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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Freixo de Espada à Cinta

Sob o calor daquele 28 de Junho, a povoação parecia parada no tempo, quase sem actividade humana — apenas os velhotes descansavam à sombra da igreja.



Mogadouro

Já no regresso a casa, a visita resumiu-se ao castelo em ruínas (com um burro à sombra da torre)  e a umas águas em café do centro.



Miranda do Douro e o Mirandês

Conhecíamos Miranda do Douro de visita anterior, quando por lá procurei sem sucesso vestígios do Mirandês.
O Mirandês foi descoberto em finais do séc. XIX, contava o professor Lindley Cintra, por um jovem estudante de medicina, de seu nome Leite de Vasconcelos, que ouviu o companheiro de quarto cantar numa língua estranha. Intrigado, foi à terra do colega, reuniu materiais, e apresentou num congresso de Filologia Românica a descoberta de uma língua até então desconhecida.
A paixão pelo estudo das línguas levou Leite de Vasconcelos a deixar a medicina, vindo a ser nome marcante na Filologia Românica. Entre outras descobertas, a de que o Mirandês era afinal um dialecto leonês, vestígio fossilizado do falar do antigo reino de Leão -- hoje dizem que é uma língua, mas importa destrinçar motivações económicas e políticas de argumentos linguísticos.
Ora o Mirandês ficou-me atravessado desde os tempos de faculdade, onde aprendi que apenas em três regiões nacionais se não falava Português -- Miranda do Douro, Guadramil, Rio de Onor --, e porque no meu último teste da licenciatura, precisamente Linguística Românica, feito na sala Leite de Vasconcelos  em dia de tal calor que o professor Lindley Cintra nos pediu licença para desapertar a gravata, saiu um texto que eu identifiquei como sendo Leonês de uma região muito próxima de Portugal, uma vez que continha alguns porteguesismos.
À saída, em conversa com colegas, senti crescerem-me orelhas de burro por não ter visto que só podia ser Mirandês... Enfim, ainda tive treze no teste, então uma belíssima nota.

sábado, 24 de agosto de 2013

De Bragança a Miranda do Douro

Quarto e último dia da viagem pelo Norte. Descampados ermos, secos, que ribeira apertada em vale estreito não logra amenizar. Paisagem a meu gosto, solidão bastante, silêncio violado apenas por cigarras e raros passarinhos.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Valpaços

A viagem por terras da Maria da Fonte incluiu passagem por Valpaços, onde a 16 de Novembro de 1846 se travou uma das batalhas decisivas da guerra da Patuleia, que se seguiu à revolta do Minho.
Nessa batalha, o Barão do Casal derrotou as forcas patuleias da Junta do Porto, comandadas por Sá da Bandeira, o lendário Sá Maneta, graças à deserção dos regimentos de infantaria 3 e 15, que mudaram de campo.
Na retirada pelo rio Douro, as forças patuleias foram atacadas da margem pelos guerrilhas miguelistas de MacDonnell --  um dos quais o jovem Camilo Castelo Branco.
Tempos e personagens fascinantes, que tenciono incluir no romance que penosamente vou escrevendo. Se algum leitor me puder fornecer elementos sobre o Barão do Casal ou indicar bibliografia, fico muito grato e não deixarei de incluir o seu nome nos Agradecimentos caso a obra venha ser parida.
IMAGEM: a coalizão, aliança entre arqui-inimigos, hoje de difícil entendimento.

sábado, 17 de agosto de 2013

Mirandela

O rio, o parque ribeirinho, as alheiras. De tudo gostámos por igual, e por esta ordem.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Chaves

Chegámos ao entardecer, e logo nos precipitámos para a piscina do hotel, a refrescar de todo um dia de calor, estrada cansativa, alguns percalços. À noite, passeio nocturno pelas margens do Tâmega. Espaço muito bem arranjado, onde as famílias convivem na frescura do rio. Pedras colocadas em fileira à distância de um passo permitem atravessar o Tâmega a vau. O que fizemos, apesar da escuridão.

Esperava-nos, a contrastar com a amenidade das margens do rio, noite de calor infernal. Desculpa tuga do funcionário da recepção do hotel: "O ar condicionado avariou hoje e o técnico ainda não veio..."
De manhã, visita à parte histórica da cidade. Museu, museu militar em torre do castelo, do alto vista panorâmica sobre a cidade. Interessante, a parte velha.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Montalegre

No segundo dia da nossa viagem pelo Norte motivada pela vontade de visitar  alguns dos locais da revolta da Maria da Fonte, fomos de Vieira do Minho a Terras do Bouro, depois recuámos por Vieira, rumo a Montalegre, Boticas e Chaves, onde pernoitámos. Fazia muito calor (foi a 26 de Junho) e só refrescámos com banho na piscina do hotel.
Na foto, Montalegre, vista dos muros do castelo. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

São Bento da Porta Aberta

No segundo dia da nossa viagem por terras da Maria da Fonte (26/6), saímos de Vieira do Minho em direcção a Terras do Bouro. Inevitavelmente parámos em São Bento da Porta Aberta, sítio lindo entre a montanha e a barragem. Afora a beleza da paisagem, apenas um susto com os travões, que felizmente não passou disso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Vieira do Minho

O hotel rural Quinta da Travessa, onde pernoitámos. Banho na piscina, lado a lado com as vacas da quinta. Fresco, acolhedor, simpático, muito bem arranjado. Lá nos recomendaram para jantar o melhor restaurante que encontrámos em toda a longa viagem: A Tasquinha. 
Carne barrosã genuína, impecavelmente confeccionada, bacalhau tão bom como antes nunca tinha provado, verde do proprietário, tinto e branco, deitado com requinte para as tradicionais tigelas... Abade de Priscos para quem ainda se aguentou com ele, para mim bagaço de vinho verde, também da casa e a fazer-lhe inteira justiça.
Da revolução, não vi nem vestígios...
Vale outra visita, mesmo que apenas para voltar a comer n' A Tasquinha.

Póvoa de Lanhoso


Concelho onde a revolta da Maria da Fonte começou. A protagonista terá sido Maria Angelina, a quem

"Chamavam[-lhe] da Fonte por ser da freguesia de Fonte Arcada." (Camilo Castelo Branco, Maria da Fonte).

A Maria da Fonte
Não é mulher como as mais
Usa facas e pistolas
Para matar os cabrais


São Miguel de Seide

Após breve passagem por Famalicão, onde almoçámos sofrivelmente, embora barato, apressámo-nos a prestar homenagem a mestre Camilo, autor de Maria da Fonte, visitando-o na sua terra. O Centro de Estudos Camilianos revelou-se uma desilusão. Uns tantos livros de Camilo, nenhuma exposição, nenhum entusiasmo por parte dos funcionários. Nada para ver, excepto a arquitectura do edifício, semelhante, pareceu-me, a outro do mesmo arquitecto, Siza Vieira, que já tinha visitado em Santiago de Compostela.
Receando mais um barrete, seguimos para a Casa Museu de Camilo. 
Surpresa. O responsável e guia é profundo conhecedor da vida e da obra de Camilo Castelo Branco. Passámos horas em cavaqueira apaixonada, a falar do grande ausente e dos seus livros. 
Felizmente a Casa de Camilo está entregue a um verdadeiro camiliano, que junta à erudição o prazer de ensinar. Com humor, simpatia e cortesia. Porque se me tem calhado outro funcionário, teria dali desandado, apressado e desgostoso.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Santo Tirso

O percurso aqui anunciado em demanda da Maria da Fonte foi pretexto para um excelente passeio pelo Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro (de 25 a 29 de Junho), só prejudicado pelo calor que então assolou o país. Calor que tornou mais apetecíveis as piscinas dos hotéis e motivou refrescantes passeios nocturnos à beira-rio por cidades como Chaves ou Bragança.
Na foto, Santo Tirso, o primeiro objectivo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Na rota da Maria da Fonte

aqui dei conta do meu fascínio pela Maria da Fonte, a quem se atribui a liderança da revolta do Minho, em 1846,
"feita por homens de saco ao ombro, e de foice roçadora na mão para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem, e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos..."
Costa Cabral, ministro do Reino, 20-4-1846
Interessa-me a época, o contexto, algumas das personagens, as motivações, e, sobretudo, o mito. E aproxima-se o momento de, com tempo, visitar os locais dos motins. Não espero encontrar muito dessa época -- algumas das paisagens, a luz, os cheiros, pouco mais. Da mulher (ou mulheres), e cento e sessenta e sete anos depois, restará apenas o nome, o hino, algumas estátuas. E o fantasma,  como assegura Camilo Castelo Branco:
"Ah, a alma da Maria da Fonte  adeja por ai, paira sobre este povo lusitano, para quem é forçoso que vigore sempre uma tolice messiânica ou revolucionária, quer ela se chame D. Sebastião ou Maria da Fonte."
Itinerário:
Fafe, Famalicão, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho.
Depois: Terras do Bouro, Montalegre, Boticas, Vidago, Chaves, Valpaços, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Bragança.
Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta, Almendra.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Maria da Fonte Revisitada

Fascina-me a lenda dessa amazona campónia, "a cavalo, sem cair" "as pistolas na mão para matar os Cabrais / que são falsos à nação". Recordo ainda hoje os versos que minha avó recitava ao serão, imaginando-a como uma das revolucionárias da República, que viriam a ser personagens de Entre Cós e Alpedriz:
A Maria da Fonte não é uma mulher como as mais
Usa facas e pistolas para matar os Cabrais!
Dessa revolução anárquica, cavalgada  tanto pela extrema-direita miguelista como pela extrema-esquerda setembrista, nasceu a guerra civil  da Patuleia, que durante oito meses devastou o país, mostrando do que é capaz este povo pacato, ordeiro, quando não aguenta mais. E o hino que imortalizou essa mulher do Minho, aqui numa interpretação maravilhosa de Vitorino,  agrada-me mais que a marcha sebastianista adoptada pela República como hino nacional: