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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Vendeta eleitoral

Se querem compreender algo do que se passou ontem, nas eleições, e as reais motivações dos eleitores, esqueçam os comentadores e façam como eu: vão à cabeleireira.
Na conversa, enquanto o pouco cabelo que me resta tomba na toalha, manifesto espanto pela derrota de candidata que aprendi a respeitar nos anos em que trabalhámos juntos e tinha tudo, supunha eu, para ganhar folgadamente a Câmara. Prova provada que de política, como de futebol, não entendo nada.
A cabeleireira surpreende-se: — Mas aqui, no Entroncamento, ela nunca podia ganhar!
— Por ser mulher? — pergunto ingenuamente, cuidando que machismo provinciano tivesse prejudicado a minha ex-colega. Ou eventuais ódios antigos, algo contra o pai, a família...
— Não, porque aqui os ferroviários têm muito peso e ela tirou-lhes o passe e às famílias!
— Mas ela não fez nada disso!
— Ora, é deputada e foram os deputados que tiraram o passe aos ferroviários...

Não é, portanto, com sessões de esclarecimento, propaganda partidária, militância, que se motivam os eleitores. Basta o "diz-se que" para arruinar uma candidatura. E a sanha vingadora: Ah a minha filha ficou sem o passe, a minha mulher tem de comprar bilhete para viajar de comboio? Pois alguém vai pagar por isso. Cá se fazem, cá se pagam!

E não, também eu não votei na Isilda, antes convencido de que ela ganharia sem problemas dei o meu voto a candidato que se tem distinguido na oposição. Também não ganhou, mas a tal já estará habituado... Como eu, que não acerto uma!

domingo, 21 de julho de 2013

Kyrie eleison

Em criança, governava Salazar, pensava que era frase dos oposicionistas: Queria eleições!
Hoje, ao ver as trombas dos dirigentes partidários a quem Cavaco Silva as negou, repito a frase, já consciente do seu significado: Senhor, tende piedade!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ressaca pós-eleitoral

Para acalmar euforias -- sim, também eu fiquei muito contente com a saída de Pinto de Sousa --, quero só avivar memórias: antes deste primeiro-ministro, agora democraticamente afastado, houve outros: Santana Lopes (PSD), demitido por notória incompetência, Durão Barroso (PSD), que trocou a governação nacional pelo cargo europeu que ainda desempenha, António Guterres (PS), que se demitiu ao aperceber-se da inevitabilidade de medidas de austeridade. Ventos que semearam causaram as tempestades que hoje nos fustigam.
Calma, portanto. Deixem de nos massacrar o juízo com Passos Coelho, veremos o que faz, como se porta. Não há grandes razões para a esperança. E ele não é D. Sebastião.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Estranheza

Casam e descasam por dá cá aquela palha, trocam de casa quase tão depressa como eu de camisa, raízes só as dos dentes, e, no entanto, amarram-se vitaliciamente a um partido que os ilude, lhes mente, nos arruína -- e ser-lhe-ão fiéis e leais como jamais foram aos cônjuges... Não adianta apontar-lhes trafulhices, indecências, desonestidades, corrupção; de nada serve mostrar-lhes as consequências e as inconsequências da governação: só pode ser amor louco, enlouquecedor,  que os cega e nos conduz inevitavelmente para o abismo, porque se um cego conduz a outro cego ambos acabaremos por cair no barranco. 
Esperança para esta lusitânica, que tem a fama de não se saber governar? Apenas uma, nada patriótica: a troika; mas ténue, muito ténue, porque, é sabido, também não nos deixamos governar...
(Imagem: extraída d' O Livro da Primeira Classe)

domingo, 11 de outubro de 2009

Das eleições

Tal como nas últimas eleições, adormeci indignamente em frente à televisão logo após a apresentação dos primeiros resultados. Que falta de respeito pelos senhores comentadores, pelas brilhantes análises, pelas declarações dos responsáveis políticos de todos os partidos escutados, todos eles vencedores - talvez algum tenha confessado que não ganhou tudo o que pretendia, até que perdeu, mas eu já dormia profundamente...
Não me surpreenderia se na próxima comunicação ao país o senhor presidente puxasse as orelhas àqueles que, como eu, trocam as responsabilidades da cidadania por uma boa soneca, e mais: serei o primeiro a dar-lhe razão, toda a razão. Não é coisa que se faça, tão grave como seria urinar sobre as fotos dos outdoors da campanha - por isso os colocam tão altos! Mas a culpa não é minha, nem poderia ser, sabido que entre nós a culpa é sempre dos outros: deve-se a um qualquer efeito hipnótico que a cintilação do ecrã tem no meu inconsciente; basta-me fitar com alguma concentração a televisão, não importa o canal, e zás - é, como se usa dizer, tiro e queda. No sono profundo.