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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

A Abafadora (4/6)

 E naquele instante, a iluminação desceu sobre aquela pecadora empedernida: Sr. Padre, sozinha, sei que não consigo. Seria pedir demais se o Sr. Padre passasse um destes dias por minha casa, benzê-la, benzer-me a mim, ensinar-me a rezar, que já me esqueci, ajudar-me a vencer o pecado e o Demónio?

O padre recusa. As necessidades da carne são muitas, duras de suportar, aquela quarentona é o Diabo em figura de gente, melhor que não cair em tentação é nem sequer se chegar perto dela: Em tua casa, não, sabes o que são as más-línguas.

O Sr. Padre podia ir à civil…

Embora. Se me vissem a entrar em casa de mulher sozinha, o que não pensariam, o que não diriam? E por medo das bocas do Mundo o Sr. Padre recusa salvar uma alma! A porta do prédio dá também para o Centro Comercial, mesmo que alguém o visse, não desconfiava. 

Não, nem pensar. Vens à igreja, falamos aqui. Mas desde já te previno, é inútil persistires no pecado e quereres que te afaste dele. 

Tem razão, Sr. Padre, fez-me bem falar consigo, abriu-me os olhos, olhe, assim não já apago a dona Custódia. Era para ser na próxima terça-feira. E sim, venho à igreja falar consigo, agora vou-me embora, vou mais leve, sinto até um bem-estar interior. 

Foi o Espírito Santo que te tocou, volta quando quiseres.

E enquanto recupera para a próxima confissão, seguramente velha beata de pecados irrisórios, levanta as mãos e agradece Bendita sejas, minha mãe do céu, que me não deixaste tentar por aquele demónio em figura de gente! Fazei com que ela volte à igreja, para, com a tua ajuda, a poder encaminhar, afastar do Demónio, que, sem dúvida, tomou conta da sua alma!

No domingo, a mulher, Piedade de seu nome, voltou à igreja. Desta vez, para assistir à missa. E reconhecendo-a, o padre rejubilou interiormente: talvez haja ainda salvação possível...

Não falaram. Ele, apressado para oficiar na paróquia vizinha; ela, discreta, a evitar dar nas vistas, a cumprimentar com sorriso modesto as devotas vagamente conhecidas, que a olhavam intrigadas. Duas missas depois já nenhuma estranhava vê-la na igreja. E o padre ansiava por a voltar a confessar: teriam as suas palavras surtido efeito, teria ela deixado a prática criminosa, estaria em processo de arrependimento?

E noutra tarde de chuva, amodorrada, lenta, preguiçosa, com o padre no locutório a disfarçar bocejos enquanto as velhotas desfiavam rosários de pecados, pequenas maldades femininas, má-língua com as vizinhas, ofensas rancorosas à nora, ao genro, patifarias, pequenos furtos até, falhas tão numerosas como as contas dos seus terços, tão anódinos como a crença ingénua na possibilidade de mover a seu favor a vontade de Deus, não com o viver cristão, mas com a repetição infindável de pais-nossos, aves-marias, salve-rainhas em melopeias desprovidas de sentido -- eis que volta a Piedade, a alegrar a tarde do pároco, que via finalmente alguma utilidade no seu trabalho: Não, Sr. Padre, nunca mais... A dona Custódia? Rija, apesar dos noventa! Com um feitiozinho que faz favor! Mas não, irá quando o Senhor a quiser levar, que eu já lhe não mando ninguém desde que o Sr. Padre me repreendeu. É a minha grande amiga, mal me avista, que vê bem apesar da idade, logo me chama para junto dela, é só beijinhos, abraços, meiguices!

O sacerdote regozija, triunfante, depois, resguardado das vistas pelo locutório, arrependido da vaidade, levanta os olhos e as mãos, palmas unidas, murmura agradecimento à boa Mãe do Céu, que se não providenciou este milagre em curso, seguramente o aprova. Afinal, nestas intermináveis tardes de tédio, havia um propósito divino, havia uma ovelha tresmalhada para salvar do fogo do Inferno, e, mais se alegra, vidas em risco que já não são ceifadas prematuramente por mão assassina! Não, não é de todo inútil o seu trabalho!

A Piedade, já sabemos o seu nome, muito pouco para a denunciarmos à polícia, nós que, ao contrário do pároco, o podíamos e devíamos fazer se tivéssemos provas e soubéssemos exactamente quem é, a Piedade dá razão ao confessor, mas lamenta que Deus ainda lhe não tenha dado a força de vontade suficiente para se entregar às autoridades, por isso reitera o pedido: que venha um dia, de manhã, à tarde, quando achar melhor, a sua casa, expulsar demónios, benzê-la, rezar com ela para, juntos, conseguirem a graça divina do verdadeiro arrependimento, do assumir da culpa, da coragem para arcar com as consequências.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A Abafadora (3/6)

Já em nova, quando roubava os namorados às colegas, à minha irmã, pouco prazer tinha com eles na cama. Mas, mesmo assim, fazia-o para as arreliar, para lhes estragar o namoro, e dava-me tanto mais gozo quanto mais apaixonadas estivessem. E era tão fácil! Bastava dar aos rapazes o que eles queriam e elas negavam, ou fazer-lhe, ou deixá-los fazer, coisas que as namoradas recusavam alegando vergonha ou nojo! As fingidas! Queriam-nos pelo beicinho, sempre atrás delas como cães no cio, para fazerem inveja às outras, e eu, tirava-lhos como quem tira a chucha a uma criança, elas a chorar, a berrar, e eu a rir. Delas e deles, que depressa me fartava e os mandava à vida, desfeitos, a fazerem-me juras de amor eterno, promessas, que depois de uma tarde na cama comigo ficavam loucamente apaixonados. Foi isto que não contei ao outro Sr. Padre quando me confessei para o casamento. Veja lá o que não seria se chegasse aos ouvidos do meu marido! Não, estou divorciada há dez anos certinhos, o meu marido trocou-me por outra mais nova. E então, para me vingar, voltei a seduzir homens casados, nem me pergunte quantos ou quais, que me não lembro, mas foram muitos, uns atrás dos outros, para que as mulheres deles sofressem como eu sofri ao ser abandonada. Parei quando comecei a namorar um médico. Também ele deixou a mulher, dizia a toda a gente que tinha encontrado finalmente o amor da sua vida. Vivemos juntos três anos, boa vida, estragou-a o meu filho, então na adolescência, que começou a roubar dinheiro ao médico para a droga. E ele desconfiou, marcou as notas, brigámos todos, foi-se embora, pior ficou, que nunca mais arranjou mulher jeitosa como então eu era — ainda agora, não sou nada de deitar fora — anda por aí aos caídos, por entre engates e paixões platónicas por gajas que vão para a cama com todos menos com ele, mas lhe papam jantares em bons restaurantes. Sim, Sr. Padre, volto já aos meus pecados, mas olhe, os mais importantes já eu os confessei.

Já o padre recuperou o fôlego. E enquanto mentalmente esconjura Eu te arrenego, Satanás!, prossegue: Bem vês, minha filha, não te posso dar a absolvição. Antes, é preciso que te arrependas, que te penitencies. E não é só com rezas, são precisos actos. Antes de mais, deves procurar as autoridades e confessar os teus crimes... 

Só se eu fosse tonta! Vou-me entregar para quê? Mais dia, menos dia, os velhotes morrem na mesma, até lá só andam a sofrer e a dar trabalho, é obra de caridade o que lhes faço, é certo que me dá gozo, muito gozo, por que haveria de deixar-me disso? E quanto ao que lá vai, lá vai.

O padre insiste. Antes de mais, deve deixar de matar pessoas, com ou sem risco de vir a ser castigada pelos homens. E não voltar a cometer adultério, desviando os maridos alheios. 

Mas isso já raramente faço, Sr. Padre. Estão a ficar velhos, desinteressantes, e eu já não estou para os aturar, também já pouco gozo me dá enfurecer as legítimas. 

Reza muito, minha filha, para que o Espírito Santo que ilumine, para que Deus te conceda a graça do arrependimento, que depois encontrarás tu as penitências redentoras. É a salvação da tua alma eterna que está em causa...


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A Abafadora (2/6)

 É a vez de a confessada não entender. Se o que faz é um bem para todos, para a patroa que se livra de cliente difícil, que os velhos, se estão bons, passam a vida a reclamar, se estão acamados, entubados, a sofrer, só dão chatices e trabalho, para a família, que não precisa de continuar a fingir amor, a sentir-se na obrigação das visitas, que nenhum jeito dão, o que lhes vale são os telemóveis para se entreterem enquanto fazem tempo à cabeceira da enferma, ou em mesa na sala de convívio? Ser apanhada, como, se morrem durante a noite, ninguém vê, tenho o cuidado de dar dose cavalar de comprimidos para dormir à colega de quarto, que nem que lhe passasse um comboio ao lado acordava? Acabo-lhes com o sofrimento, e prontos! O médico do lar desconfiar? Ele não vê os velhotes vivos, quanto mais mortos! Passa a certidão de óbito no gabinete da directora, todos eles devem já anos à terra, e o médico, por aquilo que recebe, não está para se maçar. Tá bem que morrem muitas velhotas acamadas durante o meu turno, mas é de noite que se morre mais, a mim, calha-me fazer a noite, dá-me jeito, vivo sozinha, a gratificação sabe-me bem. E prossegue, sem que o padre a interrompa para se focar nos crimes e pecados — está no lar contrariada, obrigada pelo Centro de Emprego, que a mandou para lá em vez de lhe arranjar coisa melhor, até tem estudos, fez, já adulta, mas fez, e muito lhe custou, o 12 ano, e puseram-na a limpar o cu a velhos e, pior, a velhas! Outras, desempregadas como ela, com menos habilitações mas bons padrinhos, são colocadas nos Centros de Saúde como administrativas, para ela, sempre o pior! Então, diverte-se, quebra a monotonia das longas noites, apagando uma ou outra, raramente um homem, pois eles não são tão chatos: Uma que refile comigo, que se atreva a fazer queixa de mim, e já não ouve cantar o cuco! Faço-lhe a folha, que é um instante. Se toma coisas para dormir, aumento-lhe a dose, não muito, para se alguma vez fizerem autópsias, não desconfiarem, e zás! Nessa madrugada, enquanto a colega de quarto ronca como motosserra, pedrada da dose cavalar de soporíferos que lhe dei ao deitar, abafo a queixinhas com a almofada até deixar de se debater, e eu como se estivesse a aconchegar-lhe a roupa, Durma bem, querida! Com os anjinhos!

E olhe, Sr. Padre, confesso também: não é só para me vingar, nem para aliviar a coitada, a família e a sociedade com essa obra de caridade. É pelo gozo que me dá. E, baixando a voz: Saio sempre do quarto com as cuecas encharcadas! Tenho dois e rês orgasmos enquanto apago a velhota! E olhe que quando me deito com um homem, é raro, muito raro, acontecer-me.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A Abafadora

 Neste dia que amanheceu chato, amodorrado, deu-me para vasculhar nos meus ficheiros e encontrei este conto, de 2018, que apareceu numa antologia organizada e publicada por colegas de escrita.

Dada a extensão do conto, vou publicá-lo aqui ao longo da semana, um excerto por dia.
Assim, aí vai o primeiro fragmento de "A Abafadora", avisando, desde já, como se fazia antigamente (e deveria ser escusado) que é obra de ficção, portanto qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
A Abafadora (1/6)
Senhor padre, pecados não me faltam! Se os contasse todos, não saíamos daqui hoje.
A voz por detrás da grade do confessionário, calma, grave, quase pastosa, insiste: têm tempo, nada de pressas quando é a Eternidade que está em causa, também as tardes são longas, ao ponto de o sacerdote as achar intermináveis, depois desta virá outra pecadora, e outra, e mais outra, cada qual mais velhota, até parece que as beatas solitárias inventam pecados e pecadilhos para terem quem as oiça, Perdoai-me, Padre que pequei por pensamentos, palavras e actos, vai-se a ver, os pecados que aterram a velhota serão insignificâncias, coisa de ter rezado distraída uma ave-maria do terço, ou o de ter faltado à missa no domingo passado alegando estar doente, como se ela e Aquele que está lá no alto não soubessem perfeitamente que era só preguiça, falta de vontade de sair de casa naquela manhã de invernia, boa para ficar ao borralho da braseira,
— Tenha cuidado com a braseira, morre muita gente de idade, e até mais nova, por causa dos gases que produzem!
— Sim eu sei, Sr. Padre, já tirei a mantilha da mesa dela para arejar melhor, e não cubro as brasas com papéis de prata, Mesmo assim, mas confesse lá então os seus pecados, e melindra a velhota gracejando que na idade dela as faltas cometidas não serão muitas nem graves, deixando-a duvidosa do valor desta confissão feita a padre modernaço, que parece não acreditar no pecado, não distinguir mortais de venais, talvez nem acredite em Deus nem no Diabo, pensa já, enquanto escolhe os que julga mais importantes, tem é de se ir confessar a Fátima, lá os padres terão outra consideração, dar-lhe-ão penitência mais severa para a absolvição ser merecida, ainda hoje vai pedir à filha que a leve lá tão cedo quanto puder.
Por isso, o padre, a bocejar discretamente, culpa da modorra da igreja silenciosa, espera também desta confessada rol de bagatelas, vá lá, se tiver sorte, um ou outro escândalo sexual, que ainda está em boa idade para neles se envolver.
Então, minha filha?
Por onde hei-de começar, Sr. Padre?
Quando foi a última vez que te confessaste?
Creio que foi antes do meu casamento, já lá vão vinte e três anos. E apressa-se a acrescentar, Não confessei então tudo, que o padre conhecia-me e tive medo que desse com a língua nos dentes. Sabes que estamos obrigados ao segredo da confissão. Sei, Sr. Padre, mas também sei que os padres são homens e alguns homens são linguarudos, mais ainda que as mulheres. E aquele padre saiu pouco depois, e deixando de ser padre já não estava obrigado ao segredo da confissão. Ora se eu lhe tivesse contado certas coisas.... Vamos lá então, apressa-a o confessor, já cansado dos rodeios e pruridos, Começa então pelos pecados graves, se os tinhas, que omitiste na confissão anterior. Ou pelos mais recentes, e confessas depois os outros, se forem relevantes.
Começo então pelo fim, Sr. Padre. Trabalho num lar e de vez em quando abafo velhotes. Sobretudo velhotas. Detém-se um pouco, a saborear a surpresa que pressente por detrás da grade, depois prossegue: Durante a noite, quando estou de turno, vou-me a um daqueles que dá mais trabalho, ou que me aborreceu, ou fez queixa de mim à patroa, e enquanto dorme, abafo-o com a almofada. Vai-se como um passarinho, não sei se já matou pardais ou pombos, aperta-se-lhes o pescoço e o bico, e apagam-se num instante. É um ar que lhes dá, melhor dizendo que lhes falta. Pois assim é com os velhotes. De manhã, dou com eles frios, grito que a dona Guilhermina se foi desta para melhor, a patroa telefona à família, ao médico para passar a certidão de óbito, a sociedade fica livre deste encargo, eu do trabalho, e vingo-me das queixas, cá se fazem, cá se pagam, a patroa não perde, que a vaga é logo ocupada, não faltam velhos em lista de espera, a família fica aliviada daquele peso e despesa, e a velhota deixa de andar por cá a sofrer, vai ao encontro do Criador, que a recompensará ou castigará, como Lhe aprouver...
O padre, agastado, demora a conseguir falar. O que ouviu, no segredo da confissão, é crime, é pecado, Lembra-te, filha, do mandamento da Lei de Deus: Não matarás! Os idosos ao teu cuidado merecem carinho e protecção, só Deus pode decidir da vida e da morte, mas porque fazes tais malvadezas, não receias ser descoberta e castigada pelos homens?

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A minha bicicleta

 – Afilhado, quando fizeres a quarta classe, dou-te uma bicicleta!

A promessa apanhou-me de surpresa, deixou-me sem fala, a rebentar de alegria interior. Uma bicicleta! Minha, não como a de outros garotos, surripiada às escondidas ao pai, ou a irmão mais velho, o que lhes valia depois umas boas tareias. Logo que pude, deixei-o na cavaqueira na adega com o meu pai, e corri a dar a grande notícia à minha mãe. 


-- Dá-te uma bicicleta? Tomaria ele ter uma! Isso são coisas que se dizem aos garotos.

– Dá, ele disse que dava, o meu pai ouviu.

– Então espera por ela.

Esperei. Fiz a quarta classe, o Ciclo preparatório, o Curso Comercial, etc., etc. Sempre sem bicicleta. Que essa há-de dar-ma o meu padrinho, assim prometeu num serão na nossa adega sessenta anos atrás.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Reciclagem


Reciclo tudo o que posso – plásticos, metal, vidro, óleo alimentar, pilhas, lâmpadas, eletrodomésticos avariados. Será bizantinice minha, mas alguma da reciclagem que faço causa-me apreensão. Em primeiro lugar, os papéis.
Talvez numa grande cidade não seja fácil identificar o lixo de cada morador, mas aqui é perfeitamente possível saber o que como, o que bebo, que medicamentos tomo (logo, as doenças que tenho) para além dos papéis que, embora rasgados, revelarão a alguém com paciência dados de consumidor e bancários.
Poderia recorrer a um destruidor de papel; mas o processo é demorado e nem todo o papel é adequado; não posso, por exemplo, destruir nele as caixas dos “gadgets”, da Décatlon, do IKEA…
Tudo isso permite, muito facilmente, a alguém mal intencionado, não apenas conhecer os meus hábitos de consumo, mas igualmente o que tenho em casa a merecer uma visita na minha ausência.
Mas, pior, dei comigo a pensar, são certos eletrodomésticos que, mesmo avariados, guardam demasiada informação minha e dos meus. Por exemplo, telemóveis e telefones fixos, pen drive, discos velhos de computadores…
Ora ontem, a pensar nisto, levei trastes para o Ponto Electrão próximo. Entre eles, um telefone avariado, um Kindle com muitos dos meus escritos, na sua maior parte inéditos, e um velho disco de computador. Já a pensar no pior, deixei-o cair no chão várias vezes, mas não tenho a certeza de o ter avariado. (Não o formatei por não ter onde).
Eu a pôr os objectos na gaveta do Ponto Electrão e um cavalheiro, creio que estrangeiro, a pedir-mos.
Recusei. Uma besta avarenta e mesquinha, terá ele pensado.
Paciência. Havia demasiada informação pessoal naqueles dispositivos, recuperável com um mínimo de conhecimento.
Entrei no carro e segui, convencido de que mal me afastasse ele iria retirar os meus monos do contentor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Fazer chichi

Tinha dez anos, frequentava o Ciclo Preparatório. Era meu professor de Trabalhos Manuais mestre Cristóvão, um homenzarrão, velho dos seus trinta anos.

Ora numa das suas aulas deu-me uma terrível vontade de urinar e contorcia-me na carteira sem ousar pedir ao mestre para ir às sanitárias, indeciso entre o falar grosseiro próprio das minhas origens camponesas e a linguagem efeminada da vila. Mas a necessidade, imperiosa, género ou vou já ou faço aqui, obrigou-me a vencer a vergonha:

– Senhor mestre, posso ir lá fora?, atrevi-me timidamente.

O homenzarrão encarou-me: – E o que vais tu fazer lá fora?

– Chichi, balbuciei, olhos baixos.


– Queres ir fazer o quê?

A turma ria a bandeiras despregadas. Da minha atrapalhação, e por eu falar como uma menina.

Já não aguentava mais.

– Mijar, sussurrei, certamente corado como dióspiro maduro.

– O quê? Fala mais alto, que não te ouço!

– Quero ir mijar, senhor mestre!

– Vai lá então, mas não te demores.

Fui. E nunca mais fiz chichi na vida.

Foto: talvez dois anos mais tarde, a mesma turma.


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Saudades

Dos tempos que passei na Faculdade de letras de Lisboa, primeiro na licenciatura, quase duas décadas depois no mestrado em Linguística e, teimoso que sou, no doutoramento em Linguística Computacional -- que não terminei e terá sido das raras coisas de que desisti. 

Eis duas imagens do último trabalho que apresentei.




quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Jimbrinhas

Era demasiado pequeno, franzino, sem jeito para nada. E, então, não faltavam mimos, que o bullying e os traumas de infância ainda não haviam sido inventados:

Não prestas para nada! Mal empregado o que comes! Não podes com uma gata pelo rabo! Não sabes fazer nada! E, a resumir, a culminar a caracterização da minha inépcia, inevitavelmente vinha palavra que tudo resumia e nunca ouvi fora da aldeia: jimbrinhas!

Só na escola brilhava. Sabichão. Devorador dos poucos livros que me passavam ao alcance, de tudo o que era letra, fosse em edital, em jornal velho, em pacote de açúcar. Mas, fora das letras – um jimbrinhas chapado!

Chegaram os livros de ‘cóbois’. E cada garoto logo escolheu a sua personagem, mais forte no soco, mais rápida no sacar do revólver, mais fatal no tiro, mais justiceira na missão de punir os maus, índios e ladrões de gado, jogadores invariavelmente batoteiros, assaltantes de diligências:

– Eu sou o Kit Carson!

– O Arizona Kid!

– O Roy Roger!

– O Texas Kid!

– O Bill the Kid!

– Eu é que sou esse! E rebolavam já, engalfinhados, no pé da terra batida da estrada.

Sem querer entrar em brigas, lá declarei que era aquele que nenhum escolhera:

– Eu sou o Jim Bridger!

Gargalhada geral: Isso, tu és o Jim Brinhas!

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Ó nino!

 Ó nino!

Olho divertido para as duas velhas do outro lado da estrada. Querem saber pormenores do funeral, receiam descer em vão a ladeira até à igreja, nestes tempos de Covid até os enterros estão mudados.
E eu, enternecido pelo tratamento que me faz recuar mais de sessenta anos, aconselho-as: deixem-se, por enquanto, ficar à sombra, se possível sentadas, o calor aperta, não há missa, e daqui a pouco podem ir calmamente até ao cemitério, na direcção oposta e a escassas centenas de metros.
Afasto-me, no enlevo daquele chamamento aldeão: Ó nino!
Ah, um homem é só uma criança grande e os homens, mesmo muito velhos, morrem meninos, escrevi há uns bons vinte anos.

domingo, 26 de abril de 2020

Dos meus treinos diários de Tai Chi

Parte final do meu treino da manhã, lá para o meio-dia, que não sou de madrugadas, menos ainda em sábado feriado.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Um encontro em Samarcanda

Conta-se que um servo, aflito, procurou o senhor: Empresta-me o teu cavalo mais rápido para fugir para Samarcanda!
Porquê?, perguntou o senhor, atónito.
É que me cruzei com a Morte no mercado, e ela deitou-me um olhar esquisito que me apavorou.
O senhor emprestou o cavalo; mas ficou a remoer: não está certo a Morte levar-me tão bom servo. E foi procurá-la ao mercado.
Diz lá, ó Morte, porque é que há pouco olhaste para o meu servo de forma estranha?

Ah, fiquei surpreendida por o ver aqui, que tenho um encontro com ele, hoje, em Samarcanda!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Cartas de amor

“Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.”
(Álvaro de Campos)

Estava no turno da meia-noite às oito quando camarada recentemente admitido na fábrica veio ter comigo. Tinha a tropa feita, queria constituir família, contava, e eu ouvia-o, sem nunca desfitar a máquina nem me desconcentrar, que ali as distrações pagavam-se caro: queimaduras, dedos esmagados, mãos amputadas até. 
Contava ele que tinha posto anúncio em revista feminina, não me recordo qual, uma dessas coisas do género Cavalheiro empregado, de vinte e tantos anos, situação militar resolvida, procura moça honesta, entre os vinte e os trinta anos para relacionamento futuro.
Eu era então muito preconceituoso, desconhecia que até Agustina tinha arranjado marido por esse processo; e depois, pareciam-me arranjos de conveniência, seguramente sem o fogo da paixão, que não sabia ser luxo ao alcance de poucos felizardos — como eu.
Ouvia, no entanto, sem grandes objecções. Um revolucionário tem de se mover no seio do povo como peixe na água. 
Ora uma rapariga tinha-lhe respondido, prosseguia o meu camarada de trabalho, estendendo-me a carta.
Agora não posso ler, disse, a tentar safar-me das confidências. 
Estou na minha folga — cada um tinha uma de meia hora ao longo da noite, substituído pelo chefe de turno, pois as máquinas não podiam parar — lê, que eu faço o teu trabalho.

Vendo pelo remetente que respondia de Santa Margarida: Maria Machado? Estás a ser gozado! nos quartéis não há mulheres! É mas é algum soldado! Respondeu-te para se rirem de ti!
Mesmo assim, dizia, queria que lhe respondesses!
Eu? Mas a carta é para ti!
Sim, mas tu tens alguns estudos...
Só o Ciclo, atalhei, na pressa de esconder as habilitações e ali estava quase clandestino, forçado a abandonar a capital pelas minhas actividades clandestinas. E para criar comités anti-coloniais nas fábricas.
Tens estudos, lês, escreves de certeza bem melhor do que eu. Responde lá.
Tínhamos toalhas de papel para colocar sobre as bancadas de trabalho e não sujar as peças. Numa delas, redigi a resposta. Fria, irónica. Os magalas não se iam divertir à nossa custa!
Agora passa para papel de carta e vê se não dás erros!
E voltei ao trabalho,  julgando que o assunto estava encerrado.
Na semana seguinte, já no turno das quatro à meia-noite, ele voltou, risonho, com outra carta. Li-a alto.
A Maria Machado pedia desculpa. Tinha respondido ao anúncio no gozo, para se divertir com as colegas, julgando tratar-se de parolo. E em tom sincero, explicava-se: morava no Entroncamento,  e trabalhava num dos quartéis como funcionária administrativa. Terminava repetindo as desculpas e com desejos de que lhe respondesse porque, via-se, tratava-se de pessoa culta, séria, com quem valia a pena corresponder-se...
Vês, eu tinha a certeza de que tu eras capaz! E foi envaidecido que respondi, já a atirar-me, que é como quem diz, a atirá-lo à moça. Olha, este domingo vou estar com a minha namorada, que é de lá, pergunto-lhe se conhece uma Maria Machado, que trabalha em Santa Margarida.
Conhecia. Ah, o Machadão! Assim a tinham alcunhado na escola, desajeitada, mal-feitona, maria-rapaz.
Nada disso demoveu o meu camarada. E em breve consegui-lhe encontro.

O primeiro e o último. A Maria Machado, mesmo feia e sem jeito, ainda se não sentia tão desgraçada que tivesse de o aceitar!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Uma vila do interior

Ontem estive em Mora, outra vila envelhecida, despovoada. Ao almoço, excelente, na Tasca do Gigante, o proprietário, ao pé de mim um gigante, conta-nos isso mesmo: por aqui, ou se trabalha por conta própria, ou para a Câmara... De resto, não há nada! Nem empresas que dinamizem a economia local, nem empregos que fixem os jovens!
Mora merece visita: além da Tasca do Gigante, tem o Museu do Megalítico e o Fluviário. E, certamente, outros pontos de interesse, que não conheço. Mas isto não chega para fixar as gentes, para atrair a juventude.

Anos atrás, em Meda, outro jovem fez-me idêntico desabafo. Nada, fora do escasso turismo, dos serviços camarários. Podia multiplicar os exemplos, que gosto de percorrer o interior e ouvir as gentes. 
Fora das cidades, o país definha, agoniza moribundo.
Em 93, incomodado pelo abandono do interior, escrevi:
 Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)”

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Denunciantes (1j

Manhã de segunda-feira, a arrumar a mala para a escola.
Mãe, a minha bata?
Ainda está molhada, sempre a chover, não enxugou, não a levas.
A professora bate-me!
Bate-te lá agora! Quando entrares, vais-lhe logo dizer que eu não ta mandei porque ainda está ensopada, com este tempo não enxugou.
Bom, que remédio! Pelo caminho, encontro colega, mais velho.
E ele: Tenho de voltar a casa, esqueci-me da bata!
Sempre fui fala-barato. Do género que fala sem pensar: Ora, não precisas, quando a professora te perguntar por ela dás uma desculpa qualquer!
Mas ele voltou atrás. Afinal, estava a meia dúzia de passos de casa.
Entramos. José Cipriano, a tua bata?
Minha senhora..., e repeti a desculpa encomendada pela minha mãe.
A professora, compreensiva, ia passar a outro menino quando o meu vizinho se levanta e fala acusador:
Minha senhora, eu voltei a casa para buscar a minha bata, e ele disse-me que não valia a pena, para dar uma desculpa qualquer à senhora professora quando me perguntasse por ela!
O olhar da jovem professora endureceu, o rosto crispou-se. Levantou-se, furiosa, já com a régua em riste: O quê? Vem já aqui!
A tremer, lavado em lágrimas, tentava inutilmente convencê-la de que tinha dito a verdade. A pesada régua bate impiedosa, dor lancinante, dor sofrida também por antecipação enquanto a próxima reguada não martiriza a minha mãozinha enfezada, que por entre gritos e contorções procura, em vão, fugir ao castigo!
Agora a outra mão, para se não ficar a rir desta!
Quem ria era o feliz denunciante, pelo meu sofrimento, pela sua colaboração no exercício da justiça sobre o sabichão preferido da professora.
Então como agora, a justiça era cega, e exercida com imparcialidade — sobre os pobres. Os meninos abastados, “ricos”, como o meu delator, nunca apanhavam, mesmo se  burros que nem portas! 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O Tai Chi Chuan e eu

Nos anos noventa treinei versões de Tai Chi Chuan, muito adaptadas, desfiguradas até, pelo mestre Kenji Tokitsu. Paradoxalmente, treinei muito, aprendi pouco, que o mestre, por razões de que suspeito, mas não adianto, fazia, não ensinava, e ralhava à bruta com quem ousava pedir-lhe esclarecimentos: Je suis pas un moniteur!, berrava, furioso. E não corrigia, excepto, talvez, os aduladores que o endeusavam.
Ora aprender apenas pela imitação dos gestos de alguém, de costas para nós, no meio dos outros praticantes, não é muito produtivo, sobretudo quando se trata de algo tão complexo como o Tai Chi. E a brutidade (não confundir com brutalidade) do mestre fez com que me afastasse.
Enveredei por outros caminhos, sempre com muito treino individual. Frequentei seminários do mestre Yang Jewying-Ming, grande especialista em Qi Qong (ou Chi Kung) e Tai Chi Chuan, estilo Yang. Apercebi-me da diferença abismal entre o Tai Chi executado por um chinês com meio século de prática intensa e um japonês com meia dúzia de anos, na melhor das hipóteses, e que o executa de forma demasiado pessoal.
Mas as conversas de curandeiro do mestre Yang, os exemplos e a pseudo-ciência com que fundamentava métodos e tratamentos de herbanários e curandeiros chineses, as suas histórias de mulheres engravidadas em OVNIS, que deliciavam os iógues que também participavam nos seus seminários, ditaram o meu afastamento.
Continuei a incluir nos meus treinos individuais o que de bom, no meu pobre conhecimento e fraco entendimento, tinha aprendido com ambos, como é visível no filme da kata do Goju-Ryu Sanchin, que aqui postei, datada do início deste século: a procura da descontração, a respiração abdominal a conduzir os movimentos, num fluxo ininterrupto como as ondas do mar...
Há uns dois anos, problemas de saúde a que já aqui aludi levaram-me a deixar de participar nos  treinos de karaté de instrutores e avançados, mas não a abandonar os meus treinos individuais, que executo diariamente após uma caminhada, às vezes bicicleta estática.
Incluem aquecimento e Qi Qong, algumas katas (de karaté, passe o pleonasmo) procurando a descontração e a fluidez, depois Tai Chi, estilo Chen, o da minha predilecção. Mas agora tenho a ajuda preciosa de excelentes videos didáticos do YouTube!

Pela clareza da execução e pelo pormenor das explicações, optei pela forma dos 18 movimentos,(na verdade, 18 sequências), destinada a principiantes estrangeiros e legendada em Inglês. E há um vídeo para cada sequência!

Não é fácil de acompanhar, mas a execução e o ensino por esta senhora do Tai Chi, estilo Chen (o mais antigo, de onde derivam os outros estilos), é primorosa. Admire-se, se para tal houver paciência, a elegância, a fluidez, a perfeição de movimentos!
https://www.youtube.com/watch?v=jhzhQ0cVkCQ

sábado, 21 de dezembro de 2019

No jornal Tornado

Tão massacrado tenho sido com as longas prelecções televisivas sobre o Orçamento de Estado — e o pior ainda está para vir! — que fui adaptar este meu texto, escrito quando Sócrates e Passos Coelho dançavam juntos o tango do Orçamento.
https://www.jornaltornado.pt/portugal-profundo/

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Una historia más de guerra

 Em 1975, durante toda uma noite, um soldado pronto, de alcunha o Portimão, infernizou o quartel de Torres Novas, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. E nós, resguardados nas esquinas, perguntávamos Porquê?”

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Livro What is space? What is time?

A recente passagem por Portugal do físico Carlo Rovelli, que participou nas conferências da Fundação Manuel dos Santos, e uma breve entrevista que deu à televisão, aguçaram-me a curiosidade sobre o seu trabalho na área do espaço e do tempo, e sobre a Gravidade Quântica em Loop, em que se enquadra teoricamente, pelo que imediatamente comprei, como ebook, o seu livro What is time? What is space?, (70 pp. na versão em papel), cuja sinopse promete
“[a] novel image of the world is taking shape in fundamental physics: a world without time and without space. “
Esperava eu encontrar uma nova perspectiva do espaço e do tempo, sustentada por sólidos, ou pelo menos por convincentes, argumentos teóricos e, melhor ainda, empíricos, derivados, por exemplo das mais recentes descobertas, como a confirmação da existência do bosão de Higgs, que permeia o espaço, ou das ondas gravitacionais que o agitam.
Em vez disso, o autor preenche a obra com a sua autobiografia, viagens, universidades importantes, cientistas famosos que por lá conheceu, generalizações filosofadas... 
Sobre os assuntos que dão o título à obra, o espaço e o tempo, muito, muito pouco. Afirma que o espaço não existe — mas refere-se-lhe constantemente, precisando embora que espaço são as conexões entre os grãos do campo gravitacional. Como, porquê? Pois ficamos sem saber, uma vez que é silogisticamente que chega a tais conclusões. Atente-se, por exemplo, nos conectores que assinalei a negrito no seguinte excerto:
If one now combines the basic ideas of general relativity and quantum mechanics, it follows immediately that since space is a field (the gravitational field) space must have a granular structure, as does the electromagnetic field. The quanta of the electromagnetic field are the photons. The quanta of the gravitational field must be “grains of space”, because the gravitational field is the physical space. The dynamics of these grains must be probabilistic. Hence space (i.e. the gravitational field) must be described as “clouds of probability of grains of space”.”

A mesma lógica é empregue para negar a existência do tempo:

“Time does not exist: it is necessary to learn to think about the world in non-temporal terms. This is difficult, because we are accustomed to thinking about time as something in itself, which is flowing.”

Sobre o seu posicionamento teórico, a Gravidade Quântica em Loop, fiquei apenas a saber que a teoria não tem ainda a capacidade preditiva necessária para descrever o Universo e ele mesmo não parece muito convencido da sua virtude, embora a prefira à Teoria das Cordas:
“There are various reasons for which I do not like string theory. One is that the theory predicts an enormous amount of stuff, for which there is no evidence: many extra dimensions, super-symmetric particles, new exotic kinds of particles. Experimental evidence for all this has been searched, but without any positive result. Second, I think that string theory fails to incorporate the true discovery of general relativity: namely the fact that spacetime is just a field.”

Lógico. Se preferisse a Teoria das Cordas trabalharia nela, suponho. E quanto a evidências empíricas, e segundo este livro, a Gravidade Quântica em Loop não está melhor, o que lhe suscita dúvidas salutares, as quais, no entanto, não reforçam nem validam as suas opções teóricas:
“but on the other there is the frustration of the risk of working a whole life on theories that in the end might turn out to be wrong.”


Vou baixar amostras gratuitas dos seus outros livros, na esperança de que sejam mais esclarecedores do que este. Que é uma grande desilusão.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

No jornal Tornado

Invernias

Aí pelos meus cinquenta anos, sentindo a aproximação inexorável do inverno da vida, escrevi “Invernia”, que viria a fechar o romance Entre Cós e Alpedriz:
Invernia

Badaladas do sino
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa

Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?

Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração

Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma

Lá, onde corre a fresca regueira
onde nasce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão


O sino dobra novamente a finados...

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O Drácula

No segundo ano do meu estágio, então chamado Profissionalização em Exercício, chegaram vários colegas de outras escolas. 
Um deles, alto, magro, camisa sem colarinho, longo sobretudo preto, olhar esgazeado, pose de génio, foi logo alcunhado por um de nós: Drácula.
Incompreendido por todos nós,  exceptuando uma outra estagiária, do seu grupo disciplinar, a quem apalpava as coxas nas reuniões, seduzida pela “linguagem do Mestre” — era assim que se lhe referia — pois o nosso Drácula respirava Lacan, arrotava Lacan, tratava-nos, tanto a nós, colegas de estágio, como aos orientadores, com tal sobranceria que me lembro de ouvir um dizer-lhe que, de cada vez que abria a boca, era para nos chamar burros.
Num seminário em que ele arengava interminavelmente, insuportavelmente, um orientador, baixo, obeso, que sempre dormia nas reuniões após o almoço, desculpado pelos seus pares com  problemas cardíacos de que efectivamente sofria e cedo haveriam de o vitimar, interrompeu o forte roncar e, ouvindo o Drácula a proclamar, deliciado com o efeito de choque da boutade, que todos nós temos três pais, resmungou alto:
— Só se és tu!
Ruidosa gargalhada geral quebrou o formalismo, desvaneceu o enfado e enfureceu o distinto orador.

Mas os alunos conheciam-no por outra alcunha. “O professor do c*”.
Isto porque, na aula de apresentação, incomodado com a entrada às pinguinhas da turma, berrou para um dos retardatários com o seu sotaque cerrado do Porto:

— Olha lá, pá, que c*ralho de turma é esta?

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O sindicato e eu

Assim que fui colocado pela primeira vez tratei de me sindicalizar. Entendia ser essa obrigação de cada trabalhador. E, na minha ingenuidade, até li e concordei com os estatutos do sindicato.
Levei a sindicalização a sério. Apresentei lista, candidatei-me a delegado sindical na escola em que então estava colocado — e perdi.
Paciência. Tal não arrefeceu a minha fé sindical.
Até que, após greve selvagem, os professores de uma escola de Lisboa foram despedidos.
Logo o sindicato estendeu asa protectora, comprometendo-se a pagar-lhes os salários, conforme estabelecido nos estatutos.
E eu aprovei.
Mas, poucos meses depois, a pretexto de uma lacuna no boletim de candidatura (lacuna que o certificado de habilitações anexado esclarecia), me vi no desemprego. Sem economias, com renda de casa elevadíssima— as casas para arrendar eram então raras como a chuva neste Outono —, família a meu cargo, nada de empregos, de trabalho naquela época em que o país e a economia andavam pelas ruas da amargura.
E lá vou eu ao sindicato. A querer que pressionassem o Ministério a reapreciar o meu boletim de candidatura. Não valia a pena. Havia milhares como eu, tratava-se de manobra do governo para diminuir drasticamente o número de professores provisórios. Processar o Ministério? Para quê, se lá não havia duas pessoas a dizer o mesmo?
Então, e o subsídio de desemprego, que consta dos estatutos e foi já atribuído aos colegas da escola X?
Riram-se. O sindicato não tinha verbas para tal, diziam. Em funcionários, assessores, equipamentos, rendas, ia-se todo o dinheiro das quotas.
Fui colocado meses mais tarde. E uma das primeira coisas que fiz foi cancelar a minha sindicalização.
Passaram muitos anos. Um amigo, delegado sindical, convenceu-me a voltar a aderir ao sindicato. Fizemos greve prolongada, bem organizada. O governo ia ceder. Depois de tantas greves simbólicas, em que perdíamos o salário para que o PC marcasse posição, finalmente uma que íamos ganhar. E uma manhã, ao entrar na escola, soube que o sindicato, o Teodoro, nos tinha novamente traído, pondo fim à greve sem nos ouvir.
Outra vez cancelei a sindicalização.
Há quem nunca aprenda certas lições. Como eu.
Nos tempos negros da Maria de Lourdes e da sua famigerada avaliação fui a uma reunião sindical, pedi o papéis e voltei a ser sindicalizado.
O dirigente sindical que me inscreveu  bandeou-se para o Ministério da Educação.
E eu continuei a pagar a quota, 1% do salário, até à aposentação.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Da violência nas escolas

Mário Nogueira, dirigente vitalício do meu sindicato, voltou ontem a envergonhar-me publicamente. Foi em declarações que prestou à TV a propósito da agressão a um aluno por parte de um professor de TIC.
Para Mário Nogueira, não há presunção de inocência quando se noticia que um professor bateu num aluno. Essa presunção fica, talvez, reservada para os políticos corruptos, seguramente para os pais que agridem professores e funcionários. Nem importa, antes de mais, apurar os factos, aguardar os resultados do processo disciplinar que foi ou vai ser instaurado.
Adiante.
O que me envergonhou mais, o que me enojou, foi ouvi-lo a retomar a velha discriminação contra os professores não profissionalizados.
(Tantos anos após o 25 de Abril, o velho preconceito, de que também  eu fui alvo, primeiro miniconcursiano, depois provisório, continua subjacente:
— O colega é efectivo? Não? Então não devia estar a dirigir esta reunião!
— Vá-se queixar à direcção, que me nomeou!
Mas doía. E a prova é que não esqueci.)
Agora Nogueira com conversa parecida. Como se na formação para a profissionalização se aprendesse a não perder a cabeça! Como se a formação fizesse uma qualquer triagem segundo as competências científicas e pedagógicas, a adequação aos requisitos da profissão, à saúde mental, até!
Como se não houvesse no activo alguns profissionalizados que jamais deveriam estar à frente duma turma!
Como se as condições de trabalho em certas escolas não fossem suficientes para qualquer um se passar!
Não. O problema é que o colega, que até pode ser engenheiro informático, não tem a profissionalização.
Já quanto à agressão de Valença, feita por pai orgulhoso do feito, tanto que até organizou contra-manifestação com a tribo, nem uma palavra. Bater em funcionários e em professoras e professores, tal como em polícias, não tem idêntica gravidade. Não merece que se pronuncie.
Porque neste caso, seguramente, a culpa é dos agredidos. Mesmo se profissionalizados.

domingo, 13 de outubro de 2019

Pedantice

No supermercado, estendo uma alface para o empregado das pesagens:
— Bom dia! Pode-me pesar...
E ele, bem humorado:
— Sim, mas duvido que o senhor consiga subir para a balança!
Tenho mau feitio. E não gosto de ser corrigido por um mocinho ainda imberbe. Talvez para depois se gabar de ter gozado com o velho.
De modo que...
— Recorri à elipse, processo linguístico que permite omitir um constituinte frásico, reconstituível a partir do contexto. No caso vertente, como lhe estendi o saco com a alface, era óbvio que o objecto do pedido de pesagem, pelo que o não realizei foneticamente.

Assim mesmo, o discurso todo. Para que soubesse que ainda está muito verde para gozar com os velhotes.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Putas e vinho verde

Estava no início de carreira, professor provisório sem habilitação própria, miniconcursiano, como nos designavam pejorativamente os colegas já instalados, e coube-me horário nocturno.
A tentar esconder o pavor, olhei para aqueles alunos, todos mais velhos do que eu, e comecei a aula de apresentação. 
Ia talvez a meio do tempo lectivo quando aluno mal encarado, olhos turvos pelo nevoeiro, abre a porta da sala, entra e senta-se sem dizer água-vai nem água-vem.
Não ia perder a face logo na apresentação!
— Boa noite! 
Nem me olhou.
— Boa noite! E, já agora, manda a boa educação que ao entrar atrasado bata à porta, peça licença para entrar... Como o não fez, e já se instalou, quer apresentar-se?
Olhou-me com desprezo.
— O que eu quero é putas e vinho verde!
A turma, do major reformado da Força Aérea à freira do hospital vizinho, olha-me na expectativa.
E eu, em tom duro, aparentado uma coragem que bem gostaria de ter:
— Então enganou-se na porta, que isto não é nem taberna nem casa de putas! É uma sala de aula, e se quer ficar é para se portar com respeito e educação!
Deitou-me olhar assassino, do género lá fora ‘comezas’, levantou-se e foi embora.

Mas não: nem dessa vez, nem em nenhuma outra, fui espancado por alunos. E aquela ave nunca mais apareceu nas minhas aulas.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Do meu vinho e da minha escrita

Anos atrás, num dia em que se acabou o vinho na colectividade da minha terra, telefonou-me um sobrinho a perguntar se vendia um pote de 10 litros.
Não, não vendia. Dava. Que o fosse buscar.
Tempos depois, perguntei-lhe o que é que os entendidos, bebedores diários e inveterados, tinham achado da minha pinga.
Devia ter adivinhado: santos de ao pé da porta não fazem bom vinho, menos ainda o Zé, que nunca foi agricultor a sério, nem anda a cair de bêbedo nas noites de sábado; ainda se fosse descendente dos “ricos” da terra, ainda se o vendesse, que o dado não presta, nem permite dizer que não vale o que custou...
Não, aquilo não era vinho, sem o forte sabor do sarro dos tonéis, sem dose cavalar de metabissulfito — feito com toda a higiene, conservado em cuba de aço, não sabia a vinho!
Soube depois que o meu sobrinho, desgostoso, retirou o invólucro interior e colocou-o dentro de  embalagem de cartão da marca habitual. Aí beberam-no, ao que me parece sem mais protestos, excepto quando um dos habitués se queixou dias depois: Este vinho não é da... (a marca da caixa de cartão)!
Como é que sabes?
Deixei de cagar preto!
(O que tem isto a ver com os meus romances? Tudo. As editoras rejeitam-nos por razões análogas e preferem as cagadas. E depois queixam-se da falta de leitores.)

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Uma história em ar

As três jovens saíram a passear.
Vamos no meu carro, tirei a carta e preciso de praticar.
Damos uma volta, paramos a lanchar.
E assim chegou a hora de regressar.
A condutora dá à chave, o motor de arranque soluça, sem força para fazer o motor pegar.
E agora, telefonamos ao teu marido para nos vir desenrascar?
Não, que vai ralhar. E gozar.
Empurramos o carro até àquela ladeira, pega de empurrão, e depois já podemos voltar.
Empurram duas, o carro move-se devagar, pára logo que solta a embraiagem. E já próximo da ladeira, diz uma para a condutora: Tens de vir também ajudar!
Empurram as três. O carro embala na descida, pega, aí vai ele a acelerar!
A pobre dona olha para as amigas, desconsolada: E agora? O meu marido vai-me matar!
Não, o teu carro é que vai matar aquela velha que vai a atravessar!
E em pânico, desatam as três a gritar:
Fuja, fuja minha senhora, o carro vai-a atropelar!
Lá ao fundo, a velhota olha, sem compreender, avista o carro que desce desembestado, apressa-se, o andarilho não ajuda, na aflição deita-o fora, em passinhos trôpegos corrica, chega à berma e trepa para o patamar.
Mas, entretanto, o carro, desviado por buraco, curvou e espatifou-se contra muro num estrondo de assustar.
E agora, como vamos regressar?
E que direi ao meu marido quando chegar?
Estão já junto do automóvel, dianteira espatifada, radiador a fumegar.
Olha, dizemos que foi o buraco que o fez estampar!

E nem estaremos a mentir, lá está o buraco para o provar!