e da sua memória! Prefiro -- é certo que ninguém me convidou, a mim que sou ninguém -- prefiro passar a noite com a minha mulher. Na tropa tive de dormir em camarata com meio pelotão e não recomendo. Menos ainda dormir com fantasmas. Honrar Fernando Pessoa é bem diferente: faz-se lendo-o e ensinando outros a amar a sua obra. Tarefa árdua, cada vez mais árdua, nestes tempos em que as leituras são não raro substituídas por visitas de estudo, passeios e roteiros, resumos, filmes, peças de teatro, eventos mediáticos -- a actividade não é importante, contanto que poupe aos nossos alunos a maçada da leitura e lhes  proporcione conversa suficiente para se desenrascarem em exame.

Confissões

Sou daqueles que sempre evitaram a proximidade da doença e da morte. Melhor dizendo, era desses. Por força de circunstâncias conhecidas, regularmente relatadas neste blogue, vi-me obrigado a conviver com a doença, a acompanhar o tratamento de doentes, a cruzar-me com a morte, tendo, por exemplo, de sair do elevador no Hospital de Santa Maria para entrar cadáver. Mais frequentemente, como me sucedeu ainda hoje, partilho elevador à cunha com maca e bombeiros que transportam doente urgente, o rosto do enfermo entubado a menos de meio metro do meu... Durante as visitas, ouvem-se frequentemente os alarmes dos aparelhos alertando para situações de urgência, temos de sair e esperar aflitos que a emergência seja resolvida, separados dos nossos familiares por uma única porta envidraçada ou por simples cortina corrida...
Já não desvio o olhar dos tubos enfiados pelo nariz, pela boca, das agulhas espetadas nas mãos e braços, do saco da urina, já não fujo apressadamente ao ouvir pedido de arrastadeira, já consigo encarar a fealdade da velhice doente, a degradação dos enfermos despojados dos vestígios da sua condição humana, dentaduras e brincos, anónimos sob as batas, desocupados dia e noite, à espera de melhores dias em que talvez tenham deixado de acreditar. E penso, valerá a pena, quero eu um dia, espero que distante, agonizar ligado a máquinas, adiar o inadiável, ter um final de vida em sofrimento prolongado, isto se não tiver a sorte de uma morte rápida? Não sei. Até porque, como escreveu Gabriel García Márquez, não se morre quando se quer, morre-se quando se pode.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Cepticismo: Strauss-Kahn e a violação

Não têm conta as vezes em que fui mistificado, levado a indignar-me, manipulado pelos media ao serviço, soube-o depois, de interesses pouco claros mas demasiado poderosos. Assim, de repente, sem puxar muito pela cabeça, recordo-me da Jugoslávia, em que apenas os sérvios assassinavam, primeiro os croatas, os muçulmanos depois -- felizmente o Tribunal Penal Internacional ousa contrariar esta visão maniqueísta; lembro-me, aquando do ataque às torres gémeas, de imagens de palestinianas a festejar ululando pelas ruas -- para saber depois que as imagens, embora autênticas, tinham sido filmadas uns anos antes... E das armas de destruição em massa do Saddam, dos seus terríveis mísseis Scut (estarei a confundir com o nome de autoestradas nacionais à borla?), da guerra de libertação do Iraque em que, afirmava lambão um dirigente americano, quem não veio à festa não fica para o jantar... Por estas e por muitas outras, duvidei da morte do Bin Laden; agora que os talibãs a confirmam, enfim, começo a acreditar pois dificilmente dois mentirosos se poriam de acordo apenas para me ludibriar. Mas nem por isso me passou o cepticismo ranzinza que me põe frequentemente a discutir sozinho com a televisão. Por exemplo, quando ouço as notícias da violação ou tentativa de, depende das versões, por parte do presidente do FMI. Eis algumas das minhas dúvidas, enquanto aguardo por factos que me convençam da culpabilidade do homem.
1. Como é que um velho, ou idoso como agora é moda dizer-se, por mais recauchutado que esteja, nascido, se bem compreendi, em 1939, logo com 72 anos em cima, tem tamanha potência sexual? Capaz de atacar, despir, sodomizar, forçar a sexo oral um mulher que, supostamente, resistia, gritava, arranhava, batia, esquivava, fugia... O tipo não é grande latagão e ela tem apenas 32 anos... E sempre sem esmorecer?
2. Nos quartos de hotel há um letreirozinho para pôr na porta quando estamos lá dentro: do not disturb. E as empregadas não entram sem bater, pois não? E se acaso entrarem, prontamente saem ao aperceber-se de que o hóspede está lá. E então, se ele vem nu, a correr para elas (ah velho danado!), não fogem?
3. Um gajo que gasta numa única diária mais do que aquilo que eu recebo por mês, se está tão atrapalhado, tão pressionado pelas hormonas que é capaz de deitar para o bidé a candidatura à presidência da França e se arrisca a pena de prisão até à morte, não prefere telefonar para uma profissional em vez de atacar uma mulher da limpeza que talvez nunca´tivesse visto, logo sem saber se é bonita ou feia, nova ou velha, gorda ou magra, branca, preta, amarela, se está no período ou se sofre de sífilis, gonorreia, sida?
4. Há também razões técnicas. Sugiro uma reconstituição para se apurar como é que o tarado ataca uma mulher vestida, certamente com as partes pudendas bem cobertas, a sodomiza sem mais aquela, a leva para a casa de banho (porquê aí?) para sexo oral, depois foge em pânico para o avião, o primeiro lugar onde o poderiam apanhar...
Ou o gajo é estúpido de mais e fez o que dizem que fez, ou é estúpido de mais para se deixar caçar desta forma ignara. Em qualquer dos casos, tem muito pouco de francês.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Surpresa...

A estatística deste blogue. Coisa que eu nem sabia que existia... Clicar na imagem para ampliar.

Pela produção nacional

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quinta-feira, 12 de maio de 2011

A troika e eu (2)

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A troika e eu

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Elogio, agradecimento e constatação

São frequentes as críticas ao tratamento hospitalar, em que não faltam acusações de antipatia, desinteresse, frieza por parte dos profissionais de saúde. Não era e não é essa a minha percepção, sobretudo após mais de quatro meses em que tenho passado horas infindáveis em urgências, cuidados intensivos, cuidados intermédios, enfermaria. Só posso elogiar e agradecer o profissionalismo, a simpatia, a disponibilidade de todos os profissionais, nomeadamente  auxiliares, enfermeiras e enfermeiros, médicos e médicas dos hospitais (Leiria, Alcobaça, Santa Maria) por onde tenho acompanhado a minha mãe, que felizmente recupera de forma visível e animadora, depois de, por três vezes, ter pensado que não viveria até ao dia seguinte. A todos, o meu muito obrigado.
Nota: sem menosprezo para as dos outros hospitais, as enfermeiras mais giras são as de Santa Maria, Cirurgia Cardiotorácica.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A troika, a crise e eu

Estrangeiros ditam-nos a política, gerem as nossas finanças, aconselham-nos, vigiam-nos, enquanto nós mendigamos empréstimos, sofremos vexames, discutimos acaloradamente responsabilidades – como chegámos à pré-bancarrota, como deitámos a perder a independência penosamente preservada durante mais de oito séculos? De quem a culpa, onde as soluções? Não procurem  neste blogue por resposta válida, não esperem de mim julgamento imparcial, sentença equitativa, punição justa. É outra a minha tarefa: plasmar em narrativas o sofrimento alheio e próprio. Qual médium, cabe-me dar voz às vozes que me habitam e anseiam por se fazer ouvir. Que cada uma delas fale por si, que conte a sua história. O mais do que isso é com os especialistas, que não nos faltam e constantemente se fazem ouvir.

domingo, 8 de maio de 2011

O povo é quem mais ordena

Numa pausa do duro trabalho da terra, vi no telejornal os homens (?) da luta (?) por terras germânicas nas suas palhaçadas rotineiras. Têm fortes hipóteses de conseguir um bom resultado, até de ganhar, como vi suceder a outro folião numa votação ocorrida durante a "Primavera Marcelista":
Uma artista da rádio, cujo nome esqueci há muito, fez espectáculo na associação da minha aldeia e, para nele envolver o povo, organizou um "festival da canção": ganharia quem tivesse mais aplausos. Os moços de então acorreram ao palco, Beatles para os estudantes, fado e folclore para os menos versados no Inglês. Aproximava-se a competição do final sem que a força das palmas anunciasse vencedor inequívoco, quando o Tio António V., a cair de bêbedo, cambaleou até ao palco, travado pela mulher: -- Homem, tu tem juízo, não me envergonhes mais!
E ele: -- Deixa-me, que vou mostrar a esta rapaziada como é que se canta.
O povo e a artista pressentiram o manancial de risota que se aproximava: -- O que é que vossemecê vem cantar?
E ele, tentando segurar-se de pé, tartamudeou borracho -- Eu venho cantar a canção do vinho branco.
Microfone na mão, a canção lá saiu, arrastada, aos tombos, mais gritada que cantada:
Ai vinho branco
Que te adoro tanto
A toda a hora
Bebo um casco inteiro
Sem deitar nada fora...
Os aplausos, os gritos, os risos -- foram ensurdecedores. Ganhou, sem margem para dúvidas.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Contadores de histórias

Nos almoços e jantares de karaté, depois de matada a fome e a sede -- e não é a água que nos hidrata -- escorrem as histórias, valorizadas pelo talento dos contadores. O Vítor é um dos melhores:
Um ligeiro entrou numa rua estreita de Leiria. Pois um camião, em vez de esperar que passasse, avançou também: pesado tem sempre prioridade, vale a força do tamanho, além do mais anda a trabalhar, saiam da frente que quer passar. O velhote do ligeiro não se deixa intimidar. Em vez de meter marcha atrás, pára o motor. Mesmo em frente, o pesado faz o mesmo. O condutor do ligeiro reclina o banco, desdobra jornal, liga o rádio, calmamente começa a leitura refastelado como em tranquila esplanada. Pouco depois, o condutor do pesado, desatinado, sai furioso lá de cima, bate com a porta do camião, aproxima-se ameaçador, esmurra raivoso o capot do carro do velhote, que, impávido, continua a leitura do seu jornal. O outro, a espumar, bate no vidro, ruge: -- A sua sorte, a sua sorte é eu estar cheio de pressa!
Indolente, o velhote do ligeiro, dobra meticulosamente o jornal: -- O seu azar, o seu azar foi ter dado com um homem sem nenhuma pressa!
Pois o Xavier conhece história melhor: os dois carros frente a frente, motores parados, a bloquear a estrada estreita, um dos condutores começa a ler tranquilamente o jornal, o outro aproxima-se, bate no vidro: -- Olhe, desculpe lá, quando acabar a leitura do jornal, pode-mo emprestar?
Infelizmente, neste 2011 vi-me forçado a faltar a todos os estágios. Saudades!
FOTO: Paredes de Coura. O Xavier, o sensei Vilaça Pinto, eu, o Augusto (meu professor há trinta anos), o Luís Carneiro. No restaurante do Paulo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Desabafo

As notícias cansam-me depressa, não sei se por feitio, se por excesso de atenção. Se por encontrar sempre a mesma história, cada vez mais mal contada. A falta de paciência para telejornais e debates estendeu-se aos jornais e agora até já me escasseia o apetite para a leitura da maior parte dos blogues que sigo. Enjoa-me a obsessão dos seus autores na defesa ou no combate ao primeiro-ministro demissionário, na dissecação das medidas, reais ou imaginárias, do verdadeiro governo nacional, a troika. Por mim, acredito que quanto mais se mexe na merda, pior ela cheira; penso que atacar sistematicamente Sócrates é dar-lhe visibilidade que não merece e aumentar as suas probabilidades de vencer as próximas eleições; julgo que fossar na crise e nas suas consequências é um desperdício de energia que não nos torna mais felizes nem aumenta a produtividade ou a produção nacionais, ao contrário, por exemplo, do que sucede quando amanhamos a terra que décadas de cavaquismo e socratismo tornaram improdutiva.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Maio, maduro Maio

Dois meses depois de ter entrado para a cirurgia cárdio-toráxica de Santa Maria, quatro depois de ter começado a ter sérios problemas de saúde, a minha mãe mudou dos cuidados intermédios para a enfermaria. Há ainda um longo caminho a percorrer na recuperação, mas a esperança renasce.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cenas ciganas (2)

Nota prévia: entendo que os ciganos são cidadãos nacionais como eu próprio, sujeitos aos mesmos deveres e usufrutuários dos mesmos direitos. Mas não tenho a certeza de que eles partilhem esta minha convicção.

No exterior do hospital de Santa Maria, Lisboa, ciganos por todo o lado, facilmente identificáveis pelo vestuário. Cruzam comigo duas ciganas, uma jovem, apinocada, descascada, atributos realçados pela roupa justa, a outra na meia idade, coberta da cabeça aos pés. E, ao passar por mim, a mais velha lança ostensivamente lixo para o chão e olha-me nos olhos, provocadora: que me atreva a protestar, bastar-lhe-á um grito e a turba acorrerá para o meu linchamento. Não são só os ciganos a ter atitudes destas, infelizmente. Mas estas mulheres eram ciganas e não me consigo impedir de pensar que, para além  da ausência de civismo, talvez estejam a ser pagas com o rendimento mínimo dos meus impostos. E que, ainda não há muito tempo, uma certa "esquerda" recusou que os beneficiários do rendimento mínimo, agora rendimento social de inserção -- e gostaria que me quantificassem os já inseridos --, fizessem trabalho cívico, como limpar o lixo que eles ou outros como eles deitam acintosamente para o chão, enquanto os seus familiares beneficiam de cuidados de saúde para que talvez nunca tenham descontado. É bonito dizer que temos de ser solidários, mas, e os beneficiados, não têm de dar nada em troca à sociedade?

O duplo

Aprecio sobremaneira os filmes de Akira Kurosawa. Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um  senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Saliento ainda a reconstituição do ambiente feudal japonês, o realismo dos guerreiros samurai e dos espiões ninja e a extraordinária lição da arte da guerra que a sombra do senhor dá ao "seu" neto quando lhe explica o lema do estandarte:
"Veloz como o vento, silencioso como a floresta, devastador como o fogo, imóvel como a montanha".

Morte de Bin Laden

Não sou dado às teorias da conspiração. Mas aprecio as provas, na linha do ver para crer, como S. Tomé. Acredito que os americanos tenham enviado os seus assassinos ao Paquistão; que eles tenham morto uns talibãs (depois de mortos, todos o são); que tenham chamado a um deles Bin Laden. Agora aquilo em que não consigo acreditar é que tendo conseguido matá-lo, tenham depois atirado o corpo ao mar. O Che, depois de assassinado, foi fotografado, exposto, para que ninguém tivesse dúvidas; o Saddam foi filmado enquanto era enforcado. Com o Bin, que perseguem há tanto tempo, porquê tanta pressa em se livrarem do presunto? Desde quando os militares não adoram exibir troféus e despojos de guerra? 
Ou surgem evidências evidentes da execução, ou alguém acabará por desconfiar de que se trata de outra obama-treta. Talvez até alguém prove que não é possível matar um morto...

domingo, 1 de maio de 2011

Cenas ciganas

Nota prévia: entendo que os ciganos são cidadãos nacionais como eu próprio, sujeitos aos mesmos deveres e usufrutuários dos mesmos direitos. Mas não tenho a certeza de que eles partilhem esta minha convicção.

Duas da tarde. Na pequena sala de espera do hospital de Alcobaça, à cunha de doentes e de familiares, entra gigante cigano, quarentão, calmeirão, trajado de preto, dobrado pela cintura quase em ângulo recto, mãos nos ombros de mulher, que conduz em rectas e curvas como se fosse carro de mão. Estacionam de lado, junto à recepção. A menina informa: -- Hoje isto está complicado. A demora é de sete horas. O cigano protesta, a mulher ajuda à festa. Ele precisa de uma injecção.
Chega cigana mais jovem, criança ao colo. É sobrinha. Chegam seis jovens, todos a rondar os dois metros. Em breve, chegam outros, todos eles gigantes. Começo por admirar a unidade do clã: um tem dores de costas, logo toda a tribo invade o hospital. Mas deixo de achar tanta graça quando uns vinte minutos depois chamam o dobrado às urgências. Para entrar sozinho. Protesta e conduz a mulher à sua frente, dois dos jovens acompanham-no. De fora, fica a sobrinha com a criança ao colo e o resto da tribo. Saio da sala  de espera, atravancada. Pouco depois eles saem também. Jogam animados às cartas. Tudo bem. E o segurança, anão ao pé deles, apesar de alto, aproxima-se e atreve-se: --- Aquele estacionamento está reservado às ambulâncias. Um dos ciganos levanta os olhos, cigarro ao canto da boca, enquanto joga carta: --- Aquilo (e aponta com o olhar para as camionetas da tribo) são ambulâncias.
O segurança ri amareladamente e reentra no hospital. Em breve, sai das urgências o das dores nas costas com os respectivos acompanhantes. A demora de sete horas é para a minha mãe, que, saber-se-á quando a examinarem já bem de noite, só tem um aneurisma da aorta com derrame pleural. Que a não matou por milagre.

sábado, 30 de abril de 2011

Portugal tem talentos


Que imitam na perfeição a voz, os requebros, os trejeitos, a mímica, os tiques de Jorge Palma, Rui Veloso, Manuel Freire. Outros clonam perfeitamente as receitas literárias da moda. Quais camaleões, olhamos para eles, mas apenas conseguimos ver os originais que copiam. Só não se imitam a si próprios. Talvez porque o sucesso de que gozam os impeça de compreender isto: 
Quando tu fores Tu, não haverá mais Deus nem Demónio.
FOTO: (clicar para ampliar). Sardanisca à caça no meu quintal. Como ela, antes réptil humilde que camaleão  bem sucedido.

Elogios


Sobejamente conhecidos, do tempo em que havia crítica, debate, confronto de ideias. Tão bons que geraram inimigos do peito. Porque, naquele tempo, o valor de um homem media-se pelo dos seus inimigos.
“A sua tese tem tanto de bom como de original. Infelizmente, o que é bom não é original; o que é original não é bom.” Marcelo Caetano para já me não lembro quem.
“A sua tese é uma excelente súmula das leituras feitas.” Lindley Cintra para não digo quem.
“É um excelente romance do século XIX.” Vergílio Ferreira sobre Mau tempo no canal.

Escrita feliz

Ouço-os: a escrita sai-lhes naturalmente, sem sofrimento nem especial esforço. Escrevem por prazer, ou não o fariam. Um, que vende em barda, confessa até que não conhece a branca do escritor. O seu problema está na falta de tempo e não na de ideias, pelo que se fica por modestas trinta páginas diárias.
Escrevem como eu cago. E o resultado não é muito diferente.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Ventos contrários

Não me refiro às sondagens que sugerem nova vitória de Sócrates, nem às notícias que, diariamente, os media inventam sobre o pacote do FMI & C.a. Relativamente a essas duas tragédias, estou conformado: só tenho um voto e não será para o PS; quanto aos cortes, lá diz  povo, vão-se os anéis e fiquem os dedos. Não. Os ventos contrários são os que ameaçam a minha agricultura, com previsão de mau tempo para o fim-de-semana; tenho a vinha e as batatas para curar, o feijão e o milho para semear, e assim não dá. É certo que uma desgraça nunca vem só, mas não poderia chover apenas de segunda a sexta?
FOTO: Lisboa, 2009

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Literatura sem palavras

A "Universidade do Porto lança um desafio à criatividade, ao sintetismo e à imaginação de toda a comunidade: escrever um micro-conto de ficção com apenas 100 palavras..."

Aprecio o micro-conto, já escrevi alguns, mas cem palavras? Como contar uma história, transmitir ideias, exprimir sentimentos e sensações, criar ambiente, num texto do tamanho deste post? Tudo se faz, evidentemente, mas a que preço? Se há matéria em que a miniaturização me parece pouco apetecível, ei-la.
Avizinha-se uma nova literatura, especialmente concebida para analfabetos: sem palavras, para não ser preciso ler. Idealmente, uma página em branco, para acompanhar com música bem batida.
(100 palavras)

A excepção e a regra

O acordo entre os ferroviários e a CP que levou à desconvocação da greve alargada tem argumentação deveras arrevesada, que sugere descarrilamento da empresa:
Em causa estão os cortes salariais, abrangidos no Orçamento do Estado, nas horas extraordinárias, no horário nocturno, nos dias de descanso e nos feriados que ficarão sem efeito, caso o acordo tiver o aval das duas tutelas, tendo em conta a excepção de a CP depender directamente do trabalho extraordinário dos funcionários para o regular funcionamento.
Como é que pode  "a CP depender directamente do trabalho extraordinário dos funcionários para o regular funcionamento"? Vai a actual administração exigir a reposição dos prémios pagos às anteriores administrações que permitiram que a CP se transformasse numa empresa de trabalho extraordinário num país em que o desemprego é revoltante? Vão os sindicatos exigir a pronta admissão de novos trabalhadores para evitar esta dependência escandalosa do trabalho extraordinário? Alguém vai rever o conceito de trabalho extraordinário (é que, li, só por se apresentarem ao serviço têm direito a prémio de produtividade de 6 euros!) ? Vai alguém fazer alguma coisa ou esperamos pela falência da empresa, precedida de novas greves?

Atónito

Gripe violenta e sequelas subsequentes atordoaram-me de tal forma nos últimos tempos, que hoje, ao ler as notícias que dão maioria ao PS, julguei delirar. Não, não sou eu que deliro, é o país, lá pelos algarves, brasis, repúblicas dominicanas. É o país, cujos infelizes sem direito a ponte fazem greve, indignados com a injustiça de terem de trabalhar enquanto os outros se regalam à chuva na praia -- afinal, com toda a gente de férias, a quem, senão a mim, faz falta o comboio?
Parecia brincadeira de crianças derrotar este PS, que nos conduziu à perda da independência, à bancarrota, num percurso errático e alucinado, sempre destruindo o que jurava defender e não cumprindo nada do prometido. Pois parecia. Mas esquecemos as motivações básicas do povo: pão e circo. Enquanto não faltarem -- e circo como o de Sócrates jamais se viu -- o povo depressa esquece / e tornará a votar PêEsse.

ADENDA: a greve dos maquinistas foi desconvocada. Sugiro atestado médico.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Alarmismo social

Por parte, precisamente, daqueles que deviam ser o garante da estabilidade das instituições. Falo dos militares, que berram desalmadamente apenas porque não receberam no dia (por eles) previsto. Acalmem-se, quando o pagamento faltar será para todos, não apenas para a tropa. E, entretanto, podem aproveitar o dia de jejum para pensar em todos os trabalhadores que têm ou tiveram salários verdadeiramente em atraso. Para reflectir sobre a necessidade que Portugal tem de tantos oficiais superiores em terra, na força aérea, na marinha. Sobre o excesso escandaloso de mordomias. Sobre a possibilidade de pôr à venda os novos brinquedos bélicos como os submarinos, que devem estar como novos, sem uso. Em restringir a participação em missões de paz , só aceitando aquelas cujos beligerantes paguem a conta. Exactamente no dia 20 de cada mês.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Amante Holandesa

Os leitores que me conhecem sabem que não sou dado à lisonja; aqueles que me não conhecem, façam uma pesquisa e apontem-me elogios aos escritores e poetas da moda. 
Pois bem, finalmente consegui comprar uns livros de Rentes de Carvalho, comecei a leitura por A Amante Holandesa, e digo e escrevo: é muito bom. Lê-se de um fôlego, muito bem escrito, técnica primorosa. Obra de mestre.
Há, claro, o risco de o autor pensar que o estou a engraxar, João. Mas olha: estou muito mais interessado no que José Rentes de Carvalho escreve do que naquilo que possa pensar de mim. E o sacana é mesmo bom!

Primavera

O chilrear das andorinhas, sempre azafamadas, o perdigão a chamar o bando, no sábado passado o cantar do cuco. É a Primavera, a tentar alegrar-me no meio das desgraças.
Foto: roubada da Wikipedia, que nunca vi nenhum no campo.

A Europa e eu

Nunca fui europeísta. Não é de agora, quando os nossos "irmãos" alemães nos querem fritar para castigo dos nossos erros, mas de sempre. Discordei dos fundos comunitários entregues a espertalhões que prontamente os converteram em jipes, em apartamentos com vista para o rio, em roupa de marca, europeia, claro, óculos de sol a milhares de contos. E em viagens constantes, ditas de sonho, porque, tentaram-me convencer, estamos neste mundo para passar férias em locais exóticos, longe da vulgaridade nacional. E riam-se de mim, quando lhes cjtava Álvaro Pais: --- Bom Londres é Portugal!
Indignei-me com a propaganda do Clube Europeu da minha escola e, sobretudo, com um autocolante, repugnante do azul à estupidez do slogan "A minha pátria é a Europa"... E então a conversa interminável, que fui obrigado a gramar, sobre a "Europa da Regiões", que opunham à das nações, agoniava-me até ao vómito.
Se simpatias, mesmo escondidas, ainda tivesse pela integração europeia, o julgamento do Tintin no Congo por racismo, oitenta anos depois de ter sido publicado, e qualquer que seja a decisão do tribunal, dissipá-las-ia prontamente. Esta Europa, onde me querem obrigar a viver, cada vez me agrada menos. Até mesmo como vizinha. Venha de lá a Jangada de Pedra.

sábado, 16 de abril de 2011

O melhor escritor

Quem é melhor escritor? Aquele que publica regularmente e vende em barda, é célebre, conhece a glória, ou o pobre diabo que escreve discretamente ao longo da vida e talvez até deixe obra-prima inédita, a publicar a título póstumo?  O autor fácil, o difícil, o popular? Aquele que é fotogénico, bem falante, irreverente, fazedor de escândalos que animam os palcos mediáticos, ou o que foge da luz como o diabo da cruz? Questões ociosas, que escapam a respostas cabais. Porque dependerão sempre da subjectividade de quem responde. E porque ocioso estou eu, por força de gripe e do adiantado da hora, lembrei-me do Barthes:

l'écrivain est un homme qui absorbe radicalement le pourquoi du monde dans un comment écrire.
Traduzo, que já la vai o tempo em que todos os portugueses, excepto os emigrantes, falavam Francês, como disse Herbert Pagani numa entrevista:
o escritor é um homem que absorve radicalmente o porquê do mundo num como escrever
Tudo o resto, sucesso, vendas, prémios, formas, géneros, temas, etc., é secundário. O que importa, para Barthes, para mim, é ser capaz de absorver os dramas da existência, o mistério da vida, e plasmar tudo isso num como escrever, como farão, em suportes diferentes, os pintores, os músicos, os escultores...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Desenquadramento

Os partidos políticos teimam em me deixar sem escolha também nas próximas eleições. Porque, viciados na retórica tola com que nos vêm anestesiando desde o 25 de Abril e na procura do efeito mediático, simplesmente não se conseguem calar, não conseguem impedir os disparates que prontamente jorram da boca dos seus dirigentes mal vêem câmaras de televisão. Haverá nesta atitude, para além do falajar crónico 
("temos de dizer alguma coisa senão morremos estúpidos" -- e só um estúpido fala para não ficar calado)
a convicção enraizada, que faço remontar à oratória barroca, de que com suficiente conversa  e excessiva exposição mediática nós iremos na cantiga. O que, infelizmente, tem acontecido. 
Primeiro foi o PS, obstinadamente estúpido e incompetente, a fazer-me arrepender de lhe ter dado o meu voto há seis anos; agora é o Coelho, que todos os dias me dá fortes razões para nele não votar; o PC, em que votei algumas vezes no tempo de Cunhal, definha tristemente afogado em lugares comuns e falta de ideias -- e como as poderia haver num partido que escorraça quem ousa tê-las? Havia, ainda o Bloco de Esquerda, apesar dos discursos redondos e ocos de Louçã, que gosta tanto da palração que se esquece do conteúdo; mas, há pouco, vi cartaz do Bloco, tão abjecto, tão baixo, tão inflamatório dos sentimentos mais baixos da populaça, que também a possibilidade de nele votar foi prontamente excluída. Tem por slogan
"Para eles a fartura / Para nós a factura"
Será que as pessoas inteligentes do Bloco se não indignam com esta dicotomia bronca entre nós e eles, com esta alusão invejosa e mesquinha à fartura dos outros, com este atribuir simplista da culpa aos outros, porque nós, coitadinhos, nada temos a ver com o que se passou em Portugal desde o 25 de Abril? O que pretendem, afinal, os seus dirigentes? Uma Patuleia? Cuidado, porque o eleitorado do Bloco está bem mais do lado da fartura do que da factura!
Enfim, como os resultados das próximas eleições serão irrelevantes para a governação, ter em quem votar é mais uma questão desportiva do que política...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Default já!

Quase nada percebo de finanças. Apenas o suficiente para saber que é impossível continuar a mendigar empréstimos a juros altíssimos para pagar outros empréstimos e os encargos absurdos do Estado. Uma coisa são os serviços prestados aos cidadãos, na saúde, na educação, na justiça, nos transportes públicos, etc. (e podem todos eles ser seguramente embaratecidos e com aumento de qualidade), outra é o esbanjamento e a pouca vergonha a que assistimos numa política de dois pesos e de duas medidas que premeia o compadrio, a corrupção, as obras megalómanas e inúteis, mas persegue impiedosamente a classe média baixa, que não tem como fugir aos cortes e aos impostos. Por isso, e consciente da minha insignificância e ignorância, tenho defendido junto das escassas dezenas de leitores deste blogue, na sua maior parte familiares e amigos, uma mudança de rumo. Tenho perfeita consciência de que serei um dos sacrificados; mas já estou habituado e talvez consiga sobreviver também a esta crise. Sei bem que há muita gente, muito mais qualificada, que se lesse as minhas propostas as ridicularizaria -- mas foram muitos desses técnicos tão competentes que nos conduziram à situação actual, não eu e as minhas ideias.Ora apraz-me verificar que começam a surgir posts que defendem exactamente a necessidade de mudar de rumo, assumindo uma situação de default (suponho que seja bancarrota encapotada). Como este, de Ricardo Vicente, no Albergue Espanhol. Leiam-no e digam-me se a argumentação do autor não faz sentido. Porque  a manutenção do actual statu quo já não tem pernas (ou euros) para se aguentar.

Terei visto bem?

O FMI e etc. a apanhar táxi no aeroporto. A representação do PSD a chegar para encontro com o governo em brutos carrões... Pode ser manipulação de imagens por parte da televisão. Pode ser do meu queratocone. Ou pode ser apenas mais uma evidência das caganças nacionais. Puede y no puede, como cantava Neruda.

Gente importante

Gente importante não limpa o cu a nenhum telho (o dito é anterior ao papel higiénico, mas continua apropriado). Gente importante fala na primeira pessoa: eu fiz a revolução ou eu não fazia hoje a revolução. Gente importante só aceita ser presidente. Gente importante julga-se importante. Só não sabe, porque, lá diz o Principezinho, para os vaidosos todos os homens são admiradores,  que nós, as enguias deste país, nos cagamos para eles e para a sua prosápia. Que, na nossa incultura, na nossa ingratidão, até citamos Napoleão, o tal que dizia a Talleirand: "Vous n'êtes que de la merde dans un bas de soie." Isso mesmo: merda numa meia de seda, mesmo que hoje se não usem meias de seda, como se não usam os telhos para limpar a merda que lhes sai das bocas, quando as abrem. (Ah, se ainda servisse para adubar os nossos campos incultos...)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Viva a Islândia!

Não gastem conversa com Sócrates, Coelho, esquerda e direita. Tudo isso é passado. Aos políticos portugueses está doravante reservada unicamente a função de "actores". Isso mesmo: não "agentes", mas profissionais da representação. E a nós, portugueses, espera-nos a difícil labutação pela sobrevivência. Como os nossos antepassados. Como o nosso povo. Como as enguias. Embora pense que amolecemos demasiado nos últimos 35 anos e, desprovidos da fibra dos homens de antanho, já não sejamos capazes de preferir o lume vivo da independência e da dignidade ao azeite fervente da frigideira da subsidio-servo-dependência.
Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. (...) As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”
Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil...
Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados…
Há um país da Europa que declarou bancarrota; cujos contribuintes recusam pagar os prejuízos dos bancos e em referendo recusaram indemnizar os investidores (ou especuladores) ingleses e holandeses... Eles sobrevivem, escamados, esventrados, mas livres. VIVA A ISLÂNDIA!

domingo, 10 de abril de 2011

Dívida pública

Um credor furioso perseguiu caloteiro até aos sanitários públicos e ocupou o urinol mesmo a seu lado.
-- Olha lá, pá, quando é que me pagas o que me deves?
E o pobre caloteiro, intimidado, enquanto dava as três sacudidelas da praxe: -- Não sei, pá, isto está mau! Vamos a ver se a coisa se endireita... Olha, se endireitar, o primeiro buraco a tapar é o teu!
(Dedicada à Alemanha, à Finlândia, à França, à Inglaterra, a todos os outros países-fêmea desta Europa credora e  ingrata, em nome do velho Portugal, cuja res publica já não promete endireitar-se.)

sábado, 9 de abril de 2011

Rituais dos pequenos vampiros

Salto de canal em canal, sempre perseguido pelo congresso triunfal do PS (Partido Sócrates). Como é possível tanto descaramento? Não tenho dúvidas de que poderia ter sido outro o partido a conduzir-nos nos últimos seis anos para o abismo  em que, segundo o ministro Luís Amado, Portugal caiu. Mas não foi. Foi Sócrates que nos atirou para lá. E revolta-me-me ouvir os finlandeses e outros que tais a discutirem se nos vão ajudar e em que moldes. E envergonha-me ouvir Cavaco Silva (abençoada decisão de não votar nas últimas presidenciais!), esse presidente pobre e indesejável na Europa dos (novos) ricos, a pedir imaginação nas ajudas comunitárias. Será que nunca lhe disseram que a homem sem dinheiro até os cães lhe mijam nas pernas?

(Título roubado a um conto de Cardoso Pires.)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Para ler e reflectir

Este post de Luís Naves, o autor de Territórios de Caça, sobre as vicissitudes que afectam os autores nacionais e a produção literária caseira.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Outros tempos


Time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence, a time of confidences
Long ago, it must be, I have a photograph
Preserve your memories, they're all that's left you


Simon & Garfunkel, Bookend

Algures no céu

Numa destas noites, o Afonso perscrutou demoradamente o firmamento. Depois, desconsolado, desabafou: -- Não consigo ver o avô Eduardo no céu!