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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Indiscrições


No restaurante quase vazio, Gaspar oblige, apenas nós e, na mesa do lado, moço solitário, brasileiro pelo falar ao telemóvel. Escuto, indiscreto. Alguém o tenta reconciliar com a ex. O rapaz concorda que ela tem qualidades, enumera-as até.
Mentalmente intrometo-me: Não sejas parvo, pá, mulher de qualidades é bem precioso, a não perder. 
O brasileiro prodigaliza encómios, sintetiza-os em frase lapidar: É uma grande mulher...
(Oh parvalhão, e estás a almoçar sozinho e descansado, deixando escapar uma grande mulher?)
Justifica a inacção, como se tivesse escutado os meus pensamentos trocistas: -- Mas deixá-la lá estar uns tempos...
(Cretino. Uma grande mulher, de grandes qualidades, em pousio? Em que mundo vives, cara?)
Acrescenta, nostálgico: -- É uma grande dona de casa...
(Corre, estúpido, antes que outro mais expedito te ocupe o lugar. E se for boa na cama... Ai, estes rapazes de agora! Deve ser  falta de cultura: bem se vê que este nem conhece o Ne me quitte pas, nem leu Entre Cós e Alpedriz:
"... Tudo isso carregarás senão com satisfação, pelo menos sem revolta, bastando para tal pensares na ventura que hoje tiveste e que, certamente, te não será negada sempre que o mereceres.  É isso, homem, os tomates são as nossas grilhetas.")

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Alice Vieira e o Plano Nacional de Leitura


A inclusão de O Que Dói às Aves, obra para adultos de Alice Vieira, na listagem da Plano Nacional de Leitura (PNL) não é mero erro informático, como alega ingenuamente a responsável, antes evidencia uma realidade deplorável que o PNL teria por desiderato combater: em Portugal, não se lê. A começar por cima, pelos responsáveis pela elaboração das listas de livros recomendados, os quais nem sequer folhearam o livro de Alice Vieira. O que, antes de mais e num tempo em que se discutem as fundações, deveria fazer repensar a utilidade do PNL, analisando custos, obra realmente feita, estatísticas fidedignas de leitores,  reflectindo sobre a qualidade das obras recomendadas, apurando a cedência ou a resistência a pressões editoriais.
Nada vai mudar. O PNL é vaca sagrada. E leiteira.
Declaração de interesses: não, não li o livro de Alice Vieira. Mas não recomendei a terceiros a sua leitura.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um mendigo digno


Ao oferecer trabalho a quem pede esmola, há a remota probabilidade de sermos surpreendidos. 
Há uns anos, ao anoitecer, toca-me à campainha cigano bem posto, franzino, na casa dos seus sessenta anos. Pedia ajuda -- dinheiro ou comida. Se sempre nego dinheiro, nunca nego comida. Mas, por via de algumas situações que já presenciei, antes sondei-o: não queria trabalhar. Sim, queria, mas em quê, se ninguém lhe dava trabalho? Pois eu tinha os muros por pintar, a horta feita matagal...
O homem aceitou prontamente. E eu, convencido da sua boa vontade, dei-lhe do que tinha: pão, uma lata de atum, maçãs e, acrescentei, cem escudos para beber um copo, que não vai comer isso a seco. 
No mês seguinte, reapareceu. Já não a mendigar, mas a perguntar pelo trabalho. Porém, eu receei que o homem se magoasse, ou caísse de andaime, ou, débil como era, lhe desse treco -- sem seguro, eu teria de arcar com as despesas e responsabilidades. Desculpei-me: esquecera-me de comprar as tintas, não valia a pena cavar o quintal, que era cedo para sementeiras -- e aviei-lhe outra sacada com pão, conservas, fruta, cem escudos para o tinto.
Durante muito tempo, foi visita mensal. Cumprimentávamo-nos como velhos conhecidos, eu desculpava-me por não ter ainda trabalho para ele, preparava-lhe o avio do costume, sem esquecer moeda de cem para a pinga, que tanta falta faz, sobretudo a quem sofre. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coração de manteiga


Um AVC obrigou o senhor Joaquim a internamento no lar, incapaz de andar, de fazer a sua vida, de ser auto-suficiente. Homem forte, confiante, vendo-se aleijado para o resto da vida, desanimou. Sou um merdas, um esporra, desabafava. Mas bem cuidado, logo que Fevereiro trouxe dias bonitos, e o sentavam no alpendre a encher os olhos com verde, os ouvidos com a cantoria dos passarinhos que as empregadas também alimentam, ganhou cor, apetite, vontade, devolveram-lhe forças as saudades do filho único, a labutar em Angola, que viria de férias no verão. E contava primeiro os meses, as semanas depois, finalmente os dias: menina Paula, é já domingo que chega o meu Francisco...
Passou esse domingo, passaram os dias, as semanas, aproximava-se o mês do seu final: que terá sucedido ao meu Francisco, que ainda não pôde vir-me ver? Coisa grave, sem dúvida. Mas ele vem, que se não ia embora sem me ver, sem se despedir de mim, sabe-se lá se para sempre.
Coitado do senhor Joaquim, confidencia-me a directora, quem lhe há-de dizer que o filho já regressou a Angola, não quis vir visitar o pai, lares e hospitais fazem-lhe muita impressão, e falta-lhe ânimo para ver o pai entrevado... 

Coração de pedra

Plantava couves na minha horta quando chega cavalheiro junto do portão. Se eu era o dono. Confirmo. Ouço-lhe a lengalenga enquanto endireito as costas, limpo com o braço o suor que me escorre em bica da testa: pois ele era do Centro de Recuperação X e...
Interrompi-o: sabe, é rara a tarde em que me não vêm pedir dinheiro enquanto trabalho no quintal; mas nunca ninguém se oferece para me ajudar...
-- Então não quer contribuir...
Voltei às couves. Não é só preparar a terra, estrumá-la, plantá-las, regá-las. É preciso deixá-las protegidas da passarada, das lesmas e caracóis, ou de manhãzinha apenas restarão os talos.
E, enquanto o suor me cegava, ia magicando que muita gente bem intencionada concebe a solidariedade social como via de sentido único, ignorando a reciprocidade que deveria existir entre o receber e o dar. Quanto mais não fosse, por amor-próprio.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Destilações

A actualidade política nacional e a respectiva cobertura pelos media parece-me tão interessante, tão excitante como as reportagens da TV Guia sobre a Casa dos Segredos: rasca, à procura da intriga, a privilegiar a coscuvilhice, sempre a atiçar, a acossar uns contra os outros, como se todo o Portugal não passasse de uma matilha faminta de rafeiros raivosos.
Eu entretive-me neste 5 de Outubro a destilar, não o ódio que nos cega e queima, mas a minha aguardente. Quando a merda rebentar, como parece ser desejo geral, vamos precisar de um bom desinfectante, como a aguardente, que servirá também  para afogar a desgraça. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Historieta politicamente incorrecta

-- Professora, hoje é dia do Rendimento...
-- Pois, para quem o recebe...
A ciganita fita incrédula a jovem professora:  -- Você não recebe?
E a professora, pedagógica, como pertence na escola primária: -- Não. Recebo o meu ordenado, mas para isso tenho  de trabalhar.
Há um misto de piedade e de desprezo no olhar da jovem aluna: -- Coitada!...

Receitas para a juventude eterna

Séculos e séculos de procura da fonte da juventude, e eis que aparecem os primeiros resultados: primeiro a fome, eufemisticamente chamada dieta hipocalórica, agora a castração. Ė aproveitar.

sábado, 22 de setembro de 2012

Brinquedos sexuais

Vejo com dificuldade as notícias e pior as ouço quando, como hoje, tenho comigo os meus quatro netos, pelo que posso ter percebido mal ou compreendido ao contrário o que julgo ter visto e, como já se ouve por aí, ouvisto. Despertou-me a atenção num telejornal algo sobre a sexualidade dos portugueses. Uma terapeuta ocupacional (os cursos que por aí há!) diz algo enquanto a legenda esclarece que não sei quantos por cento dos portugueses nunca usaram um brinquedo sexual. Espanto-me: ainda há assim tantos a quem não serve aquele com que nasceram? Que atrasado, eu, que nunca entrei numa dessas lojas - como é que se diz?, nem ao menos numa casa de meninas, nem comprei qualquer brinquedo sexual! Que infeliz devo ser sem qualquer fetiche pelo plástico, pelo latex, pelas revistas pornográficas, pelas encenações -- e, sobretudo, pelos discursos sábios dos terapeutas ocupacionais que parecem ter inventado o sexo e a sexualidade. Só espero que não sejam detentores dos direitos de autor, que,.constou-me, o primeiro a registar um processo ou uma ideia fica seu proprietário. E com a perseguição à pirataria que por aí vai...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Coincidências

Da História de Portugal, Quinto Volume, dir. José Mattoso, p 117:
"A crise financeira atingia, em 1847, uma grave situação e, em 1848, o Governo contava apenas com os meios necessários para ocorrer, num único semestre, ao pagamento de metade dos vencimentos dos funcionários públicos e dos soldos e fornecimentos do Exército e da Marinha. O Governo era devedor a nível interno e externo. (...) Crescia aceleradamente a agiotagem. A crise veio acabar numa bancarrota e o período de liquidez só teve lugar a partir de 1852. (...) O aumento do banditismo, provocado pelo desemprego, evasão, deserção e suspensão de lugares e de cargos e o crescendo das guerrilhas provocavam a perturbação da ordem pública. "
Segundo a mesma fonte, a crise agrícola, que se agudizava desde 1837, acentua-se com o Inverno rigoroso de 1844-1845 e piora em 1847 devido à praga da batata, a intensa seca, a más colheitas, que levam ao consequente aumento dos preços dos cereais e produtos de primeira necessidade, causando uma crise geral de subsistência, acompanhada de baixa de salários, fome, desemprego, instabilidade política...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Maria da Fonte Revisitada

Fascina-me a lenda dessa amazona campónia, "a cavalo, sem cair" "as pistolas na mão para matar os Cabrais / que são falsos à nação". Recordo ainda hoje os versos que minha avó recitava ao serão, imaginando-a como uma das revolucionárias da República, que viriam a ser personagens de Entre Cós e Alpedriz:
A Maria da Fonte não é uma mulher como as mais
Usa facas e pistolas para matar os Cabrais!
Dessa revolução anárquica, cavalgada  tanto pela extrema-direita miguelista como pela extrema-esquerda setembrista, nasceu a guerra civil  da Patuleia, que durante oito meses devastou o país, mostrando do que é capaz este povo pacato, ordeiro, quando não aguenta mais. E o hino que imortalizou essa mulher do Minho, aqui numa interpretação maravilhosa de Vitorino,  agrada-me mais que a marcha sebastianista adoptada pela República como hino nacional:



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Anedota reciclada

-- Eu, Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal!
Responde o da Troika: -- Eu Sê lá se é! 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Optimista, eu?

Ontem um amigo dizia-me "tu és um optimista. Vês sempre o copo meio cheio". Duvidei. Creio que ė antes o meu pessimismo que me leva a valorizar o pouco que o copo ainda contém. Na certeza de que será cada vez menos. 
Hoje o ministro das finanças dissipou-me as dúvidas.  Sou pessimista. Por isso valorizo cada gota que ainda resta.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

J2HV - a sequela

Transformámos em veleiro o J2HV, essa humilde chata por nós construída para a pesca na albufeira de Castelo do Bode . Com vento a favor, o barco corria sobre a água e nós, entusiasmados, víamos-nos já a explorar todos os recônditos até então inacessíveis na vasta albufeira, e neles a pescar os maiores achigãs... Mas não navegava com vento contrário -- não bolinava. Fomos aos livros, pedimos conselho aos entendidos: o barco precisava de um bom patilhão. E lá voltámos nós às carpintarias, em busca de um pedaço de contraplacado marítimo. Numa delas, quando o empregado procurava por entre bocados  de dimensões variadas um que se aproximasse do pretendido, chega o dono, ricaço de família rica do Entroncamento. Ignora-nos, pergunta rispidamente ao empregado o que faz ali, e inteirado ordena-lhe: "Isso não compensa. Volta para o teu serviço." Saímos indignados com tamanha arrogância, e terá sido por praga nossa que, pouco depois, para nossa satisfação, ele faliu...
Com o patilhão, o barco bolinava. Experimentámo-lo num fim-de-semana, sempre à vista do parque de campismo, onde acampávamos em modestas canadianas por entre as tendas-mansão e as caravanas dos proprietários de potentes lanchas a motor, os quais olhavam por cima da burra para nós, pobretanas penetras a destoar naquele novo-riquíssimo de aparências mantidas, ao que constava, à força de calotes. 
Pouco depois, sem suficiente preparação, o Henrique e eu fomos para subir o rio à vela. Chegados a Castelo do Bode, o Henrique mudou-nos os planos. Acamparíamos no parque de campismo. Mais seguro. Mais confortável. Ainda insisti em pôr a bordo uma tenda e umas latas de atum, para o que desse e viesse. Recusou, com fé inabalável no veleiro: dava perfeitamente para ir e vir no mesmo dia.
Deu para ir. Com vento de feição, afastámo-nos muito e muito rapidamente. Eufóricos. O pior foi para regressar. O mesmo vento que nos levara velozmente para montante, para lá nos empurrava por mais que tentássemos bolinar. O barco era curto, o vento contrário forte, e após horas de tentativas fracassadas, acabávamos sempre no mesmo ponto. A noite aproximava-se fria, o estômago exigia comida de mais sustento que a bolacha Maria, aliás já devorada - foi preciso voltar aos remos. Mas o meu companheiro dizia não poder remar por via dos estilhaços de granada no pulso e no joelho, recordações que trouxe de Angola juntamente com os intestino furados por bala de Kalash, pelo que, qual mestre da embarcação, fumava sentado à proa, cigarros atrás de cigarros, enquanto eu, não fumador, me esforçava exausto contra o vento que, soprando contra a vela amainada, nos dificultava a progressão. Anoiteceu. Ao longe, muito ao longe, avistámos as luzes do parque de campismo. E o meu companheiro, sempre agarrado ao cigarro: "Vá, já está quase". Eu, mais morto que vivo, as mãos ensanguentadas das bolhas rebentadas, maldizia aventura e companhia e, endireitando as costas sofridas, contei-lhe a história dos dois caminheiros surpreendidos por ataque de urso: um trepou para cima de uma árvore, abandonando o companheiro à sua sorte, o qual, não podendo fugir e não havendo quem lhe acudisse, fez-se de morto. O urso farejou-o e foi-se embora. E o amigo, descendo da árvore, pergunta-lhe trocista: "Que segredo te dizia a horrenda besta ao ouvido?" 
"Que nunca mais me meta em outra jornada na companhia de semelhante camarada".
FOTOS: (1) o Henrique e o Jorge no J2HV antes da transformação da chata em veleiro e (2) nós dois a aprender a velejar.

domingo, 9 de setembro de 2012

Certas pessoas

Numa destas noites passeava com a minha mulher quando, junto de uma vivenda, deparámos com quatro cães deitados no passeio. Mudámos para a estrada para não incomodar suas excelências. Ao passarmos, uma cadela pôs-se a ladrar histérica e logo a matilha se levantou contra nós. Não tenho ainda o bom costume cristão de oferecer a outra face em caso de ataque e presenteei a cadela que se me atirava às canelas com dois pontapés que, infelizmente, não fizeram estragos porque ela saltou para trás. Recuei ameaçando a canzoada com o telemóvel, na falta de pedras à mão, e, já algo afastado, vejo chegar senhora furiosa, vinda do escuro do outro lado da rua, com brusquidão abre o portão e leva a rafeiragem para dentro enquanto vocifera, alto e bom som, fingindo dirigir-se à cadela: -- Pois, tu não gostas de certas pessoas...
Ainda fiz tenção de voltar atrás para explicar à senhora que as pessoas, certas pessoas, têm todo o direito de passear livremente na via pública sem serem atacadas, ao contrário dos cães, que a lei obriga a trela e açaimo. Que o comportamento canino, como aliás, o dos humanos, muda consoante estejam sós ou em matilha. Que não gosto de ser atacado. Que já por diversas vezes fui mordido por cães "que nunca mordem a ninguém", pelo que... Mas a senhora desaparecera na escuridão do quintal e só me resta desabafar aqui, lembrando aos  amigos e donos dos cães, entre os quais me incluo, que somos nós os responsáveis pelo seu comportamento e não certas pessoas de quem eles podem não gostar...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Violência conjugal

Muito se tem falado nos últimos dias, e pelos piores motivos, da violência conjugal: para além das formas mais mitigadas, ameaças e agressões reiteradas mais ou menos brutais, só este ano já foram assassinadas 24 mulheres. A inexistência de onda de indignação generalizada, semelhante à provocada pela violência indonésia em Timor na pré-independência, ou pela pedofilia na Casa Pia, sugere-me um qualquer pudor individual e social, motivado talvez por consciência algo intranquila, que acaba por estender uma cortina de silêncio sobre esta forma de violência cobarde, exercida contra os mais fracos.
Tema recorrente na minha escrita, o feedback tem sido escasso. Aparentemente, muitos leitores e leitoras preferem, como sugerem as sugestões de leitura em blogues ou os conteúdos do facebook, os arroubos de imaginação ornamentada de retórica, os dichotes engraçadotes, os lugares comuns e os ditos sentenciosos a evidenciar sabedoria de algibeira. Lamento que assim seja. Mas nem por isso deixarei de escrever sobre aquilo que me angustia: vida e morte, amor, sexo e, sempre - falo da escrita ficcional - sobre os reais males da sociedade portuguesa, perenes, transversais, espoletadores dos faits divers da política e da sociedade que emergem no dia-a-dia: violência doméstica, desemprego, corrupção, ignorância, novo-riquíssimo cavaquista, a especulação bolsista correlata...
A proeminência que tenho dado à violência conjugal radica na minha convicção de que não é mera consequência do atraso nacional, antes sua determinante:  a forma como as mulheres e os mais fracos são tratados é barómetro indiciador da riqueza, da cultura, da prosperidade de um país, de uma comunidade, de uma família. 
NOTA: o terceiro prémio recebido este ano em Manteigas com um conto, Figuras sem estilo, que versa a violência conjugal, é sinal animador. Pode ser lido aqui.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

J2HV - a chegada

Esmorecido o entusiasmo da partida, animava-nos agora o da chegada. E bem carecíamos dele: o descanso do terceiro dia, passado no Rio Fundeiro, eu a pescar, o Vergílio a banhos, não nos devolveu as forças, antes fez emergir a fadiga e as dores musculares. Afinal, teríamos remado umas boas dezenas de quilómetros e numa chata lenta e pesada, que não cortava a água com a elegância de um cisne, antes a empurrava à frente com rudeza de hipopótamo. O vento soprava forte, ora empurrando-nos para trás, ora, quando o rio mudava de direcção,  dando alívio e ajuda, pelo que nos lembrámos de usar o oleado como vela, prendendo-o à proa e segurando-o com os braços, de pé, enquanto o camarada remava, agora um pouco aliviado. Foi assim que do alto da ponte nos avistaram, a quilómetros de distância, o casco um pontinho laranja rente à água, acima o cinzento da vela improvisada, que um de nós, qual Cristo crucificado, segurava dolorosamente, como bem imagina quem já permaneceu um bom instante braços alevantados. Lá estavam as nossas mulheres e o H, pesaroso de não nos ter acompanhado. No regresso, passámos pelo parque de campismo de Castelo do Bode, onde tinha ficado o carro do Vergílio. Com um palmo de água no interior, do temporal que sofremos na primeira noite no Rio Fundeiro.  
Durante dias, semanas, recordámos cada episódio do périplo, quase remada a remada, enfatizámos o esforço, rimos das discussões que em espaço tão acanhado e condições penosas inevitavelmente estalavam. De tal forma que o H, inspirado pela nossa chegada à vela e a remos, propôs nova subida do Zêzere, desta vez à vela e até onde fosse navegável. Mas essa é matéria para o próximo post, J2HV - A Sequela, embora adiante, desde já, que também nisto de aventuras nenhuma preserva a magia e o encanto da primeira, sempre irrepetível.
MAPA: a última e mais custosa etapa da subida do Zêzere. Da margem oposta ao Rio Fundeiro até ao cruzamento com a estrada nacional 238, se a memória me não falha.

Carta fora do baralho


terça-feira, 4 de setembro de 2012

J2HV -- da ilha do Lombo ao Rio Fundeiro

Passada a novidade e o desafio, a aventura sabia a rotina: remar, remar, trocar com o parceiro e descansar, para pouco depois o substituir. Nas margens, pinheirais queimados pelos fogos de Verão. Vivalma. Numa garganta apertada, o vento contrário e a ondulação eram tão fortes que recuávamos em vez de avançar. Só com a fibra do Vergílio conseguimos dobrar aquele cabo das tormentas. No Rio Fundeiro, o deslumbramento: o Zêzere alargava em todas as direcções, a povoação reluzia ao pôr-do-sol, estendendo-se da água encosta acima. 
Anoiteceu rapidamente e, sempre desconfiados dos humanos, acampámos num pinhal do lado oposto, tenda e barco bem escondidos. Durante a noite levantou-se temporal, chuva forte, vendaval violento, que fez recear queda de braças dos pinheiros a esmagarem-nos. Mas o sono era tanto que depressa esquecemos o perigo e adormecemos inconscientes. 
De manhã, o bom tempo voltara. O Vergílio insistiu para que fizéssemos a barba, para não parecermos marginais aos olhos do povo daquele fim de mundo, certamente desconfiado de estranhos. Nada fácil, tendo por espelho a água da barragem. Desembarcámos no Rio Fundeiro, povoação deserta, e encontrámos posto de telefone numa taberna. Foi a primeira e única vez que falámos com as nossas famílias, confirmando a chegada para dois dias depois. Não havia pão, creio que o padeiro só por lá passava um dia por semana, nem outros mantimentos à venda. 
Adiantados face ao previsto, a tenda bem escondida no pinhal, sem saber se encontraríamos nas margens escarpadas lugar propício para novo acampamento, decidimos pernoitar ali. O resto do dia foi passado à pesca, que pouco deu,  três ou quatro achigãs pequenos, que apressadamente fritos mal adubaram o jantar e não lograram consolar os nossos jovens  estômagos de remadores, queixosos do menu "rações de combate", na época bem pobres. 
Na manhã do quarto dia zarpámos para a etapa final, onde o rio cruza com uma estrada. História sem história, fica para o penúltimo post da série.
FOTO: o acampamento na margem oposta ao Rio Fundeiro.
Vídeo: o Vergílio, rijo remador e banhista destemido.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

J2HV - o primeiro dia

A barragem crescia adiante de nós, com braços tão largos que, não fora o mapa, e seguiríamos por eles pensando ser o troço principal do rio. Revezávamos-nos nos remos, calor e cansaço faziam-se sentir. Havíamos deixado para trás as lanchas que aceleravam na barragem, apenas uma ou outra passava por nós de tempos a tempos, talvez a almoçar na "ilha", de que ouvira falar no parque de campismo. Uma delas, à proa moça em top less, quase nos abalroou, numa tentativa de nos virar o barco com a ondulação, e desapareceu deixando gargalhadas em resposta  aos meus insultos, remo alevantado em ameaça vã. O incidente inspirou-me o conto A Sereia, que pode ser lido aqui.
Seriam umas quatro da tarde quando finalmente pusemos os pés em terra, na tal ilhota, àquela hora deserta. O meu companheiro vinha-me convencendo a adiar o almoço para, dizia, nos banquetearmos, não com uma das rações de combate, como eu queria e que cada um podia comer enquanto o outro remava, mas com uma deliciosa sopa de feijão que ele trouxera de casa. 
Na água límpida, fiquei a ver cardumes de bogas a comerem gulosas a sopa deliciosa, em que o gorgulho se misturava com o feijão. "Aí do bicho que passa pela garganta de outro bicho", sentenciava o meu companheiro, enquanto engolia avidamente colherada atrás de colherada. "Devia ter triturado a sopa, assim não vias a carne", e bocas do género, até que ele próprio, mais saciado, deu às bogas o resto da sopa enriquecida com a carne que tanto me enojava.
Rumámos para o local escolhido para pernoita, a Ilha do Lombo, a salvo de incêndios e resguardados da marginalidade.  Alcançámo-la já o Sol se tinha escondido atrás de cabeço, acampámos do lado oposto à estalagem, perto de água, receosos de roubo do barco, jantámos  pão com atum, e adormecemos imediatamente. 
Pela calada da noite, acordei com barulho estranho. Não se via um palmo à frente dos olhos. Alarmado, tentei despertar o Vergílio. Em vão. Dormia como uma pedra. Pela escuridão, martelo na mão, dissimulei-me até ao barco. E descobri que se tratava, não dos assustadores "molinos de los batanes", como os que apavoraram Sancho Pança e D. Quixote, mas de pescadores furtivos que batiam na água para afugentar os peixes para a rede. Pela manhã, ao contar o sucedido, censurei o meu companheiro: "Podiam ter-te levado, que não acordavas". 
A resposta do Vergílio virou anedota familiar durante décadas: "E eu que até dormi com a naifa debaixo da almofada!"
MAPA: o trajecto do primeiro dia. A remos, numa pequena chata. A seguir: da Ilha do Lombo ao Rio Fundeiro.