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sexta-feira, 27 de maio de 2022

Miúdo insuportável

Eu. Refilão, mal-criado, convencido de que era esperto. Se hoje me encontrasse comigo mesmo, com seis anos, digamos, nem à bofetada me suportava. E era demasiado pequeno para a idade, mesmo naquela época em que as crianças eram muito mais pequenas do que hoje — vejam o Aniki Bobó e digam-me se dão doze, treze anos àqueles garotos.

Pois numa manhã apanhámos a camioneta da carreira para Alcobaça e logo que o revisor chegou, 

— Que idade tem o menino.

— Cinco anos, respondeu a minha mãe, a querer escapar ao pagamento de meio bilhete.

— Não tenho nada, tenho seis!

— Cala-te, que não sabes o que dizes!

Na altura, nem bofetadas, sempre bem merecidas, me calavam. Não as levei.

— Não sei o quê? Tenho seis anos, que os fiz no dia 7 de Abril!

A minha mãe, envergonhada a mais não poder ser, pôs-se à minha frente, É só bilhete para mim, o garoto não paga ainda, que só faz os seis anos para o mês que vem.

— Mas ele diz…

— Ora, ele nunca está calado! Quem sabe sou eu, que sou a mãe!

Eu não me calava. E a minha mãe, a ferver, Ah ladrão, cala-te que até te trinco todo!

— Com quê, se anda a arrancar os dentes?

Aliviou a fúria com sonoras gargalhadas. E eu, sentindo-me outra vez sabichão e engraçado, esqueci a teima.

terça-feira, 24 de maio de 2022

O vinho e o porco

Em finais do século passado, seguia eu num comboio regional para Lisboa a tentar ler livro chato, Les Langues Spécialisées, que ia apresentar nessa manhã no seminário de Lexicologia. Em Santarém, entra e senta-se a meu lado jovem negro que, vendo-me a ler em Francês, se me dirige nessa língua. E como ele insistia, eu, polidamente, fechei o livro e fui fazendo conversa.

Tinha vindo do Senegal, era uma espécie de bruxo, e muçulmano. Ia a Lisboa à oração semanal na mesquita. O seu trabalho consistia em exorcizar, desfazer mau olhado, pragas e feitiços, intervir como conselheiro matrimonial reconciliando casais desavindos, isto sem pôr em causa a poligamia. Fazia feitiços — bons, só para proteger o cliente de bruxedo de amante rancorosa —, aconselhava submissão à mulher que queria deixar o marido, orientava as orações e rituais islâmicos.

Eu, a querer voltar para o meu livro, e para ver se o calava, lá acabei por dizer que essa não era religião para mim, apreciador do vinho e da carne de porco.

—Sabes porque é que um muçulmano não bebe vinho?

Eu não sabia.

— Porque com o vinho ralha e bate na mulher, arma zaragata com os vizinhos…

Bom argumento. Embora eu pense, mas não lho disse, o vinho pague muita culpa injustamente, convencido que estou de que não faz as pessoas piores, apenas revela o que são.

— E a carne de porco?, perguntei, a abreviar-lhe o arrazoado.

Então ele explicou-me esse grande mistério: o Profeta estava a morrer à sede no deserto, apareceu um porco que o levou até uma fonte, salvando-lhe a vida. Pelo que decretou: não comas o porco, que é teu irmão!

Esta irmandade não me convencia. Mas passávamos então pelos estaleiros de construção da Expo e ele, apontando os operários, exclamou triunfante: — Vês? É só pretos a trabalhar nas obras!

Pois, pensei então, penso hoje: viver não custa, é preciso é saber viver.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

No tempo da magia

 “Em nome do Anjo Bento…”

E a velha passava uma vez com a faca ferrugenta  sobre o cobrão

“Eu te corto…”

E a faca passava segunda vez

“Bicho peçonhento…”

Última passagem coma faca. A terceira.

“Está feito. Amanhã ou depois já estás bom. Mas, se o rabo se tivesse juntado à cabeça, ias para debaixo da terra.

Assim se tratavam as picadas de aranha. E todas as outras maleitas, cada qual com sua oração. O que faltava em médicos, em remédios, sobrava em rezas, as quais, se ditas com fé suficiente, porque então como hoje basta acreditar para que o milagre aconteça, tudo curavam graças à intervenção dos santos  da especialidade. 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Um médico de outro tempo

Aí pelos meus catorze anos, adoeci. De diferente, desta vez, o estar fora de casa, longe da família, num tempo em que a comunicação se fazia por carta, e o telefone estava reservado para emergências, ligando para o posto da terra e pedindo que fossem chamar alguém — enquanto não chegava, os períodos caíam como a chuva em Dezembro.

Tentei não ligar muito à doença; mas os donos da casa onde estava hospedado insistiram: tens de ir ao médico. Eu recusava. Além do mais, e não o confessava, preocupava-me a despesa, que a magra mesada dificilmente suportava. Adivinhando a causa da minha resistência, ofereceram empréstimo. Com o meu orgulho de fidalgo espanhol pelintra, recusei: não, obrigado, eu tenho. E acabei por ir ao consultório do médico que me recomendaram.

Diagnóstico: papeira. Enquanto passava a receita, o velho médico fazia perguntas de natureza pessoal, adivinhando a minha situação. Sim, era estudante, estava hospedado em Leiria, os meus pais eram emigrantes…

Quando me levantei, Quanto é sr. dr.? 

Não percebi a resposta: nada qualquer coisa.

E eu, desorientado: Ah, pago lá fora, à sua empregada?

Homem, desapareça daqui, que estudantes não têm direito a pagar!


segunda-feira, 9 de maio de 2022

Uma história mais de guerra*

Um grave acidente de motorizada deixou o — chamemos-lhe Zé, então o mais comum dos nomes próprios— incapacitado, quase inválido. Foi chamado para a Inspecção Militar. Quiseram-no dar por inapto para o serviço militar. Indignou-se.

Enquanto os outros mancebos se queixavam da vista, dos joelhos, das varizes, num esforço vão para se livrarem da guerra, ele, mais receoso das línguas femininas que das balas e das minas dos turras, protestava:  O quê, eu, inapto? Veja aqui! E de pé tocava com as mãos no chão, depois fazia flexões. Eu estou bom, está a ver?

No seu desespero, imaginava as conversas no rio, uma avó a gabar o físico do neto, rapaz tão “profeito” que tinha sido logo apurado para a marinha, uma mãe a retorquir que o seu rapaz iria ser furriel, depois da recruta talvez passasse a oficial, moçoilas a lembrar que também os seus namorados tinham sido apurados, casariam logo que tivessem a tropa feita, e depois todas, a voltarem-se para a sua mãe: Então o teu Zé ficou livre? E murmurando entre beiços: Coitadinho!

Aleijadinho para o resto da vida!

Ah, não! Não ele! E tanto se torceu, tanto suou, que um dos militares já sem paciência disse para os outros: É pá, se o gajo faz tanta questão de ir à tropa, que vá. Prá minha vida…

Para grande gáudio do Zé, foi então apurado, tal e qual como os restantes rapazes da terra, tão “profeito” como eles. E nessa semana as conversas no rio versaram não sobre a sua invalidez, mas sobre  a sua estupidez, todos a quererem ficar livres da tropa sem conseguirem, ele a querer ir, podendo livrar-se.

Chegou a altura da incorporação. Recruta, depois especialidade: atirador. Nas costas dele, riam-se. Os outros eram electricistas, escriturários, cozinheiros, tudo o que os pudesse afastar da mata e das emboscadas, só ele — atirador, a especialidade dos que outra não conseguiam.

Desculpava-se, em tom superior: Lá fora, somos todos atiradores.

Mobilizado. Para a Guiné, onde a guerra recrudescia, fervia, matava e feria — eu recortava as longas listas de mortos que o Diário de Notícias publicava diariamente para afixar no bar da minha escola, o Instituto Comercial.

A cada aerograma do Zé, lido à mãe, analfabeta, na loja que era também posto de correios, a pobre arrancava os cabelos, gritava pelas ruas que era um dor de alma ouvi-la, tão alto e tão sofredoramente como os coitados dos porcos quando os capavam ou matavam:

— Ai o meu Zé, que o não volto a ver!

Ao lado, no adro, os homens que tinham também passado pela guerra, abanavam a cabeça e lastimavam a parvoíce do Zé, o único que vazava o seu terror para os aerogramas, afligindo escusadamente a mãe, que via já morto o seu menino, ou a regressar ainda mais inválido.

Um dia o Zé voltou. Quando tentava contar os seus episódios heróicos na guerra, o que fazia aos pretos mortos ou capturados, como conseguira a picha que trouxe em frasco de álcool, logo os outros lhe lembravam os aerogramas aflitos que quase matavam de susto a mãe.

— Eu? Isso é mentira! Nunca escrevi coisas dessas! Era a velha que queria fazer a suas fitas para que tivessem pena dela!

E de nada adiantava recordar-lhe o testemunho da Maria, que lia as cartas à mãe:

— Isso era para afligir a velha, para me deixar mal visto por não ter querido namorar com ela! Eu, hem? Sempre na dianteira, o alferes até me quis propor para condecoração. Eu é que recusei, não ligo a merdas dessas! 

[Ficção. Como todas as minhas histórias, escusado seria lembrá-lo. Mas faço-o, não se ponha alguém a relacionar estes produtos da minha imaginação com este ou aquele. Ah, até o narrador (“eu”) é apenas o meu alter-ego.]


*Verso de Paxti Andion

terça-feira, 3 de maio de 2022

Da vida e da morte

Pontaria. Em cem biliões de galáxias do universo conhecido, talvez um entre uma infinidade de outros a brotarem como bolhas em pântano, cada uma com pelo menos cem biliões de estrelas, uma infinidade de planetas, saí eu do Nada logo condenado a regressar depressa a esse Nada, como luz que apaga e nada deixa atrás de si, nem sequer simples fotões a viajarem infinitamente no tempo e no espaço...

Comecemos pelo princípio óbvio. Não tivesse eu nascido e nada sofreria. Não me assustaria o medo do vazio que é a morte, essa eternidade sem tempo, sem ontem, hoje, amanhã, sem causa e sem efeito, sem conhecimento nem sofrimento nem prazer. Ou tivesse morrido na infância, como esteve para suceder vezes sem conta, antes de ter consciência de que estava vivo. Hoje, nem uma memória seria, falecidos todos aqueles que me me podiam recordar como pálida tristeza. 

Cheguei a velho. Vi partirem os meus pais, os meus tios, amigos, muitos dos meus conhecidos. Aos poucos, perdi alguma da minha repugnância por doenças, nojo pelos cadáveres. 

Aproxima-se, demore anos ou escassas décadas, a minha hora. Inexorável, inelutável. Vi morrer quem já não queria viver. Creio agora compreender o que sentiam então, essa indiferença que me chocava para com filhos, netos e bisnetos, para com a vida em geral.

A minha mãe. Internado em Santa Maria com aneurisma da aorta roto, retirou a máscara para em grande sofrimento, me dizer: -- Eu não vou morrer! E ano e meio depois, acamada, mãos amarradas para não arrancar os tubos das sondas, abanou a cabeça afirmativamente quando, já sem mais palavras para lhe dizer, lhe perguntei: -- Mãe, quer que me vá embora? 

A minha sogra. Levada ao hospital uma semana antes da morte, onde nada lhe encontraram, pedia que lhe desligassem o pacemaker que a mantinha viva.

Tios que Alzeimer enlouqueceu ao ponto de nem reconhecerem os filhos. Mortos em corpos vivos.

Pelo menos, não sofreram com o avizinhar da morte.

NOTA: não contei as galáxias nem as estrelas, baseio-me em números da ciência, certamente aproximativos, e é também possível que em vez de “biliões “ sejam “milhares de milhões“, sabido que é que o termo inglês “billion” designa um milhar de milhões.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

A minha primeira bica

 Aí pelos meus doze anos, aldeão a estudar na vila, fui convidado por colega mais velho para ir ao então café da moda em Alcobaça, o café Portugal. Comecei por recusar, sem confessar que, para além da escassez de dinheiro, tinha vergonha: nunca tinha entrado em café, e logo nesse tão chique?

Mas a companhia e a curiosidade venceram. Eis-nos sentados, o empregado de bandeja na mão a perguntar o que é que os senhores vão tomar?, e eu sem saber o que pedir que pudesse pagar e não revelasse a minha ignorância rústica do que se consumia em tais estabelecimentos; o meu colega pediu uma bica e eu imitei-o, convencido de que seria algo semelhante a um copo de laranjada, na época a minha bebida de sonho, que apenas bebia em casamentos e baptizados.
Logo que o empregado se afastou, bichanei, preocupado: quanto é que custa? Dez tostões. Fiquei mais descansado, tinha mais do que isso na algibeira, certamente para a sopa do almoço na cantina da escola.
E vieram as bicas. Grande desilusão! Em vez de copo de doce laranjada, um poucochinho de café negro como carvão, que quase não cobria o fundo da chávena! Tão azedo, que nem o pacotinho de açúcar SEMPA logrou adoçar. Devo ter-me queixado, ou a minha cara ao provar a bebida terá revelado ao meu companheiro que o único café que conhecia era a cevada do pequeno-almoço.
Não gostas? É a melhor bica de Alcobaça!
E eu a tentar disfarçar a minha saloíce: é pouco açúcar …
Ele pegou no pacote vazio e repetiu a anedota do labrego que chamou o empregado e protestou pela escassez de açúcar, descodificando a marca SEMPA: Só Esta Merda Para Adoçar?
O empregado retorquiu, lendo ao contrário: Adoça Pouco Mas É Suficiente!
Não foi, portanto, paixão imediata o meu gosto pela “bica”. E não me recordo de ter voltado ao café enquanto estudei em Alcobaça.
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quarta-feira, 13 de abril de 2022

O silêncio é de ouro

Ensinaram-me os anos a desconfiar de quem se chega melífulo, palmadinhas nas costas, sempre sorrisos, abraços, beijinhos — como o velho Malhadinhas, lembram-se? O do Aquilino,  que por entre pias demonstrações de afecto ia enterrando a navalha nas tripas da vítima. 

Ensinou-me a dura experiência que muitas pessoas boazinhas, caridosas ou solidárias, independentemente do seu posicionamento político, são na realidade interesseiras, más, egoístas, não raro velhacas e vingativas. Que se regem menos por padrões morais, que, aliás, distorcem segundo as suas conveniências, mas sobretudo pelo egoísmo, por impulsos e motivações animalescas. E depois, com os artifícios da linguagem, distorcem, explicam e justificam o injustificável.

Pior ainda. O nosso cérebro mamífero adora rituais, hierarquias, submissão, e resiste à aprendizagem. As ideias esgrimidas pelos adversários normalmente entram por um ouvido e saem pelo outro — sem deixar nada dentro.

Duvidam? Experimentem convencer, recorrendo a factos sólidos e argumentação lógica, um crente de que a sua religião é um embuste, um fanático de futebol de que o seu clube é beneficiado pelas arbitragens, ou um adepto das praxes da vergonha que é a existência de tais práticas, sobretudo em meio que se presume intelectual.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Percevejos

 Apesar de nado e criado em humilde aldeia, em condições de higiene e de viver que hoje seriam insuportáveis, foi apenas em Lisboa, então a capital do império, que vi pela primeira vez percevejos.

Tinha chegado recentemente, e fiquei alojado em lar na Rua do Século, em frente ao jornal do mesmo nome. Era um prédio antigo, e, apesar de oficialmente ser instituição dependente da igreja, lá funcionava com completa autonomia uma espécie de república, dirigida democraticamente pelos jovens moradores, quase todos estudantes trabalhadores.
Dormia profundamente quando o meu amigo Serafim, hoje a viver nos Açores, me acordou. Com dificuldade, que então tinha o sono pesado. Queria que eu fosse ver.
Ver o quê, pá? Deixa-me mas é dormir, que não são horas de ver nada!
Ele insistiu. E sem outra forma de voltar a dormir, acompanhei-o ao quarto, onde o colega, o Rogério, ressonava tranquilamente. E sobre o rosto, o pescoço, os braços destapados, vi, com a claridade que entrava pela janela, um formigueiro de bichos repelentes, vermelhos de sangue roubado, que passeavam inchados, tranquilos como operários em linha de montagem. Percevejos! Um nojo, para mim, rapaz do campo, habituado a quase tudo o que era porcaria.
Com a luz acesa, os percevejos desapareceram quase instantaneamente. Nessa noite, o Serafim dormiu na tábua de passar a ferro do corredor, uma robusta mesa. Eu, perdido o sono, acendia volta-não-volta a luz, coçava-me. Logo de manhã, aspirei cuidadosamente o quarto, fui a uma drogaria comprar “Gesarol”, que apliquei em volta dos pés da cama e em todas as fendas do sobrado. Não voltei a ver percevejos, a praga das famílias reais, até anos depois, na tropa quando fazia a especialidade na EPAM, no Lumiar. Na balbúrdia revolucionária que se vivia, feita de boatos e prevenções revolucionárias, saídas cortadas e alertas de ataques da reacção, calhou-me, apesar de instruento, ser escalado para serviço de guarda, isto para os “operacionais” – cozinheiros, padeiros, que mal sabiam manusear a espingarda G3 --, irem proteger a RTP da reacção.
Após dois turnos de sentinela, que ninguém apareceu para me substituir, fui rendido noite alta, e dirigi-me, como era minha obrigação, à casa da guarda. Sobre o rosto de camarada adormecido, passeavam percevejos, gordos e felizes…

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Ver sem óculos de pala

 Hoje, no telejornal da TVI, ouvi, com grande surpresa, um major-general português a comentar a crise na Ucrânia.

Segundo este militar, que certamente sabe muito mais do assunto do que eu, a guerra não interessa à Rússia, mas sim -- a surpresa! -- aos comandos militares ucranianos, tomados de assalto pela extrema-direita ucraniana após o golpe militar de 2014.
E duvida de que o poder político ucraniano possa controlar o sector militar, que anseia pela guerra. Ora, se o exército ucraniano passar a linha divisória que o separa dos pró-russos, como pretende fazer, aí a Rússia tem de atacar e a guerra será inevitável.
Para melhor informação, sugiro que vejam esse excerto do telejornal da TVI, salvo erro por volta das 21H. Desde já previno que não vou discutir a situação aqui, embora tenha, como cada um dos meus amigos terá, opinião sobre as causas e responsabilidades desta crise.
Mas, como é meu costume, não pretendo doutrinar, nem sequer convencer ninguém. Longe vão os meus tempos de pregador.
Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A historieta censurada pelo Facebook

 Bullying

O Tóino brinca pacífico à porta de casa. E eu a gritar-lhe, preparado para fugir ladeira acima:
– Eh bucha! Não me apanhas, não me apanhas, gordo de merda!
Ele ainda me persegue. Mas depressa se cansa, volta atrás esbaforido, a vociferar ameaças:
– Ah, quando te agarrar, eu faço, eu aconteço....
À noitinha a minha mãe manda-me fazer recado: – Vais a casa da avó da Luz...
Tinha de passar pela casa do Tóino.
– Não vou, tenho medo...
– Medo de quê, se ainda é dia? Toca a andar, seu medricas!
Cheguei a casa da minha avó ofegante, coração aos coices, da rápida corrida para evitar maus encontros. Mas no regresso, lusco-fusco, o malandro pegou-me de emboscada:
– Desta é que mas pagas!
E agarrava-me por uma orelha, esbofeteava-me, – Vá, chama-me agora bucha!
Eu choramingava, entre lágrimas e ranho: – Vou dizer à minha mãe...
E tanto me contorci e berrei que consegui libertar-me. Apenas me afastei três pulos,
– Ranhoso, bucha, és só banhas, paneleiro de merda! – nem sabia então o que era isso. E ele, a quem a fúria dava asas, quase a apanhar-me outra vez, perseguia-me até casa, a rosnar ameaças espumadas: – Agora é que as levas a sério, dou-te coça que te vai servir de emenda!
A chinfrineira atrai à porta a minha mãe. – Que guerra é essa, vamos lá a parar com isso!
– É este bucha que me bateu e quer bater-me mais!
– Não admito que me chames bucha!
E para mim: – Alguma lhe fizeste!
– Eu? Vinha a passar de casa da avó, agarrou-me de surpresa, começou a bater-me...
– Porque tu esta tarde chamaste-me nomes!
– Eu? E para a minha mãe: – Que eu seja ceguinho...
A minha mãe estava brava. Um marmanjo daqueles – bucha, gordo, ia eu dizendo, já agarrado às saias dela – a bater no seu filhinho, criança indefesa, "relezica", e sem quê nem porquê.
– Pois a tua mãe vai sabê-las e é agora!
Eis que as nossas mães ralham, a do Tóino que não aguenta mais ouvir a garotada a atentar-lhe o filho, que só quer brincar sossegado, a minha que nomes não fazem sangue nem marcas como as que tenho na cara: – Ora veja-me lá o que o seu filho me fez ao garoto, acha bem?
– E você acha bem que o seu lhe chame gordo?
– Pois se o é!
Era, mas de doença! E doenças não se atiram à cara.
– Doença? Vossemecê até conta por aí: "O meu Tó é uma boquinha abençoada, come uma dúzia de sardinhas de cada vez!"
– Ora, o que come ou não come é comigo. Felizmente posso dar-lhas, não sou como umas e outras que têm de dividir uma sardinha pelos filhos.
– Pobre, mas honrada, ouviu? E que o seu filho que não torne a bater no meu!
– Ora, o seu que lhe não chame nomes! E fecha ruidosamente a porta de casa, farta da peixarada.
No caminho de casa, levo reprimenda forte: – Ai de ti se eu sei que o voltas a provocar! Quem vai, vai, quem está, está.
– Eu, mãe? Ele é que me bate primeiro...
– Se não podes com ele à unha, chega-lhe à pedrada! Não te venhas é queixar para casa!
Pois sim. Mal saía da escola, atirava a mala para cima da mesa, enchia a boca de torrões de açúcar e corria escadas abaixo antes que a minha mãe me impedisse. Ainda me gritava da janela: – Onde vais? Já fizeste os trabalhos de casa? Merenda primeiro!
– Vou brincar, depois faço-os. Não tenho fome, como depois...
Lá estava o bom do Tóino a brincar pachorrento à porta.
– Eh gordo! Bucha de merda, paneleiro! Não me apanhas! Não me apanhas!
E ele outra vez a espumar ladeira acima: – Vais ver a coça que te dou quando te agarrar! Ainda te faço pior do que ontem!
– Ó mãe, o bucha quer bater-me outra vez! grito, ele olha em volta, detém-se por um instante, o bastante para me pôr a salvo em casa, galgando de pulo as escadas.
– Vieste a fugir de algum? E a minha mãe, desconfiada por me ver chegar bofes à boca, deita mão a verdasca justiceira.
– Eu, mãe? Vim a correr para fazer os trabalhos da escola!

Da censura

Hoje, uma historieta minha publicada no grupo da minha terra foi retirada pelo Facebook, com o argumento de que fazia discurso de ódio. Fui advertido de que a minha conta será restringida se voltar a violar os padrões da “comunidade”.

Nunca imaginei vir a ser alvo de censura, ainda por cima por um mecanismo informático.
No meu entender, e creio que entendo alguma coisa, nada na história ofendia quem quer que fosse, ou o que quer que fosse, mesmo nestes tempos de melindres exacerbados.
Não preciso, não tenho idade nem vontade de compactuar com isto, e menos ainda de impor qualquer forma de autocensura à minha escrita.
Se já pouco frequentava o Facebook, a partir de hoje menos ainda o farei.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Suave milagre (1)

 

Suave milagre (1)

Aquele meu familiar vivia por uma única razão: o medo de morrer. Ou assim me parecia, nas cada vez mais raras vezes que o visitava, falto de paciência para as suas lamúrias constantes, a viver desinteressado de todos os outros, do mundo à sua volta, tendo por único assunto de conversa as suas doenças, recorrentes e cumulativas, as suas dores, a sua pessoa. De início, tentava animá-lo, insistia para que saísse, pelo menos até à porta, a ver o Sol primaveril, a tomar umas golfadas de ar limpo. Não. Uma pessoa de idade constipa-se facilmente, há que se resguardar. Mas constipações não são doença grave, argumentava eu — para ouvir raspanete: quem as tem é que sabe delas! E se lhe chamava a atenção para a necessidade de arejamento, físico e mental, de exercício, de pequeno passeio diário, até à esquina que fosse, rebatia-me impaciente: estava frio, podia apanhar gripe, sempre perigosa em pessoa de idade, e sim, quando viesse o tempo bom, já sem perigo de adoecer, então sairia, então daria os seus passeios – que eu nunca fui preguiçoso!, culminava indignado. E eu pensava: como mudamos, naquilo em que nos tornamos, como os anos transformaram este meu amigo de amante da vida ao ar livre a velho que passa os dias na cama porque levantado tem dores, desinteressado da vida de que, no entanto, recusa abdicar. E toda a conversa, toda a minha argumentação caía em saco roto, porque com a manha que os anos trazem, qualquer tentativa de o forçar a mudar de atitude resultava em gritos de dor, sufocos assustadores, ameaças até: quando passares pelo mesmo vais ver como é! Tentava calar as minhas censuras com mentiras ingénuas: não atendera o telefone porque estava longe e não o conseguira alcançar, não fizera o que lhe recomendara porque se esquecera, já me esqueço das coisas, será princípio de Alzheimer?

Creio que assim supunha enganar também a Morte, escondido dela em casa. Afinal, com tantos clientes à espera, bem se podia esquecer dele. E pelo sim, pelo não, mantinha de noite as lâmpadas acesas, que Morte é escuridão, é trevas, não o procurará na luz intensa. Receoso de morrer em falha de iluminação provocada por trovoada, acordava amiúde, para confirmar que as luzes continuavam acesas, que a Velha se não aproximara sub-repticiamente, capuz negro sobre a caveira, sarcasmo trocista a brilhar nas órbitas vazias, longa foice ensanguentada ao ombro. Espantava as visitas, gente do seu tempo que o procurava ainda para dois dedos de conversa, temeroso das respectivas doenças e dos germes que seguramente carregavam consigo, impaciente também com as suas conversas: como se atreviam a vir falar com ele de dores, a lembrar que também sofriam de maleitas, a dizer que um ou outro tinha estado já às portas da morte? E a recordar que havia quem estivesse bem pior? Era uma ofensa, era um escândalo, quase uma calúnia supor sequer que alguém tinha ou alguma vez tivesse sofrido como ele, e encolhia os ombros se lhe recordavam, prova suprema, que o outro até tinha morrido. Pois sim, nunca se poupara, sempre a comer bem e a beber melhor, nunca se resguardara de aragens e de micróbios, nunca tivera o devido cuidado com a saúde, com a tensão, com o colesterol, com outras causas conhecidas de falecimento. Pois ele, medicamentos para tudo, inclusive para proteger o organismo dos malefícios de outros dos remédios. E sempre a exigir a vinda do médico de família ao domicilio, era o que lhe faltava estar no Centro de Saúde sujeito a resfriados, a contaminações desses velhos e velhas que para lá vão fazer salão, passar tempo, actualizar conversas. Não ele: se chamava o doutor é porque precisava, e não sossegava enquanto, bem tarde, lhe não entrasse porta adentro, trocista, Ora o que é que temos hoje?, sempre pronto a minimizar as maleitas, a rir delas. Enfim, essa besta, apesar de tudo, receitava-lhe medicamentos às sacadas, cada vez maiores, de que, bem o sabia, carecia para se manter vivo, no seu reduto inexpugnável e camuflado: se a Morte o não via, se não deixava entrar germe que a avisasse da sua existência, se, além do mais, se resguardava, uma vida inteira sem fumar, sem beber, sem abusar da comida, colesterol e glicemia sempre vigiados, tensão controlada, porta fechada a gente linguaruda que o lembrasse da Velha Ceifeira — não morreria. E zangava-se comigo, quando lhe recordava que aquilo não era vida, que para viver temos de aceitar a possibilidade de morrer. Lérias. Que falava assim por ser muito novo.

Pois numa bela manhã de sol primaveril, a porta entreabriu-se suavemente, e voz meiga falou-lhe sorrindo meigamente:

— Estou aqui!

(1) inspirado no conto homónimo de Eça de Queirós.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Pisar o risco

Diz-se que a indisciplina, o mau comportamento e a má educação nas escolas, a violência para com os professores, começaram com a liberdade trazida pelo 25 de Abril.

Não é esse o meu entendimento, baseado na minha experiência de aluno. Por exemplo,  no liceu de Leiria, nos anos sessenta, não faltava quem tentasse pôr o pé em ramo que sentisse verde, assim o permitissem os professores.

Aquela turma de quarto ano tinha dois professores deficientes: o de Inglês, cego, mas com esse ninguém fazia farinha, que era mau como as cobras e, mesmo não vendo, via tudo o que se passava; e a de Matemática, surda como uma porta.

Nas suas aulas, um regabofe pegado da entrada ao toque de saída. E não era só a falação constante; uma das graçolas recorrentes consistia em deixar cair como por acidente a esferográfica, e, apontando para ela,

—Stôra, posso tocar uma punheta?

— Apanha lá a caneta!

Vendo a risota geral, a balbúrdia instalada, que em vão tentava debelar, a professora pensaria, talvez, que outra vez tinha sido gozada. Mas fingia de nada se aperceber.

Até que…

Logo no início da primeira aula do segundo período, o mesmo aluno, a repetir a graçola estafada:

— Stora, posso tocar uma punheta?

— Rua, já! E levas participação disciplinar, de uns dias de suspensão não te livras, seu parvalhalhão mal educado!

Ninguém se atrevia a rir. Ninguém repetiu as asneiras costumeiras. 

Instantaneamente, todos tinham percebido que nas férias de Natal a professora havia posto aparelho auditivo. 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Meter uvas

Vindima. Chega mais uma tina de uvas à adega, o carreiro pega em forquilha e começa a despejá-las para tabuleiro que entra pela janela, escorregam para o esmagador, movido a braços, acumulam-se noutra tina onde um homem enche o poceiro de madeira, carrega-o sobre o ombro, protegido por saco de serapilheira, trepa por escada de madeira, e deita as uvas e os engaços num tabuleiro atrás do qual um garoto, escarranchado no tonel, a cabeça a roçar o tecto da adega, se afadiga, empurrando com as mãos polpa pegasoja e engaços para o funil encaixado no batoque.

Não tem mãos a medir o garoto.

Eu. Sessenta anos atrás. 

Contratado para meter uvas a, se bem me lembro, quinze tostões a tina – uma fortuna, para quem recebia aos domingos cinco tostões.

Tina após tinha, que o ano tinha sido produtivo, esforçava-me para não ficar mal visto, os dedos esfolados nas arestas de metal do funil, saturado daquele trabalho monótono e cansativo para garoto “relezico”,  o pensamento na jorna que receberia – e, no final da manhã já tinha metido seis tinas de uvas!

A caminho de casa, na breve pausa para almoço, a que então chamávamos jantar, encontrei um primo, uns anos mais velho. Orgulhoso, gabei-me do que já tinha ganho: nove escudos! E de tarde ganharia certamente outro tanto ou até mais!

A inveja, coisa feia, atacou esse meu primo: Ganhaste o quê?, para isso era preciso que ele te pagasse!

A dúvida instalou-se na minha cabeça, agravou-se com a chegada de um jovem tio meu, que ajudou à festa: o dono das uvas era caloteiro, tinha fama de não pagar a ninguém… Fazem essas promessas aos garotos, mas depois nunca as cumprem!

Amargurado, quase a chorar, decepcionado, segui para casa, sem vontade de cumprir o resto do contrato. 

Pouco depois, encontrei o meu pai. E eu, já em lágrimas, contei-lhe o meu drama: não ia trabalhar mais porque depois o homem não me pagava.

O meu pai não me ralhou. Argumentou, quase como se me pedisse que cumprisse a minha parte do aprazado. O dia de pagamento era ao sábado, que voltasse para o trabalho, o homem era sério, havia de cumprir a sua parte, tal como eu, já um homenzinho, tinha de cumprir a minha. 

Lá voltei, duvidoso, para as uvas, tentando ignorar as caretas de troça que uma vez por outra o meu primo me fazia à porta, a escarnecer deste pobre escravo enganado, a trabalhar em vez de brincar, para no final nada receber.

Doze tinas de uvas metidas até ao final do dia. E no sábado seguinte, o dono das uvas foi a minha casa pagar-me a jorna, como combinado. Dezoito escudos que deram entrada no meu “migalheiro”, como chamávamos ao mealheiro, talvez por habitualmente só lá entrarem migalhas na forma de um ou dois tostões de cada vez.

Foi assim que aprendi o valor da palavra dada. Por ele e por mim.


terça-feira, 17 de agosto de 2021

Catarata

Uma cirurgia a catarata no olho direito, feita no sábado passado, força-me à inactividade pelo menos até à próxima sexta-feira, dia da consulta. Ainda sem óculos adequados, o desequilíbrio provocado pelo desencontro entre a visão de cada um dos olhos é deveras perturbador.

Tudo aquilo que se costuma sugerir a quem se queixa de nada ter para fazer – ler, ver filmes, passear, ir à praia – ou o que eu costumava fazer, como trabalhar na horta e no campo, andar de mota, bricologe, cozinhar, limpar a casa, exercitar-me fisicamente, me está vedado, devendo evitar a luz do Sol, o vento, o pó, e não baixar a cabeça, levantar pesos ou fazer esforços.

Uma semana de tédio profundo, portanto. E depois, logo se verá, conforme o que o médico disser.

Resta-me o descanso. Que eu só aprecio quando cansado.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Na loja da aldeia

 – Vai-me à loja comprar fósforos!

Uma corrida, e estava lá, pois ficava ao virar da esquina. Chão pavimentado em frente, ardósia negra, quente, na frontaria, loja enorme, aos meus olhos de criança, À esquerda, o posto de correios, o Diário de Notícias aparafusado a ripa de madeira sobre o balcão em L; a seguir, os panos e materiais de costura, ao fundo, por detrás do balcão com a balança, a faca do bacalhau, os papéis de embrulho, ficavam as tulhas do arroz, da massa, do açúcar, as prateleiras com produtos de drogaria, de loja de ferragens, de tudo um pouco. No ar, leve cheiro a sabão azul acabado de cortar, a cloreto. Atrás, porta que dava para a taberna, cujos fregueses entravam por estreito corredor acimentado, onde ficava a máquina de venda de petróleo.

A empregada, a Cesaltina, destoava da rudeza campestre pelos seus bons modos, simpatia, presença elegante. De fora da terra, não estava contaminada pelas guerras e más relações indígenas.

– Quando veio para cá, contava a minha avó, parecia uma bonequinha, vestida com o traje das valadeiras, que é parecido com o das pexinas (peixeiras da Nazaré).

Cresceu atrás do balcão, por todos estimada. Quando a minha irmã e a minha prima brincavam às lojas, discutiam por vezes: – Eu sou a Cesaltina…

– Não és nada, hoje sou eu, que tu foste ontem!

E a Cesaltina pergunta-me o que quero, interrompendo a conversa com freguesas que escolhiam panos. Aviado, estendo-lhe os vinte e cinco tostões e abalo a correr.

– Espera aí, toma o troco!

Era torcido. Convencido, sabichão, parvo a mais não poder ser.

– Não quero!

– Mas tens de levar o troco!

– Não quero! A minha mãe não mo mandou levar!

E já chegava a casa, bofes à boca como sempre, estendo as compras à minha mãe,

– E o troco?

– Troco? Mas não mo mandou trazer!

– Já buscá-lo!

Os modos da minha mãe cortaram rente a minha resmunguice.

Foi devagar, cabisbaixo, que voltei à loja e à Cesaltina:

– A minha mãe mandou-me buscar o troco…

Ela olhou para as outras mulheres enquanto retirava o dinheiro da gaveta:

– Agora não to havia de dar…, dizia, enquanto me contava as moedas para a mão.

domingo, 25 de abril de 2021

Jumento, asno, burro

 Aí por 1962 ou 1963, o meu tio Emílio construiu uma guitarra: uma lata de atum redonda, cordas, o resto em madeira. Uma obra de artista, como ele era com as mãos, e eu acompanhava embevecido a construção e os testes, quando ele, que não saberia muito mais de música do que eu, ou seja, nada, a afinava. Pensava eu que ele iria começar uma carreira de músico amador, aprendendo a tocar o instrumento e, talvez, formando conjunto musical, Jazz, dizíamos então, à semelhança do lendário jazz da terra, Os Gaiatos, que animou as festas meio século atrás.

Estava enganado. A bela guitarra, finamente trabalhada, tinha outro propósito, como descobri no dia de Entrudo, ao vê-lo mascarado, cabeça tapada como os Entrudos usavam para que os não reconhecessem, montar a burra, numa mão a arreata, na outra, em vez do bordão carnavalesco, a guitarra. E juntou-se a bando de rapazes, todos a cavalo em burros e burras, desfilando pela estrada principal, tangendo violentamente as cordas do instrumento supostamente musical.

Para nós, a garotada da terra, que corríamos eufóricos atrás da cavalaria fandanga, aquele era o melhor dos entrudos, e para aumentar a animação, tentávamos espantar os burros, enquanto os cavaleiros, agarrando-se às albardas para não tombarem, nos tentavam atingir com os varapaus, e nós gritávamos, e esbracejávamos, a evitar os ataques, a tentar fazê-los cair.

Nas bermas, o povo ria e tentava identificar os vultos encapuçados, a partir dos animais que montavam, mas alguns, prevendo-o, tinham trocado entre si de animais.

Já a festa cansava quando se aproximaram da Associação Recreativa, que funcionava então na adega do dr. Amílcar. Dentro, tinha sido organizado Carnaval reservado a sócios, com artista, talvez da rádio, a que chamávamos então telefonia. E o meu tio, reconheci-o pela burra e pela guitarra, guiou afoito a montada para a porta, tentando forçar a entrada.

Não vi a confusão interior, mas ouvi, pelo microfone, o artista a vociferar: Aquele é ainda mais jumento que o asno que monta!

Palavras novas, que nunca mais esqueci, para animal a que sempre chamei burro. Pouco depois, os entrudos dispersaram, talvez a vestirem-se para a festa da Associação, que não haveriam de querer perder. Ainda fiquei nas imediações, a ouvir as cantorias que escoavam pela porta, mas escurecia, e as ordens severas do meu pai eram terminantes: As galinhas no poleiro, e tu em casa! , pelo que corri a tentar chegar antes dele, livrando-me de umas cinturadas pelo atraso...

terça-feira, 30 de março de 2021

Sim, todos nos reuniremos junto ao rio

(No original, Yes, We’ll Gather at the River , in Vozes de Marte (I sing the body electric), Ray Bradbury, Argonauta)

Ou quase todos.

Pelos caminhos ficaram aqueles a quem o destino interrompeu a caminhada. A esses, resta-nos o fraco consolo de os lamentar, talvez chorar, recordá-los com nostalgia quando um qualquer acontecimento os trouxer de novo à nossa memória.

E os outros, também cada vez mais numerosos, que, obcecados com um qualquer fundamentalismo, se deixaram paulatinamente cegar pelo ódio ao outro – a quem chamam esquerdófilo, ou direitolas, ou comunista, ou fascista, racista, preto, cigano, assassino de animais, covideiro, negacionista…

Estes ódios, que sempre existiram, não nos impediam num passado ainda muito recente, de conviver civilizadamente, deixando a cada um a escolha das companhias com quem jantava, das que levava para casa. Mas, fora do seu círculo íntimo, não insultava desconhecidos, não cortava relações com familiares e vizinhos apenas por terem diferente visão do mundo ou da sociedade.

Vivia-se e deixava-se viver. Discutia-se, acaloradamente que fosse, discordava-se, contestava-se. A ideia, não a pessoa.

Agora é diferente. Tenho para mim que a maior parte dos desaforos provém de solitários desocupados, que por isso mesmo não precisam da hipocrisia que mantém vivas as relações sociais, e, não sabendo o que hão-de fazer à puta da vida, na puta da vida, levantam-se azedos e azedas, após noite mal dormida a remoer, e logo correm para os computadores a insultar quem pensa diferente, a procurar impor a sua lei e a sua justiça neste mundo, para eles canalha, cheio de gentalha ignóbil, ou, quando o vocabulário lhes escasseia tanto como as ideias, porcos: porcos fascistas, porcos comunistas, porcos machistas, porcos xenófobos… Tudo uma porcaria, obviamente, porque é só o que pode sair das suas mentes.

É nas redes sociais, acobertado no quase anonimato e sobretudo na distância física que afasta a cara da chapada justiceira, que encontramos o discurso do ódio na sua forma mais pura, o seu léxico e os seus agentes, de todas as cores políticas e de pele. Lendo nas entrelinhas, por detrás do ódio que por jorra como enxurro, são espaços fascinantes, imprescindíveis para o conhecimento do modo de vida, da mentalidade, quiçá da solidão, da amargura que é a vida quotidiana de uma geração – a que também eu pertenço.

A pandemia exacerbou os ânimos. Quando tiver passado, todos nos reuniremos junto ao rio – menos os indesejáveis, pelo que seremos a mão-cheia de sempre: aqueles que se não melindraram com alguma chamada de atenção desajeitada, que se não ofenderam com discordâncias talvez mal expressas, que não cortaram relações connosco por termos visão diferente da sociedade, que não nos repudiaram por não alinharmos entusiásticos em indignações justiceiras primárias e indignas de pessoas bem formadas, nem em denúncias e perseguições pidescas.

Junto ao rio? Proponho na minha adega, nos Montes, terra que foi de muito vinho e poucas fontes, e não tem rio nenhum. Entre boa comida, o vinho da casa, a boa companhia, com a suprema alegria de estarmos vivos e entre amigos.

Sim, todos nos reuniremos junto ao rio.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Um garoto do meu tempo

 Um garoto do meu tempo. Eu mesmo, penetra na minha ficção.

“Porém, o Chico não é o mata-mouros que o pai pinta: a caminho dos onze anos, ainda tem de guerrear quando o enxovalham publicamente, por terem visto a assoalhar lençol e cobertores: — Mijão! Ainda mijas na cama! 

Bem o tenta evitar, mas invariavelmente, sempre rente à madrugada, sonha que está aflitíssimo e então no seu sonho vê parede discreta onde pode escrever a urina o seu nome, começando com um enorme F maiúsculo em caprichado cursivo inglês, ou encontra poço empedrado, largo e fundo, que amplifica e dá corpo ao som do jacto que tomba em curva tensa, ou avista canastra de chicharro que a peixeira pousou durante a venda — e alivia-se com o prazer duplo da partida que prega e do despejo da bexiga, acordando encharcado pela urina quente e, não raro, pelas palmadas da mãe, que inutilmente madruga para evitar a desgraça, mas só chega a tempo de aplicar o correctivo à incontinência matinal...

Tem medo do escuro e frequentemente as histórias de terror que ouviu durante o dia apavoram-no durante a noite; então, inventa desculpas para aparecer a desoras no quarto dos pais, queixando-se, talvez, de dor de barriga. O pai ralhará, não apenas pelo sono estragado, mas porque é bem feito, já lhe disse que o não quer a roubar fruta, quanto mais vir ainda queixar-se dos desarranjos que ela lhe causa...

Ah, mas durante o dia, a sua ousadia não conhece limites: é capaz de trepar ao alto do mais alto dos pinheiros, balançando perigosamente, só para tirar ninho de rola; desce afoito por uma corda ao fundo de um poço fundo, sem receio das sanguessugas que o aguardam, para capturar enguia que lá tenha engordado durante anos; obriga a pobre da burra a cavalgar como uma égua se passa montado pelo Jogo ou se há raparigas a vê-lo; implora a carreiros com quem tem alguma confiança, como o Tio José Emílio, para que o deixem conduzir a junta de bois; salta eufórico do terraço do alambique do José Salgueiro, a uns bons quatro metros de altura, para cima do folhelho da queima, às vezes agarrado a um guarda-chuva ou improvisando uma asa com um saco de serapilheira esticado entre os braços... O Tio Zé Catrino, que foi primeiro sargento no exército, diz-lhe frequentemente, vendo a sua atracção pelas alturas e o gosto com que salta, invejando as aves: — Quando fores à tropa, hás-de ser aviador! Embevecido, o moço escuta interessadamente histórias da sua vida militar, como a do piloto que se despenhou espalhando o seu corpo por uma zona tão grande que para lhe fazerem o funeral foi preciso procurar os pedaços por todo um pinhal.”

Entre Cós e Alpedriz, www.amazon.es