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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A Abafadora

 Neste dia que amanheceu chato, amodorrado, deu-me para vasculhar nos meus ficheiros e encontrei este conto, de 2018, que apareceu numa antologia organizada e publicada por colegas de escrita.

Dada a extensão do conto, vou publicá-lo aqui ao longo da semana, um excerto por dia.
Assim, aí vai o primeiro fragmento de "A Abafadora", avisando, desde já, como se fazia antigamente (e deveria ser escusado) que é obra de ficção, portanto qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
A Abafadora (1/6)
Senhor padre, pecados não me faltam! Se os contasse todos, não saíamos daqui hoje.
A voz por detrás da grade do confessionário, calma, grave, quase pastosa, insiste: têm tempo, nada de pressas quando é a Eternidade que está em causa, também as tardes são longas, ao ponto de o sacerdote as achar intermináveis, depois desta virá outra pecadora, e outra, e mais outra, cada qual mais velhota, até parece que as beatas solitárias inventam pecados e pecadilhos para terem quem as oiça, Perdoai-me, Padre que pequei por pensamentos, palavras e actos, vai-se a ver, os pecados que aterram a velhota serão insignificâncias, coisa de ter rezado distraída uma ave-maria do terço, ou o de ter faltado à missa no domingo passado alegando estar doente, como se ela e Aquele que está lá no alto não soubessem perfeitamente que era só preguiça, falta de vontade de sair de casa naquela manhã de invernia, boa para ficar ao borralho da braseira,
— Tenha cuidado com a braseira, morre muita gente de idade, e até mais nova, por causa dos gases que produzem!
— Sim eu sei, Sr. Padre, já tirei a mantilha da mesa dela para arejar melhor, e não cubro as brasas com papéis de prata, Mesmo assim, mas confesse lá então os seus pecados, e melindra a velhota gracejando que na idade dela as faltas cometidas não serão muitas nem graves, deixando-a duvidosa do valor desta confissão feita a padre modernaço, que parece não acreditar no pecado, não distinguir mortais de venais, talvez nem acredite em Deus nem no Diabo, pensa já, enquanto escolhe os que julga mais importantes, tem é de se ir confessar a Fátima, lá os padres terão outra consideração, dar-lhe-ão penitência mais severa para a absolvição ser merecida, ainda hoje vai pedir à filha que a leve lá tão cedo quanto puder.
Por isso, o padre, a bocejar discretamente, culpa da modorra da igreja silenciosa, espera também desta confessada rol de bagatelas, vá lá, se tiver sorte, um ou outro escândalo sexual, que ainda está em boa idade para neles se envolver.
Então, minha filha?
Por onde hei-de começar, Sr. Padre?
Quando foi a última vez que te confessaste?
Creio que foi antes do meu casamento, já lá vão vinte e três anos. E apressa-se a acrescentar, Não confessei então tudo, que o padre conhecia-me e tive medo que desse com a língua nos dentes. Sabes que estamos obrigados ao segredo da confissão. Sei, Sr. Padre, mas também sei que os padres são homens e alguns homens são linguarudos, mais ainda que as mulheres. E aquele padre saiu pouco depois, e deixando de ser padre já não estava obrigado ao segredo da confissão. Ora se eu lhe tivesse contado certas coisas.... Vamos lá então, apressa-a o confessor, já cansado dos rodeios e pruridos, Começa então pelos pecados graves, se os tinhas, que omitiste na confissão anterior. Ou pelos mais recentes, e confessas depois os outros, se forem relevantes.
Começo então pelo fim, Sr. Padre. Trabalho num lar e de vez em quando abafo velhotes. Sobretudo velhotas. Detém-se um pouco, a saborear a surpresa que pressente por detrás da grade, depois prossegue: Durante a noite, quando estou de turno, vou-me a um daqueles que dá mais trabalho, ou que me aborreceu, ou fez queixa de mim à patroa, e enquanto dorme, abafo-o com a almofada. Vai-se como um passarinho, não sei se já matou pardais ou pombos, aperta-se-lhes o pescoço e o bico, e apagam-se num instante. É um ar que lhes dá, melhor dizendo que lhes falta. Pois assim é com os velhotes. De manhã, dou com eles frios, grito que a dona Guilhermina se foi desta para melhor, a patroa telefona à família, ao médico para passar a certidão de óbito, a sociedade fica livre deste encargo, eu do trabalho, e vingo-me das queixas, cá se fazem, cá se pagam, a patroa não perde, que a vaga é logo ocupada, não faltam velhos em lista de espera, a família fica aliviada daquele peso e despesa, e a velhota deixa de andar por cá a sofrer, vai ao encontro do Criador, que a recompensará ou castigará, como Lhe aprouver...
O padre, agastado, demora a conseguir falar. O que ouviu, no segredo da confissão, é crime, é pecado, Lembra-te, filha, do mandamento da Lei de Deus: Não matarás! Os idosos ao teu cuidado merecem carinho e protecção, só Deus pode decidir da vida e da morte, mas porque fazes tais malvadezas, não receias ser descoberta e castigada pelos homens?

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A minha bicicleta

 – Afilhado, quando fizeres a quarta classe, dou-te uma bicicleta!

A promessa apanhou-me de surpresa, deixou-me sem fala, a rebentar de alegria interior. Uma bicicleta! Minha, não como a de outros garotos, surripiada às escondidas ao pai, ou a irmão mais velho, o que lhes valia depois umas boas tareias. Logo que pude, deixei-o na cavaqueira na adega com o meu pai, e corri a dar a grande notícia à minha mãe. 


-- Dá-te uma bicicleta? Tomaria ele ter uma! Isso são coisas que se dizem aos garotos.

– Dá, ele disse que dava, o meu pai ouviu.

– Então espera por ela.

Esperei. Fiz a quarta classe, o Ciclo preparatório, o Curso Comercial, etc., etc. Sempre sem bicicleta. Que essa há-de dar-ma o meu padrinho, assim prometeu num serão na nossa adega sessenta anos atrás.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Reciclagem


Reciclo tudo o que posso – plásticos, metal, vidro, óleo alimentar, pilhas, lâmpadas, eletrodomésticos avariados. Será bizantinice minha, mas alguma da reciclagem que faço causa-me apreensão. Em primeiro lugar, os papéis.
Talvez numa grande cidade não seja fácil identificar o lixo de cada morador, mas aqui é perfeitamente possível saber o que como, o que bebo, que medicamentos tomo (logo, as doenças que tenho) para além dos papéis que, embora rasgados, revelarão a alguém com paciência dados de consumidor e bancários.
Poderia recorrer a um destruidor de papel; mas o processo é demorado e nem todo o papel é adequado; não posso, por exemplo, destruir nele as caixas dos “gadgets”, da Décatlon, do IKEA…
Tudo isso permite, muito facilmente, a alguém mal intencionado, não apenas conhecer os meus hábitos de consumo, mas igualmente o que tenho em casa a merecer uma visita na minha ausência.
Mas, pior, dei comigo a pensar, são certos eletrodomésticos que, mesmo avariados, guardam demasiada informação minha e dos meus. Por exemplo, telemóveis e telefones fixos, pen drive, discos velhos de computadores…
Ora ontem, a pensar nisto, levei trastes para o Ponto Electrão próximo. Entre eles, um telefone avariado, um Kindle com muitos dos meus escritos, na sua maior parte inéditos, e um velho disco de computador. Já a pensar no pior, deixei-o cair no chão várias vezes, mas não tenho a certeza de o ter avariado. (Não o formatei por não ter onde).
Eu a pôr os objectos na gaveta do Ponto Electrão e um cavalheiro, creio que estrangeiro, a pedir-mos.
Recusei. Uma besta avarenta e mesquinha, terá ele pensado.
Paciência. Havia demasiada informação pessoal naqueles dispositivos, recuperável com um mínimo de conhecimento.
Entrei no carro e segui, convencido de que mal me afastasse ele iria retirar os meus monos do contentor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Fazer chichi

Tinha dez anos, frequentava o Ciclo Preparatório. Era meu professor de Trabalhos Manuais mestre Cristóvão, um homenzarrão, velho dos seus trinta anos.

Ora numa das suas aulas deu-me uma terrível vontade de urinar e contorcia-me na carteira sem ousar pedir ao mestre para ir às sanitárias, indeciso entre o falar grosseiro próprio das minhas origens camponesas e a linguagem efeminada da vila. Mas a necessidade, imperiosa, género ou vou já ou faço aqui, obrigou-me a vencer a vergonha:

– Senhor mestre, posso ir lá fora?, atrevi-me timidamente.

O homenzarrão encarou-me: – E o que vais tu fazer lá fora?

– Chichi, balbuciei, olhos baixos.


– Queres ir fazer o quê?

A turma ria a bandeiras despregadas. Da minha atrapalhação, e por eu falar como uma menina.

Já não aguentava mais.

– Mijar, sussurrei, certamente corado como dióspiro maduro.

– O quê? Fala mais alto, que não te ouço!

– Quero ir mijar, senhor mestre!

– Vai lá então, mas não te demores.

Fui. E nunca mais fiz chichi na vida.

Foto: talvez dois anos mais tarde, a mesma turma.


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Saudades

Dos tempos que passei na Faculdade de letras de Lisboa, primeiro na licenciatura, quase duas décadas depois no mestrado em Linguística e, teimoso que sou, no doutoramento em Linguística Computacional -- que não terminei e terá sido das raras coisas de que desisti. 

Eis duas imagens do último trabalho que apresentei.




quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Jimbrinhas

Era demasiado pequeno, franzino, sem jeito para nada. E, então, não faltavam mimos, que o bullying e os traumas de infância ainda não haviam sido inventados:

Não prestas para nada! Mal empregado o que comes! Não podes com uma gata pelo rabo! Não sabes fazer nada! E, a resumir, a culminar a caracterização da minha inépcia, inevitavelmente vinha palavra que tudo resumia e nunca ouvi fora da aldeia: jimbrinhas!

Só na escola brilhava. Sabichão. Devorador dos poucos livros que me passavam ao alcance, de tudo o que era letra, fosse em edital, em jornal velho, em pacote de açúcar. Mas, fora das letras – um jimbrinhas chapado!

Chegaram os livros de ‘cóbois’. E cada garoto logo escolheu a sua personagem, mais forte no soco, mais rápida no sacar do revólver, mais fatal no tiro, mais justiceira na missão de punir os maus, índios e ladrões de gado, jogadores invariavelmente batoteiros, assaltantes de diligências:

– Eu sou o Kit Carson!

– O Arizona Kid!

– O Roy Roger!

– O Texas Kid!

– O Bill the Kid!

– Eu é que sou esse! E rebolavam já, engalfinhados, no pé da terra batida da estrada.

Sem querer entrar em brigas, lá declarei que era aquele que nenhum escolhera:

– Eu sou o Jim Bridger!

Gargalhada geral: Isso, tu és o Jim Brinhas!

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Ó nino!

 Ó nino!

Olho divertido para as duas velhas do outro lado da estrada. Querem saber pormenores do funeral, receiam descer em vão a ladeira até à igreja, nestes tempos de Covid até os enterros estão mudados.
E eu, enternecido pelo tratamento que me faz recuar mais de sessenta anos, aconselho-as: deixem-se, por enquanto, ficar à sombra, se possível sentadas, o calor aperta, não há missa, e daqui a pouco podem ir calmamente até ao cemitério, na direcção oposta e a escassas centenas de metros.
Afasto-me, no enlevo daquele chamamento aldeão: Ó nino!
Ah, um homem é só uma criança grande e os homens, mesmo muito velhos, morrem meninos, escrevi há uns bons vinte anos.

domingo, 26 de abril de 2020

Dos meus treinos diários de Tai Chi

Parte final do meu treino da manhã, lá para o meio-dia, que não sou de madrugadas, menos ainda em sábado feriado.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Um encontro em Samarcanda

Conta-se que um servo, aflito, procurou o senhor: Empresta-me o teu cavalo mais rápido para fugir para Samarcanda!
Porquê?, perguntou o senhor, atónito.
É que me cruzei com a Morte no mercado, e ela deitou-me um olhar esquisito que me apavorou.
O senhor emprestou o cavalo; mas ficou a remoer: não está certo a Morte levar-me tão bom servo. E foi procurá-la ao mercado.
Diz lá, ó Morte, porque é que há pouco olhaste para o meu servo de forma estranha?

Ah, fiquei surpreendida por o ver aqui, que tenho um encontro com ele, hoje, em Samarcanda!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Cartas de amor

“Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.”
(Álvaro de Campos)

Estava no turno da meia-noite às oito quando camarada recentemente admitido na fábrica veio ter comigo. Tinha a tropa feita, queria constituir família, contava, e eu ouvia-o, sem nunca desfitar a máquina nem me desconcentrar, que ali as distrações pagavam-se caro: queimaduras, dedos esmagados, mãos amputadas até. 
Contava ele que tinha posto anúncio em revista feminina, não me recordo qual, uma dessas coisas do género Cavalheiro empregado, de vinte e tantos anos, situação militar resolvida, procura moça honesta, entre os vinte e os trinta anos para relacionamento futuro.
Eu era então muito preconceituoso, desconhecia que até Agustina tinha arranjado marido por esse processo; e depois, pareciam-me arranjos de conveniência, seguramente sem o fogo da paixão, que não sabia ser luxo ao alcance de poucos felizardos — como eu.
Ouvia, no entanto, sem grandes objecções. Um revolucionário tem de se mover no seio do povo como peixe na água. 
Ora uma rapariga tinha-lhe respondido, prosseguia o meu camarada de trabalho, estendendo-me a carta.
Agora não posso ler, disse, a tentar safar-me das confidências. 
Estou na minha folga — cada um tinha uma de meia hora ao longo da noite, substituído pelo chefe de turno, pois as máquinas não podiam parar — lê, que eu faço o teu trabalho.

Vendo pelo remetente que respondia de Santa Margarida: Maria Machado? Estás a ser gozado! nos quartéis não há mulheres! É mas é algum soldado! Respondeu-te para se rirem de ti!
Mesmo assim, dizia, queria que lhe respondesses!
Eu? Mas a carta é para ti!
Sim, mas tu tens alguns estudos...
Só o Ciclo, atalhei, na pressa de esconder as habilitações e ali estava quase clandestino, forçado a abandonar a capital pelas minhas actividades clandestinas. E para criar comités anti-coloniais nas fábricas.
Tens estudos, lês, escreves de certeza bem melhor do que eu. Responde lá.
Tínhamos toalhas de papel para colocar sobre as bancadas de trabalho e não sujar as peças. Numa delas, redigi a resposta. Fria, irónica. Os magalas não se iam divertir à nossa custa!
Agora passa para papel de carta e vê se não dás erros!
E voltei ao trabalho,  julgando que o assunto estava encerrado.
Na semana seguinte, já no turno das quatro à meia-noite, ele voltou, risonho, com outra carta. Li-a alto.
A Maria Machado pedia desculpa. Tinha respondido ao anúncio no gozo, para se divertir com as colegas, julgando tratar-se de parolo. E em tom sincero, explicava-se: morava no Entroncamento,  e trabalhava num dos quartéis como funcionária administrativa. Terminava repetindo as desculpas e com desejos de que lhe respondesse porque, via-se, tratava-se de pessoa culta, séria, com quem valia a pena corresponder-se...
Vês, eu tinha a certeza de que tu eras capaz! E foi envaidecido que respondi, já a atirar-me, que é como quem diz, a atirá-lo à moça. Olha, este domingo vou estar com a minha namorada, que é de lá, pergunto-lhe se conhece uma Maria Machado, que trabalha em Santa Margarida.
Conhecia. Ah, o Machadão! Assim a tinham alcunhado na escola, desajeitada, mal-feitona, maria-rapaz.
Nada disso demoveu o meu camarada. E em breve consegui-lhe encontro.

O primeiro e o último. A Maria Machado, mesmo feia e sem jeito, ainda se não sentia tão desgraçada que tivesse de o aceitar!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Uma vila do interior

Ontem estive em Mora, outra vila envelhecida, despovoada. Ao almoço, excelente, na Tasca do Gigante, o proprietário, ao pé de mim um gigante, conta-nos isso mesmo: por aqui, ou se trabalha por conta própria, ou para a Câmara... De resto, não há nada! Nem empresas que dinamizem a economia local, nem empregos que fixem os jovens!
Mora merece visita: além da Tasca do Gigante, tem o Museu do Megalítico e o Fluviário. E, certamente, outros pontos de interesse, que não conheço. Mas isto não chega para fixar as gentes, para atrair a juventude.

Anos atrás, em Meda, outro jovem fez-me idêntico desabafo. Nada, fora do escasso turismo, dos serviços camarários. Podia multiplicar os exemplos, que gosto de percorrer o interior e ouvir as gentes. 
Fora das cidades, o país definha, agoniza moribundo.
Em 93, incomodado pelo abandono do interior, escrevi:
 Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)”

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Denunciantes (1j

Manhã de segunda-feira, a arrumar a mala para a escola.
Mãe, a minha bata?
Ainda está molhada, sempre a chover, não enxugou, não a levas.
A professora bate-me!
Bate-te lá agora! Quando entrares, vais-lhe logo dizer que eu não ta mandei porque ainda está ensopada, com este tempo não enxugou.
Bom, que remédio! Pelo caminho, encontro colega, mais velho.
E ele: Tenho de voltar a casa, esqueci-me da bata!
Sempre fui fala-barato. Do género que fala sem pensar: Ora, não precisas, quando a professora te perguntar por ela dás uma desculpa qualquer!
Mas ele voltou atrás. Afinal, estava a meia dúzia de passos de casa.
Entramos. José Cipriano, a tua bata?
Minha senhora..., e repeti a desculpa encomendada pela minha mãe.
A professora, compreensiva, ia passar a outro menino quando o meu vizinho se levanta e fala acusador:
Minha senhora, eu voltei a casa para buscar a minha bata, e ele disse-me que não valia a pena, para dar uma desculpa qualquer à senhora professora quando me perguntasse por ela!
O olhar da jovem professora endureceu, o rosto crispou-se. Levantou-se, furiosa, já com a régua em riste: O quê? Vem já aqui!
A tremer, lavado em lágrimas, tentava inutilmente convencê-la de que tinha dito a verdade. A pesada régua bate impiedosa, dor lancinante, dor sofrida também por antecipação enquanto a próxima reguada não martiriza a minha mãozinha enfezada, que por entre gritos e contorções procura, em vão, fugir ao castigo!
Agora a outra mão, para se não ficar a rir desta!
Quem ria era o feliz denunciante, pelo meu sofrimento, pela sua colaboração no exercício da justiça sobre o sabichão preferido da professora.
Então como agora, a justiça era cega, e exercida com imparcialidade — sobre os pobres. Os meninos abastados, “ricos”, como o meu delator, nunca apanhavam, mesmo se  burros que nem portas! 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O Tai Chi Chuan e eu

Nos anos noventa treinei versões de Tai Chi Chuan, muito adaptadas, desfiguradas até, pelo mestre Kenji Tokitsu. Paradoxalmente, treinei muito, aprendi pouco, que o mestre, por razões de que suspeito, mas não adianto, fazia, não ensinava, e ralhava à bruta com quem ousava pedir-lhe esclarecimentos: Je suis pas un moniteur!, berrava, furioso. E não corrigia, excepto, talvez, os aduladores que o endeusavam.
Ora aprender apenas pela imitação dos gestos de alguém, de costas para nós, no meio dos outros praticantes, não é muito produtivo, sobretudo quando se trata de algo tão complexo como o Tai Chi. E a brutidade (não confundir com brutalidade) do mestre fez com que me afastasse.
Enveredei por outros caminhos, sempre com muito treino individual. Frequentei seminários do mestre Yang Jewying-Ming, grande especialista em Qi Qong (ou Chi Kung) e Tai Chi Chuan, estilo Yang. Apercebi-me da diferença abismal entre o Tai Chi executado por um chinês com meio século de prática intensa e um japonês com meia dúzia de anos, na melhor das hipóteses, e que o executa de forma demasiado pessoal.
Mas as conversas de curandeiro do mestre Yang, os exemplos e a pseudo-ciência com que fundamentava métodos e tratamentos de herbanários e curandeiros chineses, as suas histórias de mulheres engravidadas em OVNIS, que deliciavam os iógues que também participavam nos seus seminários, ditaram o meu afastamento.
Continuei a incluir nos meus treinos individuais o que de bom, no meu pobre conhecimento e fraco entendimento, tinha aprendido com ambos, como é visível no filme da kata do Goju-Ryu Sanchin, que aqui postei, datada do início deste século: a procura da descontração, a respiração abdominal a conduzir os movimentos, num fluxo ininterrupto como as ondas do mar...
Há uns dois anos, problemas de saúde a que já aqui aludi levaram-me a deixar de participar nos  treinos de karaté de instrutores e avançados, mas não a abandonar os meus treinos individuais, que executo diariamente após uma caminhada, às vezes bicicleta estática.
Incluem aquecimento e Qi Qong, algumas katas (de karaté, passe o pleonasmo) procurando a descontração e a fluidez, depois Tai Chi, estilo Chen, o da minha predilecção. Mas agora tenho a ajuda preciosa de excelentes videos didáticos do YouTube!

Pela clareza da execução e pelo pormenor das explicações, optei pela forma dos 18 movimentos,(na verdade, 18 sequências), destinada a principiantes estrangeiros e legendada em Inglês. E há um vídeo para cada sequência!

Não é fácil de acompanhar, mas a execução e o ensino por esta senhora do Tai Chi, estilo Chen (o mais antigo, de onde derivam os outros estilos), é primorosa. Admire-se, se para tal houver paciência, a elegância, a fluidez, a perfeição de movimentos!
https://www.youtube.com/watch?v=jhzhQ0cVkCQ

sábado, 21 de dezembro de 2019

No jornal Tornado

Tão massacrado tenho sido com as longas prelecções televisivas sobre o Orçamento de Estado — e o pior ainda está para vir! — que fui adaptar este meu texto, escrito quando Sócrates e Passos Coelho dançavam juntos o tango do Orçamento.
https://www.jornaltornado.pt/portugal-profundo/

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Una historia más de guerra

 Em 1975, durante toda uma noite, um soldado pronto, de alcunha o Portimão, infernizou o quartel de Torres Novas, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. E nós, resguardados nas esquinas, perguntávamos Porquê?”

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Livro What is space? What is time?

A recente passagem por Portugal do físico Carlo Rovelli, que participou nas conferências da Fundação Manuel dos Santos, e uma breve entrevista que deu à televisão, aguçaram-me a curiosidade sobre o seu trabalho na área do espaço e do tempo, e sobre a Gravidade Quântica em Loop, em que se enquadra teoricamente, pelo que imediatamente comprei, como ebook, o seu livro What is time? What is space?, (70 pp. na versão em papel), cuja sinopse promete
“[a] novel image of the world is taking shape in fundamental physics: a world without time and without space. “
Esperava eu encontrar uma nova perspectiva do espaço e do tempo, sustentada por sólidos, ou pelo menos por convincentes, argumentos teóricos e, melhor ainda, empíricos, derivados, por exemplo das mais recentes descobertas, como a confirmação da existência do bosão de Higgs, que permeia o espaço, ou das ondas gravitacionais que o agitam.
Em vez disso, o autor preenche a obra com a sua autobiografia, viagens, universidades importantes, cientistas famosos que por lá conheceu, generalizações filosofadas... 
Sobre os assuntos que dão o título à obra, o espaço e o tempo, muito, muito pouco. Afirma que o espaço não existe — mas refere-se-lhe constantemente, precisando embora que espaço são as conexões entre os grãos do campo gravitacional. Como, porquê? Pois ficamos sem saber, uma vez que é silogisticamente que chega a tais conclusões. Atente-se, por exemplo, nos conectores que assinalei a negrito no seguinte excerto:
If one now combines the basic ideas of general relativity and quantum mechanics, it follows immediately that since space is a field (the gravitational field) space must have a granular structure, as does the electromagnetic field. The quanta of the electromagnetic field are the photons. The quanta of the gravitational field must be “grains of space”, because the gravitational field is the physical space. The dynamics of these grains must be probabilistic. Hence space (i.e. the gravitational field) must be described as “clouds of probability of grains of space”.”

A mesma lógica é empregue para negar a existência do tempo:

“Time does not exist: it is necessary to learn to think about the world in non-temporal terms. This is difficult, because we are accustomed to thinking about time as something in itself, which is flowing.”

Sobre o seu posicionamento teórico, a Gravidade Quântica em Loop, fiquei apenas a saber que a teoria não tem ainda a capacidade preditiva necessária para descrever o Universo e ele mesmo não parece muito convencido da sua virtude, embora a prefira à Teoria das Cordas:
“There are various reasons for which I do not like string theory. One is that the theory predicts an enormous amount of stuff, for which there is no evidence: many extra dimensions, super-symmetric particles, new exotic kinds of particles. Experimental evidence for all this has been searched, but without any positive result. Second, I think that string theory fails to incorporate the true discovery of general relativity: namely the fact that spacetime is just a field.”

Lógico. Se preferisse a Teoria das Cordas trabalharia nela, suponho. E quanto a evidências empíricas, e segundo este livro, a Gravidade Quântica em Loop não está melhor, o que lhe suscita dúvidas salutares, as quais, no entanto, não reforçam nem validam as suas opções teóricas:
“but on the other there is the frustration of the risk of working a whole life on theories that in the end might turn out to be wrong.”


Vou baixar amostras gratuitas dos seus outros livros, na esperança de que sejam mais esclarecedores do que este. Que é uma grande desilusão.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

No jornal Tornado

Invernias

Aí pelos meus cinquenta anos, sentindo a aproximação inexorável do inverno da vida, escrevi “Invernia”, que viria a fechar o romance Entre Cós e Alpedriz:
Invernia

Badaladas do sino
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa

Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?

Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração

Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma

Lá, onde corre a fresca regueira
onde nasce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão


O sino dobra novamente a finados...

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O Drácula

No segundo ano do meu estágio, então chamado Profissionalização em Exercício, chegaram vários colegas de outras escolas. 
Um deles, alto, magro, camisa sem colarinho, longo sobretudo preto, olhar esgazeado, pose de génio, foi logo alcunhado por um de nós: Drácula.
Incompreendido por todos nós,  exceptuando uma outra estagiária, do seu grupo disciplinar, a quem apalpava as coxas nas reuniões, seduzida pela “linguagem do Mestre” — era assim que se lhe referia — pois o nosso Drácula respirava Lacan, arrotava Lacan, tratava-nos, tanto a nós, colegas de estágio, como aos orientadores, com tal sobranceria que me lembro de ouvir um dizer-lhe que, de cada vez que abria a boca, era para nos chamar burros.
Num seminário em que ele arengava interminavelmente, insuportavelmente, um orientador, baixo, obeso, que sempre dormia nas reuniões após o almoço, desculpado pelos seus pares com  problemas cardíacos de que efectivamente sofria e cedo haveriam de o vitimar, interrompeu o forte roncar e, ouvindo o Drácula a proclamar, deliciado com o efeito de choque da boutade, que todos nós temos três pais, resmungou alto:
— Só se és tu!
Ruidosa gargalhada geral quebrou o formalismo, desvaneceu o enfado e enfureceu o distinto orador.

Mas os alunos conheciam-no por outra alcunha. “O professor do c*”.
Isto porque, na aula de apresentação, incomodado com a entrada às pinguinhas da turma, berrou para um dos retardatários com o seu sotaque cerrado do Porto:

— Olha lá, pá, que c*ralho de turma é esta?