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domingo, 11 de outubro de 2009

Das eleições

Tal como nas últimas eleições, adormeci indignamente em frente à televisão logo após a apresentação dos primeiros resultados. Que falta de respeito pelos senhores comentadores, pelas brilhantes análises, pelas declarações dos responsáveis políticos de todos os partidos escutados, todos eles vencedores - talvez algum tenha confessado que não ganhou tudo o que pretendia, até que perdeu, mas eu já dormia profundamente...
Não me surpreenderia se na próxima comunicação ao país o senhor presidente puxasse as orelhas àqueles que, como eu, trocam as responsabilidades da cidadania por uma boa soneca, e mais: serei o primeiro a dar-lhe razão, toda a razão. Não é coisa que se faça, tão grave como seria urinar sobre as fotos dos outdoors da campanha - por isso os colocam tão altos! Mas a culpa não é minha, nem poderia ser, sabido que entre nós a culpa é sempre dos outros: deve-se a um qualquer efeito hipnótico que a cintilação do ecrã tem no meu inconsciente; basta-me fitar com alguma concentração a televisão, não importa o canal, e zás - é, como se usa dizer, tiro e queda. No sono profundo.

sábado, 10 de outubro de 2009

Vila de Rei



Visita ao centro geodésico de Portugal, a pretexto do festival do achigã (clicar nas fotos para ampliar).
Almoço na Albergaria D. Dinis. Serviço impecável, comida excelente, preços muito razoáveis.
Entradas (orelha, azeitonas, pimentos), sopa de peixe, achigã grelhado com molho verde e batata assada, achigã frito com açorda de ovas, burras de porco preto, branco da casa, arroz doce, salada de frutas, aguardente velha, cafés...

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dia do professor

(A propósito do Dia do Professor, lembrado e instigado pelo Reinaldo)

"Capítulo 7. A PROFESSORA

--- E eu, o senhor rei, as minhas barbas arrancarei!
Os alunos, desde os pequeninos da primeira classe, sentados na fila da frente, aos matulões da quarta, ao fundo, todos aguardavam sofregamente a continuação da história, bocas abertas, olhos esbugalhados:

--- E, dizendo isto, deitou a mão às barbas e arrancou-as!

Eram seus. Tinha-os rendidos à narrativa, presos pelo seu talento de contadora de histórias, tão atentos que se ouviam as moscas, escutava-se até o som da respiração dos mais próximos. Pena o ensino não ser apenas um rosário interminável de histórias, pena não fazerem parte do exame da quarta classe --- talvez assim a concluíssem mais cedo.

Chegara uma década atrás, os dezoito anos feitos quatro meses antes, inexperiente e receosa, mas certa da importância social da profissão que ia exercer e confiante em que o seu próprio exemplo daria esperança aos alunos: pobre e órfã, fora criada e tivera os estudos pagos por uma tia, já viúva, que sobrevivia alugando quartos a estudantes, inventando milagres orçamentais para que o dinheiro esticasse até ao final do mês. O Magistério Primário fora opção natural, após o curso de Formação Feminina --- o liceu era para moças de outra condição.

Idealismo da juventude e sentido de missão, reforçado ao longo do curso, necessidade moral de ajudar necessitados retribuindo o bem que a tia lhe fizera, davam-lhe, pensava, o alento e a autoridade para lutar contra a tacanhez e a miséria, não raro justificadas com a tradição e exteriorizadas em porcaria, maus tratos e subnutrição. Horrorizou-a a indigência daquela gente, inimaginável até para si própria, que sempre se julgara pobre: viviam como animais, não raro com os animais, numa promiscuidade e numa porcaria quase inconcebíveis, a miséria agravada pela ignorância.

Os aldeãos riam-se das suas ideias ingénuas, depreciavam-nas por provirem de jovem e de mulher, desconfiavam do desinteresse das mudanças que defendia, recusavam-se a alterar o que quer que fosse no seu modo de vida ancestral, talvez apenas para a contrariar, para que fracassasse e se circunscrevesse à sua função: ensinar à força de pancada aquilo que as crianças recusavam aprender, para que terminassem depressa a quarta classe e libertos da escola pudessem começar a trabalhar a sério, contribuindo para o orçamento de fome da família: “o trabalho de criança vale pouco, mas quem o não aproveita é louco”; porém, os alunos aprendiam pouco e devagar, não tanto por falta de tareia, como se criticava na terra, mas por desinteresse e, num caso ou noutro, burrice crónica, a que não eram alheias as sopas de cavalo cansado que os mantinham de pé; na escola, encarcerados durante horas, os rapazes, aguardavam impacientemente a hora de saída para apascentarem o gado pela liberdade das encostas da serra; as raparigas olhavam para a professora, fixamente, como se bebessem as suas palavras, enquanto sonhavam servir na vila, namorando ao fim-de-semana no jardim público magala que, casando, as libertasse da servidão, abrindo-lhes outros horizontes, se não se contentasse apenas em abrir-lhes as pernas...

Moços e moças arrastavam-se assim pelos bancos da escola com o prazer do cão que, à falta de melhor, se vê obrigado a roer o ferro que o sujeita, os mais velhos já barbados, elas de peito farto e trancas largas como vigas-mestras, não raro maiores e mais fortes do que a própria professora --- alguns tão crescidos que, receosa da má-língua, evitava inspeccionar-lhes as cabeças à cata de lêndeas e de piolhos.

Em cada Outubro nova fornada, nova esperança. Embevecia-se com os olhos sonhadores, apaixonados, que a fitavam ingenuamente, mas o dever obrigava-a a tentar ensinar aquelas cabecitas tontas, que depressa se desinteressavam, os olhares fugindo constantemente pelas janelas até às ladeiras da serra onde, já libertos da escola pela idade ou por terem passado no exame da quarta classe, jovens cabreiros apascentavam rebanhos, disciplinavam com pedrada certeira animais renitentes, deitavam abaixo rola que se julgava segura no alto de pinheiro --- enquanto na sala de aula os moços, enclausurados, se ainda sonhavam apaixonados com a professora, certamente a envolviam já em guerras e amores pelas serranias, defendendo-a galhardamente de lobos e de salteadores. As mães, descontentes por os filhos não chegarem a casa devidamente sovados, receosas de que os desprezasse ao ponto de os não espancar diariamente, de cada vez que a encontravam, recomendavam-lhe que não lhe doesse a mão sempre que precisasse de os educar.

Às vezes, raramente, tinha alunos interessados e diligentes, mas nenhum como a Berta, uma bonequinha de porcelana que destoava naquela aspereza serrana, a pele alva como a neve, o cabelo reluzente como mel, o trato afável e humilde, esmerada e briosa na elaboração dos deveres. Se acaso faltava, a mando da mãe, como então era uso na terra, a mestra ia procurá-la, ralhando por a não deixar ir à escola --- que lhe fazia falta em casa, retrucava a progenitora; precisava que a catraia a ajudasse, tomando conta dos irmãos mais novos e fazendo o comer, para ela própria poder ganhar a jorna quando havia trabalho. A professora ameaçava-a com a Guarda e a mãe cedia --- até nova necessidade.

Se dependesse apenas de si própria, a Berta jamais faltaria. Gostava muito da escola, dos livros que a professora, vendo o seu amor à leitura, lhe emprestava; adorava o cheiro da tinta permanente com que copiava pacientemente textos para o caderno de duas linhas, dispondo harmoniosamente as letras com a ternura com que as outras meninas acarinhavam borregos recém-nascidos; não apreciava tabuada nem contas, incomodada pelo ruído áspero do ponteiro ao deslizar pela pedra, e errava-as frequentemente, trocando a aritmética por sonhos com castelos e príncipes das histórias da Condessa de Ségur. Sentava-se ao fundo da sala, onde os colegas dificilmente a podiam perturbar, picando-a no rabo, na perna, nas costas, com os aparos das canetas de pau ou com o bico aguçado dos lápis; mesmo aí, não estava a salvo, que inventavam pretextos para saírem do lugar e, se possível, arreliarem alguém no breve percurso:

--- Minha senhora, pediam a toda a hora, posso ir afiar o lápis?, eles e elas que a natureza não dotara de paciência para estar sentados, quietos e calados durante tantas e tão longas horas enquanto de fora chegava o assobiar melodioso dos melros, baliam ao longe os cordeiros do ano, sussurrava o vento nos pinheirais das encostas, o murmúrio dos regatitos das encostas chamava-os insidiosamente como alcantis e penhascos atraíam irresistivelmente os rebanhos de cabras...

--- Se eu pudesse fazer qualquer coisa!, angustiava-se a cada perda de criança promissora, já fadada para o destino serrano. Chegara a falar com a mãe da Berta --- com o pai não havia conversas, e chegara-lhe aos ouvidos que espancara brutalmente a mulher quando, a medo, lhe transmitira sugestões da professora para um futuro diferente para a filha, entre acusações e insultos bem gritados à “conselheira”, a dar palpites sobre a sua filha, em vez de tratar da própria vida, arranjando homem que a montasse e disciplinasse. "

Inédito meu. Ler todo o capítulo

Outra República

(Confesso que prefiro esta República)

"De facto, o sacerdote queria impressionar com os seus dotes oratórios o povo ímpio e, sobretudo, as jovens que tinham vindo assistir ao casamento e, especialmente, aquela cujo palmo de cara reluzia entre a multidão, corpo tentador como o Demónio — a bela Teodora, que os rapazes, invejosos, já comparavam à República e aos seus políticos, uns sempre a entrar, outros a sair, e, tal como eles, trocando favores por libras inglesas. Constara-lhe que fora amante do seu antecessor, o nunca esquecido mas jamais saudoso Padre Vergílio e, vendo o resplendor quase divino da sua beleza, também o jovem padre, Amílcar de seu nome, ansiava já pelo pecado, sabendo bem que há sempre perdão para pecador arrependido." (...)

"Cismava que talvez a Teodora sentisse necessidade de romper com a monotonia da monogamia, ela que fora a mulher mais requestada da freguesia e arredores e imaginava-a nua, uma mulher ainda vigorosa, mais cheia do que nos seus tempos de glória, quando fora amante do próprio padre Vergílio — e de boa parte dos homens ricos e poderosos das redondezas. É certo que com o casamento parecera tomar juízo e a pouco e pouco as más-línguas deixaram de se ocupar dela, embora nunca se visse livre da alcunha conseguida na juventude, quando comparavam as suas liberalidades generosamente retribuídas às da República.
Como alma de outro mundo assombrando mortal, a sua imagem perseguia o Jaime, distraindo-o na lida do campo, nas conversas nas adegas, na cama, privando-o do sono de que carecia o seu corpo cansado. Fechava os olhos tentando dormir, mas apenas via as rijas pernas, bem feitas, o peito redondo e cheio, ainda arrogantemente alevantado, os dentes muito brancos e sãos espreitando da boca vermelha, tentadoramente aberta, a longa trança, negra e luzidia apesar dos anos — e imaginava as mamas, grandes e brancas, atraindo as suas mãos calejadas pelo trabalho, as ancas volumosas como égua garbosa carecendo de cavaleiro que a cavalgasse à desfilada, as bochechas redondas do cu que a sua barba picaria, as pernas prendendo-o como tenazes, e sempre, sempre, a coisa preta e farfalhuda, atraindo-o como o mel à mosca.
Não era apenas o Jaime que se sentia fascinado pela Teodora; se, depois de casada, mantinha à distância os pretendentes, dando tampa após tampa, humilhação após humilhação, nem por isso cessavam os olhares gulosos, espreitando-a descaradamente ou à socapa, no rio, quando tinha de aliviar roupa, na vindima, quando ao carregar poceiros à cabeça a saia subia descobrindo um pedaço da coxa farta ou quando, na eira, se esticava para chegar ao estendal... Eram sobretudo rapazes de imaginação fervente, excitados como cães que farejam fêmea no cio, que a espiavam escondidos pelas vinhas que rodeavam a casa da Teodora, onde ao longo dos anos incontáveis punhetas se bateram em sua honra."


Entre Cós e Alpedriz

A República

(Para o Reinaldo, que se queixou de que não tinha postado nada a propósito da efeméride.)

Quando, no Verão de 1910, foi preso pela tropa, em Alcobaça, acusado de dar vivas à República, a irmã correu até aos Montes: — Padrinho, empreste-me a sua égua! Não lha recusou e a mulher saiu num tropel louco, alvoroçando aldeia atrás de aldeia — Montes, Cós, Pomarinho, Maiorga, Fervença — sempre bradando Viva a República! e só se deteve em Alcobaça, estacando a égua em frente ao quartel, hoje Mosteiro:
— Morram os talassas! Viva a República!
Os militares acorreram à porta de armas, incrédulos com a provocação inopinada; depois, apercebendo-se de que era apenas uma mulher a desafiá-los, olharam divertidos para o sargento de dia, aguardando ordens.
Também ele sorriu: — Ah, mulher danada! Com gente desta como inimigos estamos feitos!
Os magalas respondiam com sorrisos aos vivas e aos morras da irmã do Ceslau, que a ouviu no cárcere e saudou a mana fazendo sair o punho através das grades, dando, também ele, vivas à República. Afinal, soldados e sargento apenas cumpriam ordens, bem no fundo talvez eles próprios também ansiassem por ovacionar a República; não havendo por ali oficial que lhes dissesse o que fazer, foram sorrindo aos gritos da moça e talvez um ou outro tenha também erguido o punho fechado, levado pelas suas simpatias ocultas ou apenas contagiado pela euforia do momento.

A algazarra atraiu uma pequena multidão, sem que desta feita a tropa a procurasse dispersar. Uns, divertidos com a ousadia da rapariga, outros solidários na causa, outros apenas curiosos, seguiram-na depois em magote, fazendo soar as vozes do arroído pelas ruas da vila, atraindo a curiosidade às janelas, toda a gente admirada com esta manifestação: à cabeça, a vigorosa moça montada a cavalo em cima da égua garbosa do padrinho, sempre aclamando a República e dando morras à monarquia, o povo seguindo-a como a líder que anuncia a revolução, até que, mais para a tarde, acabaram por dispersar, reportando depois a história de geração em geração, acrescentando um ponto aqui, outro ali.

Entre Cós e Alpedriz

domingo, 4 de outubro de 2009

Destilações

Faço o vinho, destilo bagaço primeiro, aguardente vínica depois. Outro fim-de-semana em que, não foram os cartazes, outdoors, acho eu, e nem me lembraria das eleições. Há muito que os meus votos estão destinados, o mesmo se passará com a generalidade dos eleitores, para quê a euforia da campanha enquanto o país empobrece?

(...)

Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)

Não, nem orgulho ferido nem sonhos perdidos
agora já só o meu olhar camponês me magoa
como o mato à minha terra...
Chove no Verão, o Inverno aquece
E o nevoeiro não tece mistérios bastantes
outros que a miséria deste Portugal que esmorece

Só sei que de lado nenhum sairá a luz que rompe as trevas
porque já nem a noite é de breu
nem os dias resplandecem
e os amanhãs não cantam,
silenciosos como a nossa triste terra.
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Da baixeza

Ouço, primeiro no canal 1, depois no 2, o director do jornal "I" dizer e redizer que vulnerabilidade e vulnerável são termos bélicos, logo o presidente, ao mencionar a vulnerabilidades dos sistemas informáticos da presidência, terá pretendido começar uma guerra. Não sei se é por ignorância que o senhor director afirma, como afirmou, que uma pessoa não diz "sinto-me vulnerável" (cito de memória), ou se pensa que nós somos tão ignorantes que nem um dicionário sabemos consultar. O que sei é que me enoja ouvir comentários desta natureza.

sábado, 26 de setembro de 2009

Dia de reflexão



Uma ova. "Pensar incomoda como andar à chuva". Foi dia de vindima. Sem metafísica. Com esforço e muita transpiração, porque o calor apertava e o rancho do costume estava muito desfalcado. É a vida.
Colheita fraca, mas promissora. Fotos aqui. E uns versos de Cesário, que o Tempo não desactualizou:

"Oh! Que grande alegria eu tenho quando
Sou tal e qual como os mais! E, sem talento,,
Faço um trabalho técnico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!"

"Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

A nós tudo nos rouba e dizima:
(...)
E o pulgão, a lagarta, os caracóis,
E há inda, além do mais com que se ateima,
As intempéries, o granizo, a queima,
E a concorrência com os espanhóis."

Cesário Verde, "Nós"

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Da vulgaridade

Na literatura, choca-me a vulgaridade, a ordinarice, o palavrão escusado. Entenda-se: não são as situações vulgares, ordinárias, as palavras obscenas que me chocam; é o facto de o escritor não ter feito o seu trabalho escolhendo o ângulo adequado, a perspectiva certa, o termo que a situação exige, seja ele ou não do calão. O que me choca é o recurso à vulgaridade para, simplesmente, disfarçar o não saber escrever, a falta de talento. Por exemplo, Justine ou os infortúnios da virtude, do Marquês de Sade, é um livro muito bom e muito bem escrito apesar da baixeza das situações e das personagens; Aquele Verão em Paris, de Abba Dawesar, com personagens requintadas e ambiente selecto, prima pela vulgaridade. E, antes que alguém mo recorde, qualquer um dos meus romances tem palavrões e situações vulgares. Indispensáveis e insubstituíveis, espero.
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Fotos do casamento da Sofia


Aqui. Acesso público.

domingo, 20 de setembro de 2009

O casamento da Sofia

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Casamento da Sofia

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sábado, 19 de setembro de 2009

Casamento da Sofia



Casa hoje à tarde a Sofia, a minha menina mais nova. Ao contrário dos pais, que como muitos outros casais da nossa geração, o fizeram em cerimónia simples - espartana, no nosso caso -, organizou, com o noivo, o Nuno, cerimónia solene. Espero, troca-tintas como sou, sem experiência em casamentos formais nem gosto por rituais, não borrar a escrita.

FOTO: os noivos no casamento do primo Jorge, há dois meses

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Álcool provável

A colheita deste ano promete: álcool provável acima dos catorze. E é possível que ainda aumente até à vindima, agendada para 26 deste mês.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Luso-Poemas encerra


Primeiro foi Escrita Criativa, agora Luso-Poemas. Ignoro o motivo, mas não me surpreenderia que se devesse às constantes questiúnculas internas, conjugadas com a incapacidade de avaliar criticamente os materiais publicados. Explico-me: não faltam por aí poetas e poetisas inspirados, convencidos de que basta derramar sentimentos como derramam lágrimas para que surja poesia. E tão convencidos estão do valor actual das suas composições que qualquer crítica, por muito modalizada que seja, é recebida não com agradecimentos, mas com insultos. Na melhor das hipóteses responderão que é assim que gostam de escrever e ponto final (ou, como escreve Mia Couto, "pronto. Final").
Esta reacção arrogante à crítica foi especialmente evidente no Escrita Criativa, projecto que, no entanto, poderia ter contribuído positivamente para a divulgação de novos autores, se a parte ruidosa dos utilizadores do site tivesse conseguido perceber e aceitar que para escrever é preciso, (i) antes de mais, saber escrever, (ii) ler os outros, muito e constantemente, (iii) trabalhar incessantemente, sobrepondo à inspiração as virtudes terapêuticas da transpiração. Ambos os projectos foram também seriamente prejudicados por engraçadinhos que, sempre escondidos atrás de inúmeros nicknames, avacalharam os sites e provocaram a saída de autores sérios e empenhados no trabalho. Destes últimos, ficam as saudades da leitura quase diária dos seus textos, alguns deles muito promissores, e a certeza de que encontrarão outras formas de os continuar a divulgar.
Por fim, uma palavra de solidariedade para com os responsáveis por ambos os projectos, esperando que as desilusões e os prejuizos económicos sofridos os não levem a abandonar o sonho de criar um dia um portal aberto e democrático da literatura 'não oficial'. A ambos, o meu reconhecimento sincero.

Correcção: no dia seguinte Luso-Poemas voltou a funcionar, sem quaisquer explicações por parte do administrador. Aparentemente, o mau ambiente persiste, pelo que entendo não haver motivos para apagar ou para corrigir o presente texto. Também a EditonWeb, projecto em que depositei grandes esperanças parece ter fechado portas após muitos meses de coma profundo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Trabalho infantil

O meu ajudante mais novo: o Miguel.
Pé descalço como o avô.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O agoireiro


"O director-geral da Saúde (DGS) congratulou-se, esta segunda-feira, por Portugal não ter registado qualquer morte associada à gripe A, mas alertou que esta situação não vai manter-se, prevendo que a crise causada pela epidemia dure até dois anos. Contudo, o especialista em saúde pública alertou: «Não vamos continuar com uma letalidade de zero.»" (Extraído do Sapo)
Todos sabemos que vamos morrer um dia, não precisamos que o director-geral de Saúde (DGS, que sigla estranha!) o venha recordar. Afinal, é pago para nos manter vivos e de saúde, ou para agoirar a nossa morte?

Ternura e cultura


Sexta à noite, após o jantar, sentei-me sozinho no meu quintal a saborear o fresco. O Afonso, tendo dado pela minha falta, chegou e sentou-se a meu lado.
-- Avô, queres um JB? (Sim, já lhe ensinei essas duas letras).
-- Já não há, o avô já o bebeu todo.
-- Há no armário, respondeu, sempre convencido e confiante, e entrou em casa. Regressou desolado:
-- Já não há...

domingo, 13 de setembro de 2009

Vida de cão

Era um rafeiro chato: sempre que passeava pela rua, cheirava cuidadosamente cada parede, cada poste, cada automóvel estacionado, procurando marcas de outro cão que primeiro por lá tivesse passado; quando as detectava, prontamente urinava em cima, às vezes só pingos simbólicos, tendo já esgotado no percurso a reserva hídrica que acumulava penosamente ao longo de todo o dia – mas contava a intenção: a última palavra havia por força de ser a sua, mesmo que nada significasse.
Os outros, fechados nos quintais onde descansavam do passeio diário, talvez dormitando enquanto sonhavam deliciados com a cadela do fundo da rua, que, mais dia, menos dia, há-de entrar em cio, soerguiam uma orelha e, se mais vividos, soltavam rosnadela quase imperceptível: -- Lá anda aquele filho de uma cadela!; se jovens e impetuosos, corriam devastando relvados e flores, atiravam-se furiosos ao portão, impotentes para impedir o sacana de sobrepor as marcas do seu egoísmo, como se paredes, postes e carros não fossem suficientes para todos – ou se em cada mijadela alheia visse a evidência da sua mediocridade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Incêndio

"É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já de balde na mão enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.

Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, porque o clarão do incêndio parece vir de lá, todos correm feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear do Abel, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, --- Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do Abel e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada.

--- Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, --- Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio --- afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.

Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear do Abel, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por solidão e por carraças."

Inédito meu