Neste dia que amanheceu chato, amodorrado, deu-me para vasculhar nos meus ficheiros e encontrei este conto, de 2018, que apareceu numa antologia organizada e publicada por colegas de escrita.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2020
A Abafadora
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
A minha bicicleta
– Afilhado, quando fizeres a quarta classe, dou-te uma bicicleta!
A promessa apanhou-me de surpresa, deixou-me sem fala, a rebentar de alegria interior. Uma bicicleta! Minha, não como a de outros garotos, surripiada às escondidas ao pai, ou a irmão mais velho, o que lhes valia depois umas boas tareias. Logo que pude, deixei-o na cavaqueira na adega com o meu pai, e corri a dar a grande notícia à minha mãe.
-- Dá-te uma bicicleta? Tomaria ele ter uma! Isso são coisas que se dizem aos garotos.
– Dá, ele disse que dava, o meu pai ouviu.
– Então espera
por ela.
Esperei. Fiz a quarta classe, o Ciclo preparatório, o Curso Comercial, etc., etc. Sempre sem bicicleta. Que essa há-de dar-ma o meu padrinho, assim prometeu num serão na nossa adega sessenta anos atrás.
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
Reciclagem
segunda-feira, 28 de setembro de 2020
Fazer chichi
Tinha dez anos, frequentava o Ciclo Preparatório. Era meu professor de Trabalhos Manuais mestre Cristóvão, um homenzarrão, velho dos seus trinta anos.
Ora numa das suas aulas deu-me uma terrível vontade de urinar e contorcia-me na carteira sem ousar pedir ao mestre para ir às sanitárias, indeciso entre o falar grosseiro próprio das minhas origens camponesas e a linguagem efeminada da vila. Mas a necessidade, imperiosa, género ou vou já ou faço aqui, obrigou-me a vencer a vergonha:
– Senhor mestre, posso ir lá fora?, atrevi-me timidamente.
O homenzarrão encarou-me: – E o que vais tu fazer lá fora?
– Chichi, balbuciei, olhos baixos.
– Queres ir fazer o quê?
A turma ria a bandeiras despregadas. Da minha atrapalhação, e por eu falar como uma menina.
Já não aguentava mais.
– Mijar, sussurrei, certamente corado como dióspiro maduro.
– O quê? Fala mais alto, que não te ouço!
– Quero ir mijar, senhor mestre!
– Vai lá então, mas não te demores.
Fui. E nunca mais fiz chichi na vida.
Foto: talvez dois anos mais tarde, a mesma turma.
terça-feira, 8 de setembro de 2020
Saudades
Dos tempos que passei na Faculdade de letras de Lisboa, primeiro na licenciatura, quase duas décadas depois no mestrado em Linguística e, teimoso que sou, no doutoramento em Linguística Computacional -- que não terminei e terá sido das raras coisas de que desisti.
Eis duas imagens do último trabalho que apresentei.
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
Jimbrinhas
Era demasiado pequeno, franzino, sem jeito para nada. E, então, não faltavam mimos, que o bullying e os traumas de infância ainda não haviam sido inventados:
Não prestas para nada! Mal empregado o que comes! Não podes com uma gata pelo rabo! Não sabes fazer nada! E, a resumir, a culminar a caracterização da minha inépcia, inevitavelmente vinha palavra que tudo resumia e nunca ouvi fora da aldeia: jimbrinhas!
Só na escola brilhava. Sabichão. Devorador dos poucos livros que me passavam ao alcance, de tudo o que era letra, fosse em edital, em jornal velho, em pacote de açúcar. Mas, fora das letras – um jimbrinhas chapado!
Chegaram os livros de ‘cóbois’. E cada garoto logo escolheu a sua personagem, mais forte no soco, mais rápida no sacar do revólver, mais fatal no tiro, mais justiceira na missão de punir os maus, índios e ladrões de gado, jogadores invariavelmente batoteiros, assaltantes de diligências:
– Eu sou o Kit Carson!
– O Arizona Kid!
– O Roy Roger!
– O Texas Kid!
– O Bill the Kid!
– Eu é que sou esse! E rebolavam já, engalfinhados, no pé da terra batida da estrada.
Sem querer entrar em brigas, lá declarei que era aquele que nenhum escolhera:
– Eu sou o Jim Bridger!
Gargalhada geral: Isso, tu és o Jim Brinhas!
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
Ó nino!
Ó nino!
domingo, 26 de abril de 2020
Dos meus treinos diários de Tai Chi
segunda-feira, 16 de março de 2020
Um encontro em Samarcanda
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Cartas de amor
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020
Uma vila do interior
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Denunciantes (1j
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
O Tai Chi Chuan e eu
https://www.youtube.com/watch?v=jhzhQ0cVkCQ
sábado, 21 de dezembro de 2019
No jornal Tornado
https://www.jornaltornado.pt/portugal-profundo/
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
Una historia más de guerra
sexta-feira, 22 de novembro de 2019
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
Livro What is space? What is time?
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
Invernias
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
O Drácula
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
O sindicato e eu
Levei a sindicalização a sério. Apresentei lista, candidatei-me a delegado sindical na escola em que então estava colocado — e perdi.
Paciência. Tal não arrefeceu a minha fé sindical.
Até que, após greve selvagem, os professores de uma escola de Lisboa foram despedidos.
Logo o sindicato estendeu asa protectora, comprometendo-se a pagar-lhes os salários, conforme estabelecido nos estatutos.
E eu aprovei.
Mas, poucos meses depois, a pretexto de uma lacuna no boletim de candidatura (lacuna que o certificado de habilitações anexado esclarecia), me vi no desemprego. Sem economias, com renda de casa elevadíssima— as casas para arrendar eram então raras como a chuva neste Outono —, família a meu cargo, nada de empregos, de trabalho naquela época em que o país e a economia andavam pelas ruas da amargura.
E lá vou eu ao sindicato. A querer que pressionassem o Ministério a reapreciar o meu boletim de candidatura. Não valia a pena. Havia milhares como eu, tratava-se de manobra do governo para diminuir drasticamente o número de professores provisórios. Processar o Ministério? Para quê, se lá não havia duas pessoas a dizer o mesmo?
Então, e o subsídio de desemprego, que consta dos estatutos e foi já atribuído aos colegas da escola X?
Riram-se. O sindicato não tinha verbas para tal, diziam. Em funcionários, assessores, equipamentos, rendas, ia-se todo o dinheiro das quotas.
Fui colocado meses mais tarde. E uma das primeira coisas que fiz foi cancelar a minha sindicalização.
Passaram muitos anos. Um amigo, delegado sindical, convenceu-me a voltar a aderir ao sindicato. Fizemos greve prolongada, bem organizada. O governo ia ceder. Depois de tantas greves simbólicas, em que perdíamos o salário para que o PC marcasse posição, finalmente uma que íamos ganhar. E uma manhã, ao entrar na escola, soube que o sindicato, o Teodoro, nos tinha novamente traído, pondo fim à greve sem nos ouvir.
Outra vez cancelei a sindicalização.
Há quem nunca aprenda certas lições. Como eu.
Nos tempos negros da Maria de Lourdes e da sua famigerada avaliação fui a uma reunião sindical, pedi o papéis e voltei a ser sindicalizado.
O dirigente sindical que me inscreveu bandeou-se para o Ministério da Educação.
E eu continuei a pagar a quota, 1% do salário, até à aposentação.
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Da violência nas escolas
Para Mário Nogueira, não há presunção de inocência quando se noticia que um professor bateu num aluno. Essa presunção fica, talvez, reservada para os políticos corruptos, seguramente para os pais que agridem professores e funcionários. Nem importa, antes de mais, apurar os factos, aguardar os resultados do processo disciplinar que foi ou vai ser instaurado.
Adiante.
O que me envergonhou mais, o que me enojou, foi ouvi-lo a retomar a velha discriminação contra os professores não profissionalizados.
(Tantos anos após o 25 de Abril, o velho preconceito, de que também eu fui alvo, primeiro miniconcursiano, depois provisório, continua subjacente:
— O colega é efectivo? Não? Então não devia estar a dirigir esta reunião!
— Vá-se queixar à direcção, que me nomeou!
Mas doía. E a prova é que não esqueci.)
Agora Nogueira com conversa parecida. Como se na formação para a profissionalização se aprendesse a não perder a cabeça! Como se a formação fizesse uma qualquer triagem segundo as competências científicas e pedagógicas, a adequação aos requisitos da profissão, à saúde mental, até!
Como se não houvesse no activo alguns profissionalizados que jamais deveriam estar à frente duma turma!
Como se as condições de trabalho em certas escolas não fossem suficientes para qualquer um se passar!
Não. O problema é que o colega, que até pode ser engenheiro informático, não tem a profissionalização.
Já quanto à agressão de Valença, feita por pai orgulhoso do feito, tanto que até organizou contra-manifestação com a tribo, nem uma palavra. Bater em funcionários e em professoras e professores, tal como em polícias, não tem idêntica gravidade. Não merece que se pronuncie.
Porque neste caso, seguramente, a culpa é dos agredidos. Mesmo se profissionalizados.
domingo, 13 de outubro de 2019
Pedantice
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Putas e vinho verde
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Do meu vinho e da minha escrita
Não, não vendia. Dava. Que o fosse buscar.
Tempos depois, perguntei-lhe o que é que os entendidos, bebedores diários e inveterados, tinham achado da minha pinga.
Devia ter adivinhado: santos de ao pé da porta não fazem bom vinho, menos ainda o Zé, que nunca foi agricultor a sério, nem anda a cair de bêbedo nas noites de sábado; ainda se fosse descendente dos “ricos” da terra, ainda se o vendesse, que o dado não presta, nem permite dizer que não vale o que custou...
Não, aquilo não era vinho, sem o forte sabor do sarro dos tonéis, sem dose cavalar de metabissulfito — feito com toda a higiene, conservado em cuba de aço, não sabia a vinho!
Soube depois que o meu sobrinho, desgostoso, retirou o invólucro interior e colocou-o dentro de embalagem de cartão da marca habitual. Aí beberam-no, ao que me parece sem mais protestos, excepto quando um dos habitués se queixou dias depois: Este vinho não é da... (a marca da caixa de cartão)!
Como é que sabes?
Deixei de cagar preto!
(O que tem isto a ver com os meus romances? Tudo. As editoras rejeitam-nos por razões análogas e preferem as cagadas. E depois queixam-se da falta de leitores.)
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Uma história em ar
quarta-feira, 22 de maio de 2019
Chico Buarque
O meu primo, então a frequentar o Conservatório, pediu-me que comprasse bilhetes para concerto que Chico Buarque ia dar num cinema entre os Restauradores e o Marquês, esqueci o nome. Quando lhe entreguei o bilhete,
— Compraste também para ti?
— Não. Estou teso...
Insistiu para que comprasse, quis pagá-lo ele. Recusei, e voltei ao tal cinema. Comprei o mais barato, para o poleiro, o último balcão. E lá me sentei, a ver no palco figuras minúsculas que tocavam os primeiros acordes — o conjunto do Chico (hoje diz-se banda), o MPB4. Na sala, gigantesca, uma pessoa aqui, outra ali.
Então, chega funcionário a pedir para nós, os do poleiro, nos sentarmos na primeira fila, para que Chico Buarque não actuasse para cadeiras vazias. Tive, assim, oportunidade de assistir ao seu espectáculo juntinho a ele.
Excepcional. Mas com fraca assistência, nem a banda a passar colocou a sala ao rubro. E o cantor, a determinada altura, desabafou: não sabia se as suas músicas eram apreciadas em Portugal, mas no Brasil quase ninguém as conhecia.
Pois, cá, fora do meio intelectual, apenas a banda a passar tinha chegado às massas, embora na rádio se ouvisse muita música brasileira, eu quero buzinar o seu calhambeque e quejandos.
Ainda bem que tudo mudou. Chico Buarque, que talvez fizesse suas as palavras (creio que) de Brel, algo como não sou poeta nem músico, faço canções — conheceu no Brasil e cá a glória merecida pelo seu talento, enorme e diversificado (letrista, músico, actor, escritor), e acaba de ser distinguido com o Prémio Camões.
E eu tive o privilégio, graças à insistência do meu primo, de o ter visto no palco, tão perto que quase lhe podia tocar, quando era jovem, antes da consagração, e de me ter embevecido com a sua genialidade e a dos músicos que o acompanhavam...
(A time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence
A time of confidences
Long ago it must be
I have a photograph
Preserve your memories
They're all that's left you
Simon&Garfunkel, Old Friends)





